Após uma audiência interminável e absurda, outra decisão tenta bradar “fim” para o menino-réu, cujo crime é lutar para respirar

É difícil dizer palavras comedidas e sóbrias diante do que parece ter sido o (enésimo) veredito de morte sentenciado pelo juiz Hayden, após uma torturantemente interminável audiência que se arrastou a portas fechadas enquanto, no hospital, o pequeno grande guerreiro Alfie Evans lutava pela vida – sem os aparelhos, desconectados ainda na noite anterior, e sem as carícias dos pais, obrigados mais uma vez a se ausentarem para enfrentar um doentio ritual judiciário que, a essa altura, parece apenas determinado a fazê-los sofrer, num edifício cercado de tantos policiais que até pareceria que ali se julgavam terroristas ou criminosos de guerra.

Uma audiência surreal

Além de virem ao caso com urgência sérias considerações sobre um sistema legal que permite que o mesmo juiz se pronuncie tantas vezes e sob tantas contestações sobre o mesmo caso, é altamente questionável, de novo, o “embasamento” da sentença de morte teimosamente mantida pelo juiz Hayden.

Não tendo ainda sido disponibilizado o texto oficial da sentença, as informações deste artigo coletam dados veiculados por vários meios informativos britânicos e italianos, em especial os publicados por Josh Halliday, correspondente do jornal The Guardian em Manchester, cidade onde aconteceu a audiência de hoje.

Quando Paul Diamond, advogado da família Evans, pediu a autorização para retirar Alfie do hospital afirmando que isto seria “simplesmente uma demonstração de humanidade e bom senso“, o juiz o acusou de usar uma linguagem que, segundo ele, é “uma ridícula irracionalidade emocional” (!)

Não contente, Hayden ainda declarou não querer “que o tribunal seja usado como vitrine para banalidades e palavrórios, mas sim para uma apresentação adequada” em nome da família de Alfie.

O juiz também usou a expressão “malign hand” (“mão maligna“) para (des)qualificar o estudante de direito Pavel Stroilov, que teria aconselhado Tom Evans a processar médicos do hospital Alder Hey por tentativa de homicídio. Como se fosse advogado do hospital em vez de juiz neutro e imparcial, Hayden afirmou que a instituição tem oferecido a Alfie nada menos que “world class care“, ou seja, “cuidados de primeiro mundo“.

                                                                                                                           O juiz Hayden 

Depois disto, o advogado do hospital afirmou que os médicos teriam comunicado aos pais de Alfie, ontem à tarde, que o bebê poderia sobreviver “minutos, horas ou mesmo dias” após a remoção do suporte vital, quando o fato verdadeiro é que os médicos pretendiam aplicar-lhe Fentolyn e só não o fizeram porque Thomas Evans, o pai herói, levantou a voz para impedi-los de assassinar o pequeno Alfie por overdose. “A eutanásia“, advertiu o prudente e jovem pai de 21 anos, “é ilegal neste país“.

Fatos e versões

Ainda a respeito de fatos e versões sobre o que realmente aconteceu em torno àquele quarto de hospital nesta madrugada e nesta manhã, é relevante – e assustador – observar questionamentos e perplexidades, em meio ao fluxo desencontrado de notícias, sobre a suposta ação do juiz Hayden no começo deste dia para mandar retirar da internet as declarações em que Tom, falando à imprensa, contou ter conversado de coração aberto com os médicos, na madrugada, e ouvido deles próprios a seguinte admissão: “Tom estava certo; Tom tinha sempre estado certo“. Obviamente, se Tom estava certo, o juiz estava errado.

Voltando à sentença desta tarde: é também chamativo que o juiz Hayden tenha descartado a transferência de Alfie para Roma, quando, ao mesmo tempo, pediu que o hospital considerasse autorizar os pais a levarem o bebê para casa. Ora, se for reconhecido aos pais, finalmente, o direito óbvio de retirar o filho do hospital, o que exatamente os impediria de levá-lo a outro hospital, no lugar que bem entendessem, fosse em Roma ou em qualquer outra cidade? Eles poderão levar Alfie para casa, mas estarão proibidos de levá-lo a um hospital?

Hospital e juiz ainda tiveram tempo de criticar, durante a audiência, algumas pessoas do entorno da família Evans que, segundo eles, seriam responsáveis ​​por “alimentar falsas esperanças“. O juiz chegou a referir-se a uma dessas pessoas como “um jovenzinho fanático e iludido“. Estes, acaso, serão termos técnicos do jargão jurídico? Não era este juiz quem estava acusando o advogado dos Evans de “ridícula irracionalidade emocional“?

Vitimismo e subjetivismo médico

Falando em irracionalidade, um médico da equipe que “tratou” de Alfie durante esta noite (e as aspas são imprescindíveis) informou ao tribunal que o hospital só poderia liberar o bebê para ir para casa em no mínimo 3 a 5 dias, mas que a “hostilidade para com os médicos” torna isso “impossível no momento“. O doutor ainda agregou que “é de partir o coração que precisemos justificar o fato de querer o melhor para a família de Alfie” (!)

Para um juiz que acusou o advogado dos Evans de “ridícula irracionalidade emocional“, acaso essas declarações do médico são exemplo de linguagem científica, objetiva, a ser aceita como informação técnica?

O médico declarou que a equipe está “com medo” da agressividade contra eles. Estamos falando dos médicos de um hospital em que pelo menos 40 policiais estiveram de guarda só na madrugada de ontem, enquanto Alfie lutava pela vida respirando sozinho depois que um juiz decretou que os seus pais não podiam impedir os médicos de lhe desconectarem os aparelhos de ventilação artificial! E são os médicos os que estão com medo?

O caso é que, sob intensa pressão político-diplomática, sob o escrutínio internacional e espumando de raiva, o juiz se revelou assustadoramente carente de embasamento técnico e até de formas equilibradas de se referir às pessoas envolvidas no drama que ele é pago para julgar com imparcialidade: ao mesmo tempo em que tentou ridicularizar os jovens pais, os seus familiares e o seu advogado ao acusá-los de “irracionalidade emocional” e de “ilusão fanática“, acatou um discurso puramente vitimista e subjetivo de um médico que deveria ter argumentado com informações objetivas sobre o real quadro de Alfie.

De volta ao mundo real e brutal do hospital

Enquanto esses mesmos “doutores” procuram segurar o bebê no hospital o tempo necessário para que ele morra, quem teve de limpar o catarro de Alfie nesta madrugada foram os seus próprios pais – e não os enfermeiros e enfermeiras da instituição que parece esmerar-se muito mais em enredos jurídicos do que em cumprir a sua missão de salvar vidas humanas. Mais chocante: Tom declarou que foram ele e Kate que tiveram de fazer respiração boca-a-boca em Alfie quando os seus lábios ficaram azuis após a extubação, e não as enfermeiras e enfermeiros do hospital.

Ao encaminhar para a nossa redação as informações usadas nesta matéria, o enviado especial de Aleteia Itália à Inglaterra, Giovanni Marcotulio, testemunhou:

“Enquanto escrevo, estão atrás de mim os tios e os avós de Alfie. Eles tentam matar a ansiedade fazendo o esforço descomunal de sorrir em silêncio. São pessoas simples e boas”.

São o tipo de pessoa que o juiz Hayden define como “fanáticas e iludidas”.

Aleteia

A batalha pela vida prossegue hoje: se a entubação foi desconectada como a “justiça” havia decretado, o que mais impede a transferência para Roma?

A “justiça” britânica se reconfirmou chocantemente, irracionalmente e teimosamente incomovível diante de todas as argumentações lógicas a respeito dos legítimos direitos de Alfie Evans e dos seus pais, Tom e Kate, tanto no sentido de não os impedir de procurarem um diagnóstico mais objetivo em outra instituição hospitalar quanto no sentido de não atropelar a sua liberdade supostamente garantida de transferirem o próprio filho para o hospital que bem entendessem.

Negando todos os recursos e mostrando-se endurecida também diante dos extraordinários esforços diplomáticos do Vaticano e da Itália, a “justiça” britânica, revelando-se digna do totalitarismo soviético, decretou o imediato desligamento dos aparelhos que ajudavam a manter vivo o bebê de 2 anos em Liverpool.

Ontem à noite, às 22h30 de Londres (18h30 de Brasília), os aparelhos foram desconectados.

MAS…
Alfie Evans de olhos abertos

Os seríssimos profissionais do hospital pediátrico inglês, a cuja palavra a “justiça” do país havia praticamente atribuído caráter de revelação divina, tinham profetizado que Alfie sobreviveria no máximo algumas dezenas de minutos a partir do desligamento do suporte vital.

