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Ao La Repubblica, Dom Georg Gänswein conta a vida de Bento XVI, no retiro do mosteiro Mater Ecclesiae.

A reportagem é de Paolo Rodari, publicada por La Repubblica

Como Bento XVI se aproxima do seu aniversário?

Está sereno, tranquilo e de bom humor. Gostaria de fazer apenas uma coisa pequena adaptada às suas forças. O seu irmão Georg também virá por alguns dias. E esse para ele é o maior presente. Na Pasquetta, um dia depois do aniversário, ele vai nos dar uma modesta festa “à bávara”, com uma pequena delegação da Baviera, entre eles também os Schützen.

Fisicamente, como ele está?

É um homem de 90 anos, muito lúcido, mas as forças físicas diminuem. As pernas estão cansadas. Por isso, para se sentir mais seguro, ele se apoia em um andador que lhe garante autonomia e segurança no movimento.

Ele ainda toca o piano?

Menos do que um ano atrás. Ele diz que as mãos não lhe obedecem mais como antigamente, ou pelo menos não como deveriam obedecer para tocar bem.

Ele assiste à TV?

Só o telejornal das 20h ou das 20h30. Ele recebe o L’Osservatore Romano e o Avvenire e dois jornais alemães. Todos os dias, há também o resumo de imprensa que lhe é enviado pela Secretaria de Estado.

A que leituras ele se dedica?

Sobretudo aos seus grandes mestres, os Padres da Igreja que tanto o acompanharam nos anos em que ele lecionava teologia, mas ele também gosta de ficar atualizado sobre as recentes publicações teológicas, as vozes mais importantes, pelo menos.

Ele escreveu um testamento?

O seu testamento espiritual é o livro sobre Jesus de Nazaré. Obviamente, ele também fez um testemunho pessoal.

Ele falar sobre o além?

Na sua última saudação em Castel Gandolfo, na noite de 28 de fevereiro de 2013, ele mencionou o fato de que ali começava para ele a última etapa da sua peregrinação terrena. Todos os dias, isso é verdade para ele. Em relação ao que ele espera no além, ele repetiu várias vezes quando “dialogou” com as crianças sobre a vida eterna.

Nesses anos, ele nunca voltou a falar sobre a renúncia?

Ele nunca se arrependeu. Está convencido de ter feito a coisa certa, por amor do Senhor e pelo bem da Igreja. Na sua alma, há uma paz tocante, que nos faz entender que, na consciência, há a certeza de ter feito bem diante de Deus. A presença da paz dentro dele é um dom muito belo consequente à decisão.

Ele recebeu pressão para renunciar?

Não, absolutamente! Ele mesmo disse isso no livro O Último Testamento (Ed. Planeta), de Peter Seewald. Ele não recebeu pressão de nenhuma parte. Se tivesse havido, ele não teria cedido. Ele tinha tomado consciência de não ter mais as forças necessárias para guiar a barca de Pedro que precisava de um timão forte. Ele entendeu que devia devolver nas mãos do Senhor aquilo que ele havia recebido d’Ele.

Chegou-se ao conclave depois dos meses tempestuosos do Vatileaks. O senhor acha que, sem o Vatileaks, Bergoglio teria sido eleito?

Eu não acredito que o caso Vatileaks teve tamanha influência no conclave. Bento acompanhou o conclave pela televisão. No livro já citado de Seewald, um ano depois da eleição, ele disse que o Papa Francisco era uma bela lufada de ar fresco. Mas não fez outros comentários.

Não faltam aqueles que contrapõem o magistério de Bento ao de Francisco. Ele está ciente dessa operação?

Lendo os jornais e vendo as notícias, não é possível que Bento não perceba que, às vezes, fazem-se essas contraposições. Mas ele não se deixa provocar por artigos ou afirmações desse tipo. Ele decidiu se calar e permanecer fiel a essa decisão. Ele não tem nenhuma intenção de entrar em diatribes, que ele sente distantes dele.

Ele nunca se arrependeu de permanecer vestido de branco?

É uma pergunta que, para ele, não existia e não existe. Foi algo natural. Ele não vê problemas nisso. Ele tirou o manto e também a faixa. Para ele, é simplesmente uma veste como qualquer outra.

A Amoris laetitia provocou grande discussão na Igreja. Em particular, para alguns, o texto teria provocado confusão em nível pastoral. O que Bento XVI acha?

Ele recebeu uma cópia da Amoris laetitia pessoalmente de Francisco, em branco e com autógrafo. Ele a leu acuradamente. Mas ele não comenta o seu conteúdo, de modo algum. Certamente, está reconhecendo a discussão e as diversas formas em que foi recebido.

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Estava correndo contra o relógio a 140 km/h quando chegou o torpedo com que me comunicavam a renúncia de Bento XVI. Por sorte a surpresa não me causou um acidente, pois uns cones na pista tinham me feito reduzir a velocidade. 
 
Em duas semanas, dois chefes de Estado renunciaram: Beatrix da Holanda e Bento XVI da Santa Sé. A primeira pode se dar a esse luxo sem grandes polêmicas, mas o segundo… Quais seriam seus motivos? 
 
