blogs
Blog Carmadélio

* ‘Hater’ católico. Esse comportamento digital é coerente com nosso chamado?

149703.266063-Haters-Gonna-Hate

“Hater” é um termo usado para classificar pessoas que postam comentários de ódio na internet

Eu me lembro que, quando tinha 17 anos, havia uma série americana que, no Brasil, era intitulada “Barrados no Baile”. Além do nome horrível, a série apresentava a vida de adolescentes americanos, e um deles se chamava Brenda Walsh. Um dia, li no jornal que havia um movimento chamado “I Hate Brenda!” (Eu odeio Brenda!). Lembro-me de ter ficado pensando por algum tempo: “Cara, quem é que diz abertamente que odeia alguém, mesmo sendo um personagem de TV? Quem é que está tão confortável com isso que até faz disso um movimento?”.

O ódio na internet

Bem, “a internet deu voz a milhões de imbecis”, segundo Umberto Eco. Parece que deu mais, deu voz ao ódio de milhões!

Segundo a Wikipedia: “Hater” é um termo usado na internet para classificar pessoas que postam comentários de ódio ou crítica sem muito critério.

Diariamente, a minha timeline despeja diante dos meus olhos muitas iniciativas de esperança, fé e caridade, mas também uma excessiva agressividade crítica. Não são as minhas ideias que são esmurradas verbalmente ou por meio de imagens (os memes), mas as pessoas.

Eis que abro a Apple Store e lá está a propaganda de um aplicativo chamado: Hater – conheça gente que odeia as mesmas coisas que você!

O ódio no ambiente digital cristão

Muitos de nós conhece a frase de Santo Agostinho: “Odiar o erro, amar os que erram”. Teria esse propósito caducado em nossos dias? Eis que, ao realizar uma busca no Google, encontrei logo no topo um texto que começava assim: “A frase ‘Deus ama os pecadores, mas odeia o pecado’ não está na Bíblia. É fruto de uma reflexão derivada de uma psicologia secular, humanista e completamente diabólica”.

Parece que a internet permite e protege a disseminação de certos ódios e conflitos que, se vividos presencialmente, seriam suavizados por regras de boa convivência e respeito.

Há também uma certa permissividade em invadir a privacidade do outro. Trabalhando por anos com adolescentes, tenho visto a frequência com que acontece a exposição por fotos e vídeos dos “piores” momentos dos outros. O que antes era apenas uma crítica verbal (ainda que cheia de vociferação), agora ganha cores, imagens e sons descontextualizados, impiedosamente julgados como se do outro lado não houvesse um outro ser humano. Aliás, expor o outro ou mesmo multiplicar a exposição que o ele fez de si mesmo parece dar certa satisfação. Como se houvesse um “nós” e o “eles”, onde os limites entre mocinhos e bandidos, santos e pecadores, justos e injustos tranquilizasse nossa consciência.

A intolerância com as divergências e incoerências se misturam com os intolerantes, divergentes e incoerentes

Doutorando em Ciências da Cultura e da Comunicação na UFABC e professor de Jornalismo Digital na Faculdade Cásper Líbero, Renato Rovai explica que “os haters são pessoas com ideologias fortes e que não aceitam opiniões divergentes. Para atacar os internautas com ideias diferentes, eles se unem e enviam mensagens de ódio”.

A intolerância às divergências assusta. A incapacidade de dialogar respeitando as diferenças se torna onipresente, em especial a intolerância com a incoerência, ou o que se considera incoerência do outro. Um post, uma foto, um comentário já são suficientes para rotularmos o outro e sua conduta. Já são suficientes para sermos chamados a orientarmos sua conduta e boa doutrina. No ambiente digital, diferente do presencial, somos todos fiscais da vida alheia.

Os muitos tons neste panorama

Meu amigo, um bom amigo com quem tenho diferenças e semelhanças, alerta-me de que existem haters, mas precisamos saber diferenciá-los daqueles que defendem a doutrina, daqueles que o fazem (defender a doutrina) de maneira exagerada (por falha de formação) e dos conservadores. Meu amigo me lembra que são muitos tons e não só preto no branco. Existem muitos, mais de 50 (!?), tons neste panorama!

Um caminho ou saída?

Bem, eu não sou um filósofo, sociólogo, pensador ou coisa semelhante. Sou um evangelizador, catequista, cristão católico. Sou pecador. Todos os dias, penso em como construir o Reino de Deus aqui e agora. Pouco a pouco. Em um “já” e um “ainda não”. Não tenho respostas prontas.

Tenho preocupações e sofrimentos por todos, pelos que odeiam e são odiados, os que não toleram e não são tolerados. Os que corrigem sem se preocupar com os corrigidos. Não quero a permissividade e a relativização absoluta, mas também não posso deixar de partir sempre do mesmo ponto, que é paradoxalmente o mesmo ponto de chegada também: o outro. “Amando o próximo, limpas os olhos para veres a Deus”, lembra-nos Agostinho. Não cabe aqui eu julgar o amor e a caridade de quem publica, comenta ou compartilha. Talvez, caiba mais a preocupação com a trave no nosso olho do que com a trave no olho do outro.

No fim, nem todos dizem: “Senhor, não foi em teu nome que fizemos isto ou aquilo?” No fim, teremos que ter mais para oferecer em obras de misericórdia. Corrigir faz parte da dinâmica de comunidade, mas também precisamos cuidar dar forma, do tom e do timbre, do lugar propício, ainda que este lugar seja uma rede social. Publiquem-se textos e exponham-se argumentos. Deem-se testemunhos de santidade e coerência. Não silenciemos no que podemos contribuir para o crescimento da Igreja. Mas não humilhemos os outros ao expor suas limitações. Não apedrejemos quando o outro parece estar em pecado. Nem a humilhação nem as pedras constroem o vínculo de caridade que alicerça o Reino de Deus.

__

Por Augusto Cezar (Músico da Banda DOM, compositor, escritor e palestrante), via Canção Nova.  

(Visited 1 times, 1 visits today)
Comentários

Deixe um comentário