Duas especialistas na relação católico-luterana, uma católica e outra luterana, dizem que as atuais celebrações conjuntas do 500º aniversário da Reforma Protestante refletem um forte anseio por unidade na base e podem representar uma nova “primavera” no ecumenismo, ou seja, a busca pela unidade cristã.

Quinhentos anos atrás, de acordo com a tradição, Martinho Lutero pregou suas 95 tesesna porta da Catedral de Wittenberg, na Alemanha, disparando, assim, a reforma protestante e dividindo o cristianismo ocidental.

Hoje, duas especialistas de cada lado da divisão católico-luterana dizem que o que detectam nas trincheiras é uma “surpreendente” sede por unidade.

Kathryn Johnson, diretora da Igreja Evangélica Luterana na América (Ecumenical and Interreligious Relations for the Evangelical Lutheran Church in America – ELCA), disse, recentemente, em uma assembleia da ELCA, que esse espírito era forte.

“A profundidade do desejo expresso pelas pessoas no nosso conselho diretivo, do qual 60% são leigos, nos surpreendeu”, disse. “As pessoas querem que avancemos nesse ponto, porque reflete no cotidiano.”

“Eu acho que a visibilidade deste aniversário nos oferece uma oportunidade de dizer ‘Não estamos onde estávamos, e não queremos ficar onde estamos. Queremos ir em frente'”, disse Johnson. “Acredito que a profundidade desse sentimento do nosso povo nos surpreendeu”, afirmou.

A Irmã Susan K. Wood, membro das Irmãs de Caridade de Leavenworth, no Kansas, professora de teologia na Universidade Marquette e líder veterana no diálogo entre católicos e luteranos, disse que as comemorações conjuntas do aniversário da reforma podem marcar um ponto de virada.

“Antes, as pessoas costumavam falar de um ‘inverno ecumênico’. Como se o ecumenismo estivesse desfalecendo”, disse. “Acho que o que aconteceu é que esta comemoração nos levou à primavera, em que as pessoas se preocupam com as relações entre luteranos e católicos.”

“Penso que está afetando as pessoas porque cada diocese está celebrando em conjunto, de alguma forma”, afirmou, “e isso está trazendo o ecumenismo de volta de uma forma diferente da antiga para as pessoas comuns”.

Ambas apontaram para a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação da Federação Luterana Mundial e da Igreja Católica, de 1999, como um momento importante do caminho.

“Para os luteranos, foi algo gigantesco”, disse Johnson. “Na nossa questão-chave acerca da Reforma, dizíamos que já não tínhamos que condenar a doutrina e a prática católicas, e isso foi extremamente importante.”

Wood e Johnson concederam a entrevista abaixo, por vídeo, no final de outubro.

Na mente popular, a Reforma Protestante tratava basicamente da separação entre protestantes e católicos. Então por que é importante, 500 anos depois, celebrar este marco juntos?

Johnson: Acho que os luteranos gostariam de dizer, muito claramente, que o objetivo da Reforma Protestante não era a separação, mas a reforma, e a separação veio depois. É um efeito colateral com que convivemos e nos tornamos confortáveis em excesso nos últimos 500 anos.

Era importante para os luteranos garantir que não fosse mais uma oportunidade de colocar sal nas feridas da divisão. Acho que a frase usada no serviço de Lund [Suécia], em que o Papa Francisco e líderes luteranos iniciaram este ano de celebração no dia 31 de outubro do ano passado é um resumo importante de como nos sentimos. Diz que ‘Cristãos luteranos, ao lembrar os acontecimentos que levaram à formação específica de suas igrejas, não querem fazê-lo sem seus companheiros cristãos católicos’. Havia um desejo, ou seja, um anseio, de não perpetuar esta separação.

Wood: Cada celebração tem seu próprio contexto histórico. O fato é que os católicos envolveram-se no diálogo ecumênico com os luteranos por 50 anos, desde o encerramento do Concílio Vaticano II. O que muitos católicos não entendem é que um dos objetivos do Concílio Vaticano II era a unidade com outros cristãos. O primeiro documento do Concílio foi sobre a liturgia, e seu primeiro parágrafo menciona a unidade cristã.

