4745redesocial

O jesuíta estadunidense Padre James Martin, da revista América, e Michael Warsaw, presidente do conselho e diretor da EWTN Global Catholic Network, foram nomeados pelo Papa Francisco para ajudar a assessorar a Secretaria de Comunicação do Vaticano.

O Vaticano divulgou as novas nomeações em 12 de abril.

Francisco nomeou seis padres, seis leigos e uma leiga para serem os novos consultores ou conselheiros da equipe de comunicação, liderada pelo Monsenhor Dario Vigano, que coordena as diversas operações de comunicação e mídia do Vaticano. Eles formam um grupo consultivo separado dos membros da secretaria – um grupo de 16 cardeais, bispos e leigos nomeados pelo Papa no ano passado.

Entre os novos consultores estão:

– Padre Martin, editor-geral da revista jesuíta América. Editor prolífico, ele também é graduado em Administração e trabalhou com finanças corporativas antes de entrar na Companhia de Jesus. Ele frequentemente colabora com alguns dos principais meios de comunicação nos Estados Unidos e é membro de uma companhia de teatro Off-Broadway em Nova York.

– Warsaw entrou na EWTN em 1991 e ocupou posições de alto nível na produção televisiva, em operações de satélites e serviços técnicos. A rede, que inclui rádio, publicações impressas e o National Catholic Register, atinge mais de 140 países no mundo.

– Ann Carter, co-fundadora da Rasky Baerlein Strategic Communications de Boston, agora lidera a ACcommunication Partners, dando consultoria sobre desafios administrativos e questões de comunicação. Ela foi CEO da Rasky Baerlein quando a empresa abandonou seu papel de relações públicas externas da arquidiocese de Boston, período em que surgiu a crise de abusos sexuais na igreja. A empresa retomou seu trabalho depois que o chefe da arquidiocese, o cardeal Bernard Law, renunciou.

– Michael Unland, diretor executivo do Conselho Católico de Meios de Comunicação (CAMECO), que auxilia os meios de comunicação do mundo todo e busca contribuir com a presença da igreja na mídia, bem como destacar a importância da mídia dentro da igreja.

– Graham Ellis, vice-diretor da BBC Radio e presidente da comissão Euroradio com a União Europeia de Radiodifusão.

Dino Cataldo Dell’Accio, especialista em tecnologia da informação e da comunicação e segurança e principal auditor de TICs da sede das Nações Unidas, em Nova York.

Catholic News Service.

hqdefault

A mídia vive, em grande parte, da desgraça alheia em todos os níveis e a sua máxima expressão parece ser, com frequência, os programas que servem como indicadores da pobreza cultural de uma sociedade.

Esses programas procuram na exploração emocional e dos instintos um poder de atração que se sustenta num princípio tão simples quanto eficaz: com sensacionalismo e baixo nível intelectual, a audiência é garantida porque, habituado, o grande público tende a não pensar nem questionar, especialmente quando não conta com opções diversificadas. E o hábito é uma força poderosa que a mídia procura consolidar: com espectadores acostumados ao lixo, ela pode gerar conteúdo abundante com o mínimo esforço e custo. É daí que vem a sua rentabilidade.

Acontece que, assim como o ouvido humano se “adapta” ao barulho, mas vai perdendo com isto a capacidade auditiva, assim também a alma humana vai perdendo a sensibilidade ao contato permanente com a banalização da tragédia e da miséria humana.

Há 4 grandes fórmulas de “sucesso” que constituem armadilhas para fisgar o telespectador. Saiba reconhecê-las:

___

Primeira armadilha: Explorar a miséria humana como se fosse “notícia”

Para muitos repórteres e apresentadores, tentar crescer na carreira é desculpa suficiente para insistir em matérias que atropelam a dignidade de qualquer pessoa. Eles se digladiam para ser os primeiros a explorar o divórcio de uma celebridade, a divulgar aos quatro ventos a intimidade do famoso esportista e sua namorada, o vício de Fulano, o artista que “saiu do armário”… Tudo o que é relacionado com escândalo pode dar dinheiro.

Para maior impacto, não falta quem adicione comentários maldosos que recorrem ao dissimulo, à dubiedade, à ironia e, descaradamente, à mentira pura e simples. Com astúcia, brincam com a sensibilidade do grande público alterando a sua percepção dos fatos: tanto são capazes de vender a imagem “boa e inocente” de um sequestrador quanto de destruir a imagem de algum funcionário público que esteja perturbando interesses partidaristas.

O chamado “quarto poder” é capaz de impor os seus critérios sobre o que seria “relevante”, sem se importar se isso leva ou não à dissolução das virtudes sociais e, por consequência, da própria sociedade. Um triste exemplo é o dos países com alto índice de fracasso escolar e baixo índice de leitura, nos quais a superficialidade das relações pessoais e a obsessão pelo sexo são muito mais rentáveis do que a educação das novas gerações.

___

Segunda armadilha: Divulgar a intimidade das pessoas como se fosse de interesse público

Com escárnio, empurra-se o dedo nas feridas da humilhação, da tragédia, do fracasso e do ressentimento das pessoas, exibindo-se a sua intimidade sem nenhum limite – pois qualquer limite reduziria o “espetáculo”. São programas cujo formato, no cúmulo do cinismo, tenta se mostrar como um “favor”, uma “ajuda” e um importante “valor” para o conjunto da sociedade.

São programas crus em que a violência verbal ilustra as infidelidades, a violência física, o abandono e tantas outras chagas de famílias machucadas, cujos membros são convidados a participar como se a sua humilhação pública os ajudasse a solucionar alguma coisa. No meio deste cenário, não faltam as armações: há gente que se presta a virar objeto de espetáculo em troca de dinheiro ou da mera oportunidade de aparecer na tela e conseguir minutos de “fama”.

___

Terceira armadilha: Transformar o horror em algo comum a fim de promover o fascínio pelo mal

A violência extrema é proposta sem reflexão e com grandes doses de frivolidade em abundantes séries e filmes com péssimos argumentos, diálogos indigentes e abundância de palavrões. O mesmo acontece até em desenhos animados de “vingadores sociais” e guerras absurdas. Franco-atiradores cuja vida pessoal é um desastre, por exemplo, são mostrados como heróis a serviço da nação, assassinando à distância com aptidões inatas apoiadas em tecnologia de alta precisão. Em cenas como esta, a morte é exposta com mil detalhes de nitidez, sob o sangue que salpica tudo enquanto um ser humano voa aos pedaços em câmara lenta.

Há séries em que os bons e os maus se confundem a ponto de mal se notar diferença entre um gângster, um policial ou um detetive que está sofrendo muito por causa da desintegração da sua família. Não faltaram assassinos da vida real que se inspiraram nesse fascínio pela violência e numa visão “romântica” do crime para destruir a vida de inocentes.

___

Quarta armadilha: Inserir pornografia em todos os contextos possíveis

Roupa sumária, sexo explícito, estupros, nudez repentina, diálogos forçadamente “eróticos”… Tudo isto parece obrigatório em qualquer roteiro, seja dramático ou supostamente “cômico” – inclusive em filmes “de família”.

O “normal” e “moderno” é o sexo trivializado, apresentado como “maturidade artística” de produtores, diretores e atores que bem sabem quais são os ingredientes da “fórmula da audiência”.

Existem produtos de cinema e televisão de grande qualidade em roteiro, direção, interpretação e ambientação histórica; outros refletem adequadamente a nossa vida do ponto de vista médico, policial, judicial, mas apresentam ambiguidades morais que confundem conhecimentos e habilidades com a própria dignidade humana de personagens cuja vida pessoal e familiar está em frangalhos.

Como não podemos simplesmente fingir que esses programas não existem, podemos aproveitá-los como oportunidades para esclarecer, responder a perguntas, fazer pensar e ajudar a discernir e tirar conclusões com critérios imparciais. Não adianta simplesmente restringir: “não assistam”, “não escutem”, “não toquem”. É preciso ensinar a usar a liberdade e entender que, para reconhecer o mal, não é necessário experimentá-lo.

______________

Adaptado de original em espanhol escrito por Orfa Astorga de Lira, mestre em Matrimônio e Família pela Universidade de Navarra, Espanha.

tertio-papa-francesco-web

Publicamos em seguida a Entrevista de Francisco deu ao semanário católico belga “TERTIO”, por ocasião da conclusão do Jubileu Extraordinário da Misericórdia:

 

No nosso país estamos vivendo um período em que a política nacional quer separar a religião da vida pública, por exemplo, no currículo escolar. É a opinião de que, em tempos de secularização, a religião tem de ser reservada para a vida privada. Como podemos ser ao mesmo tempo Igreja missionária, em saída para a sociedade, e viver a tensão criada por esta  opinião pública?

PAPA – Bem, eu não quero ofender ninguém, mas esta posição é uma postura antiquada. Este é o legado que nos deixou a Ilustração – não é verdade? – onde todo o fato religioso é uma subcultura. É a diferença entre laicismo e laicidade. Falei disto com os franceses. O Vaticano II falou-nos da autonomia das coisas ou dos processos ou das instituições. Há uma laicidade saudável, por exemplo, a laicidade do Estado. Em geral, o Estado laico é bom. É melhor do que um Estado confessional, porque os Estados confessionais acabam mal.

Mas uma coisa é laicidade e outra coisa é laicismo. E o laicismo fecha as portas à transcendência: à dupla transcendência, tanto à transcendência para com os outros como, sobretudo, à transcendência para com Deus. Ou para o que está Mais Além. E a abertura à transcendência faz parte da essência humana. É parte do homem. Não estou falando de religião, estou falando de abertura à transcendência.

Então, uma cultura ou um sistema político que não respeite a abertura à transcendência da pessoa humana, poda, corta a pessoa humana. Ou seja, não respeita a pessoa humana. Isto é mais ou menos o que eu penso. Então, mandar para a sacristia qualquer ato de transcendência é uma assepsia. Ela não condiz com a natureza humana, corta-se à natureza humana boa parte da vida, que é a abertura.

O senhor preocupa-se com a relação inter-religiosa. No nosso tempo convivemos com o terrorismo, com a guerra. Às vezes comenta-se que a raiz das guerras atuais está na diferença entre religiões. O que dizer sobre isto?

PAPA  – Eu acho que, sim, o comentário existe. Mas nenhuma religião como tal pode fomentar a guerra. Porque está nesse caso proclamando um deus de destruição, um deus de ódio. Você não pode fazer a guerra em nome de Deus ou em nome de uma postura religiosa. Não se pode fazer a guerra. Em nenhuma religião. E, portanto, o terrorismo, a guerra, não estão relacionados com a religião. Usam-se deformações religiosas para justificá-la. Isso sim.

Vocês são testemunhas disso, viveram-no na vossa pátria. Mas são deformações religiosas que não constituem a essência do fato religioso. Que é ao contrário amor, unidade, respeito, diálogo, todas essas coisas, mas não nesse aspecto. Ou seja, nisto há que ser taxativos. Em outras palavras, nenhuma religião proclama a guerra pelo fato religioso. Deformações religiosas, sim. Por exemplo, todas as religiões têm grupos fundamentalistas. Todas. Nós também. E daí, elas destroem, a partir do seu fundamentalismo.

