A poucos dias de terminar o mandato, o governo da presidente Michelle Bachelet decidiu que o projeto de Lei de Identidade de Gênero passe de “extrema urgência” a “discussão imediata”, para ser discutido em uma comissão mista do novo Parlamento.

O projeto “reconhece e protege a identidade de gênero”, a qual define como “vivência interna e individual”, “tal como cada pessoa sente profundamente” e que pode “corresponder ou não ao sexo assinado” no nascimento.

Permite que os maiores de 18 anos tenham acesso a este “direito” sem a necessidade de recorrer a certificados médicos ou psiquiátricos. Do mesmo modo, refere-se ao “direito” a intervenções cirúrgicas e tratamentos.

No dia 5 de março às 19h, o Senado concordou rechaçar as mudanças que foram enviadas da Câmara dos Deputados e, dessa forma, despacharam o projeto a uma comissão mista, onde discutiram, entre outras coisas, a possibilidade de incluir menores de idade.

O debate na comissão mista será um desafio para o próximo governo de Sebastián Piñera, que começa em 12 de março, junto com o novo Parlamento.

Em dezembro de 2016, o Grupo ACI conversou com Francisca Ugarte, membro da Sociedade Chilena de Endocrinologia e Diabetes, que advertiu que “estão fazendo uma lei que provocará grandes confusões e erros”.

Em 25 anos de trabalho, a doutora Ugarte atendeu cerca de 360 mil casos da zona sul de Santiago, Chile. Entre eles, somente dois se defenderam como “transgênero”. “São casos dramáticos, complexos e dolorosos para a pessoa e para a sua família”, disse.

Nesse sentido, assinalou que, com a lei, “uma pessoa maior de 18 anos poderá fazer uma mudança e não está obrigado a fazer um tratamento nem estudar se é ou não é transgênero”.

“A lei deveria obrigar a excluir patologias endocrinológicas e psiquiátricas e jamais deveria permitir mudanças de gênero de menores de 18 anos. Inclusive a pessoa transgênero deveria estar plenamente consciente de como é essa mudança: tratamentos hormonais, cirúrgicos e doenças”, insistiu Ugarte.

A endocrinologista também manifestou que “os menores não têm a capacidade, nem são competentes para tomar uma decisão tão importante. Os pais competentes, do ponto de vista jurídico, devem confiar nos especialistas que podem lhes oferecer esse conhecimento para uma boa decisão”

ACI

O Senado do estado do Mississippi nos Estados Unidos aprovou a Lei de idade gestacional, que proíbe a maioria dos abortos depois de 15 semanas de gestação, sendo uma das maiores restrições desta prática no país.

“Como disse em várias ocasiões, quero que o Mississippi seja o lugar mais seguro para um nascituro nos Estados Unidos. O projeto de lei 1510 nos ajudará a alcançar esse objetivo”, afirmou o governador Phil Bryant através do Twitter em 6 de março.

O Senado aprovou a lei por uma votação de 35 a 14 votos.

O projeto foi modificado para eliminar sanções penais relacionadas ao tempo de prisão. Os médicos que quebrarem a lei perderão as suas licenças médicas estaduais e receberão uma penalidade civil de até 500 dólares, informou a National Public Radio.

O projeto de lei alterado passou para a Câmara dos Deputados controlada pelos republicanos, conseguindo 75 votos favoráveis contra 34. Uma versão anterior do projeto de lei foi aprovada pela Câmara dos Deputados em 2 de fevereiro, por uma votação de 79 a 31, com certo apoio democrático.

Em uma mensagem do dia 8 de fevereiro, os bispos norte-americanos Dom Joseph Kopacz e Dom Louis Kihneman disseram que a legislatura estadual “deve ser elogiada por votar a favor da proteção a vida humana nascitura”.

Os registros estaduais indicam que se realizam cerca de 200 abortos por ano em mulheres com 15 a 20 semanas de gestação, segundo informações dos patrocinadores do projeto de lei. Este último permite exceções em caso de algum perigo para a vida da mulher ou quando o nascituro tiver uma anormalidade severa.