É importante celebrar isso porque trabalhamos por 50 anos para atingir essa unidade e temos que curar as divisões do passado.

Há apenas 100 anos, é provável que a ideia de uma celebração conjunta da reforma pareceria quase impensável, ou, no mínimo, terrivelmente avant-garde. O que mudou em cada tradição para que isso fosse possível?

Wood: No mundo católico, antes do Concílio Vaticano II, tínhamos essa noção de ‘retornar’ ao ecumenismo, que nem era um ecumenismo verdadeiro. Era algo do tipo: ‘os protestantes estão errando e deveriam vir para casa, em Roma’. Foi isso que mudou com o Concílio Vaticano II, pois reconhecemos os elementos da Igreja de Cristo em nossos irmãos e irmãs que estavam separados.

Nos envolvemos num ‘ecumenismo espiritual’ de reconciliação. Aprendemos uma nova humildade como Igreja. Somos menos convencidos agora, espero, e acredito que por todas essas razões mudamos nosso posicionamento em relação a outros cristãos.

Johnson: Isso se refletiu no posicionamento luterano, porque o Vaticano II também foi um evento importante para os luteranos na mudança de tom da nossa relação com os católicos. Sem isso, não teríamos estes 50 anos de diálogo, que, a nível nacional, em locais como os Estados Unidos, a Alemanha, os países escandinavos e o Brasil, bem como em nível internacional, mudaram a maneira como nos apresentamos uns aos outros.

Acho que, além disso, tem havido um legado comum de conhecimento, que começou antes do Concílio Vaticano II. O movimento litúrgico, por exemplo, foi uma influência comum em nossas igrejas, o que nos aproximou muito em nossa experiência semanal da vida cristã. Tudo isso nos permitiu, como disse Susan, colher os frutos do ‘ecumenismo espiritual’ em nossas relações e nossas amizades.

Wood: Também não podemos esquecer o que aconteceu em 1999: a assinatura, por autoridades de ambas as igrejas, da Declaração Conjunta da Doutrina da Justificação. Para os católicos, foi a primeira vez que receberam oficialmente resultados do diálogo entre igrejas a partir da reforma. Para os luteranos, a justificação é a doutrina pela qual julgam-se todas as outras doutrinas.

Eu digo aos meus alunos que a palavra ‘justificação’ não sai da boca dos católicos com tanta frequência, porque para nós é um termo estrangeiro. Tendemos a falar mais de ‘santificação’ do que de ‘justificação’. No entanto, foi um avanço que os católicos, acho, não apreciam tanto em nossas relações.

Todos os outros acordos depois de 1999 baseiam-se nele, e isso afeta como celebramos este tempo juntos.

Johnson: A respeito do que disse Susan, acho que a Declaração Conjunta trouxe alguns avanços significativos.

Um deles foi que, para os luteranos, era algo gigantesco. Na nossa questão-chave acerca da Reforma, dizíamos que já não tínhamos que condenar a doutrina e a prática católicas, e isso foi extremamente importante.

Também nos forneceu um panorama pelo qual podíamos honrar e apreciar nossas diferenças em piedade e vocabulário, de que Susan falava. Não é preciso que a justificação seja o termo favorito dos católicos para que não seja mais um termo de divisão entre nós.

Wood: Acho que também temos de olhar para o que está acontecendo com o ecumenismo de base, não apenas em relação às igrejas oficiais, mas às pessoas.

No verão passado, tive o privilégio de assistir à assembleia geral da ELCA, onde confirmou-se a Declaração Conjunta, com enormes 99,4% de aprovação. Tivemos uma sessão de escuta na noite anterior e esperávamos todo tipo de questões doutrinárias.

Em vez disso, as pessoas fizeram fila junto ao microfone, dando testemunhos de como tinham trabalhado juntas em paróquias, em questões de justiça social ou sobre sua experiência em casamentos ecumênicos. As pessoas, as pessoas comuns nos bancos das igrejas, têm sede pela continuidade deste trabalho com o ecumenismo e por alcançar a unidade pela qual anseiam. Foi emocionante.

