* Bento XVI e o declínio do Ocidente em crise.

Sim, existe aquela história do preservativo. Sem contar algumas exceções, a “grande” imprensa internacional tomou só essa passagem, do último livro do Papa. Duas páginas em um total de 276.

A reportagem é de Jérôme Anciberro, publicada na revista Témoignage Chrétien, 05-12-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Em uma coletiva de imprensa ocorrida em Roma no dia 23 de novembro Peter Seewald, o jornalista que fez a entrevista com Bento XVI, não escondeu o seu desapontamento e a sua preocupação com relação à capacidade dos seus colegas ao tratar da informação religiosa e de tudo o que se refere ao Vaticano e ao Papa.

O fato é que “Luz do mundo” aborda um grande leque de temas que vão bem além do problema de saber em quais circunstâncias é oportuno usar ou não um preservativo. Uma primeira finalidade desse livro é justamente oferecer ao leitor que não tem necessariamente o tempo de acompanhar a produção do Papa dia após dia uma espécie de síntese muito acessível do seu pensamento sobre o mundo e sobre a Igreja de hoje.

Todos os problemas “quentes” são abordados ali: posições da Igreja em questão de sexualidade, contracepção, escândalo da pedofilia entre os padres, ordenação de homens casados ou de mulheres, divorciados recasados, a questão Pio XII, o estado do diálogo ecumênico e inter-religioso, tradicionalismo, liturgia…

Não se encontrará nas respostas do Papa a esses problemas nenhum furo jornalístico nem uma revelação revolucionária, mas sim resumos ou indicações sucintas de posições já conhecidas e muitas vezes amplamente desenvolvidas em outras ocasiões, particularmente em textos oficiais do pontificado ou em certos discursos ou homilias. Para serem discutidos e criticados – coisa que algumas organizações não deixaram de fazer, particularmente sobre Pio XII ou sobre a homossexualidade –, mas certamente não para se admirar a respeito, nem positiva nem negativamente.

Nessa perspectiva crítica, se poderá, por exemplo, notar uma tendência do Papa a invocar o “mistério”, de Deus ou da Igreja, o que lhe permite liquidar rapidamente certos problemas sobre os quais, porém, mostrou-se recentemente particularmente ativo. Por exemplo, pelo escândalo da pedofilia. O padre Maciel, fundador dos Legionários de Cristo, cuja vida íntima se verificou ser particularmente desregulada, é, por exemplo, definido muito simplesmente como “personagem misterioso”… “Luz do mundo”, porém, é algo mais do que uma simples entrevista jornalística sobre os temas “quentes”, ou até sobre certos grandes conceitos religiosos raramente abordados pela imprensa, por exemplo, no último capítulo do livro, os fins últimos da humanidade e do mundo.

O leitor, de fato, ficará impressionado com o tom extremamente grave das passagens dedicadas ao estado intelectual e espiritual do Ocidente. Sobre esse ponto, Peter Seewald está ainda mais preocupado do que o seu interlocutor, e o Papa às vezes parece buscar elevar a sua moral, por exemplo, lembrando-lhe que o cristianismo é florescente fora do Velho Continente.

Mas a sua grade de leitura fica clara: o Ocidente vive atualmente uma crise espiritual profunda cujas consequências são muito concretas (acumulação das riquezas por parte de uma minoria, destruição do planeta, perda dos pontos de referência éticos…), e cuja causa é também muito simples: o esquecimento da palavra de Deus, enquanto triunfaria uma nova religião, a do relativismo. O Papa volta sobre essa ideia mais de uma vez: “É urgente que o problema de Deus retome um lugar central”. Por isso a necessidade, segundo ele, de trabalhar por uma nova organização. Porque se o clima cultural ocidental ainda é cristão, esse dado não deve mais ser considerado como óbvio.

De dado cultural a priori, o cristianismo está se tornando, portanto, um “cristianismo de escolha” que convida certamente à esperança, mas principalmente à ação.

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