Introdução

Muito se fala sobre a situação da mulher na sociedade moderna. Acreditam não poucos que há um grande desnível – ou abismo mesmo – entre os direitos e deveres do homem e os da mulher, sendo que essa última tem sido historicamente prejudicada. E não faltam candidatos a carrasco do sexo feminino. A última moda agora é acusar as religiões de forma geral, e o Cristianismo, em especial.

Não há a menor dúvida de que existem religiões no mundo que cerceam os direitos da mulher. O Islamismo é um bom exemplo deste tipo. Tanto o seu livro sagrado como a sua literatura teológica discrimina e rebaixa gravemente a mulher a ponto de torná-la um objeto de propriedade, primeiramente do pai, e depois do marido. Contudo, neste texto quero provar que não há razão por que colocar o Cristianismo no mesmo cesto das religiões que pejoram a mulher. Mais do que isso, vou mostrar como o Cristianismo colocou a mulher em uma situação muito melhor do que qualquer outro sistema religioso ou filosófico que já existiu.

Um pouco de história

A vida da mulher não era fácil nas culturas antigas. Em geral, eram propriedade dos maridos. Não eram consideradas capazes ou competentes para agirem independentemente. Vejamos a Grécia antiga. Aristóteles disse que a mulher estava em algum lugar entre o homem livre e o escravo (considerando que a situação do escravo não era nenhum pouco auspiciosa, perceba a pobre situação feminina), e que era um “homem incompleto” (Política). Platão, por sua vez, entendia que se o homem vivesse covardemente, ele reencarnaria como mulher. E se essa se portasse de modo covarde, reencarnaria como pássaro (A República, Livro V).


Na China, até bem recentemente, o infanticídio era uma prática comum. Os bebês do sexo feminino eram entregues como alimento aos animais selvagens ou deixados para morrer nas torres dos bebês. Adam Smith escreveu sobre essa prática no seu famoso livro, A Riqueza das Nações, de 1776. Ele fala inclusive que o descarte de bebês indesejados era mesmo uma profissão reconhecida e que gerava renda para muitas pessoas.A sorte das mulheres não era muito melhor na Roma antiga. Poucas famílias tinham mais de uma filha. O casamento romano era uma forma de trazer mais material humano para formação do exército, e assim permitir à Roma a continuidade de sua expansão; por isso, o interesse estava em ter filhos homens. Daquelas, porém, que sobreviveram ao infanticídio, eram-lhes reservadas as tarefas do lar, mas não o exercício da cidadania e a participação política, coisa reservada apenas aos patrícios homens.

Na África, o problema era semelhante à prática do sati da Índia. Quando um líder tribal morria, as esposas e concubinas do chefe eram mortas juntamente com ele. Mesmo hoje, no Oriente Médio, o valor da mulher é mínimo.Vejamos outros casos. Na Índia, viúvas eram mortas juntamente com seus maridos – a prática chamada de sati (que significa, a boa mulher). Também havia tanto o infanticídio quanto o aborto feminino. Além disso, meninas eram criadas para serem prostitutas cultuais – as devadasis. Nessa prática religiosa, a menina era “casada com” e “dedicada a” um dos deuses hindus. Nos rituais de adoração a esses deuses havia dança, música e outros rituais artísticos. Conforme iam crescendo, as devadasis se tornavam servas sexuais, de homens e dos “deuses”. Ainda hoje, famílias pobres entregam suas filhas para estas deidades com o objetivo de alcançar delas algum favor, ou ainda obter algum meio de renda com os frutos da prostituição.

A mudança trazida pelo Cristianismo

Que diferença trouxe a vinda de Jesus Cristo entre nós? Muita, em vários pontos. Na verdade, foi uma revolução. Muito do que Jesus Cristo ensinou já era praticado pela sociedade judaica (que era muito diferente das nações à sua volta), e outros pontos tiveram seus termos desenvolvidos por Ele. Mas mesmo os judeus tinham um tratamento discriminatório em relação às mulheres; Jesus, entretanto, se relacionava de forma saudável com elas. De forma geral, o Cristianismo colocou a mulher em pé de igualdade com os homens. Como ele fez isso?

  • Dizendo que ambos foram criados por Deus, à sua imagem e semelhança (E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou – Gên 1:27). Para Deus, homens e mulheres têm o mesmo valor (Gl 3.28 );
  • Que ambos deveriam dominar e sujeitar a natureza (E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra – Gn 1.28). Não há nada que impeça a mulher, tanto quanto o homem, de explorar a criação em cumprimento ao mandato cultural;
  • A decisão de Deus criar a mulher a partir de Adão declara que ambos provêm da mesma essência (Gn 2.22 ), mostrando que a mulher em nada é inferior ao homem, nem tampouco lhe é superior. E a declaração de Adão mostra que sua mulher Eva é parte de si mesmo, tendo o mesmo valor que ele próprio (Gn 2.23 );
  • Que o casamento, como instituição divina, implica que o homem foi feito para a mulher, assim como a mulher foi feita para o homem, e dessa forma ambos andam como uma unidade em dois corpos (Gn 2.24 ), o que destrói a ideia de que a mulher é escrava do marido, ou vice-versa. São complementares;
  • O Cristianismo também evitou que a mulher fosse injustiçada, não permitindo a poligamia, que é inerentemente prejudicial a elas (1Co 7.2 );
  • O Cristianismo ensinou o cuidado com as viúvas. Elas, se não tivessem recursos, deveriam ser cuidadas e sustentadas pela igreja (1Tm 5 ). Se o marido morre, ela é livre para continuar viúva ou casar novamente, se quiser;
  • O Cristianismo condenou a prostituição ao declarar que o corpo não pertence a nós mesmos, mas a Deus, e que ele é templo do Espírito Santo (1Co 6.13,19 ). O corpo do homem pertence à mulher, e o da mulher ao homem (1Co 7.4 );
  • O Cristianismo aprova a instituição do casamento, que não só protege a mulher da exposição aos males sociais, como provê um ambiente seguro material, espiritual e sentimentalmente para o seu desenvolvimento integral (Ef 5.28-29 );
  • O Cristianismo protege a vida, que entende começar no momento da concepção. Dessa maneira, nenhuma criança deixa de nascer devido a características indesejáveis (pelos pais) que ela tenha ou seja. A vida é direito inviolável, outorgada por Deus, sendo que somente Ele tem direito de reavê-la (1Sm 2.6 Jó 1.21 );
  • O Cristianismo também proibe a pornografia, pois entende que ela é equivalente ao adultério. Com isto, a mulher deixa de ser vista como um objeto aos olhos do homem, e reserva o sexo e a nudez para aquele que tem direito a estas coisas, a saber, o marido (Mt 5.28 ).

Uma palavra sobre o movimento feminista

Se há algum direito, de qualquer pessoa que seja, que deva ser assegurado, eu sou completamente a favor da luta por ele. A sociedade falha em tratar as mulheres adequadamente porque ela não é uma sociedade moldada exclusivamente pela moral cristã. Muitos dos direitos pelos quais o movimento feminista luta são justos: direitos trabalhistas iguais aos do homem, proteção contra violência física e emocional, igualdade de direitos civis, entre outros. Porém, alguns pontos pelos quais ele luta não são bons, como, por exemplo, o aborto. Ora, o aborto sempre foi uma ferramenta usada pelo homem – e geralmente usado para evitar nascimento de mulheres! O aborto se refere a algo além do corpo da mulher; é outro ser vivo. Ocorre que ao lutar por este “direito”, a mulher trata um bebê ainda não nascido como algo menos que humano, tal como um objeto: ou seja, do mesmo modo que ela própria já foi tratada na história.

Outro problema que eu vejo é que algumas feministas mais exaltadas não querem simplesmente uma equiparação de direitos; desejam ocupar o lugar do homem que as explorava, transformando-se em exploradoras. Almejam uma inversão de papéis. Ao invés de uma sociedade patriarcal, sonham com uma matriarcal. E algumas feministas ainda descambam para a misandria – o ódio pelo sexo masculino.

Concluindo

O que o paganismo faz para proteger a mulher? Nunca fez nada, e nunca fará. E estas outras religiões não-cristãs? Normalmente colocam o sexo feminino em uma posição inferior a do homem. E o humanismo? Nada trouxe de bom para as mulheres. Na prática, uma vertente humanista (evolucionista) ensina que nada há de especial na humanidade; tudo que há é resultante de acaso. Somente o mais forte sobrevive (ou domina). Se for o sexo masculino, assim deve continuar a ser. É natural que seja assim. Não há justificativa moral (do ponto de vista evolucionista) para proibir a violência fisica, sexual, emocional à mulher, e nem mesmo porque condenar posicionamentos machistas. A máxima é “o que agora é, é o certo”.

Mas não é assim com o Cristianismo. Em todos os lugares onde ele chegou, as condições das mulheres melhoraram. Onde ele não alcançou, vê-se coisas terríveis, como a eugenia sexual, o infanticídio e a prostituição. Contudo, podemos ver que algumas sociedades, que já foram declaradamente cristãs, hoje estão decaindo moralmente com o avanço do antigo paganismo – legalizando o aborto e a prostituição. Seria interessante que algumas feministas, que falam ousadamente contra o Cristianismo, aprendessem um pouco mais da história da humanidade e assim apercebam-se de que, se não fosse por essa religião que elas tanto condenam, talvez elas sequer estivessem vivas hoje.

Fonte Original

O glioma é o tipo mais comum de tumor cerebral maligno primário nos Estados Unidos; glioblastoma sendo o tipo mais comum de glioma em adultos. Embora as diferenças entre os sexos nas taxas de incidência e sobrevivência do glioma fossem conhecidas, os pesquisadores não investigaram se as diferenças genéticas baseadas no sexo poderiam lançar luz sobre potenciais diferenças no perfil de risco do glioma entre homens e mulheres.

Agora, uma equipe da Escola de Medicina da Universidade Case Western Reserve, em conjunto com um consórcio internacional de pesquisadores, descobriu que homens e mulheres têm diferentes fatores de risco genético para o desenvolvimento de glioma.

A pesquisa foi publicada recentemente em Relatórios Científicos. O estudo envolveu o trabalho de mais de 35 investigadores representando mais de 30 universidades, institutos e agências governamentais em todo o mundo.

“Análises estratificadas por sexo em estudos como esse podem revelar novos insights sobre as diferenças sexuais conhecidas no glioma e fornecer associações de risco genético previamente desconhecidas”, disse Jill Barnholtz-Sloan, professora designada de pesquisa sobre tumor cerebral na Case Western Reserve.

“Esta descoberta pode fornecer uma avenida [de informações] para obtermos uma melhor compreensão das diferenças sexuais na incidência de tumores cerebrais, e também pode sugerir vários mecanismos e vias da doença”, completa.

O consórcio analisou as diferenças genéticas entre todos os pacientes com glioma, glioblastoma e não glioblastoma com base no sexo. Drª. Quinn Ostrom surgiu com a ideia para o estudo, enquanto ela era uma assistente de pós-graduação de Barnholtz-Sloan. Ostrom agora está fazendo pós-doutorado em epidemiologia do câncer no Baylor College of Medicine, em Houston, Texas.

Os pesquisadores encontraram três regiões no genoma onde existiam diferenças genéticas significativas entre homens e mulheres, e essas diferenças também variavam por sexo e tipo de tumor (glioblastoma vs. não-glioblastoma).

“Há um que está claramente associado a um risco aumentado em homens, um em que está claramente associado a um risco aumentado em mulheres, e em um que está aparecendo tanto em homens como em mulheres, mas parece ter uma associação mais forte em mulheres”, disse Barnholtz.

Embora esteja no início o processo de compreensão das fontes genéticas de diferenças baseadas no sexo em tumores cerebrais malignos, a análise recente pode ajudar a definir caminhos para um teste genético que ajude os médicos avaliar o risco de câncer no cérebro.

“Ficamos surpresos ao encontrar uma grande região no genoma associada ao glioma e especificamente glioblastoma apenas em mulheres”, disse Barnholtz-Sloan.

“Esta região não havia sido associada anteriormente com gliomas, embora outros estudos associados ao genoma tenham identificado associações nessa região para uma variedade de características, incluindo várias doenças auto-imunes, bem como o aumento da idade na menarca”, relata.

Se o aumento da exposição ao estrogênio ao longo da vida diminuir o risco de glioma, como alguns supõem, é possível que variantes que aumentem a idade da menarca (potencialmente diminuindo a exposição total ao estrogênio) possam aumentar o risco de glioma em mulheres.

Comentário:

A citação de um estudo como esse para reforçar a diferença biológica dos sexos é uma tentativa bem simples de revelar a diferença entre pensamento científico e ideologia.

A máxima feminista da atualidade, corroborada com a ideologia de gênero, está no desprezo pelas diferenças sexuais. Está em fazer parecer que a “autopercepção” e a construção de gêneros são os elementos mais importantes e determinantes na qualidade de vida de uma pessoa, quando não é.

A realidade objetiva dos fatos nos faz entender que precisamos tratar com objetividade o que é, de fato, objetivo. Não com fantasias ou elucubrações infindáveis de “subjetividades” que escapam ao senso de realidade.

Se a ideologia, e não o pensamento científico, fosse levada a cabo em todas às áreas da ciência, estudos como o citado acima jamais existiriam, pois o tal “pesquisador” jamais iria considerar o caráter objetivo – e imutável – das diferenças sexuais.

Por: Ansley Gogol

“Existem pelo menos 6.500 diferenças genéticas entre homens e mulheres. Hormônios e cirurgia não podem mudar isso”. A afirmação foi feita pela pediatra Michelle Cretella, que recentemente publicou um artigo sobre os perigos da ideologia de gênero para crianças e como tal doutrinação tem enganado, até mesmo “especialistas” na sociedade atual.

Segundo a profissional, que é presidente da Faculdade Americana de Pediatria, os tratamentos de transição de gênero com uso de hormônios e bloqueadores de puberdade podem causar diversos problemas nas crianças e adolescentes, como problemas de memória, doenças cardíacas,acidentes vasculares cerebrais, diabetes, câncer e até mesmo os muitos problemas emocionais. Porém tudo isto tem sido ignorado por boa parte dos terapeutas atualmente.

“O sexo biológico não é atribuído, mas sim determinado na concepção pelo nosso DNA e está estampado em cada célula de nossos corpos. A sexualidade humana é binária. Você tem um cromossomo Y normal, que se desenvolve em um homem, ou não, e você se transformará em uma fêmea. Existem pelo menos 6.500 diferenças genéticas entre homens e mulheres. Hormônios e cirurgia não podem mudar isso“, destacou.

“Uma identidade não é biológica, é psicológica. Tem a ver com o pensamento e o sentimento. Pensamentos e sentimentos não são biologicamente definidos. Nosso pensamento e sentimento podem ser factualmente corretos ou factualmente incorretos”, acrescentou.

Michelle continuou seu artigo mostrando a incoerência entre as formas como o fator “transgênero” é tratado atualmente por muitos médicos.

“Se eu entrar no consultório do meu médico hoje e disser: ‘Oi, eu sou Margaret Thatcher’, meu médico vai dizer que eu estou delirando e me me passará uma receita de antipsicóticos. No entanto, se, em vez disso, eu entrasse e dissesse: ‘Eu sou um homem’, ele diria: ‘Parabéns, você é transgênero”, afirmou.

Citando outro exemplo, Michelle destacou a falta de critérios médicos para julgar de forma adequada o desejo de automutilação de uma pessoa que se diz “transgênero”.

“Se eu dissesse: ‘Doutor, eu sou suicida porque me sinto como um amputado preso em um corpo normal, corte minha perna’, eu seria diagnosticada com transtorno de integridade corporal. Mas se eu entrasse no consultório do médico e dissesse: ‘Eu sou um homem, quero agender um horário para uma mastectomia [remoção do seio] dupla’, meu médico prontamente me atenderia. Ora, veja bem, se você quer cortar uma perna ou um braço, está mentalmente doente, mas se você quer cortar os seios – no caso das mulheres – mesmo eles estando saudáveis ​​ou o pênis – no caso dos homens – você simplesmente é transgênero e ‘não há problema com isso”, destacou.

