O próximo 31 de outubro se completarão 500 anos desde que Lutero afixou suas 95 teses na porta da igreja do castelo de Wittenberg. Era o início da Reforma Protestante que mudou o curso da história ocidental: do ponto de vista religioso, social, cultural e político. Seguiram-se décadas de guerras e séculos de divisões dentro do mundo cristão. Hoje, um estudo duplo – um na América e outro na Europa – do Pew Research Center registra que católicos e protestantes veem as suas crenças mais semelhantes do que diferentes. Em um mundo onde as divisões religiosas voltaram a se manifestar com toda a ênfase, é interessante notar que cinco séculos depois do cisma de Martinho Lutero diferenças permanecem, mas a tendência é por uma visão da religião e da vida convergentes.

Nos Estados Unidos, entre os protestantes, 57% considera que os dois credos são semelhantes, contra 41% que os considera diferentes. Entre os católicos, as percentagens são, respectivamente, 65 e 32.

Na Europa, a situação é mais complexa, mas não se desvia da tendência. Entre os protestantes europeus, os alemães caracterizam-se por serem aqueles que menos percebem a diferença: para 78% as duas religiões são semelhantes e apenas 19% as considera claramente diferentes.

Na Holanda, as opiniões dividem-se em 65% contra 28%, na Grã-Bretanha, 58 contra 37 e assim por diante, com uma predominância em todo lugar de quem vê mais pontos de compartilhamento do que de discordância. O mesmo vale para os católicos do Velho Continente, com exceção dos britânicos, onde 45 contra 41 veem mais divisão do que unidade.

Na Holanda, Áustria, Suíça e Alemanha, entre os católicos a percepção de semelhança é bastante evidente.

Na Itália, menos: 47% veem mais proximidades contra 41% que ressalta as divergências.

Ainda mais interessante é observar as opiniões sobre como obter a salvação eterna. De acordo com Lutero, somente por meio da fé. A maioria dos protestantes de hoje (com exceção dos noruegueses) considera que é alcançada através da combinação de fé e boas ações, que é substancialmente a posição tradicional da Igreja Católica.

Mas deve-se notar que na Europa, tanto entre os protestantes como entre os católicos, as pessoas praticantes são uma minoria: apenas 14% dos primeiros e o 8% dos segundos afirmam participar dos serviços religiosos pelo menos uma vez por semana. Cinco séculos depois, podemos dizer que, no Ocidente, as guerras religiosas acabaram.

Fonte: Corriere della Sera.

“Eu tenho uma filha de dois anos e oito meses que ama rosa, enlouquece com bonecas e princesas, brinca de mãe e filho o dia inteiro e chora quando entra numa loja de brinquedos querendo um ferro e uma tábua de passar roupas! Socorro!

Confesso que, cada vez que vejo esse movimento todo dela, eu me arrepio da cabeça aos pés. Parece piada que minha filha aja de maneira tão contrária a tudo que eu acredito; mais ainda, de maneira contrária a tudo que eu prego no meu dia a dia, a tudo que eu acredito que seja uma construção social das mais cruéis que segregam meninas e traçam pra elas um único e fatídico destino, a tudo que fuja do roteiro traçado por essa construção que seja carregado de culpa e julgamentos! 

Não acredito que existam brinquedos de menina ou brinquedos de meninos. Quando minha filha nasceu, eu não comprei um brinquedo. Bom, ela tinha um irmão de três anos, a casa já estava cheia de brinquedos e ela não precisava de nada além daqueles que ali já habitavam. 

Assim ela ficou, sem brinquedos novos até completar um ano, se não me engano. Foi ali que chegaram as primeiras bonecas, não sei quem deu, não me lembro, mas me lembro com perfeição quando ela, com um ano de idade, pegou uma boneca no colo e ninou. 

Fiquei muito espantada, mas sabia que ela estava reproduzindo o que fazíamos com ela, mas e as princesas? Pode ser influência das amiguinhas da escola. E a cor rosa? E a predileção por saias e saias que rodem? E a paixão por panelinhas e fogão? E o ferro e a tábua de passar, minha gente?! Acredito que seja tudo repetição do que ela vê à sua volta, mas ela também vê (e muito) outras coisas… até porque quando senti esse movimento, a minha primeira ação foi apresentar a ela outras opções, para que ela pudesse perceber que além do mundo de fadas, bonecas, saias, panelinhas e princesas existe muita coisa legal com que ela também pode brincar. 

