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Talvez você não esteja sabendo dar as ordens corretamente.

Esta é uma eterna pergunta, cuja resposta é muito simples e tem tudo a ver com a educação que estamos dando a nossos filhos e com o tempo que estamos passando com eles. Muitos dizem que a educação de antes era melhor e que os filhos obedeciam só com o olhar dos pais. Pode ser. Embora, na minha opinião, a educação de gerações passadas também tinha enormes pontos de melhoria, como a tirania que alguns pais exerciam, pois se sentiam donos dos filhos.

Mas em que se baseia a informação de que, antigamente, obedecíamos de primeira e agora não? Entre outras coisas, o fato de a maioria das pessoas terem tido pais presentes. Se não o pai e a mãe, pelo menos um dos dois. Os filhos, a educação e o bem-estar deles eram prioridades das famílias, que focavam mais no “ser” do que no “ter”. Hoje, estamos quase no outro extremo e muitos filhos estão crescendo sozinhos, abandonados física e emocionalmente. Quem os educa ou são terceiros ou a TV e a internet.

Recordemos Aristóteles e sua maravilhosa definição de amar: “Amar é buscar o bem do outro enquanto outro”. Educar é amar, sempre procurando o bem das pessoas que Deus nos confiou e emprestou por um período de tempo.

Amar é educar. Nossos filhos não nos obedecem porque nós, pais, não temos claro nem “o que” é educar nem “para que” educamos. Ou seja: qual é o objetivo da educação? Damos ordens, mas eles não nos obedecem. Por quê? Entre outras coisas – repito – porque não estamos presentes e, com isso, perdemos a chave da educação: a autoridade.

A autoridade deve ser exercida com sabedoria, procurando unicamente o bem dos filhos, de maneira ativa e pessoal, não à distância ou por tempos determinados.

A palavra “educação” vem do latim “educere”(que significa guiar, conduzir) ou “educare” (formar, instruir). Os pais são os principais educadores e devem procurar guiar e formar os filhos para que eles sejam “os melhores” em cada uma de suas dimensões pessoais: a afetiva, a intelectual e a social.

A educação não se limita ao conhecimento, mas a tudo o que compõe uma pessoa. E para que educamos? Para que os nossos filhos alcancem a plenitude, mediante o uso da liberdade, que tem que seguir juntamente com a responsabilidade.

Todas as pessoas têm uma maravilhosa qualidade que é a educabilidade. Essa educabilidade se transforma em educação com a participação ativa do educando (os filhos) e com a tarefa do educador (os pais).

Aqui, compartilho alguns pontos básicos para inculcar a virtude da obediência nos filhos. Como eu já disse, esses pontos têm muita relação com a sua capacidade de educar e a sua presença ativa junto aos filhos.

  • Aquele que tem um “por que” e um “para que” encontrará qualquer “como”.  Pergunte-se: para que educo? Faço isso só para cumprir os códigos de conduta e para que meus filhos sejam bem vistos e aceitos pelos outros? Repito: educação vem de “educere”, que significa, entre outras coisas, “tirar de dentro”. E isso é o que tem que ser feito: tirar o melhor dos filhos e moldar o que eles trazem. Nossos filhos já trazem um temperamento. Nós temos que moldar este temperamento para formar o caráter (o melhor caráter).
  • Não podemos educar à distância. A qualidade de tempo que você passa com seu filho é tão importante quanto a quantidade. Na medida do possível, temos que ser pais presentes. Mães modernas, a educação é um trabalho de tempo integral, onde não há descanso. Tudo é substituível. O que ninguém pode suprir é a sua presença em casa e seu lugar como mãe. Lembre-se de que nada vale mais do que seus filhos. Perdemos a autoridade quando também perdemos a presença junto a eles. Quando você dá seu tempo a seus filhos, eles se sentem valorizados (e precisam disso).
  • Semear. Uma vez que sabemos que vamos educar nossos filhos,  tirando o melhor deles, para que eles sejam cidadãos respeitáveis e responsáveis e homens e mulheres de bem, temos que semear valores e virtudes entre eles. Os vícios nunca podem ser uma opção, pois dessa forma eles não estariam fazendo bom uso da liberdade. O fato de deixarmos nossos filhos fazerem o que eles quiserem e não colocarmos limites é o a semeadura do vício. 
  • Evite ser pai e mãe burocratas. Sim, vamos dar ordens ou colocar regras, mas que sejam poucas. Importante: que o dia não seja repleto de ordens e mais ordens. Você pode dizer assim: “às sete da noite eu quero todas as bonecas na caixa azul. Vou avisar quando forem sete horas”. E isso é tudo o que tem que dizer. Sem mais palavras, sem enrolação. Só se repreende um filho por uma razão: se ele desobedecer a uma ordem dada para o bem dele.

Se você acredita, dê um passo a mais:

  • Oração. Antes de serem nossos filhos, eles são filhos de Deus. Portanto, pergunte a Ele em oração: “O que o Senhor quer que eu faça para educar este filho que me confiou?”. Ouça a resposta e mãos à obra. Lembre-se de que um filho deve ser educado de joelhos. Ou seja: fale mais a Deus de seu filho do que a seu filho de Deus.
  • Confiança. Como pai ou mãe desses filhos, você conta com todos os talentos e capacidades necessários para levá-los adiante, até o céu. Descubra seus dons e deixe-os andar a serviço dos filhos. Repito: antes de serem seus filhos, são filhos de Deus. Que coisas maravilhosas Deus viu em você para confiar seus filhos! Venha! Você pode!

Luz Ivonne Ream

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Papai, viva de tal maneira que, quando seu filho pensar em lealdade, honestidade, integridade, justiça, respeito, trabalho, fidelidade, serviço e caridade, a sua imagem venha à mente dele.

Embora a sociedade ocidental dê mais importância à figura materna, a figura do pai na vida dos filhos é tão importante como a da mãe, pois ele desempenha um papel único, intransferível, insubstituível e fundamental no desenvolvimento emocional, psicológico e social dos filhos.

Papai, quando eu crescer quero ser igual a você

Os filhos que têm a oportunidade de contar com os pais emocional e fisicamente presentes no decorrer da vida – em especial nos momentos mais importantes de seu desenvolvimento – apresentam maior tolerância à frustração, maior confiança em si mesmos, autocontrole e autoestima elevada.

Mas não é necessário ser apenas um pai presente, é imperativo gerar vínculos afetivos sólidos com os filhos. Ou seja, ser pai ativo, sempre pendente às necessidades deles. Algumas vezes você satisfará essas necessidades ou dará ferramentas para que eles encontrem soluções. Em outros casos, simplesmente vai consolá-los e dar palmadinhas nas mãos com a seguinte mensagem oculta: “tudo ficará bem porque estou com você”. Isso vai garantir segurança aos pequenos.

O desenvolvimento de uma relação positiva com o pai ajudará o filho a ser um adulto equânime e seguro. A sensação que lhe dá de poder contar com um pai que lhe oferece respaldo é simplesmente indescritível.

Todo filho merece sentir-se desejado e aceito pelo pai – não somente pela mãe. A aceitação precede da vontade; o desejo, do sentimento. Se um filho percebe o abandono, seu desenvolvimento pode sofrer um bloqueio. E não será tanto por não ter sido desejado, mas por não ter sido aceitado. A aceitação da paternidade e a aceitação de sua pessoa são necessárias e muito importantes para o saudável desenvolvimento individual e social do indivíduo.

Algumas atitudes de aceitação ou rejeição:

  • Você provoca rejeição quando se transforma em um pai autoritário e tirano. A mensagem que você manda para o filho é que ele não te perturbe ou que tivesse sido melhor que não tivesse nascido. Você também provoca rejeição quando se comporta como um pai indulgente, indiferente, o “colega” de seus filhos. A mensagem que você passa é que o pequeno não é sua prioridade.
  • Também causa rejeição a superproteção (ou quando você se transforma em um pai autoritário e perfeccionista).  Neste caso, a mensagem que você passa a seu filho é que ele deve seguir o seu modelo e ser como você. O filho se sente com o amor condicional. Quando há superproteção ou quando você passa a ser um pai narcisista, o filho pensa que não há ninguém como ele. Embora pareça o contrário, ele desenvolverá uma autoestima frágil.

