PERGUNTAS E RESPOSTAS SOBRE A EUTANÁSIA

1. O que são a eutanásia e o suicídio assistido?

Etimologicamente, o termo “eutanásia” deriva do grego: eu, “boa”, e thanatos, “morte”.

Por eutanásia, deve entender-se «uma ação ou omissão que, por sua natureza e nas intenções, provoca a morte com o objetivo de eliminar o sofrimento»[1].

A ela se pode equiparar o suicídio assistido, quando não se causa diretamente a morte de outrem, mas se presta auxílio ao suicídio de outrem, com o objetivo de eliminar o sofrimento. Também se usa a expressão “suicídio medicamente assistido”, porque, de um modo geral, as legislações em vigor em vários Estados exigem que seja um médico a prestar esse auxílio, do mesmo modo que as leis que permitem a eutanásia exigem que seja um médico a praticá-la.

2. Será a eutanásia verdadeiramente uma “morte assistida”?

É usada, com frequência, a expressão “morte assistida” como conceito que inclui a eutanásia e o suicídio assistido.

Mas trata-se de uma expressão enganadora e que pode confundir.

A eutanásia e o suicídio assistido representam o encurtamento intencional de uma vida. Não é possível para ninguém — saudável ou com uma doença incurável — prever o momento da sua morte. A eutanásia reflete a pretensão de transformar a morte num “acontecimento programado e calculado”.

Prestar assistência a uma pessoa doente até ao termo natural da sua vida é uma expressão da solidariedade humana e da caridade cristã; nesse sentido, poderia falar-se em “morte assistida”. Mas tal não deve confundir-se com a eutanásia e o suicídio assistido. Nestas situações, trata-se de provocar deliberadamente a morte de outra pessoa (de “matar”) ou de prestar ajuda ao suicídio de outra pessoa (de ajudar a que outra pessoa “se mate”). A eutanásia não acaba com o sofrimento, acaba com uma vida.

Em vez de “morte assistida”, faria mais sentido falarmos em “vida assistida até ao seu termo natural”, garantindo ao doente terminal, através dos cuidados paliativos no aproximar do fim da vida, a assistência médica e humana necessária para o alívio do sofrimento. É, portanto, legítimo reclamar a humanização do fim da vida através de um conjunto de meios e atenções, oferecendo à pessoa os cuidados de que necessita e que dignificam não apenas quem os recebe, mas também quem os pratica num ato de verdadeira compaixão e generosidade.

3. O que é a obstinação terapêutica?

A obstinação terapêutica é também designada como exacerbação terapêutica, encarniçamento terapêutico ou excesso terapêutico.

Distinta da eutanásia é a decisão de renunciar à obstinação terapêutica, ou seja, «a certas intervenções médicas já inadequadas à situação real do doente, porque não proporcionadas aos resultados que se poderiam esperar ou ainda porque demasiado gravosas para ele e para a sua família»[2]. «A renúncia a meios extraordinários ou desproporcionados não equivale ao suicídio ou à eutanásia; exprime, antes, a aceitação da condição humana perante a morte»[3].

A obstinação terapêutica corresponde, assim, à aplicação de todos os métodos, diagnósticos e terapêuticos conhecidos, — mas que não visam proporcionar qualquer benefício ao doente —, com o objetivo de prolongar de forma artificial e inútil a sua vida, impedindo, portanto, através de uma atuação terapêutica desadequada e excessiva (desproporcionada), que a natureza siga o seu curso. Esta abordagem não é desejável; é, aliás, eticamente condenável, corresponde a má prática médica e conduz à chamada distanásia.

Na escolha da intervenção adequada (proporcionada), o médico deverá ponderar bem os meios, o grau de dificuldade e de risco, o custo e as possibilidades de aplicação, em confronto com o resultado que se pode esperar, atendendo ao estado do doente e às suas forças físicas e morais[4].

Nem sempre é fácil estabelecer uma linha clara entre a intervenção terapêutica adequada e a obstinação terapêutica. Cada caso deve ser avaliado na sua especificidade, de acordo com os meios disponíveis e com os avanços da medicina a cada momento. Seja como for, a medicina deve intervir sempre que haja uma esperança fundada de salvar a vida, devendo questionar-se medidas que não servem este propósito e se destinam apenas a prolongar a vida do doente. No entanto, importa sublinhar que a suspensão de algumas medidas terapêuticas que correspondam à obstinação terapêutica não implica a suspensão de outras, destinadas, por exemplo, a aliviar a dor do paciente.

É, pois, bem diferente matar e aceitar a morte. Quer a eutanásia, quer a obstinação terapêutica, desrespeitam o momento natural da morte: a primeira antecipa esse momento, a segunda prolonga-o de forma artificialmente inútil e penosa.

4. O que é a distanásia?

Etimologicamente, significa o contrário de eutanásia.

A distanásia consiste em utilizar todos os meios possíveis — sem que exista uma esperança de cura — para prolongar de forma artificial a vida de um doente moribundo. Está associada à obstinação terapêutica. A distanásia é também considerada como a morte em más condições de apoio clínico e humano (“má morte”), associada à dor, sofrimento e a outros sintomas causadores de desconforto e incômodo significativo.

5. A eutanásia é sempre voluntária?

As legislações atualmente vigentes em vários Estados exigem que a eutanásia corresponda a um pedido livre e reiterado do doente, ao contrário do que se verificou no regime nacional-socialista alemão.

Mas as legislações holandesa e belga permitem a eutanásia de crianças com o consentimento dos pais. Dão, assim, relevo à vontade de crianças numa questão de relevância muito superior a outras, para as quais não é dado esse realce. Deve questionar-se se estamos, nestes casos, perante uma eutanásia voluntária.

Essas legislações também permitem a eutanásia de pessoas dementes quando a vontade destas se manifestou antes do evoluir da doença e quando ainda estavam em condições de o fazer em consciência. Mas falta, nestes casos, no momento em que a eutanásia é praticada, uma expressão de vontade atual; não sabemos, pois, se a pessoa em causa não poderia ter mudado de opinião entretanto, como muitas vezes sucede com o aproximar da morte.

Para além disso, e embora sem cobertura legal, mas também sem que essa prática tenha dado origem a qualquer acusação ou condenação judicial, na Holanda e na Bélgica, verifica-se a prática da eutanásia em crianças recém-nascidas com deficiências graves e em adultos com grave deficiência e incapazes de exprimir a sua vontade consciente. Não podemos falar, nestes casos, em eutanásia voluntária[5].

6. A questão da legalização da eutanásia e do suicídio assistido envolve opções religiosas?

Para os crentes, a vida não é um objeto de que se possa dispor arbitrariamente, é um dom de Deus e uma missão a cumprir. E é no mistério da morte e ressurreição de Jesus que os cristãos encontram o sentido do sofrimento. Mas quando se discute a legislação de um Estado laico importa encontrar na razão, na lei natural e na tradição de uma sabedoria acumulada um fundamento para as opções a tomar. Esse fundamento reside no valor da vida humana em todas as suas fases e em todas as situações. A Constituição Portuguesa reconhece-o ao afirmar categoricamente que «a vida humana é inviolável» (artigo 24º, nº 1).

7. Quais são os principais argumentos dos defensores da legalização da eutanásia e do suicídio assistido?

Por um lado, são invocados os direitos de liberdade e autonomia individuais: cada um deverá poder dispor da sua vida. O direito à vida será disponível e renunciável. Haverá um direito a morrer, e a morrer com dignidade, como há um direito a viver.

Por outro lado, a eutanásia é apresentada como um ato compassivo e de benevolência, que põe termo a um sofrimento inútil e sem sentido. A vida deixa de merecer proteção quando é marcada pelo sofrimento e perde, então, dignidade.

Podemos dizer que subjacente à legalização da eutanásia e do suicídio assistido está a pretensão de redefinir mandamentos relativos ao respeito e à sacralidade da vida humana. Pretende-se que o mandamento de que nunca é lícito matar uma pessoa humana inocente («Não matarás») seja substituído por um outro, que só torna ilícito o ato de matar quando o visado quer viver. Consequentemente, intenta-se que a norma segundo o qual a vida humana é sempre merecedora de proteção, porque um bem em si mesma e porque dotada de dignidade em qualquer circunstância, seja substituída por um outro critério, segundo o qual a dignidade e valor da vida humana podem variar e podem perder-se. Ora, na nossa conceção, isto é inaceitável.

Argumenta-se, também, que a legalização da eutanásia e do suicídio assistido seria uma exigência da liberdade de convicção e consciência e da liberdade religiosa, assim como da neutralidade ideológica do Estado. Haveria que respeitar a liberdade de quem considera que a sua vida não tem sentido, que o seu sofrimento não tem sentido, mesmo que outros, em iguais circunstâncias, considerem que a sua vida e o seu sofrimento têm sentido.

Invoca-se, ainda, a necessidade de regular uma situação que já existe como prática clandestina, evitando abusos e reduzindo os seus danos.

8. A legalização da eutanásia é uma exigência do respeito pela autonomia da pessoa?

Não é lógico contrapor o valor da vida humana ao valor da liberdade e da autonomia. É que a autonomia supõe a vida e sua dignidade. A vida é um bem indisponível, o pressuposto de todos os outros bens terrenos e de todos os direitos. Não pode invocar-se a autonomia contra a vida, pois só é livre quem vive. Não se alcança a liberdade da pessoa com a supressão da vida dessa pessoa. A eutanásia e o suicídio não representam um exercício de liberdade, mas a supressão da própria raiz da liberdade.

9. Todos os direitos são disponíveis?

O direito à vida é indisponível. Não pode justificar-se a morte de uma pessoa com o consentimento desta. O homicídio não deixa de ser homicídio por ser consentido pela vítima. A inviolabilidade da vida humana não cessa com o consentimento do seu titular.

O direito à vida é indisponível, como o são outros direitos humanos fundamentais, expressão do valor objetivo da dignidade da pessoa humana. Também não podem justificar-se, mesmo com o consentimento da vítima, a escravatura, o trabalho em condições desumanas ou um atentado à saúde, por exemplo. É irrenunciável o direito à segurança social. Até em questões de menor relevo, como na obrigatoriedade de uso de capacetes de proteção ou cinto de segurança, no trânsito ou em determinados trabalhos, se manifesta a indisponibilidade de alguns direitos.

10. Pode falar-se em “direito a morrer” e em “direito a morrer com dignidade”?

É absurdo falar em “direito à morte”, como seria absurdo falar em “direito à doença”, porque o direito tem sempre por objeto um bem (à vida, à saúde, à liberdade) na perspetiva da realização humana pessoal, e a morte não é nunca, em si mesma, um bem, pois todos os bens terrenos pressupõem a vida, e nunca a morte. O “direito à morte” seria ainda mais contraditório do que uma escravidão legitimada pelo consentimento da vítima.

“Direito a morrer com dignidade” terá sentido se com isso se pretende designar a morte em condições humanamente dignas, com a proximidade e o amor dos entes queridos e com cuidados paliativos, se necessários. Não certamente se com isso se designa alguma forma de morte provocada, como o são a eutanásia e o suicídio assistido. Não se compreende que uma morte seja digna por ser provocada, ou mais digna por ser provocada.

11. Pode dizer-se que é autêntica a manifestação de vontade de doentes terminais que pedem a eutanásia?

Pode dizer-se que nunca é absolutamente seguro que se respeita a vontade autêntica de uma pessoa que pede a eutanásia. Nunca pode haver a garantia absoluta de que o pedido de eutanásia é verdadeiramente livre, inequívoco e irreversível.

Muitas vezes, traduz uma ideia momentânea, frequentemente condicionada por um humor depressivo, e que, após o tratamento psiquiátrico adequado, pode ser alterada. Em fases terminais sucedem-se momentos de desespero alternando com outros de apego à vida. Porquê respeitar a vontade expressa num momento, e não noutro? Não poderia a pessoa vir a arrepender-se mais tarde, como se arrependem a maior parte dos que tentam o suicídio? É que a decisão de suprimir uma vida é a mais absolutamente irreversível de qualquer das decisões, dela nunca pode voltar-se atrás.

Que certeza pode haver de que o pedido de morte é bem interpretado, não será ambivalente, talvez mais expressão de uma vontade de viver de outro modo, sem o sofrimento, a solidão ou a falta de amor experimentados, do que de morrer? Ou de que esse pedido não é mais do que um grito de desespero de quem se sente abandonado e quer chamar a atenção dos outros? Ou de que não é consequência de estados depressivos passíveis de tratamento? Estando em jogo a vida ou a morte, a mínima dúvida a este respeito seria suficiente para optar pela vida (in dubio pro vita). E poderá estar alguma vez afastada essa mínima dúvida?

Num estudo realizado por Emanuel et al. (2000)[6] com 988 doentes terminais, cerca de 10,6% destes doentes referiram considerar pedir a eutanásia, ou o suicídio medicamente assistido, para si próprios. No entanto, cerca de 6 meses mais tarde, cerca de 50,7 % desses doentes mudaram de opinião, recusando a eutanásia. Além disso, os sintomas depressivos estavam associados aos pedidos de eutanásia.

12. O valor da vida tem relevo apenas individual?

A vida não pode ser concebida como um objeto de uso privado, como se estivesse de forma incondicional à disposição do seu proprietário para a usar ou a deitar fora de acordo com o seu estado de espírito ou determinada circunstância. Ninguém vive para si mesmo, como também ninguém morre para si próprio. A vida tem uma referência social e transpessoal, associada ao amor, à responsabilidade, à interdependência e ao bem comum.

E o valor da vida de cada pessoa para toda a sociedade não desaparece quando essa pessoa deixa de ser útil, deixa de produzir, perde quaisquer capacidades, ou pode vir a ser sentida como “peso” pelos outros.

13. Faz sentido falar em vidas que perdem dignidade, ou vidas “indignas de ser vividas”?

A vida humana é única, irrepetível e encerra sempre um mistério. A dignidade de uma pessoa não se mede pela sua popularidade, pela sua utilidade para a sociedade, nem diminui com o sofrimento ou a proximidade da morte. Se a vida humana não vale por si mesma, qualquer um pode sempre instrumentalizá-la em função de qualquer finalidade.

A dignidade da vida humana não depende de circunstâncias externas e nunca se perde. Não é menor, nem se perde, por estar marcada pela doença e pelo sofrimento.

14. Será o sofrimento físico e psíquico uma justificação para a eutanásia ou o suicídio assistido?

Importa lembrar que com a eutanásia e o suicídio assistido não se elimina, ou atenua, o sofrimento, elimina-se, sim, a vida da pessoa que sofre. A eutanásia e o suicídio assistido são uma forma fácil e ilusória de enfrentar o sofrimento, o qual só se enfrenta verdadeiramente através dos cuidados paliativos e do amor concreto para com quem sofre.

Há que combater, através dos cuidados paliativos, o sofrimento que pode ser evitado. Tais cuidados permitem eliminar o sofrimento físico intolerável.

Mas a dor e o sofrimento, físico e psíquico, fazem parte da natureza humana e acompanham o homem ao longo da sua vida. A alegria do nascimento de um filho é antecedida pelo sofrimento do parto. Na vida de qualquer pessoa, os momentos de alegria e bem-estar vão alternando com períodos mais ou menos prolongados de tristeza e sofrimento. É impossível julgar que se pode viver evitando a dor ou o sofrimento. E a morte nunca pode ser resposta. Se o fosse, estaria aberta a porta à legalização do homicídio a pedido e do auxílio ao suicídio em quaisquer circunstâncias, o que não advogam os defensores da legalização da eutanásia e do suicídio assistido. E deixariam de ter sentido as políticas públicas de prevenção do suicídio.

Há que evitar o sofrimento físico e psíquico destrutivo e intolerável, neles intervir ativamente e ajudar a encontrar um sentido para o sofrimento que não pode ser evitado, que faz parte da vida, em qualquer das suas fases, com ou sem doença. Os cristãos encontram esse sentido no sofrimento que Jesus Cristo experimentou até à morte na Cruz. Crentes e não crentes podem ver no sofrimento um desafio que nos faz crescer em humanidade (e não é humanamente benéfica a pretensão ilusória de fugir ao sofrimento inevitável).

