As mudanças de atitude, comportamentos e estilos de vida na área da sexualidade – que marcaram nossa sociedade nos últimos 30 anos – são alguns dos problemas mais complexos que as famílias precisam enfrentar.

Uma educação sexual bem conduzida pela família pode ajudar a reduzir as consequências da ignorância sexual, como:

  • a atividade sexual precoce;
  • a gravidez na adolescência;
  • as doenças sexualmente transmissíveis;
  • a transmissão do HIV;
  • o abuso e a exploração sexual.

Esses problemas têm custos sociais, econômicos e humanos muito altos. Por isso, a educação dos filhos em casa proporciona benefícios prioritários e insubstituíveis nos níveis: pessoal, familiar e social. Entre eles, destacam-se:

  • transmissão de valores familiares;
  • transmissão a informação exata às crianças;
  • incentiva habilidades eficazes sobre como tomar decisões com autonomia;
  • neutraliza as mensagens sexuais negativas e perigosas dos meios de comunicação.

Pode-se falar de sexo?

Os pais dão lições de sexualidade diariamente desde o nascimento do bebê, dando-lhe carinho, abraçando-o, mimando-o, beijando-o. Tudo isso é lição positiva sobre sexualidade.

Na educação sexual das crianças, também será determinante a resposta dos pais – ou a falta dela – às curiosidades naturais acerca das diferenças sexuais ou às perguntas do tipo: “de ondem surgem os bebês?”.

Mas as crianças também recebem muitas mensagens sobre esta importante questão fora de casa. Mensagens às vezes negativas ou, pelo menos, duvidosas.

Talvez você pense que as crianças de quatro anos, por exemplo, não se fixam às mensagens sexuais que recebemos todos dias pela rádio, TV, pelos jornais ou outros dispositivos. O certo é que a curiosidade delas começa já nos primeiros anos de vida.

Por isso, o melhor que podemos fazer é aproveitar estas oportunidades para irmos mostrando as nossas opiniões sobre o tema conforme elas vão nos perguntando.

Aos quatro anos, seu filho talvez não entenda toda a lição. Mas ficará claro que papai e mamãe pensam que o sexo é bastante importante e é preciso falar sobre isso.

Se os jovens não perguntam sobre sexo aos pais não é porque não sejam curiosos, mas porque aprenderam que não podem lhes perguntar, e encaram o tema como algo incômodo.

Se este sentimento persistir, as crianças vão satisfazer as curiosidades de outra forma: com amigos, na TV ou até mesmo experimentando. Infelizmente, o resultado são adolescentes mal informados e vulneráveis.

Semear valores para colher uma adolescência mais serena

Os comportamentos e as decisões sexuais dos adolescentes têm uma relação direta com o nível de autoestima deles. Se eles têm uma boa opinião de si mesmos, a probabilidade de fazerem escolhas positivas, saudáveis e responsáveis na vida aumenta.

E é durante os anos da escola primária que as crianças desenvolvem o sentido da autoaceitação. E, aqui, a influência da família é crucial.

Como em outros aspectos do crescimento e desenvolvimento, as crianças precisam de ajuda para se sentirem valorizadas, capazes e aceitas. Por isso, é necessário promover:

– A aprovação: as crianças precisam de muitos elogios. Para os jovens, a aprovação dos pais é a medida de sua própria valorização. Elogie o que eles fazem (ou tentam fazer) de bom;

– A aceitação: ao mesmo tempo em que você reconhece as áreas de excelência de seu filho, ajude-o a aceitar suas imperfeições. Se ele fizer alguma coisa inadequada, certifique-se que ele entende que você não gosta deste tipo de comportamento, mas que você continua amando-o;

– A atenção: mostre interesse sincero pelas atividades de seus filhos. Isso faz com que eles se sintam importantes. Dedique um tempo exclusivo a cada um, pois isso vai ajudá-los a se sentirem especiais;

– As conquistas: as crianças aprendem fazendo as coisas e precisam de oportunidades para praticar as habilidades que adquirem. Deixá-las tomar decisões vai motivá-las a fazer e vai despertar o senso de responsabilidade;

– O respeito: crianças são pessoas e também merecem ser tratadas com dignidade e respeito.

Enfim, a opinião que as crianças têm de si mesmas influencia muito na maneira como elas vivem e se relacionam com o mundo. Se elas crescem sentindo-se amadas, valorizadas e capazes, serão muito mais fortes para enfrentar serenamente as grandes questões da vida. Entre elas, a sexualidade.

Autor Javier Fiz Pérez

O jogo patológico – vício em jogar – pode não ser uma droga… mas pode ser igualmente prejudicial

Embora o vício em jogar não tenha os mesmos efeitos devastadores na saúde física como o alcoolismo ou o vício no tabaco, o jogo patológico é semelhante a esses vícios, pois é caracterizado por um desejo irresistível de sentir as emoções relacionadas ao dinheiro e ao jogo. Dependência de jogos de azar, seja on-line ou pessoalmente, pode ter consequências significativas para a integração social e profissional da pessoa afetada.

Os jogos de azar são aqueles caracterizados por atividades em que os jogadores fazem apostas cujo benefício potencial é deixado ao acaso, como pôquer, blackjack, roleta, caça-níqueis, bingo e muitos outros, que podem ser jogados on-line ou em cassinos.

Pessoas viciadas em jogos de azar têm uma forte dependência psicológica que resulta em um desejo incontrolável de jogar. Quando elas não podem se envolver nessa atividade de uma forma ou de outra, elas podem se tornar violentas, e podem até mesmo experimentar sintomas de abstinência semelhantes aos dos viciados em drogas.