Vocês poderiam mencionar um resultado prático que esperam que possa advir deste ano de celebração que o católico ou luterano praticante realmente notaria?

Johnson: O que Susan mencionou sobre a nossa assembleia geral também foi uma surpresa para nós, luteranos. A profundidade do desejo expresso pelas pessoas no nosso conselho diretivo, do qual 60% são leigos, nos surpreendeu. As pessoas querem que avancemos nesse ponto, porque reflete no cotidiano.

O ano do aniversário elevou a relação entre católicos e luteranos de forma especialmente intensa. Não conheço um único sínodo dentro da Igreja Luterana que ainda não tinha uma comemoração local do aniversário com seus vizinhos católicos. Já aconteceu a nível paroquial, em que muitas pessoas escrevem para mim sobre seus novos amigos católicos, ou quando aprendem algo diferente. É uma prática que querem continuar no seu trabalho de bairro com imigrantes, para tornar um testemunho comum.

Eu acho que a visibilidade deste aniversário nos oferece uma oportunidade de dizer: ‘Não estamos onde estávamos, e não queremos ficar onde estamos. Queremos ir em frente’. A profundidade desse sentimento do nosso povo nos surpreendeu.

Wood: Antes dessa celebração, as pessoas costumavam falar de um ‘inverno ecumênico’. Como se o ecumenismo estivesse desfalecendo. Acho que o que aconteceu é que esta comemoração nos levou à primavera, em que as pessoas se preocupam com as relações entre luteranos e católicos.

Penso que está afetando as pessoas porque cada diocese está celebrando em conjunto, de alguma forma, como disse Kathryn, e isso está trazendo o ecumenismo de volta de uma forma diferente da antiga para as pessoas comuns.

A entrevista é de John L. Allen Jr-  Crux

 

Tudo começou com um livro didático. Um manual escolar assinado por Sophie Le Callennec, professora francesa de geografia e história, desencadeou um debate nacional ao ser o primeiro a adotar a chamada linguagem inclusiva, que busca evitar as fórmulas sexistas. O volume em questão, intitulado Questionar o Mundo, publicado em setembro e dirigido a alunos de Educação Moral e Cívica do 3º ano do primário, motivou uma onda de indignação e dividiu políticos e intelectuais a respeito da necessidade de integrar ou não essas regras de gênero no uso comum da língua.

A polêmica chegou na semana passada à Academia Francesa. Seus 40 imortais difundiram na última quinta-feira um comunicado onde se declaravam contrários ao uso de uma linguagem igualitária. “Diante desta aberração inclusiva, a língua francesa se encontra, a partir de agora, em perigo mortal. Nossa nação é responsável perante as gerações futuras”, afirmou o organismo, fundado em 1763.

Apesar de tudo, Le Callennec não fez mais do que seguir os conselhos formulados pelo Governo francês em 2015. O Conselho Superior para a Igualdade, subordinado ao Executivo, publicou na época um guia prático “para uma comunicação pública sem estereótipos de sexo”, que recomendava citar sempre os dois gêneros, ordenando alfabeticamente o resultado – escreve-se “agriculteurs et agricultrices” (agricultores e agricultoras), mas “femmes et hommes” (mulheres e homens) – e feminizar os substantivos que se refiram a ofícios ou cargos públicos, uma tarefa pendente para o idioma francês.

Além disso, o guia recomendava incorporar um sufixo feminino a todo substantivo masculino, separando-o tipograficamente dentro de cada palavra. Se esta gramática não sexista acabou não se firmando, isso pode ser por causa da complexidade dessa última proposta. Se num escrito em português é possível substituir a palavra alunos por alunos(as), alunxs ou alun@s, em francês é mais difícil, porque nem sempre basta alterar uma vogal, e porque o resultado é menos fácil de ler. Diante da falta de uma normativa compartilhada, geralmente são usados hifens, barras, parênteses, maiúsculas e até três tipos de pontuação. Assim, o resultado para se referir às cidadãs e cidadãos pode ser citoyen/ne/s, citoyen.ne.s, citoyen-NE-s, citoyenNEs, citoyen(ne)s ou, o mais habitual de todos, citoyen·ne·s.