Sempre espere o inesperado. Nunca despreze os conceitos que costumam fazer visita a ritmo de cometa. Renuncie a julgar com ligeireza eventos surpreendentemente singulares. Mas não foi isso que vi na imprensa. Sem dúvida, há pressa em noticiar, em explicar, em comentar, em interpretar.
Mais uma vez, o Papa se apresentou como “sinal de contradição”, revelando o segredo de tantos corações que descarregam na Igreja o fel da própria consciência. Após um luminoso pontificado, repleto de conquistas sem precedentes, ainda há quem teime em considerá-lo um fracasso. Ou até quem acuse Bento XVI de ter traído Santo Agostinho e passado para o partido de Pelágio: com efeito, a graça não é mais importante que a mera força humana? 
 
Quando li a notícia, logo me veio à cabeça a famosa frase apócrifa dos Atos de Pedro, inspirada em Jo 16,5, e imortalizada pela obra de Henryk SienkiewiczQuo vadis, Papa? — Papa, aonde vais?
 
O texto do martírio de São Pedro conta como o velho pescador, informado da cruel perseguição, partiu solitário de Roma a fim de servir o Senhor, mas permanecendo vivo. Ao sair, encontra o próprio Cristo no caminho, a quem pergunta: “Senhor, aonde vais?” (Quo vadis, Domine?
 
E o Mestre lhe responde: “Vou a Roma para ser crucificado”. Ao que Pedro perguntou: “Serás crucificado novamente?” Mas Jesus lhe respondeu: “Não, Pedro, agora mesmo já estou sendo crucificado”. Então Pedro caiu em si e, vendo que o Senhor subia ao céu, retornou a Roma feliz de saber que seu destino seria o mesmo que o do seu Mestre.
 
Uma rápida analogia levaria a julgar a renúncia ao sólio pontifício com o mesmo rigor adotado por Dante Alighieri diante da abdicação de Celestino V, o santo papa medieval que o poeta afirma encontrar logo à entrada do Inferno (III, 58-60): 
 
Alguns já distinguira: eis, de repente,
Olhando, a sombra conheci daquele
Que a grã renúncia fez ignobilmente. 
 
Ao que parece, São Celestino — conhecido por Dante em 1294 — renunciou perante o Consistório após cinco meses de pontificado por causa de uma astuta campanha do cardeal Gaetani, destinado a sucedê‑lo com o nome de Bonifácio VIII. Desterrado e mantido praticamente prisioneiro em condições desumanas, Celestino veio a morrer dois anos depois. 
 
Mas o juízo dantesco foi paradoxalmente superado pelo juízo eclesiástico, que elevou à glória dos altares o pobre pontífice acorrentado pelas malhas da intriga. 
 
A única presunção cabível no caso de Bento XVI, um pastor consciente da gravidade do seu ato, um homem santo, dado à oração e à reflexão, é que ele sofreu muito para chegar a tal decisão e que viu mais benefícios do que prejuízos na mesma. Numa atitude franca e humilde, explicou suas razões aludindo à saúde física e espiritual que estão aquém das necessidades da Igreja neste concreto momento histórico. Portanto, mais do que indagar acerca das debilidades de Bento XVI, é preciso investigar a vulnerabilidade especial que sofre a Igreja de hoje, a ponto de o Papa optar por uma solução tão inusitada. 
 
Já se disse com muito boa intuição que, com essa renúncia, Bento XVI coroou o ciclo de abnegações que norteou a sua vida de entrega a Deus. Sem dúvida, à pergunta quo vadis, Papa?, ele poderia nos responder como o próprio Senhor: “vou a Roma para ser crucificado” ou — por que não? — “agora mesmo já estou sendo crucificado”. 
 
***
Transcrevo a passagem original do apócrifo:
 
Ὡς δὲ ἐξῄει τὴν πύλην, εἶδεν τὸν κύριον εἰσερχόμενον εἰς τὴν Ῥώμην.

Καὶ ἰδὼν αὐτὸν εἶπεν· Κύριε, ποῦ ὧδε;
Καὶ ὁ κύριος αὐτῷ εἶπεν· Εἰσέρχομαι εἰς τὴν Ῥώμην σταυρωθῆναι.
Καὶ ὁ Πέτρος εἶπεν αὐτῷ· Κύριε, πάλιν σταυροῦσαι;
Εἶπεν αὐτῷ· Ναί, Πέτρε, πάλιν σταυροῦμαι.

Καὶ ἐλθὼν εἰς ἑαυτὸν ὁ Πέτρος καὶ θεασάμενος τὸν κύριον εἰς οὐρανὸν ἀνελθόντα,
ὑπέστρεψεν εἰς τὴν Ῥώμην ἀγαλλιώμενος καὶ δοξάζων τὸν κύριον,
ὅτι αὐτὸς εἶπεν· Σταυροῦμαι· ὃ εἰς τὸν Πέτρον ἤμελλεν γίνεσθαι.
(Atos de Pedro, XXXV, 9-16)
Autor : João Carlos Nara Junior

Papa Bento 16 pintadinho de gay

Um panfleto publicitário no qual aparece uma imagem retocada do papa emérito Bento XVI com maquiagem para promover um festival cinematográfico sobre homossexualidade e religião organizado na Universidade de Milão por uma associação de estudantes causou várias críticas no país.

Na imagem é possível ver o rosto de Joseph Ratzinger com os olhos pintados com sombra verde, supercílios falsos e batom, graças a um retoque por computador.

O panfleto foi criticado nas páginas do jornal  “Il Giornale”, que considera a iniciativa “blasfema e uma ofensa para toda a comunidade católica”.

