Catecismo da Igreja Católica

Em 11 de outubro próximo passado foi celebrado o 25º aniversário do Catecismo da Igreja Católica(CIC), ocasião na qual o Papa Francisco proferiu um discurso articulado e profundo em grande parte dedicado ao tesouro precioso do Depósito da fé que a Igreja tem o dever não somente de guardar e em relação ao qual esta deve dedicar-se com vontade pronta e sem temor naquele trabalho que ela percorre há vinte séculos. 

Fidei depositum (Depósito da fé) é também o título da Constituição apostólica com a qual São João Paulo II promulgou em 1992 – trinta anos após a abertura do Concílio Vaticano II – o atual Catecismo, em substituição ao precedente, que era do Concílio de Trento – havia mais de 400 anos.

No discurso dirigido aos participantes do encontro que celebrava estes 25 anos – promovido pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização –, retomando o próprio Catecismo o Papa considerou vários aspectos, mas aqui me atenho ao que Francisco chama de “lei do progresso” no que diz respeito à Tradição.

“A Tradição é uma realidade viva – afirma o Santo Padre –; e somente uma visão parcial pode conceber o ‘depósito da fé’ como algo estático.”

Numa de suas contundentes afirmações, o Papa ressalta que “a Palavra de Deus não pode ser conservada em naftalina, como se tratasse de uma velha coberta que é preciso proteger da traça! A Palavra de Deus é uma realidade dinâmica, sempre viva, que progride e cresce, porque tende para uma perfeição que os homens não podem deter”.

Francisco esclarece que esta “lei do progresso” pertence à condição peculiar da verdade revelada, enquanto transmitida pela Igreja, e não significa de modo algum uma mudança de doutrina. Para tal, cita o que chama de fórmula feliz de São Vicente de Lérins: “annis consolidetur, dilatetur tempore, sublimetur aetate” – ou seja, a doutrina “fortalece-se com o decorrer dos anos, cresce com o andar dos tempos, desenvolve-se através das idades”.

Nesse contexto, é importante lembrar que a Igreja caminha, o Evangelho não muda, somos nós que devemos mudar. A propósito, São João XXIII – o Papa do Concílio Vaticano II – afirmava que o Evangelho é sempre o mesmo, o que muda é a nossa compreensão do Evangelho, que cresce, é aprofundada, amadurece com o tempo.

Francisco citou o Papa João XXIII no Discurso de abertura do Concílio (11/10/1962) para lembrar que “é necessário primeiramente que a Igreja não se aparte do patrimônio sagrado das verdades, recebidas dos seus maiores; mas, ao mesmo tempo, deve também olhar para o presente, para as novas condições e formas de vida do mundo, que abriram novos caminhos ao apostolado católico”.

“Guardar” e “prosseguir” foi o caminho que o Papa Francisco indicou à Igreja. É a incumbência que cabe à Igreja por sua própria natureza, “a fim de que a verdade contida no anúncio do Evangelho feito por Jesus possa alcançar a sua plenitude até ao fim dos séculos”, evidenciou.

O Pontífice apontou esta incumbência como graçatarefa e missão: anunciar de modo novo e mais completo o Evangelho de sempre aos nossos contemporâneos. Assim, disse, com a alegria que provém da esperança cristã e munidos do “remédio da misericórdia”, vamos ao encontro dos “homens e mulheres do nosso tempo para lhes permitir a descoberta da inexaurível riqueza encerrada na pessoa de Jesus Cristo”.

O Concílio quis que a Igreja chegasse finalmente a apresentar, com uma linguagem renovada, a beleza da sua fé em Jesus Cristo.

Podemos dizer que este foi o grande objetivo que o Concílio propôs e que há mais de 50 anos desafia a Igreja: falar ao homem dos nossos tempos com esta linguagem renovada, apresentar as verdades perenes do Evangelho de Jesus Cristo, que é o mesmo ontem, hoje e sempre.

Nessa tarefa, a Igreja é chamada a ter a sensibilidade de perscrutar aquilo que o Concílio chamou de “sinais dos tempos” e a capacidade de responder aos desafios que a mudança de cultura e de modelos culturais lhe apresentam.

É chamada a perscrutar os “sinais dos tempos” sentindo o pulso da história, ouvindo seus apelos para ajudar a iluminar, com a luz da fé, as novas situações e os problemas que no passado ainda não tinham surgido.

Assim tem feito o Papa Francisco desde o início de seu Pontificado, assim em seu ensinamento proveniente da Laudato si – como devemos ser capazes de uma atenção particular com a Criação; em seu ensinamento fruto dos dois Sínodos sobre a família contido na Amoris laetitia – a capacidade de verificar os desafios que estão presentes em nossa cultura e em nossa sociedade em relação ao matrimônio; a capacidade de dar-se conta e de acompanhar também aquelas situações de dificuldade que parecem multiplicar-se cada vez mais.

Em perspectiva, o Sínodo sobre os jovens, convocado para outubro de 2018, colocando-se à escuta dos jovens para ouvir seus apelos, deixando que sejam eles a falar, a fim de que suas alegrias e esperanças, suas tristezas e angústias sejam também as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias da Igreja.

Ainda em perspectiva, o Sínodo para a região Pan-Amazônica, a realizar-se em outubro de 2019, buscando identificar novos caminhos para a evangelização daquela porção do Povo de Deus, também por causa da crise da Floresta Amazônica, pulmão de capital importância para nosso planeta.

Também aí, a possibilidade de encontrar respostas pastorais ousadas e corajosas para os desafios da evangelização da Amazônia, como pedem muitos bispos da região. E o Papa Francisco já deu sinais de abertura nesse sentido. A Igreja caminha, e Francisco a convida a fazê-lo no signo da sinodalidade, como indica a própria palavra, caminhando juntos.

A doutrina não muda, mas – não sendo estática – é sempre viva, é dinâmica. De fato, “fortalece-se com o decorrer dos anos, cresce com o andar dos tempos, desenvolve-se através das idades”.

Raimundo Lima

Inês foi uma bela jovem na Roma Antiga, nascida em nobreza e criada em uma família cristã durante o tempo em que o imperador procurou extinguir a chama do Cristianismo. Mesmo assim, Inês era bem apreciada por seus colegas na idade jovem e costumava passear pela cidade com amigos, acompanhada por sua irmã adotiva Emerentiana. Foi sua aparência impressionante que atraiu a atenção de muitos pretendentes. Seus longos cabelos pretos, pele clara e olhos castanho-escuros foram comentados por homens do mais alto escalão.

Seria vantajoso para ela ter se casado com qualquer homem que se aproximou, no entanto ela recusou a todos. Pelas muitas investidas, ela  reconheceu que os corações dos homens estavam cheios de luxúria. Além disso, em seus olhos, ela já estava “tomada” por Deus e desejava viver uma vida pura e casta.

Um dia, outro pretendente passou, desta vez o filho de um influente prefeito romano. Um jovem orgulhoso, que tinha certeza de que Inês iria se casar com ele, especialmente por causa de seu status elevado. Ela recusou-o duas vezes. Isso enfureceu seu pai que, rapidamente, informou as autoridades locais que Inês era uma cristã. Inicialmente impedida pela lei romana (que não permitia a execução de uma virgem), toda tentativa de prejudicar sua pureza declinou. Uma nova decisão foi feita e os funcionários condenaram-na a uma morte cruel.

A cidade ficou chocada com a notícia da execução de um cordeirinho tão precioso, e acredita-se que sua morte contribuiu para o fim da perseguição cristã.

A trágica história de Inês, uma bela jovem que foi morta por não aceitar as propostas de um homem poderoso, pode nos ensinar muito sobre a necessidade de avaliarmos nossos próprios relacionamentos. Acima de todas as coisas, Inês queria preservar suas crenças religiosas e a pureza de coração. Por isso, recusou-se a recuar quando estava sob pressão. Esses homens que se aproximaram dela foram, claramente, alimentados por suas paixões pecaminosas e ficaram pasmados quando ela não cedeu.

Em nossas próprias vidas, muitas vezes pensamos que, para encontrar o amor, devemos baixar nossos padrões. Devemos pensar que precisa haver um “dar e receber” em nossos relacionamentos quando se trata de nossa pureza. Um namorado, namorada ou noivo pode sugerir: “Vamos morar juntos”, e poderíamos responder: “Por que não? Não estamos  no século XXI?”

O que Inês nos ensina é que não devemos nos curvar sob as pressões do mundo e que é possível permanecermos fortes em nossa fé, mesmo quando todos estão contra nós. Não precisamos comprar um amor superficial, mas devemos procurar algo muito maior, que nos satisfaça verdadeiramente. Ela é um grande exemplo para nós e para todos os noivos, inspirando-nos a permanecer fiéis às nossas crenças e a nos apegarmos estreitamente ao amor de Deus.

Se você está noivo ou noiva (ou está prestes a ficar), luta com pureza e tem medo de se aproximar de seu amado por causa disso, reze a Santa Inês de Roma. Ela sabe a pressão que você está sofrendo e vai interceder por você em seu nome, dando-lhe a força para fazer o que parece impossível.

Ó gloriosa Santa Inês,

Que serviu a Deus com humildade e confiança na terra

E está, agora, no gozo de Sua visão beatificada no céu,

Porque perseverou até a morte

E ganhou a coroa da vida eterna.

Lembre-se, agora, dos perigos

Que me cercam no vale de lágrimas,

E interceda por mim em minhas necessidades e problemas.

Amém.

Autor: Philip Kosloski

O popular escritor cristão C. S. Lewis escreveu em 1942 o fascinante livro The Screwtape Letters – que, em português, foi traduzido com vários títulos alternativos: “As Cartas do Coisa-Ruim”, “Cartas de um Diabo a seu Aprendiz”, “Cartas do Inferno” (os três no Brasil) e “Vorazmente Teu” (em Portugal). Saiba mais sobre essa obra imperdível neste outro artigo.

Trata-se de uma sátira religiosa escrita do ponto de vista de um “diabo velho” que dá aulas sobre como tentar os seres humanos. O aluno é seu sobrinho, um diabo “iniciante”.

Mas será que, assim como Deus atribui um anjo da guarda a cada pessoa, também Satanás indica um “demônio particular” para cada um de nós?

O Catecismo da Igreja Católica explica que Satanás não esteve sozinho na sua rebelião contra Deus. O número 414 explica que Satanás e os outros demônios são anjos caídos que, com plena consciência e liberdade, se recusaram a servir a Deus e ao Seu plano. A escolha deles contra Deus é definitiva, justamente porque, sendo anjos, tinham total conhecimento do que estavam fazendo. O diabo e seus anjos caídos, além disso, tentam constantemente associar o homem à sua revolta contra Deus.

A queda de Satanás é mencionada no livro do Apocalipse. São João escreve que “ele foi lançado à terra e seus anjos foram derrubados com ele” (cf. 12, 9).

Fora isso, muito pouco é conhecido de modo definitivo sobre o diabo. É uma verdade de fé que uma horda de anjos se rebelou contra Deus, mas o número desses demônios é desconhecido. Também não se sabe se o diabo atribui “demônios particulares” a cada ser humano.