Dizia Viktor Frankl, um psiquiatra judeu que sobreviveu aos tormentos de um campo de concentração nazi, e que desenvolveu a logoterapia: «quando não podemos mudar certas circunstâncias da vida, somos desafiados a mudar-nos a nós próprios»[7].

Como afirma Bento XVI, «a grandeza da humanidade determina-se essencialmente na relação com o sofrimento e com quem sofre»[8].

Para além do círculo afetivo dos seus familiares e amigos, a dignidade de quem sofre reclama o cuidado médico proporcionado, mesmo que os atos terapêuticos e os analgésicos possam, pelo efeito secundário inerente a muitos deles, contribuir para algum encurtamento da vida. Neste caso, não se trata de eutanásia, pois o objetivo não é dar a morte, mas preservar a dignidade humana e a «santidade de vida», minimizando o sofrimento e criando as condições para a «qualidade de vida» possível.

15. A legalização da eutanásia e do suicídio assistido são uma exigência do respeito pela liberdade de convicção e consciência e da liberdade religiosa, assim como da neutralidade ideológica do Estado?

Para justificar a legalização da eutanásia e do suicídio assistido, há quem alegue que dessa forma o Estado não toma qualquer partido a respeito de conceções sobre o sentido da vida e da morte e respeita, apenas, a vontade e as conceções sobre o sentido da vida e da morte de quem solicita tais pedidos.

Não é assim. O Estado e a ordem jurídica, ao autorizarem tal prática, dando-lhes o seu apoio, estão a tomar partido, estão a confirmar que a vida permeada pelo sofrimento, ou em situações de total dependência dos outros, deixa de ter sentido e perde dignidade, pois só nessas situações seria lícito suprimi-la.

Quando um doente pede para morrer porque acha que a sua vida não tem sentido ou perdeu dignidade, ou porque lhe parece um peso para os outros, a resposta que os serviços de saúde, a sociedade e o Estado devem dar a esse pedido não é: «Sim, a tua vida não tem sentido, a tua vida perdeu dignidade, és um peso para os outros». Mas a resposta deve ser outra: «Não, a tua vida não perdeu sentido, não perdeu dignidade, tem valor até ao fim, tu não és peso para os outros, continuas a ter valor incomensurável para todos nós». Esta é a resposta de quem coloca todas as suas energias ao serviço dos doentes mais vulneráveis e sofredores e, por isso, mais carecidos de cuidados e amor; a primeira é a atitude simplista e anti-humana de quem não pretende implicar-se na questão do sentido da verdadeira «qualidade de vida» do próximo e embarca na solução fácil da eutanásia ou do suicídio assistido.

16. Mas não será preferível regular uma situação que já existe como prática clandestina, evitando abusos e reduzindo os seus danos?

Este tipo de argumentação foi já utilizado nas campanhas pela legalização do aborto. E há quem o invoque em favor da legalização da venda e consumo de droga, por exemplo. Há que salientar, desde logo, porém, que a eventual prática clandestina da eutanásia não tem comparação com a prática do aborto clandestino ou com o consumo e tráfico de droga.

Este tipo de raciocínio levaria a desistir de combater qualquer crime, pois se verifica sempre a sua prática clandestina.

E a experiência revela que, depois da legalização da eutanásia, continua a prática desta também fora do quadro legal, sendo que não há notícia de condenações judiciais por isso. A tendência será, mesmo, para intensificar essa prática clandestina, devido a um clima de maior permissividade perante qualquer tipo de eutanásia, seja ela legal ou não.

17. Pode considerar-se a legalização da eutanásia um progresso civilizacional?

A legalização da eutanásia e do suicídio assistido são habitualmente apresentadas junto da opinião pública como mais um sinal de progressismo, numa linha de promoção da liberdade individual. Os opositores surgem como antiquados.

Será importante recordar que a legalização da eutanásia e do suicídio assistido não são um progresso civilizacional, mas antes um retrocesso. Em diversas sociedades primitivas, bem como na Grécia e na Roma antigas, a eutanásia era praticada. Os idosos, os doentes incuráveis e os “cansados de viver” podiam suicidar-se ou submeter-se a práticas e ritos destinados a provocar uma “morte honrosa”. A morte de anciãos foi praticada em algumas tribos de Akaran (Índia), do Sian inferior, entre os cachibas e os tupis do Brasil. Na Europa entre os antigos wendi, povo eslavo, e até no século XX na Rússia na seita pseudo-religiosa dos “estranguladores”[9].

A valorização e a defesa da vida humana em todas as suas fases foram instituídas, em grande parte, pelo cristianismo. O verdadeiro progresso da humanidade foi no sentido de criar leis e normas que defendam a vida humana e impeçam o mais forte de exercer o seu poder sobre o mais fraco (a abolição do infanticídio, da escravatura, da tortura, da discriminação racial, etc.). Uma sociedade será tanto mais justa e fraterna quanto melhor tratar e cuidar dos seus membros mais vulneráveis.

18. Quais serão as consequências sociais da legalização da eutanásia?

A mensagem que, através da legalização da eutanásia e do suicídio assistido, assim se veicula tem graves implicações sociais, que vão para além de cada situação individual. Esta mensagem não pode deixar de ter efeitos no modo como toda a sociedade passará a encarar a doença e o sofrimento.

A quebra de um interdito fundamental (“não matar”) que estrutura, como sólido alicerce, a vida comunitária, não pode deixar de afetar a confiança no seio das famílias, entre gerações, e na comunidade em geral.

Há o sério risco de que a morte passe a ser encarada como resposta à doença e o sofrimento, já que a solução não passaria por um esforço solidário de combate a essas situações, mas pela supressão da vida da pessoa doente e sofredora, pretensamente diminuída na sua dignidade. E é mais fácil e mais barato. Mas não é humano! Neste novo contexto cultural, o amor e a solidariedade para com os doentes deixarão de ser tão encorajados, como já têm alertado associações de pessoas que sofrem das doenças em questão e que se sentem, obviamente, ofendidas quando vêm que a morte é apresentada como “solução” para os seus problemas. E também é natural que haja doentes, de modo particular os mais pobres e débeis, que se sintam socialmente pressionados a requerer a eutanásia, porque se sentem “a mais” ou “um peso”.

É este, sem dúvida, um perigo agravado num contexto de envelhecimento da população e de restrições financeiras dos serviços de saúde que implícita ou explicitamente se podem questionar: para quê gastar tantos recursos com doentes terminais quando as suas vidas pode ser encurtadas?

Não podemos ignorar que entre nós uma grande parte dos doentes, especialmente os mais pobres e isolados, não tem acesso aos cuidados paliativos, que são a verdadeira resposta ao seu sofrimento. A legalização da eutanásia e do suicídio assistido contribuirá para atenuar a consciência social da importância e urgência de alterar esta situação, porque poderá ser vista como uma alternativa mais fácil e económica.

19. Será possível restringir a legalização da eutanásia e do suicídio assistido a situações raras e excecionais?

A experiência dos Estados que legalizaram a eutanásia revela que não é possível restringir essa legalização a situações raras e excecionais; o seu campo de aplicação passa gradualmente da doença terminal à doença crónica e à deficiência, da doença física incurável à doença psíquica dificilmente curável, da eutanásia consentida pela própria vítima à eutanásia consentida por familiares de recém-nascidos, crianças e adultos com deficiência ou em estado de inconsciência.

É conhecida a imagem da rampa deslizante (slippery slope), muitas vezes evocada a este respeito. Depois de se iniciar uma descida vertiginosa, não se consegue evitar a queda no abismo; quando se introduz uma brecha num edifício, não se consegue evitar a sua derrocada.

Dois são os trajetos através dos quais se vai alargando o alcance da legalização da eutanásia e do suicídio assistido. Trata-se de um percurso lógico e, por isso, previsível.

Por um lado, quando se invoca a autonomia para justificar essa legalização, é lógico que estas práticas não se limitem a situações de doença em fase terminal. São, assim, mortas pessoas muito antes do final da sua vida e algumas sem estar doentes.

Por outro lado, quando se reconhece que há situações em que a vida “perde dignidade”, pela doença, sofrimento ou dependência, e, por isso, nessas situações a vida não merece a proteção que merece noutras, justificando-se a eutanásia e o suicídio assistido; então, porque nessas situações a vida “perde dignidade”, deixa de ser “digna de ser vivida”, pode prescindir-se de um pedido expresso no caso de pessoas incapazes de o formular: recém-nascidos, crianças, pessoas com deficiência ou com demência. E invoca-se o princípio da igualdade: porque haverão, então, de ficar privadas do pretenso “benefício” da eutanásia estas pessoas?

20. Tem aumentado no número de casos de eutanásia e suicídio assistido nos países em que estas práticas foram legalizadas?

Sim. Um trabalho de revisão realizado por Steck et al. (2013) revela que o número de mortes associadas à eutanásia e ao suicídio assistido aumentou nos países em que tais práticas foram legalizadas, como é o caso da Bélgica, Holanda, Suíça e o Estado de Oregon nos EUA[10].

Por exemplo, na Holanda, em 2015 a prevalência de mortes ocorridas através da eutanásia e do suicídio assistido foi de 4829 casos, o que corresponde a 3,4 % de todas as mortes[11]. Na Bélgica, em 2003 morreram através da eutanásia 235 pessoas. Em 2013 esse número aumentou para 1807, o que corresponde a um aumento de cerca de 789% em 10 anos[12]. Os dados disponíveis mostram que os números têm vindo sempre a aumentar, o que comprova que esta medida não se aplica apenas em casos pontuais.

21. Quais serão as consequências da legalização da eutanásia na medicina e na relação médico-doente?

A medicina assenta a sua prática no diagnóstico e no tratamento das doenças, no acompanhamento e alívio do sofrimento dos doentes, sempre com a finalidade de defesa da vida humana. A tradição refletida no juramento de Hipócrates obriga a que os médicos estejam do lado da vida, lutando contra a doença que nas suas formas mais graves conduzem à morte. A eutanásia opõe-se à medicina e acaba por ser a sua negação.

A relação de confiança médico-doente, que é a base da medicina, é, assim, destruída. É fácil perceber que aquele que deveria fazer tudo para nos salvar, não pode subitamente, ainda que a nosso pedido, agir no sentido de nos tirar a vida. A imagem do médico não pode passar de uma referência amiga e confiável à de um executante de uma sentença de morte.

Perante um médico que pratica a eutanásia, o doente pode recear que este decida suspender os tratamentos mesmo quando estes se justificam.

Além disso, a inclusão da eutanásia na prática médica pode levar a que o clínico, em situações semelhantes àquelas em que tenha sido praticada a eutanásia, tenda a repetir essa prática, ou a propô-la aos seus doentes.

Do ponto de vista médico, a eutanásia é executada através de um ato técnico (administração de drogas letais), mas não pode ser considerado um ato clínico, já que não se destina a aliviar ou a curar uma doença, mas sim a pôr termo à vida do paciente. Portanto, a eutanásia e o suicídio assistido não são tratamentos médicos.

A Associação Médica Americana (American Medical Association) tomou posição contra o envolvimento dos médicos na eutanásia e no suicídio assistido, referindo claramente que esse envolvimento contradiz o papel profissional do médico[13]. A Associação Médica Americana acrescenta que a avaliação e o tratamento por um profissional de saúde, com experiência nos aspetos psiquiátricos de doença terminal, pode, em muitos casos, aliviar o sofrimento que leva um paciente a desejar suicídio assistido.

22. A eutanásia está a ser praticada em doentes psiquiátricos? Que consequências daí podem advir?

Sim. Um estudo realizado na Holanda, entre 2011 e meados de 2014, revelou isso mesmo, sendo que a maioria dos casos de eutanásia devido a doenças psiquiátricas (N=66) correspondiam a mulheres (cerca de 70%), com várias doenças psiquiátricas crónicas, e socialmente isoladas. Cerca de 25% dos casos tinham idades compreendidas entre 30 e os 50 anos. A depressão e as perturbações de ansiedade foram as principais patologias psiquiátricas apresentadas pelos doentes (56%). Além disso, em 24% dos casos, os pareceres dos médicos psiquiatras não foram no sentido de justificar o pedido de eutanásia. Porém, nestes casos, a comissão legalmente prevista decide geralmente em favor da prática da eutanásia[14].

Na Suíça, num estudo realizado pelo Instituto de Medicina Legal de Zurique sobre os suicídios assistidos praticados por duas associações (Exit Deutsche Schweiz e Dignitas), entre 2001-2004, (N=421) revelou que nenhuma destas pessoas sofria de qualquer doença letal e que o “cansaço da vida” foi evocado em 25% dos suicídios (N= 105)[15] assistidos. De acordo com os resultados publicados neste estudo, a percentagem de suicídios assistidos cometidos em pessoas sem qualquer doença letal tem vindo a aumentar desde 1992. Facilmente se percebe que entre estas poderão estar pessoas que sofram de depressão e que se encontrem numa situação de grande fragilidade emocional.

A eutanásia praticada em doentes psiquiátricos é motivo de enorme preocupação na classe médica. Há o sério risco de os psiquiatras desistirem de tratar alguns doentes com depressão, com o efeito de desmoralização que isso poderá ter noutras pessoas com a mesma doença, e de ser desincentivada a melhoria dos cuidados psiquiátricos[16].

23. Quais são os direitos do doente em estado terminal?

Há um conjunto de direitos associados à dignidade humana que devem ser respeitados durante o período em que se avizinha o fim da vida. Neste caso, será preferível a expressão “fim de vida digno” em vez de “morte digna”.

Os direitos do fim da vida incluem:

  • o direito aos cuidados paliativos;
  • o direito a que seja respeitada a sua liberdade de consciência;
  • o direito a ser informado com verdade sobre a sua situação clínica;
  • o direito a decidir sobre as intervenções terapêuticas a que se irá sujeitar (consentimento terapêutico);
  • o direito a não ser sujeito a obstinação terapêutica (tratamentos inúteis e desproporcionados, também designados como fúteis);
  • o direito a estabelecer um diálogo franco, esclarecedor e sincero com os médicos, familiares e amigos;
  • o direito a receber assistência espiritual e religiosa.

24. O que são os cuidados paliativos?

São cuidados de saúde prestados por uma equipa multidisciplinar especializada, que incluem a chamada medicina paliativa, que é hoje uma especialidade médica vocacionada para prestar cuidados clínicos aos doentes avançados e incuráveis e/ou muito graves. De acordo com a Organização Mundial de Saúde[17], os cuidados paliativos servem para melhorar a qualidade de vida dos doentes e das famílias que se confrontam com doenças ameaçadoras para a vida, mitigando a dor e outros sintomas e proporcionando apoio espiritual e psicológico, desde o momento do diagnóstico até ao final da vida.

Os cuidados paliativos não se destinam a curar a doença, nem tão-pouco a acelerar ou atrasar a morte (aceitam a inevitabilidade da morte), mas a assegurar um conjunto de medidas que visam cuidar do doente, aliviando o seu sofrimento físico e psíquico, garantindo-lhe conforto e a melhor qualidade de vida possível. Devem ser oferecidos muito antes da proximidade da morte do paciente, caso contrário poderão não garantir os objetivos de bem-estar que pretendem atingir. O apoio é dirigido quer ao doente, quer à família, procurando-se que os doentes possam viver tão ativamente quanto possível até à morte. Estes cuidados de saúde humanizados são prestados habitualmente por uma equipa multidisciplinar, constituída por médicos, enfermeiros, auxiliares, fisioterapeutas, psicólogos, podendo também incluir voluntários.

Em doentes em fase terminal (últimos 3-6 meses de vida), é frequente existir dor física, sofrimento psíquico, bem como outros sintomas. As intervenções dos cuidados paliativos destinam-se a aliviar os sintomas que mais afetam o paciente. O sofrimento psíquico pode ser aliviado através de psicofármacos, mas também através de psicoterapia de apoio, do consolo moral e efetivo prestado pela equipa de cuidadores e também pela família, garantindo, assim, que nenhum doente em fim de vida (últimos 12 meses de vida) ou agónico (últimas horas ou dias) fica entregue a si próprio.

