O Dr. Thomas Woods, PhD em História pela Universidade de Harvard nos EUA, disse em um dos seus livros que:

“Bem mais do que o povo hoje tem consciência, a Igreja Católica moldou o tipo de civilização em que vivemos e o tipo de pessoas que somos. Embora os livros textos típicos das faculdades não digam isto, a Igreja Católica foi a indispensável construtora da Civilização Ocidental. A Igreja Católica não só eliminou os costumes repugnantes do mundo antigo, como o infanticídio e os combates de gladiadores, mas, depois da queda de Roma, ela restaurou e construiu a civilização”. [Woods, 2005, pg. 7]

Um dos pontos mais importantes da atuação da Igreja na Idade média cristã, foi no campo da Ciência. Sem a Igreja não haveria a beleza da arquitetura, da música, da arte sacra, das universidades, dos castelos, do direito, da economia, etc.

No séc. VI São Cesário de Arles já expunha no Concílio de Vaison (529) a necessidade imperiosa de criar escolas no campo; e os bispos se dedicaram a isto. Da mesma forma foi a Igreja que montou para Carlos Magno (†814) a sua política escolar; e retomou a tarefa educadora no séc. X após o fim do seu Império.

O III Concílio de Latrão (1179), em Roma, presidido pelo Papa Alexandre III (1159-1181), ordenou ao clero que abrisse escolas por toda a parte para as crianças, gratuitamente. Obrigou a todas as dioceses terem ao menos uma. Essas escolas foram as sementes das Universidades que logo surgiam: Sorbone (Paris), Bolonha (Itália), Canterbury (Inglaterra), Toledo e Salamanca (Espanha), Salerno, La Sapienza, Raviera na Itália; Coimbra em Portugal.

No séc. XII havia só na França 70 abadias com escolas. Todos os grandes bispos também quiseram ter escolas; na França, no séc. XII havia mais de 50 escolas episcopais. Dos sete aos vinte anos as crianças e os jovens eram recebidos nessas escolas sem distinção de classes. Havia escolas só para meninas e moças. As disciplinas dividiam-se em “trivium” (gramática, dialética e retórica) e “quadrivium” (artimética, geometria, astronomia e música). Mas um grande pedagogo da época Thierry de Chartres, mostrou que o “trivium e o quadrivium” eram apenas um meio e que o fim era “formar almas na verdade e na sabedoria”.

Em muitas escolas os alunos tinham ensino técnico de como trabalhar o ouro, prata e cobre. Aos poucos surgiam as especializações: Chartres (letras), Paris (teologia), Bolonha (direito), Salerno e Montpellier (medicina).

O Concílio geral de Latrão III, aprovou o seguinte cânon:

“A Igreja de Deus, qual mãe piedosa, tem o dever de velar pelos pobres aos quais pela indigência dos pais faltam os meios suficientes para poderem facilmente estudar e progredir nas letras e nas ciências. Ordenamos, portanto, que em todas as igrejas catedrais se proveja um benefício (rendimento) conveniente a um mestre, encarregado de ensinar gratuitamente aos clérigos dessa igreja e a todos os alunos pobres” (can. 18, Mansi XXII 227s).

O IV Concílio ecumênico do Latrão (1215), renovou este decreto. Teodulfo, bispo de Orléans no séc. VIII, promulgou o seguinte decreto: “Os sacerdotes mantenham escolas nas aldeias, nos campos; se qualquer dos fiéis lhes quiser confiar os seus filhos para aprender as letras não os deixem de receber e instruir, mas ensinem-lhes com perfeita caridade. Nem por isto exijam salário ou recebam recompensa alguma a não ser por exceção, quando os pais voluntariamente a quiserem oferecer por afeto ou reconhecimento” (Sirmond, Concilia Galliae II 215).

