O caso mais famoso é o de Asia Bibi. A mulher católica, esposa, mãe de cinco filhos, foi condenada a morrer enforcada porque bebeu água de um poço do seu próprio vilarejo, foi acusada por um grupo de mulheres muçulmanas de tê-la contaminado simplesmente por ser cristã, questionou a fé islâmica das suas acusadoras diante desse disparate e foi assim denunciada por “blasfêmia”.

Ela passou quase dez anos presa, os últimos dos quais numa cela fria e mal iluminada do corredor da morte, sem saber o dia nem a hora em que, a qualquer momento, poderia ser assassinada. Diante de uma repercussão inusual no exterior, fomentada com grande empenho por grupos cristãos que tiveram a coragem de não se calar, a Corte Suprema do país revogou no final do ano passado a sua condenação à morte. Mas ela teve de abandonar a própria nação, com a família, para não acabar assassinada pela horda de fanáticos que queriam vê-la executada de qualquer maneira.

Asia Bibi está longe, porém, de ser a única pessoa vitimada pela famigerada “lei antiblasfêmia” que vigora desde 1986 no Paquistão e que, desde então, já impôs o seu peso espantoso e aberrantemente injusto sobre as costas de nada menos que 224 cristãos. Os dados vêm de Cecil Shane Chaudhry, diretor executivo da Comissão Nacional de Justiça e Paz (NCJP) do Paquistão, entrevistado pela Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (ACN, pela sigla em inglês adotada internacionalmente).

O processo de Asia Bibi chegou a uma resolução positiva, mas outros 23 cristãos foram executados sob a acusação genérica de “blasfêmia” entre 1990 e 2017. Ainda há 25 cristãos em julgamento, segundo estudo da NCJP apresentado à ACN.

A lei antiblasfêmia

Dois parágrafos (B e C) da Seção 295 do Código Penal paquistanês dão pé às amplas e subjetivas interpretações que constituem a assim chamada “lei antiblasfêmia”:

  • 295B: estipula prisão perpétua para quem profanar o Alcorão;
  • 295C: condena à morte quem é acusado de insultar o profeta Maomé.

A lei chega a ser usada até mesmo contra os próprios muçulmanos como respaldo jurídico para desavenças que nada têm a ver com religião.

Cecil Chaudhry observa:

“A lei antiblasfêmia é uma ferramenta poderosa que os fundamentalistas podem usar em detrimento das minorias. Muitas vezes, essa lei é mal utilizada como meio de vingança pessoal. E quando as acusações são feitas contra os cristãos, toda a comunidade sofre as consequências”.

Foi o caso, por exemplo, em março de 2013, no distrito cristão Joseph Colony, da cidade de Lahore, quando o jovem cristão Sawan Masih foi acusado insultar Maomé. Quem recorda é o pe. Emmanuel Yousaf, presidente da NCJP, em depoimento à ACN:

“No dia 9 de março, depois das orações da sexta-feira, uma multidão de 3.000 muçulmanos incendiou todo o distrito. Foram destruídas quase 300 casas e duas igrejas”.

Os 83 instigadores do ataque incendiário foram todos libertados, mas o jovem Sawan Masih foi condenado à morte em 2014 e ainda aguarda recurso. Seu advogado, Tahir Bashir, comenta:

“As audiências estão sendo constantemente adiadas. A última foi agendada para 28 de janeiro, mas o juiz não compareceu. Enfim, a nova data da corte está marcada para 27 de fevereiro”.

“Testemunhas” nem sequer estavam presentes

Assim como o caso de Asia Bibi, o de Sawan está repleto de irregularidades. As acusações contra ele foram feitas por um de seus amigos muçulmanos, Shahid Imran, após uma discussão entre eles. Só dois dias depois é que apareceram duas “testemunhas”, que, na realidade, nem sequer estavam presentes no momento em que Maomé teria sido, supostamente, insultado. O pe. Yousaf declarou à ACN:

“As acusações contra Sawan estão sendo instrumentalizadas. A verdadeira motivação por trás disso é uma tentativa de expulsar os cristãos do distrito da cidade, que se tornou muito popular porque fica perto das metalúrgicas”.

A esposa de Sawan, Sobia, está criando os três filhos sozinha.

“Eu não sei por que eles acusaram meu marido. Só sei que o homem que o denunciou era um amigo dele com quem ele tinha discutido. Sawan é inocente”.

Enquanto isso, no Ocidente, governos, meios de comunicação e principalmente as autoproclamadas “organizações de defesa dos direitos humanos” fingem que estes fatos não existem ou não são merecedores da sua seletiva “preocupação”.

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 Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (ACN)

Ruínas de Arquata del Tronto depois do terremoto, foto de 2 novembro 2016

A igreja de Santa Maria Assunta, na cidade de Arquata, Itália, foi destruída pelo terremoto de 2016. Tudo desabou e os restos, inclusive obras de arte, foram dados por perdidos, conta o jornal italiano “Avvenire”.

Um ano e meio depois da calamidade, uma equipe de carabinieri, gendarmaria italiana, especializada em bens culturais, comunicou que havia resgatado o tabernáculo e o conservava em custódia e que queria restitui-lo à diocese. Aconteceu então a surpresa que evocou o milagre eucarístico de Siena de 1730.

Dentro do tabernáculo do século XVI, encontraram a píxide bem fechada, embora derrubada, e quarenta hóstias perfeitamente conservadas dentro dela.Tinham passado um ano e meio no abandono, mas estavam pasmosamente íntegras, sem nenhum sinal de mofo ou alteração de espécie alguma.