A palavra convence, mas o exemplo arrasta

Se há algo que os filhos observam nos pais é a forma de trabalhar. Ou seja, o pai deve ensinar a virtude e o valor humano do trabalho. Por seu modo de trabalhar, um pai pode ser prestigiado ou desprestigiado pelos filhos, obterá a admiração e respeito dele ou o contrário.

Os filhos são inteligentes e se a imagem que eles têm do trabalho do pai, a partir das conversas familiares ou da sua atitude diante deles, for negativa, os feitos na educação serão nocivos.

Também terá efeito negativo o fato de o filho perceber que o que se diz não coincide com o que se faz. Com a incongruência, perde-se a autoridade, e sem autoridade dificilmente haverá admiração e respeito.

Para qualquer filho, não há nada mais fortalecedor do que sentir-se amado e protegido pelo homem que ele mais admira, seu super-herói. Esse sentimento de proteção vai com ele por toda a vida.

No caso particular da relação pai/filha, se ela se sentir abandonada pelo pai, quando for escolher seu marido, dificilmente saberá fazê-lo, porque terá a necessidade inconsciente de preencher o vazio que o pai lhe deixou. Portanto, em vez de buscar um companheiro de vida, em cada homem que conhecer, ela vai querer encontrar esse pai para protegê-la. Isso é muito perigoso e dificilmente resultará em relações amorosas estáveis.

Por isso, mamães, precisamos deixar os papais exercerem seus papeis de esposos e pais. É importante que a mãe dê espaço e não interfira nessa relação, mesmo que ela ache que “faria melhor do que ele”. O posto de um pai na vida de um filho ou filha é insubstituível!

Luz Ivone Ream

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Uma característica marcante dessa fase é a necessidade do indivíduo de fazer parte de um grupo

Adolescência é o nome dado à etapa do desenvolvimento humano que se situa entre a infância e a fase adulta. Segundo a Organização Mundial da Saúde, essa fase ocorre entre 10 e 19 anos de idade, e é um período marcado por diversas transformações corporais, hormonais e comportamentais.

A puberdade marca o início da adolescência, e é caracterizada por mudanças hormonais no corpo dos meninos e meninas e consequentes transformações físicas e biológicas. Durante a puberdade, surgem nos meninos os pelos, inicia-se o engrossamento da voz, o crescimento e o desenvolvimento muscular e dos órgãos genitais; nas meninas, as mudanças mais importantes são o começo da menstruação e o desenvolvimento das mamas e dos órgãos genitais.

Além das mudanças corporais, os hormônios e as transformações da autoimagem influenciam no comportamento e no humor dos adolescentes. Uma característica marcante dessa fase é a necessidade do indivíduo de fazer parte de um grupo: as amizades e a socialização são importantíssimas e muitos dos problemas e angústias que eles sofrem, decorre dessa necessidade de se sentir parte de um grupo.

Para fazer parte de um grupo, no entanto, o adolescente passa a escolher um modelo específico de roupa, a ouvir um estilo musical (por ex.: rock ou pop), e, para desespero de alguns pais, decide fazer tatuagens. Além disso, não é incomum que os adolescentes experimentem álcool e drogas ilícitas a fim de parecerem mais “legais” aos amigos.

Consequentemente, nessa necessidade de socialização, o contato com pais e familiares, aos poucos, vai sendo substituído por pessoas externas, porém, apesar desse distanciamento, a família ainda tem papel importante no processo de formação da personalidade. Por isso, é necessário que um canal de diálogo esteja sempre aberto entre o adolescente e os pais. Vale ressaltar que valores familiares ensinados desde a infância influenciarão diretamente na construção da identidade do rapaz ou da moça e isso irá refletir na sua personalidade futura, nas suas escolhas e tomadas de decisões.

Dentre os valores familiares, devem-se incluir fundamentos religiosos. Estudos demonstram que os adolescentes com maior religiosidade apresentam comportamentos mais saudáveis, além de melhores índices de saúde física e mental, em comparação com aqueles que não são religiosos. Em 2006, o Journal of Adolescent Health publicou um artigo avaliando o resultado de diversas pesquisas que estudaram o tema e os dados encontrados foram surpreendentes.

No âmbito comportamental, os de maiores vínculos religiosos se expuseram a menores situações de risco, como, por exemplo, menores índices de consumo de álcool e de uso de maconha. No campo da saúde mental, os resultados se mostraram ainda mais interessantes: a religião, ao fornecer uma compreensão e significado na vida dos adolescentes, estava diretamente associada a níveis mais baixos de sintomas depressivos, além de estar conexa com menor risco de suicídio.

Esse mesmo resultado também se observou quando o adolescente considerava a si mesmo como religiosos e fazia parte ou obtinha apoio de sua comunidade religiosa. No âmbito da saúde física, os estudos demonstraram vários aspectos positivos da religiosidade, nos casos de doenças crônicas que exigem adesão ao tratamento, como, por exemplo, a asma os adolescentes de fé, atendiam às recomendações médicas com maior precisão e, com isso, obtinham melhores controle das doenças.

Nos casos de moléstias graves, como o câncer, a religiosidade se mostrou um instrumento auxiliar no enfrentamento da doença, sendo que a religião serviu para “dar sentido” a uma situação difícil ou para fornecer “enfrentamento construtivo” à doença.

Dessa forma podemos concluir que os pais, devem ter a certeza de que estão corretos em oferecer aos filhos a educação religiosa. Nunca devem acreditar que é melhor esperar eles crescerem para aí “decidirem por si” a religião a seguir. Ao privar a criança da espiritualidade, perde-se a oportunidade única de se plantar fundamentos e valores que farão muita diferença na qualidade de vida dos filhos.

Vanderlei de Lima é eremita na Diocese de Amparo; Igor Precinoti é médico, pós-graduado em Medicina Intensiva (UTI), especialista em Infectologia e doutorando em Clínica Médica pela USP.

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Toda pessoa viva já pensou na morte. Pensar na morte faz parte da vida. O que diferencia alguém vivo de alguém morto é que o vivo ainda não morreu. Vida e morte são coisas claramente separadas, apenas nas palavras. Viver é morrer um pouco a cada dia. Morrer é parar de morrer.

Uma vez, uma aluna minha, do curso de psicologia, disse que o “problema da vida” é que a gente já nasce morrendo. Assim, pensar na morte, faz parte da nossa constituição psíquica. É normal, não tem nada de errado com quem pensa na morte.

Porém, a gente não pensa na morte de modo uniforme, ao longo de toda a vida. Se tem um tempo onde é mais comum pensar na morte, esse tempo, certamente, é a adolescência.

Isso porque, na primeira infância, a gente vive como se fosse objeto do outro. “Sou da mamãe”, “sou do papai”, “sou da dinda”, dizem os bordados nos macacões e babadores que os bebês usam. Quer dizer, somos do outro.

É no fim da infância e no começo da adolescência que vamos tomando posse do nosso corpo. É só aí que vamos entendendo, (inconscientemente, porque geralmente não percebemos que pensamos nisso) que nós pertencemos a nós mesmos.

Se por um lado isso pode ser libertador, pois “se sou de mim mesmo, posso fazer o que eu quiser da minha vida” – por outro lado, isso pode ser vivido como pura angústia: “não sou de ninguém, então, não há ninguém por mim”.

O encontro com essa descoberta em torno da liberdade/solidão, próprio da adolescência, pode levar vários jovens a imaginarem como seria a sua morte, como seria a reação das pessoas diante da morte dele. E pode levar os jovens ao desejo de morte – não como quem quer morrer, mas como quem quer levar o outro a sentir sua falta.