É muito significativo um dos últimos depoimentos sobre a acusação de que a Igreja obstruiu a ciência na Idade Média, proferido em 1957 por um grupo de estudiosos que, sem intenção confessional alguma, escreveram a história da ciência antiga e medieval:

“Parece-nos impossível aceitar a dupla acusação de estagnação e esterilidade levantada contra a Idade Média latina. Por certo a herança (cultural) antiga não foi totalmente conhecida nem sempre judiciosamente explorada;… mas não é menos verdade que de um século para outro – mesmo de uma geração a outra dentro do mesmo grupo – há evolução e geralmente progresso. A Igreja… na Idade Média salvou e estimulou muito mais do que freou ou desviou. Por isto, embora só queira apelar para a Antigüidade, a Renascença é realmente a filha ingrata da Idade Média” (La science antique et médiévale, sous la direction de René Taton, Presses Universitaires de France. Paris 1957, 581s).

Esses poucos dados mostram o quanto a Igreja fez pelo ensino e pelo saber na Idade Média, bem ao contrário do que muitos pensam: que a Igreja foi contra a ciência e o ensino.

Prof. Felipe Aquino

O Prof. Léo Moulin, agnóstico ou ateu belga, reconhece a benéfica influência do Cristianismo e, em especial, da Regra de São Bento na evolução da cultura e da civilização.

Mostra como a Regra de São Bento, legislando para os monges, fez transbordar sobre toda a sociedade medieval e posterior certos princípios de disciplina, diligência e ordem no trabalho, que propiciaram a criação de grandes empresas industriais e culturais. São Bento, aliás, hauriu das Escrituras Sagradas a sua mentalidade; ora a Bíblia incute ao homem certo otimismo em relação à natureza, obra de Deus Criador, que confiou ao casal humano o mandato de explorar e dominar as criaturas inferiores. A mesma fonte bíblica deu a saber ao homem que o universo foi criado com sabedoria e lógica; a própria razão humana, sendo dom de Deus, merece a confiança do homem; conscientes disto, os medievais cultivaram a inteligência, resultando daí grande número de Universidades e belas obras de arte (catedrais, especialmente), que supõem dinamismo, coragem e saber científico entre os homens da Idade Média. Esta, portanto, não foi o período obscuro do qual sem o devido conhecimento de causa.

Costuma-se comentar a influência que o Calvinismo, fundado no século XVI, exerceu sobre o desenvolvimento comercial e econômico dos países que o adotaram. O senso religioso levou os calvinistas a se dedicarem “religiosamente” às suas atividades profissionais, donde resultou (em parte, ao menos) a rede colonial da Inglaterra e da Holanda.

Todavia é menos conhecida a influência sadia que a fé católica exerceu sobre os monges e as populações medievais em favor do progresso da civilização. Aliás, deve-se dizer que o Cristianismo, bem entendido e vivido, foi e será sempre um estímulo para a construção de um mundo mais humano, fraterno e, por conseguinte, mais feliz.

Invenções e Descobertas

A Idade Média ocidental ocupa lugar importante na história do desenvolvimento tecnológico, pois registrou uma série de invenções e descobertas que lhe dão preeminência sobre quanto ocorreu na mesma época fora do âmbito europeu. Sejam recordados: a bússola, as lentes de óculos, a roda com aros, o relógio mecânico com pesos e rodas (“invenção mais revolucionária do que a da pólvora e a da máquina a vapor”, conforme Ernst Junger), o canhão (em 1327), a caravela (em 1430), a própria imprensa, a ferradura de cavalo, que permite ao animal correr sobre terrenos inóspitos, os moinhos de água, de maré, de vento…

Isto tudo fez que o Ocidente se encontrasse em melhores condições de civilização do que outras partes do mundo no século XVI.

A Regra de São Bento

Antes de todas estas, houve outra grandiosa “invenção”, que é a Regra de São Bento (+ 547).¹ Nesta encontramos elementos necessários ao bom andamento de uma empresa moderna.