Estudo de caso

Apresentando o caso de um de seus pacientes, Michelle alertou sobre como a “identidade transgênero” tem sido diagnosticada precocemente nos dias de hoje.

“Eu tinha um paciente – que vamos chamar de Andy – e entre as idades de 3 e 5 anos, ele passou a brincar cada vez mais com meninas e brinquedos de meninas. Depois disso, ele passou a dizer que era uma menina. Eu encaminhei os pais e Andy para um terapeuta. Às vezes, a doença mental de um dos pais ou o abuso que a criança sofreu são fatores, mas, mais comumente, a criança perdeu a percepção da dinâmica familiar e internalizou uma falsa crença”, disse.

“No meio de uma sessão, Andy deixou o carrinho de brinquedo, segurou uma Barbie nas mãos e disse: ‘Mamãe e papai, vocês não me amam quando sou um menino”, relatou a pediatra.

Buscando descobrir o contexto em que o garoto vivia, Michelle descobriu que uma certa dificuldade na família levou o pequeno Andy a achar que ele “teria que se tornar uma menina” para ser amado por seus pais, mas um tratamento eficiente resolveou a questão..

“Quando Andy tinha 3 anos, sua irmã com necessidades especiais nasceu e isto exigiu significativamente mais atenção dos pais. Andy percebeu isso como se seus pais preferissem uma filha e passou a pensar algo como: ‘Se eu quiser que eles me amem, eu tenho que ser uma menina”. Com a terapia familiar, Andy superou isso”, explicou Michelle.

“A questão é que se fosse nos dias de hoje, os pais de Andy receberiam a seguinte orientação: ‘Isso é o que Andy realmente é. Vocês devem garantir que todo mundo o trate como uma menina ou então ele vai se suicidar”, lembrou a pediatra. “À medida que Andy chegasse à puberdade, os ‘especialistas’ o colocariam em um tratamento com bloqueadores de puberdade para que ele continuasse a se passar por uma menina”.

Michelle alertou que estes bloqueadores de puberdade estão sendo recomendados para crianças e adolescentes antes mesmo de serem testados com segurança, o que é muito perigoso.

“[Para estes ‘especialistas’] não importa que nunca tenhamos testado bloqueadores de puberdade em crianças biologicamente normais. Não importa que, quando os bloqueadores são usados ​​para tratar o câncer de próstata nos homens e problemas ginecológicos nas mulheres, eles causam problemas de memória. É como se dissessem: ‘Não precisamos de testes. Precisamos inibir o desenvolvimento físico da criança agora, ou ela vai se matar”, afirmou.

“Mas isso não é verdade. Em vez disso, quando suportados em seu sexo biológico através da puberdade natural, a grande maioria das crianças com disforia de gênero melhoram. No entanto, crianças que estão confusas com relação ao seu gênero são ​​quimicamente castradas com bloqueadores da puberdade. Em seguida, muitas delas são permanentemente esterilizadas, adicionando hormônios cruzados, que também as colocam em risco de doenças cardíacas, acidentes vasculares cerebrais, diabetes, câncer e até mesmo os muitos problemas emocionais que os especialistas em gênero estão se desdobrando para tratar”, acrescentou.

Michelle finalizou seu artigo, alertando sobre o abuso psicológico que configura a ideologia de gênero sobre as crianças e adolescentes.

“Iludir todas as crianças da pré-escola para a frente com a mentira de que elas poderiam estar presas no corpo errado destrói o alicerce, a noção de realidade de uma criança. Se elas não podem confiar na realidade de seus corpos físicos, em quem ou no quê eles podem confiar? A ideologia de gênero nas escolas é o abuso psicológico que muitas vezes leva a castração química, esterilização e mutilação cirúrgica”, disse.

Fonte original

“5 Fases do Amor”:Depois de 40 anos como conselheiro de casamento e família, o psicoterapeuta Jed Diamond afirma ter descoberto o que torna um relacionamento real e duradouro.segredo está em vencer as “5 Fases do Amor”:

  1. Se apaixonar
  2. Se tornar um casal
  3. Desilusão
  4. Criação de amor real e duradouro
  5. Uso do poder dos dois para mudar o mundo

Jed Diamond observa que muitos casamentos se despedaçam e a maioria das pessoas não sabe o por quê. “Eles acreditam equivocadamente que escolheram o parceiro errado. Depois de passar pelo processo de luto, começam a procurar novamente.” Quando na verdade, considera que os casais estão “procurando o amor em todos os lugares errados”“Eles não entendem que a Fase 3 não é o fim, mas o verdadeiro começo para alcançar um amor real e duradouro.”

Confira.

Fase 1: Se apaixonar

Esse estágio é maravilhoso, diz o psicoterapeuta, porque estamos inundados de hormônios como a dopamina, oxitocina, serotonina, testosterona e estrogênio. Esse é também o momento em que projetamos todas as nossas esperanças e sonhos na outra pessoa. Acreditamos que todas as promessas que nossos relacionamentos anteriores não conseguiram cumprir, finalmente serão satisfeitas. “Temos certeza de que permaneceremos apaixonados para sempre”, diz ele. A pessoa parece perfeita e tudo parece tão verdadeiro e certo, palavras, ações e os sonhos.

Fase 2: Se tornar um casal

Então segue-se para o passo seguinte, em que o amor se aprofunda e se desenvolve e os dois se juntam como um casal: casamento. Passam a viver juntos, é um momento de união e alegria. “Aprendemos o que a outra pessoa gosta e expandimos nossas vidas individuais para começar a desenvolver uma vida de ‘nós dois’”. Nós nos sentimos mais ligados com a pessoa amada, seguros e protegidos. Muitas vezes pensamos que este é o nível máximo do amor e esperamos que continue assim para sempre. Mas a Fase 3 chega.

Fase 3: Desilusão

O estágio que pode definir o fim ou o fortalecimento de um relacionamento. Período em que pequenas coisas começam a nos incomodar. Nós nos sentimos menos amados e cuidados. Às vezes até nos sentimos presos, ficamos mais irritáveis e irritados ou feridos. “Nós podemos ficar ocupados com o trabalho ou com a família, mas as insatisfações se acumulam.” Momento de questionar os sentimentos e enfraquecimento da relação: para onde foi a pessoa ou o amor que uma vez tivemos? Até surge o pensamento de deixar uma das partes de “nós dois”. Nessa hora você desiste ou persiste?

“Há um velho ditado: ‘Quando você estiver atravessando o inferno, não pare.’ Isso parece ser verdade nesta fase da vida. O lado positivo da Fase 3 é que o calor [desse inferno] queima muitas das nossas ilusões sobre nós mesmos e nossa parceira. Temos a oportunidade de nos tornar mais amorosos e apreciar a pessoa com quem estamos, e não as projeções que colocamos sobre ela como nossa ‘companheira ideal.’”

Fase 4: Criação de amor real e duradouro

“Um dos presentes de enfrentar a infelicidade na Fase 3 é que podemos chegar ao âmago do que causa a dor e o conflito.” Depois de ultrapassar esse momento de provação, os dois aprendem a ser aliados se ajudando a entender e curar suas feridas. Sem desilusões, o outro não é alguém que você sempre sonhou, mas alguém que é capaz de amar você por ser exatamente quem é. “Não há nada mais satisfatório do que estar com uma parceira que vê você e te ama por quem você é. Eles entendem que seu comportamento prejudicial não é porque você é mau ou sem amor, mas porque você foi ferido no passado e o passado ainda vive com você. À medida que melhor entendemos e aceitamos nossa parceira, podemos aprender a amar a nós mesmos cada vez mais profundamente.”

Fase 5: Uso do poder dos dois para mudar o mundo

Esse é o estágio em que as diferenças e dúvidas foram superadas, a confiança e companheirismo estão tão fortalecidos que os dois conseguem causar diferenças no mundo a partir de seu amor real e duradouro. “Se pudermos aprender a superar nossas diferenças e encontrar um amor real e duradouro em nossos relacionamentos, quem sabe poderemos trabalhar juntos para encontrar um amor real e duradouro no mundo.” É uma oportunidade para juntos usar o “poder de dois” para direcionar a um propósito de vida em comum.

Com todos os estágios superados, vocês sabem que chegaram a uma cumplicidade construída com uma base sólida.

Fonte: Awebic

Mit brennender Sorge (“Com preocupação ardente”) Sobre a Igreja e o Reich alemão é uma encíclica do Papa Pio XI , emitida durante a era nazista de 10 de março de 1937 (mas com data do Domingo de Paixão , 14 de março).  Escrita em alemão, não no latim comum, foi contrabandeado para a Alemanha por medo de censura e lido nos púlpitos de todas as igrejas católicas alemãs em um dos domingos mais movimentados da Igreja, o Domingo de Ramos. (21 de março daquele ano).

A encíclica condenou as violações do acordo Reichskonkordat de 1933 , assinado entre o Reich alemão e a Santa Sé . 

Condenou a ” confusão panteísta “, o ” neopaganismo”, o “mito da raça e do sangue” e a idolatria do Estado. Continha uma vigorosa defesa do Antigo Testamento com a crença de que ele preparava o caminho para o Novo .

 A encíclica afirma que a raça é um valor fundamental da comunidade humana, que é necessária e honrosa, mas condena a exaltação da raça, ou o povo, ou o estado, acima de seu valor padrão a um nível idólatra. 

A encíclica declara “que o homem, como pessoa, possui direitos que ele detém de Deus e que qualquer coletividade deve proteger contra a negação, a supressão ou a negligência”. O nacional-socialismo, Adolf Hitler e o partido nazista não são mencionados no documento. O termo “Governo do Reich” é usado.

O esforço para produzir e distribuir mais de 300.000 cópias da carta era inteiramente secreto, permitindo que padres em toda a Alemanha lessem a carta sem interferência.  A Gestapo invadiu as igrejas no dia seguinte para confiscar todas as cópias que pudessem encontrar, e as impressoras que haviam impresso a carta foram fechadas. 

Segundo o historiador Ian Kershaw , uma intensificação da luta geral contra a igreja começou por volta de abril em resposta à encíclica. Scholder escreveu: “as autoridades estaduais e o Partido reagiram com raiva e desaprovação. Não obstante, a grande represália que se temia não veio.

A concordata permaneceu em vigor e, apesar de tudo, a intensificação da batalha contra as duas igrejas que então começaram permaneceu dentro dos limites comuns. “. O regime restringiu ainda mais as ações da Igreja e assediou os monges com processos judiciais encenados.

Embora Hitler não seja mencionado na encíclica, ele se refere a um “profeta louco” que algumas alegações se referem ao próprio Hitler.( Fonte Wikipédia)

 Carta Encíclica
“Mit Brennender Sorge”

 

Í N D I C E

Introdução. (1-2)
A concordata. (3-10)

Genuína fé em Deus. (11-19)
Genuína fé em Jesus Cristo. (20-23)
Genuína fé na Igreja. (24-29)
Genuína fé no primado. (30)

Não adulterar noções e termos sagrados. (31-38)
[Revelação (32), Fé (33), Imortalidade (34), Pecado original (35),
A Cruz de Cristo (36), Humildade (37), Graça (38).]
Doutrina e ordem moral. (39)
Reconhecimento do direito natural. (40-43)

À juventude. (44-49)
Aos sacerdotes e religiosos. (50-51)
Aos fiéis leigos. (52-54)

Conclusão. (55-59)

_____________

 

CARTA ENCÍCLICA

 

Aos Patriarcas, Primazes, Arcebispos, Bispos e
outros Ordinários em paz e comunhão com a Sé
Apostólica, sobre A situação da Igreja Católica
no Reich Germânico
.

 

PIO PAPA XI
Veneráveis Irmãos: Saúde e Bênção Apostólica.

 

Introdução.
1. Com viva ânsia e admiração sempre crescente vimos observando, desde muito tempo, a via dolorosa da Igreja e o progressivo acirramento da opressão dos fiéis que lhe ficaram devotados em espírito e obra; e tudo isto em um país e em meio do povo a quem São Bonifácio levou, um dia, a luminosa e alegre mensagem de Cristo e do reino de Deus.
2. Esta Nossa ânsia não foi aliviada pelas relações que os Reverendíssimos Representantes do Episcopado, como é de seu dever, Nos fizeram conforme a verdade, visitando-Nos durante a Nossa enfermidade. A par de muitas notícias — que Nos foram um consolo e conforto — sobre a luta sustentada por seus fiéis por motivo da religião, não puderam, não obstante o amor a seu povo e pátria e o cuidado de externar um juízo bem ponderado, passar em silêncio inumeráveis outros acontecimentos tristes e reprováveis. Quando ouvíamos suas relações com profunda gratidão a Deus pudemos exclamar com o Apóstolo do amor: Não conheço satisfação maior do que esta, de ouvir que meus filhos andam no caminho da verdade (3 Jo 4). Mas a franqueza que corresponde à grave responsabilidade de Nosso ministério Apostólico, e a decisão de apresentar-vos a Vós e ao mundo cristão inteiro a realidade em toda sua crueza, exigem também que acrescentemos: Não temos maior ânsia nem aflição pastoral mais cruel do que quando ouvimos: muitos abandonam o caminho da verdade (cf. 2 Ped 2,2).
A concordata.
3. Quando Nós, Veneráveis Irmãos, no verão de 1933, a pedido do governo do Reich, aceitamos reencetar a negociação de uma Concordata, à base de um projeto elaborado há vários anos, e chegamos assim a um solene acordo que vos trouxe satisfação a todos Vós, fomos movidos da solicitude impendiosa de salvaguardar a liberdade da missão salvadora da Igreja na Alemanha e de assegurar a salvação das almas a ela confiadas, e, ao mesmo tempo, do sincero desejo de prestar um serviço de interesse capital ao pacífico desenvolvimento e bem-estar do povo alemão.
4. Apesar de muitas e graves preocupações, chegamos então, não sem esforço, à determinação de não negar o Nosso consentimento. Queríamos poupar aos Nossos fiéis, aos Nossos filhos e Nossas filhas da Alemanha, segundo as possibilidades humanas, as tensões e tribulações que, em caso contrário, certamente deviam ter esperado, dadas as condições dos tempos. E queríamos demonstrar pelo fato a todos que Nós, procurando só a Cristo e o que pertence a Cristo, não negamos a ninguém — caso ele mesmo não a despreze — a mão pacífica da Madre Igreja.

 

5. Se a árvore da paz, que plantamos em terras da Alemanha com intenção pura, não produziu os frutos por Nós almejados no interesse do vosso povo, não haverá no mundo inteiro homem que, tendo olhos para ver e ouvidos para ouvir, possa atribuir ainda hoje a culpa à Igreja e ao seu Supremo Chefe. A experiência dos anos passados põe em claro as responsabilidades, e revela as maquinações que já desde o começo nada intentavam senão uma luta até ao aniquilamento.

 

6. Nos sulcos, em que Nos esforçamos por lançar a semente da verdadeira paz, outros espargiram — como o inimicus homo da Sagrada Escritura (Mt 13,25) — a erva má da desconfiança, da discórdia, do ódio, da difamação, de uma aversão profunda, oculta e aberta, contra Cristo e sua Igreja, desencadeando uma luta que se alimentou de mil fontes diversas e se serviu de todos os meios. Sobre eles e unicamente sobre eles e seus fautores, ocultos ou abertos, recai a responsabilidade, se no horizonte da Alemanha aparecem, não o arco-íris da paz, mas as nuvens ameaçadoras de dissolventes lutas religiosas.