As hóstias encontradas em perfeito estado na píxide. “Percebia-se ainda o cheiro das hóstias novas. É como se Jesus tivesse sido engolido pelo terremoto e saído vivo dentre as ruínas”, comentou o bispo de Ascoli Piceno, a diocese da paróquia.

Ruínas de Arquata del Tronto depois do terremoto, foto de 2 novembro 2016

O Pe. Angelo Ciancotti, da catedral não conseguia segurar as lágrimas. Ele foi o primeiro em ter a píxide em mãos.

Ele tinha promovido as tentativas de recuperação que só agora foi possível efetivar, retirando o tabernáculo todo golpeado pelos detritos e coberto de pó.

As chaves não deveriam servir mais. Porém, o Pe. Angelo havia conservado uma na esperança de voltar a abrir a casa de Jesus. E essa funcionou imediatamente.

“Na primeira tentativa, o tabernáculo abriu, conta ele. A píxide estava deitada, mas fechada. Nela, o Corpo de Cristo após um ano e meio enterrado, estava perfeito, do ponto de vista da cor, da forma e do odor.

“Não havia nenhuma bactéria ou mofo que pode aparecer em qualquer hóstia depois de semanas enclausurara. Pelo contrário, após um ano e meio, aquelas pareciam ter sido feitas no dia anterior”.

E uma sensação tomou conta das testemunhas: “Ele está presente”.

O terremoto teve uma magnitude de 6.6 no local e atingiu a região de Arquata del Tronto e adjacências em 30 de outubro de 2016 causando imensos danos.

A basílica de Núrsia, erigida no local onde nasceu São Bento foi quase totalmente destruída. Novos tremores de terra acabaram matando em total por volta de 300 pessoas.

“Sim, para mim é um milagre”, disse o Pe. Angelo, para o jornal regional Il Resto del Carlino.

“Quem não tem fé não vai acreditar em nada. O Senhor fez tudo por Si próprio”, comentou o “National Catholic Register” dos EUA.

O sacerdote sabia que as hóstias tinham sido feitas pelas freiras do convento de Santo Onofre e foi tirar a limpo com elas se tinham usado algum tipo de conservante.

“Não, responderam elas, apenas farinha e água”.

Para o Pe. Angelo, foi um “achado prodigioso e inexplicável. (…) Para mim é um milagre e uma mensagem para todos que nos relembra a centralidade da Eucaristia.

“Jesus nos diz: Eu existo e estou convosco. Confiai em Mim.”

Via Ciência confirma Igreja

Autor Josair Bastos via Sempre Família

Quando os pais retiram seus filhos da escola para a prática do homeschooling, eles encontram um grande tesouro: o crescimento humano dos filhos e por consequência o fortalecimento da estrutura familiar como um todo. A presença dos filhos em casa tende a tornar-se prazerosa, e a simples ideia de os matricularem novamente na escola dificilmente retorna à mente.

Elencamos 10 razões para fazer homeschooling.

1 – Flexibilidade

A família pode flexibilizar seu horário de trabalho e atividades, sem se prender ao horário fixo e rígido que os pequenos precisam enfrentar nas escolas. Em tempos de férias ou feriados, os homeschoolers não precisam angustiar-se quanto ao dia de ida ou retorno dos passeios.

2 – Não ser controlado pela escola

Isto significa liberdade para melhor adaptar-se as fases da vida, especialmente na adolescência aonde as mudanças púberes são mais intensas. O estilo homeschooler de viver facilita a vida do jovem proporcionando-lhe tempos mais eficazes de adaptação.

3 – Os pais que escolhem o que os filhos estudam

Desde cedo é percebido as aptidões da criança, que possui tanto a liberdade quanto o incentivo para aprofundar-se em seus estudos de interesse. Não quer dizer que a criança estude somente o que lhe apetece, mas até mesmo o que não lhe agrada pode ser dado de modo mais interessante do que em sala de aula na escola.

Muitas famílias escolhem a educação clássica como base na formação dos filhos.

4- Benefício da educação personalizada

Enquanto nas escolas um professor tende a enlouquecer-se com 30 ou 40 alunos por turma, o homeschooling proporciona educação personalizada, com 1 tutor para 1 aluno. Ou 1 tutor para 2 ou 3 alunos. Essa personalização é tão eficaz que 2 horas de atividades por dia equivalem a mais de 5 horas na escola, onde um único professor divide seu tempo para tentar atender dezenas de alunos.

5- Interação intelectual

Enquanto muitos alunos se envergonham ou temem erguer a mão para fazer perguntas aos professores por causa da timidez ou medo de bullying, em casa a criança é totalmente desinibida para perguntar e discutir os temas estudados.

6- Auto confiança

Se o teu filho tem dificuldades em certas matérias mas se destaca em outras, você pode, aos poucos, estruturar o estudo de acordo com as habilidades que o filho vai demonstrando, ajudando seu filho a ter auto confiança.

7- Legalidade

O Brasil assinou tratados internacionais que garantem a prática do homeschooling.

O Supremo Tribunal Federal suspendeu todos os processos que tratam do ensino domiciliar.

A não regulação do ensino domiciliar é algo positivo, uma vez que a interferência estatal pode ocasionar um intervencionismo educacional que lhe esvaziaria o sentido.

8-Rede de suporte

Você pode conhecer outras famílias homeschoolers para interação. Existem muitas, e a cada dia nascem novos grupos de famílias que se encontram, partilham seus conhecimentos, seus filhos interagem… Além de todo material de apoio em livros, sites, blogs etc.

