Pela primeira vez, graças a uma investigação documentada, fascinante como uma investigação policial e precisa como uma pesquisa histórica, foram definitivamente esclarecidas as circunstâncias da morte de  João Paulo I  que, em 1978, reinou por apenas 33 dias: pouco antes de jantar pela última vez, o papa teve um mal-estar, subestimado por todos.

Chegará às livrarias na Itália no dia 7 de novembro, um livro baseado em documentos e testemunhos inéditos, que põe fim ao “suspense” sobre o falecimento do pontífice vêneto. Ele tem o prefácio do cardeal secretário de Estado, Pietro Parolin, e se intitula Papa Luciani. Cronaca di una morte [Papa Luciana. Crônica de uma morte] (Ed. Piemme, 252 páginas). Ele foi escrito pela jornalista Stefania Falasca, vice-postuladora da causa, que interrogou testemunhas até hoje nunca ouvidas, tendo acesso aos fascículos secretos da Santa Sé e aos registros clínicos.

Ir. Margherita

Ela se chama Ir. Margherita Marin, tem hoje 76 anos e, na época dos fatos, era a mais jovem das religiosas vênetas a serviço do papa. Foi ela que entrou, na madrugada do dia 29 de setembro de 1978, no quarto de João Paulo I, logo depois da Ir. Vincenza Taffarel, a idosa religiosa que, há mais de 20 anos, auxiliava Luciani.

É ela que testemunha, pela primeira vez, o que aconteceu nas horas anteriores à morte súbita do papa. É ela que desmente que ele estivesse cansado e quase esmagado pelo peso da nova responsabilidade: “Eu o vi sempre tranquilo, sereno, cheio de confiança, seguro”. É ela quem atesta que ele não seguia dietas particulares e comia o que os outros comiam.

Eis como João Paulo I passou as suas últimas horas de vida, na tarde do dia 28 de setembro: “Eu estava passando roupa no guarda-roupa com a porta aberta e eu o via passando para a frente e para trás. Ele caminhava no apartamento segurando as folhas que estava lendo… Eu lembro que, ao me ver passando roupa, ele também me disse: ‘Irmã, eu faço vocês trabalharem tanto… Mas não fique passando a camisa tão bem, porque está quente, eu suo e preciso trocá-la muitas vezes… Passe apenas o colarinho e os pulsos, porque o resto não se vê nada, sabe…”.

A cabeceira

De testemunhos cruzados, entre os quais está o do ajudante de quarto Angelo Gugel, esclarece-se o mal-estar que Luciani teve naquela noite, pouco antes do jantar, enquanto rezava com o secretário irlandês, John Magee. Um documento até hoje secreto, redigido nos dias posteriores à morte, fala a respeito. Ele foi escrito por Renato Buzzonetti, primeiro médico a ser chamado ao leito do papa morto. No detalhado relatório por ele dirigido à Secretaria de Estado no dia 9 de outubro de 1978, fala-se do “episódio de dor localizada no terço superior da região do esterno, sofrido pelo Santo Padre perto das 19h30 do dia da morte, que se prolongou por mais de cinco minutos, verificado enquanto o papa estava sentado e concentrado na oração das Completas com o padre Magee e que regrediu sem qualquer terapia”.

É um testemunho decisivo, porque foi recolhido no imediatismo da morte: a Farmácia Vaticana não foi aberta, e nem se avisou a Ir. Vincenza, que era enfermeira e que, justamente naquela noite, falou ao telefone com o médico que cuidava do papa, Antonio Da Ros, residente em Vittorio Veneto, sem fazer qualquer menção ao mal-estar.

Portanto, não foram administrados remédios a Luciani, nenhum médico foi chamado para verificações, apesar de o novo papa ter sentido uma forte dor no peito, sintoma do problema coronário que, naquela mesma noite, pararia o seu coração.

O Pe. Magee, no seu testemunho aos autos, contou que o próprio pontífice não quis avisar o médico. Buzzonetti só será informado a respeito no dia seguinte, diante do corpo estendido sobre a cama.

O achado

O livro de Falasca, graças aos novos testemunhos, revela algumas contradições nos relatos dos dois secretários particulares do pontífice. O Pe. Diego Lorenzi, o sacerdote orionino que tinha acompanhado Luciani desde Veneza, não estava presente no momento em que o papa teve o mal-estar na capela. E, na noite de 28 de setembro, logo depois do jantar, deixou o apartamento.