Alfie sobreviveu a noite inteira sem os aparelhos. Alfie continua vivo até agora!
Seu bravo pai, Thomas, demonstrando da altura dos seus 21 anos de idade um grau de maturidade, hombridade e firmeza com que a maioria dos médicos e juízes envolvidos nesta sanha assassina parecem jamais ter sonhado na vida, peitou mais uma vez a equipe do hospital e a proibiu de aplicar ao filho as drogas que deveriam sedá-lo. A respeito de uma delas, o Fentanyl, Tom trovejou:

“Usam isso para os condenados à morte!”

E deixou bem claro, com toda a bravura de um pai que já desafiou a tudo e a todos para defender o seu filho:

“Vocês não vão drogar o meu filho até a morte. Isto é ilegal no Reino Unido”.

Tom conseguiu. Alfie não foi drogado e, por isso mesmo, não foi morto.

Alfie está vivo e seus pais terão hoje uma enésima audiência com a “justiça” britânica às 15h30 de Londres (11h30 de Brasília). Eles vão voltar a repetir o óbvio até que aconteça o milagre do entendimento: o bebê está vivo, está respirando sem estar entubado e tem direito a pelo menos receber hidratação e oxigênio.

Será possível que até isto vai ser negado pela “justiça” britânica, esta sim doente gravíssima de ideologia do descarte?

Continuemos orando por Alfie e pelos seus pais incansáveis. Oremos pela mente e pelo coração das autoridades envolvidas. Continuemos suplicando o milagre.

Fonte: Aleteia

Entenda o caso do bebê que esteve no centro de uma luta entre família e hospital

Quase dez meses após a morte de Charlie Gard, um bebê britânico com uma doença degenerativa que esteve no centro de uma batalha judicial entre seus pais e o hospital em que estava internado, a história se repete com Alfie Evans, de quase dois anos de idade, e seus pais Tom Evans e Kate James. A custódia do bebê, que está em estado semivegetativo, é objeto de disputa entre os pais e o Hospital Pediátrico Alder Hey, em um caso que está tomando grandes proporções e recebeu nos últimos dias a intervenção do governo italiano e do Papa Francisco.

O que se sabe sobre o estado de saúde de Alfie é que ele tem uma condição neurológica degenerativa. O diagnóstico preciso não é conhecido, mas o bebê já sofreu um dano neurológico severo e irreparável, que ainda prossegue. Alguns especialistas acreditam que ele tenha a mesma condição mitocondrial que Charlie Gard tinha – uma doença rara sem cura conhecida que provoca progressiva degeneração neuronal e enfraquecimento muscular.

A equipe médica do hospital considera que qualquer tratamento será “fútil” e “inumano”, devido ao fato de que os exames mostraram uma “degradação catastrófica do tecido neuronal”. Os pais, porém, lutaram em todas as instâncias do Judiciário para que o suporte artificial à vida de Alfie não fosse descontinuado e o bebê pudesse ser transferido para outro hospital, na esperança de ter sua condição diagnosticada com exatidão. Entenda como o caso de Alfie se desenrolou:

Maio de 2016

Alfie nasceu em 9 de maio de 2016. Em seus primeiros sete meses de vida, ele parecia ter dificuldades em seu desenvolvimento. Quando os seus pais perceberam que ele fazia movimentos parecidos com convulsões, procuraram os médicos, mas apenas ouviram que Alfie teria um desenvolvimento mais tardio.

Dezembro de 2016

Alfie foi internado no Hospital Pediátrico Alder Hey, em Liverpool, depois de uma infecção no peito que lhe causou convulsões. Sua respiração passou a ser mantida por aparelhos. Alfie superou em seguida a infecção no peito e voltou a respirar sozinho. Ele teve, porém, uma nova infecção e precisou novamente de ventilação artificial.

Junho de 2017

Na efervescência do caso de Charlie Gard, Tom Evans contou a um jornal de Liverpool que temia que o mesmo acontecesse com Alfie e o hospital iniciasse uma batalha legal para desligar os aparelhos que mantêm o bebê vivo.

Dezembro de 2017

A equipe do hospital comunicou aos pais de Alfie que todas as opções se esgotaram e deixou clara a sua oposição à transferência do bebê para outro local. O hospital pediu à Alta Corte de Justiça permissão para desligar a ventilação artificial de Alfie.

1º de fevereiro de 2018

A Alta Corte abriu o caso e começou a ouvir médicos, advogados e os pais de Alfie.

20 de fevereiro

O juiz Anthony Hayden emitiu a decisão de que o suporte artificial à vida de Alfie não deve ser continuado, argumentando que isso corresponde ao “melhor interesse” do bebê.

6 de março

A Corte de Apelação recusou um recurso dos pais de Alfie, que decidiram então remeter o caso à Suprema Corte.

20 de março

A Suprema Corte afirmou que se recusa a ouvir o caso.

28 de março

O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos também recusou intervir no caso.

4 de abril

O Papa Francisco publicou um tuíte dizendo: “É minha sincera esperança que seja feito todo o possível para continuar acompanhando o pequeno Alfie Evans e que o profundo sofrimento de seus pais seja ouvido. Estou rezando por Alfie, por sua família e por todos os envolvidos”.

12 de abril

Depois de centenas de pessoas protestarem em frente ao hospital, a Corte de Apelação decidiu ouvir novamente o caso.

16 de abril

Os juízes da Corte de Apelação decidem novamente a favor da decisão do hospital. Tom Evans recorreu mais uma vez à Suprema Corte.

18 de abril

O Papa Francisco recebeu Tom Evans no Vaticano. Depois, na audiência geral costumeira das quartas-feiras na Praça de São Pedro, chamou a atenção para o caso do bebê. “Gostaria de repetir e confirmar, com força, que o único dono da vida, do início ao fim natural é Deus”, disse o pontífice. O Hospital Pediátrico Bambino Gesù, de Roma, que pertence ao Vaticano, reafirmou sua disponibilidade para receber Alfie.

No mesmo dia, a Conferência dos Bispos Católicos de Inglaterra e Gales publicou uma nota dizendo que reconhece a “integridade” de todos os envolvidos no caso. “O profissionalismo e o cuidado pela criança, severamente doente, mostrados pelo hospital precisam ser reconhecidos e afirmados”, disse o comunicado. “Com o Santo Padre, rezamos para que, com amor e realismo, tudo possa ser feito para acompanhar Alfie e seus pais em seu profundo sofrimento”.

20 de abril

A Suprema Corte britânica se posicionou em concordância com os médicos, rejeitando um recurso interposto pelos pais de Alfie. “O hospital deve ser livre para realizar aquilo que foi determinado como do melhor interesse de Alfie”, disse um comunicado dos três juízes que emitiram a decisão. No mesmo dia, os bispos do estado do Rio de Janeiro publicaram uma carta manifestando “incondicional apoio à família do pequeno Alfie Evans”.

22 de abril

Tom Evans enviou uma carta à rainha Elizabeth II, pedindo a sua intervenção no caso. Não houve resposta.

 23 de abril

A Corte Europeia dos Direitos Humanos se recusou novamente a intervir no caso. No mesmo dia, o governo italiano concedeu a cidadania de seu país a Alfie, na esperança de evitar a ventilação artificial e de transferi-lo para um hospital na Itália.

O papa voltou a tuitar sobre o caso. “Renovo meu apelo para que seja ouvido o sofrimento de seus pais e seja satisfeito seu desejo de tentar novas possibilidades de tratamento”, disse.

Por volta das 21:15 horas locais (17:15 no horário de Brasília), Alfie teve removida a ventilação artificial. Até o fechamento dessa matéria, ele ainda respirava sozinho.

Fonte: Sempre Família

Quando o padre estendeu a mão e tocou com ternura o rosto do menino, não consegui me controlar. E isso só se intensificou. Quando o Papa Francisco chamou o relutante Emanuele para perguntar baixinho onde estava seu amado pai depois da morte, eu chorava tanto que as outras pessoas na fila do Starbucks tiraram os olhos do celular. Eu pedi desculpas pela exposição, murmurando, e continuei vendo o resto das incríveis filmagens do Papa Francisco sendo pastoral: um bom pastor, com o menor cordeiro no colo, perto do coração. Emanuele queria saber: será que seu pai estava mesmo no céu, mesmo sendo descrente?