 

7. Veneráveis Irmãos, não Nos cansamos de apresentar aos governantes, responsáveis pela sorte da vossa nação, as consequências que necessariamente derivariam da tolerância ou, pior ainda, da fomentação daquelas correntes. Fizemos tudo para defender a santidade da palavra solenemente dada, a inviolabilidade das obrigações livremente contraídas, contra teorias e práticas que, oficialmente admitidas, deveriam sufocar toda confiança e desvalorizar intrinsecamente toda palavra dada, também para o futuro. Se vier o momento de expor aos olhos do mundo estes Nossos esforços, todos os bem intencionados saberão onde procurar os tutores da paz e onde seus perturbadores. Quem quer que tenha conservado na sua alma um resquício de amor da verdade e no seu coração uma sombra de senso de justiça, deverá admitir que nos anos difíceis e cheios de casos notáveis que seguiram à Concordata, cada uma das Nossas palavras e ações teve por norma a fidelidade aos acordos sancionados. Mas deverá também reconhecer, com estupor e íntima repulsa, como doutro lado tornou-se regra ordinária dar aos pactos outro sentido, iludi-los, desvirtuá-los e finalmente violá-los mais ou menos abertamente.

 

8. A moderação que não obstante tudo isto Nós até agora demonstramos não foi inspirada por cálculos de interesses terrenos, nem tão pouco por fraqueza, mas simplesmente pela vontade de não arrancar, com a herva má, também boas plantas; pela decisão de não pronunciar publicamente um juízo antes que os ânimos estivessem maduros para reconhecer a inelutabilidade; pela determinação de não negar definitivamente a fidelidade de outros à palavra dada, antes que a dura linguagem da realidade tivesse rasgado os véus, com que se soube e ainda se procura mascarar, conforme um plano preestabelecido, o ataque à Igreja. Ainda hoje, quando a luta aberta contra as escolas confessionais, protegidas pela Concordata, e o aniquilamento da liberdade de voto daqueles que têm direito à educação católica, manifestam, num campo particularmente vital da Igreja, a trágica seriedade da situação e uma pressão espiritual jamais vista dos fiéis, a solicitude paternal pelo bem das almas nos aconselha a não perder de vista as perspectivas porquanto fracas que ainda possam existir de uma volta à fidelidade aos pactos e a um acordo justificável.

 

9. Acedendo aos pedidos dos Reverendíssimos Membros do Episcopado, não Nos cansaremos, também no futuro, de defender o direito violado, junto ao governo de vosso povo — sem cuidado do sucesso ou fracasso do momento presente — obedecendo unicamente à Nossa consciência e Nosso Ministério Pastoral, e não cessaremos de Nos opor a uma mentalidade que procura, com aberta ou oculta violência, sufocar o direito, garantido por documentos.

 

10. No entanto, o fim desta carta é outro, Veneráveis Irmãos. Como Vós Nos tendes visitado amavelmente em Nossa doença, assim voltamos Nós hoje a Vós e, por Vosso intermédio, aos fiéis católicos da Alemanha, que, como todos os filhos atribulados e perseguidos, estão muito perto do coração do Pai comum. Nesta hora, em que sua fé é provada, como ouro genuíno, no fogo da tribulação e perseguição, insidiosa ou aberta; em que eles são rodeados de mil formas de organizada opressão da liberdade religiosa; em que a impossibilidade de obter informações conformes à verdade e de defender-se com meios normais muito os abate, eles têm um duplo direito a uma palavra de verdade e encorajamento moral por parte daquele a cujo primeiro predecessor o Salvador dirigiu esta compendiosa palavra: Rezei por ti, para que tua fé não vacile, e tu, por tua vez, fortifica os teus irmãos (Lc 22,32).

 

Genuína fé em Deus.

 

11. Antes de tudo, Veneráveis Irmãos, cuidai que a fé em Deus, primeiro e insubstituível fundamento de toda a religião, continue a ser pura e inteira nas regiões da Alemanha. Não pode considerar-se crente em Deus o que usa o nome de Deus retoricamente, mas só quem une a esta veneranda palavra a genuína e digna noção de Deus.

 

12. Quem com imprecisão panteística identifica Deus com o universo, materializando Deus no mundo e divinizando o mundo em Deus, não pertence aos verdadeiros fiéis.

 

13. Nem é tal quem, de acordo com uma pretensa concepção precristã do antigo germanismo, coloca em lugar do Deus pessoal o fado sinistro e impessoal, negando a sabedoria divina e sua providência, a qual “com força e suavidade domina duma extremidade da terra à outra” (Sab 8,1), e tudo dirige a um bom fim. Um tal homem não pode pretender ser enumerado entre os verdadeiros crentes.

 

14. Se a raça e o povo, se o Estado e uma sua determinada forma, se os representantes do poder estatal ou outros elementos fundamentais da sociedade humana possuem, na ordem natural, um posto essencial e digno de respeito — quem, no entanto, os destaca desta escala de valores terrenos, elevando-os à suprema norma de tudo, também dos valores religiosos, e divinizando-os com culto idólatra, inverte e falsifica a ordem, criada e imposta por Deus, está longe da verdadeira fé em Deus e de uma concepção de vida conforme a ela.

 

15. Volvei, Veneráveis Irmãos, a atenção ao vezo crescente, que se manifesta em palavras e escritos, de abusar do três vezes santo nome de Deus qual rótulo sem sentido para um produto mais ou menos arbitrário de pesquisas e aspirações humanas. Esforçai-vos que tais aberrações encontrem, entre vossos fiéis, merecida e pronta repulsa. Nosso Deus é o Deus pessoal, transcendente, todo-poderoso, infinitamente perfeito, um na trindade das pessoas e trino na unidade da essência divina, criador do universo, senhor, rei e último fim da história do mundo, o qual não admite, nem pode admitir outras divindades a seu lado.

 

16. Este Deus tem dado seus mandamentos de maneira soberana, mandamentos independentes do tempo e do espaço, de país ou raça. Como o sol de Deus resplende indistintamente sobre todo o gênero humano, assim a sua lei não conhece privilégios nem exceções. Governantes e governados, coroados e não-coroados, grandes e pequenos, ricos e pobres dependem igualmente de sua palavra. Da totalidade de seus direitos de Criador promana essencialmente a sua exigência a uma obediência absoluta da parte dos indivíduos e de quaisquer sociedades. E esta exigência de obediência absoluta se estende a todas as esferas da vida, nas quais as questões morais exigem o acordo com a lei divina e, com isto mesmo, a harmonização das mutáveis leis humanas com o complexo das imutáveis ordens divinas.

 

17. Somente espíritos superficiais podem cair no erro de falar de um Deus nacional, de uma religião nacional, e empreender a tola tentativa de captar nos limites de um só povo, na estreiteza de uma só raça, Deus, Criador do mundo, rei e legislador dos povos, diante de cuja grandeza as nações são pequenas como gotas de água que caem dum balde (Is 40,15).

 

18. Os bispos da Igreja de Cristo, “constituídos a favor dos homens naquelas coisas que se referem a Deus” (Heb 5,1), devem vigiar que não se espalhem entre os fiéis tão perniciosos erros a que costumam seguir práticas ainda mais perniciosas. Pertence ao seu sagrado ministério de fazer todo o possível, a fim de que os mandamentos de Deus sejam considerados e praticados quais obrigações inconcussas de uma vida moral e ordenada, seja particular ou seja pública; que os direitos da Majestade divina, o nome e a palavra de Deus não sejam profanados (Tito 2,5); que as blasfêmias contra Deus, em palavras, escritos ou figuras, numerosas, quiçá, como a areia do mar, sejam reduzidas a silêncio; que diante do espírito revoltoso e arrogante dos que negam, ultrajam e odeiam a Deus não enlanguesça a prece expiatória dos fiéis, que sobe, qual incenso, a toda hora ao trono do Altíssimo, retendo a sua mão vingadora.

 

19. Agradecemos, Veneráveis Irmãos, a vós, a vossos sacerdotes e a todos os fiéis que, na defesa dos direitos da divina Majestade contra um provocante neo-paganismo, apoiado infelizmente por personagens influentes, tendes cumprido e cumpris o vosso dever de cristãos. Este agradecimento é particularmente íntimo e unido a uma admiração reconhecida por aqueles que, no cumprimento deste seu dever, foram julgados dignos de suportar por amor de Deus sacrifícios e sofrimentos.

 

Genuína fé em Jesus Cristo.

 

20. A fé em Deus não se manterá por muito tempo pura e incontaminada, se não se apoia na fé em Jesus Cristo. “Ninguém conhece o Filho senão o Pai, nem alguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11,27). A vida eterna é esta: que te conheçam a ti como um só Deus verdadeiro e a Jesus Cristo, a quem enviaste (Jo 17,3). Ninguém, pois, pode dizer: Creio em Deus, e isto basta para minha religião. A palavra do Redentor não nos permite subterfúgios deste quilate. “Todo aquele que nega o Filho, também não reconhece o Pai; aquele que confessa o Filho, reconhece o Pai” (1 Jo 2,23).

 

21. Em Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem, apareceu a plenitude da revelação divina. “Deus, tendo falado outrora muitas vezes e de muitos modos a nossos pais pelos profetas, ultimamente, nestes dias, falou-nos por meio de seu Filho” (Heb 1,1 ss.). Os livros sagrados do antigo testamento são todos palavra de Deus, parte orgânica de sua revelação. De acordo com o desenvolvimento gradual da revelação sobre eles pousa o crepúsculo do tempo que devia preparar o pleno meio-dia da revelação. Em umas partes fala-se da imperfeição dos homens, da sua fraqueza e do pecado, como não podia ser diversamente em se tratando de livros de história e legislação. Ao lado das coisas belas e nobres, falam da tendência superficial e material que diversas vezes invadiu o povo do antigo testamento, depositário da revelação e das promessas de Deus. Mas a toda a vista, não cegada pelos preconceitos e paixões, não pode senão raiar mais luminosa, não obstante a fraqueza humana de que trata a história bíblica, a luz divina do caminho da salvação, que, finalmente, triunfa de todas as fraquezas e pecados.

 

22. E justamente neste fundo, muitas vezes escuro, a pedagogia divina da salvação se alarga em perspectivas, que, ao mesmo tempo, dirigem, admoestam, sacodem, elevam e tornam felizes. Unicamente a cegueira e soberba pode fechar os olhos diante dos tesouros de salutares ensinamentos, contidos no antigo testamento. Quem pois quer ver banida da Igreja e da escola a história bíblica e os sábios ensinamentos do antigo testamento, blasfema a palavra de Deus, blasfema o plano de salvação do Todo-poderoso e arvora em juiz dos planos divinos um angusto e estreito pensar humano. Ele nega a fé em Jesus Cristo, aparecido na realidade de sua carne, que tomou a natureza humana de um povo que devia depois pregá-lo na cruz. Nada compreende do drama mundial do Filho de Deus, que ao crime de seus algozes opôs, qual sumo sacerdote, a ação divina da morte salvadora e fez assim encontrar o antigo testamento o seu cumprimento, o seu fim e a sua sublimação em o novo testamento.

 

23. A revelação que culminou no evangelho de Jesus Cristo é definitiva e obrigatória para sempre, não admite apêndices de origem humana e, menos ainda, sucedâneos ou substituições e “revelações” arbitrárias que alguns palradores modernos quiseram derivar do assim chamado mito do sangue e da raça. Desde que Cristo, o Ungido do Senhor, cumpriu a obra da redenção, quebrando o domínio do pecado e merecendo-nos a graça de nos tornarmos filhos de Deus, já nenhum outro nome foi dado aos homens, sob o céu, pelo qual nós devemos ser salvos, senão o nome de Jesus (At 4,12). Ainda que um homem possua todo saber, todo poder e todo o domínio material da terra, não pode pôr outro fundamento, senão o que foi posto por Cristo (1 Cor 3,11). E quem, com sacrílego desconhecimento da diversidade essencial entre Deus e a criatura, entre o Homem-Deus e o simples homem, ousasse pôr ao lado de Cristo ou, o que é pior ainda, acima dele e contra ele, um simples mortal, fosse ele o mais perfeito de todos os tempos, saiba que é um profeta de quimeras, a quem pavorosamente assentam as palavras da Escritura: “Aquele que habita no céu zombará deles” (Ps 24).

 

Genuína fé na Igreja.

 

24. A fé em Jesus Cristo não se conservará pura e incontaminada se não for sustentada e defendida pela fé na Igreja, coluna e fundamento da verdade (1 Tim 3,15). Cristo próprio, Deus bendito eternamente, levantou esta coluna da fé; o seu mandamento de escutar a Igreja (Mt 18,17) e de ouvir, através as palavras e os mandamentos da Igreja, as suas próprias palavras e mandamentos (Lc 10,16), vale para os homens de todos os tempos e de todos os países. A Igreja, fundada pelo Salvador, é a única para todos os povos e todas as nações.

 

25. Sob sua cúpula, que levanta seus arcos como o firmamento sobre o universo inteiro, encontram lugar e asilo todos os povos e todas as línguas, e podem desenvolver-se todas as propriedades, qualidades, missões e funções que foram assinadas por Deus Criador e Salvador aos indivíduos e à sociedade humana. O amor maternal da Igreja é bastante largo para ver no desenvolvimento, conforme à vontade de Deus, destas particularidades e funções peculiares, antes a riqueza da variedade que o perigo de cisão; alegra-se pelo elevado nível espiritual dos indivíduos e povos. Vê, com alegria e ufania maternais, nas suas genuínas atuações, frutos de edificação e progresso, que abençoa e promove todas as vezes que o pode de boa consciência. Mas sabe também que a esta liberdade foram assinalados limites pela lei da divina Majestade, que quis e fundou esta Igreja como unidade inseparável nas suas partes essenciais. Quem atentar contra esta unidade inseparável, arrebata à Esposa de Cristo um dos diademas com que o próprio Deus a coroou. Submete o edifício divino, que pousa sobre fundamentos eternos, ao exame e transformação de arquitetos a que o Pai celeste não concedeu poderes para tanto.

 

26. A divina missão, que a Igreja cumpre entre os homens, e deve cumprir por meio de homens, pode ser dolorosamente obscurecida pelo elemento humano, quiçá humano demais, que, em certos tempos, viceja como herva má entre o trigo do reino de Deus. Quem conhece a palavra do Redentor sobre o escândalo e os que o dão, sabe como a Igreja e todo indivíduo deve julgar o que foi e o que é pecado. Mas quem, fundando-se sobre estes lamentáveis contrastes entre fé e vida, entre palavras e ação, entre atitude exterior e interior de alguns — e fossem eles muitos — esquece, ou conscientemente passa em silêncio este imenso cabedal de genuíno esforço pela virtude, o espírito de sacrifício, o amor fraterno, o heroísmo de santidade de tantos membros da Igreja, manifesta uma cegueira injusta e reprovável. E quando depois se vê que esta rígida norma com que ele julga a Igreja odiada, é posta de lado se se trata de outras sociedades que lhe são mais acessíveis por interesse ou sentimento, manifesta-se então que, aparentando-se ofendido no seu pretenso senso de purismo, se assemelha com os que, conforme a palavra incisiva do Salvador, veem a palha no olho do irmão, mas não percebem a trave no próprio. Ainda que não seja pura a intenção dos que fazem da ocupação com o humano na Igreja sua vocação ou até um baixo negócio, e ainda que o poder dos portadores da dignidade eclesiástica que se funda em Deus não dependa de sua elevação humana e moral, não há época, nem indivíduo, nem sociedade que não devia seriamente examinar a consciência, purificar-se inexoravelmente, renovar profundamente seu sentir e proceder. Em Nossa Encíclica sobre o sacerdócio e a Ação Católica temos, com suplicante insistência, atraído a atenção de quantos pertencem à Igreja, e sobretudo dos eclesiásticos, religiosos e leigos que colaboram no apostolado, sobre o sagrado dever de estabelecer entre fé e conduta a harmonia exigida pela lei de Deus e pedida com incansável solicitude pela Igreja.