João Paulo I, atesta a Ir. Margherita Marin no depoimento aos autos da causa, decidira substituí-lo. Na manhã de 29 de setembro, não foram os secretários que encontraram o corpo do pontífice, mas sim a Ir. Vincenza e a Ir. Margherita. O papa não havia tocado no café que havia sido deixado para ele na sacristia às 5h15, e, assim, a Ir. Vincenza, depois de bater várias vezes na porta, entrou no quarto e disse: “Santidade, o senhor não deveria fazer essas brincadeiras comigo!”. A religiosa, de fato, era fraca de coração. “Depois, ela me chamou, saindo chocada”, conta a Ir. Margherita. “Então, eu logo entrei também com ela e o vi. (…) Eu toquei as suas mãos, estavam frias. Olhei e me chamaram a atenção as unhas um pouco escuras”.

As dúvidas dos cardeais

Entre os documentos inéditos no apêndice do livro, estão os registros clínicos, dos quais se pode ver que, ainda em 1975, durante uma internação, havia sido assinalado um mínimo de patologia cardiovascular, tratada com anticoagulantes e considerada resolvida.

E há também a nota com as perguntas que os cardeais, antes do novo conclave, querem dirigir, no mais total sigilo, aos médicos que lidaram com o papa por ocasião do embalsamento. Através da Secretaria de Estado, os purpurados perguntam se “o exame do corpo” permitia “excluir lesões traumáticas de qualquer natureza”; se havia sido confirmado o diagnóstico de “morte súbita” e, por fim, perguntam: “A morte súbita é sempre natural?”.

Dúvidas sérias e significativas: os cardeais não excluíam, a priori, a hipótese de uma morte provocada. Desmentida, ao contrário, pelos médicos.

Jornal La Stampa, 04-11-2017.


 

Nesta entrevista, uma das freiras que encontrou João Paulo I morto, em 28 de setembro de 1978, relata detalhes de um dos momentos que marcou a história da Igreja recente.

A reportagem é de Stefania Falasca, publicada no jornal Avvenire, 04-11-2017.

Eis a entrevista.

Pode nos dizer a que horas, como e quem encontrou o papa morto?

Perto das 5h15 daquela manhã, como todas as manhãs, a Ir. Vincenza havia deixado uma xícara de café para o Santo Padre na sacristia, logo ao lado do apartamento do papa, em frente à capelinha. O Santo Padre, ao sair do seu quarto, costumava tomar o café na sacristia, antes de entrar na capela para rezar. Naquela manhã, porém, o café ficou lá. Passados cerca de dez minutos, a Ir. Vincenza disse: “Ele ainda não saiu? Mas por quê?”. Eu estava lá no corredor. Assim, eu vi que ela bateu uma vez, bateu de novo, ele não respondeu… Ainda silêncio. Então, ela abriu a porta e depois entrou. Eu estava lá e, quando ela entrava, eu fiquei do lado de fora. Ouvi que ela disse: “Santidade, o senhor não deveria fazer essas brincadeiras comigo”. Depois, ela me chamou, saindo chocada. Então, eu logo entrei também com ela e o vi. O Santo Padre estava na sua cama, a luz para ler sobre a cabeceira estava acesa. Ele estava com os seus dois travesseiros atrás das costas, que o seguravam um pouco erguido, as pernas esticadas, os braços sobre os lençóis, de pijama, e, entre as mãos, apoiadas no peito, ele segurava algumas folhas datilografadas, a cabeça estava virada um pouco para a direita, com um leve sorriso, os óculos sobre o nariz, os olhos semifechados… Parecia realmente que ele estava dormindo. Eu toquei as suas mãos, estavam frias. Olhei e me chamaram a atenção as unhas um pouco escuras.

Não notou nada fora do lugar?

Não. Nada, nada. Nem mesmo uma dobra. Nada caído no chão, nada desarrumado que pudesse levar a se pensar em um mal-estar do qual ele tivesse se dado conta. Parecia realmente como alguém que adormeceu lendo. Que adormeceu e ficou assim.

E, depois, o que vocês fizeram?

Logo depois, a Ir. Vincenza subiu para chamar o Pe. Magee, e eu corri para chamar o Pe. Diego, bati na porta, chamei-o: “Desça, o Santo Padre, o Santo Padre…”. Ele acordou de sobressalto e desceu. Rezamos uma oração, depois o Pe. Magee foi chamar o médico do Vaticano. O Dr. Buzzonetti chegou quase imediatamente. Eu vi chegarem os cardeais Villot e, depois, Poletti.