Mas esses grupelhos religiosos que deformaram, que “adoeceram” a própria religião, e daí lutam, ou fazem a guerra, ou criam a divisão na comunidade, que é uma forma de guerra. Mas esses são os grupos fundamentalistas que temos em todas as religiões. Há sempre um pequeno grupo…

Outra pergunta de guerra. Comemoramos os 100 anos da primeira Guerra Mundial. O que o senhor diria ao continente europeu do lema pós-guerra “Nunca mais a guerra”?

PAPA  – À Europa falei três vezes: duas em Estrasburgo e uma no ano passado ou neste ano, – não recordo – quando do prêmio Carlos Magno [06 de maio de 2016]. Acho que esse “Nunca mais a guerra” não foi levado a sério, porque depois da primeira veio a segunda, e depois da segunda há esta terceira que estamos vivendo agora, aos pedaços. Estamos em guerra. O mundo está fazendo a terceira guerra mundial: Ucrânia, Oriente Médio, África, Iêmen…

É muito sério. Então, “nunca mais a guerra” da boca para fora, mas ao mesmo tempo fabricamos armas e as vendemos, e as vendemos aos próprios beligerantes. Porque um mesmo fabricante de armas as vende para este e para aquele que estão em guerra um com o outro. É verdade. Há uma teoria econômica que eu nunca tentei verificar, mas eu a li em vários livros: que na história da humanidade, quando um Estado percebia que os seus balanços não fechavam, fazia uma guerra e reequilibrava os seus balanços. Quer dizer, é uma das maneiras de enriquecer mais facilmente. Claro, o preço é muito caro: sangue.

Esse “Nunca mais a guerra” acho que é algo que a Europa disse sinceramente, disse honestamente. Schumann, De Gasperi, Adenauer … disseram-no sinceramente. Mas depois… Hoje em dia há falta de líderes; a Europa precisa de líderes, líderes que sigam adiante… Bem, não vou repetir o que disse nos três discursos.

Existe alguma possibilidade de que o senhor venha à Bélgica para esta comemoração?

PAPA – Não, não está previsto, não. Não está previsto. À Bélgica eu ia a cada ano e meio, quando era provincial, porque lá havia uma associação de Amigos da Universidade Católica de Córdoba. Eu era chanceler [reitor]… Então eu ia lá falar com eles. Eles faziam os seus exercícios [espirituais]. Eu ia para agradecer-lhes. E tomei carinho pela Bélgica. Para mim a mais bela cidade da Bélgica não é a sua, mas Bruges … [ri]

[Entrevistador: Devo dizer-lhe que o meu irmão é jesuíta.

Papa: Ah, é? Não sabia!

Entrevistador: Por isso, apesar de ser jesuíta, é gente boa.

Papa: Eu ia perguntar se ele era católico… (ri e riem)]

Estamos terminando o Ano da Misericórdia. Pode dizer como viveu o ano e o que espera quando o ano tiver terminado?

PAPA  – O Ano da Misericórdia não foi uma ideia que me ocorreu a mim de repente. Vem desde o Beato Paulo VI. Paulo VI tinha feito alguns passos para redescobrir a misericórdia de Deus. Depois, São João Paulo II fundamentou muito isto com três fatos: a encíclica Dives in Misericordia, a canonização de Santa Faustina; e a Festa da Divina Misericórdia na Oitava de Páscoa; e ele morreu na véspera desta festa.

E já aí como que encaminhou a igreja nesse rumo. E eu senti que o Senhor queria isto. Foi, foi… Não sei como se formou a ideia no meu coração até que um belo dia eu disse a Monsenhor Fisichella, que tinha vindo por assuntos do seu dicastério. Eu disse-lhe: “Como eu gostaria de fazer um Jubileu, um Ano Jubilar da Misericórdia”. E ele disse-me: “E por que não?”.

E assim começou o Ano da Misericórdia. É a melhor garantia de que não foi uma ocorrência humana, mas que vem de cima. Creio que o Senhor a inspirou. E evidentemente fez-se muito bem. Por outro lado, o fato de que o Jubileu não era só em Roma, mas em todo o mundo, em todas as dioceses, e dentro de cada diocese, como que mobilizou, movimentou, e as pessoas se mobilizaram muito. Mobilizaram-se muito e sentiram-se chamadas reconciliar-se com Deus, a reencontrar o Senhor, a sentir a carícia do Pai.

O teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer fez a distinção entre a graça barata e a preciosa. O que significa para o senhor a misericórdia barata ou preciosa?

PAPA – A misericórdia é preciosa e barata. Eu não conheço como é o texto de Bonhoeffer, não sei como explica isto. Mas… É barata, porque não se tem que pagar nada: não é preciso comprar indulgências, é puro presente, puro dom; e é preciosa porque é o dom mais precioso. Há um livro, escrito com base numa entrevista que fizeram comigo, cujo título é “O nome de Deus é Misericórdia” e é preciosa porque é o nome de Deus: Deus é misericórdia.

Faz-me lembrar um padre que eu tinha em Buenos Aires, – que ainda celebra missa e trabalha, e tem 92 anos! –  e no início da missa sempre dá alguns avisos. É muito enérgico. Com 92 anos, prega muito bem, as pessoas vão ouvi-lo.

– “Por favor, desliguem os telefones”… e durante a missa, quando começava o ofertório, … [toca] um telefone. Ele parou e disse:

– “Por favor, desliguem o telefone.” E o coroinha que estava ao lado, disse:

– “Padre, é o seu”. E então ele tirou o telefone do bolso e disse:

– “Alô”. (Riem)

Parece-nos que o senhor está indicando o Vaticano nos tempos de hoje. Vai-nos indicando caminhos de renovação na Igreja. A Igreja sinodal… No sínodo, o senhor  explicou a sua visão do futuro. Poderia explicá-lo para os nossos leitores?

PAPA – A “Igreja sinodal”. Tomo esta palavra. A Igreja nasce das comunidades, nasce da base, da comunidade, nasce do batismo, e organiza-se em torno de um bispo que a convoca, lhe dá força. O bispo que é o sucessor dos apóstolos. Esta é a Igreja. Mas em todo o mundo há muitos bispos, muitas igrejas organizadas, e há Pedro.

Então, ou existe uma Igreja piramidal, onde Pedro diz e o que ele diz se faz, ou há uma Igreja sinodal, onde Pedro é Pedro, mas acompanha a Igreja e a faz crescer, a escuta; mais ainda, ele aprende com isso, e vai como que harmonizando, discernindo o que vem das igrejas, e devolve-o. A experiência mais rica disto foram os dois últimos sínodos. Ali todos os bispos do mundo foram ouvidos, com a preparação; todas as igrejas do mundo: as dioceses, trabalharam.

Todo este material veio.  Depois voltou. E voltou uma segunda vez para o segundo sínodo para completar isto. De aí saiu Amoris Laetitia. É surpreendente a riqueza da diferença de matizes. É próprio da Igreja. É a unidade na diversidade. Isso é sinodalidade. Não descer de cima para baixo, mas ouvir as igrejas, harmonizá-las, discernir. Então, há uma exortação pós-sinodal, que é Amoris Laetitia, que é o resultado de dois sínodos, onde toda a Igreja trabalhou, e que o Papa fez sua. Expressa-o de uma forma harmoniosa.

É curioso: tudo o que está lá [na Amoris Laetitia] foi aprovado no sínodo por mais de dois terços dos padres. O que é uma garantia. Uma igreja sinodal significa que este movimento se dá de cima para baixo, de baixo para cima. Mesmo nas dioceses. Mas há uma fórmula latina que diz que as igrejas estão sempre cum Petro e sub Petro (com Pedro e sob Pedro). Pedro é o garante da unidade da Igreja, o garante. Então… esse é o ponto. E temos de fazer progressos na sinodalidade. Que é uma das coisas que os ortodoxos conservaram. E as igrejas católicas orientais também. É uma riqueza deles. Eu reconheço isso na encíclica.

A mim parecia-me que a passagem que fez o segundo sínodo [foi] do método de “ver, julgar e agir” para “ouvir, compreender e acompanhar”. É muito diferente. São as coisas que eu digo às pessoas constantemente. A passagem que dá o Sínodo é de “ver, julgar e agir”, para ouvir a realidade do povo, compreendê-la bem e, depois acompanhar as pessoas em seu caminho.

PAPA – Porque cada um disse o que pensava, sem medo de sentir-se julgado. E todos estavam em atitude de escutar, sem condenar. Depois discutia-se como irmãos nos grupos. Mas uma coisa é como irmãos e outra é condenar a priori. Lá houve uma liberdade de expressão muito grande. E isso é bonito.

Em Cracóvia o senhor ofereceu aos jovens estímulos preciosos. Qual seria uma mensagem particular para os jovens do nosso país?

PAPA –

  • Que não tenham medo,
  • que não tenham vergonha da fé,
  • que não tenham vergonha de buscar caminhos novos.

Há jovens que não são crentes: Não te preocupes, busca o sentido da vida. A um jovem eu daria dois conselhos: “buscar horizontes” e “não se aposentar aos 20 anos”. É muito triste ver um jovem aposentado aos 20-25 anos. Busca horizontes, segue em frente e continua trabalhando nesta tarefa humana.

 Uma última pergunta, Santo Padre, uma opinião sobre os meios de comunicação.

PAPA  – Os meios de comunicação têm uma responsabilidade muito grande. Hoje em dia, está em suas mãos a possibilidade e a capacidade de formar opinião. Podem formar uma boa ou má opinião. Os meios de comunicação são construtores de uma sociedade. Por si mesmos, eles são para construir. Para intercambiar. Para confraternizar, para fazer pensar, para educar.

Em si mesmos, eles são positivos. Claro que, como todos somos pecadores, a mídia também pode cair – nós que fazemos mídia, eu estou aqui usando um meio de comunicação – pode fazer mal. E os meios de comunicação têm suas tentações. Podem ser tentados à calúnia (então, usados para caluniar e enxovalhar as pessoas), especialmente no mundo da política; podem ser usado para difamação (todos têm direito à boa fama, mas talvez em sua vida anterior, ou em sua vida passada, ou dez anos atrás, teve um problema com a justiça, ou um problema na sua vida familiar … então, trazer isso à luz agora é grave, causa dano, anula-se uma pessoa).

Na calúnia diz-se uma mentira sobre uma pessoa. Na difamação solta-se uma ‘carpeta’ [notícia comprometedora],   – como dizemos na Argentina, faz-se um ‘carpetazo’ – e te assacam algo que é verdade mas que já passou. E que talvez já foi pago com a prisão ou com multa, ou qualquer outra coisa. Não se tem direito de fazer isso. Isso é pecado e faz mal. E uma coisa que pode fazer muito dano nos meios de comunicação é desinformação. Ou seja, diante de qualquer situação dizer uma parte da verdade e não a outra. Não! Isso é desinformar.

Porque você dá ao telespectador a metade da verdade. E ele, portanto, não pode fazer um julgamento sério sobre a verdade completa. A desinformação é provavelmente o maior dano que pode fazer um meio de comunicação. Porque orienta a opinião numa direção, escondendo a outra parte da verdade. E depois, eu acho que a mídia tem que ser muito limpa, muito limpa e muito transparente. E não cair – sem ofender, por favor – na doença da coprofilia: que é procurar comunicar sempre o escândalo, as coisas feias, mesmo que sejam verdadeiras. E como as pessoas têm a tendência a coprofagia, pode-se causar muito mal. Então, eu diria que há essas quatro tentações. Mas eles são construtores de opinião e podem edificar e fazer um bem enorme, imenso.

