Olivier Roy  é professor de ciência política no Instituto Universitário Europeu de Florença. Em seu último livro, o cientista político explica a relação complexa que a Europa tem hoje com o cristianismo.

Ainda se pode falar de uma Europa cristã?

A Europa continua a perceber-se como cristã. Mas a secularização levou a uma profunda descristianização. Desde 1968, a Europa experimenta uma importante mudança antropológica que separa profundamente os valores da sociedade daqueles do cristianismo. A verdadeira descristianização não é tanto o colapso da prática quanto a referência a uma nova antropologia centrada no desejo individual, totalmente contrário ao cristianismo. Por outro lado, e é o verdadeiro paradoxo, em todos os países, com exceção da Inglaterra, a maioria dos europeus continua a se definir cristã. Mas isso não tem mais nada a ver com fé. Pelo contrário, há uma total ignorância dos elementos básicos do cristianismo.

O discurso sobre a identidade cristã não seria um sinal de um retorno do religioso?

Minha tese é que aqueles que reivindicam para si uma identidade cristã sem se referir aos valores cristãos acelera a descristianização. Precisamente aqueles que querem promover as raízes cristãs não pregam absolutamente um retorno à fé, eles mesmos não são praticantes. Isso não tem nada a ver com a religião. Os defensores do populismo estão muito longe dos valores cristãos, eles também são filhos dos movimentos de 1968. O populismo de hoje não é um retorno à ordem moral. Se retoma elementos da cultura católica é para se opor ao Islã. Isso levou os episcopados, italiano, polonês ou alemão, a se distanciarem dos partidos que pediam, por exemplo, que fossem recolocados os crucifixos em lugares públicos. E, em definitiva, sua expulsão do espaço público como religião.

Mas a religião não precisa de uma relação com a cultura?

Sim. E hoje, a distância entre a comunidade de fé e a cultura é grande, é um divórcio. Bento XVI e João Paulo II foram muito claros sobre isso. E, no entanto, a Igreja Católica continua a valorizar essa relação entre cultura e fé. Hoje na Europa se vive uma crise cultural muito mais que uma crise religiosa. E algumas religiões, como o salafismo e o evangelismo, exploram essa desculturação geral. O divórcio da cultura é muito mais doloroso para o catolicismo. Diante dessa cultura que se tornou tão estranha para ele, seu problema é saber como se situar na sociedade.

Os europeus precisam de referências morais. Eles não precisam de um guia. Estamos em uma sociedade em que não há mais debate sobre valores, mas apenas sobre normas, de maneira conflituosa. Mas o ser humano não pode prescindir de valores espirituais

Você indica três possíveis atitudes: o fechamento sobre si mesmo, a luta política ou o retorno a determinados valores.

A minha experiência italiana permitiu-me discutir com os responsáveis de comunidades católicas de leigos, como Sant’Egidio, os Focolares ou Comunhão e Libertação. Eles não negam ter se tornado uma minoria na Itália. Mas, e nisso seguem o ensinamento do Papa Francisco, explicam que o catolicismo deve parar de intervir no âmbito da normatividade, da lei. Em vez disso, deve proclamar em voz alta os valores.

A “reconquista religiosa” não é possível. Porque passaria por uma revisão das normas (aborto, casamento homoafetivo, etc.) e só pode fazer isso baseando-se nos populistas. Mas, como eu disse, estes últimos podem aceitar uma aliança estratégica, mas quanto às normas eles também são filhos dos 1968, e não voltarão atrás. Dizendo isso de forma mais cínica: a Igreja Católica não está mais em condições de impor a norma. Se a impuser, será com a intermediação dos populistas que desacreditarão a mensagem.

Em meu livro cito o padre Paolo Dall’Oglioque encontrei dois meses antes de seu desaparecimento e que me impressionou muito. Ele me disse: “Não devemos parecer como legisladores, devemos parecer como profetas”. Os europeus precisam de referências morais. Eles não precisam de um guia. Estamos em uma sociedade em que não há mais debate sobre valores, mas apenas sobre normas, de maneira conflituosa. Mas o ser humano não pode prescindir de valores espirituais. Quando se esquece a transcendência do debate público, se corre o risco de ela voltar pela janela sob formas perigosas: niilismo (teoria apocalíptica, transumanismo) ou radicalismo religioso violento.