Tipos de jogadores

  • Jogadores sociais: para eles, o jogo é simplesmente uma oportunidade para se socializar e se divertir.
  • Jogadores problemáticos: essas pessoas tentam encontrar uma solução para seus problemas sociais através desse tipo de entretenimento.
  • Jogadores patológicos (impulsivos e dependentes): para eles, o impulso para jogar torna-se uma necessidade incontrolável acompanhada por uma forte tensão emocional e uma incapacidade parcial ou total de pensar reflexiva e logicamente. Esse tipo de pessoa está inclinado a comportamentos destrutivos que muitas vezes são alimentados por outros graves problemas psicológicos.

Fatores de risco para dependência de jogos de azar

Muitos estudos tentaram identificar os fatores de risco para dependência de jogos de azar que transformam as pessoas em jogadores impulsivos. Entre outros, esses fatores incluem:

  • Aspectos biológicos: estão relacionados principalmente a fatores neurofisiológicos, ou seja, um possível desequilíbrio no sistema de neurotransmissores no cérebro, fazendo com que a produção de serotonina (substância química do cérebro responsável pelo comportamento afetivo e o equilíbrio) caia abaixo da média do nível normal.
  • Aspectos relacionados ao meio ambiente e à educação: o ambiente e a educação recebidos por pessoas que mais tarde desenvolvem dependência do jogo são muitas vezes caracterizadas por situações problemáticas, muitas vezes incluindo uma supervalorização do dinheiro e a comparação da riqueza com a felicidade. Consequentemente, a presença de dificuldades financeiras, como o desemprego, é um fator de risco para encabeçar o jogo compulsivo.
  • Aspectos psicológicos: o vício em jogos de azar parece estar relacionado a traços de personalidade de luxúria e cobiça, assim como uma necessidade percebida de ser capaz de mostrar controle sobre eventos fortuitos como um símbolo de controle maior que a média sobre o mundo em geral.

Autor do artigo: Javier Fiz Pérez

Em 1981, o Dr. Roger Sperry ganhou o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia por seu estudo de como o cérebro funciona em bebês masculinos e femininos. O Dr. Sperry descobriu que, entre a décima sexta e a vigésima sexta semana de gestação, ocorre uma reação química nos bebês do sexo masculino no cérebro, o que não ocorre no caso das mulheres. Duas substâncias químicas são liberadas que retardam o desenvolvimento do hemisfério direito do cérebro, a parte das afeições. É por isso que há sentimentos próprios das meninas e dos meninos que os fazem pensar e se comportar de maneira diferente.

Existe diferença permanente e marcante entre homens e mulheres, ambos são o exemplo diário que as crianças recebem em casa que lhes apontam os valores necessários para a vida. No entanto, hoje estamos testemunhando a destruição da família, e não devemos ter medo de dizê-la. Ela procura distorcer a presença dos pais infundindo de forma errônea a distorção e o baixo valor de cada um dos membros que a compõem. Isso produz, de forma forçada e abrupta, que as crianças sofram desorientação e desinformação que reduzirão severamente a referência necessária para o desenvolvimento natural, como é típico de cada sexo

As crianças nascem com uma identidade sexual e isso é cientificamente comprovado. Elas precisam de referências comportamentais para que possam reafirmar essa identidade, uma vez que é uma base essencial para seu desenvolvimento normal. Qualquer distorção, ou mesmo ausência de qualquer uma das imagens- paterna ou materna, modificam as chances de vida da criança para ser realmente feliz, como pai e mãe, e em dar suas diferentes contribuições.

Uma das perguntas no antigo catecismo era: “Onde está Deus?” E a resposta: “Deus está em todos os lugares”. Hoje, podemos trocar a palavra Deus pela palavra Google e a resposta será igualmente válida.

É inacreditável ver como o Google e outras empresas online se tornaram onipresentes em nossas vidas. Elas rastreiam nossas ações, observam o que estamos comprando, o que vemos, para quem escrevemos e o que publicamos. De certa forma, a visão de Matrix não está tão longe da realidade. Nós nos transformamos em códigos binários de informação em um vasto oceano interconectado chamado de internet.

Todos os nossos dispositivos estão constantemente sincronizados. Para nossa comodidade, é algo fantástico. Porém, a cada dispositivo que adicionamos a essa sincronização aumenta a possibilidade de sermos monitorados (ou espiados, se preferir). Recentemente, consultei preços e horários de trem e, depois, quando me conectei ao Facebook, surpresa! No meu newsfeed apareceu um anúncio de viagem de trem para o mesmo destino.

Hoje, quando compro uma passagem pela internet, as datas se sincronizam automaticamente com meu Google Calendar. Se entro na Amazon, sugestões desconcertantes aparecem na home-page: como eles sabem que eu estava pensando em comprar isso?

Esta é uma realidade a que devemos nos acostumar com complacência?

Certa vez, um professor nos disse, com tom de gravidade: “Toda vez que vocês usam um serviço ou um programa online gratuito, vocês são o produto!” E é verdade. Quando aceitamos os termos e condições antes de usar um serviço de forma gratuita, autorizamos o acesso às nossas informações pessoais, contatos, imagens e tudo o que se pode saber sobre nós. Depois, essas informações são vendidas – a um bom preço – para os anunciantes, de modo que eles possam se dirigir a nós com mais precisão, conhecendo nossos interesses, predileções e hábitos de compra online.