9- Os pais também ganham conhecimento

É recorrente a preocupação de pais preocupados com a falta de preparo deles mesmos para serem responsáveis pela educação dos filhos, porém o homeschooling é um processo que envolve também o aprendizado dos pais. “Há um princípio básico em toda educação: o professor sempre aprende mais do que o aluno. Você aprenderá os conteúdos das disciplinas que ensinar aos seus filhos e isto fará de você uma versão melhor de si mesmo. Mais ainda, você passará a ter muito em comum com seus filhos, o que ajudará a transformar sua casa em uma pequena universidade do conhecimento humano”. (Clark, Mary Kay. Homeschooling Católico. Porto Alegre. Concreta, 2016)

10- Os resultados são comprovados

Muitos livros direcionados ao homeschooling possuem um conteúdo mais avançado do que os livros direcionados às escolas. Nos Estados Unidos, onde há mais de 2 milhões de homeschoolers, os americanos não vêem mais a educação domiciliar com estranheza. Um dos motivos da aceitação americana ao homeschooling é a quantidade de prêmios que esses alunos ganham em concursos culturais. Apesar de os alunos homeschoolers serem apenas 2% da população escolar (como destaca Mary Clark) em 2014 eles correspondiam a 14% dos finalistas do Concurso Nacional de Soletração Scripps-Howard.

Mas para além da formação intelectual, o mais importante da educação domiciliar deve ser a busca pela formação completa da pessoa. O tutor tem a nobre missão de ajudar o aluno a se tornar, de fato, um homem, não meramente um cidadão com direitos e deveres sociais, mas um ser humano que busca o auto-conhecimento e usa suas potencialidades de modo a deixar-se conduzir pela educação, que o transformará em um homem em sua completude.

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Outro artigo sobre o tema

Em recente evento de atualização e aperfeiçoamento profissional para mais de mil professores do Ensino Fundamental e Ensino Médio de nove unidades do Colégio Positivo, de Curitiba (PR), Ponta Grossa (PR), Londrina (PR) e Joinville (SC), a pesquisadora em educação e professora do Departamento de Psicologia da Educação da Unesp Araraquara, Luciene Tognetta esclareceu algumas questões que envolvem a adoção do homeschooling no Brasil.

1. O ensino domiciliar pode impactar negativamente a formação do senso crítico em crianças e adolescentes

Verdade. “Uma criança precisa de conflitos, que aparecem no contato com pensamentos divergentes. Na relação entre pais e filhos, dificilmente uma criança diverge de seus pais, pois ela os enxerga como autoridade absoluta, o que fará com que dificilmente haja a contraposição de ideias. Para que um pensamento científico se desenvolva, é necessário lidar com outros pontos de vista e uma criança que não tenha a possibilidade de resolver conflitos com seus pares, de reconhecer situações diferentes daquilo que ela acredita ser verdade, terá um prejuízo no desenvolvimento do pensamento científico. Ou seja, no ensino domiciliar, para driblar esta situação, é preciso que os pais tenham um preparo metodológico maior, muito mais sofisticado, para que consigam dar conta de algo que a escola, pela própria inserção do aluno no grupo social e nas diferenças, daria.”

2. Os estudantes terão menos oportunidades de convivência com outras crianças de sua idade

Verdade. “Sem o convívio escolar, as crianças podem até ter outros contatos, mas é mais difícil de acontecer, pois estamos falando de uma geração de famílias que não são mais estendidas, que não possui, cotidianamente, contato com vizinhos, primos, com outras crianças, como havia nas gerações passadas. Outro problema, no caso da igreja, por exemplo, é o de conviver apenas com pessoas que pensam do mesmo jeito. Sem o pensamento divergente, não há possibilidade de sair do próprio ponto de vista e ir para o ponto de vista do outro. A consequência é que, no futuro, teremos adultos com muita dificuldade de lidar com pontos de vista diferentes, visto que é na escola que se dá a possibilidade de ver novas visões de mundo, de se descentrar e de avaliar quais pontos de vista são melhores ou piores.”

3. Os pais não são capazes de passar todo o conteúdo necessário para os filhos

Mito. Ainda que haja alguma dificuldade, a educadora acredita que sim, os pais, independente da formação, com algum esforço, podem dar conta de ministrar as aulas aos filhos. Isso porque, atualmente, é possível encontrar as matérias disponíveis em diversos meios. Por outro lado, ter acesso ao conteúdo é diferente de método de ensino, o que pode, sim, fazer com que a criança seja prejudicada. “Um médico, por exemplo, pode ser um ótimo médico, mas nem sempre é um bom professor de Medicina. Não é à toa que temos diversas pesquisas na área de Educação que discutem métodos e didáticas. É muito difícil para os pais, de diversas formações, darem conta do conteúdo e da metodologia, e decidir qual é a melhor forma da criança aprender. Podemos ir por tentativa e erro? Podemos, mas, dessa forma, estamos negligenciando o que a ciência já verificou e, consequentemente, negligenciando a melhor educação para o aluno”, alerta a especialista.

4. O conteúdo em casa é mais próximo da realidade da criança

Verdade. Um dos grandes problemas da escola tradicional, atualmente, é deixar de tornar o conteúdo mais próximo da realidade do aluno, tornando, assim, o aprendizado mais efetivo. Nesse sentido, a educação domiciliar ganha pontos, sobretudo quando os pais conseguem aliar domínio de método e conteúdo. Para a escola, a especialista alerta sobre a necessidade urgente de se investir na formação de professores, que devem ter uma abertura maior na maneira de ensinar. “Desta forma, evita-se soluções paliativas”, avalia.

