O Vaticano falsificou secretamente as certidões de batismo para permitir que muitos judeus emigrassem como católicos.

O que documenta a ação direta do Papa Pacelli são os documentos encontrados pelo historiador Michael Hesemann nos arquivos de Santa Maria dell`Anima, igreja nacional alemã em Roma. Em um telegrama original enviado pelo comando alemão em Berlim ao quartel general das SS de Romaem que ordenava a prisão de 8.000 judeus romanos a serem levados ao campo de trabalho de Mauthausen. Depois de uma intervenção papal, não foram detidos 8.000, mas pouco mais de 1.000.

Está documentada a ação pessoal e direta de Pio XII para frear as detenções dos judeus em Roma no dia 16 de outubro de 1943. Quando as prisões terminaram, o Papa Pacelli enviou um representante ao local em que estavam detidos para pedir libertação dos mil judeus que haviam sido presos, mas não foi permitido o ingresso.

O Papa ordenou que os judeus de Roma recebessem hospitalidade nas propriedades da Igreja e nas casas católicas, suspendendo as normas claustrais de modo que os homens pudessem ser admitidos nos conventos e as mulheres nos mosteiros de toda a Europa. Ele literalmente escondeu 7.000 judeus em um dia.

“Provavelmente, o Papa Pacelli salvou mais judeus do que todos os líderes políticos e religiosos do mundo juntos”. Gary Krupp, presidente da Pave the Way Foundation, comenta que “é hora de reconhecer o Papa Pio XII pelo que ele realmente fez e não pelo que ele não disse”. E acrescenta: “Pelo que eu vi e conheci, o papa é, sem dúvida, o maior herói da Segunda Guerra Mundial. Pio XII não foi o Papa de Hitler. Ao contrário, era um homem que Hitler queria matar”.

Além disso, o futuro Pio XII se aproveitou de sua influência para que o então representante da Organização Sionista Mundial Nachum Sokolov fosse recebido pessoalmente pelo Papa Bento XV para falar de uma pátria judaica na Palestina. Em 1926, Dom Pacelli exortou os católicos alemães a apoiar o Comitê Pró-Palestina, que apoiava os assentamentos judeus na Terra Santa.

Os documentos, que podem ser baixados no site da fundação, incluem um manuscrito de uma freira, datado de 1943, que explica detalhadamente as instruções recebidas do papa, assim como uma lista de judeus protegidos. Um outro documento é um relatório do US Foreign Service do cônsul norte-americano em Colônia, que informa sobre o “novo Papa” em 1939. O diplomata se mostrou surpreso pela “extrema aversão” de Pacelli contra Hitler e o regime nazista, e pelo seu apoio aos bispos alemães na sua oposição ao nacional-socialismo, mesmo às custas da supressão das Juventudes Católicas Alemãs.

Em um documento datado de 1938, o então secretário de Estado Eugenio Pacelli se opõe ao projeto de lei polonês que declarava como ilegal o sacrifício kosher, visto que essa lei “significaria uma grave perseguição contra o povo judeu”.

Durante a guerra, Pio XII escreveu um telegrama ao então regente da Hungria, o almirante Miklós Horthy, para que evitasse a deportação dos judeus, e estes concordaram, pelo qual se estima que tenham sido salvas 80 mil vidas. Ao governo brasileiro, ele pediu que aceitasse 3.000 “não arianos”.

Em um testemunho, o general Karl Wolff fala detalhadamente do plano de Hitler de atacar o Vaticano e sequestrar o papa. Havia espiões no Vaticano, e franco-atiradores alemães a 200 metros das janelas papais. A própria limitação das declarações públicas do papa, que suscitou muitas críticas contra ele, é explicada pelo aumento das penas nos campos de concentração, testemunhada por ex-prisioneiros, todas as vezes que as autoridades eclesiásticas falavam contra o regime nazista.

Estão documentados muitos exemplos das ações diretas e do ministério pastoral de Eugenio Pacelli para salvar os judeus da tirania nazista. Há provas da “direta intercessão de Pacelli para defender os judeus da Palestina dos turcos otomanos em 1917 e do seu encorajamento para instituir uma pátria judaica na Palestina em 1925.

Além disso, o Papa Pio XII teve um papel ativo na oposição a Hitler. Entre as testemunhas do que Pio XII fez em favor dos judeus durante o Holocausto, está também a prova da ordem que o papa deu para hospedar os judeus nos conventos.