O conselheiro do partido Forza Itália na prefeitura de Milão, Matteo Forte, em declarações recolhidas por “Corriere della Sera”, destaca que se trata de “um menosprezo à autoridade religiosa”.

A resposta dos organizadores não demorou e estes afirmaram que “o verdadeiro problema não é a provocação, mas a homofobia”.

A professora Laura Boella, catedrática de Filosofia Moral na Universidade de Milão, manifestou, por sua parte, que “a escolha dos estudantes” na elaboração do panfleto “deve ser contextualizada” e aplaudiu que tenham organizado um evento sobre um assunto importante como a homofobia.

No entanto, considerou que “sempre é preciso levar em conta que efeito podem ter nossas decisões sobre aqueles que se encontram em uma posição oposta à nossa”.

Por sua vez, o jurista da Universidade Católica de Milão, Andrea Nicolussi, afirmou que não se sentiu “escandalizado” pela foto, mas declarou que a imagem representa “uma provocação paradoxal, já que quem combate a discriminação está, por sua vez, discriminando”.

“Como católico me surpreendeu o fato de que o papa emérito, como ser humano, foi tratado mal. É uma pessoa idosa que escolheu retirar-se da vida pública e sua vontade foi violada”, considerou.

A intensa atividade intelectual de Joseph Ratzinger, antes e durante o pontificado, se reflete na publicação de inúmeros artigos, discursos e livros – nem todos traduzidos para o português – que transmitem uma visão espiritual da vida cristã, enaltecendo a importância de vivenciá-la em atos, gestos e palavras cotidianas.

Em geral, pode-se fazer uma distinção entre as obras do pensador Joseph Ratzinger e as do papa Bento XVI. Como cardeal, Ratzinger tenta esclarecer questões relacionadas à fé e ao seu impacto na vida das pessoas e da sociedade.

No período, a obra apontada como uma das mais sig­­nificativas é Introdução ao Cristianismo: preleções ao sím­bolo católico, série de conferências ministradas por Ratzinger durante um curso de verão em 1967, em Tubinga (Alemanha). “Segundo o teólogo Ratzinger– e, como papa, ele sempre reiterou esse aspecto –, o Cristianismo não é o encontro com uma ideia ou uma verdade abstrata ou conceitual, mas é o encontro com uma pessoa, que confere sentido à existência”.

A partir de 2005, quando assume o pontificado, as obras de Bento XVI adotam uma postura mais universal, tentando superar eventuais idiossincrasias acadêmicas. As três encíclicas, além das catequeses e alguns documentos, como a exortação Verbum Domini, sobre a palavra de Deus na vida e missão da Igreja, são exemplos representativos do período.

Outra forma de conhecer o pensamento de Bento XVI é se basear nos livros escritos sobre ele. O papa já foi retratado em diversas obras – algumas nem sempre condizentes com a realidade –, mas é o próprio Ratzinger quem oferece o retrato mais fiel de sua vida na autobiografia parcial” Lembranças da minha vida”, lançada no Brasil em 2006 e que cobre sua vida até 1977, quando se tornou arcebispo.

As entrevistas ao jornalista Peter Seewald, apresentadas nos livros O Sal da Terra e Luz do Mundo, também são uma boa fonte para conhecer um pouco mais da riqueza intelectual e da vida de Joseph Ratzinger.

Biblioteca Ratzinger

• Introdução ao Cristianismo: Preleções sobre o Símbolo dos Apóstolos (Loyola).

O livro analisa o problema da fé e do ateísmo, discutindo a fé em Deus, na Santíssima Trindade e na Igreja Católica. É definido pela escritora australiana Tracey Rowland, autora de Ratzinger’s Faith, como “o primeiro best-seller internacional” de Bento XVI.

• Introdução ao Espírito da Liturgia (Paulinas Portugal).

Apresenta a centralidade da ação litúrgica como fonte da vida eclesial, manifesta nos sacramentos em geral, principalmente na eucaristia.

• Sal da Terra (Imago) e Luz do mundo – O papa, a Igreja e os sinais dos tempos (Paulinas).

Dois livros-entrevista – o primeiro, ainda antes da eleição de Bento XVI; o segundo, já durante o pontificado – em que o papa responde a perguntas feitas pelo jornalista alemão Peter Seewald.

• Lembranças da minha vida (Paulinas).

Autobiografia parcial, que cobre os primeiros 50 anos da vida de Ratzinger. Recomendada pelo historiador Alex Catharino como “uma fonte mais confiável do que qualquer texto escrito por terceiros” sobre a vida pessoal de Bento XVI.

• Trilogia Jesus de Nazaré (Planeta).

Nos livros da série, Bento XVI conta a vida de Jesus a partir do Evangelho, desmontando muitas especulações sobre a figura de Cristo.