Mas voltemos ao Deus e ao Google. Toda vez que precisamos consultar alguma coisa, um amigo meu padre pega seu iPhone e diz: “perguntemos a google deus”. E ele não está brincando. Por acaso o Google não é o primeiro lugar a que recorremos quando queremos encontrar uma informação? Atualmente, é mais provável que você pergunte como rezar ao Google, ao invés de fazê-lo a um padre.

Navegando pela rede, me deparei com um site dedicado à “Igreja do Google”. Ele oferece apologéticas sobre a divindade do Google, juntamente com os “10 mandamentos do Google” e a “oração do Google-Nosso”. Isso pode parecer divertido. Mas, só de pensarmos que existe um site como esse, deveríamos ficar de cabelo em pé. Quando Nietzsche disse que “Deus morreu”, ele nem poderia imaginar que Deus simplesmente trocaria seu corpo místico por um virtual.

Alan Cohen, vice-presidente da Airespace, uma empresa provedora de wi-fi, disse:

 “Se consigo entrar no Google, posso encontrar o que eu quiser. E com acesso sem fio, significa que serei capaz de encontrar o que quiser, onde quiser e quando quiser. Por isso, digo que o Google e o wi-fi são  um pouco como Deus. Deus é wireless, Deus está em todas as partes e Deus vê e sabe de tudo. Ao longo da histórias, as pessoas faziam uma conexão sem fio com Deus. Agora, as pessoas perguntam ao Google sobre suas dúvidas e, cada vez mais, podem fazer isso sem cabos.”

Confesso que estou sendo um pouco melodramático aqui. Mas nossa liberdade para fazer tanta coisa online – para transcender os limites físicos e temporais  – assusta um pouco. Ao invés de me sentir livre, sinto-me enjaulado e percebo que não importa o quanto avancem as tecnologias, pois somente o único e verdadeiro Deus (e somente Ele) pode me dar a autêntica liberdade e a autêntica felicidade.

Deus nos ama incondicional e livremente. Ele não nos obriga a clicar no botão “Aceito”, antes de pedirmos algo a Ele.
Ele morreu por todos nós, não só pelos que compraram o pacote “Premium”.
Todos os aspectos do amor de Deus são acessíveis e grátis; Ele não nos cobra nenhum centavo, nem nos vende.
Faça-se uma pergunta: todos esses dispositivos que você tem e que te deixam perpetuamente conectado com a internet estão te tornando mais livre? Eles te fazem mais ligeiro e feliz? Ou você se sente mais carregado, tentando manter o ritmo?

Não estou demonizando o Google, pois ele é só uma empresa. Mas temos de ser mais cuidadosos antes de ficarmos completamente absorvidos por seu “matrix”. A máquina o define somente na proporção que você permitir.

Um amigo meu estava tentando zombar da Siri (o humanoide virtual da Apple). Ele perguntou: “Siri, você acredita em Deus?” E ela respondeu: “Recomendo que faça suas perguntas espirituais a alguém  mais qualificado para responder. Um pobre motor de conhecimento computacional como eu, independentemente de sua potência, não é capaz de oferecer uma simples resposta a essa pergunta”.

Foi uma boa resposta. Se você tem alguma pergunta urgente em relação à sua vida ou à sua fé, pergunte a seus pais, a seu cônjuge, a seu melhor amigo, ao seu padre. Pergunte a Deus!

Não pergunte ao Google nem perda de vista o fato de que, a final de contas, o Google é uma criação nossa, de mortais, e está eternamente sujeito a elementos humanos e ao erro humano.

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O padre Joshan Rodrigues pertence à arquidiocese do Estado de Bombay, Índia. Atualmente, está na Pontifícia Universidade de Santa Cruz, em Roma, estudando Comunicação Institucional e a Igreja.

Conheci muitos casamentos felizes, mas nunca um compatível. O objetivo do casamento é lutar contra o instante em que a incompatibilidade torna-se inquestionável, e sobreviver a ele. Pois um homem e uma mulher, tais como são, são incompatíveis.” (G.K. Chesterton. O que há de errado com o mundo)

Os conflitos conjugais são uma realidade séria. De simples desacordos a grandes conflitos, todo casal tem discussões. Não se deixe enganar pelos “casais perfeitos” do Facebook e do Instagram. As pessoas não vão postar aspectos negativos de suas vidas. Alguns casais afirmam que nunca tiveram uma diferença de opinião durante toda a sua vida conjugal. Isso é realmente possível? É difícil acreditar que Deus já fez duas pessoas tão parecidas em todos os sentidos que suas opiniões coincidiram em tudo!

Um conflito deve ser resolvido antes que fique fora de controle. Mesmo as pequenas divergências, se não forem resolvidas, podem infeccionar por anos e um dia explodir como um vulcão.

Algumas brigas nunca terminam, elas duram anos, enquanto outras parecem desaparecer sem chegar a uma conclusão, aprofundando assim o ressentimento.

O primeiro choque geralmente ocorre algumas semanas ou meses após o casamento, quando percebemos que nosso cônjuge “perfeito” não é tão perfeito assim, e começamos a nos irritar com pequenas “imperfeições” em sua personalidade. Isso é perfeitamente normal e deve ser trabalhado.

Esta lista ajudará você a trabalhar algumas situações de conflito em seu casamento.

1. Desentenda, mas supere 

  • Não evite brigas a qualquer custo. Desentendimentos são uma parte saudável do relacionamento e todo casal os tem. O que é mais importante é como você briga. Quando houver um conflito, supere-o, para não permitir que uma briga destrua seu amor. Sempre tendo em mente que seu cônjuge não é seu inimigo. Trabalhar seus desentendimentos fará de vocês um casal mais forte. 