No texto “Luto e melancolia” Freud diz que ninguém tem energia suficiente para tirar a própria vida, a não ser que entenda que, tirando a própria vida, está matando alguém em si. Nesse sentido, fica fácil entender como algumas pessoas podem tentar ou até mesmo conseguir tirar a própria vida. Nada parece mais eficaz para fazer falta no outro do que a eternização de uma falta.

Assim, é comum na adolescência, certa melancolia. Os sentidos que os pais deram aos seus filhos para a vida, até então, demonstram falir.

Até que os adolescentes encontrem seus próprios motivos para viver, por meio dos amigos, das causas e dos amores, um luto pode advir. É preciso que o adolescente possa expressar sua tristeza, porque vai descobrindo que seu modo de ver a vida, não é exatamente o mesmo que o dos pais.

É por aí que ideias suicidas podem aparecer, e é bem aí que o jogo a baleia azul pode “cair como uma luva”. Um desastre.

Se o adolescente consegue elaborar sua tristeza dizendo do que o incomoda, isso é uma coisa – e tem solução. Mas se ele não pode elaborar isso, se ele não encontra palavras para falar dessa tristeza, e então, se depara com o jogo da “baleia azul”, então temos um problema de solução mais difícil, bem mais difícil.

Um adolescente que levava a ferro e fogo as palavras dos pais, diante da falência das palavras deles, pode encontrar no jogo da “baleia azul”, algo que substitua o que os pais disseram. É aí que mora o perigo.

Por isso, pais, é de extrema importância que a gente fale com nossos filhos adolescentes. Não sobre o jogo da baleia azul, ou sobre o GTA (que é aquele video-game super agressivo que deixa muita gente de cabelo em pé) ou sobre o 13 reasons why, mas sobre as coisas da vida. Sobre a vida do vizinho, sobre a matéria do jornal, sobre o filme que passou na tevê, sobre propagandas, trivialidades, sobre qualquer coisa.

O desejo de morrer, ou as fantasias sobre a morte, que esses jovens nos trazem, não devem nos assustar e assim nos levar a apressadamente a calá-los – mas deve nos convocar a escutá-los, deve nos levar ao convite para falarem mais disso.

A palavra é o único modo de elaborarmos. Com aquilo que vira palavra podemos fazer algo. Mas aquilo que não vira palavra, nos faz refém dos acontecimentos.

(Texto escrito a partir de uma breve conversa com Lucas Sesarino, que tem 14 anos e 8 meses, é super sábio e deu seu aval no texto antes que eu o postasse).

Ana Suy, psicanalista

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Sintomática de uma era, vem causando espanto e muita preocupação uma onda de suicídios na Rússia, motivados por um jogo intitulado Blue Whale (Baleia Azul, alusão ao cetáceo que está em extinção). Os participantes seguem uma série de instruções que os deixam fragilizados e motivados a tirar a própria vida. O jogo é viral e está se espalhando pela internet, chegando aos poucos ao Brasil. A pessoa que comanda o jogo se chama “curador” e envia pequenos desafios aos jogadores todas as madrugadas, justamente quando os pais desavisados estão alheios às atividades virtuais dos filhos. Com duração de cinquenta dias, o jogo termina com o desafio final: o suicídio. As russas Yulia Konstantinova e Veronika Volkova estão entre as primeiras vítimas do jogo; jovens que, como muitos outros, precisavam apenas de um “empurrão” para levar a cabo a trágica decisão. Centenas de jovens já foram empurrados para a morte motivados pelo diabólico Baleia Azul.

Entre as “missões”, as mais fáceis consistem em acordar em horários específicos da noite, assistir a filmes de terror e ouvir sem parar músicas que deixam a pessoa triste. Isso predispõe o jogador para as próximas tarefas, criando nele um estado depressivo. Os passos seguintes incluem automutilação, arriscar-se em lugares altos e perigosos, etc. Autoridades russas creem que os curadores sejam pessoas mais velhas e persuasivas, pois convencem os jovens de que eles não podem sair do jogo. “Temos certeza de que são adultos aliciando crianças”, afirmou um representante do FSB Secret Service ao jornal Novaya Gazeta.

O jogo Baleia Azul realmente é sintomático de uma era em que a vida tem sido banalizada, as relações humanas reais têm dado lugar a relações impessoais e virtuais, os pais se distanciam dos filhos e o alvo de muita gente se constitui numa vida de conforto e estabilidade financeira. Na busca dessas coisas, muitas família acabam desenvolvendo relacionamentos disfuncionais e carências emocionais que alguns buscam satisfazer de forma errada – ou mesmo se livrar delas de um jeito ou de outro, sendo o “outro” o mais extremo: o suicídio.

No ano passado, realizei uma série de pregações e palestras em três cidades da Suíça: Genebra, Zurique e Neuchatel. Pense num país organizado, com ótimas escolas, povo educado, segurança e conforto… Esse é a Suíça. Até por isso fica difícil pregar o evangelho lá, porque a sensação de muitos suíços é de que eles de nada têm falta. Alguns, por fim, acabam percebendo que quem tem Deus tem tudo, mas que os que não tem Deus, ainda que tenham “tudo”, não têm nada. A constatação disso lá me veio por meio de uma realidade que eu desconhecia: os índices de suicídio na Suíça são alarmantes, embora pouco divulgados. Então, parece que conforto, prosperidade financeira, segurança e boa educação não são tudo na vida…

Mas taxas de suicídio altas não são “privilégio” dos suíços. No Japão, outro país bastante desenvolvido, ocorrem mais de trinta mil suicídios por ano – número cinco vezes maior que o de acidentes rodoviários. Mas é interessante notar que, depois do trágico terremoto e do tsunami que causaram muita destruição e ceifaram milhares de vidas na ilha, em 2011, o número de suicídios caiu significativamente, o que levou alguns analistas a associar essa diminuição ao aumento da solidariedade e da união no país. Houve também mais reflexão sobre o sentido da vida e até um afluxo maior de pessoas às igrejas, na época.

Pensando na tragédia chamada Baleia Azul e nos tristes índices de suicídios em países desenvolvidos, podemos listar algumas reflexões e advertências:

1. Pais devem ficar atentos e não permitir aos filhos liberdade irrestrita à internet. Psicólogos e estudiosos do comportamento aconselham os pais a não permitir que os filhos tenham aparelhos de TV nem computadores no quarto de dormir. E o uso de smartphones também deve ser regulado.

2. Privação de sono, filmes de terror e músicas que induzem a tristeza funcionam como fatores depressivos. Obviamente que nem todo mundo terá pensamentos suicidas ou chegará às vias de fato por manter práticas como essas, mas fica demonstrado que essas coisas alteram o estado de ânimo das pessoas. Então, para que assistir a esse tipo de filmes, ouvir esse tipo de música e dormir pouco? Cuidar da saúde física é igualmente cuidar da saúde mental.

3. É preciso ficar atento ao comportamento das pessoas, especialmente dos jovens. Se você perceber que algum amigo ou parente anda postando mensagens estranhas nas redes sociais, tipo pedidos de ajuda ou conteúdos relacionados com suicídio, fique atento.

4. Lembre-se de que depressão é uma doença e que as pessoas acometidas por esse problema precisam de ajuda e, se preciso, de atendimento profissional. Tudo o que elas menos precisam é de condenação ou de associações indevidas e injustas com sua situação espiritual, como se o depressivo estivesse com “falta de Deus na vida”.

5. A fé e a prática da religião podem ajudar e muito no equilíbrio emocional e na busca de sentido para a vida. Viktor Frankl é um dos estudiosos que pesquisou a importância da religião (ou espiritualidade) como fator integrativo da natureza humana e percebeu por meio de pesquisas in loco que a esperança e a dimensão espiritual fazem grande diferença na vida das pessoas.

Assim como a baleia azul está em extinção, também estão a real conexão com Deus (fé), os valores que deveriam nortear a vida, os bons e construtivos relacionamentos, e muito mais coisas boas. E é justamente por isso que, para muita gente, dar fim à existência é uma opção aparentemente melhor do que enfrentar a vida com seus desafios, suas lutas e incertezas. 