A deputada estadual Becky Currie, patrocinadora do projeto de lei, disse que este é apropriado porque a maioria das mulheres descobre que estão grávidas alguns meses antes da gravidez chegar a 15 semanas.

A aprovação da lei recebeu outros elogios.

“A população do Mississippi está comprometida a proteger a vida dos nascituros e esta lei será um passo importante para chegar a esta meta. Estou comprometido a fazer com que o Mississippi seja o lugar mais seguro para um nascituro nos Estados Unidos”, disse o vice-governador Tate Reeves, de acordo com ‘The Clarion Ledger’.

Atualmente, tanto o Mississippi quanto a Carolina do Norte impedem o aborto às 20 semanas de gravidez, medido a partir do último período menstrual da mulher. Outros estados começam a partir de uma data posterior a duas semanas.

Em sua mensagem de 8 de fevereiro, os bispos católicos do Mississippi lamentaram o fracasso do Senado dos Estados Unidos para aprovar a “Lei de Proteção do Nascituro com Capacidade para a Dor”, a qual proibiria o aborto 20 semanas depois da fecundação .

“Nós, Bispos católicos do Mississipi, queremos reafirmar que a vida humana é sagrada desde a concepção até a morte natural. Com o Papa João Paulo II, reconhecemos que o aborto é ‘a ferida mais séria infligida na sociedade e na sua cultura pelas mesmas pessoas que deveriam ser promotoras e defensoras da sociedade”, disseram os bispos, citando a encíclica Evangelium vitae de São João Paulo II.

Os legisladores “têm o dever de tomar decisões corajosas para apoiar a vida, especialmente através das medidas legislativas”, disseram.

“Pedimos que a oração contínua por uma cultura da vida prevaleça em nossa sociedade e exortamos as pessoas que votaram contra esta legislação, especialmente os que são católicos, a reconsiderá-la”, concluíram.

ACI

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Se um tal acordo muito comentado entre o Vaticano e a China para a nomeação episcopal for finalizado este ano, ele irá destacar a assertividade internacional que tem sido uma característica do pontificado do Papa Francisco. No entanto, irá também ser altamente polêmico, levantando uma dúvida sobre a distância em que Roma se encontra quanto a entender as dinâmicas contemporâneas de poder e até que ponto se pode confiar nelas.

Jonathan Luxmoore cobre notícias religiosas a partir de Oxford, na Inglaterra, e Varsóvia, na Polônia. “The God of the Gulag” (Gracewing, 2016) é um estudo seu publicado em dois volumes sobre os mártires da era comunista.

Nos cinco anos desde a eleição em março de 2013, como o primeiro papa do sul global Francisco deixou o mundo com uma pequena dúvida sobre onde a sua Igreja se posiciona em relação a temas contemporâneos fundamentais. Grande parte da cobertura da imprensa vem focando as divisões internas da Igreja, com os tradicionalistas católicos resistindo às reformas pastorais, mas a presença internacional do Vaticano viu um crescimento constante sob seu comando, naquilo que uns analistas chamam de a nova “diplomacia da misericórdia”.

Na mensagem para o Dia Mundial da Paz no começo de 2018, o papa recordou um dos grandes temas de seu pontificado ao pedir por compaixão para com os mais de 250 milhões de migrantes e refugiados no mundo. Mas o seu pedido por uma ação coordenada e por uma “gestão responsável de novas situações complexas” pareceu mudar o foco da defesa puramente moral para algo mais concreto. 

Observações semelhantes foram feitas quando o pontífice visitou o Chile e o Peru em meados de janeiro deste ano, quando defendeu os povos indígenas contra “interesses econômicos poderosos” e, em 2017, quando foi a Myanmar e Bangladesh. Em cada caso, embora tenha ganho elogios por defender os direitos humanos por princípio, aspectos práticos sobre o posicionamento de Francisco foram também questionados – como aconteceu ao não defender os Rohingya perseguidos em Myanmar citando-os pelo nome enquanto esteve no país.