 

27. Também hoje repetimos com funda gravidade: não é suficiente pertencer à Igreja de Cristo. É necessário ser em espírito e verdade membro vivo desta Igreja. E tais são somente os que estão na graça do Senhor e continuamente andam em sua presença, seja na inocência ou seja na penitência sincera e operosa. Se o apóstolo das gentes, “o vaso de eleição”, castigava o seu corpo, para que não sucedesse que, tendo pregado aos outros, ele mesmo viesse a ser réprobo, pode então haver para os outros, em cujas mãos é colocada a guarda e dilatação do reino de Deus, caminho diverso do da íntima união do apostolado e da santificação própria? Só assim se demonstrará aos homens de hoje e, em primeiro lugar, aos inimigos da Igreja, que o sal da terra e o fermento do cristianismo não se tornou ineficaz, mas é poderoso e capaz de trazer renovamento e rejuvenescimento aos que estão na dúvida e no erro, na indiferença e perplexidade espiritual, no relaxamento da fé e afastamento de Deus, de que eles — admitam ou o neguem — precisam mais que nunca. Uma cristandade, em que todos os membros vigiem sobre si mesmos, que repila toda tendência puramente exterior e mundana, que se atenha seriamente aos mandamentos de Deus e na ativa caridade do próximo, poderá e deverá ser exemplo e guia do mundo profundamente enfermo que procura esteio e direção, se se não quer que sobrevenha um desastre indizível e uma catástrofe inimaginável.

 

28. Toda reforma genuína e duradoura teve propriamente origem no santuário, de homens inflamados e movidos de amor de Deus e do próximo. Eles, por sua grande generosidade de corresponder a todos os apelos de Deus e pô-los em prática antes de tudo em si próprios, cresceram em humildade e, com a segurança de quem é chamado por Deus, iluminaram e renovaram seu tempo. Onde o zelo da reforma não brota do puro manancial da integridade pessoal, mas foi efeito da explosão de impulsos apaixonados, em vez de iluminar ofuscou, em vez de construir destruiu, e foi bastas vezes ponto de partida de erros mais funestos do que o mal a que queriam ou pretendiam remediar. Certamente, o Espírito de Deus sopra onde quer (Jo 3,3), ele pode suscitar das pedras os executores de seus desígnios (Mt 3,9; Lc 3,8), e escolhe os instrumentos de sua vontade de acordo com os seus planos, e não os dos homens. No entanto, ele, que fundou a Igreja e a chamou à vida no dia de Pentecostes, não destrói a estrutura fundamental da salutar instituição, por ele próprio querida. Quem é movido do espírito de Deus por isto mesmo possui uma atitude exterior e interior respeitosa para com a Igreja, nobre fruto da árvore da cruz, dom do Espírito do Pentecostes ao mundo tão necessitado de guia.

 

29. Em vossas regiões, Veneráveis Irmãos, se elevam, em coro, vozes sempre mais fortes que incitam a separar-se da Igreja. E entre os seus pioneiros encontram-se homens que, por sua posição oficial, procuram produzir a impressão de que esta debandada da Igreja e, por conseguinte, infidelidade a Cristo-Rei, seja uma prova particularmente evidente e meritória de sua fidelidade ao regime presente. Com pressões, ocultas ou abertas, intimidações, perspectivas de desvantagens econômicas, profissionais, civis ou de outra espécie, o apego à fé dos católicos e, especialmente, de algumas classes de funcionários públicos, é submetido a uma violentação tanto ilegal quanto desumana. Toda Nossa compaixão de pai e mais profundo pesar, aos que tão caro pagaram o seu apego a Cristo e à Igreja. Mas aqui já se chegou ao ponto onde está em jogo o fim último e mais alto, a salvação ou perdição, e logo o único caminho de salvação que resta aos crentes é o caminho de um generoso heroísmo. Quando o tentador ou opressor se lhe aproxima com as insinuações traidoras de sair da Igreja, então não poderá senão contrapor-lhe, ainda que ao preço dos mais graves sacrifícios terrenos, a palavra do Salvador: “Vai-te, Satanás, porque está escrito: O Senhor teu Deus adorarás, e a ele só servirás” (Mt 4,8; Lc 4,8). À Igreja, ao invés, dirá: Tu, que és minha Mãe desde os dias de minha primeira infância, meu conforto na vida, minha advogada na morte, apegue-se-me a língua às fauces, se eu, cedendo a lisonjas ou ameaças, traísse as promessas do batismo. Aos que opinam poder conciliar com o externo abandono da Igreja a fidelidade interna a ela, seja lembrada a palavra do Salvador: “Quem me nega diante dos homens, eu o renegarei diante de meu Pai que está no céu” (Lc 12,9).

 

Genuína fé no primado.

 

30. A fé na Igreja não se manterá pura e incontaminada se não se apoiar na fé no Primado do Bispo de Roma. No mesmo momento, em que Pedro, prevenindo os outros apóstolos e discípulos, professou a sua fé em Cristo, Filho de Deus vivo, o anúncio da fundação de sua Igreja, da única Igreja, sobre Pedro, a rocha (Mt 16,18), foi a resposta de Cristo, recompensa de sua fé e profissão. A fé em Cristo, na Igreja e no Primado estão por isto em sagrado liame de interdependência. Uma autoridade legítima e legal é sobretudo um vínculo de unidade e fonte de forças, defesa contra o esfacelamento e a desagregação, garantia do porvir. E isto se verifica, no sentido mais alto e mais nobre, onde, como no caso da Igreja, a esta autoridade é prometida a assistência sobrenatural do Espírito Santo e o seu apoio invencível. Se homens, que nem são unidos na sua fé em Cristo, vos seduzem e lisonjeiam com o fantasma duma “Igreja nacional alemã”, sabei que isto não é outra coisa senão renegar a única Igreja de Cristo, numa apostasia manifesta do mandado de Cristo de evangelizar todo o orbe, o que só uma igreja universal pode realizar. O desenvolvimento histórico de outras igrejas nacionais, a sua petrificação espiritual, a sua sufocação e escravização pelos poderes leigos mostram a desolante esterilidade que, com inelutável certeza, atinge o ramo separado da videira vital da Igreja. Quem opõe a estes errôneos desenvolvimentos, desde o começo, seu pronto e inexorável não, rende serviço, não só à pureza de sua fé, mas também à saúde e força vital de seu povo.

 

Não adulterar noções e termos sagrados.

 

31. Veneráveis Irmãos, tende um ouvido particularmente atento, quando noções religiosas são desvirtuadas de seu sentido genuíno e aplicadas a significações profanas.

 

32. Revelação, em sentido cristão, significa a palavra de Deus aos homens. Usar este mesmo termo para sugestões provenientes do sangue e da raça, para irradiações da história de um povo, é, em todo caso, causar desorientação. Estas falsas moedas não merecem passar do tesouro linguístico do fiel cristão.

 

33. A fé consiste em ter por verdade o que Deus revelou e impõe a crer por intermédio da Igreja. É “uma demonstração das coisas que não se veem” [Heb 9,1]. A confiança alegre e ufanosa no porvir do próprio povo, cara a todos, significa bem outra coisa que a fé em sentido religioso. Usar uma pela outra e pretender com isso ser reconhecido como “crente” por um cristão convicto, é um vão jogo de palavras, uma consciente confusão de termos, ou pior ainda.

 

34. A imortalidade, em sentido cristão, é a sobrevivência do homem depois da morte terrena, como ser individual, para a eterna recompensa ou o eterno castigo. Quem com a palavra imortalidade não quer indicar senão uma sobrevivência coletiva na continuidade do próprio povo, para um porvir de indeterminada duração neste mundo, perverte e falsifica uma das verdades fundamentais da fé cristã e abala os fundamentos de qualquer concepção religiosa que exija uma ordem moral universal. Quem não quiser ser cristão, renuncie ao menos a querer enriquecer o vocabulário de sua incredulidade com o patrimônio linguístico cristão.

 

35. O pecado original é a culpa hereditária, própria, se bem que não pessoal, de cada um dos filhos de Adão, que nele pecaram (Rom 5,12), é a perda da graça e, por conseguinte, da vida eterna, acompanhada da concupiscência que cada qual deve sufocar e domar por meio da graça, da penitência, da luta e do esforço moral. A paixão e morte do Filho de Deus remiu o mundo do maldito apanágio da morte e do pecado. A fé nesta verdade, feita hoje objeto de baixo ludíbrio dos inimigos de Cristo em vossa pátria, pertence ao depósito inalienável da religião cristã.

 

36. A cruz de Cristo, também se seu só nome se tornou para muitos loucura e escândalo, é para o cristão o sinal sagrado da redenção, a bandeira da grandeza e força moral. Na sua sombra vivemos. No seu amplexo morremos. Sobre a nossa campa estará a anunciar a nossa fé, testemunho de nossa esperança que está na vida eterna.

 

37. A humildade no espírito do evangelho e a imploração do auxílio de Deus harmonizam bem com a própria dignidade, com a confiança em si mesmo e o heroísmo. A Igreja de Cristo, que, em todos os tempos, até nos que nos estão mais próximos, conta mais confessores e mártires heróis que qualquer outra sociedade moral, não tem necessidade de receber, nesta matéria, ensinamentos sobre o sentimento e ação heroicas. Ao apresentar tolamente a humildade cristã como aviltamento e mesquinhez, a repugnante soberba destes inovadores se torna ridícula a si própria.

 

38. Graça, em sentido lato, pode chamar-se tudo que a criatura recebe do Criador. Graça, no sentido cristão da palavra, compreende as provas sobrenaturais do divino amor, as mercês e obras de Deus pelas quais eleva o homem a esta íntima comunhão de sua vida, que o novo testamento chama de filiação divina. “Considerai que amor nos mostrou o Pai: que sejamos chamados filhos de Deus e que o sejamos na realidade” (1 Jo 3,1). O repúdio desta elevação sobrenatural à graça, por motivo de uma pretensa particularidade do caráter germânico, é uma aberta declaração de guerra a uma verdade fundamental do cristianismo. Equiparar a graça sobrenatural aos dons naturais é violentar a linguagem criada e santificada pela religião. Os pastores e guardas do povo de Deus farão bem em opor-se a este furto sacrílego e a este trabalho de desnorteamento dos espíritos.

 

Doutrina e ordem moral.

 

39. Sobre a fé em Deus, genuína e pura, se alicerça a moralidade do gênero humano. Todas as tentativas de separar a doutrina da ordem moral da base granítica da fé, para reconstruí-la sobre a areia movediça de normas humanas, levam, cedo ou tarde, indivíduos e nações à decadência moral. O insensato que diz no seu coração: “Não há Deus” (Ps 13, 1 ss.) resvalará na corrupção moral. E estes insensatos, que presumem separar a moral da religião, são hoje legião. Não enxergam ou não querem enxergar que, banindo o ensino confessional clara e determinadamente cristão da escola e educação, impedindo-o de contribuir à formação da sociedade e vida pública, se aventuram por caminhos de empobrecimento e decadência moral. Nenhum poder corretivo do estado, nenhum ideal puramente terreno, porquanto alto e nobre, poderá substituir, por muito tempo, os mais profundos e decisivos estímulos que provêm da fé em Deus e Jesus Cristo. Se ao que é chamado às mais altas renúncias, ao sacrifício de seu pequeno eu em bem da comunidade, se toma o apoio que lhe vem do eterno e divino, da fé elevante e consoladora naquele que premeia todo o bem e castiga todo o mal, então o resultado final para inumeráveis homens não será fidelidade ao dever, mas muitas vezes deserção. A observância fiel dos dez mandamentos de Deus e dos preceitos da Igreja, não sendo os últimos senão regulamentos derivados das normas do Evangelho, é para todo o indivíduo uma incomparável escola de disciplina orgânica, de revigoramento moral e formação do caráter. É uma escola que muito exige; mas não acima das forças. Deus misericordioso, quando como legislador ordena: “Tu deves”, dá, com sua graça, a possibilidade de executar sua ordem. Deixar, pois, inutilizadas energias morais de tão poderosa eficácia, ou obstruir-lhes conscientemente o caminho no campo da instrução pública, é obra de irresponsáveis, que tende a produzir a deficiência religiosa no povo. Confundir a doutrina moral com opiniões humanas, subjetivas e mutáveis no tempo, em vez de ancorá-la na santa vontade de Deus e seus mandamentos, iguala a escancarar as portas às forças dissolventes. Portanto, promover o abandono das eternas diretivas de uma doutrina moral para a formação das consciências, para o nobilitamento de todas as esferas da vida e todos os regulamentos, é atentado pecaminoso contra o porvir do povo, cujos tristes frutos amargurarão as gerações futuras.

 

Reconhecimento do direito natural.

 

40. É um característico nefasto do tempo presente querer separar não só a doutrina moral, mas ainda os fundamentos do direito e de sua administração, da verdadeira fé em Deus e das normas da revelação divina. Nosso pensamento se volve aqui ao que se sói chamar o direito natural, que o dedo do mesmo Criador gravou nas tábuas do coração humano (Rom 2,14 ss), e que a razão humana, sã e não obscurecida por pecados e por paixões, pode nelas decifrar. À luz das normas deste direito natural, todo direito positivo, seja qual for seu legislador, pode ser aquilatado no seu conteúdo ético e, por conseguinte, na sua força ordenativa e obrigatoriedade de cumprimento. Estas leis humanas, que contrastam insoluvelmente com o direito natural, são afetadas de erro original, não sanável nem por constrangimento nem por desdobramento de força externa. Segundo este critério, julgue-se o princípio: “Direito é aquilo que é útil à nação”. Certamente, a este princípio pode dar-se um sentido justo, se se entende que aquilo que é moralmente ilícito jamais será realmente vantajoso ao povo. Entretanto, já o antigo paganismo compreendeu que, para ser justa, esta frase deve ser invertida e soar: “Jamais alguma coisa é vantajosa, se ao mesmo tempo não é moralmente boa, e não por ser vantajosa é moralmente boa, mas por ser moralmente boa é vantajosa” (Cícero, De officiis 3,33). Este princípio, destacado da lei ética, significaria, no que concerne à vida internacional, um eterno estado de guerra entre as nações. Na vida nacional desconhece, confundindo interesse e direito, o fato fundamental que o homem, enquanto pessoa, está de posse de direitos, concedidos por Deus, que devem ser defendidos contra toda investida da comunidade que os queira negar, abolir e interceptar-lhes o exercício. Desprezando esta verdade, perde-se de vista que o verdadeiro bem comum, em última análise, é determinado e conhecido mediante a natureza do homem, com seu harmonioso equilíbrio entre o direito pessoal e o liame social, como também do fim da sociedade determinado pela mesma natureza humana. A sociedade é estimada pelo Criador como meio para o pleno desenvolvimento das faculdades individuais e sociais, das quais o homem há de se valer, ora dando ora recebendo para seu bem e o do próximo. Também os valores mais universais e mais altos que só podem ser realizados não pelo indivíduo, mas pela sociedade, têm, por vontade de Deus, como último fim, o desenvolvimento e perfeição do homem natural e sobrenatural. Quem se afasta desta ordem, abala as pilastras sobre que repousa a sociedade, e põe em perigo sua tranquilidade, segurança e existência.

 

41. O crente possui um direito inalienável de professar sua fé e de praticá-la na forma que a ela convém. As leis que suprimem ou tornam difícil a profissão e prática desta fé estão em oposição com o direito natural.

 

42. Os pais conscienciosos e conscientes de sua missão educativa têm, antes de qualquer outro, o direito essencial à educação dos filhos que Deus lhes deu, segundo o espírito da verdadeira fé e de acordo com seus princípios e prescrições. Leis ou outras semelhantes disposições que, na questão escolar, não respeitam a vontade dos pais ou a tornam ineficaz pelas ameaças ou violências, estão em contradição com o direito natural e em sua íntima essência são imorais.

 

43. A Igreja, cuja missão é vigiar e interpretar o direito natural, não pode fazer outra coisa senão declarar serem efeito de violência e, portanto, privadas de todo o valor jurídico, as inscrições escolásticas feitas recentemente, em uma atmosfera de notório tolhimento de liberdade.

 

À juventude.

 

44. Representante daquele que no evangelho disse a um jovem: Se queres entrar na vida eterna observa os mandamentos (Mt 19,17), dirigimos uma palavra particularmente paterna à juventude.

