Blog do Carmadélio

* A imaginação narrativa do Papa, enraizada na espiritualidade inaciana, é a chave interpretativa da entrevista publicada na Civiltà Cattolica.

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A imaginação criativa de Francisco, enraizada na espiritualidade inaciana, é a chave interpretativa da sua mais recente entrevista

O Papa Francisco pensa em termos de história. É assim que a sua imaginação trabalha.

É preciso considerar, por exemplo, o seguinte trecho da entrevista concedida a Antonio Spadaro, SJ, diretor da “Civiltà Cattolica”, a revista jesuíta italiana.No meio de uma discussão um pouco ininteligível, sobre quando as linhas humanas de pesquisa se tornam decadentes, o Santo Padre diz:

“Quando uma expressão do pensamento deixa de ser válida? Quando o pensamento perde de vista o humano, quando o homem lhe causa medo ou quando se deixa enganar sobre si mesmo. Podemos representar o pensamento enganado na figura de Ulisses diante do canto das sereias, ou como Tannhäuser, rodeado de uma orgia de sátiros e bacantes, ou como ‘Parsifal’, no segundo ato da ópera wagneriana, no palácio de Klingsor. O pensamento da Igreja deve recuperar genialidade e entender cada vez melhor a maneira como o homem compreende a si próprio hoje, para desenvolver e aprofundar seus próprios ensinamentos.”

Aqui está o Papa Francisco pensando em histórias, comparando pensamentos infrutíferos com a sedução de Ulisses pelas sereias, entre outras narrações.

A tendência de Francisco de pensar em histórias, eu acho, é a chave interpretativa para entender o que ele está tentando dizer na entrevista com o Pe. Spadaro, e poderia ser a chave interpretativa de todo o seu pontificado. Mas esta sugestão só convencerá aqueles que se detiverem menos nos títulos da entrevista e mais naquelas partes em que Francisco fala, entre outras coisas, sobre os jesuítas, sobre ser o primeiro papa jesuíta, sobre a espiritualidade inaciana e sobre o mistério da autocompreensão humana.

Nessas respostas, o Papa nos oferece pontos de vista cruciais sobre como ele concebe a primeira tarefa da Igreja: dentro de uma história em que Deus, trabalhando incansavelmente, com nossa ajuda, nos oferece amor, misericórdia e salvação, a todos.

Certos termos chaves, todos conceitualmente unidos e enraizados no entendimento de Francisco sobre os ensinamentos do fundador da sua ordem, encontram-se nessas respostas: discernimento, o grande e o pequeno, narrativa, tempo, fronteira, acompanhamento.

Em resposta a uma pergunta sobre os jesuítas, por exemplo,O papa Francisco declara: “Da Companhia se pode falar somente de forma narrativa. Só na narração se pode fazer discernimento”. Para ele, a Companhia de Jesus pode ser explicada como uma história, assim como toda a vida da Igreja, e a vida de cada alma.

Cabe ressaltar, além disso, que o Papa diz que “só na narração se pode fazer discernimento”. O sentido da narração e o sentido do discernimento caminham juntos. Quando lhe foi perguntado “O que significa para um jesuíta ser bispo de Roma?”, a primeira palavra  foi “discernimento”, um dos principais pilares da espiritualidade inaciana.

O papa Francisco considera o discernimento como “um instrumento de luta”. Poderíamos dizer que é uma espécie de “leitura” que permite à pessoa compreender como o Senhor, verdadeiro protagonista da história das nossas vidas, nos chama a Ele através do tempo, conecta esta arte do discernimento à virtude da magnanimidade. A magnanimidade – ser uma “grande alma” – é, segundo ele, a virtude das coisas pequenas em relação às grandes. Significa ser capaz de discernir a narrativa da alma que luta no tempo, no contexto dos planos eternos e providenciais de Deus. Explica:

“Esta virtude do grande e do pequeno chama-se magnanimidade, e, cada um, na posição que ocupa, faz com que coloquemos sempre a vista no horizonte. É fazer as coisas pequenas de cada dia com o coração grande e aberto a Deus e aos outros. É dar seu valor às coisas pequenas no marco dos grandes horizontes, os do Reino de Deus.”