Por que eu chorava? Por que este videozinho de um senhor sendo simpático com um garotinho me tocou e tocou muitas outras pessoas tão profundamente? Acho que foi porque Francisco nos mostrou como arriscar ao simplesmente abraçar o mundo que sofre. Sem explicação, apenas amor. Assim é o amor em ação, ele fala conosco de uma forma que as palavras não conseguem. Francisco corta a distância entre o Papa e a criança, entre o crente e o incrédulo, e chega ao núcleo: somos humanos.

Francisco se recusa a não estar presente para um coração ferido.

Quando o Papa Francisco diz que “Deus é o único que diz quem vai para o céu”, ele evita se colocar acima de Deus ou idolatrar as nossas regras humanas e nossa compreensão limitada de Deus. Ele escolhe agir com base no que ele sabe de Deus, em vez de limitá-lo conjecturando sobre a vida após a morte. Sim, continua sendo verdade — de acordo com nosso melhor palpite e nossa tradição cuidadosamente pensada, com base no Evangelho e no consagrado Catecismo da Igreja Católica — que “os que morrerem na graça e na amizade de Deus e estiverem perfeitamente purificados, viverão para sempre com Cristo” (Nº 1023). E isso colocaria o pai de Emanuele, um ateu, fora da possibilidade de ir para o céu.

Mas “Deus é o único que pode dizer quem vai para o céu”. Não é o Papa, nem eu, nem você, mas Deus.

Assegurar a Emanuele que um Deus amoroso aceitaria seu pai no céu diz mais sobre Deus do que sobre o céu. A realidade é que não sabemos muita coisa sobre o céu. Mas sabemos muito sobre Deus. E espero que possamos concordar que Deus é amor. Não apenas porque encontramos essa afirmação de forma clara nas Escrituras, mas porque é assim que vivenciamos Deus em nossas vidas. E quase todas as especulações sobre a vida após a morte é estruturada pelo que pensamos sobre Deus. 

Estamos dispostos a deixar Deus ser Deus? E se acreditamos que Deus é amor, podemos seguir em frente e acreditar que Ele vai fazer a coisa certa. É muito difícil que o amor não seja amável. Sabemos se nossos entes queridos estão no céu? Lembre-se de que dizemos que são nossos entes queridos não só porque nós os amamos, mas porque Deus os amou primeiro e continua a amá-los. Então podemos continuar confiando no amor de Deus.

Às vezes é possível contrastar a verdade técnica da doutrina da Igreja com sua aplicação pastoral. Mesmo que o povo de Deus não possa lidar com a verdade, sendo melhor alimentado com banalidades fracas em termos do amor de Deus. E eu não acho que o Papa Francisco tenha feito isso com o jovem Emanuele. Ele não estava apenas sendo simpático, evitando dizer a um menino a verdade nua e crua de que seu pai não estava no céu. Não é assim que funciona.

Uma resposta pastoral é articular a doutrina da Igreja diante da vulnerabilidade humana. É destacar da doutrina os ingredientes básicos do amor e do acolhimento — na forma do convite permanente para seguir a Cristo em uma relação radical com o mundo. E isso nos move. Vemos nosso líder amando de uma forma que queremos amar, sendo vulnerável e confiando assim como queremos confiar. E se o Papa consegue resistir a incorporar o Deus Todo-Poderoso, será que nós não podemos tentar?

Jack Bentz, S.J., em artigo publicado pela revista América.

O filme “Paulo: Apóstolo de Cristo” foi aclamado por bispos de todo o Brasil durante a 56ª Assembleia Geral da CNBB, realizada de 11 a 20 de abril, em Aparecida (SP). A pré-estreia aconteceu no auditório da TV Aparecida. Em seção exclusiva, o episcopado teve a oportunidade de assistir o longa e se emocionar com a história. É o caso do bispo da diocese de Bom Jesus da Lapa (BA), dom João Santos Cardoso, que classificou o filme como “fantástico”.

“Eu considero que o filme fez uma interpretação dos escritos paulinos e também de fatos narrados pelos Atos dos Apóstolos. Ele retrata a prisão, num ambiente sombrio e vários outros momentos sombrios que mostram o contexto difícil numa época em que os cristãos eram trucidados, porém testemunhavam a fé e o amor. Depois, num ambiente de luz do filme, são os momentos de saída, que é Cristo”, afirmou o bispo.

Outros dois bispos concordaram que o longa é destinado tanto para cristãos, como para pessoas de outras religiões, ou até mesmo aos que não têm crença. Dom Eduardo Pinheiro, bispo de Jaboticabal (SP), afirmou que este “é um filme que não só os cristãos, mas todas as pessoas que têm uma noção do que significa entregar a própria vida por um ideal vão se sentir tocadas”.

“A vida de São Paulo toca a vida de cada um de nós. Diante dos sofrimentos dele e dos outros, num mundo em que quer mostrar a vida no imediato, esse filme acaba provocando em nós um pensamento naquilo também que vem depois da vida”, disse. “Se não há um ideal, um sonho, uma esperança na eternidade, o sofrimento e a vida não tem sentido. Acredito que esse filme pode ajudar muita gente”, complementou o bispo.

Dom Giuliano Frigeni, da diocese de Parintins (AM), também destacou que o longa vale para pessoas de várias crenças. “Eu acho que vale para cristãos, padres, bispos, ateus, agnósticos, porque o filme não descarta nenhuma pessoa, todas elas reagem segundo aquilo que acreditam. Seja o imperador, sejam os soldados a serviço do império, como os próprios cristãos que perderam suas casas, mas que conseguem descobrir o valor da vida com o testemunho de Paulo”.

Para o bispo foi genial Paulo ser representado já no fim da vida, mas ao mesmo tempo rever sua história, enquanto comunica suas experiências a Lucas, que por sua vez, não faz um papel apenas de escrivão, mas entra de vez na vida do apóstolo. “Agora quem ler o Evangelho de Lucas e o Atos dos Apóstolos, depois desse filme, lerá com um gosto e um proveito muito maior”, destaca dom Giuliano.

O filme

O longa retrata a história de Paulo, conhecido como um dos perseguidores de cristãos mais cruel de seu tempo. Mas, tudo muda quando ele tem um encontro com o próprio Jesus e, a partir desse momento, o jovem se torna um dos apóstolos mais influentes do cristianismo.

CNBB

O Papa Francisco nomeou este sábado três mulheres como consultoras da Congregação para a Doutrina da Fé, um dos organismos mais importantes da Cúria Romana.

As escolhas do Papa recaíram sobre a italiana Linda Ghisoni, susbcertária do Dicastério para os Leigos, Família e Vida (Santa Sé), especialista em Direito Canônico ( Abaixo)

 

Michelina Tenace, professora de Teologia na Universidade Pontifícia Gregoriana, de Roma (abaixo) 

 

 

e a belga Laetitia Calmeyn, professora de Teologia no Colégio dos Bernardinos, em Paris.

 

Em fevereiro, Francisco tinha nomeado a irmã Carmen Ros Nortes como nova subsecretária da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica (Santa Sé).

Em novembro de 2017, o Papa tinha nomeado duas mulheres como subsecretárias do novo Dicastério para os Leigos, Família e Vida (Santa Sé): a já referida Linda Ghisoni e e Gabriella Gambino, professora de Bioética.

A presença feminina na Santa Sé inclui responsabilidades nos departamentos da Cúria Romana e nas áreas dos arquivos, da história e da comunicação social.

Atualmente, a jornalista espanhola Paloma García Ovejero é vice-diretora da Sala de Imprensa da Santa Sé; Margaret Archer preside à Pontifícia Academia de Ciências Sociais; Barbara Jatta é a primeira diretora dos Museus Vaticanos desde janeiro de 2017.

Fonte: Cirios de Nazaré

O arcebispo emérito de Milão, Angelo Scola, participou da apresentação do livro de Massimo Borghesi intitulado Jorge Mario Bergoglio. Una biografia intellettuale (Ed. Jaca Book), (imagem acima) organizada pelo Centro Cultural de Milão.

Ao lado dele, além do autor do livro, estava o encarregado da vice-presidência da Pontifícia Comissão para a América Latina, Guzmán Carriquiry Lecour. Foi uma das primeiras saídas públicas do cardeal, depois de deixar a liderança da diocese. E foi também a oportunidade, graças ao livro de Borghesi, para desfazer aquelas que Scola chama de “lendas urbanas” sobre o Papa Bergoglio, seu pensamento, sua formação teológica.

Carriquiry – que teve um papel de interface entre Borghesi e o papa para com que o autor obtivesse as quatro preciosas gravações de áudio nas quais Bergoglio responde às perguntas do professor – começou lembrando “a abundância de publicações” que dizem respeito ao atual pontífice, uma abundância que muitas vezes dificulta distinguir e “hierarquizar” as várias contribuições.