Terminando, só uma palavra para os sacerdotes. Não um discurso, porque estão dizendo que tenho de terminar… O que é o mais importante para um sacerdote?

PAPA  – É uma resposta um pouco salesiana. Sai do meu coração: “Lembra-te que tens uma mãe que te quer. Não deixes de amar a tua mãe, a Virgem”.

Em segundo lugar, deixa Jesus olhar para ti.

Terceiro: busca a carne sofredora de Jesus nos irmãos. Neles vais te encontrar com Jesus. É como uma base. Daí sai tudo. Se és um padre órfão, que esqueceste que tens mãe; se és um padre que se afastou de quem te chamou, que é Jesus,  nunca vais poder levar o Evangelho.

Qual é o caminho? A ternura. Tenham ternura. Não tenham vergonha, os padres, de ter ternura. Acariciem o sangue sofredor de Jesus. Hoje faz falta uma revolução da ternura neste mundo que padece da doença da cardio-esclerose.

 A cardio …?

PAPA  – A cardio-esclerose.

[Texto original em espanhol]

http://press.vatican.va/content/salastampa/it/bollettino/pubblico/2016/12/07/0882/01951.html

Pope_Francis_aboard_the_papal_flight_from_Mexico_to_Rome_on_Feb_17_2016_Credit_Alan_Holdren_CNA_2_18_16

A mídia mundial deu grande destaque, ontem, a alguns “pedaços de declarações” do papa Francisco e, além de truncá-los, deu-lhes como de costume a sua interpretação ideologicamente direcionada: a de que a Igreja estaria “liberando o uso de contraceptivos”.

O papa não disse nada disso.

Vamos aos fatos. Uma jornalista da rede espanhola Cope fez esta pergunta ao papa Francisco:

Santo Padre, já faz algumas semanas que há muita preocupação em muitos países latino-americanos, mas também na Europa, com o vírus zika. O risco maior seria para as gestantes: há angústia. Algumas autoridades propuseram o aborto, ou evitar a gravidez. Neste caso, a Igreja pode levar em consideração o conceito de “mal menor”?

O papa Francisco respondeu com clareza: NÃO.

Ele afirmou:

O aborto não é um “mal menor”. É um crime. É descartar um para salvar o outro. É aquilo que a máfia faz! É um crime. É um mal absoluto. Quanto ao “mal menor”, evitar a gravidez é. Vamos falar em termos de conflito entre o quinto e o sexto mandamentos. Paulo VI, o grande, em uma situação difícil, na África, permitiu que as religiosas usassem anticoncepcionais por causa dos atos de violência. Não confundir o mal de evitar a gravidez, que é uma coisa, com o aborto. O aborto não é um problema teológico: é um problema humano. É um problema médico. É matar uma pessoa para salvar outra – e isso no “melhor” dos casos. Ou é por comodismo, não é? Vai contra o Juramento de Hipócrates, que os médicos devem fazer. É um mal em si mesmo. E não é um “mal religioso”: é um mal humano. Além disso, evidentemente, já que é um mal humano, como todos os assassinatos ele é condenado. Agora, evitar a gravidez não é um mal absoluto: e em certos casos, como neste, como naquele que eu mencionei do beato Paulo VI, era claro. Eu exortaria os médicos a fazerem tudo para encontrar as vacinas contra esses mosquitos que causam este mal: nisto sim se tem que trabalhar. Obrigado.

Então, para que não haja dúvidas, a Igreja continua afirmando que:

  1. Evitar a gravidez artificialmente é um mal moral. Por quê? Para entender este conceito (que é certamente difícil para uma cultura que foi induzida a se obcecar pelo prazer fugaz e inconsequente), é necessário ter uma visão de conjunto sobre a sexualidade humana – à qual, naturalmente, a gravidez é vinculada. Vamos lá: o ato sexual humano atinge a plenitude do seu significado como expressão física do amor de doação entre um homem e uma mulher que se amam verdadeiramente, que se entregam reciprocamente de alma e corpo, dentro de uma relação consciente, livre e madura, selada pelo compromisso pessoal do matrimônio indissolúvel, sacramentado por Deus. Fora do contexto conjugal, o ato sexual é incompleto e moralmente deficiente, pois vai contra a sua própria plenitude e perfeição. Dentro da sexualidade plena, que é indissociável do amor conjugal, a abertura à vida é um requisito naturalmente óbvio. Privar o ato sexual da sua dimensão geradora de vida dentro do amor conjugal é reduzi-lo moralmente, tornando-o deficiente. É por isso que todo ato artificial de evitar a gravidez é um “mal moral”: porque limita a plenitude da sexualidade como dimensão inseparável do amor conjugal irrestrito e aberto ao dom da vida.
  2. Já evitar a gravidez com métodos naturais – ou seja, não artificiais – é moralmente lícito.Entendida a visão harmônica e unitária da sexualidade em sua plenitude, pode-se também entender que é justo (e até moralmente obrigatório) que os cônjuges tomem todas as precauções lícitas e boas para garantir o máximo bem do filho – e isto implica, em casos específicos como o do atual surto do zika vírus, adiar os planos de gravidez. Logo, agir responsavelmente para evitar a gravidez é moralmente bom e recomendado, desde que os meios escolhidos sejam respeitosos da natureza do ato sexual: é o caso, por exemplo, do método Billings ou, evidentemente, da abstenção. Recorrer a meios artificiais, como visto acima, entra em conflito moral com a plenitude da sexualidade: é por isso que, moralmente, os meios artificiais para impedir a gravidez não são aceitáveis.
  3. Excepcionalmente, o recurso a métodos artificiais, desde que claramente não abortivos, pode ser tolerado como “mal menor”. Mas somente em casos muito pontuais, como diante de um risco grave e real como o do zika vírus, que, até o momento, é apontado como causa provável de microcefalia. É neste contexto de excepcionalidadeque se encaixam as palavras do papa Francisco – portanto, não se trata, em absoluto, de uma “liberação” da pílula, do preservativo ou de quaisquer outros métodos artificiais de impedimento da gestação, como parte da mídia deu a entender, levianamente.
  4. Evitar uma futura gravidez, em qualquer caso, é completamente diferente de “eliminar” uma gravidez já existente – porque “gravidez já existente” significa “bebê já existente”. O aborto voluntário é e continuará sendo sempre o assassinato de um ser humano em suas primeiras fases de desenvolvimento, o extermínio de uma pessoa humana indefesa, e isto jamais poderá ser entendido como “um mal menor” seja qual for o contexto. O aborto voluntário é sempre um “mal absoluto”. Quando a gravidez já é um fato, por mais que não tenha sido planejada e por mais que a gestante não deseje o filho, ela dispõe de uma gama suficiente de alternativas moralmente lícitas, que passam bem longe da opção de assassinar o bebê. Um esclarecimento adicional: é muito diferente a situação em que a gestante precisa passar por delicados e inevitáveis procedimentos médicos em que, como consequência não procurada nem provocada, o bebê em gestação acaba falecendo.

O polêmico caso das freiras

No caso das freiras a quem Paulo VI autorizou tomar contraceptivos, o contexto é extremo: na iminência de serem estupradas, elas receberam permissão pontifícia para tomar pílulas anticoncepcionais como meio de exceção. O risco era não apenas possível, mas real e iminente, e de consequências gravíssimas. Como o estupro foge à sexualidade unitiva e procriativa, é evidente que ninguém tem a obrigação de achar-se no risco iminente de sofrê-lo e não poder tomar precauções excepcionais, que – neste caso sim – são um “mal menor”. E a palavra “excepcional” aqui é chave: o recurso aos anticoncepcionais como medida de precaução não pode se tornar uma regra – por isso mesmo é que foi necessária a aprovação direta do próprio papa naquele contexto extremo. Importante: Paulo VI também deixou bem claro que, se alguma daquelas freiras fosse violentada e engravidasse, deveria deixar a vida religiosa, ter o filho e assumir a maternidade. Aborto? Absolutamente não: entre as muitas alternativas moralmente aceitáveis, jamais está o assassinato do bebê inocente.

Quanto ao resto, é manipulação ideológica das palavras do papa Francisco.

Aleteia

papa-1330305

Santo Padre, no México existem milhares de desaparecidos. No entanto, o caso dos 43 de Ayotzinapa é um caso emblemático. Gostaria de lhe perguntar: por que não se reuniu com eles?

Nas minhas mensagens fiz referências contínuas aos assassinatos, às mortes, à vida cobrada por todas estas gangues do narcotráfico, dos traficantes de seres humanos. Ou seja, falei sobre este problema, das chagas que o México está sofrendo. Eram tantos grupos, mesmo contrários entre si, com lutas internas.

Portanto, eu preferi dizer que na Missa se veem todos, na Missa de Juárez, ou se preferirem em qualquer outra, mas que havia esta disponibilidade. Era praticamente impossível receber todos os grupos, que, por outro lado, eram contrários entre si. É uma situação difícil de entender, para mim, que sou estrangeiro, verdade?

Mas creio que é uma sociedade mexicana que é vítima de tudo isso: dos crimes, deste fazer desaparecer as pessoas, de descartar as pessoas. Sobre isso eu falei. Sendo um discurso público, podes constatar ali. É uma dor muito grande, porque este povo não merece um drama como este.

O tema da pedofilia, como bem o sabe o México, tem raízes muito dolorosas. O caso do Pe. Maciel deixou fortes sinais, sobretudo nas vítimas. As vítimas continuam a sentir-se desprotegidas pela Igreja. Muitos deles continuam a ser homens de fé, e alguns até mesmo seguiram o sacerdócio. Pergunto-lhe: o que pensa deste tema? Em algum momento pensou em encontrar as vítimas e, em geral, esta ideia de que os padres, quando são descobertos por um caso desta natureza, sejam somente transferidos para outra paróquia e nada mais?

Bem, começo pela segunda. Um bispo que transfere um padre de paróquia quando se reconhece um caso de pedofilia, é um inconsciente, e o melhor que pode fazer é apresentar sua renúncia. Claro?

Segundo, voltando ao caso Maciel. E aqui, me permito prestar uma homenagem ao homem que lutou em momentos em que não tinha a força para se impor, até que não conseguiu se impor… Ratzinger… o cardeal Ratzinger, sim, um aplauso para ele! É um homem que teve toda a documentação. Quando era Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, teve tudo em suas mãos, fez investigações, chegou, chegou, chegou… mas não pôde ir além na execução.

Porém, se vocês recordarem, dez dias antes de morrer, São João Paulo II – naquela Via-Sacra da Sexta-Feira Santa – disse a toda a Igreja que era preciso limpar as “porcarias” da Igreja. E na Missa ‘Pro Eligendo Pontefice’ – ele não é um bobo, sabia que era um candidato – não usou máscaras e disse exatamente a mesma coisa. Ou seja, foi o corajoso que ajudou tantos a abrir esta porta. Assim quero que vocês recordem dele porque, às vezes, nos esquecemos deste trabalho escondido, daqueles que prepararam a estrada para destampar a panela.