Não, não adianta, ela gosta desse mundo, esse é o mundo de brincadeiras que ela, com quase três anos, escolheu pra chamar de seu. 

Eu, como mãe, acredito que devo continuar dando outras opções para que ela sempre saiba que o mundo pode ser mais que uma única coisa e que ela pode sim ser o que quiser: astronauta, bailarina, bombeira, princesa, médica, fada, engenheira, cozinheira, professora, princesa, passadeira… não importa, o que importa é ela conquistar a liberdade de ser o que ela quiser.

Taís Araújo, Atriz da Rede Globo.

Abaixo, comentário do Rodrigo Constantino

” Então quer dizer que não importou tanto a “construção social”, menos ainda a “construção familiar”, pois a menininha só quer saber de bonecas? Taís Araújo entrou em contato, pelo visto pela primeira vez, com a biologia. Uma aula prática que sua filhinha, com menos de 3 anos, proporcionou-lhe. Deram uma boneca para ela e pronto: todo aquele esforço de fazê-la gostar de tudo, das mesmas coisas que o irmão mais velho, foi por água abaixo.

Se Taís Araújo acompanhasse mais o mundo animal, saberia que nem tudo é “construção social”, que a biologia é coisa séria, não uma invenção machista opressora. Saberia que há uma tendência natural de as fêmeas serem mais protetoras da prole, e os machos de protegerem as fêmeas. Saberia que isso não é um absurdo inventado por terríveis e maquiavélicos homens insensíveis. Desconfiaria mais do feminismo.

Acompanho uma família de patos aqui perto da minha casa. Alimentei os 6 filhotinhos desde o começo. Por conta do furacão Irma, alguma coisa, tipo uma fita, invadiu o cantinho deles, e grudou na pata da patinha mãe. Fui me aproximar dela para tentar retirar o troço, que deve incomodar bastante, mas imediatamente o pato macho se aproximou emitindo sons supostamente ameaçadores. Eu entendi o recado: “Não mexe que ela é minha”.

Feministas não gostam disso, mas tenho certeza de que, no fundo, Taís Araújo apreciaria uma atitude dessas vindo de seu marido Lázaro Ramos. Um ato de coragem protetora. Já quando eu me aproximo demais dos filhotes, é a patinha que sai em sua defesa, deixando claro que fará de tudo para protegê-los. A mãe protege os filhos e o pai protege a mãe: parece uma configuração bizarra? Só para feministas, pois no reino animal não é tão incomum assim.

A atriz vive imersa na bolha politicamente correta, no Projaquistão, onde tudo que é “progressista” é lei religiosa, e para quem conservadorismo é doença mental. Para essa turma, “ideologia de gênero” é ciência, e ciência é invenção de machistas opressores. Talvez Taís Araújo devesse ver esse documentário norueguês, que derruba esse mito da “identidade de gênero”, inclusive com uma das feministas afirmando categoricamente que não liga para os fatos. Isso mesmo. No vídeo, a “filósofa do gênero” Catherine Egeland, uma das entrevistadas, chega a afirmar que “não se interessa nem um pouco” por esse tipo de ciência e que “é espantoso que as pessoas se interessem em pesquisar essas diferenças”. Espantoso que as pessoas se interessem a pesquisar! É a ideologia acima de qualquer coisa, de tudo, dos fatos, da ciência, da busca pela verdade.

As feministas querem o “empoderamento” da mulher, e Taís Araújo quer a felicidade da filha. Louvável. Resta saber: se a pequena escolher ser uma boa mãe e boa esposa, apesar de toda a ideologia, ela será julgada por isso ou terá seus desejos respeitados, pela mãe e pela sociedade? Pergunta legítima, pois hoje, especialmente no Projaquistão, sabemos que uma mulher que escolhe “virar homem” tem mais respeito e admiração do que uma mulher que escolhe ser dona de casa…

“Uma das primeiras manchetes de um grande jornal italiano, que dava a notícia do motu proprio Magnum Principium, soava assim: “Papa concede mais liberdade aos episcopados…”. Um bom colega teólogo, o professor Stefano Parenti, logo observara em um comentário na rede: “Atenção: aqui o papa não concede, mas restitui”, assinala Andrea Grillo.