• Encíclicas Deus caritas est, Spe salvi e Caritas in veritate (várias editoras), também disponíveis no site do vaticano no endereço http://bit.ly/enciclicas

• Outras obras

Via-Sacra no Coliseu – Meditações e orações de Bento XVI (Paulinas) 
Palavras do papa Bento XVI no Brasil (Paulinas)
Os apóstolos e os primeiros discípulos de Cristo (Planeta) 
A segunda primavera (Quadrante) 
Breve introdução ao catecismo da Igreja Católica (Santuário) 
Os amigos de Jesus (Thomas Nelson Brasil) – livro ilustrado para crianças
Natureza e missão da teologia (Vozes)
Perguntas e respostas (Pensamento) 
Deus Existe? (Planeta) – debate entre Ratzinger e o filósofo ateu Paolo Flores d’Arcais
Dogma e anúncio (Loyola) 
E o Verbo se fez carne – reflexões sobre o mistério do Natal (Ecclesiae) 
São Paulo – catequeses paulinas (Ecclesiae) 
Dialética da secularização – sobre razão e religião (Ideia e Letras) – debate entre Ratzinger e o filósofo Jürgen Habermas
Fé, verdade, tolerância (Raimundo Lulio)
Vocação para a comunhão (Vozes) 
A porta da fé (Paulus) 
No princípio Deus criou o céu e a terra (Principia) 
Os Padres da Igreja I: de Clemente Romano a Agostinho (Ecclesiae) 
Os Padres da Igreja II – de São Leão Magno a São Bernardo de Claraval (Ecclesiae) 
Abri as portas a Cristo – Meditações sobre João Paulo II (Lucerna) 
Os movimentos da Igreja (Principia) 
Paulo – Os seus colaboradores e as suas comunidades (Paulus) 
Pensamentos espirituais (Lucerna)
Fé e futuro (Principia) 
A fé em crise? (EPU) – entrevista dada pelo cardeal Ratzinger ao jornalista italiano Vittorio Messori

Livros sobre Bento XVI

• Joseph Ratzinger – Uma biografia (Quadrante), de Pablo Blanco.

• Meu irmão, o papa (Principia), de Georg Ratzinger.

• Chico e Bento: a vida de Bento XVI contada por um gato (Principia), de Jeanne Perego. Livro infantil que conta o cotidiano de Bento XVI a partir de seu gato de estimação

Saindo ao encontro de algumas interpretações errôneas de um vídeo que circula na internet no qual se vê o Papa Bento XVI apresentando o seu séquito ao Presidente da Alemanha durante a viagem à sua terra natal em setembro, o porta-voz do Vaticano, Pe. Federico Lombardi, explicou que não existiu falta de respeito dos bispos alemães ao Santo Padre.

No vídeo que pode ser visto no Youtube, o Papa apresenta um a um os membros de seu séquito com a mão estendida. Alguns viram nisso a intenção do Papa de cumprimentar os bispos que supostamente teriam ignorado o Papa ao não dar-lhe a mão.

Em declarações o Pe. Lombardi sublinhou que a interpretação do vídeo “segundo a qual (…) os bispos alemães faltaram com o respeito ao Papa é absolutamente infundada e ridícula”.

De fato, prosseguiu o sacerdote, “o vídeo mostra evidentemente o momento em que o Papa apresenta seu séquito –e não os bispos alemães– ao Presidente alemão na residência do mandatário”.

“A mão do Papa assinala um após o outro os membros do séquito, que saúdam o Presidente, enquanto que o Papa não espera que os membros do séquito, que viajam com ele, devam dar a mão nesta ocasião”, acrescenta.

Para esclarecer ainda mais as coisas, o Pe. Lombardi disse ao grupo ACI que “de fato, o Cardeal Bertone, o substituto Dom Becciu, o Núncio, Dom Perriset, o Bispo Dom Clemens (por muitíssimo tempo secretário pessoal do Cardeal Ratzinger) e os ceremoniários pontifícios não dão a mão ao Papa; e certamente não têm intenção de ofendê-lo”.

O sacerdote disse também que “entre os poucos que entretanto dão a mão ao Papa, embora não seja necessário, estão Dom Zollitsch, Presidente da Conferência Episcopal Alemã e Dom Woelki, o novo Arcebispo de Berlim, que são os únicos dois bispos alemães presentes no vídeo, que foram incluídos no séquito do Papa ao chegar a Berlim e que não viajaram no avião com o Papa!”

Finalmente o porta-voz do Vaticano indicou: “não tenho nada mais que acrescentar. A interpretação do vídeo que acusa os bispos alemães de faltar com o respeito ao Papa é demasiado insensata para acrescentar algo mais”.

ACI

Peter Seewald, o jornalista alemão que escreveu o livro-entrevista com o Papa Bento XVI publicado com o título de “Luz do mundo”(foto) , assinalou em um artigo no jornal italiano Il Corriere della Sera, onde descreve o Santo Padre como um pensador e um fiel radical, cuja humilde espada é a simplicidade do amor.

“Um pensador radical, esta era minha impressão, e um crente radical que ainda na radicalidade de sua fé não toma a espada, mas outra arma muito mais potente: a força da humildade, da simplicidade e do amor”, escreve.

Para o jornalista, apesar do cansaço, Bento XVI é um homem de paradoxos, vontade inquebrável, linguagem singela, voz forte, mansidão e rigor.

“Pensa muito bem, mas dispõe atenção aos detalhes. Encarna uma nova inteligência para reconhecer e revelar os mistérios da fé. É um teólogo, mas defende a fé do povo ante a religião dos acadêmicos… Um pensador que reza, e para quem, os mistérios de Cristo representam a realidade determinante da criação e da história do mundo”.

“Um amante do homem que, ante a pergunta de quantos caminhos levam a Deus, não duvida em responder: ‘Há tantos quanto os homens”.

