* Qual a influência da dimensão religiosa na politica? Estudo americano analisa questão.

Por Pe. John Flynn, L.C.

Nos últimos anos, a religião chegou a ser considerada um problema ou uma ameaça para a segurança nacional ou internacional. Uma estratégia para combater o extremismo religioso foi tentar reduzir a fé ao âmbito meramente privado. Isso é um grande erro, segundo o estudo publicado a 23 de fevereiro pela Chicago Council on Global Affairs.

O estudo, Engaging Religious Communities Abroad: A New Imperative for U.S. Foreign Policy (“Comprometer-se com as Comunidades Religiosas no Exterior: Um Novo Imperativo para a Política Externa dos Estados Unidos”), tem como autores membros de um grupo trabalho de 32 especialistas, que vão desde antigos funcionários do governo até líderes religosos, presidentes de organizações e acadêmicos internacionais.

Os autores do estudo afirmam que o governo dos Estados Unidos não tem capacidade de entender completamente e nem sabe lidar de maneira eficaz com as comunidades religiosas. Houve progressos nos últimos anos no reconhecimento sobre o papel da religião nos assuntos mundiais, mas esse processo está longe de completar-se.

Seja bem ou mal, a religião desempenha um papel cada vez mais influente na política, observou o estudo. A tendência à globalização com novas tecnologias de comunicação facilitou a difusão dos pontos de vista extremistas.

O estudo chama o governo dos Estados Unidos não somente a melhorar seu conhecimento das comunidades e tendências religiosas, mas também a desenvolver melhores políticas para entrar em contato com os crentes.

É importante perceber que a religião não é uma espécie de experiência humana secundária sem relação alguma com os desdobramentos políticos e que, portanto, possamos ignorar. “A religião – através de suas ideias motivadoras e o poder mobilizador de suas instituições – conduz a política por direito próprio”, indicava o estudo.

Também advertia contra uma visão da religião somente através do foco de terrorismo, que seria negligenciar o papel positivo da religião ao tratar os problemas globais e promover a paz.

O estudo ainda observou que é preciso ir além do mundo muçulmano e levar em conta outras comunidades religiosas.

Global

Embora, quando se trata do vínculo entre religião e política, muitas vezes a atenção é concentrada sobre o Oriente Médio, o estudo observa que a religião é um fator levado em conta em muitos países.

Na China, por exemplo, existem novos movimentos religiosos nativos, como Falun Gong, um setor em expansão de igrejas cristãs e comunidades muçulmanas legais e clandestinas.

Os monges budistas justificaram, e promoveram, o conflito contra a comunidade tâmil no Sri Lanka, assim como se manifestaram contra o regime repressivo da Birmânia. Existem tensões entre cristãos e muçulmanos na Nigéria e Indonésia, mas também em cidades europeias como Londres, Amsterdã e Paris.

Na Índia, os debates políticos são frequentemente influenciados por visões diversas do hinduísmo e a correspondente relação dos hindus com outras comunidades étnicas e religiosas.

O aumento do pentecostalismo na América Latina e de igrejas cristãs e dos pregadores na África e Ásia são outros importantes desdobramentos religiosos que exigem atenção, diz o estudo.

Ainda que a religião tenha promovido conflitos sangrentos em países como a Bósnia e o Sudão, também promoveu paz e o perdão na África do Sul e na Irlanda do Norte. Além dos extremistas religiosos, existem outras figuras, como o Papa João Paulo II e o Dalai Lama, observava o estudo.

“Os muitos exemplos de contribuições religiosas para a democratização e de líderes religiosos que ajudam a proporcionar assistência externa, põem em execução programas de desenvolvimento e a construção da paz são emblemáticos. A religião pode desempenhar um papel positivo em qualquer parte do mundo”, afirma o grupo de trabalho.

Padrões

Os membros do grupo de trabalho identificaram seis padrões principais no papel da religião nos assuntos internacionais.

– A influência dos grupos religiosos – alguns antigos e outros novos – está aumentando em muitas partes do mundo e afeta praticamente a todos os setores da sociedade.

– As mudanças nas características de identificação religiosa no mundo têm significativas implicações políticas.

– A religião se beneficiou e se transformou com a globalização, mas também chegou a ser um dos meios primários a organizar oposição à mesma.

– A religião desempenha um papel público importante, nos lugares em que os governos carecem de capacidade e legitimidade em momentos de tensão econômica e política.

– A religião está sendo usada pelos extremistas como um catalisador de conflitos e um meio para aumentar as tensões com outras comunidades religiosas.

– A crescente relevância da religião hoje tem aprofundado o significado político da liberdade religiosa como direito humano universal e fonte de estabilidade social e política.

Mais especificamente, o estudo assinalou que essas tendências podem apresentar desafios na tomada de decisões políticas. Por exemplo, enquanto os Estados Unidos apoiam a difusão da democracia, em alguns países a introdução de eleições populares daria mais poder aos extremistas religiosos que tendem a ter pontos de vista antiamericanos. Assim, segundo o grupo de trabalho, deve haver uma conciliação entre a promoção dos direitos humanos, democracia e a proteção dos interesses nacionais.

O estudo afirma também que é necessário que a promoção da liberdade religiosa, como parte da política externa dos Estados Unidos, seja conduzida de forma que não seja vista como uma espécie de enfrentamento da sociedade ocidental às religiões e costumes locais.

Recomendações

Ao tratar do papel da religião nos assuntos públicos, o estudo diz que a melhor forma de combater o extremismo é através de um maior compromisso com a religião e com as comunidades religiosas.

Isso significa escutar atentamente as preocupações e medos que têm e, em seguida, iniciar um diálogo significativo com elas. É importante não intervir em disputas teológicas ou tentar manipular a religião, adverte o grupo de trabalho.

O estudo reconhece que uma das coisas mais importantes que os Estados Unidos devem fazer é aprender a se comunicar de modo eficaz. Portanto, além de ouvir o que as comunidades religiosas têm a dizer, é necessário tornar o governo mais eficaz em apresentar os pontos de vista norte-americanos. Também é vital ter em mente que as ações falam mais alto que as palavras.

Entre as medidas propostas no estudo está a necessidade de dar uma formação compreensiva aos diplomatas, militares e outros funcionários sobre o papel da religião nos assuntos internacionais.

O estudo também recomenda que os Estados Unidos continuem promovendo a liberdade religiosa. “As limitações impostas à liberdade religiosa debilitam a democracia e a sociedade civil, envenenam o discurso político e incentivam o extremismo”, comentava o grupo de trabalho.

Cooperação saudável

O papel da religião na política foi abordado por Bento XVI em seu discurso aos membros do corpo diplomático no dia 11 de janeiro.

“Infelizmente, em alguns países, especialmente os ocidentais, difunde-se em âmbitos políticos e culturais, assim como nos meios de comunicação, um sentimento de baixa estima, e às vezes de hostilidade, para não dizer desprezo em relação à religião, em particular a religião cristã”, comentava o Papa.

O pontífice afirmava que “é evidente que, se o relativismo é considerado um elemento essencial da democracia, corre-se o risco de conceber a laicidade só em termos de exclusão ou, mais precisamente, de rejeição da importância social do fato religiso”.

Tal postura, no entanto, só cria confronto e divisão, apontava o Papa. “É urgente definir uma laicidade positiva, aberta e que, fundada em uma justa autonomia da ordem temporal e da ordem espiritual, promova uma saudável colaboração e espírito de responsabilidade partilhada”. Uma colaboração que beneficiará muito os esforços para promover a paz no mundo.

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