Com base bíblica, sabemos que muitos demônios estão tentando ativamente nos afastar de Deus. O Evangelho de Marcos nos conta que Jesus exorcizou um homem possuído por uma “legião” de demônios (cf. 5, 9). No tempo de Jesus, uma legião romana era formada por 3.000 a 5.000 soldados, o que significa que, se tomarmos o termo ao pé da letra em seu sentido militar, pelo menos 3.000 demônios estavam atormentando um único indivíduo!

Jesus também expulsou sete demônios de Maria Madalena, conforme foi brevemente mencionado pelo mesmo São Marcos (cf. 16, 9).

Parece ser da natureza do mal, então, cercar a sua presa como uma alcateia.

A boa notícia é que Deus é mais poderoso que qualquer legião de demônios.

Jesus deu a entender que há um grande número de anjos bons a seu comando quando declarou que bastaria pedir ao Pai para que Ele enviasse imediatamente “mais de doze legiões de anjos” (cf. Mateus 26, 53). É claro que os números, na tradição judaica e em toda a Sagrada Escritura, são metafóricos, mas, se de novo tomarmos o termo “legião” literalmente, Jesus está dizendo que o Pai pode enviar 60 mil anjos para ajudá-lo!

Além de contarmos sempre com o nosso anjo da guarda ao nosso lado, Deus pode nos enviar quantos anjos quiser se assim pedirmos em nossos momentos de necessidade.

Portanto, ainda que algum demônio tenha sido “designado” por Satanás para nos tentar e atormentar, não temos motivo para temer se vivemos em estreita união com Deus.

São Paulo resumiu muito bem na sua carta aos romanos: “Se Deus é para nós, quem será contra nós? (8, 31).

Philip Kosloski

Os párocos que não batizam os filhos de mães solteiras tem o coração fechado, sem a “chave do conhecimento”. O Senhor é amor gratuito, não “um amontoado de prescrições”. O Papa Francisco, durante a homilia da missa matutina de hoje, 19 de outubro de 2017, na capela da Casa Santa Marta, refletiu sobre a “gratuidade” da salvação, da proximidade do Senhor e da concretização das obras de misericórdia que Cristo deseja de cada ser humano. Ações de bem (materiais ou espirituais) com as quais se abre “a porta” a si mesmo e aos demais. Além disso, advertiu sobre a “mentalidade obtusa” daqueles que acreditam “na autossuficiência da salvação” mediante a lei.

O Pontífice, segundo apontou a Rádio Vaticano, partiu da passagem evangélica do Evangelho de Lucas, na qual se lê sobre os escribas e fariseus que se consideram justos, e o Filho de Deus lhes faz perceber que só o Senhor é justo. O Bispo de Roma recordou que os doutores da lei “afugentaram o conhecimento”, e a consequência é que não entram “no Reino” e também não “deixam entrar os demais”.

Francisco explicou que “este dissipar a capacidade de compreender a revelação de Deus, de compreender o coração de Deus, de compreender a salvação de Deus – a chave do conhecimento -, podemos dizer que é um grave descuido. Esquece-se da gratuidade da salvação, esquece-se a proximidade de Deus e se esquece a misericórdia de Deus”. E os que “esquecem a gratuidade da salvação, a proximidade de Deus e a misericórdia de Deus, carregaram a chave do conhecimento”.

Então, descuida-se da gratuidade, que é “a iniciativa de Deus de nos salvar”, enquanto escribas e fariseus “se colocavam à parte da lei”. Assim, a salvação “está ali, para eles”, que chegam desta maneira a “um amontoado de prescrições” que são consideradas efetivamente a salvação. Contudo, desta maneira, “não recebem a força da justiça de Deus”, destacou o Papa.

A lei sempre é “uma resposta ao amor gratuito de Deus”, que assume a “iniciativa” de salvar a cada homem e mulher.

Quando “se esquece a gratuidade da salvação, se cai, se perde a chave da inteligência da história da salvação”, advertiu o Pontífice, razão pela qual também se perde “o sentido da proximidade de Deus”.

Para os que raciocinam desta maneira, “Deus é aquele que fez a lei. E este não é o Deus da revelação. O Deus da revelação é o Deus que começa a caminhar conosco de Abraão até Jesus Cristo, o Deus que caminha com seu povo. E quando se perde esta relação próxima com o Senhor, se cai nesta mentalidade obtusa que acredita na autossuficiência da salvação com o cumprimento da lei. A proximidade de Deus”.

Quando não se reza, “não se pode ensinar a doutrina” e tampouco “fazer teologia”, em especial “teologia moral”. De fato, insistiu Francisco, a teologia “se faz de joelhos, sempre perto de Deus”.

A proximidade de Deus está “no ponto mais alto de Jesus Cristo crucificado”. Por isso, as obras de misericórdia “são a pedra de toque do cumprimento da lei”, posto que toca a carne que sofre de Cristo, “Cristo que sofre em uma pessoa, seja corporal ou espiritualmente”.

E quando se perde a chave do conhecimento, corre-se o risco de cair na “corrupção”.

Em seguida, Francisco se concentrou nas “responsabilidades” dos pastores na Igreja: quando perdem ou carregam “a chave da inteligência”, fecham “a porta a nós e aos demais”. O Papa contou: “Em meu país, escutei várias vezes que havia párocos que não batizavam os filhos de mães solteiras, porque não tinham nascido no matrimônio canônico. Fechavam a porta, escandalizavam o povo de Deus. Por quê? Porque o coração destes párocos havia perdido a chave do conhecimento”.

E sem ir muito longe no tempo e no espaço, “há três meses, em um povoado, em uma cidade, uma mãe queria batizar seu filho recém-nascido, mas ela estava casada no civil com um divorciado. O pároco disse: “Sim, sim. Batizo a criança. Mas, seu marido é divorciado. Que fique fora, porque não pode estar presente na cerimônia”. Isto acontece hoje. Os fariseus, os doutores da lei não são coisas daqueles tempos, hoje, também existem muitos.

Por isso, “é necessário rezar por nós, pastores. Rezar para que não percamos a chave do conhecimento e não fechemos a porta a nós mesmos, nem às pessoas que desejam entrar”.

Vatican Insider

Aquele seu amiguinho “lacrador”, que repete o discurso sobre “ideologia de gênero” aprendido em sala de aula com professores ligados a movimentos de esquerda, mal sabe que está fazendo o jogo de um dos homens mais ricos do planeta, com fortuna avaliada em 25 bilhões de dólares.

O nome de George Soros constantemente vem aparecendo como um dos maiores promotores de conceitos anticristãos no planeta. No ano passado, o site hacker DC Leaks publicou dezenas de documentos secretos que mostravam parte das operações da Open Society Foundations, carro-chefe do pensamento de Soros.

O material demonstrava, entre outras coisas, que o bilionário estava por trás de diversos movimentos nas sociedades ocidentais, visando atacar sobretudo os conservadores. Nos Estados Unidos, milhares de pessoas assinaram uma petição no Change.org, pedindo que o presidente Donald Trump impedisse o bilionário e sua Open Society Foundations de operar em território americano.

Entre as muitas acusações estava a de que ele gasta fortunas para tentar mudar – pela aprovação de leis e pela imprensa – a ideia da população sobre temas como aborto, ateísmo, legalização das drogas, educação sexual, eutanásia, feminismo, controle de armas, e a imigração em massa. Sua Open Society promove também experiências diversas em engenharia social.

Segundo o especialista do Instituto de Estudos Estratégicos Igor Pshenichnikov, essa agenda é global. “Em seu livro ‘A Era da Falibilidade’, Soros admite que seu objetivo principal é criar um mundo sem fronteiras, onde todos sejam iguais e livres, onde os interesses de todas as minorias, especialmente as sexuais, não só são garantidos por meio de legislação, mas prevalecem sobre os interesses da maioria”.

Ainda segundo Pshenichnikov, Soros é o grande entusiasta de uma ideologia de gênero “carregada nas profundezas do movimento feminista e que hoje se tornou um fundamento sócio-político da sociedade ocidental”.

O especialista aponta que a agenda programática desse movimento inclui a “depatogenização de identidades sexuais e de gênero, juntamente com estratégias para descriminalizar a prostituição e reconhecer legalmente a transexualidade como uma norma psiquiátrica”.

Tudo isso é feito com um trabalho constante junto à Organização Mundial da Saúde, onde ele “tentou mudar as classificações internacionais existentes de transtornos sexuais para que os postulados da ‘ideologia de gênero’ pudessem ser justificados cientificamente”.

Em um texto publicado recentemente no site da Open Societydivulgado no Twitter oficial de Soros, ele lamenta o crescimento na América Latina do “movimento conservador”.

Para Soros, essa é “uma ideologia falsa”, que se opõe ao conceito “libertador da ideologia do gênero”.  Quem são os culpados? Sobretudo os cristãos, que “procuram benefícios religiosos”. Por isso, argumenta, é preciso um acirramento de posições em 2018.

Ele aponta para a América Latina como seu alvo, citando o Brasil como exemplo de onde ele e seu movimento lutam pela legalização do aborto e do casamento gay, além da garantia dos “direitos LGBT” e das conquistas do feminismo.

Com um escritório aberto no Rio de Janeiro, em 2014, o diretor da Open Society na América Latina é o brasileiro Pedro Abramovay, filiado ao PT e que trabalhou no governo Lula. No ano passado foram US$ 34 milhões de dólares para projetos parceiros em vários países latino-americanos.

Gospel Prime

Com o decreto publicado na terça (25 de Setembro último) pelo rei da Arábia Saudita, o país poderá deixar de ser reconhecido como o único do mundo onde as mulheres não têm direito a dirigir um carro.

Conseguimos” ou “começamos de baixo, agora estamos aqui“, publicaram dezenas de mulheres sauditas nas redes sociais depois de receber a notícia, que também foi celebrada por governos e organizações defensoras do direitos das mulheres ao redor do mundo. 

Mas, até mesmo quando essa medida entrar em vigor e elas deixarem de andar em carros apenas como passageiras – algo previsto para junho de 2018 -, ainda existirão muitas outras práticas cotidianas que continuarão fora do alcance das mulheres em um dos países mais rígidos do mundo.

Entre as coisas que as sauditas não podem fazer sem a permissão de seu “guardião homem” ou tutor (em geral, algum homem da família, como seu pai ou marido), estão sete:

– Solicitar um passaporte
– Viajar ao exterior
– Casar-se
– Abrir uma conta bancária
– Começar alguns tipos de negócios
– Passar por uma intervenção médica
– Sair da prisão depois de cumprir a pena

Essas restrições se devem ao sistema de tutela vigente no país. O wahabismo, uma interpretação mais rígida de lei islâmica, é a fé dominante na Arábia Saudita há dois séculos. Depois do violento incidente de 1979 – a tomada da Grande Mesquita -, essas regras foram reforçadas de maneira ainda mais rígida pelo governo.

Isso ajudou a transformar a Arábia Saudita em um dos países com maior desigualdade entre homens e mulheres do Oriente Médio Segundo o Índice Global de Desigualdade de Gênero do Fórum Econômico Mundial de 2016, apenas dois países em guerra superam a Arábia Saudita nesse quesito: Iêmen e Síria.