No Memorial das Religiosas Agostinianas do Mosteiro das SS. Quattro Coronati de Roma, de 1943, está escrito: “Chegadas a este mês de novembro, devemos estar prontas para prestar serviços de caridade de forma totalmente insuspeita. O Santo Padre Pio XII, de coração paterno, sente em si todos os sofrimentos do momento. Infelizmente, com a entrada dos alemães em Roma, ocorrida em setembro, iniciou uma guerra implacável contra os judeus que querem exterminar mediante atrocidades sugeridas pela mais obscura barbárie”.

“Nessas dolorosas circunstâncias – lê-se ainda no Memorial –, o Santo Padre quer salvar os seus filhos, também os judeus, e ordena que, nos mosteiros, se deve hospitalidade a esses perseguidos, e as clausuras também devem aderir ao desejo do Sumo Pontífice, e, a partir do dia 4 de novembro, nós hospedamos, até o dia 6 de junho posterior, as pessoas aqui listadas… “. No Memorial, conta-se que, “para a quaresma, os judeus também vinha ouvir as pregações, e o senhor Alfredo Sermoneta ajudava na igreja”.

E ainda: “Com a guerra terminada, falava-se da bondade do Santo Padre que havia ajudado e salvo tantos judeus, assim como jovens e famílias inteiras”. Isso confirma o compromisso pessoal e institucional de Pio XII para proteger e salvar os judeus perseguidos. Falta a cópia escrita da ordem de Pio XII, porque, em uma situação de guerra, com a cidade ocupada pelos nazistas, uma pessoa prudente não publica uma ordem, mas manda mensageiros de confiança para comunicar as vontades do Santo Padre. Teria sido imprudente e perigoso escrever uma ordem que poderia cair nas mãos erradas e pôr em perigo a vida de muitos.

Além disso, foi organizado um grupo de sacerdotes que, sob as ordens da Secretaria de Estado, andavam de uma casa religiosa a outra, batendo também nas universidades, seminários, escolas, paróquias, para pedir que abrissem os conventos e organizassem uma rede de assistência.

No fim da guerra, foram cerca de 150 as casas religiosas, mosteiros e paróquias que salvaram milhares de judeus da morte certa. Pio XII e a Igreja Católica salvaram a vida de centenas de milhares de judeus em toda a Europa.

A reportagem é de Giacomo Galeazzi, publicada no Vatican Insider

Daqui a um ano o Vaticano abrirá o Arquivo secreto relativo ao pontificado de Pio XII. Isso foi anunciado pelo Papa Francisco durante a audiência aos membros do Arquivo Secreto Vaticano, recebidos na Sala Clementina do Palácio Apostólico. “Anuncio a minha decisão de abrir para a consulta dos pesquisadores o material de arquivo relativo ao pontificado de Pio XII, até sua morte, ocorrida em Castel Gandolfo em 9 de outubro de 1958″, declarou solenemente o Pontífice.

“Eu decidi que a abertura dos Arquivos Vaticanos para o pontificado de Pio XII terá lugar em 2 de março de 2020, exatamente um ano após o 80º aniversário da eleição à Cátedra de Pedro de Eugênio Pacelli. Assumo esta decisão – explica Papa – depois de ter ouvido a opinião dos meus colaboradores mais próximos, com espírito sereno e confiante”.

O Papa afirma estar “confiante que a séria e objetiva pesquisa histórica saberá avaliar sob a correta luz, com crítica apropriada, momentos de exaltação daquele Pontífice e, sem dúvida, também momentos de grande dificuldade, de atormentadas decisões, de humana e cristã prudência, que a alguns pareceram reticência, mas que, na verdade, foram tentativas, humanamente também muito controversas, para manter acesa, nos períodos de mais densa escuridão e de crueldade, a chama das iniciativas humanitárias, da diplomacia escondida, mas ativa, da esperança em possíveis boas aberturas dos corações”.

Papa Francisco, anunciando a abertura dos documentos sobre o pontificado de Pio XII mantidos no Arquivo secreto Vaticano, destacou que “a Igreja não tem medo da História, aliás, a ama e gostaria de amá-la mais e melhor, como a ama Deus! Assim, com a mesma confiança de meus antecessores, abro e confio aos pesquisadores este patrimônio documental”.

