Blog do Carmadélio

A Revolução Francesa marcou para Igreja Católica um dos períodos mais difíceis de sua história.

Fonte: História viva.

A Revolução Francesa marcou para Igreja Católica um dos períodos mais difíceis de sua história. Isto porque a Revolução não só propagou os ideais iluministas que incluíam um sentimento anticlerical e anti-religioso, como também exerceu na prática esses ideais, muitas vezes de forma violenta.

A França sempre teve uma posição de destaque na cristandade, desde os séculos medievais, da conversão dos francos ao catolicismo até a época em que a cidade francesa de Avignon abrigou a sede do papado. Foi também a França um dos maiores pontos de conflito entre católicos e protestantes.  Tais fatos levaram a França a ser considerada por muitos papas como a “filha predileta da Igreja”.

Às vésperas da Revolução, o país mostrava um quadro onde o catolicismo vivia o seu auge: a população participava dos ritos religiosos e o clero paroquial cuidava da vida religiosa da sociedade. Exercia grande influencia na vida política, pois o poder absoluto do rei era garantido pelo direito divino, e o próprio clero possuía status de Estado. A religião católica influenciava também o tempo, com o calendário gregoriano que possuía festas e feriados cristãos. Por fim, era papel do clero presidir as atividades civis como os casamentos e os registros de nascimento e óbito. Era esse quadro que a revolução viria a mudar radicalmente.

A Revolução Francesa, em sua tentativa de acabar com as estruturas feudais ainda vigentes, colocou a Igreja Católica em uma difícil situação. Desde os primeiros passos da Assembléia Constituinte até a Constituição Civil do Clero, foram tomadas medidas capazes de levantar suspeitas de que a revolução era hostil ao clero. Uma das primeiras medidas dos revolucionários foi a supressão do dizimo e o confisco dos bens do clero, para saldar o déficit nacional. Essas medidas, a principio, não causaram um conflito direto entre a Igreja e a Revolução.

O conflito só viria com a Constituição Civil do Clero e o juramento dos padres. Tal medida dividiu o clero francês: o clero constitucional, fiel à constituição, e o clero refratário, fiel ao papa. Este repudiava cada medida dos revolucionários, pois, além de perder o controle sobre o clero francês também perdeu suas possessões territoriais francesas na cidade de Avignon.

É possível afirmar que a Constituição Civil do Clero foi o divisor de águas nas relações entre a Religião Católica e o Estado revolucionário francês. Foi o juramento dos padres que estimulou a contra-revolução na Vendéia e a guerrilha camponesa dos Chouans – a Chouannerie, da qual participaram o clero refratário e a aristocracia. Foi também a questão do juramento que desencadeou um movimento violento de ataques aos padres e aos templos. Além disso, subordinava o clero ao Estado rompendo os seus vínculos com o papa.

A Igreja ainda viria a perder suas áreas de influência na vida política e social. O rei Luís XVI, antes de ser decapitado, é obrigado a renunciar o seu “poder divino”, tornando-se um cidadão como outro qualquer. O clero deixa de presidir as atividades da vida civil como o casamento e os registros de certidões de nascimento e de óbito.

É importante ressaltar que na tentativa de enterrar de vez a influência católica, o governo aboliu o calendário gregoriano acabando com os dias da semana, e conseqüentemente, eliminando as festas e feriados religiosos, inclusive o domingo, conhecido como “Dia do Senhor”.Para substituí-lo criou um novo calendário, conhecido como Calendário Republicano Francês, que marcaria o inicio da nova era da Republica Francesa dando uma nova nomenclatura aos meses e semanas de acordo com as estações do ano.

O período do Terror marca o inicio do movimento violento que se deu contra a Igreja Católica. Igrejas são apedrejadas, padres são forçados a abdicar, imagens religiosas são destruídas e o culto religioso passa a ser proibido. Podemos ainda citar as tentativas de substituir o culto religioso por um culto revolucionário, como o culto à razão e ao Ser Supremo. Esses cultos exaltavam a vitória da razão e da consciência sobre a dominação da Igreja. Sobre o culto ao Ser Supremo, Robespierre aparece como pontífice da religião do Estado na tentativa promover a união entre o sentimento revolucionário e o sentimento religioso.