‘Um homem é igual a duas mulheres’

Esse sistema de tutela foi duramente criticado por organizações como a Human Rights Watch, que comparou o estado legal das mulheres com o dos menores de idade, já que “não podem tomar decisões-chave para seu futuro por si mesmas”.

Algumas fizeram campanhas contra esse sistema, apesar de ser difícil mudá-lo em um país onde elas nem sequer podem andar na rua em público sem a companhia de um homem.

No sistema de Justiça, as mulheres são claramente discriminadas. Como em outros países com uma interpretação rígida da lei islâmica, o depoimento de um homem é igual ao de duas mulheres nos tribunais.

Também é difícil para elas ter a custódia dos filhos depois do divórcio se os filhos são maiores de sete anos (no caso dos meninos) ou nove (se são meninas). Essa dificuldade é ainda maior se a mulher não é muçulmana, ou seja, se é uma estrangeira que vive na Arábia Saudita.

No entanto, alguns aspectos da vida das mulheres da Arábia Saudita têm menos restrições do que se poderia esperar.

Elas podem votar desde 2015. A educação é obrigatória para meninas e meninos até os 15 anos e o número de mulheres que se formam nas universidades supera o de homens.

Contudo, apenas cerca de 16% da classe trabalhadora é composta por mulheres.

Regras no modo de se vestir

A roupa que as mulheres usam para trabalhar não depende delas.

As sauditas devem cobrir completamente seus corpos com uma abaya – a típica túnica larga e solta – em lugares onde possam ser vistas por homens que não têm relação com elas.

Para isso, há espaços exclusivos para mulheres como andares específicos em centros comerciais, onde elas podem retirar a abaya. Fora deles, as mulheres que não seguem essa regra podem ser penalizadas.

Mas há exceções: as não sauditas podem adotar um código de vestimenta mais liberal. Se não são muçulmanas, não precisam cobrir a cabeça.

Mas, em geral, as mulheres estrangeiras que vão ao país dizem ter de se cobrir com uma abaya antes de sair do aeroporto. Mas muitas primeiras-damas estrangeiras que visitaram o país não usaram abayas nem cobriram a cabeça.

Boa parte da vida saudita está segregada por gênero, e essa separação se aplica de maneira ampla, incluindo piscinas ou ginásios de hotéis frequentados por viajantes internacionais.

Ainda que vários países no mundo, como Rússia, China ou Israel, proíbam as mulheres de realizar algumas atividades, sem dúvida poucos são tão rígidos quanto a Arábia Saudita.

BBC

Há quase 500 anos, Santo Inácio mostrou como liderar uma empresa global.

Quando Francisco tornou-se papa em 2013, o mundo inteiro o saudou. Francisco foi o primeiro papa das Américas e o primeiro jesuíta. Embora sua nomeação tenha chamado nova atenção para a Ordem dos jesuítas, a Sociedade de Jesus existe desde 1540, quando foi fundada por Santo Inácio de Loyola.

Um santo pode parecer uma inspiração inusitada para o reitor de uma faculdade de negócios, mas mais de 350 anos antes do primeiro MBA, Santo Inácio forneceu um modelo de liderança para empresas multinacionais. Muitos líderes organizacionais hoje se orgulhariam de reproduzir seus princípios e abordagem. Seu espírito empreendedor e suas habilidades de gestão levaram à criação de uma vasta organização global que prosperou e cumpriu sua missão por quase 500 anos. Esses princípios são subjacentes à McDonough School of Business, com sede na Universidade de Georgetown, a mais antiga instituição católica e jesuíta de ensino superior dos Estados Unidos, fundada em 1789.

Todo especialista em liderança enfatiza a importância de liderar pelo exemplo e de manter contato significativo com os que estão fora do alto escalão corporativo e da vida de privilégios. Santo Inácio nasceu no alto escalão corporativo. Como membro da nobreza, ele passou seus primeiros anos no equivalente do século XVI de uma vida de luxos. No entanto, ele entregou a frivolidade pela devoção a Deus, para caminhar com os pobres e sobreviver por meio da mendicância. Agora, admiramos o chefe executivo que almoça na cantina da equipe, assim como as imagens mais convincentes do Papa Francisco são aquelas em que ele emerge de seu pequeno carro e fica em contato com os menos privilegiados no mundo todo, literalmente tocando-os.

Santo Inácio entendeu que a governança compartilhada ajudaria a atrair e desencadear os melhores talentos. A liderança envolve não apenas articular uma visão, mas também inspirar os outros a segui-la e executá-la. Um exemplo é São Francisco Xavier, que viajou para Goa, Índia, em 1542, e criou a primeira escola jesuíta. Pense na coragem necessária para viajar para novas terras com pouco dinheiro e sem armamento. Ele teve coragem e um compromisso com a visão da “empresa” de fazer uma diferença positiva. Essa coragem é muitas vezes difícil de encontrar hoje em dia, pois enfrentamos os desafios dos negócios em um mundo mais integrado e hospitaleiro.

O tipo de humildade demonstrado por Santo Inácio gera confiança. Ele delegou responsabilidades em um momento em que a hierarquia rígida prevalecia. A confiança implícita nas práticas modernas de governança compartilhada, delegação e empoderamento dos funcionários está fundamentalmente enraizada na humildade de um líder.

Atualmente, é amplamente aceito que as organizações precisam de uma forte missão e cultura compartilhadas para criar e executar estratégias. Santo Inácio entendeu a importância disso para a Sociedade de Jesus. Através dos Exercícios Espirituais, das orações e das práticas contemplativas que desenvolveu e que ainda são amplamente praticadas, ele ajudou os jesuítas a entender quem eram e por quê. Quando morreu, sacerdotes muito distantes, como do Brasil e do Japão, sem conexão com a sede em Roma, foram guiados por um senso comum de propósito. Sem reuniões de tecnologia ou de pessoal, Santo Inácio uniu uma comunidade global de propósito e valores compartilhados.

Sacerdotes distantes, como do Japão, sem conexão com a “sede” em Roma, compartilhavam um propósito comum

Estruturas, sistemas e processos definem a vida de uma organização e o que ela faz bem de muitas maneiras. Santo Inácio explicou detalhadamente nas Constituições Jesuítas como a Sociedade de Jesus funcionaria. Ele delineou tudo, desde regras para quem quisesse entrar no seminário até o papel dos jesuítas idosos, incluindo como formar a organização, treinar pessoas e dar flexibilidade para estruturar a vida.

Santo Inácio enfatizou a necessidade de autorreflexão e autoconhecimento, como hoje incentivamos as pessoas a aprender sobre seus pontos fortes e fracos. Ele também deixou muito a cargo da decisão de pessoas da região, equilibrando a consistência global com a flexibilidade local.

Os princípios inacianos inspiraram gerações de líderes religiosos, educadores e estudantes, mas eu acredito que Santo Inácio também é um herói da administração. Os princípios e práticas criados por ele sobreviveram durante cinco séculos e estão no cerne de uma organização multinacional complexa que administra cerca de 360 escolas secundárias e 175 universidades em todo o mundo e envolve-se em diversas atividades, desde assistência à saúde até auxílio a refugiados. Guiada pelos princípios estabelecidos por Santo Inácio, a Sociedade de Jesus tem um histórico notável em melhorar o nosso mundo.

Paul Almeida é reitor e William R Berkley é presidente da McDonough School of Business, a faculdade de Administração da Universidade de Georgetown, em Washington D.C.

Fonte: Financial Times.

Para entender melhor..

A República de Monte Atos ou Monte Athos (Monte Sagrado, se traduzido do grego) é uma montanha e península na Grécia.

Embora pertença oficialmente ao território da Grécia, possui autonomia política e está sob a jurisdição direta da Igreja Ortodoxa de Constantinopla. Para entrar em seu território é preciso permissão especial, ainda que a Grécia faça parte da União Europeia e tenha abolido os controles fronteiriços.

É habitado por cerca de 1500 monges ortodoxos distribuídos em vinte mosteiros principais. Cada um desses mosteiros elege seu próprio superior e os representantes para a Santa Assembleia, que exerce o poder legislativo em todo Monte Atos. Por tratar-se de um território habitado por monges, só podem entrar homens e animais do sexo masculino.

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É outra violação da lei de Deus, assim como a legislação existente que permite acordos de coabitação entre casais do mesmo sexo.”

Os monges ortodoxos do Monte Athos, na Grécia, fizeram votos de defender a sua secular proibição a todas as visitantes femininas, depois que uma nova lei da igualdade promovida pelo governo permitiu que os cidadãos mudem de gênero à sua vontade.

“À luz dessa legislação, perguntamo-nos que futuro nos resta”, escreveram os 20 mosteiros da península em uma carta ao governo grego. “É outra violação da lei de Deus, assim como a legislação existente, que permite acordos de coabitação entre casais do mesmo sexo e governa a educação religiosa em nossas escolas.”

Os monges reagiram à lei promulgada no dia 10 de outubro, que permite que os gregos de mais de 15 anos possam redefinir o seu gênero, independentemente de como ele foi registrado no nascimento.

Enquanto isso, a medida também foi condenada pelo Santo Sínodo que governa a Igreja Ortodoxa Grega, que afirmou que ela “afronta a sociedade, ataca a santidade da família, mina os valores cristãos e o senso comum e, acima de tudo, destrói os seres humanos”.

O Monte Athos, ou Agion Oros, um centro monástico desde o século IV, é constitucionalmente reconhecido como uma parte autônoma do norte da Grécia, com uma população de cerca de 2.260 monges de várias nacionalidades, sob a jurisdição do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla.

O jornal grego Kathimerini disse que a separação entre gênero e “condições fisiológicas”, promovida pela lei, tornaria mais difícil aplicar a proibição às mulheres – medida que data de uma aparição da Virgem Maria na Idade Média –, pois dá às mulheres o direito de se declararem homens ao visitarem a península.

O jornal afirmou que os ministros da Justiça e da Educação da Grécia, Stavros Kontonis e Kostas Gavroglou, visitaram o líder da Igreja, o arcebispo Jerônimo, de Atenas, nesta semana, em um esforço para “apaziguar as reações da Igreja”, mas disse que a lei foi apoiada em um “discurso acalorado” pelo primeiro-ministro, Alexis Tsipras, que insistiu ao parlamento que “nenhuma tradição, nenhuma ideia de família exige que as pessoas sejam jogadas de lado em um abismo social e institucional”.

Entre outras reações ortodoxas, o metropolita Kosmas, de Etólia, disse aos deputados em uma carta que a “lei inatural” promoveria a “depravação”, enquanto o metropolita Nikolaos, de Ftiótida, rotulou-a como uma “ação satânica”, que “infligiria a blasfêmia sobre o corpo humano”, acrescentando que os apoiadores estão tentando transformar a Grécia em “um Estado de pecado”.

Fonte: The Tablet

Introdução

Teresa de Jesus escreve o livro das Moradas, com a preocupação de narrar a sua experiência de vida espiritual. [1] Ela o faz de forma pedagógica, conduzindo o leitor a entrar na dinâmica do encontro com o Sagrado. Desde o início dessa magnífica narração, deixa claro que, quando alguém deseja fazer a experiência de encontro com Jesus Cristo, a porta da entrada é a oração. Para isso deve deixar-se conduzir por esse Deus que se revela apaixonado pela pessoa humana.