Estes cuidados devem ser prestados de forma continuada até ao momento da morte; e mesmo após a morte, com a prestação de apoio à família enlutada.

Os cuidados paliativos devem ser oferecidos atempadamente – e não apenas quando o doente está moribundo – de uma forma que respeite a sensibilidade deste e da sua família, e de acordo com as suas características culturais e religiosas.

Esta é uma área da medicina relativamente nova enquanto especialidade e necessita de ser alargada a mais zonas do país, com a criação de mais equipas especializadas.

25. O que é sedação paliativa?

Trata-se da utilização monitorizada de terapêutica destinada a induzir um estado de sedação, alterando, assim, o estado de consciência do doente, tendo em vista aliviar a carga de sofrimento causada por um ou mais sintomas que não cedem aos tratamentos habituais (ditos refratários), de uma forma que é eticamente aceitável para o doente, família e prestadores de cuidados de saúde. Utilizam-se fármacos sedativos (não morfina) e podem ocorrer diferentes níveis de sedação.

A sedação paliativa pode ser recomendada nalgumas situações e configurar a boa prática médica no âmbito dos cuidados paliativos[18]. Contudo, a sedação paliativa não deve nunca servir para abreviar a vida do doente. Além disso, não pode ser considerada um tratamento de primeira linha e deve ser praticada por uma equipa devidamente preparada. Assenta nos seguintes pontos: 1. Intenção clara (sedar o doente com a intenção de aliviar o sofrimento); 2. Processo (com o consentimento do doente e recurso a fármacos sedativos); 3. Resultado (o êxito da sedação é o alivio do sofrimento e não a morte).

26. Quais são as principais necessidades dos doentes em fim de vida?

As necessidades dos doentes em fim de vida e terminais assentam essencialmente no alívio do sofrimento físico e psíquico, prestado por uma equipa devidamente capacitada, no apoio espiritual e no suporte afetivo através da família e amigos.

A dor física é muito frequente, principalmente nas doenças neoplásicas. Uma correta terapêutica da dor torna-se necessária e importante para garantir a melhor qualidade de vida. No entanto, existem vários outros sintomas e todos merecem o devido tratamento.

O sofrimento psíquico não deve ser menosprezado. Estes doentes apresentam com frequência perturbações depressivas que obrigam a uma terapêutica antidepressiva e a um adequado apoio psicológico. É importante que o doente sinta que não está sozinho, sinta que a sua vida tem sentido e que tem o apoio de uma equipa a tratar dele, o que, juntamente com o carinho da família e dos amigos, proporciona um precioso auxílio para contrariar o sentimento de isolamento e insegurança que ocorre com frequência nestes casos.

As necessidades espirituais (comuns a crentes e não crentes) e religiosas devem ser justamente valorizadas. O apoio que permite dar sentido ao sofrimento deve ser garantido a estes doentes.

Fátima, 8 de março de 2016


[1] João Paulo II, Carta encíclica Evangelium Vitae (25 de março de 1995), n. 65.

[2] Ibidem.

[3] Ibidem.

[4] Congregação para a Doutrina da Fé, Declaração sobre a eutanásia, n. 2, 1980.

[5] Cf. Bregje D Onwuteaka-Philipsen et al., «Trends in end-of-life practices before and after the enactment of the euthanasia law in the Netherlands from 1990 to 2010: a repeated cross-sectional survey», www.thelancet.comonlineJuly 11, 2012, http://dx.doi.org/10.1016/S0140-6736(12)61034-41; Kenneth Chambaere er al., «Physician-assisted deaths under the euthanasia law in Belgium: a population-based survey», CMAJ, 2010, DOI:10.1503/cmaj.091876; Gerbert van Loenen, Do you call this a life?, Ross Latner, 2015.

[6] Cf. Emanuel EJ, Fairclough DL and Emanuel LL, «Attitudes and desires related to euthanasia and physician-assisted suicide among terminally ill patients and their caregivers», JAMA, 2000; 284: 2460–2468. ?

[7] In O Homem em busca de sentido.

[8] Carta encíclica Spe Salvi (30 de novembro de 2007), n. 38.

[9] Cf. Elio Sgreccia, Manual de bioética: Fundamentos e ética biomédica, Ed. Loyola, São Paulo, 1996. 601-605.

[10] Cf. Steck N, Egger M, Maessen M, Reisch T, Zwahlen M, «Euthanasia and assisted suicide in selected European countries and US states: systematic literature review». Med Care. 2013 Oct; 51(10): 938-44.

[11] Cf. Radbruch L, Leget C, Bahr P, Müller-Busch C, Ellershaw J, de Conno F, Vanden Berghe P; board members of the EAPC. Euthanasia and physician-assisted suicide: A white paper from the European Association for Palliative Care. Palliat Med. 2016 Feb;30(2):104-16.

[12] Cf. Federale Controle- en Evaluatiecommissie Euthanasie. Zesde Verslag aan de Wetgevende Kamers (2012–2013), http://www.dekamer.be/flwb/pdf/54/0135/54K0135001.pdf (acedido em 22-02-2016).

[14] Cf. Kim SY, De Vries RG, Peteet JR, «Euthanasia and Assisted Suicide of Patients With Psychiatric Disorders in the Netherlands 2011 to 2014.», in JAMA Psychiatry. 2016 Feb 10. doi: 10.1001/jamapsychiatry.2015.2887. [Epub ahead of print].

[15] Cf. Fischer S, Huber CA, Imhof L et al., «Suicide assisted by two Swiss right-to-die organisations», inJ Med Ethics2008;34:810–14.

[16] Cf. Appelbaum PS. «Physician-Assisted Death for Patients With Mental Disorders-Reasons for Concern». in JAMA Psychiatry. 2016 Feb 10. doi:10.1001/jamapsychiatry.2015.2890. [Epub ahead of print].

[17] Cf. http://www.who.int/cancer/palliative/es/ (acedido em 18-02-2016).

[18] Cf. Cherny NI and Radbruch L., «European Association for Palliative Care (EAPC) recommended framework for the use of sedation in palliative care». Palliat Med 2009; 23: 581–593.

O papa São João Paulo II afirmava que a Universidade católica tem em vista os “grandes problemas da sociedade”, estando em causa o “significado da investigação científica e da tecnologia, da convivência social, da cultura. Porém, mais profundamente ainda, está em causa o próprio significado do homem” (Alocução ao Congresso Internacional sobre as Universidades Católicas, no. 3).

Características da Escola superior católica

A Universidade católica deve-se deixar guiar por suas características identificadoras que são as que se seguem, conforme alguns pontos do documento sobre as universidades católicas, Ex Corde Ecclesiae, do papa São João Paulo II.

Conforme o documento, na Universidade católica,

1. a inspiração cristã deve orientar as pessoas e toda a comunidade universitária;

2. a reflexão sobre o conhecimento humano será iluminada pela fé católica;

3. estará presente a fidelidade ao pensamento cristão, conforme a Igreja o apresenta;

4. haverá a contribuição institucional à comunidade eclesial e à humanidade no caminho ‘rumo ao objetivo transcendente que dá significado à vida”;

5. a investigação deve objetivar a integração do conhecimento, o diálogo entre a fé e a razão, uma preocupação ética e uma perspectiva teológica;

6. os princípios, as atitudes e os ideais católicos são impregnadores e modeladores das “atividades universitárias de acordo com a natureza e a autonomia próprias de tais atividades”;

7. a teologia e a filosofia guiam os “estudiosos universitários” para a determinação da “relativa posição e o significado de cada uma das diversas disciplinas no quadro de um visão da pessoa humana e do mundo iluminada pelo Evangelho e, portanto, pela fé em Cristo, Logos, como centro da criação da história humana”;

8. o empenho da Universidade católica, na causa da verdade, é a sua forma de serviço “à dignidade do homem e à causa da Igreja”, distinguindo-se por “sua livre investigação de toda a verdade acerca da natureza, do homem e de Deus” (I, nos. 8, 13, 15, 14, 16, 4, 27);

9. a Universidade católica tem a obrigação de ser instrumento cada vez mais eficiente do progresso cultural, contribuindo para o estudo e solução dos graves problemas contemporâneos, “reservando especial atenção às suas dimensões éticas e religiosas” e deverá “ter a coragem de proclamar verdades incômodas, verdades que não lisonjeiam a opinião pública, mas que, no entanto são necessárias para salvaguardar o autêntico bem da sociedade”; ela contribuirá para “o diálogo ecumênico” e o “diálogo inter-religioso”.

10. A Universidade católica tem o dever de promover o diálogo entre “o pensamento cristão e as ciências modernas”, o que exige “pessoas particularmente preparadas em cada uma das disciplinas, que sejam dotadas também de adequada formação teológica e capazes de enfrentar as questões epistemológicas no plano das relações entre a fé e a razão”;

11. “o pesquisador cristão deve mostrar como a inteligência humana se enriquece da verdade superior, que deriva do Evangelho”, sendo que, segundo a sua especificidade, a Universidade católica, conforme o papa Paulo VI, “contribui para manifestar a superioridade do espírito, que nunca pode, sem o risco de perder-se, consentir em por-se a serviço de outra coisa que não seja a procura da verdade.” (I, nos. 29, 32, 47, 46);

12. os alunos das universidades e faculdades católicas descubram que “a fé e a razão colaboram para uma só verdade” e “se formem de fato como homens de grande saber, preparados para enfrentarem tarefas de maior responsabilidade na sociedade e para serem no mundo testemunhas da fé.” (Gravissimum Educationis, no. 10);

13. a Universidade católica “goza de autonomia institucional que é necessária para cumprir suas funções com eficácia, e garante aos seus membros a liberdade acadêmica na salvaguarda do indivíduo e da comunidade no âmbito das exigências da verdade e do bem comum.” (I, no. 12);

14. “Os Bispos têm a responsabilidade particular de promover as Universidades Católicas e, especialmente, de segui-las e assisti-las na sustentação e na consolidação da sua identidade católica também no confronto com as autoridades civis. Isto será obtido mais adequadamente, criando e mantendo relações estreitas, pessoais e pastorais, entre a Universidade e as Autoridades eclesiásticas, relações caracterizadas por confiança recíproca, colaboração e leal diálogo contínuo.

Embora não entrem diretamente no governo interno da Universidade, os Bispos “não devem ser considerados agentes externos, mas participantes da vida da Universidade Católica. (I, no. 28).

O Código de Direito Canônico prescreve que “Cabe à autoridade competente, de acordo com os estatutos, o dever de providenciar que nas universidades católicas sejam nomeados professores que sobressaiam, não só pela idoneidade científica e pedagógica, como também pela integridade da doutrina e probidade da vida, de modo que, faltando-lhe esses requisitos, sejam afastados do cargo, observando-se o modo de proceder determinado nos estatutos. As Conferências dos Bispos e os Bispos diocesanos interessados têm o dever e o direito de supervisionar para que nessas universidades se observem fielmente os princípios da doutrina católica.” (Cânon 810, pars. 1-2).

A Sagrada Congregação para a Educação Católica, por sua vez, afirma “que a natureza da revelação judeu-cristã é absolutamente incompatível com qualquer relativismo epistemológico, moral ou metafísico, com qualquer materialismo, panteísmo, imanentismo, subjetivismo ou ateísmo”. (O Ensino da Filosofia nos Seminários, p. 12).

É essencial à identidade institucional da Universidade católica o seu vínculo com a Igreja, originando desta relação a sua fidelidade à “mensagem cristã, o reconhecimento e a adesão à autoridade magisterial da Igreja em matéria de fé e moral”.

15. Os membros católicos da comunidade universitária são convocados à “fidelidade pessoal à Igreja, com tudo quanto isto comporta” e dos “membros não católicos, enfim, espera-se o respeito do caráter católico da instituição na qual prestam serviço, enquanto a Universidade, por seu lado, respeitará a sua liberdade religiosa.” A Igreja, porque aceita “a legítima autonomia da cultura humana e especialmente das ciências, reconhece a liberdade acadêmica de cada um dos estudiosos na disciplina da sua competência, de acordo com os princípios e os métodos da ciência, a que ela se refere, segundo as exigências da verdade e do bem comum.” (Ex Corde Ecclesiae, I, nos. 4, 27, 29).

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, no documento Diretrizes e normas para as Universidades Católicas segundo a Constituição apostólica “Ex Corde Ecclesiae” (Universidades Católicas), expressa que a Universidade católica constitui uma comunidade acadêmica que, com a inspiração na pessoa e na mensagem de Jesus Cristo e na fidelidade à Igreja, desenvolve refletida, sistemática e criticamente, o ensino, a pesquisa e a extensão e se consagra à evangelização e à formação integral de seus membros – alunos, professores e funcionários – bem como ao serviço qualificado do povo contribuindo para o aumento da cultura, a afirmação ética da solidariedade, a promoção da dignidade transcendente da pessoa humana e ajudando a Igreja em seu anúncio e serviço ao Reino de Deus. (Art. 4. Ex Corde Ecclesiae, I, nos. 5,12, 14, 15, 22-24, 30-32, 43, 48-49).

O documento da CNBB afirma que a Universidade católica tem como missão o serviço à humanidade e à Igreja e, para isto,

1. garanta, perene e institucionalmente, a mensagem de Cristo no universo científico e cultural, desenvolvendo o diálogo entre a razão e a fé, entre o Evangelho e a cultura;

2. contribua, conforme a própria identidade, para a solução dos graves problemas contemporâneos;

3. dedique-se, sem limites, à luz da inteligência e da Revelação, à investigação do universo e da sua relação essencial com Deus, verdade Suprema;

4. contribua para o aprofundamento do conhecimento e valor da pessoa humana;

5. esteja a serviço e ensino da verdade, fundamento da liberdade, justiça e dignidade humana;

6. crie condições para o diálogo ecumênico e inter-religioso. (Art. 5º.) As mesmas Diretrizes afirmam, ainda, que as universidades católicas devem;

7. distinguir-se pela excelência organizacional e pelo ensino, pesquisa e extensão, pela qualificação humana, profissional, acadêmica e religiosa da direção, professores e de outros cooperadores;

8. desenvolver um ambiente de amor fraterno e solidariedade, de mútuo respeito e de diálogo;

9. na sua organização e nas suas normas, garantir os meios para “expressão, preservação e promoção da identidade católica” (Art. 23.);

10. explicitar a identidade e os seus princípios essenciais em seus estatutos e que eles sejam publicados na comunidade universitária;

11. estudar a ética cristã em todas as áreas do ensino, em particular na profissional;

12. apresentar a Doutrina social da Igreja e tê-la como o referencial cristão, com os seus valores, para a análise da sociedade e da cultura modernas;

13. ter a Teologia presente, promovendo o diálogo entre fé e razão, e que haja, na Universidade, uma faculdade ou instituto de Teologia, ou, minimamente, disciplinas teológicas”. (CDC, cânon 811, pars. 1-2);

14. contratar os professores de disciplina teológica e afins com “titulação e qualificação acadêmicas equivalentes às exigidas dos demais professores da Universidade” e que “tenham o mandato do Bispo da diocese na qual está a sede jurídica da Universidade.” (Art. 37, CDC, cânon 812);

15. procurar caminhos para o acesso à educação superior dos menos favorecidos e promover a extensão universitária;

16. respeitar a liberdade de consciência e de religião dos membros da comunidade universitária;

17. exigir deles, entretanto, “que igualmente reconheçam e respeitem o caráter católico da Universidade, abstendo-se nela de qualquer atividade ou atitude, em oposição à doutrina, à moral e às diretrizes da Igreja” e que seja “o pessoal adequado e em sua maioria católico, capaz de garantir e promover a identidade da instituição.” (Art. 29, 30; Ex Corde Ecclesiae, II, art. 4, par. 4).