Com efeito. Além do Ora (Oração), São Bento ensina o valor e a sistematização do Labora (Trabalho). Imagina, sim, o seu discípulo como um operário (RB Prol 14) que trabalha com mãos e ferramentas na oficina do Mosteiro (RB 4, 75-78). O trabalho é essencial à identidade monástica, seja o manual, seja o intelectual, seja o artístico ou artesanal. No decorrer da Regra, São Bento ilustra as motivações do Labora:

– o trabalho corresponde a um gênero de vida pobre, que exige a labuta pessoal para poder manter-se; cf. RB 48,8;

– o trabalho é serviço à comunidade e aos hóspedes, a exemplo do que fez Cristo; cf. RB 48, 1-25; 53, 1-23;

– o trabalho é desenvolvimento dos talentos que Deus entregou ao homem e cuja aplicação ele vai julgar; cf. RB 4,75-77;

– o trabalho ajuda os pobres e evita a ociosidade, que é inimiga da alma; cf. RB 48,1.

São Bento quer que o trabalho seja executado “bem”, “com serenidade”, “sem tristeza” e “sem murmuração”; cf. RB 34,6; 35, 13; 40, 8s; 53, 18.

Trabalhar em comum é, para São Bento, um valor, tanto que os monges culpados de faltas graves são excomungados não só da oração e da refeição comunitárias, mas também do trabalho com os irmãos: “Que seja suspenso da mesa e do oratório o irmão culpado de faltas mais graves… Esteja sozinho no trabalho que lhe for determinado” (RB 25, 1.3).

A Regra de São Bento, portanto, formou os monges (e, consequentemente, a sociedade) no sentido da diligência e da disciplina do trabalho. De modo especial, ela incutiu (e incute) dois valores muito estimados no mundo industrial moderno:

– a pontualidade. São Bento não transige a respeito. Prevê sérias punições para quem chega atrasado à oração litúrgica ou ao refeitório (RB 43); ao sinal dado de madrugada, levantem-se todos sem demora (RB 22); quem recebe uma ordem, deve executá-la prontamente (RB 5);

– atenção ao que se faz. São Bento formula uma norma decisiva: “Controlar a todo momento os atos de sua própria vida. Actus vitae suae omni hora custodire” (RB 4,48). É preciso, pois, estar presente de corpo e alma àquilo que se faz, sejam grandes, sejam pequenas coisas. A Regra prevê punições leitura, à qual todos devem prestar atenção, de modo que ninguém converse e só se ouça a voz do leitor (RB 38, 5). Haja absoluta limpeza, especialmente na cozinha (RB 35,6-11). A perda ou a quebra de qualquer objeto durante o trabalho requer satisfação da parte de quem comete a falha (RB 46, 1-4).

São Bento também pede que os monges não se entristeçam se a necessidade do lugar ou a pobreza exigirem que se ocupem em trabalhos extraordinários, “porque então são verdadeiros monges se vivem do trabalho de suas mãos, como também os nossos Pais e os Apóstolos” (RB 48,8).

Estes princípios de ordem ascética, inspirados pelo amor à disciplina do Evangelho, contribuíam para que os mosteiros se tornassem grandes centros agrícolas e artesanais em toda a Idade Média, irradiando em torno de si amor ao trabalho, organização e método modelares para a posteridade. Essa sistemática não tinha em vista simplesmente produção e lucro materiais, mas era inspirada pelo espírito de fé e apoiada em razões monásticas. Assim, por exemplo, um texto do século XI explica por que foi adotado um moinho de água na comunidade: “…a fim de que os monges tenham mais tempo para dedicar-se à oração”.

Em seu afã de trabalhar para exercer disciplina e evitar a ociosidade (inimiga da alma), os monges dedicaram-se a quase todas as atividades produtivas: exploraram minas de carvão, salinas, metalurgia, marcenaria, construção… Assim, por exemplo, os monges cistercienses fabricaram fornos para produzir tijolos grandes, dotados de furos para facilitar a sua cozedura e manipulação; eram os chamados “tijolos de São Bernardo!. Montaram na Borgonha fábricas de telhas, que eles espalharam por diversas regiões.