Na verdade, a Associação Francesa de Normalização, encarregada de propor a padronização tipográfica, estuda introduzir esse ponto médio nos teclados do país em 2018. A intenção inicial era reconhecer seu uso em línguas como o catalão e o occitano, mas a adesão crescente a essa gramática alternativa não pode ser alheia a tal gesto. Utilizam-na, cada vez mais, autoridades públicas, o mundo das ONGs e certos meios de comunicação, como a revista lésbica Well Well Well.

Apesar de tudo, a resistência a adotá-la continua sendo férrea e, certamente, majoritária. Desde a aparição do livro da discórdia, a imprensa ‘conservadora’ vem insultando o método. O Figaro o qualificou de “blablablá”, e o semanário Le Point, que lhe dedica sua capa nesta semana, reescreveu em linguagem inclusiva trechos de Molière e de Proust, talvez para sublinhar o caráter ridículo do invento. Por sua vez, o filósofo Raphaël Enthoven tachou essa escrita como “agressão à sintaxe” e “novilíngua” orwelliana, expressando o sentimento de outros intelectuais franceses.

Uso infernal

A escritora Catherine Millet também não acredita que sua adoção seja necessária. “Tentei pronunciar algumas palavras e é infernal. Não é uma língua oral, e a oralidade vem antes da escrita” afirmou ao Le Monde. A autora franco-iraniana Abnousse Shalmani também acha que seu uso não favorece nenhum tipo de equidade. “Línguas como o farsi e o turco não têm masculino e feminino e isso não faz com que essas sociedades sejam mais igualitárias”, afirmou.

O ministro francês da Educação, Jean-Michel Blanquer, argumentou que a escrita inclusiva do francês “fragmenta as palavras” e “fere a língua”, apesar de se considerar “um homem feminista”. Por sua vez, a ministra da Cultura, Françoise Nyssen, se disse favorável a uma feminização sistemática dos substantivos, mas não à utilização da ortografia inclusiva. “Como será compressível às crianças com dificuldades de aprendizagem, como os disléxicos?”, disse ao Le Point. O tiro de misericórdia foi disparado pelos acadêmicos, que consideram que o francês está jogando pedras contra seu próprio telhado. A dificuldade adicional que significaria aprendê-lo e entendê-lo, se a tendência inclusiva se transformar em regra, jogaria “a favor de outras línguas que aproveitarão a ocasião para prevalecer no planeta”. Em outras palavras, a arqui-inimiga chamada inglês.

A discussão na Espanha

A Real Academia Espanhola aprovou um estudo em 2012 sobre as diretrizes para se avançar na linguagem inclusiva e não sexista. A opinião manifestada à época não mudou. O diretor da RAE, Darío Villanueva, a resume assim: “Somos favoráveis à sensibilização dos falantes no que se refere à linguagem sexista, mas sobre a estrutura gramatical mantemos o que dissemos em 2012”. Ou seja, condenam o uso machista de alguns termos, mas não defendem a duplicidade de gênero para que homens e mulheres sejam representados no discurso.

“Isso é um falso debate”, diz a doutora em Filologia Românica Eulalia Lledó. “Porque as diretrizes não são regras, somente propostas de usos. E não sei por que alguns acadêmicos ficam tão irritados com o uso da forma dupla para visibilizar as mulheres porque existe até no Antigo Testamento e em Mío Cid. É só retirar de um filão. Fico feliz ao ver cada vez mais formas genéricas na imprensa”.

El País


Noticia de 2016, sempre atualizada.

Fonte: Guy Franco

Professor de uma universidade do Canadá vem sendo perseguido pelos estudantes por se recusar a – veja só – usar pronomes de gênero neutro.

Para manter o padrão, procuro oferecer aos leitores o melhor da polêmica mundial. Uma delas vem da BBC e parece retirada de algum romance distópico de George Orwell: um professor de uma universidade do Canadá vem sendo perseguido pelos estudantes por se recusar a – veja só – usar pronomes de gênero neutro.