Vocês, freiras, estavam presentes no momento do relatório do médico?

Não, porque saímos do quarto. Depois, o Pe. Magee veio ao nosso encontro e nos disse: “Ele não sofreu, nem se deu conta”, referindo-se às palavras ditas pelo médico, e também disse que a morte súbita tinha sido de noite, perto das 23h. Isso eu ouvi. Não ouvi outras coisas… havia pouco a dizer. Depois, nós não lidamos com a preparação do corpo, nem a Ir. Vincenza nem nós. Eles pensaram nisso. Mais tarde, chegou também Angelo e outros para ajudar.

Do que você ainda se lembra daqueles momentos?

Lembro-me das idas e vindas de prelados, lembro que andavam para a frente e para trás no corredor, e ouvi que não sabiam como fazer para dar ao mundo a notícia de que o papa, que em pouco tempo tinha conquistado a todos, tinha morrido assim, tanto que, somente duas horas depois, desde que nós, freiras, o havíamos encontrado, deram a notícia oficial. Lembro-me de que, quando o Santo Padre ainda estava no seu quarto, também foi vê-lo a sua sobrinha, uma menina jovem. Ela parou à distância e chorou com a Ir. Vincenza. Nós, freiras, sem os secretários, assistimos à missa de sufrágio celebrada pelo cardeal Poletti. Eles nos chamaram mais tarde para dar os paramentos e para acompanhá-lo à Sala Clementina. Ficamos lá rezando e, depois, voltamos, porque devíamos liberar o apartamento e selar tudo, de acordo com o que é estabelecido pela práxis. Recordo que o Pe. Magee nos disse para pegar alguns pertences pessoais do Santo Padre. À Ir. Vincenza, ele deu os óculos, as pantufas e outros objetos. Eu fiquei com o seu radiozinho, que eu ainda guardo como uma relíquia.

 

Você sabe quem pegou e o que aconteceu com as folhas que ele tinha em mãos?

Não. Não saberia dizer quem lidou com isso. Eu também não perguntei. Nós o deixamos com elas em mãos, não tocamos em nada. Eram folhas datilografadas ou, melhor, meias folhas, duas ou três. Não escritas à mão, estou muito certa disso, mas não sei dizer o conteúdo, porque não as fiquei lendo naqueles momentos lá. Alguém lá no corredor nos disse que eram as folhas para a audiência da quarta-feira. O escritório com os seus papéis e o quarto foram selados, depois, e reabertos pelo seu sucessor João Paulo II. Eu estava presente quando o novo papa cortou os selos e entrou no apartamento.

Depois da morte do papa, você se encontrou com a Ir. Vincenza ou com as outras coirmãs e recordaram alguns detalhes daquele mês?

Sim, nos encontramos. Pouco com a Ir. Vincenza, mais com a Ir. Elena, que, enquanto isso, tivera um tumor. Mas, mais do que recordações particulares daqueles dias, nós nos convidávamos reciprocamente a rezar por ele, para que ele intercedesse por nós.

Alguém, depois, lhe pediu informações ou manifestou suspeitas sobre a circunstância da morte de João Paulo I?

Depois que eu voltei para a comunidade de Vittorio Veneto, lembro que o bispo de Belluno, Dom Ducoli, me telefonou. Ele estava muito entristecido e me pediu para lhe dizer como o papa verdadeiramente tinha sido encontrado, se estava no chão, caído de algum modo. “Não, excelência”, eu lhe disse, “o Santo Padre estava na sua cama, nós o vimos, e ele não tinha nem sequer uma prega”.

Você ainda tem alguma coisa a dizer sobre as versões conflitantes sobre as últimas horas do papa?

Eu simplesmente não sei como sugiram todos aqueles boatos. Nós estávamos lá. Eu posso dizer, e disse, tudo o que sei e o que vi.

O Departamento Filatélico e Numismático do Estado do Vaticano enviou para a impressão um selo comemorativo da Reforma Protestante representando a pintura do frontão da igreja de Wittenberg com o primeiro plano de Jesus crucificado e, no fundo, a cidade de Wittenberg (o lugar onde o reformador alemão e frade agostiniano, em 31 de outubro de 1517, afixou suas 96 teses na porta da igreja do castelo da cidade saxônica para combater o comércio de indulgências).

A representação “pictórica” do selo retrata, em postura de penitência e ajoelhados, respectivamente, a esquerda e direita da Cruz, Martin Luteroque segura a Bíblia, fonte e meta de sua doutrina, e Felipe Melanchton, teólogo e amigo de Martin Lutero – um dos maiores protagonistas da reforma – que, ao contrário, segura a primeira exposição oficial dos princípios do protestantismo por ele redigida: a Confissão de Augsburgo“Confessio Augustuana”.