Aliás, a própria Regra de São Bento pede que o mosteiro tenha em suas dependências tudo de que necessita para viver: “Seja o mosteiro construído de tal modo que todas as coisas necessárias, isto é, água moinho, horta e os diversos ofícios se exerçam dentro do mosteiro, para que não haja necessidade de que os monges vagueiem fora, pois de nenhum modo isto convém às suas almas” (RB 66,6s). Ora esta norma da Regra não podia deixar de ser forte estímulo para a criatividade dos monges. O capítulo 57 da mesma Regra trata dos artesãos que, com a autorização e a bênção do Abade, trabalham no mosteiro como monges, e pede que os preços dos respectivos artefatos sejam mais baixos do que os preços do comércio de fora: “Quanto aos preços, não se insinue o mal de avareza, mas venda-se sempre um pouco mais barato do que pode ser vendido pelos seculares, para que em tudo seja Deus glorificado” (RB 57, 7-9).

Sabemos ainda que em 1215 os maiorais da Inglaterra, tanto leigos quanto clérigos, obtiveram do rei João sem Terra o reconhecimento da Magna Carta (Libertatum), Grande Carta das Liberdades, que promulgava direitos da população e que se tornou o fundamento da Constituição liberal da Inglaterra e o embrião dos posteriores sistemas políticos parlamentares. Ora, um século antes disto, em 1115 a Ordem Cisterciense¹ concebera o sistema de governo mais prático que se conhece: o Capitulum Generale (Capítulo Geral), assembleia internacional da qual fazem parte representantes de todos os mosteiros e dotada de poder legislativo. A instituição do Capitulum Generale foi adotada por Ordens e Congregações Religiosas posteriores e tornou-se modelo para o regime de muitas sociedades de caráter internacional.

É preciso ainda apontar duas características da mentalidade medieval, de grande importância na história subsequente.

Duas notas marcantes

Confiança na razão

Para os medievais, o mundo era obra de um Deus sábio e lógico, distinto do próprio mundo (em oposição a todo panteísmo). Por conseguinte, o mundo lhes aparecia como algo que pode ser conhecido pelo homem mediante a sua razão; não é um fantasma nem uma armadilha. Dizia no século XII o teólogo francês Guilherme de Conches: “Deus respeita as próprias leis”. E no século seguinte Santo Alberto Magno (+ 1280) afirmava: “Natura est ratio. A natureza é a razão ou é racional”. Em consequência, os estudiosos medievais se aplicaram ao raciocínio e à pesquisa (como a podiam realizar na sua época) com plena confiança no acume da razão, sem, porém, cair no racionalismo, pois acima da razão admitiam as luzes e as verdades da fé…

Um dos exemplos mais clássicos desse tipo de estudiosos é o inglês Rogério Bacon (1214-1294), chamado “Doutor Admirável”. Ingressou na Ordem dos Franciscanos em 1257 e pôs-se a comentar as obras de Aristóteles. Posteriormente dedicou-se à pesquisa científica, recorrendo a um método experimental, que foi precursor do método adotado por Francis Bacon (1561-1626); assim procedendo, fez descobertas no setor da ótica. Planejou diversas invenções mecânicas: máquinas a vapor, barcos máquinas voadores… Em seus escritos encontrou-se uma fórmula da pólvora, que ele pode ter tomado dos árabes numa época em que os europeus quase não a conheciam. Deixou obras famosas: Opus Maius, Opus Minus e Opus Tertium.

Os resultados dessa confiança dos medievais na razão humana fizeram-se sentir nos séculos subsequentes: em 1608 contavam-se mais de cem Universidades na Europa e nenhuma no resto do mundo (exceto na América Latina, onde os espanhóis expandiam a sua cultura). Dessas Universidades, mais de oitenta tiveram origem na Idade Média, como genuína expressão da cultura medieval. Diz-se com razão que as Universidades e as catedrais exprimem autenticamente a Idade Média; na verdade, os medievais atingiram o primado mundial de altura de cúpula na catedral de Amiens (1221), com 42,30 metros, mede 142 metros de altura: só foi ultrapassada pela Torre Eiffel de Paris em 1889, com 320 metros.