A influência política da Igreja

Espera-se que um acordo com a China comunista deva ser igualmente contestado, com uns acolhendo-o como uma oportunidade de restauração da unidade com a Igreja chinesa e outros rejeitando-o como uma traição às comunidades católicas há tempos sofredoras.

Roma enfrentou dilemas parecidos na Europa Oriental comunista, quando esteve sob pressão constante para conceder aos regimes locais o prestígio e os benefícios dos laços diplomáticos em troca da promessa de eles pararem com as perseguições e normalizarem o status da Igreja em seus territórios.

Nestes casos, será que o Vaticano realmente compreendia a mentalidade comunista, os pontos fortes e fracos do regime? Ainda que o polonês São João Paulo II o entendia, sem dúvida alguma fica aberta a questão sobre se isso pode ser dito de Francisco.
Independentemente do que uns podem achar aqui, Roma tem certos ativos poderosos para acionar na busca de suas iniciativas.

A Santa Sé tem hoje uma presença permanente em aproximadamente 40 organizações internacionais, desde as Nações Unidas e suas agências até o Conselho da Europa, a Liga Árabe e a Organização dos Estados Americanos, no momento em que a Rádio Vaticano faz as suas transmissões em 47 idiomas – mais do que o Voice of America ou a BBC.

O próprio papa tem 40 milhões de seguidores no Twitter, e eles aumentam cerca de 25% ao ano; só a Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma tem alunos de, no mínimo, 150 países.

Enquanto isso, a população católica mundial dobrou nas últimas três décadas para perto do 1.3 bilhão de fiéis. No final de 2015, havia 5.304 bispos, 415.656 padres e 670.320 religiosas, segundo informou o Vaticano.

Mesmo em países com minorias católicas a Igreja exerce uma influência considerável. Em nível mundial, ela continua sendo um dos maiores provedores de educação e assistência à saúde não governamental. É também um dos maiores doadores de ajuda humanitária, com a Caritas Internationalis coordenando, de Roma, organizações católicas em uns 200 países.

Como um centro nervoso desta rede altamente organizada, o Vaticano está igualmente expandindo a sua presença diplomática. Quando Myanmar estabeleceu relações em maio passado, ele foi o 193º país a assim fazer e o 111º a hospedar uma nunciatura apostólica permanente.

Acadêmicos e jornalistas rotineiramente ignoram o papel do Vaticano, visto que ele não pode ser quantificado por critérios políticos, econômicos ou militares; não pode ser mensurado segundo a interação usual dos interesses de Estado. Afinal, é o menor Estado do mundo: apenas 110 acres com uma população oficial de 1.000.

Mesmo assim, há inúmeras evidências para sugerir que a sua influência e o seu trabalho social não devem ser subestimados.

O Tratado de Latrão, de 1929, que definiu o status moderno do Vaticano, veio após seis décadas de marginalização desde a perda dos Estados Papais, em 1870 – evento que acabou com 1.000 anos de poder temporal sobre a península italiana.

Os papas demoraram muito para responder aos problemas do mundo contemporâneo e testemunharam o desmantelamento do poder da Igreja na Alemanha de Bismarck e na Terceira República anticlerical da França, seguido por ataques brutais contra o clero e fiéis em novos Estados revolucionários como a Espanha e a Rússia.

O papel do Vaticano, porém, reafirmou-se quando se tornou parte do sistema internacional nos anos posteriores à Guerra Mundial. E na época do Concílio Vaticano II (1962-1965), Roma esteve inundada de agentes e espiões dos governos desejosos por antecipar onde a Igreja poria em prática a sua influência sob a política do aggiornamento, ou abertura, do Papa João XXIII.

Eles estavam certos em se manterem interessados.

Tendo se tornado o primeiro papa a deixar a Itália desde 1809, o Papa Paulo VI visitou 20 países, enquanto o seu sucessor, João Paulo II, visitou 129 – alguns, como os EUA, a França e a Polônia, seu país natal, foram visitados em múltiplas ocasiões.