“É a primeira vez – relata para Riforma.it o pastor Heiner Bludau decano da Igreja Evangélica Luterana na Itália (Celi) – que o Vaticano decide imprimir um selo comemorativo dedicado a Lutero e à Reforma Protestante. Justamente em Wittenberg comemoramos oficialmente em 31 de outubro, na presença das mais altas autoridades do Estado e religiosas, os 500 anos da reforma

Na cidade de Lutero chegou a notícia de reprodução em papel filigranado das imagens de Lutero e Melanchton retratados ao lado de Jesus com o pano de fundo da cidade saxônica. Uma notícia, para nós luteranos, agradável, inesperada e importante. Devo admitir que eu ainda não tive a oportunidade de ver o selo, mas considero essa iniciativa importante. Assim como foram as declarações conjuntas entre luteranos e católicos; neste caso, o Vaticano, ou melhor, seu departamento de filatelia e numismática, decidiu de forma autônoma lançar um importante sinal de proximidade, utilizando uma imagem muito clara, eloquente e abrangente, que bem explica e ilustra a importância, o sentido da Reforma iniciada por Lutero”. 

Em Wittenberg (a cidade de Lutero e fundo do selo), lembra ainda Bludau, foram realizadas as celebrações da “Festa da Reforma“, com um culto solene na Igreja do Castelo de Wittenberg celebrado pelo presidente da EKD, Heinrich Bedford-Strohm e também uma recepção oficial que contou com a presença, entre outros, da própria chanceler Angela Merkel ; todos eventos promovidos pela Igreja evangélica luterana alemã – Evangelische Kirche in Deutschland (EKD) na última terça-feira – “ocasiões importantes – continuou Bludau – em que surgiu, com força, a necessidade de continuar o trabalho ecumênico e interreligioso. Um tema decisivo é o da liberdade religiosa.

Bedford-Strohm em seu precioso sermão também falou sobre a atualidade da Reforma e a importância de olhar para o futuro, um futuro à insígnia da responsabilidade, seja coletiva ou pessoal; a chanceler Merkel, colocando lado a lado a liberdade religiosa com a Reforma Protestante reiterou que as liberdades não podem, no entanto, prescindir dos deveres; ressaltando também a importância da presença religiosa e interreligiosa no tecido institucional, social, político e comunitário da Alemanha”.

O presidente do Conselho da Igreja Evangélica Alemã, o bispo Heinrich Bedford-Strohm, diante do presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, da chanceler Angela Merkel, do presidente do Bundestag Wolfgang Schäuble, bem como numerosos outros convidados do mundo político e ecumênico e centenas de fiéis, quis lembrar: “Estamos sentados aqui, 500 anos depois” e depois enviou uma mensagem ao Papa Francisco: “Irmão em Cristo, agradecemos a Deus pelo seu testemunho de amor e misericórdia que para nós, protestantes, também significa testemunho de Cristo”.

Palavras importantes de reconhecimento endereçadas ao Papa, prosseguiu Bludau, “porque, embora seja verdade que o caminho de aproximação e aberturas ecumênicas começou com o Concílio Vaticano II, é igualmente verdade que o impulso mais significativo ao diálogo e à reconciliação nestes últimos anos vieram dos movimentos dos Papa Francisco. Uma aproximação com todas as igrejas protestantes e evangélicas.

Certamente, importantes são as declarações assinadas no passado, tais como a católico-luterana sobre a doutrina da justificação de 1999, ou a de 2103 “Do conflito à comunhão“, todos documentos dogmáticos importantes. Mas eu acredito que a visita do Papa Francisco em Lund – para abrir as comemorações dos Quinhentos anos da Reforma – tenha sido a verdadeira faísca que realmente modificou a atmosfera e a percepção geral, um movimento visível para todos, de maneira especial na Itália, onde a informação generalista e secular conta muitas vezes e espasmodicamente a vida do papa, as suas obras, as suas viagens e os seus pensamentos. O Papa abrindo as celebrações da Reforma mostrou a todos que não somos “seitas”, mas igrejas cristãs. Uma mensagem que soube penetrar nos interstícios mais inatingíveis da própria igreja católica”.