5. Ao optarem pelo homeschooling, os pais protegem os filhos de possíveis situações de bullying, ou mesmo de situações constrangedoras que podem ocorrer na escola

Mito. “Levar a criança para o ensino domiciliar para fugir dos problemas de bullying é ineficaz, pois os pais precisam fortalecer os seus filhos. Uma das características do bullying é ter uma vítima frágil, então, na verdade, quando se precisa agir sobre o bullying, é muito mais eficaz agir sobre o autor, espectadores e vítima. Se não fortalecer o filho que é vítima de bullying, muito provavelmente ele será vítima de bullying em outras situações”, explica.

6. O ensino domiciliar é apontado como alternativa bem-sucedida de educação para crianças especiais, sobretudo autistas e superdotados

Mito. “A lei de inclusão no Brasil não é aleatória. Muito pelo contrário, ela é para o bem destas crianças. Sabemos que a escola, muitas vezes, não está preparada para receber estes alunos, mas quando os levamos para casa, estamos tolhendo a necessidade de políticas públicas, ou mesmo de escolas particulares, de formar melhores professores, que saibam intervir para além dos conteúdos escolares, que saibam transformar o grupo para receber a criança. A lei que prevê a inclusão dessas crianças no contexto escolar é para que elas se sintam como seus pares, que elas possam vivenciar essa experiência de vida, de paridade, ter essa experiência social. Portanto, quem priva seu filho disso, está negligenciando uma necessidade dele.”

7. Educar em casa é mais barato

Impreciso. Pagar uma escola particular nos dias de hoje, realmente, não é tarefa fácil. Além da mensalidade, há gastos com material, uniforme, lanches, e que variam muito de acordo com a cidade, ou até mesmo do bairro, em que a instituição está localizada. “Assim, não é possível afirmar que educar em casa seja mais caro ou mais barato do que uma escola privada, visto que isso também depende do quanto os pais que educam em casa investem na compra de livros, entre outros itens”, ressalta Luciene.

8. É melhor ensinar em casa do que enfrentar os problemas comuns a muitas escolas públicas, como falta de professores e estrutura

Mito. Tal ideia refuta a necessidade de se pensar de forma coletiva. “Há muitas escolas públicas que não tem professores. Porém, usar esse argumento para dizer que o ensino domiciliar é melhor é refutar e não entender a necessidade de coletividade, a necessidade de lutar para ter uma escola de melhor qualidade. É um pensamento muito individualista”, critica.

9. Educação domiciliar é sempre ruim

Mito. Muitos dos que defendem que lugar de criança é sempre na escola acreditam que o ensino domiciliar é sempre ruim. Contudo há períodos na vida nos quais essa suposição não se aplica. “Acredito ser bom manter a criança até os três anos em casa, pois ela está em um momento em que a formação da personalidade depende da constituição da autoridade, portanto, é bom que tenha o carinho dos pais e dos familiares para construir uma identidade forte e a autoestima. No mais, é melhor para que ela não se exponha a doenças, pois o organismo é mais frágil”, avalia.

10. “Se deu certo nos Estados Unidos, dará certo no Brasil”.

Mito. Você já deve ter ouvido esta frase alguma vez na vida – e quando o assunto é educação domiciliar, ela é quase um mantra. Porém, as situações são bem diferentes, visto que o Brasil ainda não conta com uma regulação deste tipo de ensino, nem meios para garantir que ele seja de qualidade, ou mesmo de que a criança está realmente estudando e não trabalhando, por exemplo. “Nos EUA há supervisão, regulação. A lei que garante o direito da família de educar em casa também prevê um acompanhamento rigoroso para garantir o direito da criança em receber uma boa educação. Nesse sentido, há também uma preparação melhor dos pais, que sabem que há uma regulação”, finaliza a pesquisadora Luciene Tognetta.

Fonte: EcoDebate

Quando decidimos nos casar, nossa alegria e foco devem estar nessa decisão que muda a vida. No entanto, muitas vezes permitimos que nossa atenção se concentre na celebração do casamento sem prestar atenção suficiente ao fato de que o casamento não é apenas o dia da celebração matrimonial.

A decisão de se casar muda vidas permanentemente. Por causa de sua importância e consequências, é essencial que aquilo que um casal declara como sua intenção – estar unido no casamento por toda a vida – realmente expresse a verdade do que eles realmente pretendem viver.

Liberdade é a chave: Entrar no pacto do casamento requer liberdade. Implica escolher uma pessoa com quem desejamos compartilhar nossa vida em uma união de amor. Também pressupõe a escolha de viver em um tipo concreto de relacionamento para viver essa união, já que o casamento tem uma natureza distinta que o distingue de outras formas de relacionamentos amorosos.

Às vezes, há circunstâncias na vida de uma pessoa que limitam sua liberdade – por exemplo, um distúrbio psicológico ou mental, ou um sério desafio emocional que dificulta a tomada de decisões com a verdadeira liberdade.

Alguns indivíduos são movidos por impulsos ou medos que parecem incapazes de resistir. Outras vezes, existem circunstâncias externas ou pressões que podem levar uma pessoa a fazer algo que não quer fazer. Pode até acontecer que informações cruciais sobre o outro cônjuge estivessem escondidas ou fossem desconhecidas pelo outro – e se fosse conhecido, a decisão de se casar não teria sido tomada.

Frutuoso e para a vida: O casamento implica escolher um tipo de união que tenha suas próprias características especiais: implica em se comprometer a viver um amor que seja de livre vontade, fiel, frutífero e vitalício – tanto nos bons como nos maus dias.