Ele não poupou críticas à “superexposição midiática” do papa e à “autorreferencialidade” de muitas contribuições, que tendem “a separar a sua figura do povo de Deus”, tornando-o quase um super-herói. Tentativas de sinal diferente e às vezes oposto, que têm o efeito de olhar para o dedo que indica a lua, em vez da lua, isto é, para a pessoa e a personalidade do pontífice, em vez da sua mensagem.

“O livro de Borghesi – continuou – se separa claramente de toda essa superabundância de títulos e contribuições, e ajuda a conhecer melhor a sua personalidade, não apenas intelectual.” Carriquiry recordou que “o Papa Francisco não tem a pretensão de se definir como ‘teólogo’” e que a sua mensagem consegue passar graças à “gramática da simplicidade, que nunca é simplismo”, porque “se concentra no essencial”.

As raízes dessa abordagem, evidente no documento programático do pontificado, a exortação Evangelii gaudium, devem ser buscadas no documento final de Aparecida, redigido ao término do encontro do episcopado latino-americano no santuário mariano mais importante do Brasil, em 2007.

Por fim, o encarregado da vice-presidência da Pontifícia Comissão para a América Latina, de origem uruguaia, mas que passou a maior parte de sua vida trabalhando na Cúria Romana, lembrou a “tolice daqueles ambientes que olham de cima para baixo para o ‘papa latino-americano’”, com a mesma atitude daqueles que, no início do pontificado de João Paulo II, olhavam com arrogância para o “papa polonês”.

Tomando a palavra, o cardeal Scola sublinhou acima de tudo a importância do encorpado volume de Borghesi – embora lamentando com um sorriso o corpo tipográfico escolhido, “um pouco pequeno demais para quem tem a minha idade” – e o definiu como “um empreendimento difícil e complexo”, com “um resultado precioso para a Igreja universal”.

O papado de Francisco, explicou o arcebispo emérito de Milão, assumindo a imagem usada muitas vezes pelo pontífice, “é um papado poliédrico, e é um magistério poliédrico”. Scola disse que o livro de Borghesi ajuda “a superar certas lendas urbanas” e ressaltou que o pensamento de Francisco é “muito sólido”. “É preciso desfazer um preconceito – continuou –, aquele de acordo com o qual um pensador católico, especialmente um teólogo, deve necessariamente ser um acadêmico. Não é assim”.

Os papas teólogos são uma exceção na série dos sucessores do apóstolo Pedro e, em todo caso, explicou Scola, “não é necessário que um pensamento forte venha de um acadêmico”. Depois, o cardeal se deteve na novidade representada pelo primeiro papa latino-americano que, com seu modo de testemunhar a fé, envolve também os mais distantes com uma abertura de 360 graus, “que passa muito através dos gestos e das imagens, e não apenas através das palavras, como, ao contrário, nós, europeus, estamos acostumados”, herdeiros de visões intelectualistas.

E aqui Scola fez uma pergunta sobre a recepção do pontificado a cinco anos da eleição de Francisco, que representou “um soco no estômago ou, melhor, um despertador para nós”. “Eu não sei o quanto assumimos esse despertador, ou o quanto ainda estamos nos defendendo do desafio que ele representa.” Com atitudes que, em vez de levar a sério o testemunho do papa, a conversão pastoral que ele pediu a toda a Igreja, são de defesa e, às vezes, tentam reduzir o pontificado ou de enquadrá-lo nas cômodas categorias do latino-americano que não entende a Europa, em vez de se deixar pôr em discussão.

O cardeal recordou depois que, nos anos 1960 e 1970, os futuros membros da Companhia de Jesus eram educados durante ao estudo aprofundado de pensadores importantes, bem identificados no livro de Borghesi, como Erich Przywara, Henri de Lubac, Gaston Fessard e Romano Guardini. “A formação do Papa Francisco– explicou Scola – é uma formação não acadêmica, mas nem por isso menos sólida.”

O arcebispo emérito de Milão concluiu dando alguns exemplos da influência desses autores, alguns dos mais citados no livro, lembrando também o tema da polaridade e do “pensamento tensionador” caro a Bergoglio, que o busca em Fessard e em Guardini, propondo a imagem de uma Igreja inclusiva, englobante e capaz de unir os polos opostos sem anulá-los. E lembrou também que, a partir dos anos 1990, o então arcebispo Bergoglio conhecera os textos do Pe. Luigi Giussani.

No seu agradecimento final, Borghesi contou brevemente alguns dos resultados da sua viagem através do pensamento dos mestres sobre os quais Bergoglio foi formado. A formação intelectual do futuro papa permite “compreender o olhar complexo e poliédrico que guia o atual pontificado. Tendo-se formado na escola dos jesuítas, dos franceses em particular, Bergoglio assimilou a mensagem de Santo Inácio através da leitura, ‘dialética e mística’ ao mesmo tempo, de um dos mais importantes filósofos do século XX: Gaston Fessard. Daí surge a ideia do catolicismo como ‘coincidentia oppositorum’que o leva ao encontro com a antropologia polar de Romano Guardini e com o pensamento do mais relevante intelectual católico latino-americano da segunda metade do século XX: Alberto Methol Ferré”.

Entre os exemplos citados no livro, está o que diz respeito à “relação entre graça e liberdade, entre ação divina e humana”, que “demonstra estar vivo apenas como pergunta e não como uma fórmula ‘perfeita’: trata-se de uma persuasão que estará no centro do pensamento de Bergoglio. Sua crítica ao ‘doutrinarismo’, ao dogmatismo abstrato, à petrificação da Revelação se originam a partir daqui: da ideia de que a fé, antes de ser uma resposta, é uma pergunta, uma abertura do coração a uma Presença de graça. Essa pergunta deve ser vivida, deve se tornar experiência, verificação de uma relação real, entre o ser humano e Deus, no cenário da história”.

Do encontro milanês, além do evidente convite à leitura do livro, surgiu principalmente uma modalidade autenticamente eclesial de se relacionar com o papa (com o atual, assim como com todos os outros), a partir não do preconceito ou do juízo pessoal sobre este ou aquele aspecto do pontificado, mas sim a partir do olhar de fé e, portanto, da pergunta sobre o passo que o Espírito Santo pede que cada um dê, levando a sério o testemunho e o magistério do sucessor de Pedro.

Fonte: Vatican Insider

Os costumes da sociedade contemporânea “a fizeram recair em cheio no paganismo e na completa idolatria do sexo”

O frei Raniero Cantalamessa é o pregador da Casa Pontifícia. Tem cabido a ele, nos últimos anos, dirigir as reflexões de Quaresma do Papa Francisco e dos membros da Cúria Romana. Este ano, na Capela Mãe do Redentor, no Vaticano, as suas meditações partiram do convite “Revesti-vos do Senhor Jesus Cristo” (Rm 13,14).

Na quinta e última pregação de Quaresma deste ano, o sacerdote fez significativas considerações sobre os costumes da sociedade contemporânea que “a fizeram recair em cheio no paganismo e na completa idolatria do sexo”. Segundo o padre Cantalamessa, tenta-se justificar “toda licença moral e toda perversão sexual” com a ideia de que vale tudo “enquanto não houver violência contra os outros e não se lesar a liberdade de alguém“. O problema desse tipo de alegação já começa no próprio conceito de “violência” e “liberdade”, que, nesses contextos, são bastante questionáveis. O frade observa: “É destruída a família com uma leviandade extrema e se diz: ‘Mas o que é que tem? Eu tenho o direito de procurar a minha felicidade!’“.

A partir dos escritos de São Paulo, Cantalamessa refletiu sobre a dissolução sexual, à qual o Apóstolo contrapõe “a arma da luz e da pureza”. O frade capuchinho comentou:

“Sem dúvida, alguns juízos da moral sexual tradicional foram revistos e as modernas ciências humanas contribuíram para iluminar certos mecanismos e condicionamentos da psicologia humana, que tiram ou reduzem a responsabilidade moral de determinados comportamentos que, há um tempo, eram tidos logo como pecado, até mortais”.

Contudo, o progresso humano “nada tem a ver com este pansexualismo de certas teorias permissivas, que tendem a negar toda norma objetiva no campo da moral sexual, reduzindo tudo a um fato de evolução espontânea dos costumes, isto é, a um fato da cultura”.