 2. Não fique em silêncio 
  • Quando há uma briga, é importante se comunicar e falar sobre isso. Recusar-se a falar com a outra pessoa só vai piorar a situação. É claro que, no começo, você pode ficar em silêncio para mostrar que está com raiva, mas não prolongue esse silêncio por muito tempo. Quando seu cônjuge vier até você depois de algum tempo e disser que quer falar sobre isso, não recuse. Não importa o que aconteça, não vá dormir com raiva. “Não deixe o sol se pôr em sua raiva. Ir para a cama com raiva fará você pensar mais e desenterrar ainda mais problemas. Você não estará feliz automaticamente na manhã seguinte.

3. Lembre-se você mesmo: “eu não sou perfeito(a)”

  • Muitos conflitos surgem quando um cônjuge constantemente culpa a outra pessoa por tudo que está errado. Nenhum marido e nenhuma esposa são perfeitos. Estar ciente de que os dois não são perfeitos irá ajudá-los a encontrar uma solução. O casamento implica ser flexível e abrir espaço para a personalidade do seu cônjuge. No coração de todo conflito está o eu, o ego. O verdadeiro problema é que, mesmo dentro do casamento, quero que minha liberdade irrestrita faça o que me agrada, esperando, ao mesmo tempo, a aprovação incondicional do meu cônjuge. Em outras palavras, quero ser o sol com meu cônjuge orbitando a minha volta como um planeta dedicado.

  • Nos casos em que a questão se tornar séria, peçam a um amigo(a) em comum (uma pessoa em quem ambos confiam e que seja objetiva e neutra) para mediar entre os dois. Pode ser um amigo confidente da família, um membro da família ou até mesmo um padre. Pode haver momentos em que ir juntos para aconselhamento matrimonial seja, talvez, inevitável. Não se recuse a ir mesmo se você acha que o outro é que tem culpa. O objetivo da mediação é ajudar os dois a resolver seus problemas, não para determinar quem foi o culpado. Lembre-se de que, afinal, você ama seu cônjuge, quer permanecer casado(a) e a outra pessoa provavelmente sente o mesmo por você. 

5. Não faça ameaças 

  • Não diga coisas ofensivas quando estiver zangada(o), o que pode causar uma divisão permanente entre você e seu cônjuge. Não ameace o divórcio, nem saia de casa ou qualquer outra coisa. Faça um acordo para nem mesmo mencionar essa palavra em seu casamento, não importa o quão ruim seja a discussão ou a situação (supondo que não haja abuso ou infidelidade). Quando você está se sentindo completamente furiosa(o), apenas se afaste por um momento, e dê à sua mente e coração tempo para soltar o vapor

6. Não traga o passado  

  • Mantenha sua conversa fixa no problema atual. Não tente expor todas as outras circunstâncias quando estiver insatisfeita(o) com seu cônjuge. Muitas coisas no passado são apenas isso, história, e nada pode ser feito sobre isso. Manter uma lista de erros do passado não ajuda seu relacionamento. Você pode ficar para sempre infeliz no passado ou pode decidir ser feliz no futuro.

7. Não lave sua roupa suja em público 

  • Lembre-se de que, por mais que você esteja chateada(o), seu cônjuge merece seu respeito e proteção em público. Não fale sobre seus problemas na frente dos outros, e, pior ainda, não reclame do seu cônjuge com seus parentes e amigos. E nunca brigue na frente de seus filhos. Seja a fortaleza de seu cônjuge em público, não importa se você tiver desentendimentos em casa

8. Peça desculpas

  • Quando você sabe que cometeu um erro, não deixe que o orgulho atrapalhe você a pedir desculpas. Muitas vezes, as palavras mais amorosas em um casamento não são “eu te amo”, mas “por favor, desculpe-me”. Ter a humildade de admitir que você estava errada(o) e pedir perdão quebra barreiras entre você e seu cônjuge e ajuda a reconstruir seu relacionamento. Alguns pensam que pedir desculpas é um sinal de fraqueza. Algumas pessoas têm medo de perder o contato com as pessoas que amam se admitirem suas falhas. Mas o oposto é verdadeiro; ser honesto sobre si mesmo, realmente fará você ganhar mais respeito do outro.

9. Tire um tempo para você 

  • Em casos extremos, onde há abuso emocional ou físico, ou infidelidade contínua, não é errado tirar um tempo e se separar do seu cônjuge por um período de tempo. Na verdade, é provavelmente a coisa certa a fazer. Muitas vezes, o cônjuge que errou só chega a uma profunda compreensão de seus defeitos quando o outro sai de casa. No entanto, este passo deve ser tomado com extrema prudência. Geralmente é um último recurso. Também não pense em “divórcio” imediatamente. Muitos conflitos são curados com o tempo. Separação, não divórcio, é o melhor passo nessas circunstâncias.

O amor não é um mero sentimento, pois amar exige uma firme decisão. Você tem que trabalhar a si mesma(o) ao invés de ficar tentando mudar o outro. Mas esse trabalho deve ser feito em conjunto, com a graça de Deus e através da oração

Penso muitas vezes nas bodas de Caná. O primeiro vinho deixou-os felicíssimos: é o enamoramento. Mas não dura até ao fim: deve aparecer um segundo vinho, isto é, deve ferver e crescer, amadurecer. Um amor definitivo que se torne realmente «segundo vinho» é mais lindo, é melhor do que o primeiro vinho. E é isto que devemos procurar”. – Papa Bento XVI

Fr Joshan Rodrigues

A Secretaria do Sínodo dos Bispos publicou esta terça-feira (22/05) a tradução oficial do documento final da Reunião pré-sinodal.