O documento da Congregação para a Educação Católica, Decreto de Reforma dos Estudos Eclesiásticos, afirma que, “Para chegar ao conhecimento rigoroso e coerente do homem, do mundo e de Deus, tal dimensão exige que o ensino da filosofia seja baseado no “patrimônio filosófico perenemente válido, que se desenvolve através da história e, ao mesmo tempo, seja aberto para acolher os contributos que as investigações filosóficas forneceram e continuam a fornecer. Entre aquelas verdades fundamentais, algumas possuem um caráter central e, particularmente atual: a capacidade de alcançar uma verdade objetiva e universal e um válido conhecimento metafísico; a unidade corpo-alma no homem; a dignidade da pessoa humana; as relações entre a natureza e a liberdade; a importância da lei natural e das “fontes da moralidade”, em especial do ato moral; a necessária conformidade da lei civil e da lei moral.” (no. 11; CDC, cânon 251).

O papa Francisco, referindo-se à educação e aos educadores católicos, declara:

1. Valor do diálogo na educação: (…) “Com efeito, as escolas e as Universidades católicas são frequentadas por numerosos estudantes não cristãos, ou até não crentes. Os institutos de educação católicos oferecem a todos uma proposta educacional que visa o desenvolvimento integral da pessoa e que corresponde ao direito de todos, de aceder ao saber e ao conhecimento. Mas igualmente são chamados a oferecer a todos – no pleno respeito pela liberdade de cada um e dos métodos próprios do ambiente escolar – a proposta cristã, ou seja, Jesus Cristo como sentido da vida, do cosmos e da História.” (…)

2. Preparação qualificada dos formadores: “Nas escolas católicas, o educador deve ser antes de tudo muito competente, qualificado e, ao mesmo tempo, rico de humanidade, capaz de permanecer no meio dos jovens com um estilo pedagógico, para promover o seu crescimento humano e espiritual. Os jovens têm necessidade de qualidade de ensino e igualmente de valores, não apenas enunciados, mas testemunhados. A coerência é um fator indispensável na educação dos jovens. Coerência! Não se pode fazer crescer, não se pode educar, sem coerência: coerência e testemunho. (…) Portanto, é preciso investir a fim de que professores e dirigentes possam manter alto o seu profissionalismo e também a sua fé e a força das suas motivações espirituais. E, ainda nesta formação permanente, tomo a liberdade de sugerir a necessidade de retiros e de Exercícios espirituais para os educadores. É preciso promover cursos sobre esta temática, mas também é necessário fazer cursos de Exercícios espirituais e retiros para rezar, pois a coerência é um esforço, mas principalmente uma dádiva e uma graça. E devemos pedi-la! (…).”

3. O areópago das culturas atuais: “O cinquentenário da Declaração conciliar, no 25º. Aniversário da Ex Corde Ecclesiae e a atualização da Sapientia christiana impelem-nos a meditar seriamente sobre as numerosas instituições de formação espalhadas pelo mundo inteiro e sobre a sua responsabilidade de manifestar uma presença viva do Evangelho nos campos da educação, da ciência e da cultura. É necessário que as instituições acadêmicas católicas não se isolem do mundo, mas saibam entrar intrepidamente no areópago das culturas contemporâneas e estabelecer um diálogo, conscientes do dom que podem oferecer a todos.” (Discurso na Plenária da Congregação para a Educação Católica, 13/2/2014). O papa Francisco, aos membros do Parlamento europeu de Estrasburgo, afirma que Ao lado da família, temos as instituições educativas: escolas e universidades. A educação não se pode limitar a fornecer um conjunto de conhecimentos técnicos, mas deve favorecer o processo mais complexo do crescimento da pessoa humana na sua totalidade. Os jovens de hoje pedem para ter uma formação adequada e completa, a fim de olharem o futuro com esperança e não com desilusão. (Discurso ao Parlamento europeu, 25/11/2015).

O Documento de Aparecida afirma que 1. “A Escola católica é chamada a uma profunda renovação. Devemos resgatar a identidade católica de nossos centros educativos por meio de um impulso missionário corajoso e audaz, de modo que chegue a ser uma opção profética plasmada em uma pastoral participativa. Tais projetos devem promover a formação integral da pessoa, tendo seu fundamento em Cristo, com identidade eclesial e cultural, e com excelência acadêmica. Além disso, há de gerar solidariedade e caridade para com os mais pobres. O acompanhamento dos processos educativos, a participação dos pais de família neles e a formação de docentes, são tarefas prioritárias da pastoral educativa. (no. 337) 2. “As atividades fundamentais de uma universidade católica deverão vincular-se e harmonizar-se com a missão evangelizadora da Igreja. Elas se realizam através de uma pesquisa realizada à luz da mensagem cristã, que colocam os novos descobrimentos humanos a serviço das pessoas e da sociedade”; 3. As universidades católicas possuem “responsabilidades evangélicas” que são, entre outras, “o diálogo entre fé e razão, fé e cultura, e a formação de professores, alunos e pessoal administrativo através da Doutrina Social e Moral da Igreja, para que sejam capazes de compromisso solidário com a dignidade humana, de serem solidários com a comunidade e de mostrarem profeticamente a novidade que representa o cristianismo na vida das sociedades latino-americanas e caribenhas. Para isso, é indispensável que se cuide do perfil humano, acadêmico e cristão dos que são os principais responsáveis pela pesquisa e docência.” (no. 342) 4.

“É necessária uma pastoral universitária que acompanha a vida e o caminhar de todos os membros da comunidade universitária, promovendo um encontro pessoal e comprometido com Jesus Cristo e múltiplas iniciativas solidárias e missionárias. Também se deve procurar uma presença próxima e dialogante com membros de outras universidades públicas e centros de estudo.” (no. 343).

O Código de Direito Canônico estabelece que “O Bispo Diocesano tenha grande cuidado pastoral com os estudantes, até mesmo criando uma paróquia, ou pelo menos mediante sacerdotes estavelmente indicados para isso; providencie que junto às universidades, mesmo não-católicas, haja centros universitários católicos que sejam de ajuda, sobretudo espiritual, à juventude.” (Cânon 813). O Código estabelece, ainda, que “As prescrições estabelecidas para as universidades aplicam-se, com igual razão, aos demais institutos de estudos superiores.”(Cânon 814).

O Departamento de Cultura e Educação do Conselho Episcopal Latino-americano apresenta um texto, cujo título é Ide e ensinai… A identidade e missão da escola católica diante dos desafios atuais à luz do Documento de Aparecida. A publicação é coordenada pelo Secretário Geral da Conferência Episcopal colombiana, dom Juan Vicente Córdoba Villota, bispo auxiliar de Bucaramanga. Dom Juan Córdoba declara que “O livro tem o objetivo de promover nos centros educacionais católicos autênticos discípulos missionários para reforçar e manter a identidade e a missão da escola católica”.

Observa-se que os documentos, que expressam a identidade e a missão da Universidade católica, têm, como pressuposto antropológico, a concepção do ser humano como pessoa. O conceito de pessoa, fundamentado na fé e na razão, exprime, necessariamente, uma concepção integral, includente e dialógica da criatura humana. A compreensão do ser humano como pessoa, entre outras referências, é essencial para a compreensão e a missão das universidades católicas e pode constituir, também, um ponto comum e orientador do diálogo interdisciplinar, dos projetos acadêmicos e administrativos da comunidade educacional.

Sinais de corrupção da identidade da Escola superior católica

Dado o que identifica, essencialmente, a Escola católica de nível superior, tendo-se em vista o bem para as pessoas vinculadas à escola e para a sociedade, deve-se observar alguns sinais, entre outros, que indicam a corrupção da Universidade, para se prevenir ou para se restaurar a identidade da instituição.

1. Pessoas, não qualificadas conforme a identidade e a missão da instituição, presentes em funções magisteriais, de coordenação, direção e administrativas. Estas pessoas, de forma mais ou menos consciente e, por vezes, verdadeiros militantes, transformam a natureza das instituições católicas de ensino em instrumentos adversos à fé e à moral da Igreja. Por outro lado, ao contratado e aos alunos e alunas não se expõem qual é a missão e a identidade da Escola e o compromisso que elas incidem sobre as pessoas vinculadas à instituição.

2. Ideologias infiltradas nas aulas, reuniões, nos eventos, nos diversos ambientes da escola por agentes travestidos de educadores que são, na verdade, manipuladores de consciências a serviço de uma causa. São pessoas, por vezes, também já instrumentalizadas e conduzidas por uma mentalidade processada no ambiente de que procedem. Propagação da ditadura do relativismo, na expressão do papa Bento XVI. Relativismos, no plural, como o gnosiológico, o ético, o religioso com repercussões, especialmente, na consciência dos valores da pessoa humana e da pessoa como valor quanto à sua constituição, dignidade, origem e fim último. Manifestam-se a dissociação e o conflito entre “verdade” e “liberdade”. O papa São João Paulo II afirma que, “Uma vez que se privou o homem da verdade, é pura ilusão pretender torná-lo livre. Verdade e liberdade, com efeito, ou caminham juntas, ou juntas miseravelmente perecem.” (Fides et ratio, 91). A confusão sobre a identidade do ser humano reflete-se, inevitavelmente, nas concepções dos direitos e deveres humanos. O que é “humano” para ser direito e dever? E os direitos de Deus? O papa Francisco, ao membros do Conselho da Europa, declara que Além disso, é preciso ter presente que, sem esta busca da verdade, cada um torna-se a medida de si mesmo e do seu próprio agir, abrindo a estrada à afirmação subjetivista dos direitos, de tal modo que o conceito de direito humano, que de per si tem valência universal, é substituído pela ideia de direito individualista.(Discurso ao Conselho da Europa, 25/11/2014).

3. Planos, projetos, ementas, referências e eventos conflitam com o projeto educativo da Intituição católica de ensino. As disciplinas e a prática educativa se opõem à identidade dos respectivos cursos se eles, nos seus objetivos, conteúdos e métodos, são coerentes com a identidade da instituição que, por sua vez, corresponde ao que a Igreja convoca quanto à educação integral da pessoa humana. A educação integral compreende a síntese dinâmica entre a fé e a razão. Esta síntese conduz à reflexão sobre fé e cultura que abrange, entre outros temas, fé e política, fé e ciência, fé e técnica, fé e arte. Não basta, entretanto, observar somente o que está expresso em planos e projetos. A experiência existencial humana cotidiana é que revela, mais profunda e extensamente, a realidade da instituição.

4. Presença de pseudofilosofias e as filo ideologias, disfarçadas de filosofia, reducionismos deformadores de toda ordem como o imanentismo, o gnosticismo, o fideísmo, o individualismo, o coletivismo, o tecnicismo, o cientificismo, incluindo o positivismo, o culturalismo, o psicologismo, o historicismo, o sociologismo, o economicismo. O papa Francisco declara que o gnosticismo é “uma fé fechada no subjetivismo (…), que enclausura a pessoa na imanência da sua própria razão ou dos seus sentimentos, e o neo pelagianismo autorreferencial e prometeico de quem, no fundo, só confia nas próprias forças” de diferentes tipos. (Evangelii Gaudium, 94). Confundem-se autonomia com soberania, secularização com secularismo, pluralidade com pluralismo. Não se conhece a diferença entre inovar por aprofundamento e por substituição, o que pode levar a tragédias pessoais e sociais.

5. Há agravantes quando a corrupção da identidade da escola superior católica chega aos cursos de filosofia e teologia. A desconsideração e, inclusive, a constestação das orientações e normas da Igreja, com fundamentos na razão e na fé, comprometem a qualidade da formação do futuro clero e dos discentes não seminaristas. Elementos, entre outros, imanentista, relativista, subjetivista, empirista, agnóstico, gnóstico, ateu ou idólatra e niilista são introduzidos com sofismas e linguagem sedutora. O papa São João Paulo Paulo II afirma que “O niilismo, antes mesmo de estar em contraste com as exigências e os conteúdos próprios da palavra de Deus, é negação da humanidade do homem e também de sua identidade. De fato, é preciso ter em conta que olvidar o ser implica inevitavelmente a perda de contato com a verdade objetiva e, consequentemente, com o fundamento sobre o qual se apóia a dignidade do homem.” (Fides et ratio, no. 91). No mesmo documento, ele afirma que “Esta (a fé), enquanto virtude teologal, liberta a razão da presunção – uma típica tentação a que os filósofos facilmente estão sujeitos.” (no.76). Confundem-se pensar e conhecer. As questões de sentido último da vida humana e do mundo passam para um segundo plano ou são ignoradas ou negadas. A razão humana se reduz à experimentação e ao fenômeno. Ela não vai do parecer ao ser. A filosofia do ser é a matriz filosófica estabelecida pelo magistério. (Fides et ratio, no. 76).

6. Não se tem consciência da intrínseca relação entre a filosofia e a teologia (Fides et ratio, nos.75-8), o que pode resultar no comprometimento das vocações e, inclusive, na formação discente em geral. Propagam-se o fideísmo, que pode levar para os fundamentalismos de todo tipo, inclusive, o político, e os relativismos noético e ético. Não se promovem o discernimento e a consciência entre a falsidade e a verdade, na abordagem das diversas correntes do pensamento filosófico e de seus representantes, Afinal, conforme o subjetivismo, tudo não é uma questão de opinião, de ponto de vista?

7. A unidade, a verdade, o bem e a beleza, constituintes e expressões do ser, não são os fundamentos das decisões e procedimentos, particularmente da ação magisterial. O papa São João Paulo II refere-se, na Fides et ratio, trezentas e cinquenta vezes à verdade. São Paulo declara que “vai chegar um tempo em os homens não suportarão a sã doutrina, mas, sentido cócegas nos ouvidos, reunirão em volta de si mestres conforme suas paixões. Deixando de ouvir a verdade, eles se voltarão para fábulas.” (2 Tm 4,7).

8. Resistências e dificuldades quanto ao diálogo interdisciplinar. Subestimação e exclusão das disciplinas e iniciativas que refletem sobre os valores fundamentais e de sentido da existência humana, desencaminhando-se para utilitarismos e hedonismos. Os discentes chegam egoístas por limites e inclinação pessoais e saem, em geral, egocêntricos e egoístas por inclinação e princípio.

9. Procedimentos antipersonalistas, nos processos de ensino e aprendizagem, que contribuem para dificultar o desenvolvimento do ser pessoal dos discentes, da sua consciência quanto aos valores da existência, de sua forma de pensar e agir. Os alunos e alunas são conformados a uma sociedade em retrocesso civilizatório, em vários aspectos, e são contestados quanto às próprias convicções verdadeiramente axiológicas e sofrem a perda da consciência de valores que trouxeram de sua educação, inclusive, familiar.

10. Formação condicionada pelo mercado e reduzida à futura profissão. Os alunos e alunas são considerados, ainda que inconscientemente, mais como produtos do que pessoas em processo educacional. O formando não desenvolve uma consciência discernidora da realidade e do valor do mundo, do homem e de Deus. Concepções antropológicas individualista e coletivista, como referências, resultam no obscurecimento e confusão da consciência quanto aos valores éticos, políticos que, de fato, visem o bem integral e comum, o que compromete a realização pessoal, social e profissional dos alunos e alunas, inclusive de professores. O papa Francisco afirma que “A crise financeira que atravessamos nos faz esquecer que, na sua origem, há uma crise antropológica profunda: a negação da primazia do ser humano. Criamos novos ídolos.” (Evangelii Gaudium, no. 55).

11. Qualidade do ensino e aprendizagem aquém do que deveria e poderia ser. Facilitação aos discentes para se manter e ampliar a quantidade dos alunos. A qualidade sobrepõe-se à qualidade.

12. Inexistência de uma pastoral abrangente e profunda que trabalhe com a fé e a razão, inclusive com os docentes, e ausência do serviço religioso católico a todos os membros da comunidade educativa, particularmente aos discentes. Ausência de sinais da fé católica. Dificuldades e distorções do verdadeiro diálogo e anúncio ecumênicos e inter-religiosos.