A julgar pela reação dos universitários, parece que Jordan Peterson, professor de psicologia da Universidade de Toronto, é suspeito de cometer alguma ofensa terrível, e estaria pronto para arruinar a vida dos estudantes universitários. Mas depois descobrimos que o maior crime dele foi este: dizer em vídeo que se recusava a usar os pronomes “ze” e “zir” no lugar de “she” e “he”. Já disse antes, as melhores peças humorísticas da atualidade são escritas por acadêmicos.

Mas voltemos ao caso: alguns alunos trans e não-binários exigem de Jordan Peterson o uso de pronomes novos criados pelo movimento de correção política. Ne, ve, ze, zie, zir, xe – os pronomes abundam. A polêmica também.

Diz Peterson: “Se a pessoa trans quer ser chamada de “ele” ou “ela”, meu bom senso é o de abordá-la de acordo com o gênero que a pessoa se apresenta.” Diz ainda: “Eu estudei o autoritarismo por um bom tempo – por 40 anos – e ele começa nessa tentativa de as pessoas controlarem a ideologia e a língua dos outros. De maneira alguma vou usar palavras inventadas por pessoas que estão tentando fazer o mesmo – sem chance.”

O objetivo agora é outro: não basta chamar a mulher trans de “ela” e o homem trans de “ele”, como o professor Peterson sempre fez. Segundo a mais nova moda, há uma infinidade de outros gêneros não catalogados. E cada um exige o uso de um pronome diferente. O que implica, claro, não ofender os alunos com doses de inglês arcaico e reacionário; este que encontramos nos livros de Agatha Christie.

Se a coisa ficasse pelos corredores da universidade, seria apenas uma boa ideia de sketch humorístico. O problema é que o caso já chegou ao Departamento de Psicologia da Universidade de Toronto, que emitiu uma advertência ao professor. Também estudantes e docentes já disseram que a atitude de Jordan Peterson é considerada inaceitável, emocionalmente perturbadora e dolorosa. E até o escritório dele sofreu atos de vandalismo.

Na tentativa de impedir qualquer ofensa a minorias desfavorecidas, muitas vezes os movimentos de correção política acabam convertendo-se na mais repugnante forma de autoritarismo.

Parafraseando o título de um conhecido livro, poderíamos dizer que vivemos em uma época de “paixões mornas”. Não “tristes”, como as evocadas por Miguel Benasayag e Gérard Schmit no seu ensaio (publicado em 2004 pela editora Feltrinelli). Ao contrário: “desencantadas”. Interpretadas com realismo. Particularmente pelos jovens. Acostumados a projetar o futuro no seu olhar. E a orientar o nosso. Porque os jovens “são” o futuro. 

Essa é a imagem sugerida pela pesquisa do Observatório Demos-Coop, realizada nos últimos dias e proposta no jornal italiano La Repubblica.

Além disso, a sociedade e, sobretudo, os jovens se acostumaram com o clima de desconfiança que paira sobre nós. Há muitos anos já. Assim, eles o atravessam sem muito medo. Em particular, os “jovens-adultos” (de acordo com os demógrafos), a “geração do milênio”, segundo o Istat.

Em suma, aqueles que têm entre 25 e 36 anos e estão no meio da juventude e da idade adulta. E acumulam a insegurança de quem tem pela frente um futuro repleto de incógnitas e a segurança de quem começou a experimentar os problemas do futuro. É a metáfora de uma sociedade que não aceita envelhecer. Onde muitos, quase todos, gostariam de ficar “jovens para sempre”. Às custas de protelar ao infinito as incertezas dos adolescentes. 

É um aspecto que já observamos outras vezes no passado. Mas hoje ele se repropõe, de modo, se possível, mais marcante. A juventude, de acordo com os italianos, se alonga cada vez mais. Quanto mais os anos passam. 

Entre aqueles que não superam os 36 anos, a juventude acaba um pouco mais tarde: aos 42 anos. Depois, à medida que os anos passam, a juventude também se alonga. Até os 62 anos, para aqueles que superaram os 71 anos. A “geração da reconstrução”. 