Na narrativa das Moradas, Teresa apresenta um caminho que conduz a pessoa ao centro do Castelo, [2] onde mora Deus. Ela se coloca como alguém que percorreu este caminho. Deixa clara a necessidade de se colocar em atitude de caminhante, errando e acertando, mas com clareza de horizonte, sabendo onde quer chegar. Ela insiste que é preciso aprofundar o autoconhecimento, a autoaceitação, a acolhida da própria realidade e a interiorização.

O livro das Moradas ou Castelo Interior é repleto de simbologias, que ajudam a compreender a beleza da pessoa humana. A partir da concepção antropológica unitária, criada no amor e para o amor, Teresa apresenta um caminho, um itinerário de amor, a ser percorrido rumo ao centro do Castelo. Este processo gradativo, leva a pessoa a um encontro consigo, com os outros, com a criação, com Deus.

Decidir entrar no castelo: primeiras Moradas

Ao iniciar a descrição das primeiras Moradas, Teresa afirma que é preciso tomar uma decisão firme: entrar no Castelo. Desta forma inicia uma relação de amizade com Quem sabemos que tanto nos ama. [3] Esta experiência exige da pessoa um autoconhecimento em perceber a dinâmica interna do encontro com a Transcendência, o sagrado. O encontro com Jesus Cristo e sua humanidade a transforma interiormente: da fraqueza e debilidade à fortaleza de saber-se amada e agraciada. A experiência se dá numa relação de amizade e de diálogo, com Jesus Cristo e assim, experimenta o amor apaixonado de Deus pela sua criatura. [4]

Teresa expressa a plenitude da experiência de encontro com Deus, com o símbolo da antropologia Teresiana: a pessoa é como o Castelo habitado com muitas moradas. [5] No delinear da narração utiliza-se do símbolo de morador e morada, expressando o encontro entre Deus e a pessoa, de entrar e tornar a entrar no Castelo. A porta é a oração como relação de amizade. [6]

Nas primeiras Moradas, Teresa enfatiza que a história do ser humano, é uma biografia de amizade, de reencontro, solidariedade radical, onde descobre a sua dignidade, percebe o sentido de ser para o outro. Se não existir diálogo, não acontece o encontro com Ele. Dialogar é prazeroso, uma relação deliciosa. [7]

Nestas Moradas, a Santa descreve que Deus que se comunica com a pessoa, não com palavras internas ou externas, mas uma compreensão mais profunda, na qual ela verbaliza como uma voz interior. Um sinal evidente de um encontro profundo relacional são os efeitos nas palavras e obras. A pessoa vai identificando esta voz interior que a chama, e aos poucos se torna cada vez mais familiar e não perde uma silaba do que se ouve, pois fica na memória e jamais se pode esquecer. [8]

Impressiona perceber que Teresa, em seu caminho de oração constantemente pede luz para o momento que está vivendo. Insiste que o importante é descobrir a motivação de continuar o processo de amar e dialogar com este Alguém que nos transcende, que dá sentido ao nosso viver. Diz que escutou claramente – “Não tenhas medo, filha, Sou Eu e não te desampararei, não temas”. [9] Assim, ela se sente segura e amparada ao começar uma nova caminhada, acreditando estar no caminho certo. Os sinais são evidentes como: a quietude, paz, certeza, segurança, alegria interior. Ela faz um convite ao seu leitor, colocar os olhos somente n’Ele. A relação com Ele é uma aventura de amor. A linguagem é única, a do Amor. Pedimos a Teresa que nos acompanhe nesta caminhada de entrar no Castelo Interior e encontrar ali, a verdadeira felicidade.

Encontro com Deus: segundas e terceiras Moradas

Nas segundas Moradas, Teresa dá ênfase à necessidade de ter coragem para reconhecer os dinamismos interiores, principalmente àqueles com os quais, temos dificuldade de lidar e aceitar. Ela orienta ao leitor a fazer um exercício de entrar em si, acolher o mistério da própria vida, escutar a Palavra animadora de acolhida, que Deus faz a cada momento. Incentiva o leitor, a partir da experiência de encontro com Deus, a organizar um programa de vida: de oração, de seguimento e de encontro consigo. É evidente, na sua narrativa, a forma como anima as pessoas a continuarem o processo iniciado, e se for necessário buscarem algum grupo ou amigos onde possam partilhar as experiências de oração.

Na reflexão destas Moradas, Teresa resgata o significado da prova do amor. O amor é capaz de gerar no ser humano a necessidade de ir ao encontro do outro e lançar-se à missão. Ela descreve em detalhes a experiência como superou os momentos de aridez e impotência. Através da descoberta de sentir-se amada e acolhida, foi percebendo como Deus é misericordioso, revelando-lhe as verdades mais profundas do significado do amor. Usa muita criatividade em vislumbrar estas duas Moradas.

Destaca que, neste estágio o ser humano se percebe num desconforto físico e espiritual, mas, ao mesmo tempo, vive um espaço de liberdade. O orante experimenta uma mescla de sentimentos de alegrias, desconforto, certezas, dúvidas, verdades, mentiras. Por outro lado, são experiências que provocam profunda tensão interior, porque entra em contato com a sua própria realidade como criatura humana, pois nem sempre consegue lidar com o medo da crise, ou o vazio existencial.

A Santa tem um modo peculiar e simples de escrever suas experiências espirituais. Tem como objetivo animar e orientar as pessoas. Percebe-se, nas entre linhas destas duas Moradas uma descrição objetiva e direta, ao mesmo tempo um especial cuidado de orientar com leveza e suavidade. Ela é clara, quando escreve que, para caminhar, se faz necessário ter uma firme decisão. Sugere que seja com dignidade, maturidade, respeitando o seu ritmo e acolhendo a própria realidade interior. Porém, é importante tomar consciência, de que não se está sozinho. É necessário ter a coragem de permitir que Deus entre na sua vida. [10]

Teresa é por natureza uma mulher pedagógica no seu modo de ser, agir e atuar. Evidencia-se que, sua preocupação com o leitor é que ele possa entender a própria dinâmica de superação de si mesmo. Pelo acima dito, sabemos que a história humana está cheia de paixões, desejos infantis, às vezes gratificantes, frustrações, compensações. Teresa define este momento como único, andar na verdade. [11] Esta é uma atitude de clarividência interior, de uma mirada real de si mesmo. A presença d’Ele irradia transformando a pessoa a focar o princípio do amor. Por isso, deixa de lado tudo, ao descobrir a presença amorosa de Deus na vida, pois esta a conduz ao verdadeiro amor.

No entanto, nas segundas Moradas, ela se lembra do processo de sentir-se ferida, mas precisa ter cuidado para não desanimar, alimentando o desejo de voltar. [12] Nesta confusão se sente chamada por Deus, apesar de suas quedas, rupturas, temores. Ao mesmo tempo recomeça o caminho com novas possibilidades. Na sua pedagogia, Teresa fala, por experiência, que é necessário fazer o esforço para compreender a realidade existencial e acreditar que é possível mudar. Ela descreve como chegou à maturidade humana e à libertação das suas amarras. Nas terceiras Moradas, Teresa dedica um bom espaço para falar da mistagogia, ou seja, de como orientar a outros no caminho espiritual de encontro com o Senhor. Aqui, o exercitante é acompanhado no processo de entrar e perceber as contradições, as verdades, os enganos e discernir por qual trilha seguirá.

Ao ler estas duas Moradas percebe-se que Teresa aponta os passos para percorrer e avançar no caminho, rumo ao centro do Castelo Interior. É próprio destas Moradas, em alguns momentos, o caminhante perceber que avança e, ao mesmo tempo, faz a experiência de um retrocesso. Isso faz parte da dinâmica do itinerário humano-espiritual. O que chama atenção, na descrição destas Moradas, é que a oscilação faz parte da própria estrutura humana no seu processo de amadurecimento espiritual.

Compreender o mistério de amor: quartas Moradas

Nas quartas Moradas, Teresa utiliza a simbologia de uma fonte, para explicar o que acontece no interior da pessoa. A experiência relatada expressa o quanto foi sofrido superar a autosuficiência. Com esta conquista compreendeu que Deus a amava acima de tudo e que podia deixar-se conduzir por Ele.

Teresa narra nestas Moradas, como percorrer um caminho pedagógico de estar com Jesus, pois Ele é a fonte da água viva! Este é um passo rumo à experiência mística. A pessoa vive, por alguns momentos, no recolhimento da mente, no amor místico e na quietude da vontade, até chegar a unificação interior. Relata que Deus começa, nesta Morada, a dar algumas alegrias interiores. [13]

A narrativa teresiana destas Moradas enfoca a transcendência como mistério, não por este estar além da realidade que se vive, mas pela capacidade que a pessoa adquire em relação a transcender as dimensões do humano. O mistério da presença de Deus potencializa a pessoa a viver e atuar. A transcendência vivida como presença misteriosa é capaz de desinstalar e romper barreiras e provoca a compreensão do mistério da vida e as transformações que ocorrem na pessoa. Aqui acontece a oração como encontro no Amor, para o Amor. Por isso, a súplica, a oração e preces fazem parte do ritual da experiência que acontece lentamente, provocando assim, verdadeiros milagres. [14]

É essencial tomar contato com a própria condição humana e da riqueza que o encontro oracional pode provocar. Esta oração pode ser pessoal, individual ou comunitária. Como consequência desta experiência, a pessoa irradia luz, verdade, confiança. Sente-se perdoada e amada pelo Senhor, que a faz entrar nesta Morada para estar com Ele, a sós. [15]

Conhecedora da fragilidade do ser humano, Teresa apresenta, nestas quatro primeiras Moradas, o movimento de iniciar o processo de travessia da fronteira. É necessário experimentar-se, deixar-se moldar pela Transcendência. Estrategicamente Teresacomeça a mudar a linguagem. Introduz a imagem do “silvo do Pastor”, o assobio que chama para o redil, para estar com Ele. Relata o empenho, o trabalho que teve para entender este processo de aproximar-se de Deus, entrar em si e chegar ao centro do Castelo, ter intimidade com o Amigo de todas as horas. A pessoa experimenta um amor muito grande de Deus que a transforma, impulsionando-a à missão. Teresa lembra que o Senhor dá a graça, quando quer, como o quer e a quem o quer, como dom e tesouro no coração. [16] Interessante é a advertência da Santa que, para aproveitar muito deste caminho e avançar nas Moradas, não está em pensar muito, senão em amar muito. [17] Não resta dúvida, que a pessoa humana precisa passar pela prova do crisol, para se autoafirmar e desejar, com veemência, seguir rumo ao interior do Castelo, e ali se encontrar com Deus. [18] Ele nos dá a conhecer a sua luz, diz ela, que nos faz ficar absortos. Ela convida para a entrega, deixar-se nos braços do Amor.