A reunião, que teve a participação do Papa Francisco, se realizou em Roma de 19 a 24 de março, com a participação de jovens dos cinco continentes, dos quais inúmeros brasileiros representando dioceses, movimentos, instituições e congregações.

O resultado final está contido neste documento, que expressa o ponto de vista da juventude, sua realidade, ideias e propostas.

O documento será apresentado aos Padres sinodais, que se reunirão em Assembleia em outubro de 2018 sobre o tema “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”.

Documento final da Reunião Pré-sinodal

Introdução

 

Os jovens de hoje encontram uma série de desafios e oportunidades externas e internas, muitas das quais são específicas de seus contextos individuais e algumas são comuns entre os continentes. À luz disso, é necessário para a Igreja examinar o modo com o qual enxerga os jovens e se compromete com eles, de modo que seja um guia eficaz, relevante e vivificante no decorrer de suas vidas.

Este documento é uma síntese para expressar alguns dos nossos pensamentos e experiências. É importante notar que essas são algumas reflexões dos jovens do século XXI provenientes de diversas religiões e contextos culturais. Neste sentido, a Igreja deve ver essas reflexões não como uma análise empírica de um tempo qualquer no passado, mas como uma expressão de onde nos encontramos, para onde nos direcionamos e como um indicador do que a Igreja deve fazer para caminhar adiante.

É importante, sobretudo, esclarecer os parâmetros deste documento. Não se trata de fazer um tratado teológico nem de estabelecer um novo ensinamento por parte da Igreja. É principalmente um documento que reflete as específicas realidades, personalidades, crenças e experiências dos jovens. Este é destinado aos padres sinodais. É destinado a direcionar os bispos a uma maior compreensão dos jovens; um instrumento de navegação para o próximo sínodo dos bispos sobre os “Jovens, a fé e o discernimento vocacional” em outubro de 2018. É importante que essas experiências sejam vistas e entendidas de acordo com os vários contextos nos quais os jovens estão inseridos.

Essas reflexões surgiram de um encontro de mais de 300 jovens representantes de todo o mundo, reunidos em Roma de 19 a 24 de março de 2018 por ocasião da Reunião Pré-sinodal dos jovens e da participação de 15.000 jovens através dos grupos do Facebook.

Este documento é um resumo de todas as contribuições dos participantes, divididos nos 20 grupos linguísticos e outros 6 grupos através das redes sociais. Esta será uma das fontes que contribuirá com o INSTRUMENTUM LABORIS do Sínodo dos bispos 2018. A nossa esperança é que a Igreja e outras instituições possam aprender com o resultado dessa reunião e escutar a voz dos jovens.

Dito isto, podemos continuar a explorar, com disponibilidade e confiança, os contextos nos quais o jovem está hoje, como ele se percebe em relação aos outros e como nós, como Igreja, podemos acompanhar os jovens para uma compreensão profunda de si mesmos e do lugar que ocupam no mundo.

Parte I – Desafios e oportunidades dos jovens no mundo de hoje.

1) A formação da personalidade.

Os jovens procuram o sentido de si mesmos em comunidades que sejam de sustento, edificantes, autênticas e acessíveis, ou seja, comunidades capazes de valorizá-los. Reconhecemos a existência de contextos que podem ajudar no desenvolvimento da própria personalidade, entre os quais a família ocupa uma posição privilegiada. Em muitas partes do mundo, o papel dos idosos e a reverência aos antepassados são fatores que contribuem com a formação da nossa identidade. Porém, isso não é um dado universalmente compartilhado, visto que os modelos da família tradicional estão em declínio em vários lugares. Isso traz sofrimento também para os jovens. Alguns se afastam das tradições familiares, esperando serem mais originais do que aquilo que consideram “parado no passado” ou “fora de moda”. Por outro lado, em alguns lugares do mundo, os jovens procuram sua identidade permanecendo apegados às suas tradições familiares, esforçando-se para serem fiéis ao modo no qual cresceram.

A Igreja, então, precisa sustentar melhor as famílias e a sua formação. Isso é significativamente importante nos países em que não há liberdade de expressão, onde aos jovens – especialmente aos menores – não é permitido participar da vida da Igreja; por isso devem ser formados na fé por suas próprias famílias, em seus lares.

O sentido de pertença é um fator significativo na formação da própria identidade. A exclusão social é um fator que contribui para a perda da autoestima e da identidade, frequente em muitos jovens. No Oriente Médio, muitos jovens se sentem obrigados a se converterem a outras religiões para serem aceitos pelos seus coetâneos e pela cultura dominante que os circunda. Isso é sentido também em comunidades de imigrantes na Europa, que, além disso, sofrem o peso da exclusão social e do abandono de sua identidade cultural para assemelharem-se à cultura dominante. Este é um campo no qual a Igreja precisa projetar e fornecer espaços de cura para nossas famílias em resposta a esses problemas, mostrando que existe espaço para todos.

Além disso, é oportuno observar que a identidade dos jovens também é formada por interações externas e pela pertença a grupos específicos, associações e movimentos ativos até mesmo fora da Igreja. Muitas vezes, as paróquias não são mais lugares de encontro. Reconhecemos também o papel dos educadores e amigos como responsáveis de grupos jovens que podem se tornar bons exemplos. Precisamos encontrar modelos atraentes, coerentes e autênticos. Precisamos de explicações racionais e críticas às questões complexas – as respostas simplistas não são suficientes.