Se um dos parceiros (ou ambos) não quiser uma união como essa e preferir, por exemplo, um relacionamento que pode ser encerrado, ou um que esteja aberto a relacionamentos com outras pessoas, há uma indicação clara de que essa pessoa realmente não quer entrar no vínculo do casamento. Embora a pessoa esteja dizendo “sim” com seus lábios, com sua vontade ela está decidindo que seu “sim” é para algum outro tipo de união – não o casamento.

Aqui é onde podemos começar a entender o que queremos dizer com a declaração de nulidade de um casamento. Somente a decisão livre, voluntária e consciente de ambas as partes pode criar um vínculo matrimonial entre elas.

Se existe alguma circunstância que impeça um ou ambos de escolher livremente, ou se um ou ambos realmente pretendem se comprometer com uma união desprovida de qualquer das características essenciais de um vínculo matrimonial, o pacto não é efetuado, e eles não têm o casamento efetivado realmente – independentemente de aparências externas. Embora pareçam casados, na verdade não são.

“Anulação”, ou melhor, nulidade: A Igreja Católica afirma que um homem e uma mulher contraíram o santo matrimônio somente se ambas as partes realmente pretendiam e eram capazes de fazê-lo, de acordo com os quatro critérios mencionados acima – a intenção e a capacidade de entrar em uma união em livre vontade, fiel, frutífera e vitalícia.

Esse respeito pela liberdade pessoal é tão forte na Igreja que as coisas não mudam simplesmente com o passar do tempo; se você é mesmo casado, é casado; mas se você realmente não contraiu casamento, então você ainda não é verdadeiramente casado, independentemente da passagem do tempo.

Há sempre uma presunção de validade tanto aos olhos da lei civil como eclesiástica, desde que ambos os cônjuges digam “sim” ao expressar sua intenção de se casar, e desde que respondam positivamente às questões relativas à sua liberdade, sua intenção de se casar pelo resto de suas vidas e, em um casamento católico, sua intenção de aceitar filhos. Assim, um casamento é considerado válido até que se prove o contrário.

Nos casos em que existem razões suficientes para acreditar que este não é o caso, é necessário concluir um processo formal para investigar e confirmar essa crença e solicitar e obter uma declaração de nulidade – ou uma “anulação”, como é frequentemente chamada.

Isso só será concedido se for adequadamente comprovado, com base nos resultados, que o vínculo matrimonial na verdade não ocorreu; isto é, que o Sacramento do Santo Matrimônio não foi realmente celebrado e a pessoa, tendo sido declarada solteira, está livre para se casar na Igreja (depois que toda e qualquer união civil tenha sido declarada nula).

Muitas vezes, quando ouvimos sobre os procedimentos de nulidade do casamento, achamos difícil entender o que eles são e como a “anulação” difere do divórcio.

Certamente, nem todos os casos de separação ou divórcio correspondem a um casamento nulo. No entanto, se compreendêssemos de dentro o que as pessoas que iniciaram o processo de nulidade passaram, entenderíamos que muitas vezes as coisas não são como parecem.

Mais importante ainda, se isso ocorre em nossas próprias vidas, entender a verdade sobre nossa própria situação pode ser uma tremenda ajuda para curar as feridas causadas por um casamento desfeito e nos permitir encarar o futuro com base na verdade de nossa situação.

Fonte: Aleteia

O que é o bem? Existe um critério objetivo de bondade que nos permita discernir, sem medo de errar, entre o bem e o mal?

É difícil que haja uma pergunta mais importante do que essa: “O que é o Bem?; Que coisas são boas?” No mais profundo de si mesmo, o Homem abriga o desejo de ser bom, de fazer coisas boas: quando escolhe o mal é porque ficou ofuscado pela pequena parte de bem com que o mal se reveste. Deus – Bem infinito, que faz o bem e o põe em toda criatura – é Quem dá a todas as suas obras essa capacidade de atuar na direção do bem e, assim, incrementá-lo.
Todos temos uma espécie de instinto para descobrir o bem. Sabemos que “o bem é bom” e que “o mal é mau”. Na prática, porém, muitas vezes aparece o problema: “isto é bom?”, “é bom fazer isto?”. A resposta nem sempre é imediata ou certa: às vezes pode exigir um longo e árduo estudo. Mas sendo tão importante acertar quando está em jogo a nossa própria bondade, o nosso bem, compreendemos que esse estudo deve ser rigoroso, científico, de modo que a conclusão apoie-se em argumentos sólidos e irrefutáveis.

Assim nasce a ciência que chamamos de Ética (vem se ethos, que em grego quer dizer costume, modo habitual de agir). A Ética investiga aquilo que é bom fazer, para que – fazendo-o – alcancemos a maior perfeição humana possível e, portanto, satisfaçamos os nossos mais profundos desejos, ou seja: alcancemos a felicidade.

Quando se diz que algo “é ético” ou “não é ético”, o que se está dizendo é que é ou não bom. Contudo, embora todos concordemos em afirmar que a nossa conduta deve ser “ética”, nem sempre concordamos sobre se essa ou aquela coisa em concreto é ou não é “ética”. O que para alguns parece ser “ético”, para outros é uma monstruosidade. Assim, por exemplo, alguns afirmam que é “ético” provocar o aborto quando a gravidez resultou de um estupro, enquanto outros dizemos que fazer isso é cometer um dos piores crimes – mais grave até do que o terrorismo –, negando ao não-nascido inocente o direito mais elementar de qualquer pessoa: o direito à vida.

Esse exemplo nos permite entender a enorme importância que tem estarmos esclarecidos sobre o que é e sobre o que não é “ético”: sobre quais coisas são as realmente “boas”. Não é uma questão trivial que possamos deixar para que outros resolvam. Trata-se de uma questão de vida ou morte, e que deve ser encarada com toda a seriedade e rigor.