A publicação do motu proprio Magnum Principium, assinado no dia 3 de setembro e que entrará em vigor no dia 1º de outubro de 2017, é uma virada importante na longa questão das “traduções litúrgicas”. Para compreender o seu significado, é necessário contextualizar brevemente o texto na história dos últimos 20 anos, para depois examinar os conteúdos normativo, eclesiológico e teológico do documento.

Trata-se de um documento curto (aqui a referência ao texto, acompanhado de uma nota jurídica e de uma interpretação do secretário, Dom Roche), mas cujos efeitos estão destinados a modificar profundamente os hábitos eclesiais, as representações teológicas e as práticas institucionais.

Em primeiro lugar, tento reconstruir o contexto no qual o documento pode assumir, hoje, toda a sua importância.

a) As traduções impossíveis

O título e a abordagem do documento remetem a um “grande princípio” afirmado pelo Concílio Vaticano II, ou seja, a “compreensão dos textos litúrgicos” por parte do povo, para assegurar a participação na ação celebrativa. A história da “grave tarefa” de traduzir os textos litúrgicos conheceu diversas fases, mas, nos últimos 30 anos, tinha conhecido, progressivamente, uma espécie de paradoxo: com a instrução Liturgiam authenticam (2001), tinha-se afirmado um princípio de “tradução literal”, como garantia da fidelidade ao texto em latim, que, de fato, tinha tornado impossível toda boa tradução.

As Conferências Episcopais encontravam-se pressionadas por uma polaridade insolúvel: ou obedeciam à normativa da instrução e traduziam de modo incompreensível ao seu povo; ou traduziam de modo compreensível, mas não tinham as traduções aprovadas pela Congregação.

A partir de 2001, o desconforto crescera cada vez mais, até os protestos explícitos que, nos últimos anos, tinham chegado dos episcopados alemães, franceses, estadunidenses, canadenses, italianos…

Na realidade, o “bloqueio institucional” dependia, como veremos, de um duplo bloqueio teórico, que pretendia garantir a fidelidade segundo dois princípios drásticos demais: devia-se traduzir literalmente e devia-se traduzir sem interpretar. Mas a experiência eclesial e a reflexão teológica demonstraram a ilusão teórica e a distorção prática dessa pretensão.

b) A modificação do Código

O coração de motu proprio é uma modificação do Código de Direito Canônico, no cânone 838, que é reformulado, introduzindo uma distinção decisiva (cf. Nota Oficial, aqui).

A relação entre a Santa Sé e os episcopados locais previa um único instrumento de correlação – a recognitio. Agora, retomando uma distinção nada nova, prevê duas: ao lado da recognitio, é introduzida a confirmatio. Com a primeira, a Santa Sé entra diretamente nas escolhas feitas pelas Conferências Episcopais quando dizem respeito à adaptação dos textos. Com a segunda, ela se limita a um controle formal, pressupondo a “fidelidade de tradução”, tal como garantida pela experiência local dos episcopados.

Essa distinção tem imediatamente dois efeitos:

– redimensiona a pretensão de controle central, que, desde 2001, tinha crescido desmedidamente, inspecionando detalhada e unilateralmente cada palavra traduzida;

– leva em conta a exigência de “interpretação” para a tradução do latim a uma “língua do povo” e a confia, ordinariamente, à competência dos bispos do lugar.

Com essa articulação entre recognitio e confirmatio, não apenas teremos uma simplificação processual na aprovação das traduções, mas também o delineamento de uma teologia e de uma eclesiologia em que a “sinodalidade” e a “descentralização” se tornam práxis necessária.

c) As palavras iniciais: teologia da liturgia e papel dos episcopados

Com efeito, embora na sua concisão, o documento papal não renuncia a um espaço de “argumentação teológica” no qual encontramos afirmados pelo menos quatro princípios que não ouvíamos com tanta clareza há quase 50 anos:

– o “grande princípio” da exigência de compreensão da oração litúrgica por parte do povo;

– o princípio segundo o qual a “palavra” é mistério, sem que isso dependa da “incompreensão”, mas da profundidade inesgotável do seu significado;

– o terceiro princípio é a “competência episcopal”, que é reiterada fortemente, como herança conciliar e como exigência intrínseca para a renovação da vida litúrgica do povo de Deus. A composição entre exigências dos episcopados e exigências da Santa Sé encontra, com a reforma do Código, uma correlação mais fácil e feliz.