 

45. De mil bocas hoje se repete aos vossos ouvidos um evangelho que não foi revelado pelo Pai do céu. Milhares de penas escrevem a serviço de um pseudo-cristianismo que não é o cristianismo de Cristo. Imprensa e rádio inundam-vos diariamente com produções de conteúdo inimigo da fé e de Deus, e, sem consideração e respeito, atacam tudo o que vos é sagrado e santo.

 

46. Sabemos que muitíssimos dentre vós, por seu apego à fé e à Igreja e por pertencerem a uma associação religiosa, garantidos pela Concordata, deveram e devem atravessar períodos trevosos de falta de compreensão, de suspeitas, de invectivas, de acusação de antipatriotismo, de múltiplas desvantagens profissionais e sociais. E bem sabemos como muitos desconhecidos soldados de Cristo se acham em vossas fileiras, que com o coração confrangido mas a fronte elevada suportam sua sorte e acham conforto no só pensamento de que sofrem afrontas pelo nome de Jesus (At 5,41).
47. E hoje, que ameaçam novos perigos e novas compressões, dizemos a esta juventude: Se alguém vos quisesse anunciar um evangelho diverso daquele que haveis recebido, sobre os joelhos de uma piedosa mãe, dos lábios de um pai crente, na doutrina de um educador fiel a Deus e à sua Igreja, seja ele anátema (Gál 1,9).

 

48. Se o Estado organiza a juventude em associação nacional obrigatória para todos, então, resguardados sempre os direitos das associações religiosas, os jovens têm o direito óbvio e inalienável, e com eles os pais responsáveis por eles diante de Deus, de exigir que ela seja purgada de toda tendência hostil à fé cristã e à Igreja, tendência que até recentíssimo passado, e ainda presentemente, acorrenta os pais crentes em insolúvel conflito de consciência, pois que não podem dar ao Estado o que deles é exigido em nome do Estado, sem tomar a Deus o que pertence a Deus.
49. Ninguém cogita em pôr à juventude da Alemanha pedras de tropeço no caminho que a deverá conduzir à atuação de uma verdadeira unidade nacional e fomentar um nobre amor pela liberdade e um inabalável devotamento à pátria. Ao que Nos opomos e Nos devemos opor é ao contraste querido e sistematicamente atiçado, mediante o qual se separam estas finalidades educativas das religiosas. Por isto, dizemos a esta juventude: Cantai os vossos hinos de liberdade, mas não vos esqueçais que a verdadeira liberdade é a liberdade dos filhos de Deus. Não permitais que a nobreza desta insubstituível liberdade se emaranhe nos laços servis do pecado e da concupiscência. Ao que canta o hino de fidelidade à pátria terrestre não é lícito tornar-se desertor e traidor pela infidelidade a seu Deus, à sua Igreja e sua pátria eterna. Muito vos falam de uma grandeza heroica, contrapondo-a voluntária e falsamente à humildade e paciência evangélica, mas por que vos ocultam que há também um heroísmo na luta moral? e que a conservação da pureza batismal representa uma ação heroica que deveria ser apreciada devidamente no campo religioso e natural? Falam-vos das fragilidades na história da Igreja, mas por que vos ocultam os grandes feitos que a acompanham através dos séculos, os santos que produziu, a vantagem que adveio à cultura ocidental da união vital entre esta Igreja e vosso povo? Falam-vos muito de exercícios desportivos, que, usados numa bem entendida medida, dão vigor físico, o que é um benefício para a juventude. Mas a eles é assinalada, muitas vezes, hoje, uma extensão que não tem em conta nem a formação integral e harmoniosa do corpo e espírito, a conveniente cultura da vida familiar, nem o mandamento de santificar o dia do Senhor. Com uma indiferença que toca às raias do desprezo tira-se ao dia do Senhor seu caráter sagrado e recolhido, que tanto corresponde às melhores tradições alemãs. Esperamos confiadamente dos jovens alemães católicos que eles, no difícil ambiente das organizações obrigatórias do Estado, reivindiquem explicitamente o dia do Senhor, que o cuidado de robustecer o corpo não os faça esquecer sua alma imortal, que não se deixem vencer pelo mal, mas procurem vencer o mal com o bem (Rom 12,21), que considerem como sua altíssima meta a de conquistar a coroa da vitória no estádio da vida eterna (1 Cor 9,24, s.).
Aos sacerdotes e religiosos.
50. Uma palavra de particular reconhecimento, de exortação, dirigimos aos sacerdotes da Alemanha, aos quais, em submissão aos seus bispos, compete a missão de, em tempos difíceis e circunstâncias duras, mostrar à grei de Cristo os caminhos retos, em doutrina e exemplo, e dedicação e paciência apostólica. Não vos canseis, filhos diletos e participantes dos divinos mistérios, de seguir o eterno sumo sacerdote Jesus Cristo no amor e ofício de bom samaritano. Andai sempre em conduta imaculada diante de Deus, disciplinando e aperfeiçoando-vos, em amor misericordioso para com todos que vos são confiados, especialmente os que perigam, fraquejam e vacilam. Sede guias dos fiéis, apoio dos atribulados, mestres dos que estão em dúvida, consoladores dos aflitos, desinteressados assistentes e conselheiros de todos. As provas e sofrimentos, por que passou o povo no período após-guerra, não passaram sem deixar traços em sua alma. Deixaram tensões e amarguras que só lentamente se cicatrizarão e serão superadas pelo espírito de amor desinteressado e operoso. Este amor, arma indispensável ao apóstolo, especialmente no mundo presente, agitado e revolto, Nós o desejamos e imploramos para vós de Deus em medida copiosa. O amor apostólico, se não vos faz esquecer, vos fará ao menos perdoar muitas imerecidas amarguras, que no vosso caminho de sacerdotes e pastores de almas são mais numerosas que em qualquer outro tempo. Este amor inteligente e misericordioso aos errantes e aos mesmos maldizentes não significa, no entanto, nem de modo algum pode significar, renúncia de proclamar, de fazer valer e defender a verdade e de aplicá-la livremente à realidade que vos rodeia. O primeiro e mais óbvio dom de amor do sacerdote ao mundo é de servir à verdade, a verdade toda inteira, desmascarar e confutar o erro, seja qual for sua forma, disfarce e arrebique. A renúncia a isto não seria somente uma traição a Deus e vossa santa vocação, mas delito contra o verdadeiro bem-estar de vosso povo e vossa pátria. A todos os que mantiveram a seus bispos a fidelidade prometida na ordenação, aos que nos cumprimento de seu ofício pastoral deveram e devem suportar dores e perseguições — alguns até serem encarcerados e enviados aos campos de concentração — vale o agradecimento e elogio do Pai da cristandade.
51. E o nosso agradecimento paterno se estende igualmente aos religiosos de ambos os sexos: um agradecimento unido a uma participação íntima pelo fato que, em consequência de medidas contra Ordens e Congregações religiosas, muitos foram arrancados do campo de sua atividade bendita, que lhes era tão cara. Se alguns falhavam e se mostravam indignos de sua vocação, as suas falhas, condenadas também pela Igreja, não diminuem os méritos da esmagadora maioria dos que por desinteresse e voluntária pobreza se esforçaram por servir com plena dedicação a seu Deus e seu povo. O zelo, a fidelidade, o esforço de perfeição, a operosa caridade do próximo e a prontidão de socorrer destes religiosos, cuja atividade se desenvolve na cura pastoral, nos hospitais e escolas, são e continuam a ser uma gloriosa contribuição ao bem-estar particular e público. A eles um tempo futuro mais tranquilo renderá justiça melhor que o presente turbulento. Confiamos que aos superiores das comunidades as provações e dificuldades sejam ensejo de, por zelo redobrado, uma vida espiritual aprofundada, santa fidelidade à vocação e genuína disciplina regular, implorar do Altíssimo novas bênçãos e nova fertilidade para o duro campo de seu trabalho.

 

Aos fiéis leigos.

 

52. Diante de Nossos olhos está a turba magna de Nossos diletos filhos e filhas, a que os sofrimentos da Igreja na Alemanha e os próprios nada tiraram de sua dedicação à causa de Deus, nada de seu terno afeto ao Pai da cristandade, nada de sua obediência aos bispos e sacerdotes, nada de sua alegre prontidão de continuar, também no futuro, venha o que vier, fiéis ao que hão crido e recebido como preciosa herança de seus avós. Com coração comovido enviamos-lhes a Nossa saudação de pai.

 

53. Em primeiro lugar aos membros das associações católicas que extremamente e a preço de sacrifícios muitas vezes dolorosos se mantiveram fiéis a Cristo, e jamais estiveram dispostos de largar os direitos que uma solene Convenção havia garantido à Igreja e a eles.

 

54. Uma saudação particularmente afetuosa aos pais católicos. Os seus direitos e deveres na educação dos filhos que Deus lhes deu estão, na hora presente, no ponto central de uma luta como mais grave e fatal não pode ser imaginada. A Igreja de Cristo não pode começar a gemer e chorar só quando os altares são espoliados e mãos sacrílegas ateiam as chamas aos santuários. Quando se procura profanar o tabernáculo da alma da criança, santificada pelo batismo, com uma educação anticristã, quando é arrancada deste templo vivo de Deus a lâmpada da fé e é substituída pelo fogo fátuo de um sucedâneo de fé que nada tem de comum com a fé da cruz — então a profanação espiritual está próxima e é dever de todo o crente separar claramente a sua responsabilidade daquela da parte adversa e conservar sua consciência livre de toda colaboração pecaminosa nesta nefasta destruição. E quanto mais os inimigos se esforçam por negar ou disfarçar seus negros desígnios, tanto mais necessária se torna uma desconfiança vigilante e uma vigilância desconfiada, estimulada por amargas experiências. A conservação formalista de uma instrução religiosa, inspecionada e manietada por gente incompetente, no ambiente de uma escola que em outros ramos da instrução trabalha sistemática e ostensivamente contra a mesma religião, já não pode apresentar o título justificativo ao fiel cristão, a fim de que aprove uma tal escola, deletéria para a religião. Sabemos, diletos pais católicos, que não é de falar, em vista de vós, de tal consentimento e sabemos que uma livre votação secreta entre vós equivaleria a um esmagador plebiscito em favor da escola confessional. E por isto, não cansaremos, nem no futuro, de francamente lançar em rosto das autoridades responsáveis a ilegalidade das medidas violentas tomadas até agora e de reclamar o dever de permitir a livre manifestação da vontade. Entretanto, não vos esqueçais: nenhum poder da terra pode libertar-vos de vínculo de responsabilidade querido por Deus, que vos une com vossos filhos. Nenhum dos que hoje oprimem o vosso direito à educação e pretendem substituir-se a vós nos vossos deveres de educadores, poderá responder por vós ao Juiz eterno quando vos fizer a pergunta: Onde estão os que vos dei? Oxalá todos estejais na possibilidade de responder: Não perdi nenhum dos que me destes (Jo 18,19).

 

Conclusão.

 

55. Veneráveis Irmãos! estamos certos que as palavras que dirigimos a vós, e por vosso meio aos católicos do Reich germânico, nesta hora decisiva encontrarão no coração e ação de Nossos filhos fiéis um eco que corresponda à solicitude amorosa do Pai comum. Se há coisa que imploramos ao Senhor com particular fervor é que Nossas palavras cheguem ao ouvido e coração dos que já começaram a deixar-se prender pelas lisonjas e ameaças dos inimigos de Cristo e seu santo Evangelho, e os façam refletir.

 

56. Temos pesado cada palavra desta Encíclica na balança da verdade e do amor. Não queríamos com silêncio inoportuno tornar-Nos culpado de não ter esclarecido a situação, nem com rigor excessivo de haver endurecido os corações dos que, estando submetidos à Nossa responsabilidade de Pastor, não são menos objeto de Nosso amor, por caminharem nas veredas do erro e estarem afastados da Igreja. Ainda que muitos destes, conformados com os hábitos do ambiente, não tenham senão palavras de infidelidade, ingratidão e até de injúria, pela casa paterna abandonada e pelo próprio pai, ainda que se esqueçam quão precioso é o que alijaram — virá o dia em que o horror que sentirão do afastamento de Deus e de sua indigência espiritual pesará sobre estes filhos hoje desgarrados, e a saudade os reconduzirá ao Deus “que alegrou sua juventude”, e à Igreja, cuja mão materna lhes mostrou o caminho ao Pai do céu. Apressar esta hora é o objeto de Nossas incessantes preces.

 

57. Como outras épocas da Igreja, também esta será o anúncio de novos progressos e purificação interna, quando a fortaleza na profissão da fé e a prontidão em suportar os sacrifícios da parte de Cristo serão bastante grandes para contrapor à força material dos opressores da Igreja a adesão incondicionada à fé, a esperança inconcussa, ancorada no eterno, a força vencedora da operosa caridade. O sagrado tempo da quaresma e Páscoa, que prega recolhimento e penitência e faz voltar os olhos do cristão mais que nunca sobre a cruz, mas também sobre os esplendores da ressurreição, seja para todos e para cada um de vós uma ocasião que saudareis com alegria e de que vos prevalecereis com ardor para encher a alma toda com o espírito heroico, paciente e vitorioso que irradia da cruz de Cristo. Então os inimigos da Igreja — estamos seguros disto — que acreditam ter chegado a sua última hora, reconhecerão que cedo demais rejubilaram e muito cedo a quiseram sepultar. Então virá o dia em que em vez de prematuros hinos de triunfo dos inimigos de Cristo, se elevará ao céu dos corações e lábios dos fiéis o Te Deum da libertação: um Te Deum de ação de graças ao Altíssimo, um Te Deum de júbilo, porque o povo alemão, também em seus membros errantes, terá reencontrado o caminho de volta à religião; com uma fé purificada pelos sofrimentos, dobrará de novo o joelho diante do Rei dos tempos e da eternidade, Jesus Cristo, e se cingirá para a luta contra os negadores e destruidores do ocidente cristão, em união com os homens bem intencionados das outras nações, a cumprir a missão que lhes assinalaram os planos do Eterno.

 

58. Ele, que perscruta coração e rins (Sl 7,10), Nos é testemunha que não temos aspiração mais íntima que a do restabelecimento da verdadeira paz entre a Igreja e o Estado na Alemanha. Mas se sem culpa Nossa a paz não vier, a Igreja de Deus defenderá os seus direitos e liberdade, em nome do Todo-poderoso, cujo braço também hoje não foi abreviado. Cheios de confiança nele “não cessamos de orar e pedir” (Col 1,19) por vós, filhos da Igreja, a fim de que os dias das tribulações sejam abreviados e vós sejais encontrados fiéis no dia da provação; e também aos opressores e perseguidores o Pai de toda luz e toda misericórdia conceda a hora de Damasco, para si e os muitos que com eles têm errado e erram.

 

59. Com esta súplica no coração e lábios, Nós vos damos, como penhor do divino auxílio, como apoio nas vossas decisões difíceis e cheias de responsabilidade, como robustecimento nas lutas, como conforto nos sofrimentos, a Vós bispos, pastores de vosso povo fiel, aos sacerdotes, aos religiosos, aos apóstolos leigos da Ação Católica e todos os vossos diocesanos, e não em último lugar, aos doentes e encarcerados, com paternal amor a bênção apostólica.

Dado no Vaticano, no domingo da Paixão, 14 de março de 1937.

PIO XI, PAPA.

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Papa PIO XI, Encíclica “Mit Brennender Sorge, de 14 de março de 1937. Tradução de Frei Frederico Vier, O.F.M.

Fonte: Coleção Documentos Pontifícios – 133, Petrópolis: Vozes, 1961, 30p.

Endereço breve desta transcrição: http://goo.gl/woymU3

Publicado originalmente na internet pelo blog Acies Ordinata.