Após reuniões compartilhadas entre as igrejas protestantes e evangélicas e a cúpula da Igreja Católica, como a do início deste ano em Trento junto com o Departamento Nacional para o Ecumenismo e Diálogo (Unedi) da CEI, e intitulado “Católicos e protestantes 500 anos depois da reforma”, é possível ter um olhar comum, como aconteceu por ocasião da “Festa da reforma” em Roma no último dia 28 de outubro, graças à presença do Cardeal Ravasi e à transmissão da Rai Due ao vivo por mais de uma hora.

Juntamente com a CEI – Unedi, Bludau finalmente recordou “que nasceu a ideia de promover também a declaração conjunta divulgada em 31 de outubro. As relações entre a Igreja Luterana e a Igreja Católica são parte, certamente significativa, de um percurso ecumênico bem mais amplo.

Um percurso empreendido há muito tempo juntos com a Federação das Igrejas Evangélicas na Itália (FCEI) da qual somos federados, e com a qual, graças aos seus esforços, pudemos compartilhar em 28 de outubro último uma jornada realmente rica e importante que, amplificada pela Rai, permitiu-nos colocar à disposição o evento não como um fato “intraprotestante”, mas de todos e para todos os italianos. Essas relações ecumênicas e essas atenções são o sinal importante de um percurso em contínua evolução”.

Sitio da Igreja Valdense na Itália, Riforma.

Massimo Borghesi, filósofo italiano com uma longa carreira na cátedra universitária, estudos e publicações, apresentará nos próximos dias ao público o resultado de uma obra que estava faltando. E essa lacuna estava nas origens de aproximações e desconhecimentos. Uma full immersion nas fontes primárias que alimentavam ao longo do tempo o modo de ver e pensar daquele que hoje ocupa a cátedra mais alta da Igreja católica.

Para realizar sua pesquisa, Borghesi recebeu uma ajuda decisiva, precisamente a do sujeito pesquisado, que contribuiu com cinco gravações de áudio. “Através de um amigo comum, Guzmán Carriquiry, vice-presidente da Pontifícia Comissão para a América Latina, pude tirar proveito da gentileza do Papa Francisco e enviar-lhe algumas perguntas”, revela o autor. O resultado do trabalho poderá ser conhecido dentro de alguns dias, apresentado pela editora Jaca Book com o título Jorge Mario Bergoglio. Uma biografia intelectual. Dialética e mística.

Na sequência, apresentamos algumas pistas do que o leitor vai encontrar no livro de Massimo Borghesi, obtidas com a cumplicidade da amizade.

 

O que o levou a fazer essa pesquisa sobre o pensamento do Papa?
    
O preconceito, sobretudo no ambiente intelectual e acadêmico, que persiste sobre a imagem do pontificado. O Papa Francisco teve que assumir o difícil legado de Bento XVI, um dos grandes teólogos do século XX. Depois de um pontificado com uma forte marca no plano intelectual, o estilo pastoral de Bergoglio parecia demasiado “simples” para muitos, inadequado para os grandes desafios do mundo metropolitano e secularizado. O Papa que veio do fim do mundo é censurado, na Europa e nos Estados Unidos, de não ser “ocidental”, europeu, culturalmente preparado.

Quando você entendeu que não era assim?

A leitura “tensionante”, dialética, que Gaston Fessard faz de Santo Inácio está na origem do pensamento de Bergoglio

Pessoalmente, eu tinha lido alguns textos de Bergoglio que tinham chamado muito a minha atenção. Entre eles, alguns discursos da segunda metade da década de 1970, quando Bergoglio era o jovem provincial dos jesuítas argentinos. Eles me causaram uma boa impressão. O que me impactou sobremaneira foi o “pensamento” que dava sustentação aos seus argumentos. Bergoglio dirigia-se aos seus irmãos jesuítas que estavam vivendo uma situação dramática e dolorosa. A Argentina dessa época era governada pelos militares, que praticavam uma sangrenta repressão à frente revolucionária dos Montoneros. Em relação a este conflito, a Igreja estava profundamente dividida entre os apoiadores do governo e aqueles que apoiavam a revolução.

Para Bergoglio, esta fratura da sociedade também colocava em cheque a Igreja, que tinha sido incapaz de unir o povo. Seu ideal era o catolicismo como coincidentia oppositorum, como superação dessas oposições que, quando radicalizadas, tornam-se contradições insuperáveis. 