– o quarto princípio é uma “teoria da tradução”, bem expressa na frase:

“fideliter communicandum est certo populo per eiusdem linguam id, quod Ecclesia alii populo per Latinam linguam communicare voluit.”

Essa formulação mostra bem a importância de traduzir não palavra por palavra, mas de cultura para cultura. O que deve ser comunicado – a palavra da salvação – deve encontrar uma expressão diferente quando entra em línguas e culturas diferentes. A correspondência entre línguas não é estática, mas dinâmica. Enrijecer o “conteúdo” em palavras fixas leva, irreversivelmente, a traduções incapazes de comunicar. A exigência de um “glossário comum” não contradiz, mas justifica essa escolha comum.

d) Ser fiel ao texto: o que significa?

Uma das consequências desse motu proprio é uma preciosa reflexão sobre o tema da “fidelidade”. O que significa, de fato, ser “fiel ao texto”?

Isso envolve uma dupla fidelidade: não só para o texto, mas também ao destinatário. Para garantir essa dupla fidelidade, não é suficiente uma competência central, mas também é decisiva uma competência local. A lógica do motu proprio é a de uma “reconsideração da periferia”: para traduzir plenamente o significado de um texto litúrgico, originalmente em latim, devemos entrar na língua do povo não só com a cabeça, mas também com o corpo. Quem pode fazer isso não são funcionários romanos, mas sim bispos in loco. Uma fidelidade apenas literal contradiz a complexidade da estrutura eclesial e da história dos povos.

A referência ao Concílio Vaticano II é o horizonte em que, para ser fiel à tradição, é preciso se reconhecer a possibilidade de mudar.

e) Traduzir é interpretar: a exigência de competências descentralizadas

Um segundo aspecto, que devemos considerar no documento, é a superação da ilusão de que se pode traduzir sem interpretar. Por trás da distinção entre recognitio e confirmatio, está, no fundo, a consciência de que não é possível um ato de tradução real e eficaz que não caia na interpretação particular que toda língua “diferente” oferece sobre o texto em latim.

Para passar do latim às línguas faladas, é preciso não simplesmente uma transposição lexical, mas sempre também uma interpretação cultural, existencial, histórica, social. Aquela que, à primeira vista, parece ser uma distinção jurídica e fria permite que o frescor e a riqueza das vidas entrem nas palavras da liturgia, que sabem ser fiéis ao latim somente se permanecerem cheias de frescor e vivas.

Uma teologia da liturgia participada e uma eclesiologia de comunhão são o pressuposto e o efeito dessa importante reforma do Código. E a unidade é garantida não por um regresso ao latim, mas por um avanço na tradução das línguas do povo.

f) O desbloqueio e a retomada: o espaço urgente de uma VI Instrução

Uma das primeiras manchetes de um grande jornal italiano, que dava a notícia desse motu proprio, soava assim: “Papa concede mais liberdade aos episcopados…”. Um bom colega teólogo, o professor Stefano Parenti, logo observara em um comentário na rede: “Atenção: aqui o papa não concede, mas restitui”.

Esta observação está totalmente correta, e sou-lhe grato por isso. Foram necessários 16 anos para se dar conta de que a pretensão de controlar tudo do centro, de transformar as línguas vernáculas em simples instrumentos do latim era uma ideia unilateral e distorcida, fruto de uma teoria do texto, da comunicação, da teologia e da eclesiologia sem verdadeiros fundamentos na tradição.

Agora, o motu proprio restabelece a lógica da tradução ao leito da sua tradição mais saudável. Será muito difícil subestimar essa passagem. Mas o que aqui foi reconhecido como necessário e que deve ser saudado como uma salutar contribuição ao caminho da reforma litúrgica deve ser julgado, com igual clareza, como insuficiente.