No final do livro, você defende a necessidade de que as sociedades europeias e os valores cristãos sejam reencontrados.

Precisamos repensar o projeto europeu em toda a sua genealogia. São na maioria os cristãos que fundaram a União Europeia. Não é uma questão de retornar a um cristianismo de fachada, mas a um determinado espírito do cristianismo. A Igreja deve retomar o magistério moral e não propor um programa para legisladores. Não deve fazer “lobby” político.

Fonte: La Croix, 11-01-2019.

A Igreja no Brasil conta, atualmente, com 480 bispos. Eles podem ser divididos a partir de suas diversas formas de vinculação às Igrejas Particulares ou condições definidas no Código de Direito Canônico. A partir desta classificação, chega-se ao número de membros da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB): 307.

O levantamento cruza os dados disponíveis na Secretaria Técnica da CNBB com a pesquisa contínua do chefe do Departamento de Ciência da Religião da Pontifícia Universidade de São Paulo (PUC-SP), professor Fernando Altemeyer Junior.

Bispos do Brasil

São 78 arcebispos metropolitanos no Brasil, que podem ser divididos em quatro grupos: os cardeais arcebispos na ativa (3), os cardeais arcebispos eméritos (6), os arcebispos metropolitanos (42) e os arcebispos eméritos (27).

Os bispos diocesanos são 399 (261 na ativa e 138 bispos eméritos). Estão assim divididos de acordo com suas funções: 203 bispos diocesanos de rito latino, 2 bispos das eparquias orientais (ritos maronita e ucraniano), 1 exarca apostólico de toda América Latina do rito armênio presente em Buenos Aires e São Paulo, 45 bispos auxiliares, 1 coadjutor e 9 prelados, que são os bispos das prelazias.

Entra na contagem o bispo responsável pela administração apostólica pessoal São João Maria Vianney, dom Fernando Arêas Rifan, cuja circunscrição eclesiástica não tem caráter territorial, como as dioceses. Será ainda contabilizado o recém-nomeado para a diocese de União da Vitória (PR), monsenhor Walter Jorge Pinto, quando receber a ordenação episcopal.

Já são 139 bispos eméritos no Brasil, além dos arcebispos eméritos citados acima. Estão assim distribuídos: 119 bispos diocesanos eméritos, nove bispos auxiliares eméritos, um eparca e dez prelados eméritos.

CNBB

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil está estruturada de acordo com as normas do Código de Direito Canônico. Assim, fazem parte da CNBB todos os bispos diocesanos do território e os equiparados em direito, como coadjutores, os auxiliares e os outros bispos titulares “que no mesmo território exercem um múnus peculiar que lhes foi confiado pela Sé Apostólica ou pela Conferência episcopal”, lê-se no cânon 450 do CDC. De acordo com as normas da Igreja, podem ser convidados ainda para a Conferência Episcopal os Ordinários de outro rito, como é o caso dos eparcas, exarcas dos ritos armênio, maronita, ucraniano e oriental.

No caso dos bispos eméritos, são considerados “membros convidados ou honorários”, uma vez que participam de atividades da conferência, como a Assembleia Geral, com direito a voz, mas não a voto.

Desta forma, são os 307 membros efetivos da CNBB: os 3 cardeais arcebispos (dom Odilo Pedro Scherer, dom Orani Tempesta e dom Sergio da Rocha), os 42 arcebispos metropolitanos, os 261 bispos diocesanos e o bispo da administração apostólica pessoal São João Maria Vianney.

Religiosos e diocesanos

Professor Altemeyer ainda contabiliza a origem dos bispos, se diocesanos ou religiosos: “os bispos oriundos do clero diocesano são 282 pessoas, ou seja, 59% do episcopado. E os que pertenceram a uma ordem ou congregação de vida consagrada são 197 pessoas, ou seja, 41% do episcopado brasileiro”.

Fonte: CNBB