blogs
Blog do Carmadélio

* Por que é preciso ter cuidado ao assistir ‘os 13 Porquês’, da NETFLIX.

Captura-de-Tela-2017-01-25-às-15.50.34

Quando li o livro, pela primeira vez estava viajando. Tinha decidido passar um mês fora e li por pura diversão. Agora que tive a chance de assistir ao seriado, fiquei com medo de como as pessoas, especialmente as que estão fragilizadas, vão entendê-lo. A primeira ideia é super bem vinda: vamos falar sobre suicídio! Algo extremamente necessário atualmente. Mas, à medida que fui assistindo à série, minha preocupação foi aumentando.

Aí vem os Spoilers, muitos spoilers! Se você não assistiu, não leia o que escrevi.
Primeiro vem a questão das fitas.

Cada fita é um motivo pelo qual Hannah decidiu se matar e está relacionada a diferentes pessoas. Entendi que as fitas foram gravadas como uma forma de se vingar contra as pessoas que a tinham feito mal. A ideia é: vou me matar, mas vou levar todos comigo.Ai vem o questionamento: até onde somos responsáveis pelo suicídio de alguém? Essa questão de encontrar culpados me preocupa, até porque vejo essa questão quase todos os dias no consultório, especialmente por quem está passando por situação parecida. 

Não à toa que um dos personagens também tenta suicídio e outro tem um baú cheio de armas de grande porte e, logo depois, começa a ver fotos de alunos como se fossem possíveis alvos para uma chacina.

Não podemos negar que o seriado levanta questões importantes sobre bullying, assédio moral e sexual, machismo, relação da escola com os alunos e dos pais com os filhos. Mostra como estas relações estão cada vez mais distantes e como cada vez mais aumenta o desrespeito entre as pessoas. 

Também ouvi várias pessoas falando sobre o aumento de ligações para o CVV. Em primeiro lugar, é claro que as ligações aumentariam: este é o efeito esperado de uma campanha de divulgação. Em segundo lugar, as ligações comprovam também que “Os 13 Porquês” tem um imenso potencial para disparar gatilhos. Gatilhos esses perigosos e que podem levar ao suicídio.

Ao encenar com detalhes o suicídio de Hannah, a série vai de encontro as várias as recomendações feitas pela própria Organização Mundial da Saúde (OMS) quanto à forma com que o suicídio deve ser tratado pela mídia. Aliás, duvido que eles tenham lido algo sobre como a OMS recomenda tratar questões relacionadas ao suicídio.

Quem está em depressão grave, pode confirmar na série que a única saída é mesmo o suicídio. Hannah em nenhum momento procura ajuda de verdade. De certa forma ela quer que as pessoas cheguem até ela para salvá-la, o que na maioria das vezes é impossível, pois não sabemos o que se passa dentro da cabeça do outro. Ela tenta falar com colegas que não a aceitam ou que já fizeram mal a ela, como conselheiro da escola que não tem formação profissional e a conversa com seus pais é extremamente superficial. O final é extremamente simbólico quando ela fala: “Eu não me importo mais, e vocês não se importaram o suficiente”. Novamente, a questão da culpa.

Ficaria muito mais tranquila se o seriado mostrasse que há, sim, saídas ao invés do suicídio. Sim, há angústias, maldades, mas que podem ser superadas. Locais onde a personagem poderia procurar ajuda de psicólogos, psiquiatras, grupos de apoio, igreja, etc., ao invés de mostrar o suicídio de Hannah de forma bem gráfica. 

No final, para mim, a intenção do seriado não vingou. Em vez de dar esperança às pessoas que estão com a vida por um fio, ele mostra que o melhor a fazer é arrumar culpados e depois se matar. A ideação suicida já é, por si só nociva. Reforçá-las com narrativas irresponsáveis é algo não só desaconselhável, mas também perigoso.

Resumindo: se você está bem psicologicamente, assista a série. Mas se você está mal, com depressão grave e ideação suicida, não assista e procure ajuda profissional.

Autora: Luiza Braga (CRP 11/04767)
Psicóloga. Possui especialização em Psicologia da Saúde pela PUC/SP e Mestrado em Psicologia Clínica pela PUC/SP. 

(Visited 55 times, 1 visits today)
Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião da comunidade Shalom. É proibido inserir comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem os direitos dos outros. Os editores podem retirar sem aviso prévio, postaram comentários que não cumprem os critérios estabelecidos neste aviso ou que estejam fora do tema.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Seguir

  1. Realmente a forma como a série aborda o tema é perigoso para pessoas com tendências a depressão e suicídio. Mas acho muito reComendado a pais, educadores, pastores de grupos e formadores. Porque me fez perceber que a indiferença a dor do outro pode ter consequências. É claro que no fim a escolha é da pessoa, e não podemos ajudar quem não quer ser ajudado. Mas também não podemos ser frios a ponto de se acomodar e falar que nossos atos não tem consequências e até mesmo a nossa inércia em relação ao outro pode ferir.

    Imagino se Cristo tivessem olhado pra gente e dIssesse “eles estão escolhendo se matar, não é culpa minha. Dei tudo por eles, não posso fazer nada.” Mas não foi assim, Ele se deu por inteiro mesmo muitos ainda escolhendo a morte.

    Esta série me fez olhar de forma mais atento aos meus atos, aos meus erros, as pessoas que eu acompanho e principalmente ao pecado da indiferença.

    Seria muito lindo se no fim ela não se matasse. Mas na vida real as coisas acontecem assim. E me fez refletir: a vida do outro não é uma brincadeira. A dor do outro não deve ser desprezada, mesmo ela sendo imatura.

    Sim pessoas depressivas não devem ver esta série. Mas ignora-la e resumi-la a “uma forma de influenciar o suicídio”, é ser muito insensível a tudo o que ela pode nos ensinar e penso que seja até mesmo anticristao. Porque parece “ah, as pessoas não se deixam ser ajudadas. Então vou me acomodar porque não é culpa minha”

    “Se você pode fazer algo para ajudar uma pessoa, mas você não faz e algo ruim acontece por causa disso, você também é culpado”

    Ps. Se a inTenção da série era trazer esperança para alguém depressivo ou com vontade de suicidar ela realmente teria fracassado. Mas não é. O alvo dela é justamente a todos nós que não nos encontramos nesta situação, mas que em poucos atos podemos ajudar a apertar o gatilho ou salvar alguém.