Passado o período violento do Terror, com a queda de Robespierre, seguiu-se uma fase confusa para a religião. Os homens que o derrubaram eram anticlericais que participaram dessas perseguições. Contudo, a política da Convenção Termidoriana seguia a lógica do retorno da liberdade que o período do Terror havia negligenciado. A essa lógica de liberdade estava ligada à questão da liberdade de culto. No período que vai de 1795 a 1799, as Assembléias do Diretório agiam ora permitindo o retorno ao culto, ora regressando a uma política de perseguição.

Esse quadro só seria resolvido com Napoleão Bonaparte. No período do Consulado, Napoleão e o Papa Pio VI assinam uma Concordata que redefine as relações entre a Igreja e o Estado. Por essa Concordata a Igreja Católica era reconhecida na sua unidade e estatuto, a liberdade de culto era garantida e o catolicismo era aceito como a religião da maioria dos franceses. Contudo a Igreja ficava subordinada ao Estado, uma vez que a nomeação de bispos era feita pelo Consulado. Os territórios da Igreja, como Avignon, e seus bens também não são restituídos.

O ultimo pilar do movimento de ataque a religião católica, o Calendário Republicano, foi extinto por Napoleão no Império, em 1805.

Cronologia:

04/08/1789                                                  Abolição dos direitos feudais e supressão do dizimo.
02/11/1789                                                   Confisco dos bens do clero para saldar déficit nacional.
12/07/1790                                                   Aprovada a Constituição Civil do Clero.
26/11/1790                                                   Decreto fixando o prazo de dois meses para o juramento dos padres em exercício à Constituição.
03/1793 à 03/1796                                     Revolta da Vendéia e guerrilha camponesa dos Chouans
07/11/1793 (17 de Brumário do ano II)  Abjuração do bispo de Paris, marca o inicio da descristianização.
21/11/1793 (1 de Frimário do ano II)      Intervenção de Robespierre, refreando a descristianização violenta.
24/11/1793 (4 de Frimário do ano II)     Convenção Nacional adota o Calendário Republicano, determinando a data de 22/09/1792 como inicio do ano I da Republica.
07/05/1794 (18 de Floreal do ano II)      Relatório da Convenção que define as relações entre Estado e Igreja.
27/07/1794 (09 de Termidor do ano II) Queda de Robespierre , sucedido por anticlericais que haviam participado da descristianização violenta.
18/08/1797 à 17/09/1797 (Frutidor do ano V)   Inicio da política de perseguição religiosa.
07/1801                                                         Concordata assinada entre Napoleão e o Papa Pio VI.
31/12/1805                                                   Abolição do Calendário Republicano por Napoleão.

Textos de época

“A lei considera o casamento como sendo um contrato civil”. (Artigo 7 do Titulo II da Constituição Francesa de 1791).

“A lei não reconhece os votos religiosos, nem qualquer outro compromisso que seja contrário aos direitos naturais, ou à Constituição”. (Constituição Francesa de 1791).

“O novo calendário assim como suas instruções serão enviadas aos corpos administrativos, as municipalidades, aos tribunais, aos juizes de paz e a todos os oficiais públicos, aos mestres de todas as instituições e as sociedades populares. O conselho executivo provisório fará passar aos ministros, cônsules e outros agentes da França nos países estrangeiros”. (Artigo 13 do Decreto da Convenção Nacional sobre a instituição do Calendário Republicano).

Veja mais:

“Em nome da Revolução levou-se a cabo na França um verdadeiro extermínio, especialmente de católicos, sobretudo no oeste e em La Vendée. No caso de La Vendeé, foi dada a ordem de eliminar as mulheres para que não pudessem trazer filhos ao mundo e mutilar os meninos para que quando maiores não se tornassem guerrilheiros.