13. A verdadeira motivação é substituída pelo interesse e temor, o que leva à dissimulação, ao fingimento, a narcisismos. Ambiente em que se encontram o carreirismo, a competição por cargos e status, ameaças ostensivas ou veladas, injustiças nos relacionamentos e nos procedimentos administrativos, assédio moral, feudos, nepotismo, relacionamentos afetivos e sexuais ontoantropoaxiologicamente impróprios entre as pessoas do ambiente escolar. Além de outras consequências, processam-se uma corrupção da consciência ética das pessoas, enfermidades físicas e psíquicas, progressivas frustrações pessoal e profissional e esterilização do processo educativo verdadeiro e integral.

14. Não investimento na formação permanente dos agentes pedagógicos, especialmente dos docentes, conforme a fé e a razão, incluindo o aperfeiçoamento profissional. A razão, entretanto, compreendida de forma integral e, não, setorizada, reducionista, e a fé também integral, portanto, católica. Hostilidades, resistências explícitas ou disfarçadas dos destinatários dessa formação.

15. Contratuação de docentes com menor titulação para se reduzirem gastos. Agentes sem liderança e autoritários que se identificam por controle e cobrança. Procedimentos de admissão e demissão incompatíveis com as características católicas fundamentais da instituição. O tempo e o exercício pedagógicos prejudicados por autoritarismo e excessos burocráticos. Ao inverso, desleixo administrativo. Estruturas e meios são, indevidamente, reduzidos. Inconsciência de que a gestão e a administração devem estar a serviço dos objetivos da identidade da escola católica. Redução de custos a todo custo. O Prefeito da Congregação para os Consagrados, Cardeal João Braz Aviz, declara que “(…) Além disso, é necessário que determinados critérios de administração evoluam dentro da Igreja, porque a gestão não pode ser do tipo capitalista, mas evangélica.” (Entrevista, L’osservatore Romano).

16. As pessoas conscientes e que mantêm a fidelidade à identidade da instituição escolar católica, por vezes já minoria, sofrem variadas formas de procedimentos coativos e, inclusive, assédio moral. O espaço para a pessoa cristã fica cada vez mais reduzido. À título de “não impor”, contestam-se e até se proíbem o “expor” e o “propor” identificadores da instituição. Quem pensa e age conforme a identidade e missão da escola é acuado e considerado “diferente”. A sua avaliação se pauta, prioritária e negativamente, por sua convicção e adesão à identidade.

17. Inconsciência, debilidade, omissão, incompetência, conivência ou cumplicidade daquelas pessoas, inclusive do ministério ordenado, que deveriam, por princípio, direito e obrigação, garantir e promover a identidade da instituição escolar católica.

18. Desconsideração e insensibilidade às expectativas das famílias dos discentes.
Qual a realidade atual das escolas católicas, a começar dos anos iniciais? O que corresponde, de fato, aos seus princípios e normas? O que fazer? Constituir grupos e associações que contribuam para que as nossas Escolas católicas, particularmente as de ensino superior, recuperem, quando for o caso, e aprofundem a consciência de sua identidade e realizem a missão para a qual são fundadas?

O agir não se motive pela convenção, conveniência, coerção e não seja conforme a letra sem espírito. As ações procedam da convicção com fundamento na fé e na razão, “como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade sobre si próprio”. (Fides et ratio, Preâmbulo). É Ele quem doa, aumenta a fé e ilumina a razão.

REFERÊNCIAS

Cardeal João Braz Aviz. L’osservatore Romano, 7-14/8/ 2014, nos. 32-33, p. 6

CÓDIGO DE DIREITO CANÔNICO, trad. Oficial da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, São Paulo: Loyola, 1983

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Diretrizes e Normas para as Universidades Católicas segundo a constituição apostólica “Ex Corde Ecclesiae” – Decreto Geral. Documentos da CNBB 64, São Paulo: Ed. Paulinas, 2000

CONGREGAÇÃO PARA A EDUCAÇÃO CATÓLICA (Dos seminários e dos Institutos de estudos). Decreto de reforma dos estudos eclesiásticos de filosofia. Documentos da Igreja. CNBB, 2011

O Ensino da Filosofia nos Seminários, Roma, Typis Polyglotti Vaticanis, 1979.

CONSELHO EPISCOPAL LATINO-AMERICANO. Documento de Aparecida- Texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe, 2ª. ed., Brasília: CNBB; São Paulo: Paulus, Paulinas, 2007 Gravissimum Educationis. Compêndio do Vaticano II – Constituições, decretos, declarações, 7ª. ed., Petrópolis (RJ): Vozes, 1968

João Paulo II. Fides et ratio. São Paulo: Loyola, 1998

Constituição apostólica sobre as Universidades Católicas (Ex Corde Ecclesiae), São Paulo: Paulinas, 1990

Alocução ao Congresso Internacional sobre as Universidades Católicas, 25 de abril de 1989, n. 3 AAS (1989), p. 1218, in Constituição apostólica sobre as universidades católicas, I, 7

Papa Francisco. Evangelii Gaudium – A alegria do Evangelho. Documentos pontifícios 17, Ed. CNBB, 2013
Discurso ao Parlamento europeu, L’Osservatore Romano, no. 48, 27/11/2015, p. 11

Discurso ao Conselho da Europa, L’Osservatore Romano, no. 48, 27/11/2015, p. 12

Prof. Dr. Paulo Cesar da Silva
Graduação em Letras, Filosofia, Teologia, mestrado e doutorado em Filosofia. Livros, capítulos e artigos publicados. Professor universitário.

Fonte: Prof Felipe Aquino

Um terço dos americanos adultos acredita em algum tipo de poder superior, mas não em Deus conforme descrito na Bíblia (Foto: Pew Research center)

Uma nova pesquisa da Pew Research descobriu que um terço dos americanos — tanto aqueles que dizem acreditar como aqueles que dizem não acreditar em Deus — crê em um poder superior ou força espiritual.

Este grupo interpreta a transcendência de uma maneira mais flexível. Alguns chamam de Deus, outros não.

A pesquisa ouviu 4.729 entrevistados e foi feita on-line em dezembro. Ela apresenta alguns insights sobre a diversidade das crenças dos Estados Unidos. E como pesquisas anteriores sobre a década passada, sugere o número de americanos que creem em Deus está declinando lentamente.

“Uma das questões-chave que motivou a pesquisa foi obter um estudo mais detalhado sobre aqueles que dizem não acreditar em Deus” disse Gregory Smith, diretor de pesquisa associado da Pew. “As pessoas que simplesmente respondem ‘não’ quando perguntadas se acreditam em Deus, rejeitam também a crença numa força superior?”

Na pesquisa, quem respondeu que não acredita em Deus foi perguntado se acredita em “algum outro poder superior ou força espiritual do universo.”

Para ser exato, a maioria, — 56% — , disse acreditar no convencional benevolente, onisciente, todo-poderoso Deus da Bíblia.

Depois, há os descrentes convictos: cerca de 10% disse não acreditar no Deus da Bíblia ou num poder superior.

Mas entre os chamados “nenhuns” — uma categoria ampla de ateus, agnósticos e aqueles que respondem “nenhuma das respostas acima” em perguntas sobre religião — um total de 72% acredita num poder superior de algum tipo.

Duas pesquisas anteriores do Pew descobriram que a crença em Deus está caindo. Um estudo de 2007 indicou que a crença e Deus chegava a 92%; até 2014, o percentual caiu para 89%. Esta pesquisa mais recente, embora metodologicamente diferente — foi uma enquete on-line em oposição a uma pesquisa por telefone — aponta 80%.

A crença em Deus conforme descrito na Bíblia é mais alta entre os cristãos — 80% segundo a pesquisa. Os evangélicos e protestantes negros tinham as maiores taxas de crença em um Deus da Bíblia — 91 e 92% respectivamente. Por outro lado, apenas um terço dos judeus diz acreditar. (A pesquisa não incluiu suficiente entrevistados muçulmanos ou pessoas de outras religiões).

A pesquisa também mostrou que:

– A crença no Deus da Bíblia muda com a idade.

– Aqueles como menos de 50 anos veem Deus menos potente e menos envolvido nos assuntos terrenos do que os americanos mais velhos.

– Entre os graduados, apenas 45% acredita no Deus da Bíblia.

A visão de Deus também tende a diferir por raça e partido político. 70% dos Republicanos acredita no Deus bíblico, e dos Democratas, 45%. Mas entre os Democratas, existem grandes diferenças nas exibições de Deus quando se trata de uma corrida; 70% dos Democratas não-brancos acreditam no Deus da Bíblia — número comparável ao dos Republicanos.

A crença num poder superior foi encontrada em todos os segmentos da população que não possui uma religião. Em geral, 70% dos ‘nenhuns’ disse que acredita em alguma força espiritual. Entre agnósticos, 62%.

Mesmo entre os ateus, uma em cada cinco (ou 18%) disse acreditar num poder superior.

Saber por que tantos agnósticos, e até mesmo ateus, acreditam em um poder superior é uma questão digna de debate.

Ryan Cragun, um sociólogo da Universidade de Tampa que estuda os sem-religião, disse que algumas pessoas podem dizer que eles acreditam em um poder superior para evitar o estigma social.

“Em que medida estão dizendo isso para evitar algum prejuízo é um questionamento interessante,” disse Cragun. Ele apontou para estudos que sugerem que homens brancos heterossexuais são os mais prováveis de se dizerem ateus porque eles têm um certo privilégio social que os outros não possuem e, portanto, têm menos a perder ao fazer tal declaração.

Outros dizem que a categoria de crença com suas opções binárias — sim ou não — não dá conta da diversidade da experiência humana. A Transcendência, por exemplo, pode ser uma experiência sobrenatural, mas também natural, disse Elizabeth Drescher, professora de estudos religiosos na Universidade de Santa Clara e autora de “Choosing Our Religion: The Spiritual Lives of America’s Nones.”

Algumas pessoas podem ter fé na força que anima a vida ou no espírito humano, disse ela.

“Há muitas pessoas que experimentam coisas em suas vidas que são misteriosas ou inexplicáveis, mesmo sem acreditarem em nada, mas que, no entanto, entendem que não sabemos tudo,” disse Drescher. “A realidade da experiência das pessoas é muito mais complexa e matizada.”

A margem de erro da pesquisa é de 2,3 pontos percentuais para mais ou para menos.

Fonte: Religion News Service, via IHU

Após uma audiência interminável e absurda, outra decisão tenta bradar “fim” para o menino-réu, cujo crime é lutar para respirar

É difícil dizer palavras comedidas e sóbrias diante do que parece ter sido o (enésimo) veredito de morte sentenciado pelo juiz Hayden, após uma torturantemente interminável audiência que se arrastou a portas fechadas enquanto, no hospital, o pequeno grande guerreiro Alfie Evans lutava pela vida – sem os aparelhos, desconectados ainda na noite anterior, e sem as carícias dos pais, obrigados mais uma vez a se ausentarem para enfrentar um doentio ritual judiciário que, a essa altura, parece apenas determinado a fazê-los sofrer, num edifício cercado de tantos policiais que até pareceria que ali se julgavam terroristas ou criminosos de guerra.

Uma audiência surreal

Além de virem ao caso com urgência sérias considerações sobre um sistema legal que permite que o mesmo juiz se pronuncie tantas vezes e sob tantas contestações sobre o mesmo caso, é altamente questionável, de novo, o “embasamento” da sentença de morte teimosamente mantida pelo juiz Hayden.

Não tendo ainda sido disponibilizado o texto oficial da sentença, as informações deste artigo coletam dados veiculados por vários meios informativos britânicos e italianos, em especial os publicados por Josh Halliday, correspondente do jornal The Guardian em Manchester, cidade onde aconteceu a audiência de hoje.

Quando Paul Diamond, advogado da família Evans, pediu a autorização para retirar Alfie do hospital afirmando que isto seria “simplesmente uma demonstração de humanidade e bom senso“, o juiz o acusou de usar uma linguagem que, segundo ele, é “uma ridícula irracionalidade emocional” (!)

Não contente, Hayden ainda declarou não querer “que o tribunal seja usado como vitrine para banalidades e palavrórios, mas sim para uma apresentação adequada” em nome da família de Alfie.

O juiz também usou a expressão “malign hand” (“mão maligna“) para (des)qualificar o estudante de direito Pavel Stroilov, que teria aconselhado Tom Evans a processar médicos do hospital Alder Hey por tentativa de homicídio. Como se fosse advogado do hospital em vez de juiz neutro e imparcial, Hayden afirmou que a instituição tem oferecido a Alfie nada menos que “world class care“, ou seja, “cuidados de primeiro mundo“.

                                                                                                                           O juiz Hayden 

Depois disto, o advogado do hospital afirmou que os médicos teriam comunicado aos pais de Alfie, ontem à tarde, que o bebê poderia sobreviver “minutos, horas ou mesmo dias” após a remoção do suporte vital, quando o fato verdadeiro é que os médicos pretendiam aplicar-lhe Fentolyn e só não o fizeram porque Thomas Evans, o pai herói, levantou a voz para impedi-los de assassinar o pequeno Alfie por overdose. “A eutanásia“, advertiu o prudente e jovem pai de 21 anos, “é ilegal neste país“.

Fatos e versões

Ainda a respeito de fatos e versões sobre o que realmente aconteceu em torno àquele quarto de hospital nesta madrugada e nesta manhã, é relevante – e assustador – observar questionamentos e perplexidades, em meio ao fluxo desencontrado de notícias, sobre a suposta ação do juiz Hayden no começo deste dia para mandar retirar da internet as declarações em que Tom, falando à imprensa, contou ter conversado de coração aberto com os médicos, na madrugada, e ouvido deles próprios a seguinte admissão: “Tom estava certo; Tom tinha sempre estado certo“. Obviamente, se Tom estava certo, o juiz estava errado.

Voltando à sentença desta tarde: é também chamativo que o juiz Hayden tenha descartado a transferência de Alfie para Roma, quando, ao mesmo tempo, pediu que o hospital considerasse autorizar os pais a levarem o bebê para casa. Ora, se for reconhecido aos pais, finalmente, o direito óbvio de retirar o filho do hospital, o que exatamente os impediria de levá-lo a outro hospital, no lugar que bem entendessem, fosse em Roma ou em qualquer outra cidade? Eles poderão levar Alfie para casa, mas estarão proibidos de levá-lo a um hospital?

Hospital e juiz ainda tiveram tempo de criticar, durante a audiência, algumas pessoas do entorno da família Evans que, segundo eles, seriam responsáveis ​​por “alimentar falsas esperanças“. O juiz chegou a referir-se a uma dessas pessoas como “um jovenzinho fanático e iludido“. Estes, acaso, serão termos técnicos do jargão jurídico? Não era este juiz quem estava acusando o advogado dos Evans de “ridícula irracionalidade emocional“?

Vitimismo e subjetivismo médico

Falando em irracionalidade, um médico da equipe que “tratou” de Alfie durante esta noite (e as aspas são imprescindíveis) informou ao tribunal que o hospital só poderia liberar o bebê para ir para casa em no mínimo 3 a 5 dias, mas que a “hostilidade para com os médicos” torna isso “impossível no momento“. O doutor ainda agregou que “é de partir o coração que precisemos justificar o fato de querer o melhor para a família de Alfie” (!)

Para um juiz que acusou o advogado dos Evans de “ridícula irracionalidade emocional“, acaso essas declarações do médico são exemplo de linguagem científica, objetiva, a ser aceita como informação técnica?

O médico declarou que a equipe está “com medo” da agressividade contra eles. Estamos falando dos médicos de um hospital em que pelo menos 40 policiais estiveram de guarda só na madrugada de ontem, enquanto Alfie lutava pela vida respirando sozinho depois que um juiz decretou que os seus pais não podiam impedir os médicos de lhe desconectarem os aparelhos de ventilação artificial! E são os médicos os que estão com medo?

O caso é que, sob intensa pressão político-diplomática, sob o escrutínio internacional e espumando de raiva, o juiz se revelou assustadoramente carente de embasamento técnico e até de formas equilibradas de se referir às pessoas envolvidas no drama que ele é pago para julgar com imparcialidade: ao mesmo tempo em que tentou ridicularizar os jovens pais, os seus familiares e o seu advogado ao acusá-los de “irracionalidade emocional” e de “ilusão fanática“, acatou um discurso puramente vitimista e subjetivo de um médico que deveria ter argumentado com informações objetivas sobre o real quadro de Alfie.