Podemos observar que os efeitos citados por Teresa, ocorrem tanto na vida pessoal, comunitária e social. Na verdade são efeitos significativos, pois a pessoa acaba tendo um novo olhar sobre si. Aqui nasce uma nova pessoa, a qual não se apoia sobre obras boas, mas sustentada por uma Presença suave que lhe dá leveza no seu modo de ser e agir. E então contagia outras pessoas na busca deste caminho. Hoje, mais do que nunca, o mundo precisa de pessoas enamoradas, confiantes e esperançosas, que amem e valorizem a vida, sendo presença do amor de Deus.

Certeza de estar na presença de Deus: quintas Moradas

Nas quintas Moradas, Teresa se utiliza de recursos da natureza, para dar a entender as transformações que a pessoa passa quando se deixa moldar por dentro, isto é, quando decide deixar que Deus atue nela. É uma narrativa rica de símbolos, iniciando com transformação metamorfósica de uma borboleta, comparada com as etapas da vida mística e uma profunda união com Deus, refletindo no amor ao próximo. Um convite a entrar na dinâmica da vida mística, com a oração de união com Deus. Os sinais desta união são evidentes, ou seja, sentir-se plenificada interiormente e a certeza de estar na presença de Deus. Porém, é necessário fidelidade e perseverança.

O interessante desta Morada é a forma como Teresa descreve a pessoa, quando esta decide buscar a vida além dela mesma, apesar de todas as dificuldades enfrentadas. A afetividade vai se configurando na medida em que conhece Jesus Cristo, e, quando se desvia deste processo, fica sem referência, tudo se torna ilusão e acaba. Neste caso é possível acreditar que a ação do Espírito provoca mudanças no ser humano. Neste movimento, a pessoa percebe um novo chamado, porque o Espírito do Senhor sussurra aos ouvidos e grita constantemente: podes sair, coloca-te a caminho, não importa onde estás, segue em frente. Teresa deixa claro que, no processo espiritual, Deus sempre toma a iniciativa. Na experiência da oração de união, Deus vai atuando como presença amorosa e permanente na pessoa. [20]

Aqui Teresa continua usando diversas simbologias para se fazer entender sobre o que passa entre Deus e o ser humano. Por exemplo, ela faz menção do bicho da seda, que, embora aparentemente esteja dentro do casulo sem vida, ele se transfigura numa linda borboleta. [21] Com este exemplo, Teresa mostra o resultado da transformação que ocorre na pessoa, que faz a experiência de se encontrar e estar com Deus; não se reconhece mais como a mesma de antes. [22] Outro sinal da experiência é que provoca profundos desejos de se dedicar a uma causa, isto é, fazer algo pelos outros mais necessitados. [23] Ela se utiliza também de outro recurso para explicar a união. Compara a experiência mística como se fosse um profundo olhar de comunicação entre duas pessoas enamoradas, antes de seu compromisso definitivo do casamento. [24] Utiliza também o símbolo do selo com a cera para verbalizar a experiência de união. É o que deixa a alma selada com seu selo de filhos e filhas de Deus, a tem tal certeza que de nenhuma maneira pode duvidar, que esteve com Deus e Deus nela. [25]

É interessante perceber como Teresa emocionada narra o processo de crescimento e conhecimento de Jesus Cristo e sua humanidade. Fala da união do humano com o divino em sua pessoa: esta é sua expressão suprema – Jesus Cristo. Porém, esta união entre Deus e a pessoa passa pela morte. Neste processo surge o novo horizonte, com nova abertura ao transcendente, com desejo de estar mais perto de Deus vivendo a união: união, morte, mística e vida nova.[26]

O sinal da presença de Deus na alma, nesta Morada, é evidente, pois deixa na pessoa a experiência impressa do encontro com Ele. Este encontro com o Sagrado é tão forte que a pessoa se esquece de si mesma, vive uma profunda paz interior e a certeza de ser possuidora de um grande tesouro, que deseja partilhar com outros. A imagem de Deus fica gravada tão profundamente no interior da pessoa que, ainda que passem anos, mantém a certeza total desta presença divina. [27]

O encontro com o Sagrado transforma: sextas Moradas

Nas sextas Moradas, Teresa prioriza os efeitos que acontecem no corpo e no interior da pessoa, quando faz a experiência de encontro com o sagrado. Ajuda o leitor a perceber e detectar quando a experiência é verdadeira e quando o fruto é da imaginação. Lembra das tensões interiores que a pessoa experimenta quando percebe a grandiosidade de Deus em sua vida, conduzindo-a a uma missão.

O estudo desta Morada mostra, como Teresa convida o leitor a acompanhar e compreender o processo de uma pessoa que experimenta profundamente a Deus. É normal passar por situações, que muitas vezes, não se conseguem entender: dificuldades de não aceitação da própria realidade de vida; necessidade de olhar um horizonte maior e buscar novas luzes; desejo de ter um encontro com Jesus Cristo no centro do Castelo.

Nas sextas Moradas, a pessoa já entrou num estágio oracional, em que nada vê, nem experimenta com os sentidos ou a imaginação, porém, tem certeza que está cada vez mais a sós com Deus. No entanto, percebe que o sofrimento faz parte da própria experiência de vida. Fica claro nesta Morada, a presença constante de Deus Trindade. O interessante é que a pessoa não consegue ficar sozinha com tantas graças, sentindo necessidade de partilhar as experiências com alguém muito espiritualizado. Neste sentido, Teresa faz um alerta importante: procurar alguém que já tenha trilhado por caminho semelhante e que compreenda o processo. [28]

Ela narra com detalhes o significado da experiência profunda de encontro com o sagrado e como consequência natural, o grande desejo de estar com Ele, a sós, por longos tempos. Ela simplifica dizendo, que a imagem do Amado fica esculpida com aquela visão, que todo o seu ser deseja tornar a reviver para gozar. E diz que a alma já está bem determinada a não tomar outro esposo. No entanto, a pessoa se sente segura porque está junto d’Ele, e, é donde lhe vem a fortaleza, tudo por Ele. Como consequência, vive um processo de plenificação, se esquece de si mesma e empenha-se em estar fazendo sempre o bem. [29]

Na narrativa, Teresa insiste que o Senhor se utiliza de várias maneiras para despertar a pessoa para o encontro: pela oração vocal e com a repetição parece que, lhe vem um deleitoso abrasamento; uma comunicação que parece vir do exterior, outras do mais íntimo da alma. [30] O critério é claro para Teresa. Se a comunicação é de Deus, a pessoa experimenta uma profunda paz interior, um desejo de fazer algo específico de boa ação e fica uma marca profunda que jamais esquece. [31] Com esta experiência ela se torna atenta aos movimentos interiores, para as coisas de Deus. O entendimento e sentidos se acalmam de tal forma que entendem os segredos mais profundos, pois ficam registrados na memória para sempre. [32] Tenta, também explicar o que acontece com a pessoa, utilizando uma série de analogias, como o surgir do sol, raios fortes que podem queimar, o sol da justiça, o voo do espírito que passa rapidamente. Porém, ficam as sequelas, como conhecimento da grandeza de Deus, autoconhecimento, não quer mais ofender com as transgressões no pecado, perceber a grandeza do Criador. [33]

No entanto, Teresa lembra, que ao estar nesta Morada a pessoa vislumbra o caminho para a sétima Morada, onde naturalmente deseja estar completamente com o Amado para louvar e agradecer constantemente, em atitude de encontro com Ele. [34] É uma alegria tão excessiva que a pessoa quer estar sozinha com Jesus Cristo e sua humanidade. [35] No entanto, a Santa adverte insistentemente que esse tipo de oração não deve ser considerado definitivamente superado, porque será necessária a ajuda do entendimento para inflamar a vontade. [36] Esta é uma preparação imediata para chegar ao cume da vida da Graça, possível de ser alcançada na terra. A profunda experiência interior de encontro leva à transformação, que repercute no modo de ser e de agir da pessoa, no dia a dia.

Deixar-se tocar pelo amor leva a amar: sétimas Moradas

Ao descrever as sétimas Moradas, Teresa afirma que este é o momento ápice da experiência mística. Relata as graças recebidas do conhecimento profundo de Jesus Cristo e sua humanidade e a percepção clara da Trindade. Ela verbaliza, nesta Morada, a plena configuração com Cristo, que a conduz à vivência, em plenitude, do mistério na missão, onde Marta e Maria sempre andam juntas. [37]

Na leitura do texto percebe-se como Teresa, desde o epílogo, alerta sobre a importância de uma atitude de decidir entrar no Castelo. [38] Mas, ao mesmo tempo, afirma sobre a certeza de que Deus faz morada no interior do ser humano. E desde este lugar estabelece a relação da união transformante de sua vida em ação permanente. Teresa convida a abrir um espaço para entender que o processo de purificação interior de uma alma, bem como as graças sobrenaturais, estão ligadas aos êxtases. É necessária a contemplação da humanidade de Cristo, para chegar aos últimos graus da vida mística. [39]

A contemplação, para Teresa, não é subjetiva, mas transcende a pessoa, levando-a a esquecer-se de si e a entregar-se a Cristo e à missão eclesial. Impressiona quando Teresa fala da grande companhia e como entende as coisas, porém, ela nem sempre a vê com a mesma claridade como da primeira vez, que se colocou nas mãos de Deus, que a conduz a uma contemplação plenificada. [40] Apresenta também os efeitos do matrimônio espiritual, como sendo um esquecimento de si e não esquece o que escutou dentro de si. [41] Ali, afirma ela, nasce o desejo de fazer unicamente a vontade de Deus. [42] Com esta experiência Teresa deseja viver muitos anos para servi-Lo e amá-Lo. [43] Deseja dedicar tempo para estar a sós com Ele em oração. [44] Tudo isso se passa na alma com muita quietude e silêncio. [45]

Teresa de Ávila retoma um texto bíblico significativo para a síntese de sua vida: Mariaa contemplativa e Marta, a trabalhadora. Porém, diz Teresa, Marta e Maria hão de andar juntas para bem hospedar o Senhor, e tê-lo sempre consigo. Marta e Maria são facetas de uma mesma pessoa. O verdadeiro místico não se limita a contemplar, mas se empenha em tornar o mundo melhor. Contemplação e trabalho se unem na personalidade do místico. Da mesma forma como a fé sem obras é morta, a contemplação sem a ação perde o seu valor. Santa Teresa tem a preocupação de fazer entender que Marta e Maria sempre andam juntas. O Senhor quer hospedagem, mas é necessário que o acolhamos, lhe demos de comer e em seus pés nos coloquemos à escuta. Assim seremos verdadeiros discípulos, fiéis na contemplação e na ação. Nesta dinâmica, Teresa diz se lembrar de São Paulo, que depois da conversão, não deixou de trabalhar, enfrentando perigos e tormentas para pregar a boa nova, além de prover o próprio sustento, como tecelão. É o encontro com Deus que gera um grande desejo de amá-Lo e servi-Lo. Por fim, a necessidade de uma dedicação total à obra de Deus, transformar a humanidade semelhante a Jesus Cristo. [46] O segredo é colocar os olhos fixos no Senhor. [47] Ali, olhando a Jesus Cristo que deu a vida por amor, descobrir a grandiosidade da nossa opção por uma causa maior, a entrega total a Jesus Cristo, sendo continuadores da Sua missão.