A Revolução suprimiu, sem cerimônia, o papel da Igreja na ordem social dos séculos XVIII e XIX: com o desaparecimento dos conventos e execução de milhares de sacerdotes, apesar de que, em 1789, os elementos do baixo clero tinham se unido aos Constituintes que derrubaram a antiga ordem social, desapareceram hospitais, asilos, casas de caridade, albergues, escolas.

A retórica das leis humanitárias não pôde evitar que, na França, dos seus dezesseis milhões de habitantes em idade ativa, dois milhões fossem mendigos.” (CRUZ, Juan Cruz. Filosofia da História. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência “Raimundo Lúlio”, 2007, p.190)

“Contudo, no seio desta libertação pelo direito, certos paradoxos que mostrariam o lado utópico da Revolução começaram a ficar evidentes. O mais claro foi a relação entre a Revolução e a Igreja Católica. Como a Revolução era a proclamadora de liberdade, igualdade e Fraternidade, por que via na Igreja Católica o principal inimigo? A Revolução não foi simplesmente anticlerical, porém algo mais grave: foi anticristã, anticatólica. Pretendeu descristianizar o país, extirpando um dos fundamentos culturais do homem. Seguiu as pautas do Iluminismo com seu modelo de homem sem visão transcendente.”(CRUZ, Juan Cruz. Filosofia da História. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência “Raimundo Lúlio”, 2007, p.179)

“Se, em 1789, a maioria dos franceses era católica praticante, quinze anos mais tarde, um terço dos católicos não cumpriam sequer o preceito dominical ou o pascal. A Revolução levou a cabo a descristianização maciça da França.”(CRUZ, Juan Cruz. Filosofia da História. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência “Raimundo Lúlio”, 2007, p.179-180)

“A antiga idéia de pecado é traduzida agora em termos de exploração, desigualdade e opressão; e o modo pelo qual se sai dele não é a Redenção, mas a ‘Revolução’”. (CRUZ, Juan Cruz. Filosofia da História. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência “Raimundo Lúlio”, 2007, p.188)

“A transformação do novo templo de Ste. Geneviève no Panteão dos homens ilustres confirmaria Paris ainda mais como a sede da religiosidade revolucionária. O Panteão foi concebido como templo no qual ‘tudo será deus, exceto o próprio Deus.’”(SABORIT, Ignasi Terradas. Religiosidade na Revolução Francesa.Rio de Janeiro: Imago, 1989, p.153)

“Assim, faz sentido essa celebração de Rousseau, Franklin, Voltaire e Mirabeau feita pelos jacobinos em 12 de fevereiro de 1792:  “Cidadãos, cidadãs, que hoje reunis neste recinto as imagens reverenciadas desses filósofos, primeiros deuses da liberdade que criaram de pólo a outro do mundo, vós que prestais a sua memória o culto e as homenagens que todo cidadão amigo da igualdade e da humanidade lhes deve, segui vosso caminho, marchai com firmeza e sob a proteção das leis e dos estandartes da liberdade; ensinai, cultivai a moral pura dos Voltaire, dos Rousseau, e assim como Franklin e Mirabeau amai com grande estima a vossa pátria, defendendo-a de todas as investidas dos déspotas: arrancai seus cetros e colocai-os não mãos da razão, a única que deve governar o universo…” (SABORIT, Ignasi Terradas. Religiosidade na Revolução Francesa. Rio de Janeiro: Imago, 1989, p.158)
Segue um trecho da “missa” sans-cullote, verdadeira réplica da missa católica, com inversões simbólicas evidentes:

“Nota- O sumo sacerdote, o primeiro Ministro, não deve usar nenhum traje especial. Deve estar vestido de soldado, ou usar a faixa de magistrado do povo. Na medida do possível, deve ter uma voz dotada de extensão e emoção…
A sala está escura, a estátua da Liberdade se encontra sobre o altar colocado no fundo do templo. O Sumo Sacerdote (pegando o copo cheio de vinho das mãos do mestre de cerimônias, que deve se colocar atrás dele):
“Que esta santa libação seja hoje o sinal da aliança de todos os franceses. É em tua honra, ó Divindade tutelar da França, que derramamos este vinho sobre a terra, que o sangue de nossos inimigos umedeça assim a nossa terra natal. (Derrama o vinho no chão.) Que nossos prazeres se transformem em vitórias, e que a vitória seja para nós um prazer.”