Independentemente do que venham a pensar os críticos da ‘postura conservadora’ de João Paulo II no tocante à doutrina e no comando da Igreja, dificilmente se pode pôr em dúvida a importância dele no cenário mundial.

O pontífice polonês foi fundamental para a queda de ditaduras como as das Filipinas e do Paraguai. Ele interveio em numerosas disputas, opondo-se à doutrina da preempção na “guerra contra o terror” pós-11 de setembro, e se tornando uma força motriz nos contatos inter-religiosos, em particular com o Islã.

A maior façanha política de João Paulo II, ajudando a derrubar o regime comunista na Europa Oriental e na União Soviética, é amplamente ignorada pelos indispostos ou incapazes de reconhecer o lugar da religião nos eventos mundiais.

Mas ele foi reconhecido com fundamental pelos próprios chefes comunistas, entre eles o poderoso Gen. Wojciech Jaruzelski, que, tendo acionado o poder do Estado contra a Igreja, mais tarde confessou que os ensinamentos espirituosos do papa haviam “redespertado as esperanças e expectativas de mudança”.

Em 1997, o último governante do Partido Comunista da União Soviética, Mikhail Gorbachev, saudou João Paulo II como “o maior líder de esquerda do mundo”, citando a oposição deste à pobreza e à injustiça e reconhecendo que o fim do regime comunista teria sido “impossível” sem o papa.

Embora todo desafio político deva ser abordado em seus méritos, o papel do papa polonês na derrocada do comunismo europeu serviu como um modelo para ações de paz coordenadas pela Igreja em outros lugares.

Os precedentes de João Paulo II

João Paulo II viu mais claramente do que seus antecessores que a fidelidade espiritual poderia ter consequências políticas. Mas também ele concluiu que a violência não era a resposta certa, visto que regimes autoritários e totalitários emergiam mais fortes quando desafiados pela força.

Usando noções simples da tradição cristã, lembrou pessoas confusas e desmoralizadas sobre as verdades e os valores que sabiam mas que tinham esquecido. O que as fez decisivas foi a forma como foram faladas – não nos ambientes sedados das igrejas e conventos, mas sim no pleno funcionamento das praças das cidades, nos parques industriais e urbanos.

Isso tudo era uma reviravolta total às humilhações do século XIX, quando Marx e Engels denunciaram o papado no “Manifesto Comunista”, de 1848, como uma das “potências da velha Europa”, e o Papa Pio IX, no “Syllabus dos Erros”, de 1864, furiosamente se recusou a reconciliar-se “com o progresso, com o liberalismo e com a sociedade civil”.

Enquanto os pontífices anteriores, fascinados pelas imagens de destruição da Revolução Francesa ou da Comuna de Paris, temeram os movimentos sociais espontâneos, João Paulo II viu-os como aliados – uma energia criativa que a Igreja poderia aproveitar para finalidades divinas.

A Igreja precisava achar a sua própria solução para os problemas que o comunismo tinha salientado: as relações entre mão de obra e capital, trabalho e propriedade, exploração e alienação. E tinha de encontrar um estímulo positivo, libertador para contrapor os ressentimentos negativos e cativantes que os governantes comunistas usavam como ferramentas de poder.

“Os movimentos de solidariedade”, frase usada na encíclica de 1981, Laborem Exercens, poderiam ser amigos, não inimigos, do cristianismo – ao alcançar uma vitória moral contra o medo e o ódio que, em última instância, tornou-se uma vitória política.

O papa conhecia o poder das palavras, dos símbolos e das imagens. Numa era de globalização econômica e comunicação em massa, percebeu que o poder dos governos estava diminuindo.

Os caças, tanques e mísseis das superpotências poderiam destruir o mundo muitas vezes. Mas sem pessoas para voá-los, dirigi-los ou lançá-los, eram pedaços de metal sem serventia. Era com as pessoas e com a opinião pública onde o poder real da Igreja se encontrava.