Dinamismo

A Escritura Sagrada transmite aos seus leitores uma atitude dinâmica em relação ao universo que os cerca. Logo em suas primeiras páginas formula o desígnio divino: “Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança; domine sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra” (Gn 1, 26). E após a criação do homem se lê a ordem divina: “Enchei a terra e submetei-a; dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que rastejam sobre a terra” (Gn 1, 28).

O salmo 8, por sua vez, canta o poder do homem sobre os seres que o cercam:

“Que é o homem para que dele te recordes?… e o filho do homem, para que dele tenhas cuidado? Não obstante, Tu o fizeste um pouco inferior aos anjos…e lhes deste poder sobre as obras de tuas mãos, tudo colocaste debaixo dos seus pés”.

No Novo Testamento lê-se que Cristo, ao encerrar sua missão pública, mandou aos apóstolos que fossem pregar o Evangelho no mundo inteiro; cf. Mt 28, 18-20.

Por conseguinte, a atitude do esforço, da luta, do empreendimento, da resposta ao desafio…é muito familiar ao cristão. Pode-se dizer que foram os cristãos que realizaram os progressos da ciência (tenha-se em vista o mundo ocidental comparado com o oriental ou asiático e africano!), as grande aventuras da conquista intelectual, econômica, marítima… Foram otimistas e dinâmicos, conseguindo belos e valiosos resultados.

Estas poucas observações são suficientes para percebermos a notável contribuição do Cristianismo para o avanço da cultura, da ciência e da civilização… na história da humanidade. E, dentro do Cristianismo, merece certamente relevo especial o monaquismo ocidental tal como São Bento (+ 547) o concebeu e a Ordem Cisterciense, com São Bernardo à frente, o desenvolveu.

¹ Citaremos a Regra de São Bento usando a sigla RB; os números seguintes indicarão respectivamente capítulo e versículo(s). A abreviatura Prol significa Prólogo.

É de notar que não sem motivo o Papa Paulo VI em 1964 declarou São Bento “Patrono do Ocidente”. Este deve muitos dos seus valores aos escritos e à obra de São Bento.

¹Cisterciense é o monge Cister; segue a Regra de São Bento tal como foi entendida pelos reformadores de Cister, entre os quais está São Bernardo de Claraval (+ 1153).

Via Professor Felipe Aquino

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 347 – Ano – 1991 – p. 177

O padre Sumeth Perera começou seus estudos lidando com os tumores da boca muito disseminados entre os pobres do sul da Ásia por causa do abuso na mastigação de folhas de betel. Agora, ele obteve um doutorado em Oxford com conceito máximo e se prepara para partir para os Estados Unidos

Ele acabou de obter um doutorado com conceito máximo na Universidade de Oxford. E se prepara para partir para um cargo de pesquisador associado no National Cancer Institute, em Frederick, Maryland, a mais importante instituição de pesquisa sobre o câncer nos Estados Unidos.

Essas são as credenciais científicas do padre Sumeth Perera, um jesuíta do Sri Lanka que é considerado hoje, no mundo científico, como um dos pesquisadores de vanguarda no estudo dos tumores.

O que torna a sua história ainda mais significativa é a origem das suas pesquisas: como informa o site dos jesuítas britânicos, o padre Sumeth começou os seus estudos no Sri Lanka, lidando com uma forma de tumor na boca muito disseminada nas áreas mais pobres, por estar ligada ao abuso na mastigação de folhas de betel, muitas vezes utilizada para não sentir o estímulo da fome. Uma doença que afeta desproporcionalmente as populações pobres e para a qual, portanto, não há um interesse por parte da pesquisa farmacêutica no Ocidente.