De volta ao mundo real e brutal do hospital

Enquanto esses mesmos “doutores” procuram segurar o bebê no hospital o tempo necessário para que ele morra, quem teve de limpar o catarro de Alfie nesta madrugada foram os seus próprios pais – e não os enfermeiros e enfermeiras da instituição que parece esmerar-se muito mais em enredos jurídicos do que em cumprir a sua missão de salvar vidas humanas. Mais chocante: Tom declarou que foram ele e Kate que tiveram de fazer respiração boca-a-boca em Alfie quando os seus lábios ficaram azuis após a extubação, e não as enfermeiras e enfermeiros do hospital.

Ao encaminhar para a nossa redação as informações usadas nesta matéria, o enviado especial de Aleteia Itália à Inglaterra, Giovanni Marcotulio, testemunhou:

“Enquanto escrevo, estão atrás de mim os tios e os avós de Alfie. Eles tentam matar a ansiedade fazendo o esforço descomunal de sorrir em silêncio. São pessoas simples e boas”.

São o tipo de pessoa que o juiz Hayden define como “fanáticas e iludidas”.

Aleteia

A batalha pela vida prossegue hoje: se a entubação foi desconectada como a “justiça” havia decretado, o que mais impede a transferência para Roma?

A “justiça” britânica se reconfirmou chocantemente, irracionalmente e teimosamente incomovível diante de todas as argumentações lógicas a respeito dos legítimos direitos de Alfie Evans e dos seus pais, Tom e Kate, tanto no sentido de não os impedir de procurarem um diagnóstico mais objetivo em outra instituição hospitalar quanto no sentido de não atropelar a sua liberdade supostamente garantida de transferirem o próprio filho para o hospital que bem entendessem.

Negando todos os recursos e mostrando-se endurecida também diante dos extraordinários esforços diplomáticos do Vaticano e da Itália, a “justiça” britânica, revelando-se digna do totalitarismo soviético, decretou o imediato desligamento dos aparelhos que ajudavam a manter vivo o bebê de 2 anos em Liverpool.

Ontem à noite, às 22h30 de Londres (18h30 de Brasília), os aparelhos foram desconectados.

MAS…
Alfie Evans de olhos abertos

Os seríssimos profissionais do hospital pediátrico inglês, a cuja palavra a “justiça” do país havia praticamente atribuído caráter de revelação divina, tinham profetizado que Alfie sobreviveria no máximo algumas dezenas de minutos a partir do desligamento do suporte vital.

Alfie sobreviveu a noite inteira sem os aparelhos. Alfie continua vivo até agora!
Seu bravo pai, Thomas, demonstrando da altura dos seus 21 anos de idade um grau de maturidade, hombridade e firmeza com que a maioria dos médicos e juízes envolvidos nesta sanha assassina parecem jamais ter sonhado na vida, peitou mais uma vez a equipe do hospital e a proibiu de aplicar ao filho as drogas que deveriam sedá-lo. A respeito de uma delas, o Fentanyl, Tom trovejou:

“Usam isso para os condenados à morte!”

E deixou bem claro, com toda a bravura de um pai que já desafiou a tudo e a todos para defender o seu filho:

“Vocês não vão drogar o meu filho até a morte. Isto é ilegal no Reino Unido”.

Tom conseguiu. Alfie não foi drogado e, por isso mesmo, não foi morto.

Alfie está vivo e seus pais terão hoje uma enésima audiência com a “justiça” britânica às 15h30 de Londres (11h30 de Brasília). Eles vão voltar a repetir o óbvio até que aconteça o milagre do entendimento: o bebê está vivo, está respirando sem estar entubado e tem direito a pelo menos receber hidratação e oxigênio.

Será possível que até isto vai ser negado pela “justiça” britânica, esta sim doente gravíssima de ideologia do descarte?

Continuemos orando por Alfie e pelos seus pais incansáveis. Oremos pela mente e pelo coração das autoridades envolvidas. Continuemos suplicando o milagre.

Fonte: Aleteia

Entenda o caso do bebê que esteve no centro de uma luta entre família e hospital

Quase dez meses após a morte de Charlie Gard, um bebê britânico com uma doença degenerativa que esteve no centro de uma batalha judicial entre seus pais e o hospital em que estava internado, a história se repete com Alfie Evans, de quase dois anos de idade, e seus pais Tom Evans e Kate James. A custódia do bebê, que está em estado semivegetativo, é objeto de disputa entre os pais e o Hospital Pediátrico Alder Hey, em um caso que está tomando grandes proporções e recebeu nos últimos dias a intervenção do governo italiano e do Papa Francisco.

O que se sabe sobre o estado de saúde de Alfie é que ele tem uma condição neurológica degenerativa. O diagnóstico preciso não é conhecido, mas o bebê já sofreu um dano neurológico severo e irreparável, que ainda prossegue. Alguns especialistas acreditam que ele tenha a mesma condição mitocondrial que Charlie Gard tinha – uma doença rara sem cura conhecida que provoca progressiva degeneração neuronal e enfraquecimento muscular.

A equipe médica do hospital considera que qualquer tratamento será “fútil” e “inumano”, devido ao fato de que os exames mostraram uma “degradação catastrófica do tecido neuronal”. Os pais, porém, lutaram em todas as instâncias do Judiciário para que o suporte artificial à vida de Alfie não fosse descontinuado e o bebê pudesse ser transferido para outro hospital, na esperança de ter sua condição diagnosticada com exatidão. Entenda como o caso de Alfie se desenrolou:

Maio de 2016

Alfie nasceu em 9 de maio de 2016. Em seus primeiros sete meses de vida, ele parecia ter dificuldades em seu desenvolvimento. Quando os seus pais perceberam que ele fazia movimentos parecidos com convulsões, procuraram os médicos, mas apenas ouviram que Alfie teria um desenvolvimento mais tardio.

Dezembro de 2016

Alfie foi internado no Hospital Pediátrico Alder Hey, em Liverpool, depois de uma infecção no peito que lhe causou convulsões. Sua respiração passou a ser mantida por aparelhos. Alfie superou em seguida a infecção no peito e voltou a respirar sozinho. Ele teve, porém, uma nova infecção e precisou novamente de ventilação artificial.

Junho de 2017

Na efervescência do caso de Charlie Gard, Tom Evans contou a um jornal de Liverpool que temia que o mesmo acontecesse com Alfie e o hospital iniciasse uma batalha legal para desligar os aparelhos que mantêm o bebê vivo.

Dezembro de 2017

A equipe do hospital comunicou aos pais de Alfie que todas as opções se esgotaram e deixou clara a sua oposição à transferência do bebê para outro local. O hospital pediu à Alta Corte de Justiça permissão para desligar a ventilação artificial de Alfie.

1º de fevereiro de 2018

A Alta Corte abriu o caso e começou a ouvir médicos, advogados e os pais de Alfie.

20 de fevereiro

O juiz Anthony Hayden emitiu a decisão de que o suporte artificial à vida de Alfie não deve ser continuado, argumentando que isso corresponde ao “melhor interesse” do bebê.

6 de março

A Corte de Apelação recusou um recurso dos pais de Alfie, que decidiram então remeter o caso à Suprema Corte.

20 de março

A Suprema Corte afirmou que se recusa a ouvir o caso.

28 de março

O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos também recusou intervir no caso.

4 de abril

O Papa Francisco publicou um tuíte dizendo: “É minha sincera esperança que seja feito todo o possível para continuar acompanhando o pequeno Alfie Evans e que o profundo sofrimento de seus pais seja ouvido. Estou rezando por Alfie, por sua família e por todos os envolvidos”.

12 de abril

Depois de centenas de pessoas protestarem em frente ao hospital, a Corte de Apelação decidiu ouvir novamente o caso.

16 de abril

Os juízes da Corte de Apelação decidem novamente a favor da decisão do hospital. Tom Evans recorreu mais uma vez à Suprema Corte.

18 de abril

O Papa Francisco recebeu Tom Evans no Vaticano. Depois, na audiência geral costumeira das quartas-feiras na Praça de São Pedro, chamou a atenção para o caso do bebê. “Gostaria de repetir e confirmar, com força, que o único dono da vida, do início ao fim natural é Deus”, disse o pontífice. O Hospital Pediátrico Bambino Gesù, de Roma, que pertence ao Vaticano, reafirmou sua disponibilidade para receber Alfie.

No mesmo dia, a Conferência dos Bispos Católicos de Inglaterra e Gales publicou uma nota dizendo que reconhece a “integridade” de todos os envolvidos no caso. “O profissionalismo e o cuidado pela criança, severamente doente, mostrados pelo hospital precisam ser reconhecidos e afirmados”, disse o comunicado. “Com o Santo Padre, rezamos para que, com amor e realismo, tudo possa ser feito para acompanhar Alfie e seus pais em seu profundo sofrimento”.

20 de abril

A Suprema Corte britânica se posicionou em concordância com os médicos, rejeitando um recurso interposto pelos pais de Alfie. “O hospital deve ser livre para realizar aquilo que foi determinado como do melhor interesse de Alfie”, disse um comunicado dos três juízes que emitiram a decisão. No mesmo dia, os bispos do estado do Rio de Janeiro publicaram uma carta manifestando “incondicional apoio à família do pequeno Alfie Evans”.

22 de abril

Tom Evans enviou uma carta à rainha Elizabeth II, pedindo a sua intervenção no caso. Não houve resposta.

 23 de abril

A Corte Europeia dos Direitos Humanos se recusou novamente a intervir no caso. No mesmo dia, o governo italiano concedeu a cidadania de seu país a Alfie, na esperança de evitar a ventilação artificial e de transferi-lo para um hospital na Itália.

O papa voltou a tuitar sobre o caso. “Renovo meu apelo para que seja ouvido o sofrimento de seus pais e seja satisfeito seu desejo de tentar novas possibilidades de tratamento”, disse.

Por volta das 21:15 horas locais (17:15 no horário de Brasília), Alfie teve removida a ventilação artificial. Até o fechamento dessa matéria, ele ainda respirava sozinho.

Fonte: Sempre Família

Quando o padre estendeu a mão e tocou com ternura o rosto do menino, não consegui me controlar. E isso só se intensificou. Quando o Papa Francisco chamou o relutante Emanuele para perguntar baixinho onde estava seu amado pai depois da morte, eu chorava tanto que as outras pessoas na fila do Starbucks tiraram os olhos do celular. Eu pedi desculpas pela exposição, murmurando, e continuei vendo o resto das incríveis filmagens do Papa Francisco sendo pastoral: um bom pastor, com o menor cordeiro no colo, perto do coração. Emanuele queria saber: será que seu pai estava mesmo no céu, mesmo sendo descrente?

Por que eu chorava? Por que este videozinho de um senhor sendo simpático com um garotinho me tocou e tocou muitas outras pessoas tão profundamente? Acho que foi porque Francisco nos mostrou como arriscar ao simplesmente abraçar o mundo que sofre. Sem explicação, apenas amor. Assim é o amor em ação, ele fala conosco de uma forma que as palavras não conseguem. Francisco corta a distância entre o Papa e a criança, entre o crente e o incrédulo, e chega ao núcleo: somos humanos.

Francisco se recusa a não estar presente para um coração ferido.

Quando o Papa Francisco diz que “Deus é o único que diz quem vai para o céu”, ele evita se colocar acima de Deus ou idolatrar as nossas regras humanas e nossa compreensão limitada de Deus. Ele escolhe agir com base no que ele sabe de Deus, em vez de limitá-lo conjecturando sobre a vida após a morte. Sim, continua sendo verdade — de acordo com nosso melhor palpite e nossa tradição cuidadosamente pensada, com base no Evangelho e no consagrado Catecismo da Igreja Católica — que “os que morrerem na graça e na amizade de Deus e estiverem perfeitamente purificados, viverão para sempre com Cristo” (Nº 1023). E isso colocaria o pai de Emanuele, um ateu, fora da possibilidade de ir para o céu.

Mas “Deus é o único que pode dizer quem vai para o céu”. Não é o Papa, nem eu, nem você, mas Deus.

Assegurar a Emanuele que um Deus amoroso aceitaria seu pai no céu diz mais sobre Deus do que sobre o céu. A realidade é que não sabemos muita coisa sobre o céu. Mas sabemos muito sobre Deus. E espero que possamos concordar que Deus é amor. Não apenas porque encontramos essa afirmação de forma clara nas Escrituras, mas porque é assim que vivenciamos Deus em nossas vidas. E quase todas as especulações sobre a vida após a morte é estruturada pelo que pensamos sobre Deus. 

Estamos dispostos a deixar Deus ser Deus? E se acreditamos que Deus é amor, podemos seguir em frente e acreditar que Ele vai fazer a coisa certa. É muito difícil que o amor não seja amável. Sabemos se nossos entes queridos estão no céu? Lembre-se de que dizemos que são nossos entes queridos não só porque nós os amamos, mas porque Deus os amou primeiro e continua a amá-los. Então podemos continuar confiando no amor de Deus.

Às vezes é possível contrastar a verdade técnica da doutrina da Igreja com sua aplicação pastoral. Mesmo que o povo de Deus não possa lidar com a verdade, sendo melhor alimentado com banalidades fracas em termos do amor de Deus. E eu não acho que o Papa Francisco tenha feito isso com o jovem Emanuele. Ele não estava apenas sendo simpático, evitando dizer a um menino a verdade nua e crua de que seu pai não estava no céu. Não é assim que funciona.

Uma resposta pastoral é articular a doutrina da Igreja diante da vulnerabilidade humana. É destacar da doutrina os ingredientes básicos do amor e do acolhimento — na forma do convite permanente para seguir a Cristo em uma relação radical com o mundo. E isso nos move. Vemos nosso líder amando de uma forma que queremos amar, sendo vulnerável e confiando assim como queremos confiar. E se o Papa consegue resistir a incorporar o Deus Todo-Poderoso, será que nós não podemos tentar?

Jack Bentz, S.J., em artigo publicado pela revista América.

O filme “Paulo: Apóstolo de Cristo” foi aclamado por bispos de todo o Brasil durante a 56ª Assembleia Geral da CNBB, realizada de 11 a 20 de abril, em Aparecida (SP). A pré-estreia aconteceu no auditório da TV Aparecida. Em seção exclusiva, o episcopado teve a oportunidade de assistir o longa e se emocionar com a história. É o caso do bispo da diocese de Bom Jesus da Lapa (BA), dom João Santos Cardoso, que classificou o filme como “fantástico”.

“Eu considero que o filme fez uma interpretação dos escritos paulinos e também de fatos narrados pelos Atos dos Apóstolos. Ele retrata a prisão, num ambiente sombrio e vários outros momentos sombrios que mostram o contexto difícil numa época em que os cristãos eram trucidados, porém testemunhavam a fé e o amor. Depois, num ambiente de luz do filme, são os momentos de saída, que é Cristo”, afirmou o bispo.

Outros dois bispos concordaram que o longa é destinado tanto para cristãos, como para pessoas de outras religiões, ou até mesmo aos que não têm crença. Dom Eduardo Pinheiro, bispo de Jaboticabal (SP), afirmou que este “é um filme que não só os cristãos, mas todas as pessoas que têm uma noção do que significa entregar a própria vida por um ideal vão se sentir tocadas”.

“A vida de São Paulo toca a vida de cada um de nós. Diante dos sofrimentos dele e dos outros, num mundo em que quer mostrar a vida no imediato, esse filme acaba provocando em nós um pensamento naquilo também que vem depois da vida”, disse. “Se não há um ideal, um sonho, uma esperança na eternidade, o sofrimento e a vida não tem sentido. Acredito que esse filme pode ajudar muita gente”, complementou o bispo.

