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Blog do Carmadélio

Esclarecidas as circunstâncias da morte de  João Paulo I, o Papa sorriso que, em 1978, reinou por apenas 33 dias.

Pela primeira vez, graças a uma investigação documentada, fascinante como uma investigação policial e precisa como uma pesquisa histórica, foram definitivamente esclarecidas as circunstâncias da morte de  João Paulo I  que, em 1978, reinou por apenas 33 dias: pouco antes de jantar pela última vez, o papa teve um mal-estar, subestimado por todos.

Chegará às livrarias na Itália no dia 7 de novembro, um livro baseado em documentos e testemunhos inéditos, que põe fim ao “suspense” sobre o falecimento do pontífice vêneto. Ele tem o prefácio do cardeal secretário de Estado, Pietro Parolin, e se intitula Papa Luciani. Cronaca di una morte [Papa Luciana. Crônica de uma morte] (Ed. Piemme, 252 páginas). Ele foi escrito pela jornalista Stefania Falasca, vice-postuladora da causa, que interrogou testemunhas até hoje nunca ouvidas, tendo acesso aos fascículos secretos da Santa Sé e aos registros clínicos.

Ir. Margherita

Ela se chama Ir. Margherita Marin, tem hoje 76 anos e, na época dos fatos, era a mais jovem das religiosas vênetas a serviço do papa. Foi ela que entrou, na madrugada do dia 29 de setembro de 1978, no quarto de João Paulo I, logo depois da Ir. Vincenza Taffarel, a idosa religiosa que, há mais de 20 anos, auxiliava Luciani.

É ela que testemunha, pela primeira vez, o que aconteceu nas horas anteriores à morte súbita do papa. É ela que desmente que ele estivesse cansado e quase esmagado pelo peso da nova responsabilidade: “Eu o vi sempre tranquilo, sereno, cheio de confiança, seguro”. É ela quem atesta que ele não seguia dietas particulares e comia o que os outros comiam.

Eis como João Paulo I passou as suas últimas horas de vida, na tarde do dia 28 de setembro: “Eu estava passando roupa no guarda-roupa com a porta aberta e eu o via passando para a frente e para trás. Ele caminhava no apartamento segurando as folhas que estava lendo… Eu lembro que, ao me ver passando roupa, ele também me disse: ‘Irmã, eu faço vocês trabalharem tanto… Mas não fique passando a camisa tão bem, porque está quente, eu suo e preciso trocá-la muitas vezes… Passe apenas o colarinho e os pulsos, porque o resto não se vê nada, sabe…”.

A cabeceira

De testemunhos cruzados, entre os quais está o do ajudante de quarto Angelo Gugel, esclarece-se o mal-estar que Luciani teve naquela noite, pouco antes do jantar, enquanto rezava com o secretário irlandês, John Magee. Um documento até hoje secreto, redigido nos dias posteriores à morte, fala a respeito. Ele foi escrito por Renato Buzzonetti, primeiro médico a ser chamado ao leito do papa morto. No detalhado relatório por ele dirigido à Secretaria de Estado no dia 9 de outubro de 1978, fala-se do “episódio de dor localizada no terço superior da região do esterno, sofrido pelo Santo Padre perto das 19h30 do dia da morte, que se prolongou por mais de cinco minutos, verificado enquanto o papa estava sentado e concentrado na oração das Completas com o padre Magee e que regrediu sem qualquer terapia”.

É um testemunho decisivo, porque foi recolhido no imediatismo da morte: a Farmácia Vaticana não foi aberta, e nem se avisou a Ir. Vincenza, que era enfermeira e que, justamente naquela noite, falou ao telefone com o médico que cuidava do papa, Antonio Da Ros, residente em Vittorio Veneto, sem fazer qualquer menção ao mal-estar.

Portanto, não foram administrados remédios a Luciani, nenhum médico foi chamado para verificações, apesar de o novo papa ter sentido uma forte dor no peito, sintoma do problema coronário que, naquela mesma noite, pararia o seu coração.

O Pe. Magee, no seu testemunho aos autos, contou que o próprio pontífice não quis avisar o médico. Buzzonetti só será informado a respeito no dia seguinte, diante do corpo estendido sobre a cama.