Na Peradeniya University, no Sri Lanka, o padre Perera elaborou o primeiro modelo absoluto de terapia para esse tumor através da experimentação animal.

Em 2012, ele se mudou para Londres, onde concluiu, primeiro, um mestrado em bioquímica no Imperial College e depois – passando a fazer parte da Campion Hall, a comunidade dos jesuítas da Universidade de Oxford – um doutorado específico sobre a pesquisa sobre o câncer. Por causa dos seus estudos, em 2014, ele obteve o segundo lugar no Prêmio Peter Beaconsfield, prestigiado reconhecimento da Medical Sciences Division de Oxford.

“Os métodos para o tratamento do câncer estão se tornando cada vez mais sofisticados”, explica, “mas ainda há grandes lacunas na nossa compreensão de como funcionam as terapias e sobre por que elas nem sempre impedem a evolução do câncer. Uma dessas lacunas diz respeito aos mecanismos dos exossomos, das nanovesículas produzidas pelo tumor. O fenômeno que eu descobri, chamado de ‘comutação do exossomo’, poderá influenciar o modo como tratamos os pacientes com câncer e nos ajudar a entender se as terapias estão realmente funcionando.”

Fonte: site Mondo e Missione

Ex-médico, Michel Aupetit sucedeu, em 6 de janeiro, a André Vingt-Trois como arcebispo de Paris. “Não temos o direito de falar de Deus; se o fizermos, ficamos envergonhados”, diz ele em entrevista concedida ao Le Monde. Aos 66 anos, aquele que “não gosta da exposição” será agora uma das vozes mais ouvidas desta instituição. Este ex-médico, que entrou no seminário aos 39 anos e tornou-se bispo de Nanterre em 2014, é o sucessor de dom André Vingt-Trois.

Como estudante, ele odiava ter que ir ao quadro negro e preferia rir de seus colegas de longe. Nomeado arcebispo de Paris pelo Papa Francisco em 7 de dezembro de 2017 e tendo tomado posse em 6 de janeiro, o bispo Michel Aupetit o centro das atenções de muitos católicos. Se, em teoria, o bispo de Paris é um bispo entre os outros, na prática ele ocupa um lugar proeminente na Igreja católica.

Você trabalhou durante 11 anos como clínico geral antes de entrar no seminário. Como essa vida de leigo influencia sua maneira de ser padre?

Como leigo, eu era aquilo que se chamava na Igreja de “consumidor”. Eu chegava em casa às 22h e estava muito pouco enfronhado na vida da Igreja. Este é o meu pecado! Quanto ao resto, a medicina me ensinou a gostar das pessoas, independentemente de quem sejam. Quando se é médico, você cuida de pessoas agradáveis e não agradáveis, todos os tipos de pessoas.

Isso faz com que você esteja aberto para acolher a todos e a Igreja está aberta a todos. Não pedimos os papéis ou o certificado de batismo àqueles que chegam. No inverno, os sem-teto vêm se aquecer e não os importunamos. Outros vêm simplesmente para ter um tempo de repouso e silêncio. Não há muitos lugares como esse, onde você pode ficar, gratuitamente, de forma pacífica. E a medicina já me ensinou isso: acolher incondicionalmente as pessoas que batem à sua porta.

Você cresceu em uma família onde a prática religiosa não era a regra. Isso lhe dá uma visão particular da transmissão da fé?

Isso é bastante surpreendente, porque nunca me incomodou. Minha mãe era uma mulher de fé, ela ia à missa com bastante frequência, não necessariamente comigo. Mas eu sei que ela tinha uma fé profunda e eu via a influência que isso poderia ter em sua vida. Ao passo que, no lado “masculino”, éramos bastante descrentes. Meus amigos também não eram praticantes. Então, eu vivi durante muito tempo a minha fé de maneira isolada.