Dom Giuliano Frigeni, da diocese de Parintins (AM), também destacou que o longa vale para pessoas de várias crenças. “Eu acho que vale para cristãos, padres, bispos, ateus, agnósticos, porque o filme não descarta nenhuma pessoa, todas elas reagem segundo aquilo que acreditam. Seja o imperador, sejam os soldados a serviço do império, como os próprios cristãos que perderam suas casas, mas que conseguem descobrir o valor da vida com o testemunho de Paulo”.

Para o bispo foi genial Paulo ser representado já no fim da vida, mas ao mesmo tempo rever sua história, enquanto comunica suas experiências a Lucas, que por sua vez, não faz um papel apenas de escrivão, mas entra de vez na vida do apóstolo. “Agora quem ler o Evangelho de Lucas e o Atos dos Apóstolos, depois desse filme, lerá com um gosto e um proveito muito maior”, destaca dom Giuliano.

O filme

O longa retrata a história de Paulo, conhecido como um dos perseguidores de cristãos mais cruel de seu tempo. Mas, tudo muda quando ele tem um encontro com o próprio Jesus e, a partir desse momento, o jovem se torna um dos apóstolos mais influentes do cristianismo.

CNBB

O Papa Francisco nomeou este sábado três mulheres como consultoras da Congregação para a Doutrina da Fé, um dos organismos mais importantes da Cúria Romana.

As escolhas do Papa recaíram sobre a italiana Linda Ghisoni, susbcertária do Dicastério para os Leigos, Família e Vida (Santa Sé), especialista em Direito Canônico ( Abaixo)

 

Michelina Tenace, professora de Teologia na Universidade Pontifícia Gregoriana, de Roma (abaixo) 

 

 

e a belga Laetitia Calmeyn, professora de Teologia no Colégio dos Bernardinos, em Paris.

 

Em fevereiro, Francisco tinha nomeado a irmã Carmen Ros Nortes como nova subsecretária da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica (Santa Sé).

Em novembro de 2017, o Papa tinha nomeado duas mulheres como subsecretárias do novo Dicastério para os Leigos, Família e Vida (Santa Sé): a já referida Linda Ghisoni e e Gabriella Gambino, professora de Bioética.

A presença feminina na Santa Sé inclui responsabilidades nos departamentos da Cúria Romana e nas áreas dos arquivos, da história e da comunicação social.

Atualmente, a jornalista espanhola Paloma García Ovejero é vice-diretora da Sala de Imprensa da Santa Sé; Margaret Archer preside à Pontifícia Academia de Ciências Sociais; Barbara Jatta é a primeira diretora dos Museus Vaticanos desde janeiro de 2017.

Fonte: Cirios de Nazaré

O arcebispo emérito de Milão, Angelo Scola, participou da apresentação do livro de Massimo Borghesi intitulado Jorge Mario Bergoglio. Una biografia intellettuale (Ed. Jaca Book), (imagem acima) organizada pelo Centro Cultural de Milão.

Ao lado dele, além do autor do livro, estava o encarregado da vice-presidência da Pontifícia Comissão para a América Latina, Guzmán Carriquiry Lecour. Foi uma das primeiras saídas públicas do cardeal, depois de deixar a liderança da diocese. E foi também a oportunidade, graças ao livro de Borghesi, para desfazer aquelas que Scola chama de “lendas urbanas” sobre o Papa Bergoglio, seu pensamento, sua formação teológica.

Carriquiry – que teve um papel de interface entre Borghesi e o papa para com que o autor obtivesse as quatro preciosas gravações de áudio nas quais Bergoglio responde às perguntas do professor – começou lembrando “a abundância de publicações” que dizem respeito ao atual pontífice, uma abundância que muitas vezes dificulta distinguir e “hierarquizar” as várias contribuições.

Ele não poupou críticas à “superexposição midiática” do papa e à “autorreferencialidade” de muitas contribuições, que tendem “a separar a sua figura do povo de Deus”, tornando-o quase um super-herói. Tentativas de sinal diferente e às vezes oposto, que têm o efeito de olhar para o dedo que indica a lua, em vez da lua, isto é, para a pessoa e a personalidade do pontífice, em vez da sua mensagem.

“O livro de Borghesi – continuou – se separa claramente de toda essa superabundância de títulos e contribuições, e ajuda a conhecer melhor a sua personalidade, não apenas intelectual.” Carriquiry recordou que “o Papa Francisco não tem a pretensão de se definir como ‘teólogo’” e que a sua mensagem consegue passar graças à “gramática da simplicidade, que nunca é simplismo”, porque “se concentra no essencial”.

As raízes dessa abordagem, evidente no documento programático do pontificado, a exortação Evangelii gaudium, devem ser buscadas no documento final de Aparecida, redigido ao término do encontro do episcopado latino-americano no santuário mariano mais importante do Brasil, em 2007.

Por fim, o encarregado da vice-presidência da Pontifícia Comissão para a América Latina, de origem uruguaia, mas que passou a maior parte de sua vida trabalhando na Cúria Romana, lembrou a “tolice daqueles ambientes que olham de cima para baixo para o ‘papa latino-americano’”, com a mesma atitude daqueles que, no início do pontificado de João Paulo II, olhavam com arrogância para o “papa polonês”.

Tomando a palavra, o cardeal Scola sublinhou acima de tudo a importância do encorpado volume de Borghesi – embora lamentando com um sorriso o corpo tipográfico escolhido, “um pouco pequeno demais para quem tem a minha idade” – e o definiu como “um empreendimento difícil e complexo”, com “um resultado precioso para a Igreja universal”.

O papado de Francisco, explicou o arcebispo emérito de Milão, assumindo a imagem usada muitas vezes pelo pontífice, “é um papado poliédrico, e é um magistério poliédrico”. Scola disse que o livro de Borghesi ajuda “a superar certas lendas urbanas” e ressaltou que o pensamento de Francisco é “muito sólido”. “É preciso desfazer um preconceito – continuou –, aquele de acordo com o qual um pensador católico, especialmente um teólogo, deve necessariamente ser um acadêmico. Não é assim”.

Os papas teólogos são uma exceção na série dos sucessores do apóstolo Pedro e, em todo caso, explicou Scola, “não é necessário que um pensamento forte venha de um acadêmico”. Depois, o cardeal se deteve na novidade representada pelo primeiro papa latino-americano que, com seu modo de testemunhar a fé, envolve também os mais distantes com uma abertura de 360 graus, “que passa muito através dos gestos e das imagens, e não apenas através das palavras, como, ao contrário, nós, europeus, estamos acostumados”, herdeiros de visões intelectualistas.

E aqui Scola fez uma pergunta sobre a recepção do pontificado a cinco anos da eleição de Francisco, que representou “um soco no estômago ou, melhor, um despertador para nós”. “Eu não sei o quanto assumimos esse despertador, ou o quanto ainda estamos nos defendendo do desafio que ele representa.” Com atitudes que, em vez de levar a sério o testemunho do papa, a conversão pastoral que ele pediu a toda a Igreja, são de defesa e, às vezes, tentam reduzir o pontificado ou de enquadrá-lo nas cômodas categorias do latino-americano que não entende a Europa, em vez de se deixar pôr em discussão.

O cardeal recordou depois que, nos anos 1960 e 1970, os futuros membros da Companhia de Jesus eram educados durante ao estudo aprofundado de pensadores importantes, bem identificados no livro de Borghesi, como Erich Przywara, Henri de Lubac, Gaston Fessard e Romano Guardini. “A formação do Papa Francisco– explicou Scola – é uma formação não acadêmica, mas nem por isso menos sólida.”

O arcebispo emérito de Milão concluiu dando alguns exemplos da influência desses autores, alguns dos mais citados no livro, lembrando também o tema da polaridade e do “pensamento tensionador” caro a Bergoglio, que o busca em Fessard e em Guardini, propondo a imagem de uma Igreja inclusiva, englobante e capaz de unir os polos opostos sem anulá-los. E lembrou também que, a partir dos anos 1990, o então arcebispo Bergoglio conhecera os textos do Pe. Luigi Giussani.

No seu agradecimento final, Borghesi contou brevemente alguns dos resultados da sua viagem através do pensamento dos mestres sobre os quais Bergoglio foi formado. A formação intelectual do futuro papa permite “compreender o olhar complexo e poliédrico que guia o atual pontificado. Tendo-se formado na escola dos jesuítas, dos franceses em particular, Bergoglio assimilou a mensagem de Santo Inácio através da leitura, ‘dialética e mística’ ao mesmo tempo, de um dos mais importantes filósofos do século XX: Gaston Fessard. Daí surge a ideia do catolicismo como ‘coincidentia oppositorum’que o leva ao encontro com a antropologia polar de Romano Guardini e com o pensamento do mais relevante intelectual católico latino-americano da segunda metade do século XX: Alberto Methol Ferré”.

Entre os exemplos citados no livro, está o que diz respeito à “relação entre graça e liberdade, entre ação divina e humana”, que “demonstra estar vivo apenas como pergunta e não como uma fórmula ‘perfeita’: trata-se de uma persuasão que estará no centro do pensamento de Bergoglio. Sua crítica ao ‘doutrinarismo’, ao dogmatismo abstrato, à petrificação da Revelação se originam a partir daqui: da ideia de que a fé, antes de ser uma resposta, é uma pergunta, uma abertura do coração a uma Presença de graça. Essa pergunta deve ser vivida, deve se tornar experiência, verificação de uma relação real, entre o ser humano e Deus, no cenário da história”.

Do encontro milanês, além do evidente convite à leitura do livro, surgiu principalmente uma modalidade autenticamente eclesial de se relacionar com o papa (com o atual, assim como com todos os outros), a partir não do preconceito ou do juízo pessoal sobre este ou aquele aspecto do pontificado, mas sim a partir do olhar de fé e, portanto, da pergunta sobre o passo que o Espírito Santo pede que cada um dê, levando a sério o testemunho e o magistério do sucessor de Pedro.

Fonte: Vatican Insider

Os costumes da sociedade contemporânea “a fizeram recair em cheio no paganismo e na completa idolatria do sexo”

O frei Raniero Cantalamessa é o pregador da Casa Pontifícia. Tem cabido a ele, nos últimos anos, dirigir as reflexões de Quaresma do Papa Francisco e dos membros da Cúria Romana. Este ano, na Capela Mãe do Redentor, no Vaticano, as suas meditações partiram do convite “Revesti-vos do Senhor Jesus Cristo” (Rm 13,14).

Na quinta e última pregação de Quaresma deste ano, o sacerdote fez significativas considerações sobre os costumes da sociedade contemporânea que “a fizeram recair em cheio no paganismo e na completa idolatria do sexo”. Segundo o padre Cantalamessa, tenta-se justificar “toda licença moral e toda perversão sexual” com a ideia de que vale tudo “enquanto não houver violência contra os outros e não se lesar a liberdade de alguém“. O problema desse tipo de alegação já começa no próprio conceito de “violência” e “liberdade”, que, nesses contextos, são bastante questionáveis. O frade observa: “É destruída a família com uma leviandade extrema e se diz: ‘Mas o que é que tem? Eu tenho o direito de procurar a minha felicidade!’“.

A partir dos escritos de São Paulo, Cantalamessa refletiu sobre a dissolução sexual, à qual o Apóstolo contrapõe “a arma da luz e da pureza”. O frade capuchinho comentou:

“Sem dúvida, alguns juízos da moral sexual tradicional foram revistos e as modernas ciências humanas contribuíram para iluminar certos mecanismos e condicionamentos da psicologia humana, que tiram ou reduzem a responsabilidade moral de determinados comportamentos que, há um tempo, eram tidos logo como pecado, até mortais”.

Contudo, o progresso humano “nada tem a ver com este pansexualismo de certas teorias permissivas, que tendem a negar toda norma objetiva no campo da moral sexual, reduzindo tudo a um fato de evolução espontânea dos costumes, isto é, a um fato da cultura”.

“Se consideramos de perto o que veio a ser chamada de ‘revolução sexual’ dos nossos dias, percebemos, com horror, que ela não é simplesmente uma revolução contra o passado, mas, frequentemente, contra Deus e a natureza humana. [A sexualidade] não é mais pacífica; [foi transformada numa] força ambígua e ameaçadora, que nos arrasta contra a lei de Deus a despeito da nossa própria vontade”.

Esta realidade é demonstrada pela crônica cotidiana dos escândalos, mesmo entre o clero e as pessoas consagradas, sublinhou Cantalamessa. Ele recorda o estímulo do Espírito Santo a testemunharmos ao mundo “a inocência originária das criaturas e das coisas”, de modo a romper esta espécie de “narcose e embriaguez do sexo“. É preciso “restaurar no ser humano a nostalgia da inocência e da simplicidade, que ele carrega forte no coração”.

O frei Cantalamessa também citou as palavras de São Paulo, quando ele dizia que “não é lícito dar-se ao impudor; não é lícito vender-se”. De fato, os termos gregos ligados à palavra “porneia”, que dá origem ao nosso termo “pornografia”, têm o sentido de “vender-se”. E o Apóstolo, usando esse termo para quase todas as expressões de dissolução moral, nos diz que, em toda devassidão, não apenas na prostituição propriamente dita, há um aspecto venal, um vender-se – nem sempre em troca de dinheiro, mas, muitas vezes, em troca do prazer como fim em si mesmo, rebaixando a nós próprios e aos outros ao nível de mera mercadoria.

Em referência à pureza cristã, o capuchinho enfatizou que ela não consiste tanto em estabelecer “o domínio da razão sobre os instintos quanto o domínio de Cristo sobre toda a pessoa, razão e instintos”. E acrescentou:

“A pureza não se baseia no ‘desprezo do corpo’, mas, pelo contrário, na grande estima da sua dignidade. É um estilo de vida, mais do que uma virtude apenas, que envolve não só o corpo, mas também o coração, a boca, os olhos, o olhar”.

Em suma, a pureza cristã é um estilo de vida pleno, que nos envolve e realiza integralmente.

Aleteia

O Parlamento Português aprovou no dia 13 de abril uma lei que permite a mudança de sexo no registo civil aos 16 anos apenas mediante requerimento e sem necessidade de recorrer a qualquer relatório médico, o que desencadeou uma resposta enérgica da Associação dos Médicos Católicos Portugueses (AMCP), que considera que a dispensa de um parecer médico se reveste de uma enorme gravidade em termos de saúde pública e afirma que a lei tem mais fundamento na ideologia de gênero que na ciência ou na medicina.

Segundo um recente comunicado da Associação, “a lei aprovada exclui a medicina, não tem qualquer base científica, já que não se apoia em qualquer diagnóstico médico de disforia de género, e dispensa o tratamento médico necessário para estes casos”.

“A história ensina-nos que sempre que a medicina se subjugou à ideologia, os resultados foram desastrosos para a humanidade, pelo que a AMCP apela ao Sr. Presidente da República para que vete esta lei”, asseveram os médicos católicos.

Além disto, a AMCP diz que é estranho que seja permitida a mudança de sexo “numa idade em que se considera que os cidadãos não têm ainda maturidade para votar, conduzir um automóvel ou ingerir bebidas alcoólicas”.

“Nesta idade o córtex pré-frontal (envolvido nas respostas emocionais e na tomada de decisões) ainda não atingiu o desenvolvimento completo, pelo que não existem condições neurobiológicas de maturidade para uma tomada de decisão desta natureza”, diz o comunicado da ACMP.

“Esta lei, agora aprovada, não é baseada propriamente em novas descobertas científicas, nem tão-pouco foi pedida pelos médicos portugueses, mas é suportada por uma ideologia: a ideologia de gênero. Esta teoria assenta na ideia radical de que os sexos masculinos e femininos não passam de uma construção mental, cabendo à pessoa escolher a sua própria identidade de gênero”, asseveram os médicos católicos de Portugal.

“A ideologia de gênero é uma construção cultural, um produto da cultura e do pensamento humano, sendo totalmente desvinculada da biologia. A ciência — e a medicina em particular — não aceita a supremacia absoluta da dimensão psicológica/sociocultural sobre a identidade sexual. O ideal é que haja uma harmonia entre ambas, não sendo ético provocar desordens psicopatológicas artificiais, através da difusão de uma ideologia radical destinada a criar um “homem novo””, conclui o texto.