Michelson Borges

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Dividir os problemas com os filhos é comum e pode até ser importante para construir uma dinâmica familiar saudável. Mas um estudo científico publicado no Journal of Family Therapy traz um alerta para aqueles pais que exageram nas confidências. Compartilhar detalhes da vida pessoal ou fazer reclamações excessivas do cônjuge podem provocar consequências negativas para a vida das crianças. Segundo a pesquisa, elas têm maiores índices de ansiedade, depressão, distúrbios alimentares e maior risco de abuso de substâncias. “O filho não deve servir às necessidades íntimas dos pais e nem ser colocado no papel de confidente pessoal”, disse ao The Washington Post Lisa M. Hopper, pesquisadora e professora da Universidade de Louisville. 

Lisa conduziu diversos estudos sobre a ‘parentalização’, como o conceito é conhecido na psicologia, que basicamente leva à inversão de papéis. Isso pode ocorrer em famílias em que os pais são divorciados, por exemplo. Em alguns casos, os pais consideram a criança como confidente, revelando assim informações pessoais e sentimentos em relação ao cônjuge. “Não é apropriado, tão pouco, uma mãe dizer: ‘seu pai está sempre me desapontando, estou farta dele’”, disse Juli Fraga, psicóloga de São Francisco, nos Estados Unidos. 

Ao ser exposta a esse tipo de situação, a criança tende a agir como pacificadora e media os eventuais conflitos para tentar fortalecer os laços familiares. Os especialistas acreditam que este tipo de comportamento pode criar uma atmosfera de negligência porque torna as crianças responsáveis pelo emocional e psicológico dos pais, suprimindo suas necessidades normais da infância, como brincar ou fazer amizade com crianças de sua idade.

Efeitos

Os estudos de Lisa têm mostrado que os efeitos da parentalização podem ser de longa duração e perdurar, até mesmo, por gerações. Sua pesquisa coletou dados de 783 universitários para avaliar a ligação entre os papéis desempenhados na infância e as responsabilidades que adquiriram com o funcionamento psicológico adulto.

Os pesquisadores descobriram que aqueles que viveram situações de inversão de papéis tinham maiores riscos de enfrentar ansiedade, depressão, distúrbios alimentares, além de abusar de substâncias na vida adulta. “Os pais e responsáveis devem estar no topo da hierarquia no sistema familiar”, explicou Lisa. Segundo os psicólogos, um pai ou uma mãe que pede conselhos de relacionamento ou se queixa de outro membro da família, por exemplo, está invertendo o papel de adulto e criança. Ou seja, procura nos filhos o mesmo apoio emocional que buscaria em um amigo ou familiar adulto.

Crianças que assumem responsabilidades mais cedo podem ter resultados positivos, como ética, resiliência e mais autoconfiança. Por outro lado, elas também podem se tornar mais ansiosas e compulsivas. Apesar das boas intenções dos pais, é preciso aprender a traçar limites no relacionamento com os filhos, segundo os especialistas.  Deve-se tomar cuidado, principalmente, nos casos que eles desejam que os filhos sejam seus ‘melhores amigos’. Em muitos casos, isso acontece porque eles têm seu próprio histórico com problemas de apego – seja por ter tido responsáveis distantes, rígidos ou negligentes. 

Limites

Segundo Juli Fraga, a amizade pode ser recíproca entre pais e filhos, baseada em cumplicidade mútua. No entanto, os filhos não possuem a mesma compreensão e maturidade emocional que os adultos.  Ela explica que isso não significa que eles não devam ser afetuosos e amáveis entre si. “É preciso ser honesto e solidário, mas também saber manter os limites apropriados”, conclui a psicóloga.

Um caso que pode servir de exemplo é o que ocorre no seriado Gilmore Girls. A relação das personagens Lorelai e Rory Gilmore é caracterizada por uma invejável proximidade entre mãe e filha. Mas, como acontece com muitas amizades entre pais e filhos, as consequências não aparecem até depois da adolescência. A nova temporada “Um Ano Para Recordar” mostra Rory, já adulta, lutando contra crises de ansiedade e enfrentando dificuldades para confiar em suas próprias decisões sobre carreira e amor, sempre se apoiando em sua mãe. Autor de um livro sobre o tema, o escritor Gregory Jurkovic explica que crianças que assumem esse tipo de responsabilidade durante os anos de desenvolvimento podem ter problemas futuros, como conviver com desconfiança, ambivalência e envolver-se em relacionamentos abusivos.

De acordo com Lisa, é ótimo que os pais compartilhem acontecimentos diários com seus filhos. Porém, essa relação se resume a compartilhar informações de acordo com o desenvolvimento de uma criança — e não deve ser mais do que ela tem capacidade cognitiva para lidar.

Fonte: Revista Veja

Businessman With a Pacifier and Bib --- Image by © Robin Bartholick/Corbis

Por Rafael Mansur

Trabalho em uma escola particular com famílias classes A e B, idade entre 26 e 37 anos. Vejo de tudo lá, tudo mesmo… e a coisa que mais tenho visto ultimamente é criança mandando em pai e mãe e pai e mãe tentando mandar na escola.

Tudo começa quando essa geração adulta de hoje, quando criança, foi um pouco mimada. Pouco não, supermimada! Eles cresceram junto à ascensão financeira de boa parte das famílias brasileiras; eles cresceram vendo videogame se popularizar, TV a cabo se tornar real, carrinho de controle remoto aos montes. Essa geração cresceu vendo Xou da Xuxa e desejando tudo que lá aparecia. Essa geração teve a adolescência marcada com a popularização do Windows 95, popularização do celular e aparecimento dos primeiros e-commerces. A grande questão é que essa geração não só viu isso, ela desejou isso, e ganhou muito disso.

Eles foram os primeiros supermimados. Cresceram com a ideia de que tudo a eles poderia pertencer. Qualquer coisa, basta bater o pé no chão, cruzar os braços e pronto… ganhou.

Certa vez, na escola em que trabalho, criamos um álbum de figurinhas no qual os alunos e alunas eram as figurinhas. Deu o maior trabalho fotografar todo mundo, conferir e mandar para a gráfica. Faltando uma semana para lançar o álbum entrou um aluno novo. A mãe (dessas mimadas que estou falando) pediu para inserir o rapaz no álbum. Já tínhamos impresso mais de 14.000 figurinhas, 300 álbuns, empacotado tudo etc… Eu respondi: Não.

A cena a seguir foi assustadora. A mãe falou: “Mas vai ter todo mundo, menos ele? Se for assim eu não quero esse álbum!”  Para visualizar melhor, eu descrevo como estava a postura corporal da pobrezinha: braços cruzados, cara fechada, um bico enorme e batendo o pé firme no chão. (Parecia que eu me via com 9 anos quando minha mãe não me dava as coisas). Assustado ainda, recuperei o fôlego e disse: “Realmente não vou poder ajudar. Já está tudo impresso, é impossível eu refazer este álbum”. Se você que está lendo o texto achou que a cena da pirraça era rídicula, veja o que aconteceu: “Eu pago! Eu pago todos os álbuns, as figurinhas novas, pago tudo! Mas quero meu filho no álbum!”  Eu disse novamente que era impossível, a mãe pegou as coisas dela para ir embora, pegou a mochila da criança e com os olhos cheios de lágrima (é sério) me disse que faria o próprio álbum para o filho dela não sentir. Você deve está achando que a criança tinha 7 ou 8 anos. Não! Ela tinha 2. Nem sabia direito o que era figurinha. A dor toda era da mamãe mimada.

O que me preocupa de fato é saber que este não é um caso isolado. Não sei se a mãe fez o tal álbum (provavelmente fez), mas ela é uma adulta que não sabe aceitar as dores que a vida nos oferece, prefere burlar. Quer ter tudo e acha que tudo a pertence. O problema maior é que uma criança está sendo criada com esse pensamento, está crescendo com a visão de mundo mimada. Melhor (ou pior)… crianças estão sendo criadas com este pensamento.  Vivem dentro da cultura do descarte, do consumo, vivem em um mundo camuflado de presentes de compensação de faltas.

