Blog do Carmadélio

Macron, da França republicana, quer reparar relacionamento “deteriorado” entre Igreja Católica e o Estado. “Não fiquem na porta, não desistam da República que com tanta força contribuíram a forjar”.

Em seu inédito discurso no Collège des Bernardins Emmanuel Macron disse que queria reparar o relacionamento entre a Igreja e o Estado “que ficou deteriorado”. Sem poupar seus antecessores, o chefe de Estado exortou os católicos a se envolver mais na política.

Em suas saudações às autoridades religiosas, em 4 de janeiro, Emmanuel Macron já havia criticado uma concepção da laicidade que visa organizar uma espécie de “vazio metafísico”, e que gostaria de confinar as crenças à esfera privada.

“A República não pede a ninguém para esquecer sua própria fé”, havia declarado.

Dirigindo-se dessa vez especificamente para a Igreja Católica, o mea culpa foi mais preciso, voltando sobre um caminho marcado por “mal-entendidos e desconfianças mútuas”.

Sem citar os partidos políticos da direita, ele criticou aqueles políticos que têm “exagerado em mostrar o seu apego aos católicos, por razões que são, evidentemente, apenas eleitoreiras”, dando assim “espaço a uma visão comunitarista”. “Pelo outro lado”, ou seja, a esquerda, “foram encontradas todas as razões para não ouvir os católicos, relegando-os por desconfiança adquirida e por cálculo ao papel de minoria militante”.

Impossível não pensar no discurso na Basílica de São João de Latrão, em Roma, de Nicolas Sarkozy, que afirmava em 2007 que “o professor primário jamais poderá substituir o pároco”, ou aquele de François Hollande, cinco anos depois, em Le Bourget, cheio de desconfiança sobre as religiões. “Eu tenho uma ideia mais alta dos católicos”, afirmou na segunda-feira o novo ocupante do Elysée.

Afastando as polêmicas sobre as raízes cristãs – “o que importa é a seiva” -, Emmanuel Macron tentou definir “a parte católica da França” que se expressa com o sentido do empenho, com uma visão do homem ou uma maneira de manter presente “a questão inquietante da salvação”.

Descrevendo a Igreja como uma realidade social que contribui, entre outras, à busca do bem comum, Emmanuel Macron espera que lhe seja reconhecido o lugar que merece.

Em janeiro de 2016, o presidente Hollande já havia prestado homenagem aos cultos, expressando apreço pelo seu empenho no acolhimento de migrantes, a sua contribuição para o sucesso da conferência de Paris sobre o clima e, principalmente, o seu papel para manter a paz após os atentados. Ele expressava a sua “gratidão” e convidava-os a “expressar-se, tanto quanto possível”.

Emmanuel Macron vai mais longe, incentivando a Igreja a afirmar as suas convicções, não só quando isso estiver de acordo com o “consenso republicano”, mas também quando estiver contracorrente em relação à sociedade.

“O Estado e a Igreja pertencem a duas ordens institucionais diferentes (…), mas ambas exercem uma autoridade e até mesmo uma jurisdição”, garante o presidente para responder a todos aqueles que pretendem confinar a religião à esfera privada.

Definitivamente é um novo contrato social e político que Emmanuel Macron propõe aos católicos, insistindo na sua sabedoria, no seu empenho e na sua liberdade de expressão. Ele afirmou que aprecia “a vontade da Igreja para começar, manter e reforçar o diálogo livre com o Islã, de que o mundo tanto necessita”.

O chefe de Estado garantiu que a voz da Igreja será “ouvida”- aliás, pediu “para ser intempestiva”, por exemplo, em questões bioéticas ou a respeito dos migrantes.

Com uma condição, porém: que a palavra da Igreja não constitua “uma injunção”.

Emmanuel Macron, assim, definiu o papel de cada um: ao Estado, o de ouvir e depois decidir. Para a Igreja, apresentar questionamentos, especialmente “sobre o homem”, “sobre a fragilidade” ou ainda “sobre o sentido da vida”.

Emmanuel Macron não assumiu qualquer compromisso diante de 400 católicos convidados pela Conferência Episcopal Francesa (CEF), permitindo-se, em vez disso, um pedido: “Eu não espero lições, mas uma sabedoria de humildade”, disse a eles.

“Apresentar questionamentos não é o mesmo que se recusar a agir”, observou, no entanto, o chefe de Estado, antes de convidar longamente os católicos a se envolverem mais na política. Agradecendo-lhes por terem “maciçamente se orientado pela ação associativa”, lamentou que “a energia dedicada ao empenho associativo tenha sido amplamente subtraída ao empenho político”. “O dom do empenho que vos peço, é este: não fiquem na porta, pediu o chefe de Estado. Não desistam da República que com tanta força contribuíram a forjar”.

Emmanuel Macron não convidou à constituição de um partido católico ou à instituição de “cotas para os católicos”.

Sua proposta, esclareceu, não é nem um “recrutamento” nem uma nova “prática teocrática nem uma concepção religiosa do poder”.

É mais uma confiança nos frutos do empenho político de católicos animados, graças à sua fé, por uma “chama comum” e “pela energia daqueles que estão empenhados”.

“Mais do que nunca, a ação política precisa do que a filósofa Simone Weil chamava de efetividade, afirmou Emmanuel Macron. Ou seja, aquela capacidade de fazer existir no real os princípios básicos que estruturam a vida moral, intelectual e, no caso dos crentes, espiritual”.

Tomando os exemplos dos grandes políticos católicos, como o general de Gaulle, Georges Bidault, Robert Schuman ou ainda Jacques Delors, o chefe do Estado disse dirigindo-se aos católicos: “Sua fé é uma parte do empenho de que nosso país necessita”.

Fonte: La Croix.


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