“Se consideramos de perto o que veio a ser chamada de ‘revolução sexual’ dos nossos dias, percebemos, com horror, que ela não é simplesmente uma revolução contra o passado, mas, frequentemente, contra Deus e a natureza humana. [A sexualidade] não é mais pacífica; [foi transformada numa] força ambígua e ameaçadora, que nos arrasta contra a lei de Deus a despeito da nossa própria vontade”.

Esta realidade é demonstrada pela crônica cotidiana dos escândalos, mesmo entre o clero e as pessoas consagradas, sublinhou Cantalamessa. Ele recorda o estímulo do Espírito Santo a testemunharmos ao mundo “a inocência originária das criaturas e das coisas”, de modo a romper esta espécie de “narcose e embriaguez do sexo“. É preciso “restaurar no ser humano a nostalgia da inocência e da simplicidade, que ele carrega forte no coração”.

O frei Cantalamessa também citou as palavras de São Paulo, quando ele dizia que “não é lícito dar-se ao impudor; não é lícito vender-se”. De fato, os termos gregos ligados à palavra “porneia”, que dá origem ao nosso termo “pornografia”, têm o sentido de “vender-se”. E o Apóstolo, usando esse termo para quase todas as expressões de dissolução moral, nos diz que, em toda devassidão, não apenas na prostituição propriamente dita, há um aspecto venal, um vender-se – nem sempre em troca de dinheiro, mas, muitas vezes, em troca do prazer como fim em si mesmo, rebaixando a nós próprios e aos outros ao nível de mera mercadoria.

Em referência à pureza cristã, o capuchinho enfatizou que ela não consiste tanto em estabelecer “o domínio da razão sobre os instintos quanto o domínio de Cristo sobre toda a pessoa, razão e instintos”. E acrescentou:

“A pureza não se baseia no ‘desprezo do corpo’, mas, pelo contrário, na grande estima da sua dignidade. É um estilo de vida, mais do que uma virtude apenas, que envolve não só o corpo, mas também o coração, a boca, os olhos, o olhar”.

Em suma, a pureza cristã é um estilo de vida pleno, que nos envolve e realiza integralmente.

Aleteia

O Parlamento Português aprovou no dia 13 de abril uma lei que permite a mudança de sexo no registo civil aos 16 anos apenas mediante requerimento e sem necessidade de recorrer a qualquer relatório médico, o que desencadeou uma resposta enérgica da Associação dos Médicos Católicos Portugueses (AMCP), que considera que a dispensa de um parecer médico se reveste de uma enorme gravidade em termos de saúde pública e afirma que a lei tem mais fundamento na ideologia de gênero que na ciência ou na medicina.

Segundo um recente comunicado da Associação, “a lei aprovada exclui a medicina, não tem qualquer base científica, já que não se apoia em qualquer diagnóstico médico de disforia de género, e dispensa o tratamento médico necessário para estes casos”.

“A história ensina-nos que sempre que a medicina se subjugou à ideologia, os resultados foram desastrosos para a humanidade, pelo que a AMCP apela ao Sr. Presidente da República para que vete esta lei”, asseveram os médicos católicos.

Além disto, a AMCP diz que é estranho que seja permitida a mudança de sexo “numa idade em que se considera que os cidadãos não têm ainda maturidade para votar, conduzir um automóvel ou ingerir bebidas alcoólicas”.

“Nesta idade o córtex pré-frontal (envolvido nas respostas emocionais e na tomada de decisões) ainda não atingiu o desenvolvimento completo, pelo que não existem condições neurobiológicas de maturidade para uma tomada de decisão desta natureza”, diz o comunicado da ACMP.

“Esta lei, agora aprovada, não é baseada propriamente em novas descobertas científicas, nem tão-pouco foi pedida pelos médicos portugueses, mas é suportada por uma ideologia: a ideologia de gênero. Esta teoria assenta na ideia radical de que os sexos masculinos e femininos não passam de uma construção mental, cabendo à pessoa escolher a sua própria identidade de gênero”, asseveram os médicos católicos de Portugal.

“A ideologia de gênero é uma construção cultural, um produto da cultura e do pensamento humano, sendo totalmente desvinculada da biologia. A ciência — e a medicina em particular — não aceita a supremacia absoluta da dimensão psicológica/sociocultural sobre a identidade sexual. O ideal é que haja uma harmonia entre ambas, não sendo ético provocar desordens psicopatológicas artificiais, através da difusão de uma ideologia radical destinada a criar um “homem novo””, conclui o texto.

ACI

Até mesmo santos da estatura moral da Madre Teresa de Calcutá, admirada por crentes e descrentes, dão testemunho de ter sofrido algo que soa surpreendente e talvez chocante para quem acha que os santos viveram numa bolha de perfeição à parte das cotidianidades que afetam os seres humanos “comuns”: o conceito da “noite escura da alma“.

A mais famosa abordagem do tema e do termo é, provavelmente, a do místico espanhol São João da Cruz, reconhecido como nada menos que Doutor da Igreja. Ele descreve essa profunda espécie de crise espiritual na jornada rumo à união com Deus em seu célebre poema intitulado, precisamente, “La noche oscura del alma” (século XVI).

É fato que Deus permite, e com frequência, a drástica provação da aridez espiritual, da completa falta de fervor sensível, da dúvida espessa a respeito da Sua existência, da revolta perante os injustíssimos reveses da vida, do desespero diante da tragédia ou mesmo da rotina que, dias depois de dias, meses depois de meses, se reveste daquela insuportável e amorfa ausência de sentido…

Se o próprio Cristo experimentou o drama do silêncio do Pai na mais negra de todas as noites, a ponto de Lhe suplicar que afastasse d’Ele esse cálice durante a Sua oração no Jardim das Oliveiras, à espera da Paixão, por que presumir que Deus fosse poupar-nos de experimentar a dúvida radical? Por que imaginar que Ele nos privasse da oportunidade de escolher, livre e voluntariamente, abraçar a fé ou rejeitá-la, confiar n’Ele ou refutá-Lo, purificar o amor ou mantê-lo morno, frágil, apoiado em incentivos cômodos e débeis?

Nem a vocação à vida religiosa isenta um cristão da provação espiritual.

É claro que nem sempre essa provação é propriamente a doença física e psíquica que hoje conhecemos como depressão. No entanto, há santos que, pelos sintomas descritos por eles próprios ou por outros biógrafos, muito provavelmente enfrentaram esse quadro que atualmente é visto como “o mal do século”.

Alguns dos santos que possivelmente enfrentaram a depressão:

1 – Santo Agostinho

Pois é! Uma das mais icônicas e sublimes figuras representativas da intensidade da conversão cristã e do poder extraordinário da graça santificante; uma das personalidades mais admiradas da história da civilização ocidental, inclusive por não católicos e até por não cristãos: até ele enfrentou, muito provavelmente, os altos e baixos dos neurotransmissores e a instabilidade psíquica e física que hoje a medicina denomina depressão.

Sua mãe, Santa Mônica, suportou com paciência quase inacreditável a imprevisibilidade do filho brilhante, mas de temperamento terrível. Agostinho procurava com intensa sinceridade a verdade e o sentido da existência, mas, em suas andanças desnorteadas e segundo os seus próprios termos, ele a buscava na aparência das coisas criadas, nas volúpias e prazeres dos sentidos, longe de Deus e cada vez mais longe de si mesmo. “Eis que estavas dentro de mim, mas eu estava fora, e fora Te buscava, e nas coisas formosas que criaste, deforme eu me lançava“, declarará ele nas “Confissões”, obra-prima da espiritualidade não apenas cristã, mas universal.

A teimosia da graça, porém, foi mais irredutível ainda que a dele mesmo, e, encontrando canal nas “indesanimáveis” orações de sua mãe e na admirável influência do grande bispo Santo Ambrósio, levou o rebelde e angustiado Agostinho a finalmente se render a Deus e acolher o batismo. Mais ainda: ele se consagrou a Deus e chegou também ele a ser bispo.

Depois que a mãe morreu, no entanto, e durante os mais de quarenta anos que a isto se seguiram, a sua personalidade poderosa ainda se manifestaria com frequência na propensão à raiva implacável e à… depressão severa. Santo Agostinho se levantava desses abismos por meio da oração, do sacrifício e do trabalho. Ocupar-se foi um grande remédio, tanto nas muitas responsabilidades de bispo quanto nas muitas horas de reflexão, estudo e oração que o transformaram em grande defensor da doutrina da Igreja.