Paralelamente, afasta-se também o limiar da velhice. Tanto que, de acordo com os mais idosos, perdão, os “menos jovens”, só nos tornamos “velhos” depois de completar os 80 anos. Não é uma novidade. A nostalgia da juventude leva a negar a velhice. E induz a aceitar ser velho… só depois da morte. 

Porém, todas as vezes eu me surpreendo. Não consigo me dar uma razão para isso. A velhice como desvalor: significa negar a importância da experiência. A maturidade. 

Por outro lado, a idade adulta se restringe cada vez mais. Assim, a nossa biografia se aproxima e opõe juventude e velhice. Uma ao lado da outra. E reduz a idade adulta a uma passagem rápida. Quase ocasional. “Tornar-se grande”, uma promessa esperada, quando eu era criança, hoje parece ser quase uma ameaça. No máximo, nos é concedida a condição de “adultos com reserva” (para citar um belo livro de Edmondo Berselli).

As fraturas geracionais, assim, parecem ser menos evidentes e menos marcadas do que antigamente. Eu mesmo, no fim dos anos 1990, definira os jovens como uma Generazione invisibile [Geração invisível] (Ed. Il Sole 24 Ore, 1999). Para enfatizar a progressiva marginalidade dos jovens, mas, ainda mais, a sua coerência com as orientações dos… adultos. Ou, melhor, dos pais. A tal ponto de não se captarem mais as suas distâncias. Ou seja: as especificidades geracionais. 

Por outro lado, os anos das contestações sociais, mas, antes ainda, familiares – dos filhos contra os pais – estavam longe. Depois, não se repropuseram mais. Ou, melhor: os pais, a família tornaram-se o pretexto que permite que os filhos conduzam a sua transição infinita para a idade adulta. Explica-se principalmente assim a importância atribuída pelos mais jovens às suas relações com a família. Mas, acima de tudo, à independência e à autonomia. Três em cada quatro, entre aqueles que têm até 24 anos, os consideram muito importantes. Em 2003, eram pouco mais de um em cada dois. Sinal evidente de que o apoio da família é necessário, mas, ao mesmo tempo, aumenta a demanda de independência. De crescer e de se autorrealizar. De se afirmar e de “fazer carreira”. Objetivo ambicionado por 41% dos mais jovens: quase 10 pontos a mais do que no início dos anos 2000. Uma esperança que, para ser realizada, os leva a olhar – e ir – para outros lugares.

Os mais jovens, junto com os jovens-adultos, os millennials, são a geração da rede, a geração mais globalizada. Acostumados a se comunicarem à distância. E a se orientarem para “outros lugares”, sustentados pelos pais. E pelos avós. Por isso, não conseguem fugir do sentimento de solidão, que paira sobre toda a sociedade. 

É claro, os jovens-mais-jovens são sustentados e ajudados por redes de amigos mais compactas. Mas os seus irmãos mais velhos, os jovens-adultos, a “geração do milênio”, sofrem mais do que os outros. Na pesquisa Demos-Coop, 39% deles, quase 4 em cada 10, admitem “sentir-se sozinhos”. Por outro lado, a internet e as mídias sociais permitem ficar sempre em contato com os outros. Os amigos. Mas é você, na frente da sua tela. Sozinho. Ou no meio dos outros. A comunicar. Sozinho. Com o seu smartphone.

Assim, as paixões não se tornam “tristes”, mas mais mornas. Porque as próprias “fés” empalidecem. E se perdem.

A política: não interessa mais a quase ninguém. Mesmo entre os mais jovens. Junto dos quais o percentual que considera importante a política não vai além dos 14%. Pouco acima da média geral. Estão longe os tempos da “contestação”. A própria “geração do compromisso” – de 1968 – parece desiludida. 

Elisa Lello, em uma pesquisa publicada há alguns anos, falou de uma Triste gioventù [Triste juventude] (Ed. Maggioli, 2015). Em suma, não há mais fé. Especialmente entre os mais jovens. Isso foi explicado por Franco Garelli, estudioso das religiões muito reconhecido, em um texto de título explícito: Piccoli atei crescono [Pequenos ateus crescem] (Ed. Il Mulino, 2016). 