Para alguns, a religião passou a ser considerada uma questão privada. Ás vezes sentimos que o sagrado parece algo separado da vida quotidiana. Muitas vezes, a Igreja parece severa demais e, geralmente, associada a um moralismo excessivo. É frequente, na Igreja, a dificuldade de superar a lógica do “sempre foi assim”. Precisamos de uma Igreja acolhedora e misericordiosa, que tem apreço pelas suas raízes e seus valores, amando a todos, até mesmo aqueles que não seguem o que acreditamos ser a fé “padrão”. Muitos daqueles que buscam uma vida pacífica terminam se dedicando a filosofias ou experiências alternativas.

Outros lugares importantes de pertença dos jovens são grupos como as redes sociais, os amigos e colegas de classe, assim como contextos sociais e o ambiente natural. Esses são lugares que muitos de nós passamos a maior parte do tempo. Frequentemente nossas escolas não nos educam para desenvolvermos um pensamento crítico.

Momentos cruciais para o desenvolvimento da nossa identidade incluem: escolher nossa faculdade, nossa profissão, decidir em que crer, descobrir nossa sexualidade e fazer escolhas definitivas na nossa vida.

Além disso, as experiências eclesiais podem tanto formar quanto influenciar a construção da nossa personalidade e identidade. Os jovens são profundamente interessados em assuntos como a sexualidade, as dependências, os casamentos falidos, as famílias desestruturadas, assim como nos grandes problemas sociais como o crime organizado, o tráfico de pessoas, a violência, a corrupção, abusos, feminicídio e toda forma de perseguição e degradação do nosso meio ambiente. Esses elementos são de profunda preocupação nas comunidades de todo o mundo. Temos medo porque em muitos dos nossos países encontramos instabilidade social, política e econômica.

Para lutarmos contra esses desafios, precisamos de inclusão, acolhimento, misericórdia e cuidado por parte da Igreja, seja como instituição que como comunidade de fé.

(2) Relação com os outros

Os jovens buscam dar sentido a um mundo muito complicado e diversificado. Temos acesso a novas oportunidades para superar as diversidades e as divisões no mundo, mas isso acontece em níveis e realidades diferentes. Muitos jovens são acostumados a ver a diversidade como uma riqueza e consideram um mundo pluralista como uma oportunidade. O multiculturalismo tem o potencial de favorecer um ambiente de diálogo e tolerância. Valorizamos a diversidade de ideias em um mundo globalizado, o respeito pela maneira de pensar do outro e a liberdade de expressão. Ao mesmo tempo, queremos também preservar nossa identidade cultural e evitar a uniformidade e a cultura do descarte. Não devemos temer nossas diversidades, mas valorizar nossas diferenças e tudo aquilo que nos faz únicos. Às vezes, nos sentimos excluídos por sermos cristãos em ambientes sociais que são contra a religião. Temos consciência que precisamos de encontros entre nós e com outros para poder construir laços profundos.

Em alguns países a fé cristã é minoria, enquanto outra religião é dominante. Os países com raízes cristãs têm uma tendência, hoje em dia, a rejeitar gradualmente a Igreja e a religião. Alguns jovens tentam dar um sentido à fé em uma sociedade cada vez mais secularizada, onde a liberdade de consciência e religião está sendo atacada. O racismo, em diferentes modos, é presente nos jovens de diversas partes do mundo. Existe ainda uma oportunidade para a Igreja de propor aos jovens um outro “modo” de viver, mas isso deve ser feito em meio aos contextos sociais muitas vezes complicados.

Dessa forma, é frequentemente difícil para os jovens escutar a mensagem do Evangelho. Isso é ainda mais acentuado em lugares onde infelizmente, mesmo existindo um geral apreço pela diversidade, as tensões sociais fazem parte da realidade. Uma atenção particular deve ser dada aos nossos irmãos e irmãs cristãos que são perseguidos. Recordamos que nossas raízes cristãs são banhadas no sangue dos mártires e, enquanto rezamos pelo fim de todo tipo de perseguição, somos agradecidos por seus testemunhos de fé em todo o mundo. Ainda não existe um consenso unânime em relação à questão dos imigrantes e dos refugiados e muito menos sobre as problemáticas que causam este fenômeno – tudo isso somado ao reconhecimento do dever universal de tutelar a dignidade de cada pessoa humana.

Em um mundo globalizado e inter-religioso, a Igreja precisa não somente de um modelo mas também de uma elaboração sobre as linhas teológicas já existentes para um pacífico e construtivo diálogo com pessoas de outras crenças e tradições.

(3) Os jovens e o futuro

Os jovens sonham com segurança, estabilidade e plenitude. Muitos esperam uma vida melhor para suas famílias. Em muitas partes do mundo, isso significa buscar a segurança pessoal; para outros especificamente quer dizer encontrar um bom trabalho e um certo estilo de vida. Identificar um lugar de pertença é um sonho comum que ultrapassa continentes e oceanos.

Aspiramos melhores oportunidades em uma sociedade que seja coerente e que confie em nós. Buscamos ser escutados, participando ativamente, e não somente espectadores na sociedade. Procuramos uma Igreja que nos ajude a encontrar nossa vocação, em todos os seus significados. Além disso, infelizmente, nem todos acreditamos que a santidade seja algo possível de se alcançar e que seja um caminho para a felicidade. Precisamos revitalizar o sentido de comunidade que nos conduza a um verdadeiro sentido de pertença.