2 – Santa Flora de Beaulieu

Ela teve uma infância normal, mas, quando seus pais começaram a buscar marido para ela, se recusou e anunciou que ia dedicar a vida a Deus entrando num convento. No entanto, essa decisão, tomada num contexto turbulento, desencadeou uma fase intensa e prolongada de depressão que afetava de tal modo o seu comportamento que mesmo para as outras irmãs era uma provação conviver com ela. Com a graça de Deus, o tempo e a ajuda de um confessor compreensivo, Flora fez grande progresso espiritual precisamente por causa do desafio da depressão, que ela enfrentou com empenho.

3 – Santo Inácio de Loyola

A personalidade poderosa do grande santo fundador dos padres jesuítas também era dada a sentimentos de profunda inquietação e sofrimento. O senso de certeza e convicção que ele demonstra em sua autobiografia (escrita em terceira pessoa) não vieram com facilidade. Depois de se converter, Inácio teve de lutar contra um feroz período de escrupulosidade, termo que, na ascese cristã, se refere à tentação de sentir-se sempre em grave pecado por cada mínima falha pessoal no cumprimento de deveres e na vivência das virtudes. Essa provação veio seguida de uma depressão tão séria que ele chegou a pensar em suicídio. Deus o retirou do abismo de trevas e sofrimento interior inspirando-lhe grandes coisas a realizar na vida em nome de Cristo e da Sua Igreja.

O próprio Inácio define como “desolação” a experiência que enfrentou em seus exercícios espirituais: um estado de grande inquietação, irritabilidade, desconforto, insegurança quanto a si mesmo e às próprias decisões, dúvidas assustadoras, grande dificuldade de perseverar nas boas intenções… De acordo com Inácio, Deus não causa a desolação, mas a permite para nos “abalar” como pecadores e nos chamar à conversão.

A partir da sua experiência, Santo Inácio dá três conselhos para reagir à desolação: não desistir nem alterar uma boa resolução anterior; intensificar a conversa com Deus, a meditação e as boas ações; e perseverar com paciência, pois a provação é estritamente limitada por Deus, que dará o alívio no momento oportuno. Ele descobriu, em suma, que a depressão pode ser um grande desafio espiritual e uma ótima oportunidade de crescimento.

Estes conselhos continuam perfeitamente válidos, mas, hoje, é de importância crucial acrescentar um quarto conselho: procurar a ajuda médica adequada. Os avanços da medicina deixam claro que, na maioria dos quadros verdadeiramente depressivos, a medicação psiquiátrica é indispensável para reequilibrar os neurotransmissores, pois se trata de uma doença propriamente dita e não apenas de uma “fase de tristeza”. O tratamento da depressão clínica tem duas vertentes interdependentes: o trabalho interior pessoal, que pode ser acompanhado por um bom psicólogo ou orientador qualificado, e o trabalho da medicina, acompanhado por um psiquiatra sério e bem atualizado.

4 – Santa Joana Francisca de Chantal

Durante oito anos, ela viveu feliz o seu casamento com o Barão de Chantal. Mas, quando o marido morreu, seu sogro, vaidoso e teimoso, forçou Joana e seus três filhos a irem morar com ele, provocando uma rotina de contínuos dissabores, duras provas de paciência e… depressão. Em vez de se escorar na vitimização, como infelizmente é comum desde sempre e até hoje, Santa Joana fez a escolha de manter a alegria e de responder às crueldades do sogro com caridade e compreensão.

Mesmo depois de estabelecer uma cordial e santa amizade com o grande bispo São Francisco de Sales e de trabalhar com ele na criação de uma ordem religiosa para mulheres de mais idade, Joana continuava experimentando momentos de grande sofrimento e injusto julgamento – e continuava, também, a responder com alegria, trabalho esforçado e espírito voltado a Deus.

A propósito, São Francisco de Sales tem um relevante conselho para quem sofre dessa provação:

“Refresque-se com músicas espirituais, que muitas vezes provocaram o demônio a cessar as suas artimanhas, como no caso de Saul, cujo espírito maligno se afastou dele quando Davi tocou sua harpa perante o rei. Também é útil trabalhar ativamente, e com toda a variedade possível, de modo a desviar a mente da causa de sua tristeza”.

5 – São Noel Chabanel

Padre jesuíta, mártir norte-americano, trabalhou entre os índios huron com São Charles Garnier. Os missionários, no geral, desenvolvem grande empatia por aqueles a quem evangelizam; no entanto, não foi o caso do pe. Noel: ele sentia repugnância pelos índios e pelos seus costumes, além de imensa dificuldade para aprender a sua língua, completamente diferente de qualquer idioma europeu, sem falar nos brutais desafios que a vida em ambiente quase selvagem envolvia. Todo esse conjunto de provações gerou nele um sentimento duradouro de sufocamento espiritual. Como ele respondeu? Fazendo um voto solene de jamais desistir nem abandonar a sua missão. E esse voto ele manteve até o dia do seu martírio.

6 – Santa Elizabeth Ann Seton

A primeira santa nascida em solo estadunidense sofria com a contínua sensação de solidão e melancolia, tão profunda que ela pensou várias vezes em se matar. Ela teve muitos problemas em sua vida, especialmente relacionados à sua família. Leituras, música e o mar a ajudaram a ser mais alegre. Quando se converteu, a Eucaristia e a caridade passaram a ser sua grande força diária!

7 – São João Maria Vianney

Conhecido como o Cura D’Ars, ele é um dos sacerdotes mais queridos da história da Igreja, modelo de pároco zeloso e de pastor que superou as muitas e graves limitações intelectuais próprias para guiar as almas com maestria pelo caminho da vida de graça. Apesar de todo o bem que fazia, ele não conseguia enxergar a própria relevância diante de Deus e convivia persistentemente com um forte complexo de inutilidade pessoal, sintoma da depressão que o acompanhou durante toda a vida.

Nos momentos mais difíceis, ele recorria ao Senhor e, apesar do sofrimento, renovava a determinação de perseverar no seu trabalho com confiança, fé e amor a Deus e ao próximo.

8 – Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein)

A santa carmelita descalça que havia nascido judia e crescido ateia sofreu com a depressão durante longo período. Chegou a escrever:

“Encontrei-me gradualmente em profundo desespero… Eu não podia atravessar a rua sem querer que um carro me atropelasse e eu não saísse viva dali”.

Desde antes de se converter, principalmente nas muitas ocasiões em que foi desprezada e humilhada por ser mulher e de origem judia, Edith sofreu intensamente a depressão. Intelectual, filósofa, discípula e até assistente de Edmund Husserl, o fundador da fenomenologia, ela finalmente encontrou em Deus a Verdade que tanto buscava, a partir da leitura da obra de Santa Teresa de Jesus. Abraçou então a graça com tamanha sede que dela arrancava as forças para lidar não apenas com os seus dolorosos sofrimentos interiores, mas também com as trevas mortíferas do nazismo.

Edith Stein, que adotou no convento carmelita o nome religioso de Teresa Benedita da Cruz após se converter e se consagrar a Deus radicalmente, foi capaz de perseverar até o martírio, mantendo a lucidez, a fé, a esperança e o amor inclusive na prisão e na execução a que foi submetida covardemente no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. Esse final de vida terrena parece particularmente deprimente? Pois ele é, mesmo. No entanto, como tudo nesta vida tem mais do que apenas um lado, ela enfrentou esse cenário extremo com a serenidade e a paz de espírito de quem aprendeu a lidar com os altos e baixos da depressão, enxergando além do imediato e abraçando uma vida que não acaba porque é eterna – e que é capaz de brilhar até mesmo nas trevas mais densas da morte num campo de concentração.

[Nota de Crux: O Irmão Jesuíta Guy Consolmagno é diretor do Observatório do Vaticano, fundado no século XVIII e refundado em sua forma atual em 1891. Consolmagno é visto por muitos como uma referência em como o Vaticano, discute regularmente a relação entre fé e razão. A Fundação do Observatório do Vaticano também tem um blog. Recentemente, Consolmagno fez uma palestra no Sheen Center, em Nova York, chamada ‘Jesuítas e Jedi: ciência e espiritualidade na era de Star Wars’]

 

***

No evento no Sheen Center, aprendi um pouco sobre sua história e descobri como o senhor acabou se tornando o “astrônomo do Papa”. Poderia contar um pouco desse background aos leitores do Crux?

Daria um livro! (O nome do livro é “Brother Astronomer”…)

Cresci em uma família católica comum dos anos 50 e aprendi ciência e religião com as Irmãs de Caridade de Nossa Senhora Rainha dos Mártires. Fui para o colégio jesuíta da Universidade de Detroit, pensei em ser padre, mas percebi que não tinha a personalidade certa para isso e acabei no MIT, principalmente por causa da biblioteca de ficção científica!