A pesquisa Demos-Coop confirma isso, já que a religião é considerada importante apenas por 7% da “geração da rede”. Um quarto, em comparação com a população como um todo. Menos de um terço em relação a 2003.

Em outras palavras, “não há mais religião”. Especialmente entre os mais jovens. Assim, torna-se difícil sentir “paixões”. Quentes e até mesmo tristes. Prevalece o desencanto.

E as paixões esfriam. Tornam-se mornas. Porém, convém “crer” nos jovens. Porque, mesmo assim, mais do que todos os outros, eles “creem” na Europa. Porque são o nosso futuro. E, mais do que todos os outros, “creem” no futuro.

A opinião é do sociólogo e cientista político italiano Ilvo Diamanti, professor da Universidade de Urbino, em artigo publicado por La Repubblica,

“Pedimos perdão pelos nossos fracassos, pelas formas como os cristãos feriram o Corpo do Senhor e se ofenderam uns aos outros durante os 500 anos transcorridos desde o início da Reforma até hoje”, diz a Declaração Conjunta que a Federação Luterana Mundial e o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos assinaram ontem, “31 de outubro de 2017, ano de comemoração comum da Reforma“.

Uma comemoração que, pela primeira vez, “compartilhamos juntos e com nossos parceiros ecumênicos do mundo inteiro”. No documento, luteranos e católicos mostram-se “muito agradecidos pelos dons espirituais e teológicos recebidos através da Reforma“.

“Nós, luteranos e católicos, estamos profundamente agradecidos pelo caminho ecumênico que percorremos juntos nos últimos 50 anos”, prossegue o texto, que reconhece como, ao longo deste tempo, se aprofundou a “nossa oração comum, o culto e o diálogo ecumênico”, o que representou “a eliminação de preconceitos, uma maior compreensão mútua e a identificação de acordos teológicos decisivos”.

O documento faz um balanço positivo deste ano da reforma, que começou com a oração comum luterano-católica em Lund, com a presença do Papa Francisco e a assinatura de uma declaração conjunta “que recolhe o compromisso de continuar percorrendo juntos o caminho ecumênico rumo à unidade pela qual rezava Cristo”.

“Muitos membros das nossas comunidades desejam receber a Eucaristia em uma mesa como expressão concreta da plena unidade. Sentimos a dor daqueles que compartilham toda a sua vida, mas não podem compartilhar a presença redentora de Deus na mesa da Eucaristia. Reconhecemos a nossa conjunta responsabilidade pastoral para responder à fome e à sede espirituais do nosso povo para ser um em Cristo. Desejamos que esta ferida no Corpo de Cristo seja curada. Este é o propósito dos nossos esforços ecumênicos, que desejamos que também avancem através da renovação do nosso compromisso com o diálogo teológico” , insiste o documento, com palavras da citada declaração.

“Pela primeira vez – ressalta a afirmação –, luteranos e católicos consideraram a Reforma desde uma perspectiva ecumênica, o que deu lugar a uma nova abordagem dos acontecimentos do século XVI que levaram à nossa separação”, o que pode redundar em “um estímulo para o crescimento da comunhão e um sinal de esperança para que o mundo vença a divisão e a fragmentação. Uma vez mais, ficou claro que o que temos em comum é muito mais do que o que nos divide”.

De frente para o futuro, conclui o documento, “nos comprometemos a seguir nosso caminho comum, guiados pelo Espírito de Deus, para a maior unidade de acordo com a vontade de Nosso Senhor Jesus Cristo” para “superar as diferenças remanescentes que existem entre nós”.

Eis a íntegra da declaração.

Declaração conjunta da Federação Luterana Mundial e do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos de 31 de outubro de 2017, ano da comemoração comum da Reforma

No dia 31 de outubro de 2017, último dia do ano da comemoração ecumênica comum da Reforma, estamos muito agradecidos pelos dons espirituais e teológicos recebidos através da Reforma, comemoração que compartilhamos juntos e com os nossos parceiros ecumênicos do mundo inteiro. Da mesma forma, pedimos perdão pelos nossos fracassos, pelas formas como os cristãos feriram o Corpo do Senhor e se ofenderam uns aos outros durante os 500 anos desde o início da Reforma até hoje.