É possível chegar a um conhecimento certo sobre “o que é bom” – pelo menos em seus aspectos fundamentais – ou estamos condenados a uma eterna dúvida, a meras opiniões sem fundamento racional? Existe um critério objetivo de bondade que nos permita discernir, sem medo de errar, entre o bem e o mal? O bom senso sempre afirmou que sim, mas é conveniente que compreendamos porque, e também porque alguns enxergam as coisas de modo diferente.

É claro que o bem – o que é bom – é assim porque contém alguma perfeição que o torna apetecível, desejável. Aristóteles dizia que “o bem é algo que todos desejam”. Mas por que todos desejamos o bem? Porque vemos nele algo que nos beneficia, algo que “nos faz bem”, que nos aperfeiçoa, que nos melhora, que satisfaz as nossas necessidades, que nos faz mais felizes. Cabe dizer que o bem é uma perfeição que me aperfeiçoa: uma perfeição aperfeiçoadora (essas considerações – tão óbvias que parecem um simples lugar-comum – não são vãs).

O BEM É RELATIVO

Deve-se notar que nem tudo aquilo que aperfeiçoa um determinado sujeito aperfeiçoa igualmente todos os outros. O adubo animal serve como nutriente para as plantas, mas não para os homens. A alfafa é boa, saborosa e sadia: mas para as vacas, não para nós. Portanto é claro que o bem é relativo: é relativo a um sujeito ou a um determinado grupo de sujeitos, mais ou menos numeroso.

Essa “relatividade” do bem levou muitos a pensar que o bem não é algo “objetivo”, isto é: que o bem não está aí fixo, independente do meu pensamento. Cada um poderia considerar como sendo bom “aquilo que lhe pareça”: cada qual seria livre para considerar boa uma coisa ou a coisa oposta, decidindo por conta própria sobre o bem e o mal. Cada um seria – afirma-se – um “criador de valores”, já que a bondade das coisas não estaria nelas mesmas, mas na minha subjetividade, no meu pensamento, nos meus desejos ou opiniões. Esse é um grave erro no qual muitos incorrem, mas esse erro não é novo: é tão velho quanto a Humanidade. Adão e Eva não quiseram reconhecer que o bem estava onde Deus o tinha posto, pretendendo encontrá-lo onde eles, com sua má vontade, queriam que estivesse.

O BEM É OBJETIVO

Embora o bem seja “relativo” (algo é bom sempre “para alguém”), em termos estritos é a coisa menos subjetiva e opinável que existe. A bondade do ar que respiramos, da água que bebemos, do calor e da luz do sol que nos dá a vida, etc., etc… não é coisa que tenhamos inventado ou criado, não é uma bondade “opinável”: é algo que já está aí, independentemente das nossas avaliações.

De modo similar conhecemos os valores da justiça, da liberdade, da paz, da fraternidade: valores objetivos que não teria sentido negar. Mesmo se os negasse porque não me apetecem, ainda assim continuariam sendo valiosos para os outros. Essa minha inapetência seria um sintoma claro de alguma doença que tenho no corpo ou na alma.

É também importante notar – ao contrário do que foi muito difundido por certos filósofos – que se uma maçã me apetece, não é porque eu tenha conferido a ela o bom sabor. A maçã não se torna saborosa simplesmente por que sou eu quem a saboreio. Ainda que para outro ela seja insossa – talvez porque ele esteja doente –, a bondade da maçã não é produto da minha subjetividade: é a própria maçã que tem por si mesma a aptidão para causar um bom sabor e uma boa nutrição. Se assim não fosse, alguém poderia encontrar o mesmo sabor no fel ou até no lixo.

Está claro que existem bens e valores objetivos. Mas caberia perguntar se todos os bens são objetivos. A resposta é que de fato todos o são. Isso porque na prática as coisas e as ações humanas, queiramos ou não, sempre aperfeiçoam ou prejudicam: inclusive aquelas que – em teoria – poderiam razoavelmente ser consideradas indiferentes, como por exemplo passear.

Portanto, a “relatividade” do bem não significa que o bem é bom porque a minha vontade assim o deseja, mas que a minha vontade deseja o bem porque ele é bom. A bondade primeiramente está na coisa e só depois pode (ou não) estar no meu capricho, nas minhas opiniões ou nas minhas preferências. O que é bom para mim pode ser mau para outro; por exemplo, um remédio ou um trabalho determinado. Isso não depende do meu parecer. Do que depende então? Depende precisamente daquilo que eu sou, depende do meu ser, e isso já não é um produto da minha vontade, nem uma questão opinável. Embora os defeitos e qualidades que eu possuo agora tenham sido fruto dos meus atos voluntários anteriores, o que eu cheguei a ser, o que eu sou agora, é neste momento independente da minha vontade, e de modo igualmente independente da minha vontade haverá coisas que serão boas ou más para mim.

O bem depende, pois, do ser (do ser real, objetivo, que está aí) e do modo de ser. E se há algo que o Homem nunca poderá deixar de ser é precisamente isso: ser Homem. As características pessoais ou individualizantes próprias de cada um nunca esfumam ou anulam a natureza humana; são, pelo contrário, perfeições (ou defeitos) dessa natureza peculiar que todos compartilhamos: uma natureza que nos permite falar de “gênero humano” ou de “espécie humana”, e também de um bem objetivo comum a toda a Humanidade.

Como vimos, existem bens relativos a pessoas singulares. Mas é igualmente certo que existem bens relativos à natureza humana comum, e portanto relativos a todos e a cada um dos indivíduos da nossa espécie. É por isso que há leis ou normas morais objetivas, universais e permanentes, que afetam todos os homens, em qualquer tempo e lugar. O que prejudica a natureza forçosamente prejudicará a pessoa, porque a pessoa não é alheia à natureza: é o sujeito dessa natureza determinada.