Terceiro, estamos trabalhando bastante com o cardeal secretário de Estado, estamos conversando, e também com o grupo dos nove cardeais conselheiros. Após escutar decidi nomear um terceiro secretário adjunto na Doutrina da Fé, para que se encarregue somente destes casos, porque a Congregação, de fato, não consegue dar conta de tudo aquilo que tem que se feito.

Além disso, foi constituída a Corte de Apelação, presidida por dom Scicluna, que está se ocupando dos casos em segunda instância, quando há recursos. Porque os primeiros recursos são feitos pela plenária, pela “feria quarta”, como a chamam, da Doutrina da Fé, que se reúne nas quartas-feiras. Quando há recursos, volta-se à primeira instância e isto não é justo. Então, segundo recurso, perfeitamente legal, já com o advogado de defesa. Mas é preciso apurar porque temos tantos atrasos nos casos, porque aparecem casos.

Quarto, sobre outra coisa sobre a qual se está trabalhando muito bem é a comissão para a proteção dos menores. Não é rigorosamente fechada aos casos de pedofilia, mas à proteção dos menores. Ali, me reuni uma manhã inteira com seis integrantes – dois alemães, dois irlandeses e dois ingleses. Homens e mulheres, abusados, vítimas.

E também e me reuni conta tantas vítimas na Filadélfia. Também lá, uma manhã, tive um encontro com as vítimas e sei que se está trabalhando. Mas dou graças a Deus que esta panela tenha sido destampada, e é preciso continuar a destampá-la. E tomar consciência. E, por fim, quero dizer que é uma monstruosidade, porque um padre é consagrado para levar uma criança a Deus e lá se aproveita dela como em um sacrifício diabólico, destruindo-a.

Bem, no que diz respeito a Maciel… Voltando à Congregação, fiz uma intervenção, e hoje o governo da Congregação encontra-se em uma “semi-intervenção”. Ou seja, o superior geral é eleito pelo Conselho, pelo Capítulo Geral, mas o vigário é eleito pelo Papa. Dois conselheiros gerais são eleitos pelo Capítulo Geral e outros dois são eleitos pelo Papa, de modo que vamos ajudando a rever contas antigas.

Você falou hoje com muita eloquência dos problemas dos migrantes. Do outro lado da fronteira existe uma campanha eleitoral muito acirrada. Um dos candidatos à Casa Branca, o republicano Donald Trump, em uma entrevista recentemente disse que o senhor é um homem político e inclusive disse que talvez o senhor seja também uma peça de xadrez, um instrumento do governo mexicano para a política migratória. Ele declarou que, se eleito, quer construir 2,5 mil quilômetros de cercas ao longo da fronteira, quer deportar 11 milhões de imigrantes ilegais, separando assim famílias, etc. Então, queria perguntar, antes de tudo, o que pensa sobre estas acusações contra o senhor e se um católico estadunidense pode votar em uma pessoa assim?

Graças a Deus que disse que sou um político, porque Aristóteles define a pessoa humana como um animal politicus. Ao menos sou uma pessoa humana. E que sou uma peça de xadrez, mas, talvez, não sei… Deixo isso ao juízo de vocês, das pessoas.

E, depois, uma pessoa que pensa somente em levantar muros, seja onde for, e não a construir pontes, não é cristã. Isso não está no Evangelho.

Depois, aquilo que me dizia, sobre o que aconselharia, votar ou não votar: não me envolvo. Somente digo: este homem não é cristão, se diz isto. É preciso ver se ele disse assim as coisas, e dou o benefício da dúvida.

O encontro com Kirill e a assinatura da declaração comum foi visto no mundo inteiro como um passo histórico. Mas agora, hoje já, na Ucrânia os greco-católicos sentem-se traídos e falam de um “documento político”, de apoio à política russa. Você pensa em ir a Moscou? Ou talvez ir a Creta para saudar o Concílio pan-ortodoxo?

Estarei presente, espiritualmente, em Creta com uma mensagem. Gostaria de ir, mas é preciso respeitar o Sínodo. Haverá observadores católicos e por trás do seu trabalho estarei eu, rezando com os melhores desejos para que os ortodoxos sigam adiante. Seus bispos são bispos como nós.

Com Kirill, meu irmão, nos abraços e beijamos, e depois tivemos um colóquio de duas horas, no qual falamos como irmãos, sinceramente: ninguém sabe do que falamos.

Sobre a declaração dos ucranianos: quando a li, fiquei um pouco preocupado, porque foi feita pelo Arcebispo Maior de Kyiv-Halyc dos ucranianos, Sviatoslav Shevchuk. Foi ele quem disse que o povo ucraniano se sente profundamente desiludido e traído.

Conheço muito bem Sviatoslav: trabalhamos quatro anos juntos em Buenos Aires. Quando ele foi eleito arcebispo maior – aos 42 anos, voltou a Buenos Aires, veio para se despedir e me deu de presente um ícone da Nossa Senhora da Ternura e me disse: “Esta me acompanhou por toda a vida: quero deixá-la contigo, porque você me acompanhou nestes quatro anos”. É uma das poucas coisas que fiz trazer de Buenos Aires e que está na minha escrivaninha.

É um homem pelo qual tenho respeito e familiaridade, nos tratamos de “você”, e assim… Pareceu-me um pouco estranha a sua declaração. Mas, para compreender uma notícia, uma declaração, é preciso procurar a hermenêutica de conjunto. E essa declaração de Shevchuk está no último parágrafo de uma longa entrevista. Ele se declara filho da Igreja, em comunhão com o Bispo de Roma, com a Igreja; fala do Papa, da proximidade do Papa, e dele, da sua fé. Sobre a parte dogmática, nenhuma dificuldade: é ortodoxa no bom sentido da palavra, isto é, doutrina católica. E depois cada qual tem o direito de expressar suas opiniões, são suas ideias pessoais.

Tudo o que disse foi sobre o documento, não sobre o encontro com Kirill. O documento é discutível, e também devemos acrescentar que a Ucrânia está em um momento de guerra, de sofrimento: muitas vezes manifestei a minha proximidade ao povo ucraniano. Compreende-se que um povo nessa situação sinta isto, o documento é discutível sobre esta questão da Ucrânia, mas nessa parte da declaração pede-se para parar esta guerra, que se chegue a acordos. Eu, pessoalmente, defendi que os Acordos de Minsk prossigam, e não se apague com o cotovelo aquilo que foi escrito com as mãos. Recebi ambos os presidentes – paridade, não? E por isso, quando ele diz que ouviu isso do seu povo, eu o entendo. Não devemos nos assustar com aquela frase. Uma notícia deve ser interpretada com a hermenêutica do conjunto, não da parte.

O Patriarca Kirill o convidou para ir a Moscou?

Que se Kirill me convidou? Prefiro deter-me apenas no que dissemos em público. O colóquio privado é privado, mas posso dizer que saí feliz. E ele também.

A minha pergunta é sobre a família, tema que o senhor abordou muitas vezes nesta viagem. No Parlamento italiano está em discussão a lei sobre as uniões civis, um tema que tem levado a fortes enfrentamentos políticos, mas também a um forte debate na sociedade e entre os católicos. Neste particular, gostaria de saber o seu pensamento sobre o tema da adoção da parte das uniões civis, e, portanto, sobre os direitos das crianças e dos filhos em geral.

Em primeiro lugar, não sei como estão as coisas no Parlamento italiano… O Papa não se imiscui na política italiana. Na primeira reunião que tive com os bispos, em maio de 2013, uma das três coisas que lhes disse: “Com o governo italiano, se virem vocês”. Porque o Papa é para todos, e não pode se meter na política concreta, interna de um país: este é o papel do Papa. E aquilo que penso é aquilo que pensa a Igreja e disse em tantas… porque este não é o primeiro país que faz esta experiência; são muitos. Eu penso aquilo que a Igreja sempre disse sobre este assunto.

Santo Padre, há algumas semanas há muita preocupação em muitos países latino-americanos, mas também na Europa, sobre o zika vírus. O risco maior seria para as mulheres grávidas: há angústia. Algumas autoridades propuseram o aborto, ou de se evitar a gravidez. Neste caso, a Igreja pode levar em consideração o conceito do mal menor?

O aborto não é um mal menor: é um crime. É descartar um para salvar o outro. É aquilo que a máfia faz. É um crime. É um mal absoluto. Sobre o mal menor… o de evitar a gravidez… Falamos em termos de conflito entre o quinto e o sexto mandamento. Paulo VI, o Grande, em uma situação difícil, na África, permitiu às religiosas usar anticoncepcionais para os casos de violência. Não confundir o mal de evitar a gravidez, sozinho, com o aborto.

O aborto não é um problema teológico: é um problema humano, é um problema médico. Mata-se uma pessoa para salvar uma outra – no melhor dos casos. Vai contra o Juramento de Hipócrates que os médicos devem fazer. É um mal em si mesmo, mas não é um mal religioso a princípio: não, é um mal humano. Além disso, evidentemente, já que é um mal humano – como todos assassinatos – é condenado.

Ao contrário, evitar a gravidez não é um mal absoluto: e, em certos casos, como neste, como naquele que mencionei do Beato Paulo VI, era claro. Também eu exortaria os médicos para que façam tudo para encontrar as vacinas contra estes dois mosquitos que trazem este mal: sobre isto se deve trabalhar.

Dentro de algumas semanas, o senhor vai receber o Prêmio Carlos Magno, um dos prêmios mais prestigiosos da Comunidade Europeia. Parece que a União Europeia está perdendo pedaços com a crise do euro e agora com a crise dos refugiados: o senhor tem talvez uma palavra para nós, nesta situação de crise europeia?

Primeiro, sobre o Prêmio Carlos Magno. Eu tinha o hábito de não aceitar honorificências ou doutorados, desde sempre: não por humildade, mas porque não gosto destas coisas. Um pouco de loucura é bom ter, e não gosto. Mas neste caso, não digo “forçado”, mas “convencido” com a santa e teológica teimosia do cardeal Kasper, que foi escolhido por Aachen (Alemanha) para me convencer. E eu disse: “Sim, mas no Vaticano”. E disse isso; e ofereço o prêmio para a Europa: que seja um prêmio para que a Europa possa fazer aquilo que eu desejei em Estrasburgo: que não seja a avó-Europa, mas a mãe-Europa.

Segundo: outro dia, lendo as notícias sobre esta crise – eu leio pouco, folheio somente um jornal – não digo o nome para não provocar ciumeiras, mas sabe-se… leio quinze minutos e depois peço informações à Secretaria de Estado. Uma palavra que me agradou, e me agradou – não sei quem a aprova, quem não: “a refundação da União Europeia”. E pensei nos grandes pais, mas e hoje? Onde encontramos um Schumann, um Adenauer? E todos estes grandes que no pós-guerra fundaram a União Europeia…

E eu gosto desta ideia da refundação: oxalá se possa fazê-la! Porque a Europa, não diria que é única, mas tem uma força, uma cultura, uma história que não pode ser desperdiçada. E devemos fazer de tudo para que a União Europeia tenha a força e também a inspiração de seguir em frente.