A atitude da magnanimidade confere ao discernimento uma perspectiva adequada. Viver na tensão entre “as coisas pequenas de cada dia” e um “coração grande e aberto a Deus” permite ler a ação de Deus nas vidas particulares. Isso nos permite recordar, como ensina Santo Inácio, que “os grandes princípios devem ser incluídos nas circunstâncias do lugar, do tempo e das pessoas”.

Esta última citação oferece grandes benefícios para a meditação. Princípios “geniais” (entre os quais é preciso incluir, certamente, os preceitos do Decálogo) devem ser lidos dentro das “pequenas coisas de cada dia”, ou seja, as circunstâncias vividas pelos indivíduos que lutam, às vezes, em seus defeitos, para encontrar Deus em suas vidas.

Mas se, no entanto, os grandes princípios estão “sem corpo”, abstraídos do seu contexto adequado nas lutas diárias das pessoas humanas (consideram-se, na metáfora que O papa Francisco emprega no final da entrevista, como espécimes “de laboratório”), então corremos o risco de ter os princípios de uma ideologia e transformar o Evangelho em uma plataforma política.

“A nossa fé não é uma fé-laboratório, mas uma fé-caminho, uma fé histórica. Deus se revelou como história, não como um compêndio de verdades abstratas.”

Esta frase cativa: Deus se revelou como história, ou seja, como uma história que, como todas as histórias, se desenvolve no tempo.

O que Papa Francisco diz na entrevista sobre os princípios morais consternou muitos dos seus mais firmes aliados. Mas, ao falar da necessidade de que os princípios sejam incorporados no tempo, isso não significa que os princípios cristãos estejam abertos à interpretação de ninguém ou que sejam “relativos” a qualquer história que a pessoa sonhe ter. Não, em absoluto.

A atitude narrativa de Francisco é simplesmente que os seres humanos não foram feitos para as verdades morais, mas são as verdades morais que foram feitas para os seres humanos. Os grandes princípios estão destinados a ser guias ao longo do nosso caminho rumo ao encontro com o Deus vivo. São sinais em nosso caminho de uma comunidade de pessoas que não são, elas mesmas, o destino.

Um dos maiores desafios enfrentados pela Igreja na atualidade, percebe o Papa Francisco, é o fracasso da magnanimidade e do discernimento, a falta de leitura dos tempo à luz da história essencial do Evangelho. “A Igreja, às vezes, bloqueou a si mesma nas coisas pequenas, nas regras de mente estreita.”

Mais uma vez, é a dinâmica dos pequenos e dos grandes. O Papa destaca que falhamos tanto na magnanimidade como no discernimento, quando nos centrarmos nas normas, em detrimento do nosso acompanhamento das pessoas.

Este acompanhamento das almas, sobretudo na “noite” do seu vagar, com o fim de levar-lhes a luz de Cristo, está se tornando um tema recorrente no ministério do Papa Francisco. E é no contexto deste tema que devemos entender suas palavras a respeito de que a Igreja “não pode insistir unicamente em questões relacionadas ao aborto, ao casamento gay e ao uso de métodos anticoncepcionais”, assim como “não é necessário insistir nestes temas o tempo todo”, repete ele.

Isso não significa diminuir tais ensinamentos, mas ampliar nossos corações para que possamos lê-los e ajudar outros a lê-los, à luz da história do que ele chama de “primeira proclamação”: “Jesus Cristo te salvou”.

Lamentavelmente, a história real que muitos estão vivendo em nossa cultura é a de ser um soldado ferido em uma grande guerra espiritual. De acordo com a imaginação do Papa, a Igreja é o “hospital de guerra” que vai ao encontro daqueles que estão espalhados por este campo de batalha, e cura suas feridas.

E quais são estas feridas, ou, mais essencialmente, seus fracassos na tentativa de amar Jesus Cristo? É este amor que precisa estar aceso no coração humano, na chama em que todos os princípios morais têm sentido e se tornam louváveis.

Assim, voltamos à pergunta de Francisco: “Quando uma expressão do pensamento deixa de ser válida?”. E sua resposta: “Quando o pensamento perde de vista o humano, quando o homem lhe causa medo ou quando se deixa enganar sobre si mesmo”.

Para evitar este tipo de pensamentos decadentes, devemos acompanhar o Papa Francisco lá fora, na “fronteira”, onde nossos amigos estão morrendo; e ajudá-los a encontrar o amor desse herói único que pode trazer a cura de que precisam.

Daniel McInerny é escritor, filósofo e jornalista

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