O achado

O livro de Falasca, graças aos novos testemunhos, revela algumas contradições nos relatos dos dois secretários particulares do pontífice. O Pe. Diego Lorenzi, o sacerdote orionino que tinha acompanhado Luciani desde Veneza, não estava presente no momento em que o papa teve o mal-estar na capela. E, na noite de 28 de setembro, logo depois do jantar, deixou o apartamento.

João Paulo I, atesta a Ir. Margherita Marin no depoimento aos autos da causa, decidira substituí-lo. Na manhã de 29 de setembro, não foram os secretários que encontraram o corpo do pontífice, mas sim a Ir. Vincenza e a Ir. Margherita. O papa não havia tocado no café que havia sido deixado para ele na sacristia às 5h15, e, assim, a Ir. Vincenza, depois de bater várias vezes na porta, entrou no quarto e disse: “Santidade, o senhor não deveria fazer essas brincadeiras comigo!”. A religiosa, de fato, era fraca de coração. “Depois, ela me chamou, saindo chocada”, conta a Ir. Margherita. “Então, eu logo entrei também com ela e o vi. (…) Eu toquei as suas mãos, estavam frias. Olhei e me chamaram a atenção as unhas um pouco escuras”.

As dúvidas dos cardeais

Entre os documentos inéditos no apêndice do livro, estão os registros clínicos, dos quais se pode ver que, ainda em 1975, durante uma internação, havia sido assinalado um mínimo de patologia cardiovascular, tratada com anticoagulantes e considerada resolvida.

E há também a nota com as perguntas que os cardeais, antes do novo conclave, querem dirigir, no mais total sigilo, aos médicos que lidaram com o papa por ocasião do embalsamento. Através da Secretaria de Estado, os purpurados perguntam se “o exame do corpo” permitia “excluir lesões traumáticas de qualquer natureza”; se havia sido confirmado o diagnóstico de “morte súbita” e, por fim, perguntam: “A morte súbita é sempre natural?”.

Dúvidas sérias e significativas: os cardeais não excluíam, a priori, a hipótese de uma morte provocada. Desmentida, ao contrário, pelos médicos.

Jornal La Stampa, 04-11-2017.


 

Nesta entrevista, uma das freiras que encontrou João Paulo I morto, em 28 de setembro de 1978, relata detalhes de um dos momentos que marcou a história da Igreja recente.

A reportagem é de Stefania Falasca, publicada no jornal Avvenire, 04-11-2017.

Eis a entrevista.

Pode nos dizer a que horas, como e quem encontrou o papa morto?

Perto das 5h15 daquela manhã, como todas as manhãs, a Ir. Vincenza havia deixado uma xícara de café para o Santo Padre na sacristia, logo ao lado do apartamento do papa, em frente à capelinha. O Santo Padre, ao sair do seu quarto, costumava tomar o café na sacristia, antes de entrar na capela para rezar. Naquela manhã, porém, o café ficou lá. Passados cerca de dez minutos, a Ir. Vincenza disse: “Ele ainda não saiu? Mas por quê?”. Eu estava lá no corredor. Assim, eu vi que ela bateu uma vez, bateu de novo, ele não respondeu… Ainda silêncio. Então, ela abriu a porta e depois entrou. Eu estava lá e, quando ela entrava, eu fiquei do lado de fora. Ouvi que ela disse: “Santidade, o senhor não deveria fazer essas brincadeiras comigo”. Depois, ela me chamou, saindo chocada. Então, eu logo entrei também com ela e o vi. O Santo Padre estava na sua cama, a luz para ler sobre a cabeceira estava acesa. Ele estava com os seus dois travesseiros atrás das costas, que o seguravam um pouco erguido, as pernas esticadas, os braços sobre os lençóis, de pijama, e, entre as mãos, apoiadas no peito, ele segurava algumas folhas datilografadas, a cabeça estava virada um pouco para a direita, com um leve sorriso, os óculos sobre o nariz, os olhos semifechados… Parecia realmente que ele estava dormindo. Eu toquei as suas mãos, estavam frias. Olhei e me chamaram a atenção as unhas um pouco escuras.

Não notou nada fora do lugar?

Não. Nada, nada. Nem mesmo uma dobra. Nada caído no chão, nada desarrumado que pudesse levar a se pensar em um mal-estar do qual ele tivesse se dado conta. Parecia realmente como alguém que adormeceu lendo. Que adormeceu e ficou assim.