Como é possível que a Igreja ainda hoje perdoe mais facilmente um assassino do que quem se divorcia e casa novamente?

Ah, gosto desta pergunta! Sobre a família, falaram dois Sínodos. E o Papa falou todo o ano durante as eucaristias. Gosto desta pergunta, porque você a fez plasticamente bem. No documento pós-sinodal, que sairá talvez antes da Páscoa – retoma-se tudo aquilo que o Sínodo – em um dos capítulos, porque existem muitos – fala sobre os conflitos ou sobre famílias feridas, e a pastoral das famílias feridas. É uma das preocupações.

Assim como outra é a preparação ao matrimônio. Imagine: para se tornar padre, são oito anos de estudo, de preparação, e depois, depois de um certo tempo, não consegue mais, pede a dispensa e vai embora e está tudo certo. Pelo contrário, para receber um sacramento que é para toda a vida, três quatro palestras são suficientes…

A preparação para o matrimônio é muito importante: é muito, muito importante, porque acredito que seja uma coisa que a Igreja, na pastoral comum – ao menos no meu país, na América do Sul – não valorizou muito. Por exemplo – agora não tanto, mas há alguns anos – na minha Pátria, havia o costume de… se chamava “casamento em apuros”: casar rapidamente, porque vem um filho. E para cobrir socialmente a honra da família. Ali, não eram livres, e tantas vezes estes matrimônios são nulos. É melhor que nasça a criança, que continuem namorados, e quando sentem que é para toda a vida, que sigam em frente. Há um erro.

Outro capítulo muito interessante: a educação dos filhos. As vítimas dos problemas da família são os filhos, os filhos. Por exemplo, quando o pai não tem tempo para falar com seus filhos, quando a mãe não tem tempo livre para falar com seus filhos, isso não está bem. Quando eu confesso um casal que tem filhos, pergunto: “Quantos filhos vocês têm?”. E alguns se assustam, pois acreditam que o padre lhes pergunta sempre se têm mais. E então eu faço uma segunda pergunta: você brinca com seus filhos? E a maioria – quase todos! – diz: “Mas, Padre, não tenho tempo: trabalho o dia todo”. E os filhos são vítimas de um problema social que fere a família. Gosto da sua pergunta. E uma terceira coisa interessante, no encontro com as famílias em Tuxla Gutiérrez. Havia nesse ato um casal em segunda união. E a palavra-chave que o Sínodo usou – e a retomei na Exortação – é integrar na vida da Igreja as famílias feridas. Mas sem esquecer as crianças, que são as primeira vítimas.

Integrar na Igreja não significa dar a comunhão. Eu conheço católicos recasados que vão à igreja uma vez, duas vezes ao ano, e querem fazer a comunhão como se fosse um título adquirido. Um trabalho de integração… Todas as portas estão abertas. Mas não se pode dizer que estas pessoas podem comungar. Isto seria uma ferida também para os casais, porque não faria com que eles sigam por este caminho de integração. E estes dois (de Tuxtla) eram felizes! E usaram uma expressão muito bonita: “Nós não fazemos a comunhão eucarística, mas fazemos comunhão na visita ao hospital, nisto e naquilo”. Sua integração é essa. Se há alguma coisa a mais, o Senhor dirá a eles. É um caminho, é uma estrada.

A mídia publicou a intensa correspondência entre João Paulo II e a filósofa estadunidense Anna Teresa Tymieniecka. Na sua opinião, um Papa pode ter uma relação tão íntima com uma mulher? O senhor conhece – ou conheceu – este tipo de experiência?

Esta relação de amizade entre São João Paulo II e esta filósofa eu a conhecia quando estava em Buenos Aires. João Paulo II era um homem inquieto. Depois, eu diria que um homem que não sabe ter uma boa relação de amizade com uma mulher – não falo dos misóginos, eles são doentes – falta a ele alguma coisa. E eu, por experiência própria, também quando peço um conselho, peço a um colaborador, a um amigo, um homem, mas também gosto de ouvir o parecer de uma mulher: e te dão tanta riqueza! Olham as coisas de outro modo.

Gosto de dizer que a mulher é aquela que constrói a vida no ventre e tem – mas esta é uma comparação que eu faço, não? – e tem este carisma de te dar coisas para construir. Uma amizade com uma mulher não é pecado. Uma relação amorosa com uma mulher que não seja tua mulher, é pecado. Entendido?

O Papa é um homem, o Papa tem necessidade também do pensamento das mulheres. E também o Papa tem um coração que pode ter uma amizade sadia, santa com uma mulher. Existem santos amigos – Francisco, Clara, Teresa,João da Cruz. Não se assustem. mas as mulheres ainda são um pouco….não bem consideradas, não totalmente. Não entendemos o bem que uma mulher pode fazer à vida do padre e da Igreja, no sentido de um conselho, da ajuda, de uma amizade saudável.

Eu volto para o tema da lei que está para ser votada no Parlamento italiano: é uma lei que, no final das contas, diz respeito também a outros Estados, porque outros Estados têm leis que tratam da união entre pessoas do mesmo sexo. Existe um documento da Congregação para a Fé, de 2003, que dedica um amplo espaço a isto e também dedica um capítulo ao comportamento que os parlamentares católicos devem ter diante desta lei, e se diz expressamente que os parlamentares católicos não devem votar esta lei. Considerando que existe muita confusão sobre isto, gostaria de pedir ao senhor, antes de tudo, se este documento de 2003 ainda tem valor. E, efetivamente, qual o comportamento que um parlamentar católico deve ter?

Eu não recordo bem este documento de 2003 da Congregação para a Doutrina da Fé. Mas um parlamentar católico deve votar segundo a própria consciência bem formada. Diria isto, só isto. Creio que é suficiente, e digo bem formada porque não é a consciência aquilo que me parece.

Eu me recordo quando foi votado o casamento entre pessoas do mesmo sexo em Buenos Aires, que houve ali um empate, e no final alguém disse, aconselhou o outro: “Mas, tens isto claro?” – “Não” – “Nem eu, mas assim perdemos” – “Então vamos embora” – “Se sairmos, não terão quórum”. E o outro disse: “Mas se chegarmos ao quórum, damos o voto a Kirchner!”, e o outro: “Mas, prefiro dá-lo a Kirchner e não a Bergoglio!” Esta não é uma consciência bem formada.

E em relação às pessoas do mesmo sexo, repito aquilo que disse na viagem do Rio de Janeiro e que está no Catecismo da Igreja Católica.

Depois de Moscou, Cairo: existe algum outro degelo que se vislumbra no horizonte? Refiro-me à audiência que o senhor deseja com o Papa dos sunitas, chamemo-lo assim, com o imã da al-Azhar?

Sobre isto foi dom Ayuso ao Cairo, na semana passada, para encontrar o segundo dos imãs e também saudar o imã.Dom Ayuso é secretário do cardeal Tauran, do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso. Eu quero encontrá-lo, sei que ele gostaria, e estamos buscando a melhor maneira: sempre através do cardeal Tauran, porque este é o caminho. Mas vamos consegui-lo.

Ainda não chegamos em Roma e já estamos pensando nas futuras viagens, em fazer as malas novamente. Santo Padre, quando irá à Argentina, onde esperam pelo senhor há tanto tempo, e, quando retornará à América Latina ou irá à China… Uma frase: você, durante esta viagem, falou muitas vezes em sonhar. O que o senhor sonha? E, sobretudo, qual é o seu pesadelo?

A China, ir até lá: gostaria muito!

Quero dizer também uma coisa, uma coisa certa sobre o povo mexicano. É um povo de uma riqueza, de uma riqueza tão grande. É um povo que surpreende. Tem uma cultura, uma cultura milenar. Vocês sabem que hoje, no México, são faladas 65 línguas, contando os indígenas? 65! É um povo de uma grande fé, embora tenha sofrido perseguições religiosas, existem mártires – agora vou canonizar dois… dois ou três.

É um povo que não se pode explicar simplesmente porque a palavra “povo” não é uma categoria lógica, é uma categoria mítica. E o povo mexicano, não é possível explicá-lo, esta riqueza, esta história, esta alegria, esta capacidade de festa e estas tragédias das quais vocês perguntaram. Eu não posso dizer outra coisa, que esta unidade, também que este povo tenha conseguido não fracassar, não acabar com tantas guerras, e coisas que acontecem agora… Mas ali, em Ciudad Juárez, havia um pacto de 12 horas de paz para a minha visita, depois continuarão lutando entre si, os traficantes.

Mas um povo que ainda tem esta vitalidade, somente pode ser explicado por Guadalupe. E eu convido vocês para estudar seriamente o acontecimento Guadalupe. Nossa Senhora está lá. Eu não encontro outra explicação. E seria bonito se vocês, como jornalistas – existem alguns bons livros que explicam, também explicam a pintura, como é, o que significa. E assim se poderá compreender um pouco este povo tão grande e tão bonito.

Em que sonha, em italiano e em espanhol? O que pediu a Guadalupe?

Pedi pelo mundo, pela paz, por muitas coisas. A pobrezinha ficou com a cabeça assim… Pedi perdão, pedi para que a Igreja cresça saudável, pedi pelo povo mexicano…

Também, uma coisa que pedi muito é que os padres sejam verdadeiros padres e as irmãs, verdadeiras irmãs. E os bispos, bons bispos como o quer o Senhor. Por isto rezei tanto. Mas as coisas que um filho diz à Mãe são um pouco secretas.

Eu diria que sonho em esperanto. Não sei como responder a isto. Algumas vezes, sim, recordo algum sonho em outra língua, mas sonhar em língua não. Com figuras, sim; minha psicologia é assim. Com palavras sonho pouco

Sala de Imprensa do Vaticano, publicada por Religión Digital.

Zika

Pra variar, pinçaram ideologicamente o que lhes interessava dizer. A pergunta em questão foi essa aqui, feita por Paloma Garcia, da “Cope” (uma agência de notícias espanhola):

Santo Padre, há algumas semanas há muita preocupação em muitos países latino-americanos, mas também na Europa, sobre o vírus “Zika”. O risco maior seria para as mulheres grávidas: há angustia. Algumas autoridades propuseram o aborto, ou de se evitar a gravidez. Neste caso, a Igreja pode levar em consideração o conceito de “entre os males, o menor”?

Papa Francisco: O aborto não é um “mal menor”. É um crime. É descartar um para salvar o outro. É aquilo que a máfia faz, eh? É um crime. É um mal absoluto.

Sobre “mal menor”: mas, evitar a gravidez é – falemos em termos de conflito entre o quinto e o sexto Mandamento. Paulo VI, o Grande!, em uma situação difícil, na África, permitiu às religiosas de usar anticoncepcionais para os casos de violência. Não confundir o mal de evitar a gravidez, sozinho, com o aborto. O aborto não é um problema teológico: é um problema humano, é um problema médico. Mata-se uma pessoa para salvar uma outra – nos melhores dos casos. Ou por conforto, não? Vai contra o Juramento de Hipócrates que os médicos devem fazer. É um mal em si mesmo, mas não é um mal religioso, ao início: não, é um mal humano. Além disso, evidentemente, já que é um mal humano – como todos assassinatos – é condenado. Ao invés, evitar a gravidez não é um mal absoluto: e, em certos casos, como neste, como naquele que mencionei do Beato Paulo VI, era claro. Ainda, eu exortaria os médicos para que façam tudo para encontrar as vacinas contra estes dois mosquitos que trazem este mal: sobre isto se deve trabalhar. Obrigado.