Aos trinta, minha fé entrou em crise; não a fé na minha religião, mas na ciência. Então, em vez de “perder tempo” estudando as luas de Júpiter, entrei no Corpo de Paz. Mas meus alunos no Quênia eram fascinados por ciência, e o entusiasmo deles me lembrava que a astronomia é um alimento para a alma.

Depois de lecionar numa pequena universidade – uma delícia – entrei para os jesuítas como irmão, pensando que poderia lecionar em algum colégio jesuíta. Mas me mandaram para Roma para continuar na astronomia… e em 2015 o Papa Francisco me nomeou diretor do Observatório.

O senhor disse que estudar o cosmos é um ato de adoração. Poderia dizer mais sobre o que quer dizer com isso?

Adoração é uma maneira de chegarmos mais perto de Deus; e é isso que fazemos quando estudamos o cosmos. Não preciso que a Bíblia me dê as respostas às minhas perguntas científicas, mas dependo da autoridade das Escrituras para ter certeza que essas respostas podem ser encontradas e que vale a pena buscá-las.

Me inspiro, em particular, no salmista que escreveu que “Os céus manifestam a glória de Deus” e por São Paulo, que nos lembra de que “as coisas invisíveis, desde a criação do mundo, se entendem e claramente se veem pelas coisas que estão criadas”. Conhecemos a personalidade de Deus ao nos familiarizarmos com seu modo de criação… um modo elegante, racional e cheio de alegria!

Há muitos mal-entendidos sobre a relação da ciência e da Igreja Católica, sobretudo historicamente. Quais mal-entendidos acha que é particularmente importante corrigir?

Quando as pessoas dizem que a Igreja vai contra a ciência, respondo “cite três”, pedindo três exemplos. Elas sempre começam com Galileu, que normalmente significa que não sabem nada sobre Galileu… sua vida e sua época, seus argumentos ou a natureza da oposição contra ele. Nunca leram o que ele escreveu nem o que seus companheiros e inimigos escreveram. Alguns podem mencionar Giordano Bruno. Uma olhada rápida na página da Wikipédia sobre ele geralmente já abre um pouco seus olhos. E não conseguem pensar num terceiro exemplo. (A Igreja nunca condenou a evolução, por exemplo; e dois papas, Pio XII e João Paulo II, especificamente, endossaram a ideia).

Enquanto isso, a lista de cientistas importantes que eram católicos vai de Alberto Magno a Roger Bacon, Ampere, Volta, Pasteur, Mendel e Lemaître… e também Copérnico e Galileu! Novamente, é possível ver na Wikipédia uma lista de ganhadores católicos do Prêmio Nobel.

Uma das partes de que mais gostei no evento no Sheen Center foi a exposição de seus pensamentos sobre inteligência artificial. O senhor acha que é possível que tal máquina chegue a ser considerada uma pessoa?

 Na prática, temos muito tempo pela frente antes de que algo que produzimos com metal e semicondutores possa dar conta do recado. Minha suspeita – e posso estar errado! – é que os computadores digitais em si nunca serão capazes de replicar o cérebro humano; pelo estilo errado, acredito. Lembro da piada que diz que o cérebro humano ainda é o computador mais sofisticado a que temos acesso e, além disso, é o único que pode ser produzido por trabalhadores não qualificados.

O senhor escreveu um livro entitulado Você batizaria um extraterrestre? (em inglês, Would You Baptize an Extraterrestrial?). O senhor batizaria?

Só se ele pedisse.

Fonte: Crux

Antes de entrar na vida consagrada, o Pe. Javier Olivera e a Irmã Marie de la Sagesse chegaram a ficar noivos e queriam se casar, mas Deus tinha outros planos. Esta é sua história.

Em declarações ao Grupo ACI, o Pe. Olivera indicou que ambos cresceram em famílias católicas e “os nossos pais se conheciam desde quando eram jovens”. Por isso, eles sempre se encontravam quando eram crianças, apesar de se afastarem durante a adolescência.

“Estive bastante afastado da prática religiosa. Aos 19 anos, voltei de uma viagem ao Peru e a conheci. Perguntei-lhe se acreditava na virgindade até o casamento, porque para mim era algo inventado pela Igreja. Ela me explicou tão bem e me deu fundamentos da fé e da razão sobre a pureza que fiquei impressionado. Encontrei uma mulher que sabia defender o que acreditava e que também era inteligente”, afirmou.

Pouco depois começaram a namorar. Naquela época, ambos estudavam Direito, ele na Universidade Nacional de Buenos Aires e ela, na Universidade Nacional de La Plata.

O Pe. Olivera manifestou que “foi um namoro comum, mas tentamos aproveitar a vida cultural através da música, da literatura e da filosofia. Líamos alguns livros juntos, saíamos para tomar café. Tínhamos um grupo de amigos que participavam das conferências dos autores católicos argentinos”.

“Eu comecei a praticar a fé, a rezar, a ir à Missa aos domingos. Tudo isso graças a ela, a Deus principalmente, mas ela foi um instrumento”, manifestou o sacerdote. Ele destacou que também cultivaram juntos uma vida de piedade através da oração do Terço e da Eucaristia.

Por sua parte, a Irmã Marie de la Sagesse, cujo nome de batismo é Trinidad Maria Guiomar, disse ao Grupo ACI que, nesse então, o que ela mais valorizava no seu namorado era “sua busca sincera da verdade sem medo das consequências”.

Ambos ficaram noivos aos 21 anos e decidiram se casar quando terminassem a faculdade. Ainda faltavam dois anos e meio.

A descoberta da vocação

Entretanto, um dia o irmão mais velho da menina disse que ia entrar para o seminário e “nos deixou surpresos porque não esperávamos esta notícia”.

“Eu tinha um carro e com a minha noiva decidimos levá-lo ao seminário, localizado em San Rafael, Mendoza”, indicou, e ambos permaneceram alguns dias na região para que Javier pudesse visitar alguns amigos que estavam no seminário e ela visitou as amigas que estavam no convento.

“Quando voltamos, conversamos sobre tudo isso que parecia uma loucura, o fato de que o seu irmão deixasse tudo, a possibilidade de ter uma família, uma carreira muito importante. Começamos a nos perguntar: ‘O que aconteceria se Deus nos chamasse para a vida religiosa? A primeira coisa que dissemos foi ‘não’ e que era uma loucura porque éramos noivos e já estávamos comprando as coisas para o nosso casamento”, contou o Pe. Olivera.

Algumas semanas depois, “continuava me perguntando o que a aconteceria se Deus me chamasse, se eu tivesse que deixar tudo. Por que não ser sacerdote? Como saber se para mim a melhor maneira de chegar ao céu é através da vida sacerdotal ou do matrimônio? Onde eu posso fazer o bem maior?”.

Depois de tantas dúvidas, ele decidiu contar as suas inquietudes vocacionais para a sua noiva, que confessou que ela também estava “pensando a mesma coisa”, desde que o seu irmão havia entrado no seminário.

Entretanto, nenhum dos dois se decidia de vez. “Como ainda faltavam dois anos para terminar a universidade de Direito, esta era uma ótima desculpa para ainda não poder entrar no seminário nem no convento”, indicou o Pe. Olivera.

O diretor espiritual deles era “um monge muito prudente”, que lhes disse: “Olha, esse é um assunto de cada um de vocês com Deus. Ninguém pode entrar nas almas”.

Por sua parte, a Irmã Marie de la Sagesse indicou ao Grupo ACI que “foi um longo período de discernimento, cerca de dois anos, até que Deus me mostrou claramente que a minha vocação era na vida consagrada”.

Quando terminaram seus estudos, ambos abraçaram a sua vocação. Em 2008, aos 31 anos, ele foi ordenado sacerdote na Diocese de San Rafael e fez seus votos perpétuos na congregação das Irmãs de Jesus Misericordioso.

Atualmente, o Pe. Olivera é professor universitário, tem um blog chamado “Que no te la cuenten” e escreveu um livro sobre dúvidas vocacionais intitulado “Alguna vez pensaste? El llamado de Cristo”.

A Irmã Marie de la Sagesse vive no sul da França e realiza o seu apostolado na paróquia de Saint Laurent, na Diocese de Fréjus-Toulon.

A respeito da sua história, expressou que “considero o chamado de ambos quase ao mesmo tempo uma graça especial, uma delicadeza da Divina Providência, que não perde nenhum detalhe. E valorizo muito que tanto a nossa amizade quanto a das nossas famílias continue”.

“Agora temos uma linda amizade, ela é a minha melhor amiga”, disse o Pe. Olivera.

