* Igreja católica fecha acordo com governo da Bolívia.

Vatican Insider

Novo e histórico rumo na Bolívia: a Igreja católica pode nomear os professores de religião das escolas públicas.

A Igreja católica e o Estado boliviano chegaram a um acordo no setor da educação: o governo reconhece a estrutura educacional da Igreja católica, por meio das delegações das jurisdições e dos centros educacionais da Igreja.

A origem do acordo deve ser buscada na natureza particular do catolicismo na Bolívia. “A teologia boliviana segue, por um lado, as linhas comuns de todo o continente, mas as representa nos contextos culturais e sociais do país”, explica o Padre Victor Codina, jesuíta espanhol que vive desde 1982 na Bolívia, quando pediu para ser enviado a este país após a morte do também jesuíta Luis Espinal (um dos teólogos da libertação latino-americanos mais conhecidos).

Atualmente, pela primeira vez em muito tempo, a Bolívia suscita interesse em nível internacional, porque tem um presidente indígena: Evo Morales.

O padre Codina assinala: “Morales participou, em 1990, de um Congresso de Missionários de Sucre, onde falou da relação com as culturas. No fundo, suas grandes aspirações (construir um mundo sem injustiças, sem exclusão, sem corrupção, que os indígenas tenham voz, que haja assistência sanitária, que não haja analfabetas, a recuperação dos recursos naturais) estão de acordo com o Reino”. Portanto, “a Igreja o apoiava porque ia na mesma linha que o Evangelho”.

Mas foram cometidos muitos erros: “prepotência, corrupção, autoritarismo, um certo racismo, um espírito de revanche que está provocando divisões no país, enfrentamentos, falta de diálogo, paralisia na Assembleia Constituinte”. O presidente teve também conselheiros muito radicais, como o ex-ministro da Educação, Félix Patzi, e isto fez com que muitos setores da Igreja tenham mantido distância.

Começaram a circular palavras de ordem, tais como: “Evo comunista”, “Detenhamos Cuba”, “Expulsarão os missionários estrangeiros”, “Fecharão os colégios confessionais e os hospitais”, “Amigo de Chávez e de Fidel”. E a homenagem a Che Guevara, por ocasião do 40º aniversário de sua morte, não agradou os militares que o combateram.

Em um muro, no qual alguém escreveu “Cristo chega e já é presidente”, depois de alguns meses apareceram outras frases, tais como: “Evo AntiCristo”, “Evo, vai embora!”.

Mas o diálogo entre Igreja e sociedade é intenso e revela com exatidão o que o vaticanista norte-americano John Allen escreveu há algum tempo: o catolicismo em toda a América do Sul, e de maneira particular na Bolívia, aumenta sua influência de maneira incessante: “Em toda a América Latina, o aumento dos candidatos ao sacerdócio foi, nos últimos 25 anos, de quase 440%, segundo as estatísticas recolhidas no Religion in Latin America pelo sacerdote dominicano Edward Cleary, do Providence College”.

E há ainda mais: “Na Bolívia, os candidatos ao sacerdócio em 1972 eram 49. Trinta anos depois, são 714, 1.357% a mais”. Disse o padre Codina: “Existe uma reflexão sobre o diálogo intercultural, na qual se comprometeram particularmente os religiosos de Maryknoll, que têm um centro de missiologia e alguns jovens teólogos bolivianos, como Jubenal Quispe.

Em Cochabamba, encontra-se o Instituto de Missiologia do Instituto Superior de Estudos Teológicos da Universidade Católica Boliviana, cujo diretor é o padre Roberto Tomichá, um franciscano conventual boliviano muito competente, que escreveu sua tese de doutoramento sobre as missões jesuítas de Chiquitos e trabalha seguindo a mesma linha com seu instituto”.

Além disso, “um jesuíta falecido há pouco tempo, o padre Gabriel Siquier, trabalhou durante anos em Charagua no diálogo entre teologia católica e teologia guarani, enquanto outro jesuíta, o padre Enrique Jordá, elaborou uma reflexão com elementos do Oriente Boliviano. Ele já havia escrito uma tese intitulada “Teologia de Titikaka”, mas após ter transcorrido estes 20 anos na zona oriental, talvez seja a pessoa com uma visão mais completa, porque uniu o mundo andino e o amazônico”.

O acordo entre a Igreja católica e o Estado permite à Igreja a nomeação do pessoal das instituições educativas que dependem dela, para garantir a identidade destes centros. Do mesmo modo, o Estado reconhece à Igreja o direito de nomear os professores de religião dos centros de ensino público no caso de as famílias solicitarem uma educação religiosa católica.

O acordo foi assinado no dia 28 de novembro pelo secretário geral da Conferência dos Bispos da Bolíviadom Óscar Aparicio, e pelo ministro da Educação Pública,
Roberto Aguilar, representando o Estado

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