O Sumo Sacerdote (no meio do altar):

Glória: “Glória seja dada, no céu e na terra, aos homens livres. Nós te glorificamos, te bendizemos, te adoramos santa liberdade, porque asseguraste ao povo francês uma felicidade imorredoura, aniquilando os animais ferozes que viviam de seu sangue, conduzindo Luís Capeto, os brissotinos, fuldenses e outros à Guillotina…”

Sumo Sacerdote: “Que a igualdade esteja entre nós.

Ministros: “Que nos una com os mais suaves laços.”

Credo: “Creio na declaração dos direitos do homem.”(SABORIT, Ignasi Terradas. Religiosidade na Revolução Francesa.Rio de Janeiro: Imago, 1989, p.123)


Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião da Comunidade Shalom. É proibido inserir comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem os direitos dos outros. Os editores podem retirar sem aviso prévio os comentários que não cumprirem os critérios estabelecidos neste aviso ou que estejam fora do tema.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. FRANÇA EM CHAMAS
    Por Eduardo Vieira

    A pior coisa que já se abateu sobre a França foi a Revolução Francesa. Enquanto essa aconteceu regida por bárbaros sanguinários que chegaram ao absurdo de considerar o Marquês de Sade leniente demais, do outro lado da Mancha a Inglaterra fazia uma reforma em seu sistema de governo sem guilhotinas e matanças persecutórias. Como resultado a Inglaterra dominou o planeta enquanto a França gerou Napoleão e após dele uma tremenda sequência de fracassos militares.

    Na Inglaterra germinou o pensamento liberal, de responsabilidade individual e empreendedorismo que culminou na Constituição Americana. Enquanto isso na vizinha França o temível conceito de Igualdade enterrava seus fétidos e corrompidos tentáculos na própria alma da nação francesa, solapando-lhe o Valor.

    Com o passar dos anos a França foi se afastando cada vez mais de suas raízes cristãs e passou de defensora maior do Catolicismo à defensora das piores corrupções postas em altares profanos por monstros como o pedófilo Daniel Cohn-Bendit em 1968.

    Sem moral, sem conexão com o transcendental e ancorada no materialismo vulgar dos socialistas a França veio decaindo ininterruptamente. Seu povo, despido de inspirações elevadas como o amor a Deus e à Pátria, não foi capaz de resistir um mês ao Nazismo e agora se entrega ao Islamismo como um velho senil que se afoga, atordoado, numa poça rasa.

    Neste momento hordas de franceses se erguem em revolta contra os impostos. Se desta revolta pode ressurgir o valor de um povo que outrora liderou a reconquista da Terra Santa é cedo para dizer. Eu sinceramente duvido. Não se ouve a palavra de Deus entre os camisas-amarelas. A Santa Joana d’Arc, padroeira da França, se encontra esquecida em seu túmulo. Carlos Magno, herdeiro de Carlos Martel, igualmente jaz inerme na Catedral de Aachen, sem inspirar ninguém senão os poucos peregrinos que mal se recordam da grandeza do Sacro Império Romano-Germânico.

    O que posso ler dessa revolta francesa é apenas o esfacelamento do tecido social, que foi o objetivo de todos os ideólogos marxistas e derivados que vêm assolando a terra natal de Guilherme, o Conquistador desde que Rousseau mandou seu primeiro filho para a morte num orfanato e se dispôs à ridícula tarefa de dizer aos tolos o que seria o Homem.

    Só um milagre pode salvar a França mas quem estaria rezando por ela?