Conclusão

No caminho das Moradas, Teresa partilha um itinerário de amor. Um caminho de muitas oscilações, superações e possibilidades de autoconhecimento, do outro, de Jesus Cristo e sua Humanidade. A dinâmica apresentada por Teresa ajuda a acolher e compreender a realidade que nos envolve, isto é, o contexto social, político, religioso e espiritual. Anima para não desanimar na caminhada, mas confiar em Deus, pois Ele é uma presença constante na nossa vida e nos ama com infinito amor.

Teresa aparece como uma mulher ousada, dinâmica, que se atreveu a discutir com as autoridades do seu contexto (teólogos, intelectuais), sobre o processo do que é verdadeiramente se encontrar com o Deus. O seu modo de atuar, bem como a leveza de encarar a vida e a espiritualidade são uma rica contribuição para os nossos dias.

Com criatividade, a Santa de Ávila utiliza alegorias para explicar as Moradas, uma forma pedagógica e agradável de apresentar um itinerário espiritual tão complexo. Ela o faz com serenidade, alegria, transmitindo paz e confiança. Mostra que é possível, sim, seguir este itinerário das sete moradas. Para isso, é necessário colocar-se em atitude de caminhante, errando e acertando, mas com clareza de horizonte: pelo caminho do autoconhecimento, autoaceitação, acolhida da própria realidade, interiorização rumo ao centro do Castelo Interior, lá onde está “o Rei”.

Por que Teresa enfatiza a importância de entrar no Castelo Interior? Ela parte da sua experiência, pois é ali que ela encontrou o profundo sentido existencial, que lhe deu coragem e força para se integrar, ser missionária do Reino de Deus, ajudando as pessoas a também se encontrarem com o Deus da vida. Assim, ela escreve narrando com detalhes, a sua caminhada de encontro com o Senhor, com o objetivo de que outros possam também seguir este caminho.

Portanto, as Moradas teresianas apontam que Deus se comunica com a pessoa e a transforma. Esta dimensão mística de Teresa é acessível. Encontramos muitas pessoas que dão sinais evidentes de terem feito a experiência do itinerário teresiano até a sétima Morada. São os orantes, comprometidos com a causa de Jesus Cristo, especialmente com os mais necessitados e sofridos da sociedade; não se cansam de trabalhar pelo Reino de Deus, na construção de uma humanidade nova. O que alimenta a jornada destas pessoas? Com certeza, é o encontro com o Deus amigo, no mais profundo do Castelo Interior, que impulsiona à ação, à missão de serem testemunhas do Seu AMOR.

Notas:

[1] Teresa de Jesus: trata-se de Teresa de Cepeda y Ahumada, Teresa de Ávila, Teresa de Jesus, nascida em Ávila, Espanha (1515-1582). Os espanhóis, carinhosamente a chamam de Teresa, a Santa, ou ainda, a Santa de Ávila. Teresa de Jesus escreveu o livro das Moradas ou Castelo Interior em 1577 aos 62 anos de idade. O livro das Moradas relata a experiência mística, fazendo uma síntese de sua vida espiritual e de monja. A estrutura da obra está dividida em VII Moradas.

[2] SANTA TERESA DE JESUS. Obras Completas: Tomás Alvarez (Ed.). Introduções e notas. Tradução de Vasco Dias Ribeiro. Arcos, Portugal: Carmelo, 2005. p. 642. Livro das Moradas, cuja abreviatura será usado M (1M1). Teresa utiliza a simbologia do Castelo, que representa a pessoa humana e faz alusão ao Evangelho de João 14,2.

[3] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 56. Livro da Vida, cuja abreviatura será usado V (V8,5).

[4] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 85. (V 12, 2).

[5] TERESA DE JESUS. Obras completas. (Coord.) Frei Patrício Sciadini. Tradução do texto estabelecido por Tomás Alvarez, 5. ed. São Paulo: Carmelitas/Loyola, 2013. p. 442. (1M1,3).

[6] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 646. (1M1,7).

[7] TERESA DE JESUS, 2013, p. 501. (5M3,8).

[8] TERESIANAS STJ. Teresa de Jesús exploradora, itinerante y guía: taller de lectura Teresiana Las Moradas. In Proyetonudo: Curso formativo on-line de espiritualidad teresiana. Disponível aqui; e aqui. Acesso em: 15 maio 2013.

[9] SANTA TERESA DE JESÚS, 2005, p. 208. (V25,18)

[10] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 88. (V13).

[11] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 210. (V25,21).

[12] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 649. (2M2,4).

[13] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 690. (4M1,4).

[14] TERESIANAS STJ. En el camino del amor: un tiempo para dejarse atraer por Jesús y su reino. In Teresa de Jesús exploradora, itinerante y guía: taller de lectura Teresiana Las Moradas. In Proyetonudo: Curso formativo on-line de espiritualidad teresiana. Disponível aqui. Acesso em: 15 maio 2013. Ficha de trabajo tema 4.

[15] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 718. (4M3,8).

[16] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 643. (4M1,2).

[17] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 686. (4M1,7 conferido com V11,1 e no livro das Fundações 5,2).

[18] TERESA DE JESUS, 2013, p. 479. (4M2,8).

[19] TERESA DE JESUS, 2013, p. 484. (4M3,8).

[20] TERESIANAS STJ. En el camino del amor: un tiempo para ‘ordenar el amor. In Teresa de Jesús exploradora, itinerante y guía: taller de lectura Teresiana Las Moradas. In Proyetonudo:Curso formativo on-line de espiritualidad teresiana. Disponível aqui. Acesso em: 15 maio 2013. Ficha de trabajo tema 5.

[21] TERESA DE JESUS, 2013, p. 477. (5M2,2).

[22] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 7163. (5M2,7).

[23] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 719. (5M2,11).

[24] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 729. (5M4,4).

[25] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 719. (5M2,12).

[26] TERESIANAS STJ. Disponível aqui. Acesso em: 15 maio 2013. Ficha de trabajo tema 5.

[27] SANTA TERESA DE JESÚS, 2005, p. 711. (5M1,9)

[28] TERESIANAS STJ. En el camino del amor: un tiempo de prueba para el amor. In Teresa de Jesús exploradora, itinerante y guía: taller de lectura Teresiana Las Moradas. In Proyetonudo: Curso formativo on-line de espiritualidad teresiana. Disponível aqui. Acesso em: 15 maio 2013. Ficha de trabajo tema 6.

[29] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 735. (6M1,1-2).

[30] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 749-750. (6M3,1-4).

[31] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 743. (6M3,5.7).

[32] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 759-760. (6M4,3-5).

[33] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 772. (6M5,9-10).

[34] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p.775. (6M6,3).

[35] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 779. (6M6,10).

[36] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 778. (6M7.7).

[37] TERESIANAS STJ. El ‘tesoro escondido’del camino del amor: la unión que transforma. In Teresa de Jesús exploradora, itinerante y guía: taller de lectura Teresiana Las Moradas. In Proyetonudo: Curso formativo on-line de espiritualidad teresiana. Disponível aqui. Acesso em: 15 maio 2013. Ficha de trabajo tema 7.

[38] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 848. (7M4,21).

[39] TERESIANAS STJ. Disponível aqui. Acesso em: 15 maio 2013. Ficha de trabajo tema 7.

[40] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 823. (7M1.9).

[41] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 643. (7M7.9).

[42] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 833. (7M3,4).

[43] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 834. (7M3,6).

[44] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 643. (7M3,8).

[45] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 836. (7M3,11).

[46] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 845. (7M4,14).

[47] SANTA TERESA DE JESUS, 2005, p. 842. (7M4,7).

Referências:

SANTA TERESA DE JESUS. Obras Completas: Tomás Alvarez (Ed.). Introduções e notas. Tradução de Vasco Dias Ribeiro. Arcos, Portugal: Carmelo, 2005.

TERESA DE JESUS. Obras completas. (Coord.) Frei Patrício Sciadini. Tradução do texto estabelecido por Tomás Alvarez, 5. ed. São Paulo: Carmelitas/Loyola, 2013.

TERESIANAS STJ. Teresa de Jesús exploradora, itinerante y guía: taller de lectura Teresiana Las Moradas. In Proyetonudo: Curso formativo on-line de espiritualidad teresiana. Disponível aqui. Acesso em: 15 maio 2013.

TERESIANAS STJ. En el camino del amor: un tiempo para dejarse atraer por Jesús y su reino. In Teresa de Jesús exploradora, itinerante y guía: taller de lectura Teresiana Las Moradas. In Proyetonudo: Curso formativo on-line de espiritualidad teresiana. Disponível aqui. Acesso em: 15 maio 2013. Ficha de trabajo tema 4.

TERESIANAS STJ. En el camino del amor:un tiempo para ‘ordenar el amor. In Teresa de Jesús exploradora, itinerante y guía: taller de lectura Teresiana Las Moradas. In Proyetonudo: Curso formativo on-line de espiritualidad teresiana. Disponível aqui. Acesso em: 15 maio 2013. Ficha de trabajo tema 5.

TERESIANAS STJ. En el camino del amor: un tiempo de prueba para el amor. In Teresa de Jesús exploradora, itinerante y guía: taller de lectura Teresiana Las Moradas. In Proyetonudo: Curso formativo on-line de espiritualidad teresiana. Disponível aqui. Acesso em: 15 maio 2013. Ficha de trabajo tema 6.

TERESIANAS STJ. El ‘tesoro escondido’del camino del amor: la unión que transforma. In Teresa de Jesús exploradora, itinerante y guía: taller de lectura Teresiana Las Moradas. In Proyetonudo: Curso formativo on-line de espiritualidad teresiana. Disponível aqui. Acesso em: 15 maio 2013. Ficha de trabajo tema 7.

“Não deixa seu barco virar, não deixa a maré te levar, acredite no Senhor, só ele é quem pode salvar”, cantavam as cerca de 200 pessoas, reunidas na quadra de uma escola para o “1º Encontro Cristão de Capoeira do Gama” (cidade satélite de Brasília), numa tarde de sábado.

Era mais um evento de capoeira evangélica, também chamada de capoeira gospel, vertente que ganha cada vez mais adeptos no Brasil, principalmente por meio da palavra e do gingado de antigos mestres que se converteram à religião.

Se antes a prática enfrentava resistência dentro de igrejas, agora, nessa nova roupagem, é cada vez mais considerada uma eficiente ferramenta de evangelização.

“Hoje é difícil você ir numa roda que não tenha um (capoeirista evangélico), e vários capoeiristas viraram pastores. É um instrumento lindo de evangelização porque é alegre, descontraído, traz saúde, benefícios sociais”, afirma Elto de Brito, seguidor da Igreja Cristã Evangélica do Brasil e um dos palestrantes do evento.

Praticante de capoeira há 40 anos e convertido há 25, Suíno é líder do movimento “Capoeiristas de Cristo”, que estima reunir cerca de 5 mil pessoas no país. Ele realiza encontros nacionais em Goiânia há 13 anos – a edição de 2018 será pela primeira vez em Brasília.

O mestre calcula ainda que já existem cerca de 30 “ministérios” de capoeira, ou seja, grupos diretamente ligados a igrejas.

“Há um cuidado para não chocar com as visões da igreja. Cuidado com a roupa, com o linguajar, com as músicas, mas que “não necessariamente tem que ser só música que fala de evangelho, de Deus”, explica.