As duas intensas páginas do motu proprio, que têm grande eficácia no plano processual e que definem lucidamente uma renovada consciência teológica e eclesiológica dinâmica, devem recriar as condições de uma “comunicação litúrgica em torno da tradução” que não pode deixar de exigir, urgentemente, uma nova instrução.

motu proprio desbloqueia a vida da Igreja que celebra, mas também revela um grande desejo de novas motivações: tal desejo deverá ser preenchido por uma Nova Instrução, que saiba sair dos baixios – não só processuais, mas também argumentativos – em que a Liturgiam Authenticam tinha nos conduzido.

Talvez a mesma comissão que elaborou esse “procedimento de urgência” poderá se ocupar em redigir uma nova Instrução que considere cuidadosa, serena e extensivamente todo o desenvolvimento da Reforma já feito, assim como aquele desenvolvimento rico e fecundo que ainda resta a ser feito.

A opinião é do teólogo italiano Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu Sant’Anselmo, em Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, em Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, em Pádua. O artigo foi publicado por Come Se Non.

Em livro, o Papa Francisco abre o seu coração em uma entrevista concedida a Dominique Wolton. O pesquisador francês ficou impressionado com a sua “incrível simplicidade”.

Crise dos migrantes, laicismo, pedofilia na Igreja, relações com o islã… O Papa Francisco abre o seu coração em um livro que chegou às livrarias francesas no dia 06 de setembro passsado. O Sumo Pontífice respondeu a Dominique Wolton em uma série de entrevistas, “não menos de 12 encontros em um ano”. O pesquisador francês destaca que “este homem, que é extremamente culto, fala com uma incrível simplicidade”.

Como você convenceu o Papa e por que ele aceitou a entrevista?

Eu propus a ele o projeto sem conhecê-lo inteiramente. Eu escrevi para ele dizendo: “Eis quem eu sou e o que fiz e eu quero propor-lhe um livro sobre a política”. Anexei o plano do livro que eu tinha preparado. O que o levou a aceitar, foi, em primeiro lugar, o fato de que eu sou cientista. Isso o tranquilizou em relação a um jornalista. Eu era um leigo francês, o que lhe interessava, porque ele gosta muito da França e do debate sobre a laicidade. A segunda coisa, que não estava prevista, é que quando nós nos encontramos, houve um verdadeiro encontro humano. Rolou uma química entre as nossas duas histórias, que não tem nada a ver uma com a outra; mas isso criou esse diálogo e esta comunicação.

Como isso aconteceu? Você conversou a sós com ele?

Sim. Na primeira vez, me fizeram esperar em um pequeno escritório e eu levei um intérprete para me ajudar, porque eu não sou nenhum gênio em italiano nem em espanhol. A porta se abriu e este homem chegou de branco. Em seguida, ficamos o tempo todo sozinhos. Não é fácil falar com um papa!

Que tipo de pessoa você teve na sua frente? Um excelente comunicador? Um jesuíta? O Papa?

O que me impressionou imediatamente foi a bondade, os olhos, a gentileza, uma espécie de ternura incrível, uma vontade muito grande, uma lucidez real e uma incrível simplicidade. Nós nos conectamos intelectualmente. Logo depois, tudo aconteceu num plano mais amigável, mas não havia nenhuma linguagem estereotipada ou em todo o caso o mínimo. Em relação aos inúmeros políticos que eu já vi, de presidentes da República, políticos pretensiosos com sua linguagem estereotipada, ele é de uma simplicidade! É a razão de seu sucesso mundial. Este homem, que é extremamente culto, fala com uma incrível simplicidade.

Ele lhe pareceu sozinho? Ele até fala de uma gaiola…

Sim, é a gaiola do Vaticano! Eu não percebi que estivesse enclausurado, embora seja, como ele mesmo disse, uma gaiola muito agradável. Eu penso que ele não está sozinho. Uma boa parte dos católicos está com ele e outra boa parte lhe é hostil, mas ele tem muito mais encontros humanos, políticos e culturais com ateus e agnósticos, porque ele fala de política. É por isso que isso me interessava. Ele é extremamente sensível à sociedade: como ele diz, “a Igreja deve fazer a grande política, não a pequena política”. Portanto, ele odeia a hipocrisia, a rigidez, as críticas sobre os costumes. Ele tem uma visão do humano extremamente cristã e, ao mesmo tempo, sem ilusões. Ele não é um homem de rupturas. O que me impressiona é que é realmente da grande política, no sentido de que sua obsessão é a de estender pontes e não construir muros, isto é, conectar e não excluir. Penso que isso seja de uma inteligência política extrema, no sentido mais amplo da palavra “política”.