Eu sei, eu sei… você leu, leu, leu e, no final das contas, ficou com a impressão de que ele disse isso mesmo, não foi? A questão é que ele se deteve em comparar o sexto com o quinto mandamento. E deixou claro: o aborto não é um problema religioso, é humano, porque tem a ver com assassinato, com escolher quem pode e quem não pode viver. É um crime!

A questão da contracepção acaba sendo menos grave (do ponto de vista não-religioso), porque é um problema teológico. É pecado. Mas você ainda está vivo pra poder consertar, ao contrário do aborto que é irreversível.

Dom Odilo Scherer fez exatamente a mesma observação em uma entrevista há pouco tempo atrás (Entrevista Dom Odilo). Ele coloca o aborto como crime e a contracepção como problema de liberdade. Só lembrando que optar por esperar um pouco para engravidar, não envolve necessariamente contracepção, já que pode ser feito por continência ou Método Billings!

O CASO DAS FREIRAS

Ok, ok… eles estão certíssimos. Mas e a questão das freiras? Não dá a entender que o Papa liberou a contracepção? Sim, se você for um jornalista ávido por uma declaração bombástica e pouco comprometido com a verdade dos fatos.

O caso das freiras liberadas por Paulo VI para tomar contraceptivos é muito extremo. As freiras estavam na iminência de serem violentadas sexualmente e, para evitar um mal maior ainda, foram autorizadas a utilizar pílulas anticoncepcionais. Lembrando que o sexo para um católico deve carregar duas características: unitiva e procriativa, coisa que só é possível de maneira responsável dentro do sagrado laço do Matrimônio. Obviamente, um estupro não se enquadra no que a Igreja entende como sexo (com finalidade unitiva e procriativa), logo, não há porque se estar aberto à vida. Mas essa é uma questão pontual, não uma regra! Tanto que precisou da aprovação de Paulo VI.

Aliás, vale acrescentar que, neste episódio, Paulo VI também recomendou que as freiras que porventura engravidassem devido à violência sexual, tivessem seus filhos, abandonassem o convento e assumissem sua maternidade. Ou seja, nada de aborto!

É claro que ser estuprada em guerra é completamente diferente de evitar o vírus Zika. Por isso, vale a orientação final do Papa Francisco:

Ainda, eu exortaria os médicos para que façam tudo para encontrar as vacinas contra estes dois mosquitos que trazem este mal: sobre isto se deve trabalhar.

Resumindo: aborto é crime, usar contraceptivos é pecado que pode ser tolerado em casos muito extremos e o Zika não é um deles – que se procure uma vacina.

Ponto final. O resto é tentativa de manipulação ideológica das palavras do Papa!

Leia a íntegra da entrevista clicando aqui.

Fonte: O catequista.

271

A página informativa do Vaticano em espanhol, News.Va Espanhol, pediu aos fiéis católicos que não caiam em confusões por falsas mensagens atribuídos ao Papa Francisco difundidas normalmente nas redes sociais, como Facebook ou o serviço de mensagens por meio de WhatsApp.

“Estes tipos de textos que circulam por internet atribuídos ao Papa Francisco geralmente não mencionam a data e a ocasião na qual pronunciou essas palavras. Porque desta maneira, seria fácil para qualquer pessoa procurar na página oficial da Santa Sé e comprovar se realmente eram palavras do Papa”, explicou News.va em uma publicação no Facebook.

A página do Vaticano animou novamente a que, diante de uma notícia ou texto com um conteúdo estranho que faça menção ao Papa, “procurem as fontes vaticanas para ver se também aparecem ali”.

“Se as palavras atribuídas ao Papa não aparecem nos meios oficiais vaticanos, especialmente na página oficial da Santa Sé, pode ser que estas sejam falsas”, esclareceu.

Estes casos, explicou, parecem “um fenômeno através do qual, com certeza, muitos de vocês se encontraram: alguém lhes envia por Facebook ou WhatsApp, uma mensagem que começa com ‘Compartilho com vocês algo do Papa Francisco’. E, a seguir está um doce texto”.

Como exemplo, News.va mencionou este texto, fragmento de uma de tantas mensagens falsamente atribuídas ao Papa: “Muitas vezes o Natal é uma festa rumorosa: far-nos-á bem estar um pouco em silêncio, para ouvirmos a voz do Amor. Natal é você, quando decide nascer de novo, cada dia, deixando que Deus penetre seu interior. O pinheiro do Natal é você, quando resiste fortemente aos ventos e dificuldades da vida”.

A primeira oração deste texto corresponde a um tweet do Santo Padre em dezembro de 2013: “Muitas vezes o Natal é uma festa rumorosa: far-nos-á bem estar um pouco em silêncio, para ouvirmos a voz do Amor”.

O resto da mensagem seria de autoria de outro sacerdote.

Em seguida, News.va acrescentou as páginas oficiais nas quais podem verificar a veracidade das mensagens atribuídas ao Papa Francisco. Estes são o Twitter oficial do Santo Padre @Pontifex_pt, a página do Vaticano, a Sala de Imprensa da Santa Sé, a página do Facebook da News.va, o Jornal do Vaticano L’Osservatore Romano, a Rádio Vaticano, o Centro Televisivo Vaticano (CTV), o Serviço Informativo do Vaticano (VIS) e o aplicativo para celulares e tabletes ‘The Pope App’, administrado pela News.va.

426+web-Pope-Fun-B

O Vaticano, através de sua conta do Facebook em língua espanhola News.va (https://www.facebook.com/news.va.es)  trouxe uma nota de esclarecimento de uma série de falsas declarações atribuídas ao Papa Francisco e que estão circulando na Internet nestes dias.

O texto (originalmente em espanhol) diz:

“Queridos amigos, muitos de nossos leitores nos assinalam uma ‘notícia’ que circula na internet e nos perguntam se é verdadeira. Esta ‘notícia’, publicada em vários idiomas, diz que o Papa Francisco afirmou que a Bíblia está antiquada em muitas passagens como a ‘fábula de Adão e Eva’ ou o inferno, que todas as religiões são iguais, que Deus está mudando e evoluindo e a verdade religiosa também, e outras coisas semelhantes. Tudo isto o Papa teria afirmado no ‘Terceiro concílio vaticano II’.

Pela internet circulam milhares de histórias falsas, e às vezes é difícil saber de onde se originou a ‘notícia’ e se esta vem de uma fonte confiável ou não. Por isso, ante uma notícia referente ao Papa Francisco que nos pareça estranha, é bom questionar-nos e ir às fontes vaticanas para ver se também ali estas notas aparecem e com que palavras são escritas.

Por isso no que se refere ao Papa Francisco, se as palavras a ele atribuídas não aparecem nos meios oficiais vaticanos, é muito possível que sejam falsas. Aqui lhes oferecemos uma lista dos meios vaticanos e seus sites na internet, para que possam ir comprovar as notícias sempre que tiverem dúvidas:

-Canal Twitter oficial do Santo Padre (em português):https://twitter.com/Pontifex_pt   

-Escritório de Imprensa da Santa Sé:http://www.vatican.va/news_services/press/index_po.htm

-News.va: Recolhe em um único site as notícias dos outros meios vaticanos (http://www.news.va/pt), e fanpage no facebook(https://www.facebook.com/news.va.pt?fref=ts)

-Site Web oficial da Santa Sé, onde se pode encontrar o íntegra oficial de todos os discursos, homilias, mensagens, etc. do Papa Francisco:http://www.vatican.va

-L’Osservatore Romano: Periódico da Santa Séhttp://www.osservatoreromano.va/pt

-Rádio Vaticano: http://pt.radiovaticana.va/bra/index_n.asp

-Centro Televisivo Vaticano: http://www.ctv.va/content/ctv/it.html

-The Pope App: app para smartphones e tablets administrado por News.va, que pode ser descarregado gratuitamente em:http://www.news.va/thepopeapp/  e permite seguir em tempo real as intervenções do Papa e configurar alertas que avisam quando começam os eventos pontifícios.

Este também permite acessar todo o conteúdo oficial relacionado ao Papa em qualquer formato: notícias e discursos oficiais, galeria com suas últimas imagens e vídeos e acesso a sua agenda e links a outros serviços da Santa Sé. Além disso, a aplicação tem acesso às webcams distribuídas pela Praça de São Pedro, que transmitem imagens em todo momento.

-VIS (Vatican Information Service): http://www.vis.va

Uma saudação muita cordial a todos e muito obrigado por sua atenção e suas sugestões”, conclui a nota.

vatican-articleLarge

Talvez, escreve McGurn, nenhum pontífice tenha conseguido essa façanha antes. Por longos anos, destaca o jornalista, o New York Times travou uma guerra contra diversos papas sobre questões morais, como o casamento ou o valor da vida não nascida. Mas, quando se trata de mudanças climáticas, o próprio jornal nova-iorquino – que gosta de se considerar um jornal que se atém escrupulosamente aos fatos – é claro ao reconhecer como autorizada uma encíclica do papa.

Na verdade, afirma McGurn, o jornal, ao tecer o elogio, acrescenta o advérbio “inesperadamente”, como se quisesse mitigar o louvor.

Mas tamanha é a alegria de pensar que se tem um imprimatur papal sobre a noção de mudanças climáticas causadas pelo homem, a ponto de levar o planeta à catástrofe, que aqueles que chegaram a aplaudir também estão dispostos a não dar a devida atenção às críticas do papa contra um “ambientalismo” que protege as espécies em risco de extinção, mas não os filhos não nascidos.

A encíclica – escreve Lluís Bassets, no El País do dia 21 de junho passado, em um longo aprofundamento intitulado El papa como contrapoder – obteve efeitos políticos imediatos, e as suas repercussões foram muito além do universo católico, o que demonstra um prestigiado e uma autoridade crescentes. Há capítulos mais interessantes para os cristãos e outros que afetam mais aqueles que não se reconhecem em nenhuma fé, continua Bassets, salientando, porém, que a religiosidade do Papa Francisco está nos antípodas em relação às técnicas de autoajuda ou de equilíbrio interior tão em voga na nossa época, seja no mundo cristão, seja no islâmico.

A proteção da casa comum não tem futuro se os homens continuarem sendo tratados como mercadoria e se a brecha entre Norte e Sul do mundo não for reduzida, afirma-se no Le Monde do dia 23 de junho. “Essa mensagem poderia ser o primeiro ato de um apelo a uma nova civilização”, continua o colunista citando Edgar Morin no jornal La Croix. E essa encíclica terá o efeito de “ancorar o papado no século XXI”.

A reportagem é do jornal L’Osservatore Romano, 25-06-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

20150616_enciclica3

O Vaticano suspendeu nesta terça-feira (16) a credencial do jornalista Sandro Magister por ter divulgado o rascunho da encíclica do papa Francisco no jornal “L’Espresso”.

A divulgação de 191 páginas do documento “Laudato sii” (“Louvado Seja”) ocorreu há dois dias e, rapidamente, o porta-voz da Santa Sé, padre Federico Lombardi, afirmou que o texto não passava de um rascunho e não era a versão final.