Críticas

O crescimento da prática, porém, tem gerado incômodo entre capoeiristas tradicionalistas e o movimento negro, que veem na novidade uma forma de ‘apropriação cultural’ e apagamento da raiz afrobrasiliera da capoeira, prática que surgiu como forma de resistência entre escravos, a partir do século 18.

Eles também reclamam que em algumas dessas rodas haveria discursos de “demonização” contra a capoeira tradicional e as religiões do candomblé e da umbanda.

O Colegiado Setorial de Cultura Afrobrasileira, que faz parte do Conselho Nacional de Políticas Culturais do Ministério da Cultura, chegou a divulgar em maio a “Carta de repúdio à ‘capoeira gospel’ e à expropriação das expressões culturais afrobrasileiras”.

O documento, uma reação ao 3º Encontro Nacional de Capoeira Gospel convocado para junho deste ano, em João Pessoa (PB), reconhece que seguidores de qualquer credo podem praticar capoeira, mas cobra “respeito” a sua tradição.

“Temos lutado contra o racismo em suas diversas e perversas manifestações. A demonização perpetrada por pastores, mestres ou professores de ‘capoeira gospel’, ensinando o ódio e a intolerância contra as raízes da capoeira e contra seus praticantes não evangélicos, é um crime de ódio que fere a liberdade e a dignidade humana”, diz a carta.

Patrimônio

A capoeira, que no passado chegou a ser proibida, recebeu em 2014 o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da Unesco, órgão da ONU para educação. O Iphan, órgão responsável por sua “salvaguarda” no Brasil, reconhece em documento sua “ligação com práticas ancestrais africanas”.

A antropóloga Maria Paula Adinolfi, técnica do Iphan, diz que “não é possível impedir a capoeira gospel”, mas explica que o órgão está focado em “fortalecer ações que vinculam a capoeira à matriz africana” como “uma política de reparação do processo de apagamento da memória afrobrasileira e de genocídio do povo negro”.

Organizador do evento na Paraíba, Ricardo Cerqueira, o contramestre Baiano,recebeu, além da carta de repúdio, algumas ligações com críticas e até mesmo ameaças de processo. Seguidor da Igreja Batista, ele diz reverenciar os grandes mestres da capoeira, como os baianos Bimba, Pastinha e Waldemar, já falecidos, mas argumenta que a “capoeira não pertence à cultura africana”.

“O país é laico. Acho que cada um tem liberdade para fazer a sua capoeira da forma que quiser”, defendeu.

“Colocamos o nome gospel sem intenção de descaracterizar a capoeira, até porque nós usamos todos os instrumentos e cantamos também música secular”, disse ainda.

Diferenças

Além das músicas e orações, mais alguns detalhes diferenciam a capoeira evangélica da “capoeira do mundo”, explicou à reportagem Gilson Araújo de Souza, pastor evangélico e mestre capoeirista em Manaus.

Em geral, rodas evangélicas não chamam a troca de corda de “batismo” porque o termo deve ser usado apenas no seu sentido religioso, de se converter e receber o Espírito Santo. Além disso, alguns capoeiristas também evitam o uso de apelidos, que, segundo Souza, tem origem na época que a capoeira era perseguida.

“No mundo cristão, Deus nos chama pelo nome. Antes, eu era conhecido como mestre Gil Malhado, hoje sou chamado de mestre pastor Gilson. Não preciso me camuflar”, explica ele, que faz parte da Igreja de Cristo Ministério Apostólico.

“Anos atrás, eu enfrentei muita dificuldade para levar a capoeira para a igreja. O pastor batia a porta na minha cara, dizia que era coisa da macumba, que não podia. Hoje eu sou pastor e as portas se abriram”, conta também.

Segundo o mestre Suíno, a adoção do termo “gospel” fez parte desse processo de quebrar resistências. Era uma forma, observa, de convencer os pastores que a capoeira podia ser praticada dentro dos valores cristãos.

Hoje ele próprio repudia esse “rótulo” por causa da polêmica que tem gerado. Suíno afirma que, apesar de haver algumas práticas próprias da capoeira cristã, sua “essência” de capoeira é a mesma.

“Não existe capoeira gospel! Não queremos bagunçar a capoeira. Nós respeitamos os mestres, respeitamos os fundamentos da capoeira, respeitamos as tradições, e vamos defender porque quem não defende a capoeira não tem direito de ser capoeirista”, discursou, empolgado, durante o evento no Gama, cujo lema era “minha cultura não atrapalha a minha fé”.

Constante mutação

Diante da polêmica, o historiador da capoeira Matthias Röhrig Assunção ressalta que a prática já passou por muitas transformações desde seu surgimento.

Hoje, há três vertentes principais: a angola (mais lenta e gingada, tida como a mais próxima da “original”), a regional (mais acelerada, que incorpora movimentos de lutas marciais) e a contemporânea – uma mistura das duas primeiras que surgiu no Sudeste a partir dos anos 70 e foi o estilo que conquistou o mundo.

“Acho que capoeira tradicional não existe mais, todos (os estilos) são modernizados”, resume Assunção, que é professor do departamento de história da Universidade de Essex, na Inglaterra.

Embora não simpatize com a ideia de uma capoeira evangélica, o professor afirma que não se trata do primeiro processo de “apropriação” da prática.

“A capoeira gospel me parece ser mais uma estratégia desses grupos religiosos de ocuparem espaços e de ganhar adeptos, mas não vejo como parar isso, não tem como proibir”, observou.

“Historicamente, houve muitas apropriações da capoeira. Há uma apropriação nacionalista forte, rodas no exterior com as bandeiras do Brasil, o verde e o amarelo, por exemplo, em que a origem da capoeira, a história de resistência e a ligação com os africanos escravizados muitas vezes não têm destaque algum”, pondera.

Fonte: BBC Brasil.

“Woman Caught in Adultery”, de John Martin Borg, 2002, retratando o episódio narrado em Jo 8, 1-11.

“Não julgueis e não sereis julgados”, diz taxativamente Jesus. “Pois, vós sereis julgados com o mesmo julgamento com que julgardes; e sereis medidos, com a mesma medida com que medirdes” (Mt 7, 1-2).

Geralmente, cai-se em interpretações que mutilam o Evangelho. Uma deles é instrumentalizar essa afirmação para se autodefender, o que não raramente denota certa hipocrisia. Outra é minimizar a aplicação dessa frase e, através de lógicas tortuosas, arrogar para si o direito de definir quem está condenado e quem está salvo. Há, ainda, quem diga que se trata de um mandamento impossível de ser seguido: sempre julgaremos.

É possível interpretar esses versículos, com fidelidade a Jesus, de maneira que não caiamos em uma atitude postiça, que julga os outros o tempo inteiro mas apenas tenta esconder esses julgamentos em algum canto da consciência ou ao menos não os expressar?

Quem examina com sinceridade a própria consciência percebe que tentar impor limites a esse mandamento não passa de uma justificativa para continuar com uma postura de arrogância diante dos outros, ou ao menos de indiferença, de incompreensão.

Santa Ângela de Foligno (1248-1309) não economizava na radicalidade com que entendia a afirmação de Jesus: “Não julguem ninguém, mesmo se virem alguém pecando mortalmente. Não julguem os pecadores. Vocês não sabem o julgamento de Deus”, ensinou ela. Seria um exagero?

Bento XVI ensinou o mesmo: “Nos nossos juízos, nunca devemos confundir o pecado que é inaceitável, com o pecador, cujo estado de consciência não podemos julgar e que, em todo o caso, é sempre susceptível de conversão e de perdão”, disse ele.

O coração do outro, mistério inacessível

O mandamento sobre não julgar não tem nada a ver com abandonar o discernimento sobre o bem e o mal. A afirmação do papa Bento esclarece o que é que não devemos – porque sequer temos capacidade para isso – julgar: o estado de consciência do outro.

Esse estado é inacessível para nós. Não podemos saber quais são as intenções dos atos dos outros. Não podemos saber se fazem o que fazem por bem ou por mal, não podemos saber o quanto as suas feridas condicionam o seu agir no mundo. Muito menos podemos saber se estão ou não com o coração voltado para Deus. É por isso que Santa Ângela explicita: “…Nem mesmo se virem alguém pecando mortalmente”.

O mesmo ensina o papa Francisco, na exortação apostólica Amoris Laetitia. “É mesquinho deter-se a considerar apenas se o agir de uma pessoa corresponde ou não a uma lei ou norma geral, porque isto não basta para discernir e assegurar uma plena fidelidade a Deus na existência concreta de um ser humano” (n. 304), diz o papa.

Todos sabemos que pode acontecer – e de fato acontece inúmeras vezes; não se trata de nenhuma exceção – que uma pessoa exteriormente pareça viver seguindo os mandamentos de Deus, não transgredindo uma linha dessas normas, mas, no entanto, tenha o coração afastado de Deus, cheio de si, sem espaço para a graça. E o contrário também pode acontecer: a vida de uma pessoa pode não estar conforme a todos os mandamentos e, no entanto, no seu interior a pessoa vive verdadeiramente próxima de Deus, com reta intenção e aberta para o amor.

O papa Bento, ao citar a afirmação de Jesus aos sacerdotes e anciãos, dizendo que “os publicanos e as prostitutas vão antes de vós para o Reino de Deus” (Mt 21, 31), considera que uma das formas de traduzi-la para os dias de hoje seria assim: “Agnósticos que, por causa da questão de Deus, não encontram paz e pessoas que sofrem por causa dos seus pecados e sentem o desejo de um coração puro estão mais perto do Reino de Deus de quanto o estejam os fiéis rotineiros, que na Igreja já só conseguem ver o aparato sem que o seu coração seja tocado por isto: pela fé”.

A mesma postura leva o papa Francisco a dizer que “por causa dos condicionalismos ou dos fatores atenuantes, é possível que uma pessoa, no meio duma situação objetiva de pecado – mas subjetivamente não seja culpável ou não o seja plenamente –, possa viver em graça de Deus, possa amar e possa também crescer na vida de graça e de caridade, recebendo para isso a ajuda da Igreja” (Amoris Laetitia, n. 305).

O olhar de Jesus

Qual deve ser então a nossa atitude diante do outro – que para o cristão nunca é um outro qualquer, mas é seu irmão, é um rosto amado apaixonadamente por Deus? O máximo de compreensão possível. O máximo de confiança de que cada pessoa, mesmo se confusa pelas feridas que a vida e ela mesma lhe infligiram, busca em seu coração o bem.

Partindo dessa compreensão, Santo Inácio de Loyola (1491-1556) colocou como pressuposto de seus Exercícios Espirituais esta lição muito importante: “Todo bom cristão deve estar mais pronto a salvar a proposição do próximo que a condená-la; se não a pode salvar, pergunte como ele a entende, e, se a entende mal, corrija-o com amor; e se não basta, busque todos os meios para que, entendendo-a bem, se salve”.

É curioso que empatia quer dizer etimologicamente a mesma coisa que compaixão: sentir com, ou sofrer com. Podemos dizer que é a atitude cristã por excelência: olhar o outro com um coração sensível – lembremo-nos de que uma das formas eminentes que a Escritura usa para descrever em que consiste a salvação é a da transformação do coração de pedra em coração de carne.