Na metade da década dos anos 60, Betty Friedan, uma ativista feminista marxista, retratou em seu livro “A Mística Feminina” que as donas de casa suburbanas viviam um “confortável campo de concentração”.  A ideia era promover a transformação das relações sociais e da sociedade, partindo da narrativa dicotômica da luta de classes do marxismo: burguês capitalista x trabalhador proletariado, estendendo-a para o campo homem x mulher.

De fato, dos anos 60 para cá, as organizações feministas passaram a funcionar como uma linha de montagem mecanizada, controlando o fluxo das ideias e padronizando as pautas que julgam importantes para todas as mulheres. Exemplo disso é a luta pela igualdade de gênero – entre os sexos – um dos principais temas do movimento feminista, que vendeu o conceito que o homem é naturalmente agressivo, opressor e é definitivamente bem mais remunerado comparado às mulheres que sempre foram oprimidas, vítimas e exploradas. Dessa forma, a velha retórica da luta de classes entre o capitalista e o proletariado foi substituída pela luta entre o opressor e oprimido.

Assim, a segunda onda feminista constituiu o mito de que toda mulher é oprimida, portanto infeliz e rapidamente tornou-se um movimento político de escala global, com o slogan da “libertação da mulher”. A intenção era claramente fazer com que as mulheres acreditassem que, além de infelizes, a sociedade patriarcal roubava de todas elas grandes possibilidades e potenciais, tanto em instrução educacional e postos de trabalho, excluindo-as de vez da competição no mercado.

Curiosamente, ao contrário do que muitas militantes sessentistas poderiam esperar, o fato é que pesquisas indicam que as mulheres modernas estão mais infelizes com relação aos homens do que antes da revolução sexual propagada pela segunda onda feminista e consequentemente antes de conquistarem massivamente o tão sonhado espaço no mercado de trabalho.

Um dos mais relevantes estudos nesse sentido data de 2009 e foi publicado no American Economic Journal: Economic Policy sob a autoria de Betsey Stevenson e Justin Wolfers. Intitulado de The Paradox of Declining Female Happiness [O Paradoxo do Declínio da Felicidade Feminina, em tradução literal], o estudo utiliza um método tradicional para o cálculo da sensação de felicidade humana, medida chamada de “bem-estar subjetivo”, que consiste, resumidamente, em uma série de entrevistas começadas com a seguinte pergunta chave: “Tomadas todas variáveis juntas, como você diria que vão as coisas hoje em dia, diria que está muito feliz, feliz ou não muito feliz?” Depois disso, os entrevistados são questionados sobre itens particulares a fim de complementar a pergunta chave com determinados aspectos de sua vida, como casamento, saúde, situação financeira e trabalho. Colocando as respostas umas relativas às outras e comparando com padrões dos últimos 35 anos, as estimativas mostraram que as mulheres se tornaram menos felizes com o tempo, tanto em termos absolutos quanto relativos aos homens. 

“E quanto menos felizes elas se tornaram?”, os pesquisadores se perguntaram. Dado que a variável dependente é de natureza qualitativa, deve-se ter cuidado ao interpretar essas grandezas. Segundo o estudo, em 1972, as mulheres eram mais felizes do que os homens, em média, e a mulher mediana era tão feliz quanto um homem no percentual de 53,3 da distribuição masculina. Em 2006, no entanto, a felicidade da mulher mediana foi menor do que a do homem mediano em 1972, enquanto que a mediana em 2006 foi levemente mais feliz do que sua contraparte em 1972. Comparando as medianas de 2006 com a distribuição para homens em 1972, vemos que a mulher mediana em 2006 é tão feliz quanto um homem no percentual de 48 em 1972 (quase 5 pontos percentuais abaixo de sua posição 34 anos antes), enquanto o homem mediano em 2006 é tão feliz quanto o homem no percentual de 50,7 em 1972.

Em suma, o bem-estar subjetivo masculino aumentou ligeiramente, enquanto que o feminino, que em 1972 era relativamente maior que o masculino, ficou para trás e em 2006 registrou uma queda relativa com a de 34 anos atrás. Usando-se as médias do decaimento relativo ao longo dos 2006-1972 anos de estudo e multiplicando pelo tempo de 34 anos, conclui-se que a queda relativa da felicidade das mulheres foi de aproximadamente 13 pontos percentuais nesse meio tempo.

Com o ingresso no mercado de trabalho, a mudança no paradigma social das mulheres foi gritante, pois nos EUA pré-1970 a grande maioria dos homens mantinha empregos que permitiam que suas esposas mantivessem as funções de dona de casa e mãe em tempo integral. Além disso, é o período que o mercado soprava a favor da mulher, produzindo bens que facilitavam o trabalho doméstico e a criação dos filhos, como máquinas de lavar, secadoras e fraldas descartáveis.

Mas se foi mesmo a vontade das mulheres saírem de seus lares para trabalharem fora, então por que elas estão relativamente mais infelizes? Segundo Phyllis Schlafly, advogada, escritora e fundadora do Eagle Forum, o problema é essencialmente psicológico, pois junto com as ideias da ascensão feminina ao mercado de trabalho, o movimento feminista também ensinou as mulheres a se enxergarem como vítimas de um patriarcado necessariamente opressor, onde seu verdadeiro valor jamais será reconhecido e qualquer sucesso está além de seu alcance.

Stevenson e Wolfers, autores do trabalho citado acima,  seguem a mesma linha de raciocínio e defendem que o movimento de libertação das mulheres frustou suas expectativas, vendendo-lhes gato por lebre e fazendo-lhes sentir inadequadas quando não conquistam tudo o prometido pela utopia do empoderamento. Outra teoria indica que as exigências modernas sobre as mulheres que são simultaneamente mães e profissionais são enormes e muito difíceis de serem suportadas sem contrapartidas negativas físicas e psicólogas.

As revoluções de gênero não pararam por aí. No século XXI, o discurso feminista foi aumentado em doses cavalares e uma terceira onda, dessa vez pós-moderna, emergiu. Como se o erro da segunda onda não estivesse escancarado e um remédio tivesse de ser aplicado, as feministas de nossos dias decidiram que o problema na verdade é que suas predecessoras não foram suficientemente radicais. Ou seja, acharam um bêbado em coma e resolveram aumentar a dosagem de cachaça. Diante da insatisfação dentro do ambiente de trabalho, muitas vezes derivada de uma ilusão de empoderamento feminino, o vitimismo passou a ser aplicado em ambiente de trabalho. Agora, os protestos da vez, impulsionados pelo establishment midiático, por Hollywood, por músicos do cenário pop, por militantes de redes sociais e pelos chamados “digital influencers”, são majoritariamente sobre questões de trabalho – uma suposta remuneração inferior à dos homens, assédio moral e tratamento desigual. Emergiu então uma onda de policiamento pós-moderno que iniciou uma enxurrada de false flags e fake news sobre assédio de mulheres por homens. Dia após dia vê-se na imprensa e nas redes sociais relatos de supostos abusos e assédios em ambiente de trabalho, hashtags e histeria coletiva em torno de histórias que muitas vezes são reveladas falsas ou sem base criminal sólida.

As consequências da insatisfação da mulher no mercado de trabalho são bastante recentes e datam do início da segunda década do século XXI. Referindo-se à regra pessoal do vice-presidente dos EUA, Mike Pence, de não jantar sozinho com qualquer mulher que não a sua esposa, o chamado efeito Pence é talvez o maior exemplo da reação do mundo corporativo à nova histeria feminista. Como um aparte cultural, muitos homens, principalmente os mais cautelosos, como o vice-presidente, tentam evitar situações potencialmente comprometedoras envolvendo o sexo oposto. De uma simples regra pessoal de Pence, a postura se tornou epidêmica no cenário corporativo e, com medo das reações feministas, homens de escalão relativamente alto no mercado de trabalho – principalmente de grandes empresas e também no setor financeiro – vêm criando uma série de novas práticas para se proteger de falsas denúncias de assédio por parte de mulheres potencialmente contaminadas pelo vírus do feminismo. Um dos maiores motivos para tal preservação é da opinião pública moderna na internet, que virou de cabeça para baixo um dos maiores cânones do Direito Ocidental, a saber, o ônus da prova é de quem afirma. Fenômeno comum em nossos dias, uma típica acusação de assédio em redes sociais, independente de ser falsa ou não, é suficiente para destruir a reputação do acusado e de sua empresa, condenando-o ao limbo social por tempo indeterminado. Os tribunais virtuais de hoje se tornaram mais severos que a justiça comum, julgando casos de interesse dos justiceiros sociais com muito mais rigor que a justiça comum e imputando acusações e condenações bem antes do processo investigativo e da elaboração das provas. 

Uma matéria recente da Bloomberg enumerou alguns exemplos bastante ilustrativos do que vem ocorrendo em setores importantes do mercado financeiro. Em entrevistas anônimas – precisamente para evitar exposição pessoal ao crivo de justiceiros sociais -, homens relataram práticas como evitar reuniões oneonone com mulheres ou reuniões a portas fechadas; manter distância de mulheres em ambientes sociais como elevadores; evitar convidar mulheres do trabalho para o happy hour após o expediente e até de festas relacionadas às empresas; não sentar ao lado delas em reuniões; e não ficar no mesmo andar de hotel que uma mulher do trabalho. Por razões óbvias, poucos aceitam falar abertamente sobre o assunto. No entanto, em particular, muitos dos homens entrevistados reconheceram que estão a imitar Pence, dizendo que não é confortável ficarem sozinhos com colegas do sexo feminino, particularmente jovens ou atraentes, por medo de boatos ou da, como disse um deles, responsabilidade potencial. Um gestor de uma firma de investimentos revelou que nunca mais terá uma reunião com mulheres numa sala sem janelas ou paredes de vidro; e que nos elevadores mantém distância das colegas. Um homem com mais de 40 anos que trabalha em um private equity definiu uma nova regra, que foi sugerida pela sua mulher que é advogada: nunca participar de jantares de negócios com uma mulher com menos de 35 anos.

Tais fatos implicam que o tiro saiu pela culatra e o feminismo virou um empecilho para que seu próprio plano seja concretizado, pois a maneira mais comum de ascensão no mercado é por via dos chamados mentores ou orientadores, pessoas com muita experiência profissional em posição de liderança nas empresas e geralmente ocupando os cargos de maior hierarquia. E um fato um tanto incômodo para as feministas é que a grande maioria dos mentores hoje é formada por homens. O professor Belle Rose Ragins, da Escola de Negócios de Lubar, vem estudando a diversidade no local de trabalho há décadas e para ele a orientação está dentre as principais formas de alcançar a igualdade no trabalho. “Nossa pesquisa descobriu que a mentoria é uma das principais estratégias utilizadas pelas mulheres que chegaram ao topo”, explica. Ainda segundo as pesquisas de Ragins, “os mentores masculinos são particularmente importantes, pois os homens geralmente têm mais poder do que as mulheres na maioria das organizações”. Mas no entanto, como sabemos, os homens não se sentem mais confortáveis ​​em proteger as mulheres sob suas asas. Essa é também a conclusão alcançada por Sylvia Ann Hewlett, CEO do Center for Talent Innovation. “Nossa pesquisa mostra que cerca de 64% dos homens mais velhos evitam interações solo com mulheres júnior porque temem rumores sobre seus motivos”, diz ela em pesquisa feita ainda antes de histerias coletivas como o “#MeToo” – um movimento de redes que começou em outubro de 2017 como um hashtash usado por atrizes para denunciar supostos abusos sexuais em Hollywood e que rapidamente viralizou, expondo homens como predadores pervertidos quase sempre sem provas. Trata-se de uma encruzilhada difícil de escapar e que pune severamente tanto as próprias feministas quanto mulheres alheias à ideologia. 

Como todo movimento coletivista, o feminismo universalizou os fins, ditando regras de cima para baixo a respeito do convívio social de todas as mulheres e instituindo, ao longo da segunda metade do século XX, a necessidade de um suposto empoderamento das mulheres que significou na prática o abandono do lar e a terceirização do cuidado dos filhos em prol de uma carreira profissional que não necessariamente trouxe felicidade às mulheres, ao contrário do prometido pela propaganda feminista. Os gostos e preferências são subjetivos e cada mulher tem suas metas de vida e que muitas vezes escapam aos planos traçados pelos complôs feministas. A ideia de que as mulheres podiam tudo, ilustrada pelo slogan “we cando it”, passou a ilusão de que a ascensão profissional feminina iria proporcionar uma realização automática, o que obviamente trouxe ainda mais frustação às mulheres. E como em todo movimento vitimista, a culpa da insatisfação pessoal foi colocada nas costas dos opressores, a saber, dos homens, tanto por uma suposta discriminação generalizada no ambiente de trabalho quanto por uma ausência de ajuda nas tarefas domésticas. Não é novidade esse tratamento do fracasso: na história do marxismo moderno, inventou-se sucessivas desculpas para o encadeamento de fracassos que o movimento colecionou ao longo do século XX. Toda ideologia que tem como fundamento a opressão de classes está condenada a alimentar eternamente as mágoas de seu sistema de vitimização. E, como disse Phyllis Sclafly, as mágoas são como flores – se você as rega, elas crescem, e a vitimização auto-imposta não é uma receita para a felicidade.

Por Lacombi Lauss

[Este texto foi feito em colaboração com a Dezy Fukushima, a quem agradeço muito o apoio a voltar a escrever.]

O Vaticano falsificou secretamente as certidões de batismo para permitir que muitos judeus emigrassem como católicos.

O que documenta a ação direta do Papa Pacelli são os documentos encontrados pelo historiador Michael Hesemann nos arquivos de Santa Maria dell`Anima, igreja nacional alemã em Roma. Em um telegrama original enviado pelo comando alemão em Berlim ao quartel general das SS de Romaem que ordenava a prisão de 8.000 judeus romanos a serem levados ao campo de trabalho de Mauthausen. Depois de uma intervenção papal, não foram detidos 8.000, mas pouco mais de 1.000.

Está documentada a ação pessoal e direta de Pio XII para frear as detenções dos judeus em Roma no dia 16 de outubro de 1943. Quando as prisões terminaram, o Papa Pacelli enviou um representante ao local em que estavam detidos para pedir libertação dos mil judeus que haviam sido presos, mas não foi permitido o ingresso.

O Papa ordenou que os judeus de Roma recebessem hospitalidade nas propriedades da Igreja e nas casas católicas, suspendendo as normas claustrais de modo que os homens pudessem ser admitidos nos conventos e as mulheres nos mosteiros de toda a Europa. Ele literalmente escondeu 7.000 judeus em um dia.

“Provavelmente, o Papa Pacelli salvou mais judeus do que todos os líderes políticos e religiosos do mundo juntos”. Gary Krupp, presidente da Pave the Way Foundation, comenta que “é hora de reconhecer o Papa Pio XII pelo que ele realmente fez e não pelo que ele não disse”. E acrescenta: “Pelo que eu vi e conheci, o papa é, sem dúvida, o maior herói da Segunda Guerra Mundial. Pio XII não foi o Papa de Hitler. Ao contrário, era um homem que Hitler queria matar”.

Além disso, o futuro Pio XII se aproveitou de sua influência para que o então representante da Organização Sionista Mundial Nachum Sokolov fosse recebido pessoalmente pelo Papa Bento XV para falar de uma pátria judaica na Palestina. Em 1926, Dom Pacelli exortou os católicos alemães a apoiar o Comitê Pró-Palestina, que apoiava os assentamentos judeus na Terra Santa.

Os documentos, que podem ser baixados no site da fundação, incluem um manuscrito de uma freira, datado de 1943, que explica detalhadamente as instruções recebidas do papa, assim como uma lista de judeus protegidos. Um outro documento é um relatório do US Foreign Service do cônsul norte-americano em Colônia, que informa sobre o “novo Papa” em 1939. O diplomata se mostrou surpreso pela “extrema aversão” de Pacelli contra Hitler e o regime nazista, e pelo seu apoio aos bispos alemães na sua oposição ao nacional-socialismo, mesmo às custas da supressão das Juventudes Católicas Alemãs.