Bergoglio expressava esse ideal através de uma filosofia própria, uma concepção segundo a qual a lei que governa a unidade da Igreja, assim como a social e a política, baseia-se numa dialética “polar”, em um pensamento “agonista” que mantém unidos os opostos sem anulá-los ou reduzi-los forçosamente ao uno. Multiplicidade e unidade constituíam os dois polos de uma tensão ineludível. Uma tensão cuja solução era confiada, uma e outra vez, ao poder do Mistério divino que atua na história.

Esta perspectiva que emergia nas entrelinhas dos discursos do jovem Bergoglio me interessou imediatamente. Associado aos pares polares que o Papa coloca no Evangelii Gaudium constituía uma verdadeira “filosofia” própria, um pensamento original. Tendo estudado minuciosamente a dialética de Hegel e, acima de tudo, a concepção da polaridade em Romano Guardini, essa perspectiva me interessou imediatamente. Era evidente que Bergoglio tinha uma concepção original, um ponto de vista teológico-filosófico que, curiosamente, não chamou a atenção dos estudiosos.

O Papa deu uma contribuição pessoal ao seu trabalho de pesquisa com gravações que ele lhe enviou. O que lhe permitiu determinar essa contribuição?

Através de amigo em comum, Guzmán Carriquiry, vice-presidente da Pontifícia Comissão para a América Latina, pude tirar proveito da gentileza do Papa Francisco e enviar-lhe algumas perguntas. Depois de ler seus escritos, com efeito, colocava-se a questão sobre a gênese de sua dialética polar. Era uma leitura muito original da realidade que oferecia analogias com o tomismo hilemórfico e dialético de Alberto Methol Ferré, principal intelectual latino-americano da segunda metade do século XX. Mas Methol Ferré não estava na origem do pensamento de Bergoglio. Os caminhos de ambos se encontram apenas no final dos anos 70, durante a preparação da grande Conferência de Puebla da Igreja Latino-Americana.

Então, de onde Bergoglio tira a sua ideia da tensão polar como lei do Ser? Sobre este ponto, que é central, os artigos e livros não ofereciam nenhuma pista. É como se Bergoglio quisesse manter o segredo sobre a fonte do seu pensamento. É aqui que as respostas do Papa se revelaram fundamentais. Graças a elas, pude entender que o ponto de partida do seu pensamento deve ser situado nos anos de estudos no Colégio San Miguel, quando Bergoglio reflete sobre a teologia de Santo Inácio através do modelo da “Teologia do como se” e, sobretudo, através da leitura, determinante, do primeiro volume de La Dialectique des Exercices Spirituels de Saint Ignace de Loyola [A dialética dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola] de Gaston Fessard. A leitura “tensionante”, dialética, que Fessard faz de Santo Inácio está na origem do pensamento de Bergoglio. Para mim, foi uma verdadeira descoberta.

Quais são as influências europeias mais fortes sobre o Papa, aquelas que ele assimilou e deixaram uma marca na estrutura do seu pensamento?

O Michel De Certeau que interessa a Bergoglio é o dos anos 60, o estudioso da mística moderna, de Surin a Fabro

Um dos resultados do meu livro foi precisamente estabelecer a grande influência que os autores europeus, especialmente jesuítas, tiveram em Bergoglio. Assim, desaparece a lenda do papa latino-americano, que não estaria em condições de se medir com o pensamento europeu. O principal autor é, sem dúvida, Gaston Fessard, jesuíta, um dos mais geniais intelectuais franceses do século XX. Também Henri de Lubac, com a maneira de conceber a relação entre Igreja e sociedade que ele propõe em Catholicisme. Les aspects sociaux du dogme [Catolicismo. Os aspectos sociais do dogma]. Fessard e Lubac são protagonistas da Escola de Lyon. Ao segui-los, Bergoglio é, de certo modo, um discípulo dessa escola. Tanto Fessard quanto Lubac aderem a uma concepção dialética, herdada de Adam Möhler, o grande fundador da Escola de Tübingen, para quem a Igreja é coincidentia oppositorum, unidade sobrenatural daquilo que no plano do mundo é irreconciliável. É a mesma concepção que Bergoglio tem.

Além dos dois autores jesuítas que acabamos de citar, há outro, também francês, que influenciou Bergoglio: Michel de Certeau. Ele também foi protagonista do cenário intelectual, especialmente nos anos 70. Mas o De Certeau que interessa a Bergoglio é o dos anos 60, o estudioso da mística moderna, de Surin a Fabro. O prefácio que ele escreveu para o Memorial de Pedro Fabro, o grande amigo de Santo Inácio, é um texto-chave na formação de Bergoglio. Seu ideal jesuíta da vida cristã, do contemplativo em ação, tem o selo de Pedro Fabro.