Não julgar não é, pois, uma postura impossível, como se contrariasse a nossa razão. Trata-se de tentar se colocar no lugar do outro e entender o que se passa em sua vida. Não desconfiar, não considerar já a priori que aquilo que o outro faz, faz por mal. Fazer memória das vezes em que eu pratiquei e pratico o mal e ver o outro, assim, como um irmão, como alguém semelhante a mim. Não impor rótulos sobre o outro, que não fazem nada mais do que reduzir toda a grandeza da sua humanidade ao mal que ele, talvez sem culpa, pratica.

Deixar, enfim, que pela minha convivência com Jesus, o meu olhar se torne semelhante ao dele: pleno de compaixão-empatia, como vemos nos numerosos encontros que o Evangelho narra – com a adúltera (cf. Jo 8, 1-11), com Zaqueu (cf. Lc 19, 1-10), com a prostituta (cf. Lc 7, 36 – 8, 3), com o jovem rico (cf. Mc 10, 17-27), etc. – e na nossa própria experiência: foi assim que ele nos fitou.

Fonte: Sempre Família

***

Leia também: o papa Paulo VI dá ótimas orientações sobre esse assunto na encíclica Ecclesiam Suam. Lá, ele diz claramente que a fala de quem evangeliza “exclui a condenação apriorística”. Aqui neste post você pode ver uma seleção de trechos interessantes dessa encíclica.

O site God of Evolution, que promove a conciliação entre o cristianismo e a teoria da evolução, publicou recentemente um texto no qual Phil Ledgerwood conta um episódio envolvendo uma conversa com outros cristãos a respeito da evolução. O que lhe chamou a atenção não foi tanto a discussão sobre quem estava certo (o grupo incluía defensores de visões bem diferentes sobre o relato da criação e a teoria de Darwin), mas como alguns dos membros tinham noções totalmente equivocadas sobre o que é, ou o que propõe a teoria da evolução.

Ledgerwood listou quatro erros principais.

O primeiro é o de achar que a macroevolução é uma coisa totalmente diferente da microevolução; este é um recurso retórico que alguns usam para aceitar o fato de que existem, sim, mudanças pequenas e pontuais nas espécies, mas não que haja os “grandes saltos” evolutivos. Acontece que, no fundo, tudo é microevolução, explica Ledgerwood. Os “grandes saltos” na verdade são o resultado de pequenas mudanças após pequenas mudanças, num grande intervalo de tempo (que os criacionistas de Terra jovem negam existir, daí a necessidade desse tipo de argumentação). Mal e porcamente comparando, é como os juros sobre juros: se você faz uma aplicação e a resgata daqui a dois meses, a transformação é mínima. Mas, se você deixa aquele dinheiro rendendo por 30 anos, por exemplo naqueles títulos do Tesouro que pagam a inflação mais um porcentual, na hora do resgate ele vira outra coisa completamente diferente, embora isso seja apenas o resultado de pequenas rentabilidades acumuladas ano após ano.

O segundo erro é uma falácia de espantalho: achar que os defensores da evolução descartam o criacionismo ou o Design Inteligente como não científicos apenas porque eles propõem a ação divina. O problema do criacionismo e do DI é outro, o de não ser possível submeter suas hipóteses ao método científico. Não tem nada a ver com Deus.

O terceiro erro é uma falácia indutiva, que se aproveita do fato de haver alguns cientistas que questionam a evolução para defender que a teoria está sob ataque e longe de ser consensual. Ledgewood mostra um dado curioso: o National Center for Science Education conseguiu juntar mais cientistas defensores da evolução apenas chamados Steve do que o Discovery Institute conseguiu juntar cientistas contrários à evolução.

O quarto erro, por fim, é o de afirmar que uma explicação naturalista de um fenômeno necessariamente tira Deus da jogada. Ledgewood recorda trechos em que a Bíblia diz que Deus “manda a chuva”, embora todos saibamos hoje que a causa da chuva é o ciclo da água e nem por isso tenhamos virado ateus. Aceitar um mecanismo natural não significa negar que esse mecanismo tenha sido desenhado por Deus, que Sua vontade mantenha o universo na existência, que o mecanismo é maneira que Deus usa para criar e manter o mundo… se vale para a água, por que não valeria para a evolução? “Se a evolução é verdadeira, então Deus não existe” é o que se chama de non sequitur, uma conclusão que não deriva da premissa. Militantes ateus podem até abusar dessa falácia, mas que os cristãos caiam nela é de doer

Católicos do mundo inteiro recordam o centenário de um acontecimento extraordinário ocorrido em Portugal: o “Milagre do Sol”, durante a última aparição da Virgem Maria a três pastorinhos, Lúcia, Jacinta e Francisco, na vila portuguesa de Fátima.

As aparições tinham começado em maio de 1917, e em 13 de outubro daquele ano dezenas de milhares de pessoas foram a Fátima, atraídas pela notícia de que Nossa Senhora havia prometido um grande sinal para aquele dia. Não apenas devotos, mas jornalistas, professores universitários e céticos prontos a desqualificar o evento também estavam presentes. Transcrevo aqui a descrição do escritor norte-americano William Thomas Walsh em seu livro sobre as aparições de Fátima (Walsh não estava em Fátima no dia do milagre, mas conversou com pessoas que estiveram lá, e com a própria Lúcia):

“O sol brilhava no zênite como se fosse um imenso disco de prata. Brilhava com a intensidade normal, e no entanto podia ser fitado sem que ofuscasse. Isso durou apenas um instante. Enquanto todos olhavam assombrados, a imensa bola começou a ‘dançar’: esta foi a palavra com que todos os observadores a descreveram. Primeiro, viram-na girar rapidamente, como uma gigantesca roda de fogo. Depois de um certo tempo, parou. A seguir, voltou a girar sobre si mesma, vertiginosamente, numa velocidade incrível. Finalmente, os bordos tornaram-se escarlates e espalharam-se pelo firmamento, espargindo chamas vermelhas de fogo, como um redemoinho infernal. Essa luz foi-se refletindo na terra, nas árvores, nos arbustos, nas próprias faces voltadas para cima e nas vestes, tomando tonalidades brilhantes e cores diferentes: verde, vermelho, laranja, azul, violeta, as cores todas do espectro solar. Girando loucamente sob essa aparência, por três vezes, o globo de fogo pareceu agitar-se, estremecer e depois precipitar-se em ziguezague sobre a multidão. (…) Isso durou talvez uns dez minutos. Logo depois, viram todos o sol começar a elevar-se da mesma maneira, em ziguezague, até ao ponto onde havia aparecido antes. Ficou então tranquilo e brilhante. Ninguém mais lhe pôde suportar o fulgor. Era novamente o sol de todos os dias.”

Desde então, não faltam explicações e tentativas de validar ou desacreditar os relatos. Se por um lado nenhum observatório astronômico relatou nada de incomum naquela data, e nem todos os que estavam na Cova da Iria disseram ter visto todos os fenômenos descritos (houve mesmo pessoas devotas que afirmaram não ter visto nenhum movimento do sol), por outro lado mesmo céticos e pessoas que estavam a até 20 quilômetros de Fátima relataram ter visto coisas fora do normal (ou seja, podemos descartar um fenômeno em massa de autossugestão por parte dos devotos), e há relatos de que, durante o evento, roupas e o chão, que estavam molhados devido à chuva que caía antes do milagre, terem ficado completamente secos (você pode ler aqui vários relatos de pessoas que estavam em Fátima na ocasião).

Dezenas de milhares de pessoas estiveram em Fátima e disseram ter visto o sol se movendo no céu. Mesmo céticos que pretendiam desqualificar as aparições fizeram relatos semelhantes. (Foto: Reprodução)

O padre Stanley Jaki, uma grande referência no trabalho sobre ciência e fé, escreveu um livro apenas sobre este evento. Não tive a oportunidade de lê-lo, mas Stacy Trasancos, estudiosa do trabalho do padre Jaki, publicou um artigo quatro anos atrás em que resume as conclusões do sacerdote. Jaki conclui que, naquele dia, os espectadores na Cova da Iria presenciaram não exatamente um movimento solar, mas uma combinação única (tão única e irrepetível que, sim, Jaki a considera milagrosa) de fenômenos físicos: a presença de cristais de gelo nas nuvens e a interação entre uma massa de ar frio e outra quente. “Claramente, o ‘milagre’ do sol não foi um mero fenômeno meteorológico, ainda que raro. Do contrário, teria sido observado antes ou depois, independentemente da presença de multidões devotas. Eu apenas alego, como fiz em outros escritos meus sobre milagres, que ao produzi-los Deus frequentemente usa um substrato material e aumenta muito seus componentes físicos e suas interações. De fato, pode-se dizer, ainda que não da forma como alguns que escrevem sobre Fátima fazem, que os dedos da Mãe de Deus brincaram com os raios do sol naquela hora extraordinária, em Fátima”, diz Jaki em sua autobiografia.

Um outro artigo interessante saiu em 11 de maio deste ano, às vésperas do centenário da primeira aparição, no Catholic Herald. O padre (e especialista em física de partículas) Andrew Pinsent, diretor do Ian Ramsey Centre for Science and Religion da Universidade de Oxford, se pergunta: um cientista pode levar a sério o Milagre do Sol? E responde: por que não? Pinsent explica que muitas vezes temos uma compreensão errada do conceito de milagre, entendido de forma simplista como uma quebra das leis da natureza. O pulo do gato é que as leis da natureza descrevem o funcionamento de sistemas simples e isolados, mas eles estão sujeitos à intervenção de agentes livres, inclusive de um agente todo-poderoso. “Portanto, da perspectiva das leis científicas, não há um problema real com os milagres, porque descrever como um sistema funciona na ausência de intervenção não diz nada sobre se uma intervenção ocorre ou pode ocorrer”, afirma.

Lúcia, Francisco e Jacinta (da esquerda para a direita): pastorinhos disseram que a Virgem Maria havia prometido um grande sinal para o dia 13 de outubro de 1917. (Foto: Illustração Portugueza)

Mas, para Pinsent, há um outro modo de entender mal os milagres, que é buscar explicações naturais que reduzem o milagroso ao providencial. Essa afirmação parece, à primeira vista, bater de frente justamente com a explicação que Jaki oferece para o Milagre do Sol, mas podemos alegar que também Jaki aceita uma intervenção divina que “reforçou” as propriedades/características/interações do que quer que estivesse envolvido no episódio. Difícil saber, porque Pinsent não cita em nenhum momento a explicação fornecida por Jaki. Tampouco dá a sua hipótese para o que houve naquele 13 de outubro, limitando-se a dizer que tudo o que sabemos sobre o episódio é compatível com um “milagre público dos mais extraordinários”. Fica a impressão de que Pinsent admite que houve algo mais do que simplesmente um processo de ilusão de ótica, mas o quê? 

Embora eu ache a explicação de Jaki bem convincente, eu tendo a acreditar que houve algo mais ali, e nisso acho que me inclino mais para a posição de Pinsent. Agora, que algo mais é esse, aí já não sei dizer.

Fonte: Tubo de ensaio