Nós, luteranos e católicos, estamos profundamente agradecidos pelo caminho ecumênico que percorremos juntos nos últimos 50 anos. Essa peregrinação, apoiada pela nossa oração comum, pelo culto e pelo diálogo ecumênico, redundou na eliminação de preconceitos, em uma maior compreensão mútua e na identificação de acordos teológicos decisivos. Diante de tantas bênçãos recebidas ao longo do caminho, elevamos os nossos corações em louvor ao Deus Trino pela misericórdia recebida.

Neste dia, fizemos uma retrospectiva de um ano de notáveis eventos ecumênicos que começou em 31 de outubro de 2016 com a oração comum luterano-católica em Lund, na Suécia, na presença de nossos parceiros ecumênicos. Durante a presidência desse serviço, o Papa Francisco e o bispo Munib A. Younan, então presidente da Federação Luterana Mundial, assinaram uma declaração conjunta que recolhe o compromisso de continuar percorrendo juntos o caminho ecumênico rumo à unidade pela qual rezava Cristo (cf. João 17, 21). Nesse mesmo dia, nosso serviço conjunto àqueles que necessitam da nossa ajuda e solidariedade também foi fortalecido por uma declaração de intenção entre a Caritas Internationalis e a Federação Luterana Mundial – Serviço Mundial.

O Papa Francisco e o Presidente Younan declararam juntos: “Muitos membros das nossas comunidades desejam receber a Eucaristia em uma mesa como expressão concreta da plena unidade. Sentimos a dor daqueles que compartilham toda a sua vida, mas não podem compartilhar a presença redentora de Deus na mesa da Eucaristia. Reconhecemos a nossa conjunta responsabilidade pastoral para responder à fome e à sede espirituais do nosso povo para ser um em Cristo. Desejamos que esta ferida no Corpo de Cristo seja curada. Este é o propósito dos nossos esforços ecumênicos, que desejamos que também avancem através da renovação do nosso compromisso com o diálogo teológico”.

As bênçãos deste ano de comemoração incluem o fato de que, pela primeira vez, luteranos e católicos consideraram a Reforma a partir de uma perspectiva ecumênica, o que deu lugar a uma nova abordagem dos acontecimentos do século XVI que levaram à nossa separação. Reconhecemos que, embora o passado não possa ser alterado, sua influência sobre nós hoje pode ser transformada para servir de estímulo para o crescimento da comunhão e um sinal de esperança para o mundo para que supere a divisão e a fragmentação. Uma vez mais, ficou claro que o que temos em comum é muito mais do que o que nos divide.

Alegra-nos o fato de que a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação, assinada em um ato solene pela Federação Luterana Mundial e pela Igreja Católica Romana em 1999, também foi assinada em 2006 pelo Conselho Metodista Mundial e pela Comunhão Mundial das Igrejas Reformadas neste ano de comemoração. Além disso, hoje mesmo será acolhida e recebida pela Comunhão Anglicana em uma cerimônia solene na Abadia de Westminster. Sobre esta base, nossas comunhões cristãs podem construir um vínculo mais estreito de consenso espiritual e testemunho comum a serviço do Evangelho.

Reconhecemos com gratidão os inúmeros eventos de oração e culto comuns que luteranos e católicos celebraram junto com seus parceiros ecumênicos em diferentes lugares do mundo, os encontros teológicos e as publicações significativas que deram substância a este ano de comemoração.

De frente para o futuro, nos comprometemos a seguir nosso caminho comum, guiados pelo Espírito de Deus, para a maior unidade de acordo com a vontade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Com a ajuda de Deus, pretendemos discernir através da oração a nossa compreensão da Igreja, da Eucaristia e do Ministério, buscando um consenso substancial que permita superar as diferenças remanescentes que existem entre nós. Com profunda alegria e gratidão, confiamos em “que Aquele que começou em [nós] esse bom trabalho, vai continuá-lo até que seja concluído no dia de Jesus Cristo” (Filipenses 1, 6).

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