O reconhecimento deste estender a mão sem precedentes à opinião pública, e a prontidão a mobilizá-la, refletiu-se nos líderes políticos que agora faziam do Vaticano um porto seguro.

Enquanto nenhum presidente americano se importou em encontrar-se com o papa durante 40 anos depois da visita a Roma do presidente Woodrow Wilson em 1919, João Paulo II teve duas reuniões com Jimmy Carter no espaço de meio ano, seguido de quatro com Ronald Reagan e quatro com Bill Clinton; o presidente George W. Bush visitou o Vaticano cinco vezes.

Uma tradição de diplomacia silenciosa

Quando o papa polonês morreu em abril de 2005, estiveram em seu funeral 7 mil jornalistas creditados e, pelo menos, quatro milhões de pessoas, a maior reunião de chefes de Estado e de governo da história fora da ONU. Era um sinal da importância atribuída ao Vaticano pelos tomadores de decisão e demais pessoas poderosas do mundo.

A influência vaticana está, agora, de pé e a todo vapor, quando Francisco se pronuncia contra a pena de morte, as guerras, as armas nucleares, a pobreza, a discriminação, a corrupção e o crime organizado. Ele exige uma ação mais firme, junto com a ONU, em nome dos oprimidos e excluídos do mundo.

Depois de expandir a composição global do Colégio Cardinalício, Francisco levou a sua mensagem a 30 países, inclusive a Israel e à Palestina, Turquia, Cuba, Egito e a República Centro-Africana; tem convites para visitar outros, incluindo o Sudão do Sul.

Enquanto isso, diplomatas vaticanos têm se envolvido pesadamente em negociações de paz em países como a Venezuela e a Colômbia e vêm tendo presença marcante em iniciativas internacionais como o Fórum Pacto Global 2018, da ONU.

Em Myanmar, no mês de novembro do ano passado, Francisco sabia que decepcionaria alguns ao não chamar pelo nome o povo Rohingya, duramente oprimido no país, dizendo aos jornalistas, no voo de volta para Roma, que “a porta teria se fechado” se tivesse agido de maneira diferente da que fez. A sua mensagem, porém, foi transmitida – e foi ouvida claramente.

Embora tenha negado o “prazer” de uma denúncia pública, explicou, o papa falou “tudo” nos encontros com autoridades do governo. E instruiu os bispos de Myanmar a se pronunciarem pela “dignidade e pelos direitos de todos, especialmente dos mais pobres e mais vulneráveis”.

Quando as feridas são “tanto visíveis quanto invisíveis”, uma busca austera por um denominador comum às vezes ajuda mais que condenações que saem bem nas manchetes. Eis uma área onde as tradições diplomáticas do Vaticano podem ainda se mostrar altamente efetivas.

O mesmo irá valer com a China?

Analistas experientes concordam que é essencial diferenciar claramente entre as circunstâncias locais, precisando-se estudar minuciosamente todas e entendê-las intimamente. No mundo onde é complexo a administração da Igreja, não pode haver uma abordagem do tipo “o que vale para um vale para todos”.

Parte do trabalho de Francisco já sofreu uma oposição amarga.

O encontro em fevereiro de 2016 em Cuba que teve com o Patriarca Ortodoxo Kirill, da Rússia, provocou dúvidas entre os católicos ucranianos e da Europa Oriental, que temeram ele que servisse de propaganda política em benefício do Kremlin – acusação também feita ao secretário de Estado do Vaticano, o Cardeal Pietro Parolin, quando visitou Moscou em agosto passado.

Se for para a “diplomacia da misericórdia” trabalhar, ela deve ir além da ajuda humanitária digna e também ter um fundamento firme na realidade.

Apesar de todos os ricos e perigos, no entanto, os esforços para a construção da paz feitos pelo Papa Francisco devem ser apreciados e seguidos atentamente. Eles demonstram como a religião pode fornecer uma base e uma orientação à ação efetiva e inovadora.