Em um documento datado de 1938, o então secretário de Estado Eugenio Pacelli se opõe ao projeto de lei polonês que declarava como ilegal o sacrifício kosher, visto que essa lei “significaria uma grave perseguição contra o povo judeu”.

Durante a guerra, Pio XII escreveu um telegrama ao então regente da Hungria, o almirante Miklós Horthy, para que evitasse a deportação dos judeus, e estes concordaram, pelo qual se estima que tenham sido salvas 80 mil vidas. Ao governo brasileiro, ele pediu que aceitasse 3.000 “não arianos”.

Em um testemunho, o general Karl Wolff fala detalhadamente do plano de Hitler de atacar o Vaticano e sequestrar o papa. Havia espiões no Vaticano, e franco-atiradores alemães a 200 metros das janelas papais. A própria limitação das declarações públicas do papa, que suscitou muitas críticas contra ele, é explicada pelo aumento das penas nos campos de concentração, testemunhada por ex-prisioneiros, todas as vezes que as autoridades eclesiásticas falavam contra o regime nazista.

Estão documentados muitos exemplos das ações diretas e do ministério pastoral de Eugenio Pacelli para salvar os judeus da tirania nazista. Há provas da “direta intercessão de Pacelli para defender os judeus da Palestina dos turcos otomanos em 1917 e do seu encorajamento para instituir uma pátria judaica na Palestina em 1925.

Além disso, o Papa Pio XII teve um papel ativo na oposição a Hitler. Entre as testemunhas do que Pio XII fez em favor dos judeus durante o Holocausto, está também a prova da ordem que o papa deu para hospedar os judeus nos conventos.

No Memorial das Religiosas Agostinianas do Mosteiro das SS. Quattro Coronati de Roma, de 1943, está escrito: “Chegadas a este mês de novembro, devemos estar prontas para prestar serviços de caridade de forma totalmente insuspeita. O Santo Padre Pio XII, de coração paterno, sente em si todos os sofrimentos do momento. Infelizmente, com a entrada dos alemães em Roma, ocorrida em setembro, iniciou uma guerra implacável contra os judeus que querem exterminar mediante atrocidades sugeridas pela mais obscura barbárie”.

“Nessas dolorosas circunstâncias – lê-se ainda no Memorial –, o Santo Padre quer salvar os seus filhos, também os judeus, e ordena que, nos mosteiros, se deve hospitalidade a esses perseguidos, e as clausuras também devem aderir ao desejo do Sumo Pontífice, e, a partir do dia 4 de novembro, nós hospedamos, até o dia 6 de junho posterior, as pessoas aqui listadas… “. No Memorial, conta-se que, “para a quaresma, os judeus também vinha ouvir as pregações, e o senhor Alfredo Sermoneta ajudava na igreja”.

E ainda: “Com a guerra terminada, falava-se da bondade do Santo Padre que havia ajudado e salvo tantos judeus, assim como jovens e famílias inteiras”. Isso confirma o compromisso pessoal e institucional de Pio XII para proteger e salvar os judeus perseguidos. Falta a cópia escrita da ordem de Pio XII, porque, em uma situação de guerra, com a cidade ocupada pelos nazistas, uma pessoa prudente não publica uma ordem, mas manda mensageiros de confiança para comunicar as vontades do Santo Padre. Teria sido imprudente e perigoso escrever uma ordem que poderia cair nas mãos erradas e pôr em perigo a vida de muitos.

Além disso, foi organizado um grupo de sacerdotes que, sob as ordens da Secretaria de Estado, andavam de uma casa religiosa a outra, batendo também nas universidades, seminários, escolas, paróquias, para pedir que abrissem os conventos e organizassem uma rede de assistência.

No fim da guerra, foram cerca de 150 as casas religiosas, mosteiros e paróquias que salvaram milhares de judeus da morte certa. Pio XII e a Igreja Católica salvaram a vida de centenas de milhares de judeus em toda a Europa.

A reportagem é de Giacomo Galeazzi, publicada no Vatican Insider

Daqui a um ano o Vaticano abrirá o Arquivo secreto relativo ao pontificado de Pio XII. Isso foi anunciado pelo Papa Francisco durante a audiência aos membros do Arquivo Secreto Vaticano, recebidos na Sala Clementina do Palácio Apostólico. “Anuncio a minha decisão de abrir para a consulta dos pesquisadores o material de arquivo relativo ao pontificado de Pio XII, até sua morte, ocorrida em Castel Gandolfo em 9 de outubro de 1958″, declarou solenemente o Pontífice.

“Eu decidi que a abertura dos Arquivos Vaticanos para o pontificado de Pio XII terá lugar em 2 de março de 2020, exatamente um ano após o 80º aniversário da eleição à Cátedra de Pedro de Eugênio Pacelli. Assumo esta decisão – explica Papa – depois de ter ouvido a opinião dos meus colaboradores mais próximos, com espírito sereno e confiante”.

O Papa afirma estar “confiante que a séria e objetiva pesquisa histórica saberá avaliar sob a correta luz, com crítica apropriada, momentos de exaltação daquele Pontífice e, sem dúvida, também momentos de grande dificuldade, de atormentadas decisões, de humana e cristã prudência, que a alguns pareceram reticência, mas que, na verdade, foram tentativas, humanamente também muito controversas, para manter acesa, nos períodos de mais densa escuridão e de crueldade, a chama das iniciativas humanitárias, da diplomacia escondida, mas ativa, da esperança em possíveis boas aberturas dos corações”.

Papa Francisco, anunciando a abertura dos documentos sobre o pontificado de Pio XII mantidos no Arquivo secreto Vaticano, destacou que “a Igreja não tem medo da História, aliás, a ama e gostaria de amá-la mais e melhor, como a ama Deus! Assim, com a mesma confiança de meus antecessores, abro e confio aos pesquisadores este patrimônio documental”.

Para o Papa, “a figura do Pontífice, que esteve conduzindo o Barca de Pedro em um momento entre os mais triste e sombrios do século XX, agitado e em muitos lugares dilacerado pelo último conflito mundial, com o subsequente período de reorganização das Nações e reconstrução pós-conflito, esta figura já foi investigada e estudada em muitos dos seus aspectos, por vezes discutida e até mesmo criticada, ao que parece, com algum preconceito ou exagero”.

Hoje, ressalta novamente o Papa, “é oportunamente reavaliada e, aliás, colocada na luz correta por suas poliédricas qualidades: pastorais, em primeiro lugar, mas, também, teológicas, ascéticas e diplomáticas.”

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Com a abertura do arquivo sobre o Pontificado, é possível compreender melhor suas decisões, inclusive as mais polêmicas. Andrea Riccardi, historiador do cristianismo e fundador da Comunidade de Santo Egídio, um dos maiores especialistas sobre a vida do Papa Pacelli, não tem dúvida sobre isso.

Quão importante é tornar esses documentos públicos?

A decisão do Papa é muito positiva. Havia a hipótese de abrir o arquivo somente até 1945, mas eu era absolutamente contra, porque é necessário tomar todo o Pontificado, como estabeleceu Francisco.

O que você acha da expectativa que se cria em torno da abertura do arquivo?

Há muito medo pelo que os documentos contêm. Além disso, a discronia entre o trabalho dos historiadores contemporâneos e a abertura dos arquivos não ajudou a Santa Sé, porque se trabalhou com documentos secundários.

O que a Igreja deveria temer?

Nada, claro. Com Pio XII nos deparamos com um problema muito particular: a questão da guerra e dos silêncios diante das atrocidades nazistas, a Shoah. Mas estou convencido de que a imagem que surgirá dará uma história concreta, a percepção dos protagonistas destes eventos e explicará os motivos das decisões. Além do mais, a partir de 1965, Paulo VI iniciou a publicação das “Atas e documentos da Santa Sé sobre o período da Segunda Guerra Mundial”, motivo pelo qual já tivemos um gostinho do que os documentos podem conter.

Quais são os efeitos que eles poderiam ter?

O amor dos documentos reduzirá os “scoops”. Mas vai precisar de um grande e sério trabalho.

O Papa, no anúncio, disse que “a Igreja ama a história”: o que você acha?

O discurso do Pontífice torna concreta a relação entre a Igreja e a história, porque a Igreja é história e o cristianismo é uma religião histórica. A Igreja é a história do povo de Deus e, portanto, seus documentos são importantes. Mas isso não significa que devamos enfrentá-la teologicamente, porque essa história é em si mesma preciosa para a própria Igreja.

Como você interpreta a reação do mundo hebraico, que manifestou, com exceções, satisfação e otimismo cauteloso?

Em primeiro lugar, uma premissa: a ideia de negar o acesso a um arquivo não causa uma boa impressão àqueles que têm perguntas sobre a história. É por isso que a decisão do Vaticano de negar o acesso aos arquivos, explicada com o problema da catalogação, nunca me pareceu correta, porque não é do interesse da história nem da Igreja.

Alguns dos meus interlocutores me disseram: “Mas desta maneira virão à tona as recomendações”; mas as recomendações já vieram à luz, estão nos arquivos diocesanos. Fico impressionado com o favor do mundo judaico, porque no fundo tem os problemas bem conhecidos com relação a Pio XII. Mas, ao mesmo tempo, sei que o mundo judaico tem o cuidado de “fazer história” de maneira concreta e documentada.

O que poderá aparecer?

Um patrimônio histórico de valor inestimável: o nascimento da Democracia Cristã, o grande papel de Giovanni Battista Montini, futuro Paulo VI, e sua transferência para Milão, que foi considerada como um afastamento, mas que acabou se revelando uma preparação para o papado. Aparecerá também o papel de Roncalli, futuro João XXIII, núncio durante a guerra e na França.

Quais são os textos pelos quais está aguardando?

Os documentos sobre os nove meses de ocupação alemã em Roma. Porque naquela época o Vaticano e Pio XII tiveram um grande papel, no sentido de que ajudaram milhares de pessoas, judeus e não judeus, a se esconderem, e esse fato foi decisivo na história de Roma. Em certo sentido, fizeram um “jogo” com o comando alemão, tranquilizando-o e, por outro lado, transformaram todos os espaços religiosos em lugares de asilo. E foi um jogo não apenas generoso, mas também inteligente.

 Fonte: Vatican Insider

A humildade é vista por muitos como uma virtude de valor questionável, porque muitas vezes é mal interpretada como humilhação.

A humildade incompreendida pode ser absolutamente perigosa quando entendida de uma maneira contrária ao seu significado original na espiritualidade bíblica e na tradição judaico-cristã.

As pessoas com baixa autoestima geralmente interpretam a humildade como uma forma de agressão e desdém para consigo mesmo. Pode até ser uma forma de hipocrisia, ou uma desculpa para a preguiça, quando nos subestimamos intencionalmente. Evitamos a dificuldade de alcançar nosso potencial total, negando que somos capazes disso.

Que a humildade não é

A humildade não deve ser confundida com baixa autoestima, timidez, sentimentos de inferioridade ou autodegradação. Embora ser humilde exija reconhecer nossas próprias dificuldades, limitações e limites, isso não significa fazer uma demonstração deles.

Humildade significa viver na verdade, aceitando que não somos perfeitos. A humildade não tem a ver com nos colocarmos para baixo, mas com realismo.

Muitas pessoas pensam que são humildes, quando, na realidade, estão constantemente reclamando e falando sobre quão desafortunadas são, concentrando-se inteiramente em si mesmas, o que é uma forma oculta de orgulho.

A verdadeira humildade não significa olhar constantemente para a nossa própria pequenez e comparar-nos aos outros. Fazer essas comparações significa constantemente nos voltarmos para nós mesmos e apenas ver os outros como uma ameaça.

Pessoas humildes não precisam sentir que são melhores que as outras. Ao mesmo tempo, nem sempre cedem ao que os outros querem, nem se deixam oprimir; elas simplesmente têm uma perspectiva ampla e profunda da realidade, na qual elas veem seu próprio lugar sem ter que debater quem está melhor ou pior.

A humildade não é uma virtude a ser conquistada para alcançar a autoperfeição, o que na verdade leva ao orgulho; em vez disso, trata-se de reconhecer a verdade sobre você e estar em paz com ela.

A frase comum “em minha humilde opinião” não é nada além de orgulho disfarçado. Quando a humildade se torna explícita, não é mais humildade.

Quando alguém diz: “Eu sou apenas uma pessoa humilde”, ele não está sendo humilde. A humildade não se anuncia; é praticada em silêncio.

Se alguém é humilde, outras pessoas podem dizer, mas ninguém pode se rotular como “uma pessoa humilde”. É por isso que as pessoas humildes geralmente não se destacam; elas não buscam publicidade – especialmente para não se promoverem como “humildes”.

Humildade é autenticidade

A psicologia contemporânea usa o termo “autenticidade” mais que a humildade. Significa viver a verdade sobre si mesmo, ser honesto consigo mesmo e com os outros.

A humildade é um sinal de maturidade psicológica e espiritual e de liberdade interior. Em vez de uma série de comportamentos que devemos adotar, a humildade é um modo de ser e de se relacionar com os outros. É caracterizada pela maneira como uma pessoa se aceita e se valoriza.

Na tradição cristã, a humildade é centralizar nossas vidas em Deus e não em nós mesmos. Significa aceitar que não somos o centro do universo e que o mundo não gira em torno de nós.

A humildade era entendida pelos antigos mestres da espiritualidade cristã como um valoroso autoconhecimento que nos torna mais humanos e mais conscientes de nossa própria pequenez e limitações, sem pretender ser algo que não somos. De fato, Santo Agostinho diz que “toda humildade consiste em conhecer a si mesmo”.

No entanto, humildade não é resignação. São João Crisóstomo descreveu a humildade como “a mãe de todas as virtudes”, como fundamento e raiz, porque só podemos forjar a virtude se primeiro reconhecermos e aceitarmos em que áreas somos fracos e precisamos crescer.

As pessoas humildes querem melhorar a si mesmas e podem fazer isso porque não mentem para si mesmas ou para os outros; elas vivem na verdade. Elas não são orgulhosas, porque reconhecem seus defeitos de boa vontade; elas não são pessimistas, porque acreditam que podem mudar em resposta ao chamado de Deus à santidade e com a ajuda de Sua graça. Não ter medo de ver e reconhecer nossos erros nos torna capazes de crescer e amadurecer.

Ao mesmo tempo, pessoas verdadeiramente humildes se regozijam no bem de outras pessoas e na grandeza que as cerca. Elas estão completamente livres de complexos de inferioridade e da necessidade de se comparar com os outros. Pessoas humildes são livres; elas não têm uma necessidade urgente de elogios, reconhecimento ou aplausos por suas virtudes, porque sabem quem são e que valem a pena.

A verdadeira humildade, portanto, é uma fonte de confiança, coragem e liberdade. Pessoas humildes não vão implorar por reconhecimento e não desanimam quando não entendem, porque a felicidade delas não depende da opinião de outras pessoas. Em contraste, as pessoas orgulhosas são muito sensíveis às críticas e são facilmente feridas e desencorajadas. Chesterton considerava o humor como o fundamento natural da humildade, porque aqueles que podem rir de si mesmos estão livres de todo orgulho.

Pessoas humildes têm um bom efeito sobre as pessoas ao seu redor

Ser verdadeiramente humilde e viver autenticamente faz com que outras pessoas se sintam confortáveis. Elas sabem que não precisam andar em cascas de ovos porque as pessoas humildes nem sempre são defensivas ou tentam se impor aos outros.

Pessoas humildes sabem reconhecer quando estão erradas, pedir perdão, procurar ajuda e reconhecer publicamente seus próprios erros. Elas são fáceis de lidar porque não sentem a necessidade de impor sua opinião ou estarem certas o tempo todo. Elas não têm medo de críticas, porque não precisam proteger uma imagem falsa de si mesmas. Pessoas humildes são gratas, capazes de reconhecer a generosidade de outras pessoas, e são empáticas, sabendo como ser compassivas com as deficiências de outras pessoas.