Segundo a agência de notícias “Associated Press”, Lombardi enviou uma carta ao periódico dizendo que a publicação foi “incorreta” e causou problemas para os jornalistas que respeitaram o pedido de “embargo” do texto pelo Vaticano. O lançamento oficial do documento papal será realizado no dia 18 de junho.

Ainda em entrevista à “AP”, Magister – que cobre os assuntos do Vaticano há vários anos – afirmou que quem conseguiu a encíclica foi seu editor e que apenas escreveu a introdução às páginas.

Pope_Francis_in_flight_press_conference_3_Jan_18_2015_Vatican_Catholic_News_Credit_Alan_Holdren_CNA_CNA

 

O que eu quero dizer sobre Paulo VI é que a verdadeira abertura à vida é condição para o sacramento do matrimônio. Um homem não pode dar o sacramento para a mulher, e a mulher dar para ele, se eles não estão em concordância neste ponto de estarem abertos à vida. A ponto de, se puder ser provado que este ou aquele se casou com a intenção de não estar aberto à vida, o matrimônio é nulo. É causa de nulidade do casamento, não? Abertura à vida, não?

Paulo VI estudou isso, com a comissão, como ajudar os muitos casos, muitos problemas. São problemas importantes, que dizem respeito mesmo ao amor na família, certo? Os problemas do dia a dia – tantos deles.

Mas havia algo mais. A recusa de Paulo VI não foi somente aos problemas pessoais, para os quais ele dirá aos confessores para serem misericordiosos e entenderem a situação e perdoarem. Serem compreensivos e misericordiosos, não? Mas ele estava observando o neo-malthusianismo que estava em curso. E como se chama este neo-malthusianismo? Há uma taxa de crescimento de menos de 1% na Itália. O mesmo na Espanha. Este neo-malthusianismo que quis controlar a humanidade por parte dos poderes.

Isso não quer dizer que o cristão deve fazer filhos “em série”. Conheci uma mulher há alguns meses numa paróquia que estava grávida de sua oitava criança, que tinha tido sete cesárias. Mas ela quer deixar 7 filhos órfãos? Isso é tentar a Deus. Eu falo de paternidade responsável. Este é o caminho, uma paternidade responsável.

Mas o que eu queria dizer era que Paulo VI não era muito antiquado, mente fechada. Não, ele era um profeta que com isso nos disse para tomarmos cuidado com o neo-malthusianismo que vem chegando. Era isso o que eu queria dizer.

[…]

Eu acho que o número de 3 filhos por família que você mencionou – me faz sofrer – eu acho que é o número que os especialistas dizem ser importante para manter a população “indo”. Três por casal. Quando isso diminuiu, o outro extremo acontece, como o que está acontecendo na Itália. Ouvi dizer, não sei se é verdade, que em 2024 não haverá dinheiro para pagar pensionistas por causa da queda na população. Assim, a palavra-chave, para lhe dar uma resposta, e a que a Igreja usa o tempo todo, e eu também, é paternidade responsável. Como fazemos isso? Com diálogo. Cada pessoa com seu pároco procure como levar a cabo uma paternidade responsável.

Aquele exemplo que eu mencionei antes sobre aquela mulher que estava esperando sua 8ª criança e que já tinha tido sete que haviam nascido por cesárea. Esta é uma irresponsabilidade. Aquela mulher pode dizer: “Não, eu confio em Deus”. Mas, olhe, Deus deu os meios para ser responsável. Alguns acham que — perdoe a expressão – para sermos bons católicos, temos que ser como coelhos. Não. Paternidade responsável. Isso é claro e é por isso que existem grupos de casais na Igreja, que existem especialistas nesta questão, que existem pastores que se pode procurar; e eu conheço tantos meios que são lícitos e que ajudam nisso. Você fez bem em me perguntar isso.

Outra coisa curiosa em relação a isso é que para a maioria das pessoas pobres, uma criança é um tesouro. É verdade que você deve ser prudente aqui também, mas para eles é um tesouro. Alguns diriam ‘Deus sabe como me ajudar’ e talvez alguns deles não são prudentes, é verdade. Paternidade responsável, mas olhemos também para a generosidade daquele pai e daquela mãe que veem um tesouro em cada criança.

Fonte: Palavras do Papa Francisco em entrevista coletiva no vôo que o trazia de volta de Manila para Roma

trisha-on-plane

Algumas correções à “mitologia sobre o papa Francisco”

Janeiro: Um papa Rolling Stone?

A reportagem de capa sobre o papa Francisco na edição de janeiro da revista “Rolling Stone” foi um espetáculo de mau jornalismo.  O comentarista Damon Linker, da revista “The Week”, listou nada menos que nove afirmações ridículas que tinham aparecido na reportagem da “Rolling Stone” como se fossem coisas sérias.

Fevereiro: A comunhão e o cardeal Kasper

No consistório de cardeais realizado em fevereiro, o cardeal Walter Kasper propôs alguns argumentos sobre a possibilidade de que os católicos divorciados e recasados (sem a anulação do matrimônio anterior) pudessem comungar. O mito de que Francisco fosse defensor dessa ideia foi crescendo ao longo do ano, culminando no sínodo de outubro, sobre a família.

Era um mito desnecessário, que o próprio papa desmanchou mais de uma vez. Em agosto, por exemplo, ele declarou: “Quanto à comunhão para as pessoas que estão no segundo casamento, não existe nenhum problema. Se eles estão num segundo casamento, eles não podem comungar”.

Muito importante foi também o documento de preparação da Igreja para o sínodo, que reiterou a doutrina sobre os divorciados que se casaram novamente sem terem obtido a anulação matrimonial: o texto deixa claro que a Igreja não pretende mudar a regra, e sim encontrar maneiras mais acolhedoras de reforçar o cumprimento da regra.

Março: o encontro com Obama

O papa Francisco e o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, se encontraram pela primeira vez e os católicos norte-americanos ficaram desapontados ao ouvirem dizer que o papa não falaria sobre a liberdade religiosa nem sobre o direito a vida, e sim sobre temas em que as duas partes estavam de acordo. As questões polêmicas, portanto, “não seriam tratadas na conversa”. Ao menos foi isso o que a mídia divulgou.

No entanto, o Vaticano tinha uma visão muito diferente sobre a reunião: o direito à vida e à liberdade religiosa foi, sim, uma parte muito importante da conversa entre os dois líderes.

Junho: Um papa sincretista?

Um e-mail viral, que já foi reconhecido como falso, espalhou pela internet o boato de que o papa Francisco é sincretista, ou seja, que ele consideraria todas as religiões como igualmente verdadeiras. Quando ele propôs uma oração multi-religiosa pela paz na Terra Santa, a ser feita em pleno Vaticano na data de 8 de junho, os críticos se deram o direito de interpretar que aquele viral estava sendo confirmado como verdadeiro.

Mas, como esclareceu o pe. Dwight Longenecker, o que o Vaticano tinha organizado era um encontro de oração conjunta pela paz entre delegações de Israel e da Palestina. A delegação israelense trazia tanto judeus quanto muçulmanos, e a delegação palestina trazia tanto muçulmanos quanto cristãos. Cada fé religiosa fez a sua prece, em momentos separados, cada uma segundo a própria tradição. E nada disso aconteceu dentro da Basílica de São Pedro, e sim nos Jardins do Vaticano.

A acusação de “sincretismo” reapareceria em novembro, quando o papa Francisco orou na Mesquita Azul, em Istambul. A assessoria de imprensa do Vaticano tranquilizou os críticos mais preocupados: Francisco rezou a mesma prece que Bento XVI tinha rezado no mesmo lugar e da mesma forma.

Começo de outubro: a tempestade do sínodo da família

A mídia fez um imenso alarde quando o sínodo extraordinário sobre a família divulgou um relatório preliminar. A frase fatídica foi uma pergunta relacionada às pessoas que sentem atração pelo mesmo sexo: “Será que as nossas comunidades são capazes de aceitar e valorizar a orientação sexual delas [das pessoas homossexuais, ndr] sem comprometer a doutrina católica sobre a família e o matrimônio?”.

“Valorizar a orientação sexual delas” foi a frase que ocasionou o barulho. A Igreja nos ensina há muito tempo a valorizar as pessoas homossexuais. Mas valorizar a orientação homossexual como tal? Isso não é incoerente com os outros ensinamentos do catecismo sobre a homossexualidade?

Não demorou muito para que o problema fosse explicado: o documento recomendava “avaliar” a orientação homossexual, em vez de “valorizar”, como tinha sido mal traduzido em vários idiomas.

O papa Francisco, um mês depois, orou por “todos os que procuram apoiar e fortalecer a união do homem e da mulher no casamento como um bem original, natural, fundamental e belo para as pessoas, para as comunidades e para as sociedades inteiras”.

Final de outubro: Um papa darwinista?

Em 27 de outubro, o papa Francisco fez um discurso para a Academia de Ciências e disse que “a evolução na natureza não se opõe à noção da criação”; e acrescentou, com seu estilo típico, que Deus não é um “mágico” que cria com uma “varinha de condão”, mas que Ele “criou os seres e os deixou desenvolver-se de acordo com as leis internas que tinha dado a cada um para que atingissem a sua plenitude”.

A mídia fez mais um dos seus alardes e deu a entender que o papa tinha finalmente admitido a teoria da evolução, quando, na realidade, o papa Pio XII já tinha dito a mesma coisa, meio século antes, na “Humani Generis” (cf. nº 36). O catecismo também diz o mesmo em seu número 283.

Novembro: O “rebaixamento” do cardeal Burke

O anúncio tão esperado chegou em 8 de novembro: o cardeal norte-americano Raymond Burke deixaria o seu posto no Vaticano como prefeito da Assinatura Apostólica, a “Suprema Corte” da Santa Sé, para assumir o cargo de patrono da Ordem de Malta. “O papa Francisco rebaixa o conservador cardeal norte-americano”, publicou a agência Reuters.

A notícia preocupou parte dos católicos que apreciam a clareza com que o cardeal Burke se pronuncia diante das questões polêmicas: eles acharam que o papa Francisco estava dando uma espécie de “demonstração de mão de ferro”.

Mas ninguém precisa se preocupar. Na verdade, Burke foi o cardeal que durante mais tempo ocupou o cargo de prefeito da Assinatura Apostólica nos últimos 37 anos. E, como vários observadores do Vaticano destacaram, se o papa Francisco estivesse mesmo querendo se livrar das pessoas de opinião firme, por que não afastava também o cardeal George Pell? E, se ele quisesse silenciar o cardeal Burke, por que o colocava numa posição que lhe dava ainda mais liberdade para se pronunciar com a sua habitual franqueza?

Numa entrevista recente, o próprio papa Francisco esclareceu ainda melhor o mal-entendido: ele disse que tomou a decisão de colocar Burke à frente da Ordem de Malta com a aprovação do próprio cardeal e desde bem antes do sínodo, mas o manteve em seu cargo anterior durante mais tempo para que ele pudesse se envolver no sínodo da família.

Dezembro: os cachorros vão para o céu!

A notícia foi primeira página do “New York Times”: o papa Francisco teria mudado a teologia conservadora que negava aos bichos um lugar no paraíso! “Papa Francisco diz que os cães podem ir para o céu”, declarava um artigo do popular jornal norte-americano “USA Today”, compartilhado por milhares de pessoas no Facebook.