A primeira geração de crianças supermimadas cresceu e se reproduziu. As crianças fruto dessa reprodução estão sendo mimadas ao triplo. Resta-nos agora esperar o dia em que veremos um adulto rolar no chão na fila do restaurante porque não liberaram ainda sua mesa.

Fonte: Radar Escola

 


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Ser mãe ou ser pai é uma das tarefas mais desafiadoras que podemos enfrentar na vida, por uma série de motivos: confundir e não conseguir separar o filho(a) de quem somos, ter expectativas e sonhos que não são os mesmos das crianças, tentar fingir ser melhor e mais perfeito do que realmente se é, disciplinar alguém mas sem tirar a liberdade de escolha, enfim, entre outros fatores não é algo tão simples quanto amar e deixar acontecer.

No consultório, quando atendemos uma criança, conseguimos ver claramente como os seus “problemas” (se forem reais) estão relacionados com as pessoas que dela cuidam. Alguns pais pecam por excesso de cuidado, outros são displicentes, enquanto outros simplesmente não sabem o que fazer ou mimam demais ou são controladores demais.

Por isso, sempre atendemos os pais ou responsáveis – ou pelo menos acompanhamos em consultas a parte o que eles estão fazendo, pensando e sentindo. Isto não significa culpar os pais pelo comportamento dos filhos. Significa, de novo, a enorme responsabilidade que é ter alguém sob os seus cuidados.

O ponto-chave do que se é traz mais influencia do que se faz? Como no ditado, faça o que eu digo e não faça o que eu faço, temos que pensar um pouco melhor. Segundo Joseph Chilton Pearce:

“O que somos ensina a criança muito mais do que o que dizemos, de forma que temos que ser o que queremos que nossas crianças se tornem”.

(Em inglês: “What we are teaches the child far more than what we say, so we must be what we want our children to become”).

E como podemos entender essa frase? Bem, as crianças são muito espertas. Muito mais espertas que queremos admitir. Assim, elas percebem a essência (ou personalidade profunda) de alguém e conseguem distinguir rápido o que as pessoas são do que elas dizem.

E é justamente por saber – ou intuir isso – que muitos pais acabam ficando desesperados quando se dão conta de que não conseguirão fingir algo que não são no longo prazo. Dependendo do jeito que cada um lida com sua própria imperfeição, as consequências de entender esta realidade podem provocar muitas emoções diferentes. O que quero compartilhar com vocês neste texto é que não há necessidade de esconder a imperfeição. O que chamamos de vulnerabilidade, em vez de ser uma fonte de afastamento, pode ser justamente a ponte para criar uma relação digna e de confiança.

Não sei se ficou claro o que disse. É óbvio que não somos perfeitos. Como não somos perfeitos e como o que somos vai influenciar nos nossos filhos, isto pode provocar uma espécie de dissonância cognitiva. Se não somos perfeitos e queremos que nossos filhos fiquem bem, como vamos fazer se a nossa imperfeição vai criá-los?

Existem saídas adequadas e inadequadas para este problema. Esconder ou fingir ou criar torpor não vai adiantar. Fugir ou procurar recalcar também não. O melhor caminho passa pela aceitação. Aceitação da própria imperfeição e da imperfeição do filho(a).

Evidente que isto parece ir contra todo um ramo de literatura de autoajuda que objetiva criar filhos perfeitos, saudáveis, bem adaptados. No fundo, o que se busca é um ideal do herói. O filho(a) que tem sucesso, glórias, é reconhecido, quiçá famoso. Aquele que vai dar orgulho e tudo mais.

É preciso saber separar o longo preparo de educação (investir em escolas e cursos e atividades extras; além de procurar criar uma visão correta das ações – ética e moral), de uma expectativa que visa tapar uma falta daquele que cria.

Em outras palavras, o fato de aceitarmos a própria imperfeição não significa que não vamos procurar fazer o melhor que pudermos. E também não significa deixar que o filho ou filha faça qualquer coisa que quiser. Porém, a aceitação da condição humana (não somos sobre-humanos ou super-heróis) retira um peso desnecessário, tanto para os pais como para os filhos.

A ideia central é ser quem se é e tentar melhorar – na medida do possível.

A união pela vulnerabilidade. É bastante comum o conceito de que os filhos veem os pais como heróis, colocando-os em um pedestal de admiração. Embora isto possa ser positivo, em virtude da identificação, também não exclui certos problemas, dos quais o menor é a frustração quando a imagem da perfeição se quebra.

Outro problema é que cria uma dessemelhança muito grande entre o genitor e a criança, uma sensação de ser inatingível ou uma hierarquia muito rígida, com falta de autonomia. Mas o que é ainda pior é que o ideal do herói é bastante perverso no que tange às relações. Um herói, por definição, não precisa de ninguém. Em sua perfeição suposta, nada lhe falta. Ou então, tem que esconder de todos o seu ponto fraco.

O nosso argumento aqui, seguindo o trabalho de Brene Brown (The Gifts of Imperfect Parenting), é que é justamente este ponto fraco – ou estes pontos fracos – que vão permitir uma maior união.

Observe os filmes. Nos momentos em que alguém mostra toda a sua vulnerabilidade, toda a sua insegurança, os seus medos, temores e angústias é o momento no qual há maior proximidade. Por exemplo, estes dias vi “A Arte da Conquista”, com Freddie Highmore e Emma Roberts e na cena em que a mãe do George Zinavoy (Freddie Highmore) conversa com ele sobre as suas dificuldades no relacionamento e nas finanças, é o momento da virada. Não vou contar mais senão perde a graça.

Mas é simples de entender: nos momentos mais vulneráveis, quando deixamos cair a máscara da persona de perfeição é que nos abrimos para um nível de relacionamento mais profundo. Em resumo, um pai herói ou uma mãe heroína parece ótimo, porém, eles não precisam de ninguém, nem de uma relação mais próxima com seus filhos. O pior é que escondem os seus pontos fracos, o que é percebido pela criança com facilidade. De maneira que a relação, baseada na ideia de perfeição, acaba sendo estruturada em uma mentira fundamental.

Em resumo, temos dois polos:

Maternidade e paternidade que quer perfeição: “Eu sou perfeito(a). Logo, seja como eu e seja perfeito(a). Falhas não serão toleradas”.

Maternidade e paternidade imperfeita: “Eu não sou perfeito(a). Mas procuro melhorar a cada dia, nisso, nisso e naquilo que tenho dificuldade. Espero que você (filho, filha) procure fazer o seu melhor. Quando precisar, nas suas dificuldades, estarei aqui”.

Referência Bibliográfica: BROWN, Bene. The Gifts of Imperfect Parenting. Audiobook em inglês; BROWN, Bene. A coragem de ser imperfeito. Rio de Janeiro: Sextante, 2013; P/ Professor Felipe de Souza.

Fonte:  Pais, Filhos e Escola

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Abandonar um filho quando ele mais precisa dos pais significa deixá-lo sem atenção e cuidado, sem o amparo e proteção de que precisa, causando danos talvez irreparáveis em seu ser.

Alguns pais recorrem a elaborados mecanismos de justificação, e quanto mais o fazem, mais endurecem seu coração à verdade de estar cometendo uma ação inumana, pela qual rejeitam assumir com plenitude o amor ao maior dos dons.

Esta é a mais vil manifestação do egoísmo e covardia de quem é incapaz do amor verdadeiramente pessoal.

Muitos pais jamais abandonariam um filho na porta de uma casa qualquer. Mas existem muitas formas de abandono que não costumam ser evidentes e que já adquiriram aceitação em muitas consciências.

Tais formas de abandono têm uma história em comum: gerar os filhos foi a parte fácil, mas sua criação, que exige educação com amor de abnegação e sacrifício, dura muitos anos. E é nesta fase que pode acontecer o maior abandono.