Ninguém antes do Papa deixou ao povo de Deus uma obra tão imponente sobre Jesus –acrescenta- referindo-se à trilogia Jesus de Nazaré.
“É o maior teólogo alemão de todos os tempos”, categorizou.

Seewald assinala que a última entrevista que manteve com o Pontífice, foi há dez semanas no Palácio Apostólico, com o propósito de prosseguir a reconstrução de sua biografia. Naquela ocasião falaram, entre outras coisas, sobre a relação de Bento XVI com seus pais; de quando dissertou do exército hitleriano; e dos discos que escutava para aprender idiomas.

Durante o encontro, recorda que notou ao Santo Padre mais cansado do habitual, “a audição tinha diminuído, já não via do olho esquerdo, e o corpo se estava emagrecendo”, e “se tornou muito delicado, ainda mais amável e humilde, totalmente reservado. Não parecia doente, mas o cansaço que se apoderou de sua pessoa, corpo e alma, não podia ser ignorado por mais tempo”, acrescenta.

A primeira entrevista que uniu ambos, foi em novembro de 1992, na sede da Congregação para a Doutrina da Fé, quando o Papa ainda era o Cardeal Ratzinger.

Seewald explica que se precaveu desde o começo de sua sensibilidade sobre o conceito atual de progresso: “perguntava-se sobre se realmente se podia medir a felicidade do homem em função do produto interno bruto”, escreve.

Quatro anos depois, tiveram várias jornadas de trabalho para falar sobre o projeto de um livro dedicado à fé, à Igreja, ao celibato, entre outros temos; e explica que em sua atitude, sempre demonstrou um traço de humildade.

“Meu interlocutor não caminhava pela habitação dando voltas como costumam fazer os professores. Não havia nele o mais mínimo traço de vaidade, nem de presunção”. Além disso, o Papa “sempre levou a vida modesta de um monge, o luxo lhe era estranho e era completamente indiferente a um ambiente com um conforto superior ao estritamente necessário”, afirma.

“Impressionava-me sua superioridade, o pensamento que não ia de acordo ao passado do tempo e ao mesmo tempo, deixava-me surpreso de escutar as respostas pertinentes aos problemas de nossos tempos que aparentemente não tinham virtualmente solução, extraídos de grande tesouro de revelação, da inspiração dos Padres da Igreja e das reflexões desse guardião da fé que se sentava ante mim”, relata.

Os Vatileaks não foram motivo de renúncia para o Papa

O escritor explicou que também entrevistou o Papa em agosto passado em sua residência do verão de Castel Gandolgo, onde falaram sobre a fuga de documentos de caráter privado do Vaticano, mais conhecido como o caso Vatileaks.

“Este evento não fez que o Papa perdesse a bússola, nem lhe fez sentir o cansaço do seu cargo, ‘porque isto sempre pode acontecer’. O importante para ele era que durante o caso no Vaticano, se garantisse a independência do poder judicial, e que o monarca não possa dizer: eu me encarrego disto!’”, escreve Seewald.

“Não me deixo levar por uma espécie de desespero ou de dor universal”, “simplesmente me parece incompreensível. Inclusive tendo em conta a pessoa –Paolo Gabriele, ex-mordomo de Papa–, não entendo o que esperava. Não consigo entender sua psicologia”, disse Bento XVI em referência a seu ex-mordomo processado, condenado e posteriormente perdoado pelo Papa pelo caso Vatileaks.

Ante sobre que se podia esperar de seu pontificado, o Papa respondeu ao Seewald “De mim? Do meu (pontificado) não muito. Sou um homem ancião e as forças estão me abandonando. Acredito que basta o que tenho feito”, em referência a um hipotético retiro, acrescentou “depende do que me imponha minha energia física”.

Pequenos detalhes que comportam uma profunda mensagem

O escritor destaca também que o Papa é um homem de pequenos detalhes que encerram uma profunda mensagem. Como por exemplo que seu primeiro ato fosse uma carta dirigida à comunidade judia; que tirasse a tiara de seu emblema, símbolo do poder terrestre da Igreja; ou que nos sínodos para os bispos pedisse falar também com os hóspedes de outras religiões.

“Pela primeira vez um Papa visitou uma sinagoga alemã, e pela primeira vez um Papa visitou o mosteiro de Martin Lutero, um ato histórico sem igual”, adverte.

Outra mensagem é a supressão de beijar a mão ao Pontífice. Em uma ocasião, “um ex-aluno seu se ajoelhou para beijar-lhe o anel, tirou-o do braço e lhe disse: ‘comportemo-nos normalmente’, escreve assombrado Seewald.

Peter Seewald considera que Bento XVI é um homem de tradição, confia naquilo que está consolidado, mas sabe distinguir entre o que é verdadeiramente eterno e o que é válido só pela época em que saiu à luz.

“E se for necessário, como no Caso da Missa Tridentina, une o antigo ao novo, para que unidos não se reduza o espaço litúrgico, mas na verdade se amplie”, adiciona.

Para Seewald, o Papa foi apresentado pela imprensa internacional como um persecutor quando na verdade foi um perseguido, uma espécie de “bode expiatório ao qual atribuir qualquer injustiça”, assinala.

“Entretanto, ninguém jamais o escutou lamentar-se. Ninguém escutou dizer uma palavra maldosa ou um comentário negativo sobre outras pessoas”.