Algumas preocupações práticas tornam nossa vida difícil. Muito jovens experimentaram grandes traumas em vários modos. Muitos ainda sofrem sob o peso de desestabilidades mentais ou deficiências físicas. A Igreja precisa sustentar melhor e prover recursos idôneos para nos assistir em nosso percurso de cura. Em algumas partes do mundo, a única via para se ter um futuro seguro é receber uma instrução universitária ou trabalhar excessivamente. Se, por um lado esse é um padrão comumente aprovado, por outro é importante dizer que nem sempre é possível executá-lo por uma série de circunstâncias nas quais os jovens se encontram. Essa ideia prevalece e tem mudado nosso modo de ver o trabalho. Mesmo diante desta realidade, os jovens afirmam que existe uma dignidade intrínseca ao trabalho. Às vezes, acabamos renunciando aos nossos sonhos. Temos muito medo e alguns de nós pararam de sonhar. Isso se percebe nas muitas pressões socioeconômicas que ameaçam a esperança dos jovens. Acontece então que não temos nem mesmo mais a capacidade de continuar sonhando.

Por esta razão os jovens se comprometem com os problemas de injustiças sociais do nosso tempo. Buscamos a oportunidade de trabalhar e construir um mundo melhor. Com este propósito, a doutrina social da Igreja Católica é, de modo particular, instrumento privilegiado de informação para os jovens católicos que se identificam com essa vocação. Queremos um mundo de paz, com uma ecologia integral unida à uma economia global sustentável. Para os jovens que vivem em regiões instáveis e vulneráveis, existe a esperança e uma expectativa de ações concretas da parte dos governos e da sociedade: acabar com os conflitos, com a corrupção; ter atenção às mudanças climáticas, às desigualdades sociais e à segurança. É importante saber que, independentemente do contexto, todos compartilham a mesma aspiração inata por ideais nobres: paz, amor, confiança, igualdade, liberdade e justiça.

Os jovens sonham com uma vida melhor, mas muitos são obrigados a migrar para encontrar uma melhor situação econômica e ambiental. Desejam a paz e são, em particular modo, atraídos pelo “mito do Ocidente”, assim como é representado pela mídia. Os jovens africanos sonham com uma Igreja local autônoma, que não alimente a dependência, mas que seja uma contribuição viva para suas comunidades. Mesmo com tantos conflitos e ondas de violência, os jovens permanecem cheios de esperança. Em muitos países ocidentais, seus sonhos têm como base o desenvolvimento pessoal e a realização de si.

Em muitos lugares existe uma grande discrepância entre os desejos dos jovens e a sua capacidade de tomar decisões a longo prazo.

(4) Relação com a tecnologia.

Quando nos referimos à tecnologia, é necessário entender o duplo aspecto do seu uso. Se, por um lado, os progressos tecnológicos melhoraram sensivelmente a nossa vida, é igualmente necessário usá-la de maneira prudente. Como em todas as coisas, um uso desregrado pode trazer consequências negativas. Enquanto para alguns a tecnologia tem enriquecido nossas relações, para muitos outros têm gerado uma forma de dependência, tomando o lugar das relações humanas e até mesmo da relação com Deus. Mesmo assim, a tecnologia é considerada parte integrante da vida dos jovens e deve ser entendida como tal. Paradoxalmente, em alguns países, a tecnologia, em particular a Internet, é gratuitamente acessível, enquanto os serviços de necessidades básicas são insuficientes.

O impacto das mídias sociais na vida dos jovens não pode ser desvalorizado. As mídias sociais são parte integrante da identidade dos jovens e do seu modo de viver. Como nunca, os ambientes digitais têm o poder sem precedentes de unir pessoas geograficamente distantes. A troca de informações, ideais, valores e interesses comuns é hoje muito mais possível. O acesso a instrumentos de formação online trouxe novas oportunidades educativas para os jovens que vivem em áreas remotas e fez do conhecimento do mundo algo mais acessível, até mesmo com um só click.

Todavia, a tecnologia tem mostrado uma outra face, aquela de certos vícios. Este perigo se manifesta de diversas formas como isolamento, preguiça, desolação e tédio. É evidente que os jovens de todo o mundo estejam consumindo excessivamente produtos eletrônicos. Embora vivamos em um mundo hiperconectado, a comunicação entre os jovens permanece limitada a grupos de pessoas que pensam como eles. Faltam espaços e oportunidades para que sejam feitas experiências com a diversidade. A cultura destes meios de comunicação em massa tem muita influência na vida e nos ideais dos jovens. O advento das redes sociais trouxe novos desafios em relação à enorme influência que essas mesmas redes têm sobre os jovens.

Frequentemente os jovens tendem a se comportarem nos ambientes online diferente de como se comportam nos ambientes offline. É necessário oferecer uma formação aos jovens de como ter uma vida digital sadia. As relações online podem se tornar desumanas. Os espaços digitais nos deixam cegos para a fragilidade do outro e impedem um olhar profundo. Problemas como a pornografia distorcem a percepção que o jovem tem da sua própria sexualidade. A tecnologia usada deste modo cria uma realidade paralela ilusória, que ignora a dignidade humana.

Outros riscos incluem: a perda de identidade relacionada a uma representação errada da pessoa, uma construção virtual da personalidade e a perda de uma presença social embasada na realidade. Além disso, os riscos a longo prazo incluem: perda de memória, de cultura e de criatividade diante do acesso imediato à informação e a perda de concentração ligada à fragmentação. Além do mais, existe uma cultura ditatorial da aparência.