Algumas formas de abandono:

– Quando A Sra. e o Sr. Sucesso Profissional não têm tempo pessoal para seu filho, dada sua importante “autorrealização”, já que “tempo é dinheiro” e não dá para pensar nos outros. Então apelam ao famoso “tempo de qualidade”, enchendo os filhos de presentes, pagando colégios de tempo integral etc.

– Quando o tempo dos filhos é dedicado à academia, às reuniões sociais, enquanto os filhos ficam à mercê da internet, televisão ou babá.

– Quando se deixa os filhos o final de semana inteiro com os avós, “porque cuidarão bem deles e os amam muito”.

– Quando se deixa o filho o dia todo com os avós de maneira constante, “porque cuidam bem dele e o amam muito”.

– Quando se envia o filho adolescente para estudar fora do país durante anos, para evitar os problemas desta fase, e dando mais prioridade à aprendizagem de um idioma novo do que ao acompanhamento nesta etapa tão crucial da vida.

– Quando o filho se torna somente o cartão de visitas dos pais, que condicionam sua aceitação a que seja um aluno brilhante.

– Quando os pais se esquecem que a verdadeira educação acontece no ser dos filhos, e a medem apenas pelos resultados no ter, saber e fazer. Quando se negam a escutar, compreender e comunicar-se com os filhos, para ajudá-los a dirigir sua vida com plena liberdade.

– Quando os pais em conflito usam os filhos como luvas de boxe em suas frequentes brigas.

– Quando os pais se divorciam e tratam o tema da guarda dos filhos como se discutissem pela casa ou pelo carro, sem considerar o grande dano que lhes causam.

– Quando os filhos se tornam uma válvula de escape da pressão que os pais sentem diante das provações da vida, sendo então violentados, humilhados.

– Quando os pais desconhecem que seu maior valor é saber amar, acolhendo o filho somente por ele ser quem é, porque é esse amor que estrutura a personalidade do filho, mediante a identificação e as experiências vividas com seus pais.

Porque, para bem ou para mal, os pais serão sempre a principal referência da identidade dos filhos.

Aleteia

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Uma pesquisa recente desenvolvida por pesquisadores de diferentes universidades norte-americanas constatou o que o bom senso já era capaz de supor. Frequentar atividades religiosas desde a infância é um dos hábitos mais eficazes para evitar o uso de drogas ou abuso de álcool na adolescência e juventude.

O estudo foi liderado pela doutora Michelle Porche e publicado num congresso acadêmico sobre superação de vícios, na Chester University, Reino Unido. Os pesquisadores concluíram que uma infância religiosa contribui para que o futuro jovem não tenha comportamentos de risco e acrescenta que “a religiosidade pode ser especialmente protetora durante o período de transição da adolescência à fase adulta”.

Não basta, contudo, simplesmente “crer”, destaca a pesquisa. A religiosidade prática, que inclui a participação frequente em celebrações, cultos ou missas, por exemplo, é o que está relacionada ao desenvolvimento de hábitos mais saudáveis e menor propensão aos vícios. “Uma maior assistência à Igreja nesses períodos da vida [infância e adolescência] pode proteger o jovem do uso precoce de álcool e contra o desenvolvimento de problemas relacionados com o alcoolismo”, diz o texto da pesquisa.

O levantamento usou como amostra 900 jovens de 18 a 29 anos. Nas conclusões, os pesquisadores propõem que as igrejas intensifiquem seu trabalho com jovens nos temas álcool e drogas, além de sugerir que os profissionais de saúde que lidam com dependentes químicos adotem elementos de prática espiritual com os pacientes que não se opuserem.

É possível fazer o download da íntegra do estudo em inglês aqui.

Fonte

tirania-infantil

Sob as asas indulgentes de pais pretensamente diligentes e amorosos, desenvolve-se uma espécie humana incapaz de conviver com a frustração; insaciável em suas necessidades de atenção; dependente de cuidados, básicos ou sofisticados; impossibilitada de enxergar outro ponto de vista que não o seu; voraz e corruptível. A superproteção familiar impede o indivíduo de criar suas próprias ferramentas de sobrevivência, interlocução, compaixão e convivência. Estamos criando uma geração de fracos tiranos ou de tiranos fracos, capazes de qualquer artifício para terem seus desejos atendidos.

Perigosa estratégia essa de trocar autoridade amorosa por permissividade vazia. Substituir a presença física e real por bens materiais contribui para a formação de indivíduos que não hesitariam em sacrificar pessoas para conseguir coisas. Será que somos tão distraídos emocionalmente a ponto de abrigarmos monstros egoístas sob nossas próprias asas e não nos darmos conta disso?

O inegável cenário de violência em que a maioria de nós vive, cria elementos mais do que concretos para que alimentemos um justificado temor pela segurança de nossas crianças. É fato que muitos de nós teve a oportunidade de fazer pequenas incursões pelos arredores de casa, experimentando a cada nova aventura, o sabor da conquista da maturidade. Há cerca de 40 anos atrás, mesmo em cidades grandes e movimentadas, era comum as crianças “maiorzinhas” (10 ou 12 anos), irem sozinhas à padaria, à banca de jornal, à casa de algum amigo mais próximo ou mesmo à escola. Ouvíamos de nossos pais alguns conselhos como “Não fale com estranhos!” ou “Não aceite ‘nada’ de estranhos, como balas ou chocolates!”. Nossos pais temiam pela nossa segurança e procuravam nos preparar para enfrentar alguns perigos previsíveis. É claro que, mesmo naquela época, ouvíamos notícias de crianças sequestradas; abusadas; até mesmo desaparecidas e mortas. Mas a verdade é que esses acontecimentos eram uma exceção. Hoje, não são mais. O perigo é real, isso é indiscutível. Há muito tempo as crianças deixaram de ter medo do “homem do saco” para ter medo do bandido armado.

Assim, nossas crianças muitas vezes são privadas de experiências de vida em detrimento de sua segurança e integridade física. Até aí, nada de errado. Cabe aos pais garantir que seus filhos recebam proteção, atenção e amor. Os problemas começam quando a dosagem desses atributos perde o valor original e extrapola os limites de uma educação descolada do mundo real, onde há o enfrentamento de situações adversas e imprevistas. É bastante frequente observarmos que os responsáveis sofrem com a dificuldade de estabelecer o que é cuidado, o que é exagero, o que é pseudo-cuidado e o que é negligência.

É importante termos em vista que a maneira como nos enxergamos na infância, baseia-se na forma como somos tratados pelos adultos responsáveis por nós. As experiências sociais da infância determinam a maneira como vamos interagir com o mundo na fase adulta. A consciência do nosso valor pessoal é construída na interação, primeiro com nossa família nuclear, independente de como ela seja formada; depois, na interação com os outros. Os adultos responsáveis pela nossa educação darão o tom às nossas percepções de respeito, ética, compaixão e liberdade.

Quando somos crianças, aceitamos como correto o modelo oferecido pelos adultos que são responsáveis por nós. Crianças tratadas com agressividade e intolerância acabam acreditando que merecem esse tratamento e o reproduzirão. Crianças negligenciadas crescem com a dolorosa sensação de que suas necessidades não são importantes. Adultos demasiado exigentes, críticos e autoritários fazem a criança sentir-se inadequada, incapaz e indigna de confiança; quando não são ouvidas, elas crescem inseguras e dependentes. O pseudo-cuidado, que caracteriza aquela presença física, porém ausente de atenção (adultos que não desgrudam do celular, por exemplo), provoca na criança uma confusa sensação a respeito de seu papel na relação e do espaço que ela ocupa; ela se percebe como desimportante e até incômoda. O cenário em si já é complicado; no entanto, há ainda a confusão estabelecida entre atenção afetiva e superproteção. Engana-se quem acredita que a superproteção garante um saudável desenvolvimento para a criança. As crianças superprotegidas acreditam que os adultos resolvem tudo por elas e atendem todas as suas vontades porque elas são incapazes. Adultos superprotetores formam crianças desconfiadas de suas próprias capacidades e habilidades, além de dependentes do cuidado e da aprovação do outro. Já adultas, elas acreditarão que o mundo será exatamente assim: sempre pronto a satisfazer seus desejos e compreender suas demandas.