ACI

Até mesmo santos da estatura moral da Madre Teresa de Calcutá, admirada por crentes e descrentes, dão testemunho de ter sofrido algo que soa surpreendente e talvez chocante para quem acha que os santos viveram numa bolha de perfeição à parte das cotidianidades que afetam os seres humanos “comuns”: o conceito da “noite escura da alma“.

A mais famosa abordagem do tema e do termo é, provavelmente, a do místico espanhol São João da Cruz, reconhecido como nada menos que Doutor da Igreja. Ele descreve essa profunda espécie de crise espiritual na jornada rumo à união com Deus em seu célebre poema intitulado, precisamente, “La noche oscura del alma” (século XVI).

É fato que Deus permite, e com frequência, a drástica provação da aridez espiritual, da completa falta de fervor sensível, da dúvida espessa a respeito da Sua existência, da revolta perante os injustíssimos reveses da vida, do desespero diante da tragédia ou mesmo da rotina que, dias depois de dias, meses depois de meses, se reveste daquela insuportável e amorfa ausência de sentido…

Se o próprio Cristo experimentou o drama do silêncio do Pai na mais negra de todas as noites, a ponto de Lhe suplicar que afastasse d’Ele esse cálice durante a Sua oração no Jardim das Oliveiras, à espera da Paixão, por que presumir que Deus fosse poupar-nos de experimentar a dúvida radical? Por que imaginar que Ele nos privasse da oportunidade de escolher, livre e voluntariamente, abraçar a fé ou rejeitá-la, confiar n’Ele ou refutá-Lo, purificar o amor ou mantê-lo morno, frágil, apoiado em incentivos cômodos e débeis?

Nem a vocação à vida religiosa isenta um cristão da provação espiritual.

É claro que nem sempre essa provação é propriamente a doença física e psíquica que hoje conhecemos como depressão. No entanto, há santos que, pelos sintomas descritos por eles próprios ou por outros biógrafos, muito provavelmente enfrentaram esse quadro que atualmente é visto como “o mal do século”.

Alguns dos santos que possivelmente enfrentaram a depressão:

1 – Santo Agostinho

Pois é! Uma das mais icônicas e sublimes figuras representativas da intensidade da conversão cristã e do poder extraordinário da graça santificante; uma das personalidades mais admiradas da história da civilização ocidental, inclusive por não católicos e até por não cristãos: até ele enfrentou, muito provavelmente, os altos e baixos dos neurotransmissores e a instabilidade psíquica e física que hoje a medicina denomina depressão.

Sua mãe, Santa Mônica, suportou com paciência quase inacreditável a imprevisibilidade do filho brilhante, mas de temperamento terrível. Agostinho procurava com intensa sinceridade a verdade e o sentido da existência, mas, em suas andanças desnorteadas e segundo os seus próprios termos, ele a buscava na aparência das coisas criadas, nas volúpias e prazeres dos sentidos, longe de Deus e cada vez mais longe de si mesmo. “Eis que estavas dentro de mim, mas eu estava fora, e fora Te buscava, e nas coisas formosas que criaste, deforme eu me lançava“, declarará ele nas “Confissões”, obra-prima da espiritualidade não apenas cristã, mas universal.

A teimosia da graça, porém, foi mais irredutível ainda que a dele mesmo, e, encontrando canal nas “indesanimáveis” orações de sua mãe e na admirável influência do grande bispo Santo Ambrósio, levou o rebelde e angustiado Agostinho a finalmente se render a Deus e acolher o batismo. Mais ainda: ele se consagrou a Deus e chegou também ele a ser bispo.

Depois que a mãe morreu, no entanto, e durante os mais de quarenta anos que a isto se seguiram, a sua personalidade poderosa ainda se manifestaria com frequência na propensão à raiva implacável e à… depressão severa. Santo Agostinho se levantava desses abismos por meio da oração, do sacrifício e do trabalho. Ocupar-se foi um grande remédio, tanto nas muitas responsabilidades de bispo quanto nas muitas horas de reflexão, estudo e oração que o transformaram em grande defensor da doutrina da Igreja.

2 – Santa Flora de Beaulieu

Ela teve uma infância normal, mas, quando seus pais começaram a buscar marido para ela, se recusou e anunciou que ia dedicar a vida a Deus entrando num convento. No entanto, essa decisão, tomada num contexto turbulento, desencadeou uma fase intensa e prolongada de depressão que afetava de tal modo o seu comportamento que mesmo para as outras irmãs era uma provação conviver com ela. Com a graça de Deus, o tempo e a ajuda de um confessor compreensivo, Flora fez grande progresso espiritual precisamente por causa do desafio da depressão, que ela enfrentou com empenho.

3 – Santo Inácio de Loyola

A personalidade poderosa do grande santo fundador dos padres jesuítas também era dada a sentimentos de profunda inquietação e sofrimento. O senso de certeza e convicção que ele demonstra em sua autobiografia (escrita em terceira pessoa) não vieram com facilidade. Depois de se converter, Inácio teve de lutar contra um feroz período de escrupulosidade, termo que, na ascese cristã, se refere à tentação de sentir-se sempre em grave pecado por cada mínima falha pessoal no cumprimento de deveres e na vivência das virtudes. Essa provação veio seguida de uma depressão tão séria que ele chegou a pensar em suicídio. Deus o retirou do abismo de trevas e sofrimento interior inspirando-lhe grandes coisas a realizar na vida em nome de Cristo e da Sua Igreja.

O próprio Inácio define como “desolação” a experiência que enfrentou em seus exercícios espirituais: um estado de grande inquietação, irritabilidade, desconforto, insegurança quanto a si mesmo e às próprias decisões, dúvidas assustadoras, grande dificuldade de perseverar nas boas intenções… De acordo com Inácio, Deus não causa a desolação, mas a permite para nos “abalar” como pecadores e nos chamar à conversão.

A partir da sua experiência, Santo Inácio dá três conselhos para reagir à desolação: não desistir nem alterar uma boa resolução anterior; intensificar a conversa com Deus, a meditação e as boas ações; e perseverar com paciência, pois a provação é estritamente limitada por Deus, que dará o alívio no momento oportuno. Ele descobriu, em suma, que a depressão pode ser um grande desafio espiritual e uma ótima oportunidade de crescimento.

Estes conselhos continuam perfeitamente válidos, mas, hoje, é de importância crucial acrescentar um quarto conselho: procurar a ajuda médica adequada. Os avanços da medicina deixam claro que, na maioria dos quadros verdadeiramente depressivos, a medicação psiquiátrica é indispensável para reequilibrar os neurotransmissores, pois se trata de uma doença propriamente dita e não apenas de uma “fase de tristeza”. O tratamento da depressão clínica tem duas vertentes interdependentes: o trabalho interior pessoal, que pode ser acompanhado por um bom psicólogo ou orientador qualificado, e o trabalho da medicina, acompanhado por um psiquiatra sério e bem atualizado.

4 – Santa Joana Francisca de Chantal

Durante oito anos, ela viveu feliz o seu casamento com o Barão de Chantal. Mas, quando o marido morreu, seu sogro, vaidoso e teimoso, forçou Joana e seus três filhos a irem morar com ele, provocando uma rotina de contínuos dissabores, duras provas de paciência e… depressão. Em vez de se escorar na vitimização, como infelizmente é comum desde sempre e até hoje, Santa Joana fez a escolha de manter a alegria e de responder às crueldades do sogro com caridade e compreensão.

Mesmo depois de estabelecer uma cordial e santa amizade com o grande bispo São Francisco de Sales e de trabalhar com ele na criação de uma ordem religiosa para mulheres de mais idade, Joana continuava experimentando momentos de grande sofrimento e injusto julgamento – e continuava, também, a responder com alegria, trabalho esforçado e espírito voltado a Deus.

A propósito, São Francisco de Sales tem um relevante conselho para quem sofre dessa provação:

“Refresque-se com músicas espirituais, que muitas vezes provocaram o demônio a cessar as suas artimanhas, como no caso de Saul, cujo espírito maligno se afastou dele quando Davi tocou sua harpa perante o rei. Também é útil trabalhar ativamente, e com toda a variedade possível, de modo a desviar a mente da causa de sua tristeza”.

5 – São Noel Chabanel

Padre jesuíta, mártir norte-americano, trabalhou entre os índios huron com São Charles Garnier. Os missionários, no geral, desenvolvem grande empatia por aqueles a quem evangelizam; no entanto, não foi o caso do pe. Noel: ele sentia repugnância pelos índios e pelos seus costumes, além de imensa dificuldade para aprender a sua língua, completamente diferente de qualquer idioma europeu, sem falar nos brutais desafios que a vida em ambiente quase selvagem envolvia. Todo esse conjunto de provações gerou nele um sentimento duradouro de sufocamento espiritual. Como ele respondeu? Fazendo um voto solene de jamais desistir nem abandonar a sua missão. E esse voto ele manteve até o dia do seu martírio.

6 – Santa Elizabeth Ann Seton

A primeira santa nascida em solo estadunidense sofria com a contínua sensação de solidão e melancolia, tão profunda que ela pensou várias vezes em se matar. Ela teve muitos problemas em sua vida, especialmente relacionados à sua família. Leituras, música e o mar a ajudaram a ser mais alegre. Quando se converteu, a Eucaristia e a caridade passaram a ser sua grande força diária!

7 – São João Maria Vianney

Conhecido como o Cura D’Ars, ele é um dos sacerdotes mais queridos da história da Igreja, modelo de pároco zeloso e de pastor que superou as muitas e graves limitações intelectuais próprias para guiar as almas com maestria pelo caminho da vida de graça. Apesar de todo o bem que fazia, ele não conseguia enxergar a própria relevância diante de Deus e convivia persistentemente com um forte complexo de inutilidade pessoal, sintoma da depressão que o acompanhou durante toda a vida.

Nos momentos mais difíceis, ele recorria ao Senhor e, apesar do sofrimento, renovava a determinação de perseverar no seu trabalho com confiança, fé e amor a Deus e ao próximo.

8 – Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein)

A santa carmelita descalça que havia nascido judia e crescido ateia sofreu com a depressão durante longo período. Chegou a escrever:

“Encontrei-me gradualmente em profundo desespero… Eu não podia atravessar a rua sem querer que um carro me atropelasse e eu não saísse viva dali”.

Desde antes de se converter, principalmente nas muitas ocasiões em que foi desprezada e humilhada por ser mulher e de origem judia, Edith sofreu intensamente a depressão. Intelectual, filósofa, discípula e até assistente de Edmund Husserl, o fundador da fenomenologia, ela finalmente encontrou em Deus a Verdade que tanto buscava, a partir da leitura da obra de Santa Teresa de Jesus. Abraçou então a graça com tamanha sede que dela arrancava as forças para lidar não apenas com os seus dolorosos sofrimentos interiores, mas também com as trevas mortíferas do nazismo.

Edith Stein, que adotou no convento carmelita o nome religioso de Teresa Benedita da Cruz após se converter e se consagrar a Deus radicalmente, foi capaz de perseverar até o martírio, mantendo a lucidez, a fé, a esperança e o amor inclusive na prisão e na execução a que foi submetida covardemente no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. Esse final de vida terrena parece particularmente deprimente? Pois ele é, mesmo. No entanto, como tudo nesta vida tem mais do que apenas um lado, ela enfrentou esse cenário extremo com a serenidade e a paz de espírito de quem aprendeu a lidar com os altos e baixos da depressão, enxergando além do imediato e abraçando uma vida que não acaba porque é eterna – e que é capaz de brilhar até mesmo nas trevas mais densas da morte num campo de concentração.

[Nota de Crux: O Irmão Jesuíta Guy Consolmagno é diretor do Observatório do Vaticano, fundado no século XVIII e refundado em sua forma atual em 1891. Consolmagno é visto por muitos como uma referência em como o Vaticano, discute regularmente a relação entre fé e razão. A Fundação do Observatório do Vaticano também tem um blog. Recentemente, Consolmagno fez uma palestra no Sheen Center, em Nova York, chamada ‘Jesuítas e Jedi: ciência e espiritualidade na era de Star Wars’]

 

***

No evento no Sheen Center, aprendi um pouco sobre sua história e descobri como o senhor acabou se tornando o “astrônomo do Papa”. Poderia contar um pouco desse background aos leitores do Crux?

Daria um livro! (O nome do livro é “Brother Astronomer”…)

Cresci em uma família católica comum dos anos 50 e aprendi ciência e religião com as Irmãs de Caridade de Nossa Senhora Rainha dos Mártires. Fui para o colégio jesuíta da Universidade de Detroit, pensei em ser padre, mas percebi que não tinha a personalidade certa para isso e acabei no MIT, principalmente por causa da biblioteca de ficção científica!

Aos trinta, minha fé entrou em crise; não a fé na minha religião, mas na ciência. Então, em vez de “perder tempo” estudando as luas de Júpiter, entrei no Corpo de Paz. Mas meus alunos no Quênia eram fascinados por ciência, e o entusiasmo deles me lembrava que a astronomia é um alimento para a alma.

Depois de lecionar numa pequena universidade – uma delícia – entrei para os jesuítas como irmão, pensando que poderia lecionar em algum colégio jesuíta. Mas me mandaram para Roma para continuar na astronomia… e em 2015 o Papa Francisco me nomeou diretor do Observatório.

O senhor disse que estudar o cosmos é um ato de adoração. Poderia dizer mais sobre o que quer dizer com isso?

Adoração é uma maneira de chegarmos mais perto de Deus; e é isso que fazemos quando estudamos o cosmos. Não preciso que a Bíblia me dê as respostas às minhas perguntas científicas, mas dependo da autoridade das Escrituras para ter certeza que essas respostas podem ser encontradas e que vale a pena buscá-las.

Me inspiro, em particular, no salmista que escreveu que “Os céus manifestam a glória de Deus” e por São Paulo, que nos lembra de que “as coisas invisíveis, desde a criação do mundo, se entendem e claramente se veem pelas coisas que estão criadas”. Conhecemos a personalidade de Deus ao nos familiarizarmos com seu modo de criação… um modo elegante, racional e cheio de alegria!

Há muitos mal-entendidos sobre a relação da ciência e da Igreja Católica, sobretudo historicamente. Quais mal-entendidos acha que é particularmente importante corrigir?

Quando as pessoas dizem que a Igreja vai contra a ciência, respondo “cite três”, pedindo três exemplos. Elas sempre começam com Galileu, que normalmente significa que não sabem nada sobre Galileu… sua vida e sua época, seus argumentos ou a natureza da oposição contra ele. Nunca leram o que ele escreveu nem o que seus companheiros e inimigos escreveram. Alguns podem mencionar Giordano Bruno. Uma olhada rápida na página da Wikipédia sobre ele geralmente já abre um pouco seus olhos. E não conseguem pensar num terceiro exemplo. (A Igreja nunca condenou a evolução, por exemplo; e dois papas, Pio XII e João Paulo II, especificamente, endossaram a ideia).

Enquanto isso, a lista de cientistas importantes que eram católicos vai de Alberto Magno a Roger Bacon, Ampere, Volta, Pasteur, Mendel e Lemaître… e também Copérnico e Galileu! Novamente, é possível ver na Wikipédia uma lista de ganhadores católicos do Prêmio Nobel.

Uma das partes de que mais gostei no evento no Sheen Center foi a exposição de seus pensamentos sobre inteligência artificial. O senhor acha que é possível que tal máquina chegue a ser considerada uma pessoa?

 Na prática, temos muito tempo pela frente antes de que algo que produzimos com metal e semicondutores possa dar conta do recado. Minha suspeita – e posso estar errado! – é que os computadores digitais em si nunca serão capazes de replicar o cérebro humano; pelo estilo errado, acredito. Lembro da piada que diz que o cérebro humano ainda é o computador mais sofisticado a que temos acesso e, além disso, é o único que pode ser produzido por trabalhadores não qualificados.

O senhor escreveu um livro entitulado Você batizaria um extraterrestre? (em inglês, Would You Baptize an Extraterrestrial?). O senhor batizaria?

Só se ele pedisse.

Fonte: Crux