Ele é agora um amigo para você?

Eu penso que o que eu posso representar para ele e o que eu posso lhe dizer é importante, e vice-versa. Você sabe, é sempre assim na minha vida. Eu tive uma relação muito forte com Raymond Aron, muito forte com Jean-Marie Lustiger, forte o suficiente com Jacques Delors e muito forte com ele. Em todo caso, é este encontro humano e esta espécie de lucidez, enfim, este otimismo, que eu guardo.

Fonte: Radio France

****

Autor de um livro-entrevista com o Sumo Pontífice, o sociólogo conta os segredos dos seus 14 encontros.

Faça um resumo de Politique et Société (Editions de L’Observatoire), que foi publicado na quarta-feira, 06 de setembro.

É um encontro intelectual e humano. Uma janela para o mundo entre o sociólogo agnóstico, pesquisador em comunicação política, que eu sou, e um papa que mede a importância da laicidade e repensa o equilíbrio entre tradição e modernidade. Essas 411 páginas destacam sua luta contra as corrupções e nos mostram que o tempo da Igreja é diferente do nosso.

Como você trabalhou?

Na “clandestinidade”… Manter o segredo não era muito difícil, porque ninguém me conhecia. Por conseguinte, para mim foi fácil entrar no Vaticano anonimamente na companhia do padre Louis de Romanet, meu tradutor, que, tendo trabalhado na Secretaria de Estado, também serviu de peixe-piloto para mim. Eu desci do táxi atrás da Praça de São Pedro, passei pelas várias barreiras marcadas pelo secretário particular do Papa até a Casa Santa Marta, onde ele mora. No começo, eu não sabia quantos encontros eu teria, porque o livro foi sendo construído ao longo de meses. Finalmente, trabalhando sozinho, eu não arrisquei nenhuma fuga.

Descreva para nós este Papa, que você nunca tinha encontrado antes.

Sua inteligência, sua bondade, sua alegria, sua fé, sua misericórdia, seu amor pelo povo, a humanidade me impressionaram; mas também sua energia, sua cultura, sua abertura de espírito e mais ainda a sua firmeza na luta contra a rigidez.

Francisco admitiu ter consultado uma psicanalista...

Uma surpresa que veio naturalmente quando abordamos a questão das mulheres, suas amizades femininas; ele então “confessou” isso sem barreiras entre sua vida pública e sua vida privada. Este papa não esconde estar muito à vontade com elas; a prova: os seus olhos brilham quando fala delas.

Ele é um pessimista ou um otimista?

Ele é, antes, um cético ativo, otimista contracorrente, mas sem ilusões sobre nada. Seu credo é o Evangelho, onde o bem supera o mal, mas não tem um calendário preciso. Ele trava as batalhas essenciais para ele: a batalha contra a hipocrisia, pelo serviço dos pobres, dos excluídos, pela reforma da família, da cúria, com a ambição de colocar as mulheres na Igreja católica. É uma verdadeira batalha esperando dar-lhes um papel importante no futuro, talvez até mesmo que tenham acesso às ordens sagradas. Na verdade, consciente de que se João Paulo II libertou a Europa, seu desafio é enfrentar os desafios da globalização. Mas é “diabolicamente” difícil gerenciar as tensões internacionais.

Um papa muito jesuíta?

Mais franciscano na sua abordagem da pobreza, mas jesuíta na gestão da política e do poder, e argentino no seu cosmopolitismo, no seu humor, na sua forte desconfiança dos Estados Unidos. Para entender isso, é preciso mensurar o quanto a sua relação com a Argentina é visceral…

No entanto, a imprensa argentina ainda não falou sobre o livro.

De fato, os principais jornais argentinos, ao menos por enquanto, ainda não ecoaram o livro. Sem dúvida, eles ainda não perceberam que a eleição de Jorge Mario Bergoglio mudou as prioridades. Ele também está bravo com a Europa, que ele considera não estar à altura. O Papa Francisco está obcecado com as pontes que não devem ser quebradas. Construir muros lembra-lhe muito os muros do comunismo e das ditaduras.

Que lição você aprendeu com essa experiência única?