A superproteção pode representar um bloqueio para o desenvolvimento cognitivo, social e afetivo das crianças. Adultos responsáveis excessivamente protetores fazem com que os pequenos sintam-se pouco estimulados a interagir com o mundo. A timidez, por exemplo, é uma consequência de posturas repressoras apresentadas na educação familiar. Outro ponto importante é o fato inegável de que as crianças superprotegidas terão dificuldades para adquirir autonomia; lidar com o medo; enfrentar situações imprevistas; tomar iniciativas ou decisões. Além da possibilidade de virem a se tornar adultos reclusos ou distantes da realidade, que julgam injusto terem de batalhar para alcançar o que desejam e não serem premiados por cumprir com suas responsabilidades e compromissos.

É de extrema importância que, no caso de termos decidido assumir a responsabilidade pela educação de uma criança, termos em mente que a nossa postura em relação à sua formação, contribuirá fortemente para o tipo de adulto que ela virá a ser. Precisamos entender que somos modelos em nossas atitudes, muito mais do que em nossos discursos. Criança precisa de escuta ativa; afeto; limites claros e justos; honestidade nas relações; aceitação de suas limitações; incentivo diante das dificuldades; valorização das habilidades; satisfação de suas necessidades de alimento, sono, descanso e brincadeira; liberdade assistida e orientada. Parece muito?! Mas, não é. No fundo, elas não precisam ser colocadas sob nossas asas. Elas precisam que sejamos inteiros o suficiente para ensiná-las a voar com suas próprias, respeitando o espaço aéreo das demais.

Autora: Ana Macarini – Psicopedagoga e Mestre em Disfunções de Leitura e Escrita. 

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Entrevista com Julie Lythcott-Haims

A ex-reitora de Stanford diz que o overparenting, a obsessão dos pais de guiar e proteger seus filhos, criou uma geração de “adultos-crianças” despreparados para o mundo

No início dos anos 2000, então reitora da Universidade de Stanford [Estados Unidos], Julie Lythcott-Haims começou a notar algo curioso no comportamento de seus alunos. Estudantes de 20 e poucos anos, que em breve estariam formados e trabalhando nas melhores empresas, compareciam à sua sala invariavelmente acompanhados do pai ou da mãe. E, quando ela lhes perguntava o que queriam de seu futuro, olhavam para os pais em busca de uma resposta.

Foi a partir dessa experiência – e da sua própria , como mãe – que ela passou a estudar o overparenting, expressão americana para o hábito de proteger excessivamente os filhos. O fenômeno surgiu quando a geração do pós-guerra, tratada com rigidez pelos pais, mas influenciada pela contracultura dos anos 60 de 70, decidiu criar suas crianças de forma diferente – menos rigor e mais amor, menos cobranças e mais compreensão.

Os exageros na aplicação da fórmula, argumenta ela, ajudaram a produzir uma geração de adultos incapazes de decidir por conta própria e com dificuldades de se adequar ao mercado de trabalho.

A senhora afirma que esta é a primeira geração de “adultos-crianças” da história. Como eles são?

Julie Lythcott-Haims: Trata-se de pessoas que não se sentem capazes de tomar as próprias decisões nem de lidar com contratempos e decepções. Ao primeiro sinal de problemas, pegam o telefone ou teclam para os pais para pedir orientação. Ora, um adulto é, por definição, alguém capaz de refletir e descobrir como lidar com determinada situação.

Mas adultos também pedem orientações e conselhos. A diferença é a frequência com que os adultos-crianças fazem isso?

Julie: A diferença é que fazem isso ao primeiro sinal de que algo não deu certo. A atitude de um adulto é refletir sobre uma questão, chegar a algum diagnóstico e aí, talvez, entrar em contato com alguém em quem confie e dizer: “Estou com dificuldade para resolver essa situação. O que você acha?”. Dessa forma o pensamento e a estratégia do indivíduo passam a ser parte de algo que ele elaborou. Essencialmente, um adulto coloca questões a si mesmo antes de colocá-las a seus pais.

Como pensam esses “adultos-crianças”?

Julie: Eles têm pouco confiança em si mesmos. “Sou incapaz de fazer isso sozinho” é o pensamento recorrente – afinal, durante toda a vida, alguém sempre fez tudo por eles. Na psicologia, isso se chama “desamparo aprendido”, algo que vem da falta de conexão entre esforço e resultado. Nesses meus treze anos como orientadora em Stanford, vi muitos alunos que padecem desse mal – a ponto de não saberem sequer pedir orientações na rua.

E isso vale também para situações profissionais?

Julie: Sim, sobretudo para situações profissionais. Numa empresa, as coisas não orbitam em torno do empregado e suas necessidades – o empregado não é o centro do mundo. O que se espera dele é que contribua para o crescimento da empresa e dos colegas – seja útil, ajude antes que lhe peçam, antecipe o que precisa ser feito. Ocorre que os pais desses “adultos-crianças” sempre determinaram o que eles tinham de fazer, e isso os impediu de desenvolver esse tipo de habilidade – pensar por si próprios e planejar o próximo passo. As consequências de uma vida excessivamente gerenciada pelos pais se refletem de maneira muito acentuada no trabalho.

Mas as próprias empresas não se adaptaram a esses “adultos-crianças”, de certa forma?

Julie: Sim, o exemplo perfeito aqui são as startups [1] do Vale do Silício, que oferecem infinitos mimos a seus empregados. Eles trabalham muito duro, mas todo o ambiente é voltado para satisfazer a suas necessidades, incluindo a de diversão. A comida é preparada por chefs ótimos, as roupas de todo são lavadas lá. Eu me pergunto: por que tantos adultos dessa geração vão para a “terra das startups” e o mundo da tecnologia? Porque o local de trabalho foi adaptado para ser uma extensão da casa da infância deles. Mas o que acontece se alguém começa sua vida profissional num lugar assim e depois vai para um lugar tradicional? Certamente ficará muito desapontado. E talvez não consiga se adaptar.

A senhora fala em três tipos de pecado dos pais: o “superdirecionamento”, a “superproteção” e a “superajuda”. Pode explicá-los?

Julie: Os pais superprotetores são aqueles que acreditam que qualquer coisa pode machucar seus filhos e, por isso, preferem que eles estejam sempre dentro do seu campo de visão. Tomam sempre o partido das crianças contra quem quer que seja – o juiz do jogo de futebol ou o professor que as criticou – e costumam dizer que todo esforço dos filhos é “perfeito”. Os que pecam pelo “superdirecionamento” são os que definem o que seus filhos devem estudar, como devem brincar, que atividades devem praticar e em que nível, que faculdades valem a pena, que curso é melhor fazer, que carreira precisam seguir. Eles não só resolvem os problemas dos filhos como moldam seus sonhos. O tenista Andre Agassi é um exemplo típico dessa criação.

Por quê?

Julie: Eu o cito apenas porque ele mesmo já disse: “Meus pais direcionaram demais minha vida”. E isso fica claro quando se lê a autobiografia do esportista. O pai de Agassi era tão convencido de que o filho deveria ser jogador de tênis que transformou isso na missão de sua vida. Mas o garoto não amava o esporte. Então, o que temos? Uma estrela do tênis, mas um tanto infeliz. Isso é comum quando as pessoas seguem trajetória profissional forçada pelos pais – ou, simplesmente, para agradar-lhes.

E como se caracterizam os pais da categoria que a senhora chama de “superajuda”?

Julie: São os que acompanham as crianças em todas as atividades, no esporte ou na escola, e agem como seu concierge [2], até quando já são quase adultos. A mãe de uma estudante do 2º ano de Stanford, por exemplo, ligava todo dia para acordá-la, e ainda tinha na própria agenda todos os deveres e provas dela, para evitar que a filha perdesse os compromissos.

Como os pais podem saber se caíram na armadilha de confundir amor demais com cuidado excessivo?

