Os costumes da sociedade contemporânea “a fizeram recair em cheio no paganismo e na completa idolatria do sexo”

O frei Raniero Cantalamessa é o pregador da Casa Pontifícia. Tem cabido a ele, nos últimos anos, dirigir as reflexões de Quaresma do Papa Francisco e dos membros da Cúria Romana. Este ano, na Capela Mãe do Redentor, no Vaticano, as suas meditações partiram do convite “Revesti-vos do Senhor Jesus Cristo” (Rm 13,14).

Na quinta e última pregação de Quaresma deste ano, o sacerdote fez significativas considerações sobre os costumes da sociedade contemporânea que “a fizeram recair em cheio no paganismo e na completa idolatria do sexo”. Segundo o padre Cantalamessa, tenta-se justificar “toda licença moral e toda perversão sexual” com a ideia de que vale tudo “enquanto não houver violência contra os outros e não se lesar a liberdade de alguém“. O problema desse tipo de alegação já começa no próprio conceito de “violência” e “liberdade”, que, nesses contextos, são bastante questionáveis. O frade observa: “É destruída a família com uma leviandade extrema e se diz: ‘Mas o que é que tem? Eu tenho o direito de procurar a minha felicidade!’“.

A partir dos escritos de São Paulo, Cantalamessa refletiu sobre a dissolução sexual, à qual o Apóstolo contrapõe “a arma da luz e da pureza”. O frade capuchinho comentou:

“Sem dúvida, alguns juízos da moral sexual tradicional foram revistos e as modernas ciências humanas contribuíram para iluminar certos mecanismos e condicionamentos da psicologia humana, que tiram ou reduzem a responsabilidade moral de determinados comportamentos que, há um tempo, eram tidos logo como pecado, até mortais”.

Contudo, o progresso humano “nada tem a ver com este pansexualismo de certas teorias permissivas, que tendem a negar toda norma objetiva no campo da moral sexual, reduzindo tudo a um fato de evolução espontânea dos costumes, isto é, a um fato da cultura”.

“Se consideramos de perto o que veio a ser chamada de ‘revolução sexual’ dos nossos dias, percebemos, com horror, que ela não é simplesmente uma revolução contra o passado, mas, frequentemente, contra Deus e a natureza humana. [A sexualidade] não é mais pacífica; [foi transformada numa] força ambígua e ameaçadora, que nos arrasta contra a lei de Deus a despeito da nossa própria vontade”.

Esta realidade é demonstrada pela crônica cotidiana dos escândalos, mesmo entre o clero e as pessoas consagradas, sublinhou Cantalamessa. Ele recorda o estímulo do Espírito Santo a testemunharmos ao mundo “a inocência originária das criaturas e das coisas”, de modo a romper esta espécie de “narcose e embriaguez do sexo“. É preciso “restaurar no ser humano a nostalgia da inocência e da simplicidade, que ele carrega forte no coração”.

O frei Cantalamessa também citou as palavras de São Paulo, quando ele dizia que “não é lícito dar-se ao impudor; não é lícito vender-se”. De fato, os termos gregos ligados à palavra “porneia”, que dá origem ao nosso termo “pornografia”, têm o sentido de “vender-se”. E o Apóstolo, usando esse termo para quase todas as expressões de dissolução moral, nos diz que, em toda devassidão, não apenas na prostituição propriamente dita, há um aspecto venal, um vender-se – nem sempre em troca de dinheiro, mas, muitas vezes, em troca do prazer como fim em si mesmo, rebaixando a nós próprios e aos outros ao nível de mera mercadoria.

Em referência à pureza cristã, o capuchinho enfatizou que ela não consiste tanto em estabelecer “o domínio da razão sobre os instintos quanto o domínio de Cristo sobre toda a pessoa, razão e instintos”. E acrescentou:

“A pureza não se baseia no ‘desprezo do corpo’, mas, pelo contrário, na grande estima da sua dignidade. É um estilo de vida, mais do que uma virtude apenas, que envolve não só o corpo, mas também o coração, a boca, os olhos, o olhar”.

Em suma, a pureza cristã é um estilo de vida pleno, que nos envolve e realiza integralmente.

Aleteia

O Parlamento Português aprovou no dia 13 de abril uma lei que permite a mudança de sexo no registo civil aos 16 anos apenas mediante requerimento e sem necessidade de recorrer a qualquer relatório médico, o que desencadeou uma resposta enérgica da Associação dos Médicos Católicos Portugueses (AMCP), que considera que a dispensa de um parecer médico se reveste de uma enorme gravidade em termos de saúde pública e afirma que a lei tem mais fundamento na ideologia de gênero que na ciência ou na medicina.

Segundo um recente comunicado da Associação, “a lei aprovada exclui a medicina, não tem qualquer base científica, já que não se apoia em qualquer diagnóstico médico de disforia de género, e dispensa o tratamento médico necessário para estes casos”.

“A história ensina-nos que sempre que a medicina se subjugou à ideologia, os resultados foram desastrosos para a humanidade, pelo que a AMCP apela ao Sr. Presidente da República para que vete esta lei”, asseveram os médicos católicos.

Além disto, a AMCP diz que é estranho que seja permitida a mudança de sexo “numa idade em que se considera que os cidadãos não têm ainda maturidade para votar, conduzir um automóvel ou ingerir bebidas alcoólicas”.

“Nesta idade o córtex pré-frontal (envolvido nas respostas emocionais e na tomada de decisões) ainda não atingiu o desenvolvimento completo, pelo que não existem condições neurobiológicas de maturidade para uma tomada de decisão desta natureza”, diz o comunicado da ACMP.

“Esta lei, agora aprovada, não é baseada propriamente em novas descobertas científicas, nem tão-pouco foi pedida pelos médicos portugueses, mas é suportada por uma ideologia: a ideologia de gênero. Esta teoria assenta na ideia radical de que os sexos masculinos e femininos não passam de uma construção mental, cabendo à pessoa escolher a sua própria identidade de gênero”, asseveram os médicos católicos de Portugal.

“A ideologia de gênero é uma construção cultural, um produto da cultura e do pensamento humano, sendo totalmente desvinculada da biologia. A ciência — e a medicina em particular — não aceita a supremacia absoluta da dimensão psicológica/sociocultural sobre a identidade sexual. O ideal é que haja uma harmonia entre ambas, não sendo ético provocar desordens psicopatológicas artificiais, através da difusão de uma ideologia radical destinada a criar um “homem novo””, conclui o texto.

ACI