A naturezas diversas correspondem bens diversos. O que é bom para o animal ou para o anjo pode não ser bom para o Homem. Por isso, para sabermos o que é bom para o Homem – para todos e cada um –, é indispensável conhecermos antes a resposta à grande pergunta: O que é o Homem? “Que sou eu, meu Deus? – exclamava Santo Agostinho – A minha essência, qual é?” (1)
A Ética (ciência sobre os bens do Homem) supõe a Antropologia Filosófica (que estuda o que é o Homem). Na História do Pensamento encontram-se éticas diferentes porque há diferentes conceitos sobre o Homem, e portanto diferentes conceitos sobre os bens.

O QUE É O HOMEM?

Para alguns, o Homem nada mais é do que um conjunto de corpúsculos, embora complexo e maravilhoso (Carl Sagan, o famoso cosmólogo norte-americano, por exemplo, dizia isso); muitos o consideram como pura química, ou como mero conjunto de instintos fatalmente determinados, ou como um simples número dentro da espécie zoológica. Todas essas são diferentes manifestações da visão materialista do Homem.

Pelo fato de negar – de modo dogmático, certamente – a realidade da alma espiritual e imortal, todo materialismo torna-se incapaz de conhecer o que o Homem na verdade é, e por esse mesmo motivo também não pode saber o que realmente é bom ou “ético”. Quando um materialista pensa no Homem como um simples animal evoluído – em quem não há nada que não seja redutível a elementos materiais –, não consegue pensar no bem sem reduzi-lo ao que é material e sensitivo; e além disso tenderá a conceder um valor absoluto aos assuntos econômicos. Escapa-lhe o que é mais valioso: o espírito, em que está a imprescindível raiz do entendimento e da vontade livres.

Por isso os termos “liberdade”, “justiça”, “paz”, “amor”, etc. no materialismo carecem de conteúdo humano, confundem-se com as sombras de tais coisas que parecem existir nos animais. O próprio conceito de “pessoa” é esvaziado, ficando o Homem reduzido a um “número” cuja função é servir a “espécie” (chamada de “sociedade”). Se a “espécie” assim o exigir, não haverá nenhum inconveniente em sacrificar o “indivíduo”: poder-se-á com toda paz saqueá-lo, ou trancafiá-lo num hospital psiquiátrico ou eliminá-lo. O que conta é somente o bem da “espécie”, como na Zoologia.

Tal é a tremenda conclusão do coletivismo, especialmente o marxista.

Se realmente queremos o que é bom para nós mesmos e para a Sociedade – que está composta não por meros indivíduos, mas por pessoas de valor único e irrepetível –, então temos de ter a honradez de contemplar o Homem em toda sua integridade. Não basta ver somente um corpo dotado de sentidos e instintos. Isso equivale a não ver o Homem, da mesma forma que aquele que vê somente uma das seções – a vertical ou a horizontal – de um cilindro não vê o cilindro: confunde-o com um círculo ou com um quadrado, e pode até chegar à conclusão de que o cilindro é um círculo quadrado, um absurdo, portanto, que só pode existir como uma vã ilusão mental. Pode-se chegar inclusive a negar a possibilidade de existirem cilindros, da mesma forma como foi negado que exista a alma humana imortal. Esquartejou-se o Homem, cortando-o pela metade, até o momento em que o “sábio”, diante da platéia e da mesa de dissecação, sentencia: “como não vejo a alma em parte alguma, ela não existe” (aplausos). O mesmo fez aquele astronauta soviético, que declarou triunfante que Deus não existe porque não viu ninguém lá em cima, no seu passeio pelo espaço.

O Homem é um “cilindro” muito peculiar: é infinito em altura, não tem topo, não tem limite superior, e por isso só uma “seção” totalmente “vertical” é capaz de revelar sua dimensão transcendente à matéria. Mas não é difícil descobrir essa dimensão usando um pouco de bom senso. Mais adiante voltaremos ao assunto. Não deixa de ser certeira aquela frase gráfica de Unamuno, mesmo sendo ele um homem confuso quanto à religião: “o que chamam de espírito parece-me muito mais material (quer dizer “perceptível”, “claramente cognoscível”) do que aquilo que chamamos de matéria; sinto minha alma mais importante e mais sensível que meu corpo”.

Foi dito – e com toda a razão – que o materialismo é o mais curioso esforço jamais feito pelo espírito humano na tentativa de provar a não-existência do espírito humano. Isso porque “só um ser pensante – ou seja: espiritual – pode pôr-se a «demonstrar», mediante argumentos, o materialismo” (2). O materialismo, deslumbrado pela semelhança morfológica entre o Homem e o macaco, confunde os dois. Ocorre aquilo que observa Johannes Torelló: “objetos de estudo essencialmente diferentes, ao serem projetados pelo cientista contra um plano inferior, aparecem-lhe como sendo iguais. Assim, a projeção de uma esfera, a de um cilindro e a de um cone são a mesma: um círculo ambíguo e tentador aos olhos de espíritos simplistas, capazes de concluir que no fundo um cilindro, uma esfera e um cone são realmente a mesma coisa”.