Para o Papa, “a figura do Pontífice, que esteve conduzindo o Barca de Pedro em um momento entre os mais triste e sombrios do século XX, agitado e em muitos lugares dilacerado pelo último conflito mundial, com o subsequente período de reorganização das Nações e reconstrução pós-conflito, esta figura já foi investigada e estudada em muitos dos seus aspectos, por vezes discutida e até mesmo criticada, ao que parece, com algum preconceito ou exagero”.

Hoje, ressalta novamente o Papa, “é oportunamente reavaliada e, aliás, colocada na luz correta por suas poliédricas qualidades: pastorais, em primeiro lugar, mas, também, teológicas, ascéticas e diplomáticas.”

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Com a abertura do arquivo sobre o Pontificado, é possível compreender melhor suas decisões, inclusive as mais polêmicas. Andrea Riccardi, historiador do cristianismo e fundador da Comunidade de Santo Egídio, um dos maiores especialistas sobre a vida do Papa Pacelli, não tem dúvida sobre isso.

Quão importante é tornar esses documentos públicos?

A decisão do Papa é muito positiva. Havia a hipótese de abrir o arquivo somente até 1945, mas eu era absolutamente contra, porque é necessário tomar todo o Pontificado, como estabeleceu Francisco.

O que você acha da expectativa que se cria em torno da abertura do arquivo?

Há muito medo pelo que os documentos contêm. Além disso, a discronia entre o trabalho dos historiadores contemporâneos e a abertura dos arquivos não ajudou a Santa Sé, porque se trabalhou com documentos secundários.

O que a Igreja deveria temer?

Nada, claro. Com Pio XII nos deparamos com um problema muito particular: a questão da guerra e dos silêncios diante das atrocidades nazistas, a Shoah. Mas estou convencido de que a imagem que surgirá dará uma história concreta, a percepção dos protagonistas destes eventos e explicará os motivos das decisões. Além do mais, a partir de 1965, Paulo VI iniciou a publicação das “Atas e documentos da Santa Sé sobre o período da Segunda Guerra Mundial”, motivo pelo qual já tivemos um gostinho do que os documentos podem conter.

Quais são os efeitos que eles poderiam ter?

O amor dos documentos reduzirá os “scoops”. Mas vai precisar de um grande e sério trabalho.

O Papa, no anúncio, disse que “a Igreja ama a história”: o que você acha?

O discurso do Pontífice torna concreta a relação entre a Igreja e a história, porque a Igreja é história e o cristianismo é uma religião histórica. A Igreja é a história do povo de Deus e, portanto, seus documentos são importantes. Mas isso não significa que devamos enfrentá-la teologicamente, porque essa história é em si mesma preciosa para a própria Igreja.

Como você interpreta a reação do mundo hebraico, que manifestou, com exceções, satisfação e otimismo cauteloso?

Em primeiro lugar, uma premissa: a ideia de negar o acesso a um arquivo não causa uma boa impressão àqueles que têm perguntas sobre a história. É por isso que a decisão do Vaticano de negar o acesso aos arquivos, explicada com o problema da catalogação, nunca me pareceu correta, porque não é do interesse da história nem da Igreja.

Alguns dos meus interlocutores me disseram: “Mas desta maneira virão à tona as recomendações”; mas as recomendações já vieram à luz, estão nos arquivos diocesanos. Fico impressionado com o favor do mundo judaico, porque no fundo tem os problemas bem conhecidos com relação a Pio XII. Mas, ao mesmo tempo, sei que o mundo judaico tem o cuidado de “fazer história” de maneira concreta e documentada.

O que poderá aparecer?

Um patrimônio histórico de valor inestimável: o nascimento da Democracia Cristã, o grande papel de Giovanni Battista Montini, futuro Paulo VI, e sua transferência para Milão, que foi considerada como um afastamento, mas que acabou se revelando uma preparação para o papado. Aparecerá também o papel de Roncalli, futuro João XXIII, núncio durante a guerra e na França.

Quais são os textos pelos quais está aguardando?

Os documentos sobre os nove meses de ocupação alemã em Roma. Porque naquela época o Vaticano e Pio XII tiveram um grande papel, no sentido de que ajudaram milhares de pessoas, judeus e não judeus, a se esconderem, e esse fato foi decisivo na história de Roma. Em certo sentido, fizeram um “jogo” com o comando alemão, tranquilizando-o e, por outro lado, transformaram todos os espaços religiosos em lugares de asilo. E foi um jogo não apenas generoso, mas também inteligente.

 Fonte: Vatican Insider