Bento XVI “se vai, mas seu legado permanece. O sucessor deste muito humilde Papa da era moderna seguirá seus passos. Terá outro carisma, seu próprio estilo, mas uma mesma missão… incentivar aqueles que unem o patrimônio da fé, que permanecem valentes, anunciam uma mensagem, e dão testemunho autêntico”, conclui.

Se vivemos em tempos sem fé e se a Igreja Católica é irrelevante e fala sozinha, segundo se apregoa, como explicar a fixação de manchetes de jornais e TV na renúncia de um papa octogenário?

Em razão do ineditismo do gesto, da sensação criada por escândalos romanos, até se compreenderia o impacto do choque inicial.

Mas, dia após dia, semanas a fio, o fascínio da história convida a buscar outros motivos.

Um deles seria a carência de uma figura paterna, sobretudo em época pobre de grandes homens, quando os líderes são, por toda a parte, mornos e insossos. Mesmo desse ponto de vista, Bento 16 se enquadra de modo diferente.

Ele não é, como o antecessor, um grande papa político, cujo papel enérgico teria sido decisivo na queda do comunismo.

Tampouco tem aquele ar bonacheirão de avô bem humorado e contador de histórias de João 23.

Seu jeito é mais do mestre escolar de sorriso tímido. Todo seu pontificado não foi mais que uma lição repetida com infinita paciência.

Nisso me lembra Julius Nyerere, o fundador da Tanzânia, que conheci bem em Genebra. Um dos raros heróis da independência africana capaz de criar um país que superou os ódios tribais, Nyerere só aceitava um título -o de Mwalimu, o singelo professor que tinha sido e jamais cessou de ser.

Nyerere ensinou que não é o exercício absoluto do poder que constrói, mas sim o exemplo da abnegação, a capacidade de se impor limites, de deixar o poder quando o julgavam insubstituível.

Da mesma forma que seu vizinho Mandela, soube sair no momento em que todos queriam que ficasse.

Não foram os grandes líderes da guerra e da paz -Churchill, Roosevelt ou de Gaulle- os gigantes morais que dominaram o século.

O ensinamento do perdão e da reconciliação de Mandela e a pregação da não violência até o sacrifício da própria vida por Gandhi ou Martin Luther King se mostraram muito mais fecundos e duráveis que os efeitos do poder.

Ninguém exerceu o poder de modo mais brutal e absoluto que Stálin, do qual nada ficou a não ser a maldição dos descendentes de suas incontáveis vítimas. O próprio ditador confessou, num instante de melancolia, que, no final, quem ganhava sempre era a morte.

Ao confessar que em horas difíceis “o Senhor parecia dormir”, ao revelar sua fragilidade, Bento 16 fez mais pela nova evangelização, alcançou mais corações que no uso dos meios do poder centralizado de pontífice.

Abrir mão da “glória de mandar”, da vã cobiça “dessa vaidade a quem chamamos fama”, faz parte do processo pelo qual o grão de trigo tem de morrer para poder dar fruto.

Sinal de contradição, Jesus legou à igreja a herança de continuar a ser a força dos fracos, a grandeza dos pequenos e humildes.

Ao encarnar de novo o signo de contradição, Bento 16 nos dá esperança de que tinha razão François Mauriac ao dizer pouco antes de morrer: “Às vezes penso que somos os últimos cristãos, mas depois me pergunto -será que somos os últimos cristãos ou seremos os primeiros?”

Rubens Ricupero, diretor da Faculdade de Economia da Faap, foi secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento), ministro da Amazônia e do Meio Ambiente, ministro da Fazenda (governo Itamar), embaixador em Genebra, Washington e Roma. Escreve quinzenalmente, aos domingos, na versão impressa de “Mercado”.

Antonio Gaspari

Desde a sua eleição, Bento XVI foi retratado como um severo guardião da ortodoxia, um ancião rígido, conservador da estrutura. Na realidade, em seus oito anos de pontificado, ele realizou uma obra de renovação, reforma e refundação da Igreja que chega a ser revolucionária.

Ratzinger ainda não era papa quando, na meditação da nona estação da via crúcis de 2005, disse: “O que pode nos dizer a terceira queda de Jesus sob o peso da cruz? Talvez ela nos faça pensar na queda do homem em geral, no afastamento de muitos de Cristo, na deriva, à mercê de um secularismo sem Deus”.

Não era uma reflexão fora do tempo. Ele salientou: “Não devemos pensar, também, no quanto Cristo tem que sofrer dentro da sua própria Igreja?”.

“Quantas vezes se abusa do Santíssimo Sacramento da sua presença! Em que vazio de corações ele tem que entrar tantas vezes! Quantas vezes celebramos apenas nós próprios, sem perceber a presença dele! Quantas vezes sua Palavra é distorcida e mal empregada!”.

“Que pouca fé existe em tantas teorias, quantas palavras vazias! Quanta sujeira há na Igreja, inclusive entre aqueles que, no sacerdócio, deveriam pertencer completamente a ele! Quanto orgulho, quanta autossuficiência! Que pouco respeito nós temos pelo sacramento da reconciliação, onde ele nos espera para nos levantar sempre que caímos!”.

“Tudo isto está presente na sua paixão. A traição dos discípulos, a recepção indigna do seu Corpo e do seu Sangue, isto é certamente o maior sofrimento do Redentor, aquele que lhe atravessa o coração! Não nos resta mais que clamar, do fundo do coração: Kyrie eleison – Senhor, salvai-nos! (cf. Mt 8,25)”.