Eu penso que a transmissão se faz pela oração. Porque na oração, aprendemos a falar com Deus. Estabelecemos uma relação. Ao passo que em uma relação de catecismo, aprende-se a falar “de” Deus; é intelectual. A única coisa que minha mãe me ensinou foi o Pai-Nosso e a Ave-Maria. A partir dessas duas orações, aprendi a falar com Deus. Mas em segredo: ninguém sabia nada sobre isso.

Quando eu deixei o meu consultório de médico, eu disse o porquê aos meus pacientes. Muitos me disseram que rezavam há 30 anos pela manhã e pela noite, sem mesmo que sua esposa soubesse! Eu me dei conta de que muitas pessoas tinham uma vida espiritual, mas que não a exibiam. Há espontaneamente no ser humano essa propensão a entrar em relação com uma transcendência. (…)

Parte dos católicos teme a chegada de migrantes em números muito altos. Os bispos devem falar com mais clareza?

Há um medo da insegurança cultural. Quando eu era médico em Colombes [Hauts-de-Seine], inicialmente, nas cidades, as pessoas viviam muito bem juntas. Não se olhava para quem era muçulmano ou cristão. Prestavam-se serviços entre as pessoas. Hoje, isso virou guetos. As prefeituras tentam promover a diversidade social, mas ainda estamos muito comprometidos com o comunitarismo.

Certo dia, um imã me disse: “Já não temos mais o controle sobre os nossos jovens, não somos mais aqueles que os formam na religião. Eles vão se formar em outros lugares”… (…)

Os católicos são agora uma minoria religiosa na França?

Muitas pessoas se dizem católicas mesmo se não frequentam mais a Igreja. O que é ser católico? Qualquer pessoa que é praticante? Ou quem se reconhece nesta religião, porque nasceu nesta cultura, faz seus os valores evangélicos, enquanto sua relação com Deus ou a Igreja é mais do que tênue? O que isso quer dizer? Não sei, deixo isso para Deus. Se contarmos apenas aqueles que são praticantes, os católicos são, sem dúvida, uma minoria. Muitos estão envolvidos em questões de solidariedade, não necessariamente com o rótulo de “católico”, mas fazem isso em nome da sua fé.

A “guerra de laicidades” traduz, na sua opinião, uma rejeição da religião em geral ou uma desconfiança em relação ao Islã?

Meus dois avós eram anticlericais até a ponta das unhas, por isso eu conheço o sistema um pouco. Hoje, são defendidas duas formas de secularismo. A de Jean-Louis Bianco[presidente do Observatório da Laicidade] e de Emmanuel Macron, que deve permitir que todos possam praticar a sua religião. A outra é a de uma religião relegada à esfera privada, que não deve aparecer em qualquer lugar.

A sociedade francesa está dividida. A questão do Islã provoca medo por causa dos ataques e de determinados discursos que afirmam que a França se tornará uma terra do Islã – voltamos a encontrar a questão da insegurança cultural. Mas nós já vivemos, no passado, outras inseguranças culturais! Santa Genoveva, padroeira da cidade de Paris, viveu na época de Átila e Childéric, rei dos francos. Os alemães e os francos que chegaram não eram da cultura galo-romana nem da cultura cristã. Era uma transição colossal. Na época, a Igreja privilegiou a cultura cristã, mesmo que isso significasse sacrificar a cultura romana. Esse período, muito pior do que o nosso, também contribuiu para o que somos atualmente… (…)

O governo quer expandir o ensino religioso nas escolas. Que papel ele pode ter?

O papel do Estado é controlar o que podemos fazer, especialmente se diz respeito à religião. Há o fato religioso visto sob a perspectiva histórica. Muitas vezes, é por aí que vamos. Mas acho que devemos ir mais longe, para o espaço teológico. No RER, os muçulmanos me fazem perguntas como sacerdote. No final, eles me dizem: “Obrigado por ter falado de Deus”. Os muçulmanos que colocam seus filhos em uma escola católica fazem-no porque ali se pode “falar de Deus”… (…)

Fonte: Le Monde