Julie: Em primeiro lugar, eles têm de aceitar o fato de que seu trabalho, como pais, é sair desse cargo algum dia. E que o objetivo é criar aquela pequena pessoa para que ela seja capaz de se cuidar. Não se trata de largar os filhos no meio da floresta para que se virem. Mas, no século XXI, cuidar de si próprio significa escrever seu currículo sozinho, fazer uma entrevista de trabalho, arrumar um emprego. E ter as habilidades necessárias para manter-se empregado, ser capaz de trabalhar duro e em equipe, ganhar um salário, pagar suas contas, ser gentil com os demais, descobrir como ir de um lugar a outro, cozinhar… E tudo isso sem ter de, a toda hora, perguntar à mamãe ou ao papai como se faz. Imaginar que algo pode fazer com que você um dia não esteja mais aqui para ajudar seu filho é um bom exercício: “E se alguma coisa acontecer comigo?”. Nenhum de nós quer imaginar isso, mas é nosso dever como pais mamíferos prepara nossa cria para esse triste dia.

E no dia a dia?

Julie: Não há dúvida de que os pais devem dar tanto amor quanto puderem aos filhos. As crianças querem ter certeza de que são amadas e valorizadas. Mas não é cruel pedir que os filhos auxiliem nos afazeres domésticos, por exemplo. Isso vai ajudá-los a se desenvolver. O objetivo deve ser dar oportunidades para que desenvolvam sua independência. Eu me lembro da primeira vez que pedi ao meu filho que fosse ao supermercado para comprar algo que eu tinha esquecido. Ele não queria ir. Falei que precisava da ajuda dele, que o percurso não era longo, que ele já tinha ido mais longe com os amigos. Ele foi e, quando voltou, estava orgulhoso de si mesmo. Foi uma conquista para ele e para mim. Pode parecer algo menor, mas para as crianças sempre há uma primeira vez. O papel dos pais é encontrar as oportunidades de oferecer a elas a chance de aprender.

E como descobrir o limite a partir do qual dar independência a um filho pode expô-lo a riscos?

Julie: É difícil, mas é preciso deixar que as crianças vivam para que virem adultas. Não podemos segurá-las em nossos braços a vida inteira, cobri-las com plástico-bolha e mandá-las para o mundo inteiramente protegidas de tudo. Temos de fortalecer seu caráter, sua determinação, seu senso de “eu me machuquei, mas estou bem”. Pode soar cruel, mas é bom que as crianças se machuquem na infância, e não falo apenas no sentido físico. Porque é o único modo de se tornarem resistentes e capazes de lidar com as questões quando crescerem. É um equilíbrio sensível. Não á um manual que descreva cada passo. Mas é preciso que os filhos se tornem resistentes, preparados também para as coisas mais difíceis que estão por vir.

No Brasil, existe a “geração canguru”, composta de adultos de 25 a 34 anos que ainda moram na casa dos pais. Isso tem a ver com essa superproteção?

Julie: Não conhecia esse termo, é maravilhoso. Em tese, não há nada de errado no fato de filhos nessa idade morarem com os pais se não tiverem dinheiro para morar sozinhos em um lugar desejável, por exemplo. O que está errado é se os filhos, nessa idade, não se comportarem como adultos – não ganharem um salário, não contribuírem financeiramente para a casa. Resumindo, se moram lá e se comportam como se tivessem 11 anos, sem levantar um dedo para ajudar, sem gatar seu dinheiro nem sequer para ajudar no supermercado.

Há também os “nem-nem”, que nem estudam nem trabalham.

Julie: Não estudar e não trabalhar é um desastre. Não somente para aquela pessoas e sua família, mas para o país em que elas vivem. São pessoas que não vão contribuir para a sociedade, não vão pagar impostos, não serão cidadãos úteis. É um conceito assustador.

Como os “adultos-crianças” vão criar os próprios filhos?

Julie: Não faço ideia, porque a geração do milênio foi a primeira a ser superprotegida em massa. Os primeiros grupos de crianças que tinham a agenda toda feita pelos pais são os dos nascidos em torno de 1980. Logo, eles agora têm 35 anos. Muitos já têm filhos, mas ainda não sabemos como seus filhos estão se virando no mundo. Realmente espero que essa geração empurre o pêndulo de volta para a outra direção, para criar adultos competentes, confiantes e corajosos.

Bob Dylan escreveu que “não há sucesso como o fracasso”. Até que ponto concorda com isso?

Julie: O que todos os tipos de pais que protegem em excesso têm em comum é o medo do fracasso. Eles têm medo de que, se seus filhos passarem por um fracasso, a vida deles seja arruinada. E eles estão errados. Para aprender, é necessário tentar, fracassar, aprender com isso. E aí tentar de novo, fracassar de novo e aprender de novo, até finalmente ser bem-sucedido. São os pequenos fracassos da infância que desenvolvem as habilidades, as competências e a confiança dos adultos. O fracasso é talvez o melhor professor da vida, e ficamos mais fortes quando somos desafiados.

N O T A S

[ 1 ] – Startup: é uma empresa com um histórico operacional limitado. Essas empresas, geralmente recém-criadas, estão em fase de desenvolvimento e pesquisa de mercados. O termo tornou-se popular internacionalmente durante a bolha da internet, quando um grande número de empresas ponto com foram fundadas..

[ 2 ] – Concierge é um termo originário do francês que significa “porteiro”. Em hotéis, o concierge é um profissional que tem um balcão na entrada do hotel (conciergerie, em francês, ou conciergeria), responsável por assistir os hóspedes em qualquer pedido que estes tenham, dos mais extravagantes ao mais simples como chamar um táxi, dar informações sobre o próprio hotel e seus serviços ou sobre a cidade e seus pontos turísticos, venda de passeios na região, locação de carros, reservas e indicações de restaurantes, ligar para farmácia, floricultura ou tabacaria. Desempenha um papel de ajuda a todos integrantes do hotel, fazendo tarefas quando solicitadas (Fonte: Wikipédia).

Fonte: Revista VEJA – Edição 2437 – Ano 48 – nº 31 – 5 de agosto de 2015 – Pgs. 15, 18-19. Edição impressa.

Título do livro em inglês:
“Como criar um adulto:
liberte-se da armadilha da overparenting e prepare
seu filho para o sucesso”

(Sem edição no Brasil por enquanto)

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Houve um tempo em que eu não tinha medo do perigo. Batia a vontade e me punha de cabeça pra baixo, fazendo parada de mão, até cansar e cair em ponte. Se acontecia de me estatelar de costas no chão, me preocupava com o vexame, jamais com a coluna. De bicicleta, rolimã ou patins, descia ladeiras sem freio – nem noção do que aconteceria se caísse no asfalto quente. Para descer de árvores altas e difíceis, achava mais fácil me jogar no chão. Os modos como pulava na piscina seriam hoje definidos como suicidas. E nenhuma das cicatrizes que tenho é dessa época.

Mais sorte do que juízo, é claro. Mas, além da valentia, também tinha qualidades que a idade costuma apagar. Como a confiança no corpo: uma esperteza de quem sabe se esticar, equilibrar-se e – principalmente – cair e levantar. A consciência do perigo nos torna descrentes do que somos capazes. E vamos enferrujando, até esquecer como se faz.

Quando minha filha ensaiou suas primeiras bananeiras, me empolguei e saí contando vantagem: se prepara, filha, que vou mostrar como se faz. No minuto seguinte, estava olhando para o chão, paralisada de medo de quebrar o pescoço.

“Vai, mãe, é só fazer!”, gritou minha filha, quando eu estava me rendendo. De repente, entendi: é só fazer, sem pensar muito. Em algum lugar, eu ainda tinha aquela coragem. E virei uma estrela, 20 anos depois. Bem, é verdade que fiquei com a coxa doendo por dias. Mas não desisti. Agora estou tentando fazer ponte sem deitar, só me curvando para trás. Sofro um pouco. Mas reaprendo a ser mais leve e destemida – e me divirto como se tivesse 8 anos de novo.