Também mostram que líderes católicos influentes e autoconfiantes podem desempenhar um papel importante na promoção da participação, cidadania, diálogo e reconciliação – também na oposição aos “Herodes de [hoje]”, como Francisco os descreveu na homilia de Natal de 24 de dezembro de 2017, que são os líderes que meramente buscam “impor o seu poder e aumentar as suas riquezas”.

Se o regime chinês se pôr a explorar isso, poderá esperar um retorno no futuro.

O artigo é de Jonathan Luxmoore- National Catholic Reporter.

 A cinco anos da eleição do Papa Francisco, Vatican Insider entrevistou o arcebispo Víctor Manuel Fernández, reitor da Universidade Católica da Argentina, teólogo muito próximo do Pontífice.

Qual é o balanço destes primeiros cinco anos de Pontificado? Quais foram suas maiores características?

Não gostaria de me distrair mencionando algumas realizações na política internacional, nem sequer os êxitos que possa ter conseguido na reforma da Cúria ou das finanças vaticanas. Porque isso implicaria uma visão um tanto mundana. Deixemos que os meios de comunicação se dediquem a essas análises. Nós, católicos, acreditamos no mistério do Espírito que desata os nós e transforma a realidade ao seu modo e em seus tempos. Se me perguntar o que fez Gandhi, posso lhe dizer que já não recordo exatamente as ações e os êxitos que teve. Mas, sem dúvida, sei que deixou uma marca importantíssima na história e que provocou mudanças que não deixaram a humanidade do mesmo modo.

Qual é a mensagem que mais passou, tanto dentro como fora da Igreja?

No caso de Francisco, acredito que não se esquecerá seu convite constante, com palavras e gestos, a voltar à frescura do Evangelho e seu coração feito de misericórdia e de justiça para com os mais fracos. Ao mesmo tempo, não deixará de ressoar a reivindicação por uma Igreja mais despojada, alegre e capaz de sair de si no diálogo e o serviço. Mesmo que alguns, no futuro, pretendam retroceder a esse respeito, acredito que a grande reforma irreversível de Francisco, já conquistada, consiste em que isso dificilmente será aceito. 

Qual é a reforma mais importante que o Papa Francisco espera para a Igreja?

O aprofundamento disto que já mencionei. Ainda há muitos membros da Igreja que falam pouco de Jesus Cristo, que não vibram de afeto e admiração quando o mencionam, que preferem julgar os defeitos alheios e baixar normas éticas como rochas, com o propósito de não aceitar a dinâmica de anunciar o amor incondicional de Deus a cada pessoa, de transmitir o amor próximo e salvador de Jesus Cristo. Ao mesmo tempo, ainda há muitas resistências para se deixar as comodidades das estruturas que nos dão segurança, mas que cada vez atraem menos quantidade de fiéis.

Não lhe parece que existe o risco de se reduzir as mensagens do Papa a “slogans”, que, como todos os “slogans”, acabam vazios, ou seja, utilizados segundo conveniências, mas sem uma mudança verdadeira?

Os grandes santos e reformadores, aqueles que provocaram mudanças reais na Igreja e na história, não foram amigos de slogans, mas, sim, de gestos e entregas. Contudo, há tempo que na Igreja vivemos de slogan. Por exemplo, há aqueles que dizem ser “a favor da vida”, mas preferem que não se fale dos imigrantes, do compromisso com os mais pobres, da luta pela justiça para que menos gente morra por desnutrição ou por doenças que poderiam ser curadas. Esse é um slogan. Igualmente, outros repetem frases de Francisco como slogan, e até falam da “primavera da Igreja”, talvez para não parecer opositores ou para se assegurar algum posto na Igreja, mas caso se olhe para os seus hábitos, suas ações, suas insistências e suas opções, parecem não responder ao espírito deste Papa. É um modo de se fechar ao vento transformador do Espírito, sendo “politicamente correto”.

Os meios de comunicação (e não só) enfatizaram muito características humanas e simpáticas do Papa Francisco, que o tornaram um personagem popular e amado. Não existe o perigo de que se torne muito “personagem” e que se concentre muita atenção em sua pessoa?