ACI Digital

O Parlamento português aprovou neste 13 de abril uma medida que permitirá que adolescentes realizem operações de mudança de sexo a partir dos 16 anos sem relatório ou recomendação médica, uma medida que mereceu a oposição da Igreja Católica, manifestada aos jornalistas pelo Patriarca de Lisboa, Cardeal Manuel Clemente.

A lei foi aprovada com votos favoráveis dos seguintes partidos: PS, BE, PEV e PAN. E teve votos contrários por parte do PSD – com exceção da deputada social-democrata Teresa Leal Coelho – e CDS-PP; o PCP (Partido Comunista Português) absteve-se.

Desta forma, o cidadão com mais de 16 anos pode requerer a mudança de sexo no Cartão do Cidadão, com a autorização dos pais e sem a necessidade de um relatório médico, informou a agência Ecclesia, do episcopado português.

Os bispos católicos alertaram esta quinta-feira para as “possíveis repercussões legislativas e educativas quanto à mudança de sexo”, reafirmando preocupações manifestadas nos últimos anos.

Em outubro de 2017, a CEP manifestara a sua “preocupação” perante as propostas que visavam permitir a menores de idade a mudança de sexo, mesmo contra a opinião dos pais, a partir dos 16 anos.

Quatro anos antes, os bispos católicos publicaram a carta pastoral ‘A propósito da ideologia do género’, na qual sustentava que “no plano estritamente científico, obviamente, é ilusória a pretensão de prescindir dos dados biológicos na identificação das diferenças entre homens e mulheres”.

O mais recente parecer do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNEV) contestava a “atribuição aos menores de 16 anos da possibilidade de acesso universal a autodeterminação de género, como simples expressão de vontade individual autónoma”, sem acautelar “ponderadamente questões associadas ao seu próprio processo de maturação e desenvolvimento neuro-psíquico”.

Ainda segundo a notícia da agência Ecclesia, uma petição online angariou mais de quatro mil assinaturas, pedindo à Assembleia da República que não aprovasse a lei que permite a mudança de sexo no registo civil aos 16 anos.

Os promotores da iniciativa consideram que a lei “abre a possibilidade ao aparecimento de graves implicações nas vidas das pessoas e das famílias podendo vir a ser um meio de agravamento de situações e de problemas em vez de promover o bem-estar e a qualidade de vida das mesmas”.

Outro prelado português que foi contumaz na sua crítica à nova medida foi Dom Manuel Ortiga, Arcebispo de Braga, quem asseverou na rede social: “Dizia e bem Norberto Bobbio: “a diferença mais importante não é entre quem crê e não crê, mas entre quem pensa e não pensa nas grandes interrogações da existência”. A aprovação da lei da identidade de gênero aprovada no parlamento confirma o pior dos cenários: deixamos de pensar”.

É impressionante como algumas pessoas que raramente lêem a Bíblia são rápidas no gatilho na hora de citar um versículo bíblico quando discutem com cristãos: “Não julgueis” ( Mt 7, 1).

Essa frase é utilizada muitas vezes para calar-nos e impedir-nos de tocar em questões morais. “Você não deve dizer aos outros o que é certo ou errado! Afinal de contas, Jesus disse: ‘Não julgueis!’”

A Bíblia, porém, refere-se ao julgamento de diferentes maneiras. Antes de mais nada, nós nunca deveríamos julgar a alma de outra pessoa. É isso o que Jesus critica ao dizer: “Não julgueis.” Somente Deus sabe em que condições espirituais as pessoas se encontram e como elas se relacionam com Ele.

Por outro lado, ao mesmo tempo que nos proíbe julgar os outros, Jesus não nos diz que é pecado usar a inteligência para discernir o certo do errado. De fato, a Bíblia nos exorta a formar bons e sábios juízos a respeito de muitas coisas na vida. São Paulo, por exemplo, diz que “o homem espiritual julga todas as coisas” (1Cor 2, 15).

O problema é que muitas pessoas têm medo de dizer que algo é moralmente errado porque não querem parecer “intransigentes”, “sentenciosas”, e nós precisamos ajudá-las a perceber que há uma grande diferença entre fazer um julgamento moral, por um lado, e julgar a alma de alguém, por outro.

Ora, eu posso usar a minha inteligência para fazer um simples julgamento? Se percebo que está chovendo, formulo o seguinte juízo: “Tenho de levar o guarda-chuva”; se, pelo contrário, estiver nevando, julgo de outra maneira: “Preciso me agasalhar”. Devo ser considerado um “preconceituoso sem coração” por fazê-lo? É claro que não; Deus me deu uma inteligência, e quer que eu a utilize.

De modo parecido, posso usar a minha razão para fazer um julgamento sobre as ações de outras pessoas? Se eu vir a minha filhinha correndo em direção à rua, posso julgar assim: “Isso não será bom para ela, porque talvez seja atropelada”? Se eu o fizer, não estarei dizendo que minha filha é uma pessoa horrível, condenada ao fogo do inferno; estarei apenas observando que ela está prestes a fazer algo que lhe pode ser prejudicial.

Mas sigamos em frente. Posso usar a minha inteligência para avaliar as ações morais de outra pessoa? Suponhamos que haja uma jovem universitária que tem-se deitado com um rapaz depois do outro. Posso empregar minha razão e julgar: “Isso não é bom para ela”? Posso fazer o seguinte julgamento: “Ela não vai ser feliz se continuar vivendo assim, pois nunca encontrará o amor duradouro que tanto deseja. Ela foi feita para algo melhor do que isso”? É claro que posso!

Mas não nos esqueçamos: fazê-lo não é julgar a sua alma. Ela pode muito bem estar fazendo algo objetivamente errado; mas eu, em todo caso, não tenho acesso à situação pessoal dela perante Deus. Não conheço o seu passado, a sua vida, as suas mágoas. O estado de uma alma aos olhos de Deus é algo reservado apenas a Deus e a essa alma. O Catecismo da Igreja Católica explica como diversos fatores podem entrar em jogo nas decisões livres do homem de tal maneira que a sua culpabilidade pode ser diminuída e limitada (cf., por exemplo, CIC, § 1860).

Só Deus enxerga o quadro inteiro. Talvez essa moça venha de uma família mal estruturada e nunca tenha vivido um amor autêntico; talvez tenha sido abusada; talvez lhe tenham ensinado que isto, fazer sexo casual, significa “ser uma mulher livre e autônoma”. Essa jovem não precisa que eu a condene ao inferno; ela precisa conhecer o amor de Deus, a sua misericórdia e os planos que Ele tem para a vida dela.

Ao mesmo tempo — e isto é imprescindível —, se eu me importo verdadeiramente com ela, não deveria dizer-lhe algo sobre o modo como tem vivido? Se ela fosse, por exemplo, uma amiga próxima ou até mesmo um parente, não deveria falar-lhe dessas coisas?

Eu não estaria julgando a sua alma — isso é algo entre ela e Deus. Mas amar é querer o bem do outro, buscar o que é o melhor para a outra pessoa; e se eu realmente a amo, não haverá prova maior desse amor do que procurar endireitá-la, mostrar-lhe o bom caminho.

Eu devo, é claro, ser prudente, falar no tempo e do modo conveniente, com fina delicadeza, humildade e compaixão. Mas ficar sentado de braços cruzados, sem nunca compartilhar com ela a verdade, não é por certo uma grande prova de amor. É como se eu visse a minha filha de dois anos a ponto de tocar a boca quente do fogão e lhe dissesse: ” Olha, eu não faria isso; mas não quero julgar. Faça o que a fizer feliz“.

Imagine ainda que a minha filha, que ainda não sabe falar, está prestes a jogar-se na piscina e eu lhe digo: “Bom, se é o que deseja fazer… Eu, pessoalmente, não o faria; mas não quero lhe impor minhas opiniões. A vida é sua”. Seria isso um gesto de amor? Evidentemente não.

Essa postura nos revela mais uma tragédia do relativismo moral: ele nos impede de amar as pessoas. Ele pode tornar-nos indiferente às necessidades das pessoas que Deus colocou em nossa vida. Em vez de tratar com amor e solidariedade os irmãos que vemos tropeçar na vida, fazemo-nos apáticos e desentendidos. Imitamos o exemplo de Caim, que disse: “Sou porventura eu o guarda de meu irmão?” (Gn 4, 9). Isso não é amor.

Saiamos logo da cultura do relativismo e mostremos mais amor às pessoas que fazem parte de nossa vida, partilhando com elas a verdade.

Publicado originalmente em National Catholic Register. Traduzido por Equipe Christo Nihil Praeponere