O caso é que os sites, jornais, revistas e emissoras de rádio e TV tinham apenas deturpado uma frase dita em 1978 pelo papa Paulo VI…

A mídia, em resumo, tem projetado no papa Francisco os seus próprios desejos, entendendo errado quase tudo o que ele diz de fato.

O melhor crítico desses “mal-entendidos papais”, no fim, é o próprio papa Francisco. “Eu não gosto das interpretações ideológicas, de certa ‘mitologia sobre o papa Francisco’”, declarou ele numa entrevista concedida um ano após o início do seu pontificado. “Representar o papa como uma espécie de super-homem, um tipo de astro, me parece uma coisa ofensiva. O papa é um homem que ri, que chora, que dorme serenamente e que tem amigos, como todos. É uma pessoa normal”.

De fato, ele é.

Fonte: http://www.aleteia.org/pt/sociedade/artigo/2014-como-a-midia-mal-interpretou-o-papa-francisco-ao-longo-do-ano-5849512279015424?page=2

images

No ano de 2010 nascia na Inglaterra o Catholic Voices. Jack Valero, naquele então diretor de comunicação do Opus Dei na Grã-Bretanha, e um profissional que já acumulava experiência graças a Dan Brown e “O Código Da Vinci”, resolveu, junto com Austen Ivereigh, juntar e preparar um grupo de uns 30 leigos católicos para abordar os diversos temas da Igreja Católica na mídia, em vista da visita do Papa à Inglaterra em Setembro do mesmo ano.

Naquela época, em entrevista a ZENIT , Valero afirmava que o projeto nascia com uma visão profundamente positiva da imprensa, a qual “têm o direito de fazer perguntas difíceis, que refletem as perguntas das pessoas comuns, e que seu dever é pedir contas a pessoas e instituições”.

Essa iniciativa desde então espalhou-se para 15 países. Semana Passada, também em entrevista a ZENIT, a coordenadora do projeto da Itália, Martina Pastorelli, declarou que o método utilizado por Catholic Voices serve “para entrar em um relacionamento antes de tudo humano com o outro. Criar empatia, que é a base de todo o diálogo”, sair do confronto e abordar de forma positiva os questionamentos que a Igreja recebe.

Saindo à caça de outros países, ZENIT descobriu que o “Catholic Voices” foi um dos legados oficiais da JMJ Rio 2013. Os bons ventos da JMJ Rio 2013 trouxeram-no ao Brasil.

Entrando em contato com ZENIT, o coordenador do Vozes Católicas do Brasil, Alexandre Varela, leigo com grande experiência na comunicação, explicou aos nossos leitores o objetivo do projeto e os passos que estão sendo dados para “tropicalizá-lo”, transformá-lo à realidade brasileira. 

“Hoje estamos muito focados em ampliar nossos contatos com a imprensa e consolidar nossa atuação no Rio de Janeiro. Em breve, começaremos a planejar a expansão do grupo para todo o Brasil”, disse Varela à ZENIT.

Se você ficou interessado, então conheça de perto essa iniciativa e acompanhe abaixo a íntegra dessa entrevista:

***

Então, Alexandre, quer dizer que como legado da JMJ Rio 2013, o projeto inglês “Catholic Voices” veio ao Brasil, por meio de um grupo de 15 católicos cariocas?

Alexandre: Sim, hoje somos 4 coodenadores e 11 integrantes, mas não só cariocas! Temos gente de todo o Brasil. O Vozes Católicas (como nos chamamos no Brasil) foi um dos legados oficiais da JMJ Rio 2013, que foi um grande catalizador para este projeto, que é inspirado no Catholic Voices do Reino Unido. Contamos com a orientação dos criadores do “Catholic Voices”, mas nosso grupo tem total liberdade para “tropicalizar” o projeto. O Brasil tem demandas muito diferentes no que diz respeito à comunicação católica e estamos trabalhando para garantir que tenhamos o melhor formato possível para a nossa realidade.

Publicamos semana passada uma entrevista com a coordenadora desse projeto na Itália. O que você achou?

Alexandre: Já acompanhamos a implantação do projeto em muitos países e conhecemos muitos membros dessas equipes. É sempre inspirador ver como as pessoas estão se movendo para defender a fé e, principalmente, esclarecer os pontos de vista da Igreja Católica, normalmente tão distorcidos e atacados pela grande mídia. Estamos trabalhando duro para que seja assim também no Brasil!

 O projeto está se desenvolvendo no Rio de Janeiro? Qual tem sido a experiência de Vozes nesse ano?

Alexandre: O Rio de Janeiro foi o local escolhido para estrear o Vozes Católicas no país, justamente pelo grande protagonismo dentro da Igreja Católica no Brasil e, evidentemente, pela oportunidade de exposição a toda a imprensa durante a JMJ Rio 2013, quando o projeto efetivamente começou a funcionar. O ano de implantação (2013), foi excepcionalmente bom para estreitarmos nossos contatos com a imprensa e entendemos qual seria o formato mais adequado para o projeto no Brasil. Entramos em 2014 muito mais amadurecidos e cientes das barreiras que temos que enfrentar e o que precisamos fazer para vencê-las. Muitos veículos têm nos procurado, principalmente para entender melhor o contexto do que acontece no Vaticano e suas consequências no Brasil. Já ganhamos muita visibilidade, mas estamos trabalhando para ir além: queremos estar na frente das câmeras e mostrar o rosto dos católicos leigos do Brasil.

Por que motivo a imprensa, digamos assim, laica, não permite que católicos leigos bem preparados se posicionem nos seus programas e debates?

Alexandre: Leigos falando sobre temas católicos é uma grande novidade. Não só no Brasil, mas em todos os lugares onde o Vozes Católicas é implantado. Sempre existe uma resistência, porque os veículos (e também os espectadores) esperam que apenas os padres falem sobre esses assuntos. Evidentemente, o tamanho do desafio varia em cada um dos países e, aqui no Brasil, ele é particularmente grande. Os leigos no Brasil têm pouca visibilidade, somos muito clericalizados. Isso não é bom, nem ruim… é só uma característica e temos que lidar com ela. Mas esse paradigma está mudando e queremos ser parte importante nesta mudança. É um trabalho de longo prazo e um dos primeiros passos é contar com a ajuda dos jornalistas católicos para que possam, aos poucos, introduzir o Vozes Católicas nos meios de comunicação nos quais atuam.

 O mesmo Papa Francisco tem denunciado em várias ocasiões a questão do clericalismo. Por exemplo, são dele essas palavras “A tentação do clericalismo, que causa grandes prejuízos à Igreja que está na América Latina, constitui um obstáculo para o desenvolvimento da maturidade e da responsabilidade cristã de uma boa parte do laicado”. Essa falta de presença católica leiga na mídia brasileira não seria causada por este clericalismo que o Papa denunciou?

Alexandre: Como já dissemos antes. Esse clericalismo de que falamos é uma característica. Não é algo intrinsecamente ruim.  Mas para o contexto atual, complica um pouco as coisas e talvez por isso o Papa esteja preocupado. Precisamos mudar isso: tirar a Igreja das paróquias e levá-la a todos os ambientes. E apenas os leigos podem fazer isso com a penetração necessária. Somos nós que estamos nas escolas, universidades e empresas. Também são os leigos que estão inseridos na produção cultural, que vem sendo determinante na formação da mentalidade dos brasileiros nos últimos anos. Eu diria que hoje vivemos uma “Guerra Cultural”, mas só um lado está lutando. Precisamos entrar de cabeça e só os leigos podem efetivamente se dedicar a isso.

Já que os leigos não têm acesso à grande mídia, a solução não seria preparar os padres para o debate, em vez de preparar leigos?

Alexandre: É importante que ao menos alguns padres estejam preparados, porque o fato de lançarmos os leigos na grande mídia não elimina a demanda por declarações de padres. Porém é importante que essa função passe a ser dominada pelos leigos. Precisamos passar a mensagem de que a Igreja não é algo fechado nas paróquias, mas é algo que está na cultura e nos diversos ambientes. Ter fé não é uma questão clerical, é uma opção da maioria absoluta do nosso povo! Isso precisa ser mostrado. Além disso, sabemos que muitos debates reservam uma boa dose de armadilhas e contextos inadequados à um sacerdote. Às vezes chega a ser covardia. Certa vez, vi um programa em que um grupo de pessoas completamente descomprometido lançava acusações sem fundamento sobre um padre que mal tinha chance de falar. Foi um grande desrespeito. Um sacerdote do Senhor não deve ser exposto a isso. Ter leigos nesta função é uma forma de preservar a Igreja.

Qual tem sido o papel de Dom Orani para a implantação desse projeto no Rio?

Alexandre: Em todo o mundo, o Vozes Católicas tem como política só ser implantado com autorização do Bispo local, afinal, somos parte da Igreja. Mas Dom Orani foi além: é o grande incentivador deste projeto. Desde o início, abraçou a ideia e deu total apoio e liberdade para que fizéssemos a implantação do Vozes Católicas no Rio de Janeiro. Foi ele que tornou esse projeto um dos legados na JMJ Rio 2013, que foi essencial para abrir muitas portas. No entanto é muito importante frisar que uma das características do projeto em todo o mundo é a independência em relação à estrutura da Igreja. Não estamos subordinados à Arquidiocese. Isso é necessário para dar agilidade ao nosso trabalho, o que é um requisito básico no mundo da comunicação de massa. Mas também é uma maneira de permitir nos arrisquemos sem que isso comprometa a Igreja. Por isso, jamais falamos em nome da Igreja. Somos leigos e falamos da experiência que vivemos. E esse é um ponto muito importante! Somos o rosto vivo da Igreja, não seus “porta-vozes”.

Isso não seria, então, uma missão dos bispos? Ou seja, quem deveria se movimentar para implantar o Vozes na própria diocese, em primeiro lugar, não seria o próprio bispo?

Alexandre: Como dissemos, o Vozes Católicas atua de forma independente. A grande responsabilidade por implantar o projeto é dos leigos! Mas será uma grande alegria se um bispo achar essa iniciativa importante para sua diocese e quiser contar conosco.

Quem estiver interessado em montar uma equipe do Vozes na própria diocese, que passos tem que seguir?

Alexandre: Hoje estamos muito focados em ampliar nossos contatos com a imprensa e consolidar nossa atuação no Rio de Janeiro. Em breve, começaremos a planejar a expansão do grupo para todo o Brasil. Essa fase de “incubação” é necessária porque queremos que os próximos núcleos já contem com uma rede mais consistente de suporte e de recursos. Pavimentar essa estrada é um grande desafio, mas estamos, com a Graça de Deus, avançando cada vez mais. Quem quiser entrar em contato conosco, pode fazê-lo através do e-mail: vozescatolicas@vozescatolicas.com.br. Queremos conversar com todos os entusiastas do projeto!

Conheça!!

http://www.catholicvoices.org.uk/ ( Reino Unido)

http://www.vocescatolicas.cl/ ( Chile)

http://catholicvoicesusa.org/ ( Estados Unidos)

http://www.catholicvoices.org.es/ ( Espanha)

Por Thácio Siqueira