A coragem e a força destas palavras convenceram os cardeais e o Espírito Santo a tal ponto que o cardeal Joseph Ratzinger foi eleito papa com o nome de Bento XVI.

Apesar da fragilidade de saúde e do peso dos anos, ele aceitou com alegria e fé o desafio de renovar a igreja, empurrando-a para a nova evangelização.

Ele sabia das dificuldades. Quando se apresentou na janela da basílica de São Pedro, se disse “um humilde trabalhador na vinha do Senhor”.

Poucos compreenderam. O primeiro trabalho que se faz na vinha é a poda. Como disse o núncio no Quirguistão e Tajiquistão, dom Miguel Maury Buendía em entrevista à EWTN Notícias, Bento XVI “tem feito uma limpeza do episcopado. Ele tem removido dois ou três bispos por mês em todo o mundo, porque as dioceses deles eram uma bagunça, ou a disciplina deles era um desastre”.

“Os núncios locais iam até o bispo e diziam: ‘O Santo Padre pede, pelo bem da Igreja, que o senhor renuncie’. Quase todos os bispos, quando o núncio chegava, reconheciam o desastre e concordavam em renunciar. Houve dois ou três casos em que eles disseram que não; o papa, então, simplesmente os removeu. E esta é uma mensagem para os bispos: façam o mesmo na sua diocese”.

É difícil essa tarefa da limpeza. Na homilia da sua primeira missa como papa, Bento XVI pediu aos fiéis: “Não me deixem só, rezem por mim, para que eu não fuja, com medo, diante dos lobos”.

Estas palavras fortes nos voltaram à mente quando soubemos que o mordomo do papa fotocopiava e roubava a correspondência privada do pontífice, passando-a para pessoas que usavam as informações para criar escândalo, divisões e medos.

Mas seria enganoso pensar no pontificado de Bento XVI como mero trabalho de limpeza da Igreja, ainda que heróico.

Juntamente com a poda da árvore milenar da Igreja, Bento XVI cuidou e regou as raízes e fez crescer os ramos e os brotos. Ele nos deliciou com suas catequeses semanais e com seus livros e discursos. Falou com coragem e sabedoria para os governos do mundo; tentou consertar os cismas com as várias denominações cristãs, oferecendo soluções iluminadoras; apoiou os leigos e os movimentos eclesiais, incentivou o clero e os religiosos, suscitou vocações; foi incansável em recomendar a prática da confissão e da eucaristia; empurrou toda a Igreja a se aprofundar no ano da fé, a fim de encontrar o entusiasmo para a nova evangelização.

Ciente da gravidade do momento histórico e da importância da Igreja católica para o mundo, Bento XVI se confiou à misericórdia divina, assumindo o papel de papa emérito e abrindo espaço para um conclave que elegerá um novo papa.

Agradecemos a Deus por tudo o que o nosso amado papa Bento XVI fez pela Igreja e pela humanidade, e esperamos confiadamente pela chegada do novo pontífice.

ACI


Mario Vargas Llosa, o prêmio Nobel de Literatura que se declara agnóstico e ferozmente oposto aos ensinamentos morais da Igreja, escreveu uma coluna para o mundo de fala espanhola na qual elogia o nível espiritual e intelectual de Bento XVI, e assinala que sua partida é uma perda para o mundo da cultura e do espírito.

“Não sei por que a renúncia de Bento XVI surpreendeu tanto; embora tenha sido excepcional, não era imprevisível. Bastava vê-lo, frágil e como extraviado em meio dessas multidões nas que sua função o obrigava a inundar-se, fazendo esforços sobre-humanos para parecer o protagonista desses espetáculos obviamente írritos a seu temperamento e vocação”, escreve Vargas Llosa na coluna sindicalizada pelo jornal espanhol El País, principal representante do socialismo anticlerical espanhol.

O literato peruano assinala que o Papa Bento “refletia com profundidade e originalidade, apoiado em uma enorme informação teológica, filosófica, histórica e literária, adquirida na dezena de línguas clássicas e modernas que dominava”.

“Embora concebidos sempre dentro da ortodoxia cristã, mas com um critério muito amplo, seus livros e encíclicas transbordavam frequentemente o estritamente dogmático e continham novas e audazes reflexões sobre os problemas morais, culturais e existenciais de nosso tempo que leitores não crentes podiam ler com proveito e frequentemente –me ocorreu– turbação”, adiciona Vargas Llosa.

O prêmio Nobel de literatura assinala logo que Bento XVI esteve à frente da Igreja em “um dos períodos mais difíceis que enfrentou o cristianismo em seus mais de dois mil anos de história. A secularização da sociedade avança a grande velocidade, sobretudo no Ocidente, cidadela da Igreja até faz relativamente poucos decênios”.

“Ninguém pode negar que Bento XVI tentou responder a estes descomunais desafios com valentia e decisão, embora sem êxito. Em todas suas tentativas fracassou, porque a cultura e a inteligência não são suficientes para orientar-se no labirinto da política terrestre e enfrentar o maquiavelismo dos interesses criados e os poderes factuais no seio da Igreja”.

Bento XVI, adiciona Vargas Llosa, “foi o primeiro Papa em pedir perdão pelos abusos sexuais em colégios e seminários católicos, em reunir-se com associações de vítimas e em convocar a primeira conferência eclesial dedicada a receber o testemunho dos próprios abusados e de estabelecer normas e regulamentos que evitassem a repetição no futuro de semelhantes iniquidades”.