É verdade. No entanto, ele nunca foi amante do culto às personalidades. Quando ele aprecia muito alguém, diz-lhe: “Humilhe-se”. Entrega-se muito à proximidade com o povo porque isso tem a ver com sua valorização da religiosidade popular, e ele quer que seu papado seja um sinal encarnado da proximidade terna e misericordiosa de Jesus. Mas, quem não vê isto a partir da mais autêntica fé católica, acaba esquecendo o fim de tudo, que é Jesus, e fica no personagem. É como “ficar no dedo que aponta a lua”. Isto tem um grave risco, porque produz o efeito contrário: se veem um erro ou um ponto frágil, ou se um dia o Papa não sorri porque está fraco ou doente, para eles, o personagem é rompido. 

Alguns falam muito (às vezes, exagerando sua importância) das chamadas “resistências” internas, fenômenos que também viveram seus predecessores. De que modo contam e incidem na vida cotidiana da Igreja?

Incidem mais que antes, em razão do enorme peso dos meios de comunicação e das redes sociais. Antes, poucas pessoas liam um jornal. Hoje, são muitos os que seguem as notícias pela Internet, e os meios de comunicação em geral destacam o que faz muito barulho, o negativo, as críticas. Anos atrás, um senhor muito conservador e negativo só falava com sua esposa, porque nem os vizinhos suportavam ouvi-lo. Agora, essas pessoas podem abrir um blog e também difundir mentiras e calúnias, ou suspeitas infundadas, e sempre terá leitores. Também pode dedicar todo o dia a opinar nos fóruns de Internet e sua voz se expande. As personagens mais moderadas e serenas, que são a maioria, parecem atuar menos neste sentido. Na Argentina, onde houve nos últimos dois anos uma forte e persistente campanha de desprestígio nos meios de comunicação e nas redes, o Papa, no entanto, mantém 80% de aprovação, segundo as pesquisas mais sérias. Mas, esses 80% fazem pouco ruído. 

É correto que, após a publicação da “Amoris Laetitia”, há “confusão” na Igreja de hoje?

Amoris Laetitia implica uma mudança paradigmática no modo de tratar situações complexas, ainda que isso não implique que abra todas as portas. Certamente, vai além da possibilidade de que alguns divorciados em segunda união possam comungar. Esta mudança, que nos impede de ser muito duros e matemáticos em nossos juízos, é muito incômoda para alguns. Porém, é impossível dizer que há “confusão” depois que o Papa fez publicar uma nota nas Acta Apostolicae Sedis como “magistério autêntico”. Só o Papa pode tomar uma decisão desse tipo e Francisco a tomou. Portanto, não há confusão. Já sabemos o que o Papa pede. Outra coisa é você gostar ou não, considerar adequada ou não. Mas, então, não se deve dizer: “é confuso”. É preciso dizer: “não gosto”. Ou então: “Eu prefiro uma Igreja com normas mais rígidas”.

As diferentes reformas nos organismos da Cúria romana ainda estão sendo realizadas. Em que medida são importantes as reformas estruturais?

É dada muita importância a estas reformas, mas são as mais “reversíveis”. Poderá vir outro Papa e criar uma Cúria enorme. Além disso, as pessoas que existirem nessas estruturas serão determinantes. Contudo, acredito que Francisco também conseguiu “desmistificar” para sempre a Cúria vaticana, que só poderá ser compreendida como um organismo de serviço ao Papa, que não o substitui, nem aos bispos.

Como o Papa vivencia os casos relacionados aos escândalos dos abusos? As normas para combater o fenômeno existem, mas também será possível mudar a mentalidade?

Sei que sofre muito por este assunto, porque neste caso se destrói o sentido profundo do ministério sacerdotal, chamado a “cuidar”. Em espanhol este sentido está destacado, porque se chama o sacerdote de “cura”. O “cuidado” é uma característica do sacerdócio que Francisco carrega muito no coração. Acredito que a mentalidade está mudando nesta linha, ainda que às vezes os processos necessitem de seus tempos para evitar injustiças.

Vatican Insider