É certo que temos um corpo e uns sentidos que reclamam satisfações para as suas necessidades vitais. Mas antes de qualquer coisa possuímos algo que excede tudo o que procede da matéria: o entendimento, ávido e insaciável de verdade. Já desde criança o homem sadio começa a “exasperar” os adultos com as suas intermináveis perguntas: “Mamãe, o que é isso?”, “para que serve aquilo?”, e sobretudo “por que?”, “por que?”, “por que?”… É que o menino ou a menina está buscando desde já uma resposta última e definitiva, que não remeta a outro “por que”, que seja algo assim como o grande “Porquê” que tudo explique, que seja a Verdade Primeira e a Origem de todas as outras verdades. A criança pergunta por Deus, procura Deus, precisa de Deus desde que sua inteligência desperta para o “uso da razão”. É o que diz a célebre oração de Santo Agostinho: “Criaste-nos, Senhor, para Ti, e o nosso coração está inquieto enquanto não descansar em Ti.” (3)

A única coisa capaz de saciar e aquietar o entendimento é o conhecimento de Deus: não um conhecimento qualquer, mas todo o conhecimento de que seja capaz. Somente assim alcança a sua perfeição suprema, a sua plena felicidade.

A vontade, por outro lado, é uma ilimitada capacidade de amar o bem (não “infinita” mas “ilimitada”, porque por muito que ame sempre quer amar mais), que não se conforma com qualquer bem: deseja o ótimo, o máximo bem. Quando a vontade põe o seu amor numa criatura e a possui de algum modo, logo fica satisfeita; mas em seguida percebe que aquilo não é o máximo: que resta um vazio ainda sem preencher, que ainda está longe de alcançar a plenitude de bem e de amor que buscava. Isso porque todos nós – sabendo-o ou não – queremos a Deus, buscamos a Deus, temos fome de Deus como Verdade primeira e Bem infinito, como Sabedoria e Amor plenos: somente nEle – no amoroso conhecimento de Deus – encontra-se a perfeição, a plenitude humana, a felicidade sem sombras. Esse é o nosso fim, o nosso máximo bem comum objetivo.

A FELICIDADE PERFEITA E O BEM SUPREMO

Agora que sabemos – não detalhadamente mas com profundidade – o que é o Homem, sabemos também qual é o seu bem fundamental e indispensável. Independentemente do que eu queira ou pense, do que me apeteça ou do que eu escolha, o meu Bem é Deus. Assim encontramos um critério objetivo de bondade: no mundo, será bom para mim – bom moralmente, bom em sentido “ético” – aquilo que me aproxime de Deus (ou pelo menos não me afaste dEle), e será mau para mim aquilo que me afaste de Deus, ainda que me apeteça. Aquilo que me aproxima de Deus será também uma perfeição do meu ser pessoal; o contrário, aquilo que me afasta dEle, sempre e sem dúvida será prejudicial ao que há de mais íntimo em mim.Essa é já uma conclusão de suma importância. Mas por outro lado é claro que surge uma nova pergunta: na prática, o que me aproxima de Deus e o que me afasta dEle? A luz natural da razão é um dom que todos recebemos e que nos permite descobrir quais são as exigências fundamentais do ser humano, cujo conjunto é a lei natural, formulada sinteticamente no Decálogo pelo próprio Deus.

Assim se entendem bem aquelas palavras de João Paulo II: “A lei moral é a lei do Homem, porque é a lei de Deus”. Com efeito, “a verdade expressa pela lei moral é a verdade do ser, tal como é pensado e querido por Deus que nos criou”. É por isso que “há uma profunda consonância entre a parte mais verdadeira de nós próprios e aquilo que Deus nos manda, apesar de que – usando as palavras do Apóstolo – sinto nos meus membros outra lei que repugna a lei do meu espírito(Rom 7, 22). (4)”

Se em nossa mente não existisse a sombra do pecado original e se a nossa vontade não tivesse sido debilitada, conheceríamos bem a nós mesmos e, conseqüentemente, conheceríamos sem nenhuma dúvida o que é bom: teríamos uma visão clara da lei moral. Acontece que encontrar essa lei nos custa trabalho, até porque também nos custa trabalho vivê-la. Mas Deus, na sua infinita Misericórdia, veio em nosso auxílio – fez-se Homem! – para nos dizer com palavras humanas qual é o caminho que nos faz de verdade homens perfeitos e felizes: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14,6). E não nos oferece apenas uma felicidade natural: mediante a Sua Encarnação, Vida, Paixão, Morte e Ressurreição, abriu-nos as portas para nada menos do que a vida íntima de Deus Uno e Trino. Colocou à nossa disposição a Sua própria Felicidade: o máximo, não já relativamente ao Homem, mas em absoluto.

E para que todos os homens possam conhecer facilmente – sem disputas ou dúvidas angustiosas, sem esforços hercúleos – quais são as coisas que nos aproximam de Deus e quais as que nos afastam dEle, fundou a Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica. Dotada de um Magistério autorizado, assistido sempre pelo Espírito Santo – o Espírito da Verdade –, a Igreja é capaz de traçar, a cada momento, o mapa certo e seguro dos caminhos do bem. Temos aí – especialmente os católicos, mas também de algum modo todos os outros – o grande critério, a grande luz, a grande segurança para discernir o bem do mal. Assim podemos conhecer essa “norma suprema da vida humana”, que o Concílio Vaticano II recorda como “a própria lei divina, eterna, objetiva e universal, pela qual Deus ordena, dirige e governa o Universo e os caminhos da comunidade humana.” (5)

NOTAS:

(1) SANTO AGOSTINHO, Confissões, X, 17
(2) CORNELIO FABRO, Dios, Madrid, Ed. Rialp, 1961, p. 203
(3) SANTO AGOSTINHO, o.c., I, l
(4) Audiência geral, 27-VII-1983
(5) Decreto Dignitatis humanae, nº 3.

Fonte: Arvo.net