Em suma, longe de nos tornar pessoas negativas e improdutivas que se denigrem e nunca percebem o seu potencial, a verdadeira humildade nos torna mais humanos, livres, maduros, compassivos e gratos.

Autor: Miguel Pastorinho

Embora seja o alvo preferido da mídia, a Igreja é uma das instituições mais avançadas do mundo na luta contra os abusos sexuais. Essa Luta continua!

No recente encontro mundial com os bispos católicos no Vaticano para concretizar medidas de proteção aos menores na Igreja contra os predadores sexuais que agem dentro das suas próprias estruturas, o Papa Francisco mencionou uma lista de propostas a serem implementadas, as quais chamou de “pontos para reflexão”.

Trata-se dos 21 itens a seguir:

1. Desenvolver um guia passo-a-passo com as medidas efetivas a serem tomadas em cada momento-chave do surgimento de um caso.

2. Criar estruturas de escuta, com pessoas bem preparadas, para o primeiro discernimento de cada denúncia.

3. Definir os critérios para o envolvimento direto do bispo ou superior religioso.

4. Implementar procedimentos claros para examinar as denúncias, protegendo as vítimas e garantindo o direito de defesa dos acusados para evitar injustiças contra ambos os lados.

5. Avisar as autoridades civis e eclesiásticas conforme as normas civis e canônicas.

6. Revisar periodicamente os protocolos sobre a segurança dos ambientes para menores em todas as estruturas pastorais.

7. Estabelecer protocolos específicos para lidar com acusações contra bispos.

8. Prestar todo o acompanhamento às vítimas para a sua plena recuperação.

9. Garantir formação permanente de bispos, superiores religiosos, clérigos e agentes pastorais visando a plena conscientização sobre as causas e consequências do abuso sexual.

10. Implantar percursos de cura pastoral das comunidades que foram feridas pelos abusos, bem como de recuperação e penitência dos culpados.

11. Fortalecer a cooperação com as pessoas de boa vontade e os meios de comunicação para distinguir os verdadeiros dos falsos casos, combatendo as calúnias.

12. Elevar a idade mínima do casamento católico para 16 anos, tanto para rapazes quanto moças (até então eram 16 para eles, mas 14 para elas).

13. Facilitar e regular a participação de especialistas leigos nas investigações de abusos sexuais e de poder.

14. Salvaguardar o princípio da presunção de inocência até prova da culpa do acusado, preservando nomes durante a investigação preliminar.

15. Observar a proporcionalidade da punição com relação ao crime e deliberar que padres e bispos culpados de abuso sexual deixem de exercer o ministério publicamente.

16. Implantar programas de formação inicial e permanente para seminaristas e candidatos à vida religiosa, visando consolidar a sua maturidade humana, espiritual e psicossexual, bem como as suas relações interpessoais e o seu comportamento.

17. Realizar avaliação psicológica dos candidatos ao sacerdócio e à vida consagrada por peritos qualificados e de credibilidade.

18. Traçar regras claras sobre transferências de seminaristas e aspirantes religiosos de um seminário para outro, bem como de padres e religiosos de uma diocese ou congregação para outra.

19. Delinear códigos de conduta obrigatórios para todo o clero, religiosos, colaboradores e voluntários, com normas claras sobre relacionamentos pessoais e determinação de requisitos de admissão, incluindo verificação de registo criminal.

20. Preparar documentação detalhada sobre os perigos do abuso e os seus efeitos, o reconhecimento de indícios e o procedimento de denúncia, em colaboração com pais, professores, profissionais e autoridades civis.

21. Instituir organizações de fácil acesso para vítimas que desejem denunciar quaisquer crimes, com autonomia inclusive perante a autoridade eclesiástica local, compostas por leigos e clérigos experientes, capazes de garantir a adequada atenção da Igreja a qualquer denunciante ou vítima.

Fonte: Aleteia

Em 1969, o então teólogo Joseph Ratzinger, futuro Papa Bento XVI, escreveu em seu livro “Introdução ao Cristianismo” um pequeno capítulo sobre a Igreja, começando de uma forma que (sempre) parece bem atual:

“(…) Externemos o que hoje nos preocupa neste ponto. Se formos sinceros, seremos tentados a dizer que a Igreja não é nem santa, nem católica: o próprio Concílio Vaticano II venceu a relutância, falando não apenas da Igreja santa, mas também da Igreja pecadora; e se algo existe a lhe censurar, será, no máximo, o fato de ter-se conservado hesitante demais em suas declarações, tão forte é a impressão da pecaminosidade da Igreja na consciência de todos. Naturalmente pode haver aí alguma influência teológica luterana sobre o pecado e, com ela, a agir, uma hipótese gerada de influxo de decisões dogmáticas. Mas o que torna essa ‘dogmática’ tão penetrante é sua concordância com a nossa experiência. Os séculos da história da Igreja estão tão repletos de humano fracasso, que podemos compreender a horrível visão de Dante, ao descrever a prostituta babilônica sentada na carruagem da Igreja, parecendo-nos também plausíveis as terríveis palavras do bispo de Paris, Guillaume d’Auvergne (século XIII) o qual acreditava que qualquer pessoa que visse o embrutecimento da Igreja, deveria ficar tomado de horror: ‘Não é mais esposa, mas um monstro de medonho aspecto e selvageria’…”

Esta percepção está fundamentada não só em razões, mas também em corações que tinham altas expectativas e sofreram terrível decepção. E é deste ponto de partida, deste contraste entre aquilo em que se acredita pela fé e aquilo que se percebe na realidade, que surge a pergunta: “Por que, apesar de tudo, amamos a Igreja?”.

Igreja santa?

Dizer que a Igreja é santa não é afirmar que todos e cada um dos seus membros sejam santos, imaculados. Ratzinger afirma que o sonho de uma Igreja imaculada renasceu em todos os tempos, mas não tem lugar no Credo e que as críticas mais duras à Igreja provêm deste sonho irreal de uma Igreja imaculada.

“(…) A santidade da Igreja consiste naquela força de santificação que Deus exerce nela, apesar da pecaminosidade humana. Deparamos aqui com a precípua característica da ‘nova aliança’: em Cristo o próprio Deus amarrou-se aos homens, deixou-se atar por eles. A nova aliança não se baseia mais – no cumprimento de mútuas estipulações, mas é presente de Deus, como graça que subsiste também contra a infidelidade do homem. É expressão do amor de Deus que não se deixa vencer pela incapacidade do homem, mas, apesar de tudo, sempre volta a mostrar-se-lhe bondoso, a recebê-lo exatamente como pecador, a voltar-se para o homem, a santificá-lo, a amá-lo”.

Como o dom não depende do mérito dos crentes, a santidade que permanece na Igreja é a de Cristo, não a nossa.
Para Ratzinger, a paradoxal justaposição entre a santidade de Cristo e a infidelidade humana é a figura dramática da graça neste mundo, por cujo meio se torna visível o amor livre e incondicional de Deus, que, tanto ontem quanto hoje, se senta à mesma mesa com os pecadores.

O sonho de um mundo incontaminado

A ideia de que a Igreja não se mistura com o pecado é simplista e dualista: ela busca uma imagem ideal, não real. Ratzinger recorda que os contemporâneos de Cristo se escandalizavam porque Ele não era como um fogo que destruísse os pecadores. Ele se mostravam acessível aos pecadores que a Ele recorriam, ressaltando não a separação, mas a purificação; não a condenação, mas o amor redentor.

As questões que surgem desta maneira de ver as coisas são surpreendentes e cheias de esperança: a Igreja não é acaso a continuação dessa entrada de Deus no mundo da miséria humana? Não é a continuação da proximidade de Jesus que se senta à mesa com os pecadores? Não é a continuação do seu contato com os pecadores para chamá-los a outra vida? Não é uma mistura com a imundície do mundo para ajudar a purificá-lo? Acaso a Igreja pode ser outra coisa senão o amparar-se mutuamente, apoiados todos em Cristo?

Amparar-nos uns aos outros em Cristo, que carregou a nós todos

A santidade “quase imperceptível” da Igreja é consoladora: por acaso nos encorajaria mais uma santidade arrebatadora que não abraçasse a fragilidade humana para oferecer o perdão a quem se arrepende de coração? Se a Igreja fosse a comunidade só daqueles que merecem os prêmios pela perfeição, quem poderia permanecer nela?

Quem vive na consciência de que precisa do apoio dos outros não se recusará a prestar-lhes igualmente apoio.Este é o consolo que a comunidade cristã pode oferecer: amparar-nos uns aos outros como nós mesmos somos amparados.

O que realmente importa para os crentes

As visões reducionistas sobre a Igreja não levam em conta o que ela diz de si mesma nem o seu centro, que é Jesus Cristo.

“Os crentes autênticos não dão excessiva importância à luta pela reorganização de formas eclesiásticas. Vivem do que a Igreja sempre é. E querendo saber o que é a Igreja, basta dirigir-se a eles. Porquanto a Igreja geralmente está não onde se organiza, reforma, rege, mas nos que creem singelamente, recebendo dela a dádiva da fé, que se lhes torna fonte de vida. Só quem experimentou de que modo, por cima das vicissitudes dos seus ministros e das suas formas, a Igreja sustenta os homens, lhes dá pátria e esperança, uma pátria que é esperança: caminho para a vida eterna”.

Para Joseph Ratzinger, a Igreja vive na luta entre o pecado de seus membros e a santidade de Cristo que nela habita. Essa luta é frutífera quando por amor real e eficaz. Uma Igreja de portas fechadas destrói quem está dentro.

É ilusão acreditar que, deixando o mundo de fora, a Igreja pode torná-lo melhor. É ilusão acreditar numa “Igreja dos santos” quando o que existe é uma “Igreja santa”: santa porque é de Cristo, não porque nós sejamos santos.

Autor: Miguel Pastorinho

Embora haja amplas evidências de que nossas atitudes, pensamentos e emoções afetam nossa saúde e relacionamentos, a extrapolação pseudocientífica e mágica das conclusões da psicologia positiva séria tornou-se um risco para aqueles que a observam.

Isso se tornou a base de um negócio que vende ilusões e mentiras para milhões de pessoas que buscam uma vida melhor ou que simplesmente querem encontrar respostas para seus problemas diários.

Um mundo mágico

No meio da crise cultural em que estamos e a atração de um mundo tecnocrático, onde todo problema poderia ser resolvido por uma técnica ou por um especialista que nos daria uma solução imediata, não é estranho ver a propagação do pensamento mágico em diferentes setores da sociedade, mesmo entre profissionais instruídos que, apesar de sua formação científica e técnica, buscam respostas para o seu drama existencial em histórias mágicas com uma fachada pseudocientífica.

Publicações em redes sociais, com imagens que retratam rostos sorridentes e belas paisagens com frases positivas, inundam-nos diariamente, como se a vida que sonhamos só dependesse de nossos pensamentos, e principalmente de sermos otimistas e sempre pensarmos positivamente. Eles costumam repetir frases como “Não se esqueça de ser feliz” ou “Tudo depende da sua atitude” ou “Sempre temos que pensar positivo” ou “Visualize e isso acontecerá” etc.

A ideia básica é que, se a sua vida não está dando certo, é porque você realmente não quer que ela vá bem, ou porque você não está pensando do jeito certo ou colocando a intenção correta lá fora. Qual é o resultado disso? Bem, se você está tendo problemas ou dificuldades, é tudo sua culpa.

Apesar do absurdo desse raciocínio, tornou-se praticamente um dogma de fé nos ambientes de negócios e entre os consumidores de livros de autoajuda.

Além disso, há a ideologia promovida por livros como O Segredo, de Rhonda Byrne, e a vasta quantidade de literatura da “nova era” que prega a Lei da Atração como uma lei científica comprovada, que ensina que nossos pensamentos têm uma influência física na realidade. Tudo que você precisa fazer é saber o que quer e pedir ao universo por isso. Como se o universo fosse alguém, uma espécie de divindade impessoal que automaticamente retorna a você as coisas boas ou ruins que você pensa ou faz.

Para dar um tom mais científico às suas ideias, eles usam termos como “energia” ou “vibrações”, mas, na realidade, estão falando de realidades impossíveis de se verificar empiricamente. Como a crença antiga em um mundo totalmente controlado por espíritos bons e maus, hoje eles falam sobre energia positiva ou negativa, ou vibrações boas ou ruins.

A tendência do “pensamento positivo” tem sua origem nos Estados Unidos no século XIX, e se espalhou pela literatura sobre negócios, vendas e, nas últimas décadas, a indústria da autoajuda.

Tudo depende dos seus pensamentos?

Não é preciso muito raciocínio para explicar que muitos dramas humanos, injustiças e problemas de saúde não dependem dos pensamentos daqueles que os sofrem. As pessoas morrem de fome porque não estão pensando o suficiente sobre comida, então o universo não envia isso para elas? Devemos acreditar que as vítimas de abuso ou exploração atraem o sofrimento com suas mentes? Quando alguém te rouba ou te fere, é porque você não está pensando do jeito certo?

O perigo de encorajar as pessoas a pensar que são culpadas por tudo o que acontece com elas é bastante óbvio. Isso é atraente para aqueles que não querem pensar sobre a complexidade da realidade e das estruturas socioeconômicas que resultam em milhões de seres humanos que sofrem injustiças diariamente. Essa ideia nos desculpa de ter empatia ou tomar medidas concretas para ajudar os outros.

Sorrisos obrigatórios

Há ambientes em que não é mais aceitável que as pessoas digam que não se sentem bem, ou que nem tudo está bem etc. Tais afirmações são consideradas negativas, pessimistas ou intolerantes. Quando slogans motivacionais ou livros nos forçam a viver sob a obrigação de permanecermos positivos a todo custo, mesmo que as coisas estejam indo mal para nós, as pessoas se sentem obrigadas a esconder seus sofrimentos e a viver em um mundo artificial.

Quando alguém recebe más notícias, ou é diagnosticado com uma doença terminal, as pessoas ao seu redor – em vez de abraçar seu sofrimento e ajudá-las a prosseguir sem negar a realidade que estão enfrentando – impõem uma solução para elas: “Olhe pelo lado bom”, “O importante é olhar para o futuro”, “Venha, você pode fazer isso!” etc.

Essas atitudes, que pareciam tão positivas e cheias de amor, muitas vezes são realmente atos ocultos de egoísmo, que são implacáveis ​​e indiferentes ao sofrimento de outras pessoas. Elas são uma fuga rápida e simples do medo do sofrimento e de não saber como aceitar e viver com o sofrimento. Esperamos que um sorriso feliz nos tire magicamente do abismo. Na verdade, é uma maneira superficial e individualista de fugir da realidade.

Hoje podemos ver como, nas redes sociais, as pessoas se sentem obrigadas a publicar imagens felizes e irreais. Muitos adolescentes e jovens realmente acreditam que as fotos que veem no Instagram de seus amigos são uma representação fiel da realidade. O exibicionismo da felicidade tornou-se uma regra social que afoga aqueles que não sabem enfrentar suas dificuldades cotidianas. Não é natural pressionar as pessoas para que sejam sempre felizes e pensem positivamente 24 horas por dia.

Um mundo faminto por ideias profundas

A sociedade de hoje, que busca soluções rápidas e superficiais para todo tipo de problema, é o ambiente ideal para o surgimento de gurus que encantam seus ouvintes com ideias bonitas, mas superficiais, que simplificam demais a realidade. Mas tudo aponta para o fato de que as pessoas estão com fome do que é muito mais profundo do que simples trivialidades e pensamentos mágicos. 

Cultivar amizades verdadeiras e profundas, reservar tempo para o silêncio e a reflexão, e ler livros que nos proporcionem uma perspectiva mais ampla da vida, podem nos ajudar a compreender melhor a nós mesmos e aos outros e nos ajudar a aprofundar o que é real e duradouro. Esse é um caminho mais seguro para organizar nossos pensamentos e sentimentos – e muito melhor do que clicar em frases motivacionais ou correr atrás do guru mais moderno da atualidade.

Autor: Miguel Pastorinho via Aleteia