Há outros autores que sejam decisivos na sua formação, além dos franceses?

Methol Ferré e Bergoglio encontram-se, compartilham a mesma perspectiva sobre a Igreja e a sociedade, têm os mesmos autores de referência

A partir de 1986, o ítalo-alemão Romano Guardini adquire um papel fundamental. Nesse ano, Bergoglio viaja para Frankfurt, Alemanha, para fazer uma tese de doutorado sobre Guardini. Mas o tema que ele escolhe não são as obras teológicas ou de caráter religioso, mas a única obra inteiramente filosófica de Guardini: A Oposição Polar. Ensaio de uma filosofia do concreto vivo. É uma decisão curiosa. Por que ocupar-se do Guardini filósofo e não do teólogo?

A resposta é compreensível à luz do meu estudo. Para Bergoglio, a antropologia “polar” de Guardini é uma confirmação de sua visão dialética e antinômica, apreendida através de Fessard e De Lubac. A autoridade de Guardini confere um valor especial ao modelo de pensamento que Bergoglio aplica aos campos eclesial e político-social. Ao mesmo tempo, o modelo guardiniano amplia o bergogliano e permite aprofundamentos inéditos. A partir dos anos 90, Guardini torna-se um autor de referência. Encontramo-lo citado várias vezes na Evangelii Gaudium e na Laudato Si’.

Outro autor chave é o grande teólogo suíço-alemão Hans Urs von Balthasar. Essa foi uma descoberta. A partir dos anos 90, quando já era bispo e depois como cardeal, Bergoglio aproximou-se da grande estética teológica de Von Balthasar, compartilhando seu enfoque, o primado que concede à beleza em função da comunicação do bem e da verdade. A unidade dos transcendentais do ser torna-se um ponto fundamental do pensamento teológico e filosófico de Bergoglio. De Balthasar, Bergoglio toma também as categorias para opor-se ao gnosticismo, ao esvaziamento da carne de Cristo nos diversos “idealismos” espiritualistas. O ensaio sobre Irineu, no livro Glória, impressionou muito Bergoglio.

E quero lembrar uma última influência: a obra de dom Luigi Giussani. Bergoglio era leitor – e em alguns casos, os apresentou em Buenos Aires – dos livros de Giussani traduzidos para o espanhol. Do seu ponto de vista, as principais categorias do método educativo de Giussani – o encontro, o estupor, a experiência, etc. – estão associadas à entrega gloriosa da “forma” (Gestalt), como ensina Von Balthasar. Tudo isso orientado para uma atitude missionária, evangelizadora, que situa o cristão no horizonte da Igreja dos primeiros séculos: como há 2000 anos.

Que peso têm, em seu pensamento, as fontes latino-americanas? Methol Ferré, historiador e filósofo nascido no Uruguai, ocupa um lugar importante na sua obra…

Entre as fontes latino-americanas, sem dúvida, colocaria na primeira fila Lucio Gera e sua Teologia do Povo, a reformulação da Teologia da Libertação feita pela Escola do Rio da Prata, com sua crítica ao marxismo e sua opção preferencial pelos pobres. É um aspecto conhecido e estudado do pensamento de Bergoglio. A Teologia do Povo tem o mérito de redescobrir o valor da religiosidade popular latino-americana, simbolizada pelo culto a Nossa Senhora de Guadalupe, que supera os preconceitos da cultura iluminista.

Além de Gera e dos teólogos próximos a ele, no entanto, há outros autores que são decisivos para a reflexão de Bergoglio. Entre eles, Miguel Ángel Fiorito, seu professor de filosofia. Fiorito é quem o introduz em uma redescoberta dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio através da leitura do estudo inaciano de Gaston Fessard. Depois, o encontro com Amelia Podetti, a “filósofa” argentina mais ilustre dos anos 70. Estudiosa de Hegel, Podetti desenvolve uma reflexão sobre a inculturação da fé, sobre a relação entre centro e periferia, sobre o papel da América Latina no novo contexto mundial, o que interessou muito a Bergoglio.