Nosso relacionamento manteve-se técnico, profissional. Francisco me fez poucas perguntas pessoais, nunca me ofereceu um café ou me convidou para almoçar na Casa Santa Marta. Eu gostaria de dizer que, desde o final do livro, formou-se entre nós uma cumplicidade respeitosa e calorosa que, confesso, me deixa muito orgulhoso. No começo, tive que superar a emoção criada pelo poder do seu olhar, a angústia de conseguir realizar bem este trabalho, cujo projeto eu tinha feito antes de entrar em contato com o Santo Padre. Eu falei em francês lentamente – o Papa compreende perfeitamente o nosso idioma, mas suas palavras são hesitantes, então ele me respondia em italiano. Quando ele releu o livro, ele não censurou nada, apenas fez alguns ajustes, e quando, na semana passada, eu lhe levei a primeira cópia, ele exclamou: “Ah! Que lindo que ficou”. Um momento inesquecível!

Fonte: Paris Match.

A histórica viagem do Papa Francisco à Colômbia esteve repleta de anedotas, emoção e a decisão de todo um povo em apostar na paz e na reconciliação, após meio século de violência.

A carta de perdão das FARC, o cessar-fogo do ELN, o categórico pedido para ser “escravos da paz” e se comprometer na construção de uma nova sociedade, significarão, com certeza, um antes e um depois na vida de milhões de colombianos.

No entanto, houve um gesto que passou quase despercebido, mas que, em minha opinião, resume perfeitamente o êxito desta viagem. Aconteceu na Igreja de São Pedro Claver, em Cartagena das Índias. O encontro, o abraço e a mensagem de reconciliação lançada por Juan Pablo Escobar Henao e Jorge Lara Restrepo.

Quem são? Nada mais e nada menos que o filho de Pablo Escobar e do Ministro da Justiça, Rodrigo Lara Bonilla, “assassinado pelo meu pai”, como destaca em sua conta de Instagram o filho do chefe do tráfico colombiano.

“A Paz como realidade, não utopia. Obrigado a Sua Santidade, o Papa Francisco, por esses instantes de oração na Igreja São Pedro Claver, em Cartagena, pela Paz e a reconciliação. Foto com Jorge Lara, filho do Ministro da Justiça Rodrigo Lara Bonilla Q.E.P.D. assassinado por meu pai”, lê-se na mensagem. Ambos, hoje amigos, simbolizam a abertura aos novos tempos. Na Colômbia e para o mundo.

Uma viagem que foi um decisivo êxito, também do ponto de vista dos números. Foi o que anunciou o vice-presidente da Colômbia, Óscar Naranjo, que informou que o Papa conseguiu reunir 6,8 milhões de pessoas no país.

Em relação às mobilizações do Papa, Naranjo explicou que Francisco percorreu 1466 km (1331 km por via aérea e outros 135 km em veículo, com o papamóvel ou em automóveis fechados). No total, participou de 29 atividades: quatro missas campais, onze trajetos no papamóvel e 14 eventos e cerimônias.

Outro expressivo êxito foi o da segurança, pois os índices de criminalidade foram reduzidos drasticamente durante os cinco dias da visita papal. “Os crimes de alto impacto, durante as 90 horas do Papa na Colômbia, foram reduzidos em 70% e as lesões pessoais reduziram 84%, destacou Naranjo.

Como balanço geral, o vice-presidente afirmou que a visita “marca um ponto muito importante de êxito. Estivemos diante de uma visita apostólica na qual os colombianos receberam garantias para ouvir o Papa e seu comportamento foi exemplar, assim como a articulação entre Episcopado, Vaticano e Governo”.

Finalmente, Luis Manuel Alí, bispo auxiliar de Bogotá e membro do comitê central da visita, destacou que o balanço foi positivo por conta da acolhida que foi dada ao Pontífice e pelas mensagens de reflexão, otimismo e esperança que deixou ao país. “O Papa deu muita ênfase, sobretudo no encontro com os jovens na Praça Bolívar, em Bogotá, dizendo com insistência que ‘Não deixem roubar a esperança’, e isto nos anima a ter um otimismo para com os colombianos, porque está em sintonia com a frase que propusemos para sua visita: Demos o Primeiro Passo”, apontou dom Alí.

Fonte: Religión Digital