Segundo o escritor peruano, o Papa Bento passou de ser um teólogo “progressista” durante o Concílio Vaticano II a ser “um audaz adversário da Teologia da Libertação e de toda forma de concessão em temas como a ordenação de mulheres, o aborto, o matrimônio homossexual e, inclusive, o uso de preservativos”.

“Os não crentes”, assinala Vargas Llosa, “faríamos mal em festejar como uma vitória do progresso e da liberdade o fracasso de Joseph Ratzinger no trono de São Pedro. Ele não só representava a tradição conservadora da Igreja, mas também, sua melhor herança: a da alta e revolucionária cultura clássica e renascentista que, não o esqueçamos, a Igreja preservou e difundiu através de seus conventos, bibliotecas e seminários”.

A solidão de Bento XVI e “a sensação de impotência que parece havê-lo rodeado nestes últimos anos”, conclui o prêmio Nobel “é sem dúvida fator primordial de sua renúncia, e um inquietante olhar do difícil que está nossa época com tudo o que representa a vida espiritual, a preocupação pelos valores éticos e a vocação pela cultura e as ideias”.

Segundo o Livro Guiness dos Recordes, o aplauso mais longo já registrado ocorreu dia 7 de dezembro de 2002 numa apresentação da banda alemã Grabowsky.

Os músicos foram aplaudidos continuamente durante uma hora e meia numa apresentação no Clube Altes-Brauhaus em Frankenthal, Alemanha. Após a longa homenagem, voltaram ao palco e executaram mais duas músicas.

Agora, um grupo de jovens católicos da Espanha quer bater esse recorde na despedida do papa Bento 16. Eles acreditam que é uma maneira de “agradecer e mostrar profunda gratidão pelo pontífice ter se doado integralmente no serviço da Igreja”. Através das redes sociais e do blog elaplausomaslargo.blogspot.com.br eles criaram uma espécie de flash mob virtual.

Os interessados em participar são convidados a usar uma câmera digital, pode ser a do telefone celular, e gravar seus aplausos. Depois, basta enviar a gravação para o emailelaplausomaslargo@gmail.com.  As imagens serão compiladas e postadas em um único vídeo enviado para o papa através de sua conta no Twitter dia 28 de fevereiro.

O grupo de jovens diz que espera gravações vindas do mundo inteiro de pessoas católicas e não católicas, que reconhecem a importância do papa.


Paulo Marcelo, jornalista português.

Se Ratzinger chegou com” fama” de inquisidor, Bento revelou a grandeza de um pastor universal, mostrando com gestos que “a fé não se impõe, propõe-se”.

Se o discurso do seu antecessor era sobretudo dirigido aos crentes, este Papa falou aos intelectuais, com palavras como as que dirigiu aos artistas portugueses: “fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza” (CCB, 12.5.2010). Percebem-se, por isso, os elogios dos últimos dias, a uma personalidade que não foi apenas um guia espiritual dos católicos, mas uma referência cultural da modernidade.

No seu estilo tímido, o traço mais marcante de Bento foi o combate ao relativismo. O tema da verdade – alcançável pela razão – aparece em muitos dos seus textos, onde afirma que se “desistirmos de procurar a verdade não somos plenamente humanos”.

Conta-se que quando a encíclica Caritas in Veritate foi apresentada a um grupo de banqueiros, um deles afirmou que “aceitava tudo menos que se intromessem seus negócios”. Compreende-se a reação quando se lê que a raiz da crise “não é apenas de natureza económica e financeira, mas acima de tudo de natureza moral”.

Para funcionar bem a economia precisa da ética: “há que recuperar o primado do espiritual e da ética – e o primado da política, responsável do bem comum – sobre a economia e a finança”. Veja-se como atacou a “absolutização da técnica que tende a produzir uma incapacidade de perceber tudo o que não se explica com a simples matéria.” Ou quando destacou a função social do Estado e do trabalho e face ao capitalismo radical. Talvez isto explique os muitos ataques sofridos, em especial da imprensa anglo-saxónica.

Bento XVI não procurou agradar a todos, nem ser popular. Pelo contrário, contrariou as vozes ditas “maioritárias” para se manter fiel à identidade da Igreja, não permitindo que se diluísse na espuma dos dias, por mais moderna que apareça.

“Não fui eu que mudei, foram eles”, disse Ratzinger sobre os seus ex-companheiros progressistas. Referindo-se ao Vaticano II contestou a “hermenêutica da descontinuidade e da ruptura”, propondo uma síntese de “fidelidade e dinamismo”. Mas não deixou de alertar sobre os diversos fanatismos, como em Assis (2011), quando falou da necessidadde de “purificar constantemente a religião” para evitar eventuais abusos e distorções da fé.

Sendo um intelectual, Bento mostrou sensibilidade, inclusive no sentido mais corpóreo. Veja-se o que disse após a resignação: “tenho sentido, quase fisicamente, as vossas orações, nestes dias que não têm sido fáceis”. Foi esse corpo – valorizado pelo cristianismo num Deus “encarnado” – que levou Bento a perceber as suas limitações. Também nisso revelou humanidade. Aquele que era acusado de conservador termina o pontificado com um gesto de uma normalidade revolucionária, que vai influenciar o futuro da Igreja.