Finalmente, há o autor por excelência: Alberto Methol Ferré, com quem compartilhou a experiência do CELAM entre 1979 e 1992 e é o intelectual mais lúcido da América Latina. Bergoglio e Methol estão em perfeita sintonia. Meu trabalho analisa o pensamento de Methol Ferré, seu tomismo dialético, e isso juntamente com a entrevista que você fez com Methol no livro O Papa e o Filósofo, é uma novidade no panorama cultural italiano. Methol Ferré e Bergoglio encontram-se, compartilham a mesma perspectiva sobre a Igreja e a sociedade, têm os mesmos autores de referência. Fundamentalmente um: ambos dependem da visão polar, dialética, de Gastón Fessard. Essa fonte comum também explica sua proximidade ideal, filosófica, sua sintonia na maneira de enfrentar os desafios da Igreja latino-americana desde a década de 1970. Bergoglio aprecia muitíssimo o “amigo” Methol, lê seus artigos em Víspera e Nexo, e está impressionado com sua geopolítica eclesial, compartilha seu ideal de “Pátria Grande”.

Há aquisições finais do seu estudo, de síntese, que reafirmam o que foi escrito até agora sobre o Papa Bergoglio?

Bergoglio é um discípulo da Escola de Lyon cujos protagonistas foram Gaston Fessard e Henri de Lubac

As aquisições são muitas. Em primeiro lugar, como já dissemos, esclarece-se a gênese e o fio condutor do pensamento de Jorge MarioBergoglio. E é a primeira vez que isso acontece. São desmentidas as opiniões daqueles que, por preconceito ou por falta de documentação, continuam repetindo que Francisco não tem qualificações para exercer o ministério petrino.

Bergoglio é portador de um pensamento original, dependente de uma tradição do pensamento “católico” dos séculos XIX e XX, a de Adam Möhler, Erich Przywara,Romano Guardini, Gaston Fessard e Henri de Lubac. Alguns desses autores são jesuítas, outros não. É uma tradição ilustre que precisamente o magistério de Franciscohoje permite redescobrir e valorizar. Uma tradição que desmente aqueles que – penso sobretudo nas críticas contra a Amoris Laetitia – pretendem atribuir ao Papa uma teologia praxística, relativista e permissiva.

Na concepção “polar” de Bergoglio, a Verdade e a Misericórdia não podem ser separadas, assim como o belo-bom-verdadeiro, à luz da unidade dos transcendentais. Aqueles que criticam Francisco por suposto subjetivismo e modernismo mostram que não conhecem seu pensamento. Assim como também não conhecem o seu pensamento aqueles que o acusam de reduzir a fé à questão social e esquecer o primado do kerygma. Pelo contrário, Francisco – como afirma explicitamente na Evangelii Gaudium – quer recuperar o primado do kerygma sobre o desvio ético da Igreja nas últimas décadas e, ao mesmo tempo, quer um forte compromisso dos católicos no social.

Ele não faz nenhuma redução: são dois polos de uma tensão que caracteriza o católico. Em relação ao compromisso político, a transcendência, o “primeirear” da fé e da graça sobre qualquer declínio histórico, é essencial. O Papa tem uma concepção “mística” que afirma a abertura do pensamento em relação a qualquer fechamento ideológico e sistemático, e isso em função da ação do “Deus sempre maior”.

Como ficam as críticas feitas a Bergoglio criticando-o de ser “populista-peronista”?

O Papa Francisco tem uma concepção “mística” que afirma a abertura do pensamento em relação a qualquer fechamento ideológico e sistemático, e isso em função da ação do “Deus sempre maior”

Aqueles que as fazem, evidentemente, não o conhecem bem, ou as fazem sabendo que estão errados. O Papa é um crítico da absolutização da economia capitalista desvinculada de qualquer lei ética, assim como foi imposta na era da globalização. Mas ele não é “populista“. Sua simpatia pelo peronismo, devida à atenção dada à questão social, não deve ser confundida com as ideias salvíficas próprias de uma política ideológica.

É interessante, desse ponto de vista, a valorização que Bergoglio faz na década de 1990 de A Cidade de Deus de Santo Agostinho. Ele propõe Agostinho como um modelo atual para criticar os modelos teológico-políticos que comprometem a Igreja com o poder, seja da direita, seja da esquerda. Sobre este assunto, a posição de Bergoglio está totalmente em sintonia com a leitura de Agostinho que Ratzinger faz. O livro esclarece muitos pontos da reflexão de Bergoglio que até agora tinham ficado na sombra do público europeu, constituindo-se em fonte de controvérsias. Nisso reside, espero, a utilidade do mesmo.

Massimo Borghesi. Jorge Mario Bergoglio. Una biografia de intellettuale. Dialettica e mistica. Introduzione di Guzmán Carriquiry Lecour. Milano: Jaca Book, 2017.

A entrevista é de Alver Metalli, publicada por Vatican Insider.