* Terrorista da Noruega é um “cristão cultural” de tradição luterana e sua ideologia não se inspira no cristianismo.

Vatican Insider

Cristão, mas ao mesmo tempo maçom. Animado por um profundo ódio ao Islã, mas admirador da Al Qaeda, tanto que escreveu: “se o profeta Maomé estivesse vivo hoje,Osama Bin Laden seria seu segundo”.

A ideologia que emerge do mastodôntico e delirante “manifesto” (“2083. Uma declaração de independência europeia”) que a polícia norueguesa atribuiu ao autor do massacre de Oslo, Anders Breivik (de 32 anos), é seguramente contraditória.

No entanto, seu gesto faz perguntar se está nascendo no continente europeu, assim como aconteceu nos Estados Unidos, uma extrema direita violenta com conotações fortemente religiosas, como a que levou Timothy McVeight em 1995 a organizar o atentado de Oklahoma City.

O terrorista de Oslo, de fato, se definiu como “cristão” e “conservador” em seu perfil noFacebook.

Além disso, o movimento que “Andrew Berwick” (como Breivik assina escrevendo seu nome em inglês) anuncia ter fundado em Londres em 2002, toma o nome dos “Pauperes commilitones Christi Templique Solomonici” (Pobres Cavaleiros de Cristo, ou seja, os Cavaleiros Templários). O papel de seu grupelho seria o de ser “a árvore predileta (“plum tree”) da Europa e da cristandade”, justamente como “os combatentes da jihad são a árvore predileta da Umma”.

Entretanto, segundo alguns especialistas consultados pelo Vatican Insider, não há sintomas do nascimento de uma extrema direita violenta com conotações fortemente religiosas, embora indiquem que não se pode menosprezar as consequências dos tons violentos que às vezes os debates sobre o islã e a imigração assumem.

Para Vebjørn Horsfjord, ex-secretário-geral do European Council of Religious Leaders/Religions for Peace (organização internacional com sede justamente em Oslo que busca promover a paz e a dignidade humana mediante a força da fé), mesmo que se Breivik se identifique como um cristão,sua ideologia não parece se nutrir com conceitos cristãos”. Ao contrário, explica, pertence “a uma onda de ideologia fortemente anti-islâmica e anti-migrante que encontra seus seguidores entre os conservadores cristãos ou seculares”.

Horsfjord, que ensina Estudos Inter-religiosos na Faculdade de Teologia de Oslo, prefere não relacionar muito o terrorista com o crescimento dos movimentos de extrema direita no continente europeu, onde, em alguns casos, como os da Hungria, Holanda ou Dinamarca, formam parte dos governos.

Entretanto, acrescenta, chegou a hora de “se perguntar” se os “tons ásperos” dos debates sobre as relações inter-religiosas, a imigração e o multiculturalismo não tenham feito crescer “ideias perigosas em algumas mentes doentias”.

Embora Breivik tenha se definido como cristão, “não existem provas de que pertencera a um grupo cristão ou a alguma Igreja”, destacou Brent Nelsen, professor de Ciências Políticas na Furnam University dos Estados Unidos.

Nelsen estudou as relações entre a religião e a política na Europa e conhece a fundo o caso da Noruega, país ao qual dedicou dois livros. Segundo sua opinião, ao contrário do que acontece nos Estados Unidos, os extremistas da direita europeia “dizem que estão vinculados ao cristianismo, mas não mostram ser muito religiosos”. Em suma, seus motivos são mais políticos que religiosos e é preciso estar atento antes de classificar os atentados de Oslo como “terrorismo cristão”.

O sucesso da extrema direita na Europa, com a consequente aproximação do poder e do “mainstream” político, pode ter contribuído para que pessoas como Breivik se radicalizassem: “O Partido do Progresso de que fazia parte – explica Nelsen – tornou-se mais moderado recentemente… Breivik fazia parte, mas parece ter perdido a confiança porque o partido foi adotando pouco a pouco uma postura mais central”.

Massimo Introvigne, sociólogo italiano e representante da Ocse (Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa) para a luta contra o racismo e a discriminação dos cristãos, afirma que na mentalidade de Breivik é possível identificar a influência do blogger norueguês Fjordman, “verdadeiro pai espiritual do terrorista, do qual cita um texto que diz que depois da Idade Média o cristianismo (cujos únicos aspectos positivos provinham do paganismo) se converteu em uma ameaça maior que o marxismo para a Europa”.

Os Cavaleiros Templários são um movimento que aceita “cristãos, cristãos agnósticos e ateus cristãos”, ou seja, todos aqueles que reconhecem a importância das raízes culturais cristãs, “mas também hebréias e iluministas”, além das “nórdicas e pagãs”, para se opor aos verdadeiros inimigos que seriam o islã e o a imigração.

“Longe de ser um fundamentalista cristão – segundo Introvigne – Breivik, batizado em uma Igreja Luterana norueguesa, se define como uma cristão cultural, cujo apelo à herança cristã tem uma função instrumental anti-islâmica”.

As Igrejas, segundo ele, não estão dispostas a combater contra o islã, razão pela qual propõe um congresso cristão europeu do qual nasça uma Nova Igreja Europeia anti-islâmica. E ameaça discretamente o Papa Bento XVI, sobre quem escreveu: “abandonou o cristianismo e os cristãos europeus, e tem que ser considerado um papa covarde, incompetente, corrupto e ilegítimo”.

Segundo Introvigne, seria preciso levar a sério as ameaças contra a Itália e contra o Papa caso se descobrisse que “a ordem dos neo-templários não se reduz a uma só pessoa, mas que compreende outras – que, segundo o texto, teriam sido treinadas na África e em outras partes por criminosos de guerra sérvios, que o terrorista considera como heróis”.

Embora as conotações religiosas sejam instrumentais e vagas, não se deve menosprezar o perigo que os movimentos de extrema direita encerram. Tanto aqueles de caráter autoritário como os de caráter anárquico, segundo Nelsen, podem alimentar-se da “fragilidade das comunidades religiosas que contribui para o sentido geral de isolamento” na sociedade.

O cenário “faz recordar o dos anos 1920”, quando “a democracia parecia incapaz de resolver os problemas” e as pessoas buscavam alternativas em movimentos violentos. “A extrema direita poderá tornar-se violenta como a esquerda radical dos anos 1970 e 1980”. Mas “a Europa – acrescenta – sobreviveu àqueles atentados e conseguirá sair destes ataques mortais”.

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