E, depois, o que vocês fizeram?

Logo depois, a Ir. Vincenza subiu para chamar o Pe. Magee, e eu corri para chamar o Pe. Diego, bati na porta, chamei-o: “Desça, o Santo Padre, o Santo Padre…”. Ele acordou de sobressalto e desceu. Rezamos uma oração, depois o Pe. Magee foi chamar o médico do Vaticano. O Dr. Buzzonetti chegou quase imediatamente. Eu vi chegarem os cardeais Villot e, depois, Poletti.

Vocês, freiras, estavam presentes no momento do relatório do médico?

Não, porque saímos do quarto. Depois, o Pe. Magee veio ao nosso encontro e nos disse: “Ele não sofreu, nem se deu conta”, referindo-se às palavras ditas pelo médico, e também disse que a morte súbita tinha sido de noite, perto das 23h. Isso eu ouvi. Não ouvi outras coisas… havia pouco a dizer. Depois, nós não lidamos com a preparação do corpo, nem a Ir. Vincenza nem nós. Eles pensaram nisso. Mais tarde, chegou também Angelo e outros para ajudar.

Do que você ainda se lembra daqueles momentos?

Lembro-me das idas e vindas de prelados, lembro que andavam para a frente e para trás no corredor, e ouvi que não sabiam como fazer para dar ao mundo a notícia de que o papa, que em pouco tempo tinha conquistado a todos, tinha morrido assim, tanto que, somente duas horas depois, desde que nós, freiras, o havíamos encontrado, deram a notícia oficial. Lembro-me de que, quando o Santo Padre ainda estava no seu quarto, também foi vê-lo a sua sobrinha, uma menina jovem. Ela parou à distância e chorou com a Ir. Vincenza. Nós, freiras, sem os secretários, assistimos à missa de sufrágio celebrada pelo cardeal Poletti. Eles nos chamaram mais tarde para dar os paramentos e para acompanhá-lo à Sala Clementina. Ficamos lá rezando e, depois, voltamos, porque devíamos liberar o apartamento e selar tudo, de acordo com o que é estabelecido pela práxis. Recordo que o Pe. Magee nos disse para pegar alguns pertences pessoais do Santo Padre. À Ir. Vincenza, ele deu os óculos, as pantufas e outros objetos. Eu fiquei com o seu radiozinho, que eu ainda guardo como uma relíquia.

 

Você sabe quem pegou e o que aconteceu com as folhas que ele tinha em mãos?

Não. Não saberia dizer quem lidou com isso. Eu também não perguntei. Nós o deixamos com elas em mãos, não tocamos em nada. Eram folhas datilografadas ou, melhor, meias folhas, duas ou três. Não escritas à mão, estou muito certa disso, mas não sei dizer o conteúdo, porque não as fiquei lendo naqueles momentos lá. Alguém lá no corredor nos disse que eram as folhas para a audiência da quarta-feira. O escritório com os seus papéis e o quarto foram selados, depois, e reabertos pelo seu sucessor João Paulo II. Eu estava presente quando o novo papa cortou os selos e entrou no apartamento.

Depois da morte do papa, você se encontrou com a Ir. Vincenza ou com as outras coirmãs e recordaram alguns detalhes daquele mês?

Sim, nos encontramos. Pouco com a Ir. Vincenza, mais com a Ir. Elena, que, enquanto isso, tivera um tumor. Mas, mais do que recordações particulares daqueles dias, nós nos convidávamos reciprocamente a rezar por ele, para que ele intercedesse por nós.

Alguém, depois, lhe pediu informações ou manifestou suspeitas sobre a circunstância da morte de João Paulo I?

Depois que eu voltei para a comunidade de Vittorio Veneto, lembro que o bispo de Belluno, Dom Ducoli, me telefonou. Ele estava muito entristecido e me pediu para lhe dizer como o papa verdadeiramente tinha sido encontrado, se estava no chão, caído de algum modo. “Não, excelência”, eu lhe disse, “o Santo Padre estava na sua cama, nós o vimos, e ele não tinha nem sequer uma prega”.

Você ainda tem alguma coisa a dizer sobre as versões conflitantes sobre as últimas horas do papa?

Eu simplesmente não sei como sugiram todos aqueles boatos. Nós estávamos lá. Eu posso dizer, e disse, tudo o que sei e o que vi.

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