Falar da tecnologia não se limita a internet. No campo da bioética, a tecnologia traz novos desafios e novos riscos em relação à proteção da vida humana em cada fase. O advento da inteligência artificial e das novas tecnologias como a robótica e a automação coloca em risco muitos trabalhadores, reduzindo as oportunidades de empregos. A tecnologia pode ser nociva à dignidade humana se não é usada com conhecimento e prudência: a dignidade humana deve sempre guiar o uso da mesma.

Oferecemos aqui duas propostas concretas no que toca à tecnologia. Primeiramente, a Igreja, comprometendo-se com um diálogo constante com os jovens, deveria aprofundar sua compreensão da tecnologia de modo a poder nos ajudar a ponderar o seu uso. Além disso, a Igreja deveria considerar a tecnologia – em particular a Internet – como um terreno fértil para a Nova Evangelização. Os resultados dessa reflexão deveriam ser formalizados através de um documento oficial da Igreja. Em segundo lugar, a Igreja deveria voltar sua atenção para o mal da pornografia, incluindo os abusos de menores na rede, o cyberbullismo e os prejuízos que isso traz para a humanidade.

                                                    
(5) A busca de sentido de vida

Muitos jovens não sabem responder à pergunta: “qual o sentido da sua vida?”. Nem sempre conseguem coligar a vida a um sentido transcendental. Vários jovens, perdendo a confiança nas instituições, não se reconhecem mais nas religiões tradicionais e não se definem mais como “religiosos”. Porém, os jovens são abertos à espiritualidade.

Vários lamentam-se que poucos são seus coetâneos que buscam as respostas do sentido de vida em um contexto de fé e de Igreja. Em diversos lugares do mundo, os jovens dão significados às suas vidas através de seus trabalhos e sucessos pessoais. A dificuldade em encontrar estabilidade nesses âmbitos produz insegurança e ansiedade. Muitos são obrigados a migrar em busca de um contexto que lhes permita trabalhar. Outros ainda abandonam suas famílias e cultura devido à instabilidade econômica.

Além disso, outros evidenciam que, embora os jovens se interroguem sobre o sentido de sua existência, isso nem sempre significa que estejam prontos a se dedicarem em maneira decisiva a Jesus ou à Igreja. Hoje a religião não é mais vista como o principal meio através do qual os jovens buscam sentido: dirigem-se, frequentemente, a tendências e ideologias modernas. Os escândalos atribuídos à Igreja – tanto os reais, quanto aqueles percebidos como tais – afetam a confiança dos jovens na Igreja e nas instituições tradicionais por ela representadas.

A Igreja pode ter um papel vital na certificação de que esses jovens não sejam excluídos, mas que se sintam aceitos. Isso acontece também quando buscamos promover a dignidade das mulheres, tanto na Igreja quanto nos contextos sociais mais amplos. Hoje a falta de igualdade entre homens e mulheres é um problema difuso na sociedade. Isso acontece também na Igreja. Existem grandes exemplos de mulheres que realizam um serviço em comunidades religiosas, consagradas, tendo papel de grande responsabilidade na vida dos leigos. No entanto, para algumas jovens esses exemplos não são sempre visíveis. Uma pergunta-chave surge destas reflexões: “quais os lugares em que as mulheres podem prosperar dentro da Igreja e da sociedade?”.

A Igreja pode lidar com esses problemas com um olhar aberto às diversas ideias e experiências.

Geralmente existe uma grande divergência entre os jovens, tanto na Igreja quanto no mundo, em relação aos ensinamentos que são particularmente controversos atualmente. Entre estes encontramos: contracepção, aborto, homossexualidade, convivência, matrimônio e também como o sacerdócio é entendido nas diversas realidades da Igreja. É importante notar que, independentemente do nível de compreensão dos jovens dos ensinamentos da Igreja, ainda existem divergências e um debate aberto entre os próprios jovens sobre essas problemáticas. Consequentemente, muitos gostariam que a Igreja mudasse seus ensinamentos ou, ao menos, que forneça melhores explicações e formação sobre essas questões. Mesmo com este debate interno, os jovens católicos com convicções em contraste com os ensinamentos da Igreja desejam, de toda forma, fazer parte da Igreja. Por sua vez, muitos jovens católicos aceitam estes ensinamentos e encontram neles uma fonte de alegria. Desejam que a Igreja não somente mantenha firme seus ensinamentos, mesmo se impopulares, mas os proclame com ainda mais profundidade.

No mundo, a relação com o sagrado é uma questão complexa. O cristianismo é visto, muitas vezes, como algo que pertence ao passado, e o seu valor ou relevância para nossas vidas não são mais compreendidos. Ao mesmo tempo, em algumas comunidades observa-se uma prioridade ao sagrado enquanto a vida cotidiana é estruturada em torno à religião. Em alguns contextos asiáticos, o sentido de vida pode ser associado a filosofias orientais.

Por fim, muitos de nós desejamos fortemente conhecer Jesus, mas geralmente temos dificuldade de compreender que somente Ele é a fonte de uma verdadeira descoberta de si, pois é na relação com Ele que a pessoa descobre si mesma. Consequentemente, evidenciamos que os jovens pedem testemunhos autênticos: homens e mulheres capazes de expressar com paixão sua fé e relação com Jesus, e ao mesmo tempo, de encorajar outros também a se aproximarem, se encontrarem e se apaixonarem por Jesus.

 PARTE II – FÉ E VOCAÇÃO, DISCERNIMENTO E ACOMPANHAMENTO

É uma alegria e uma responsabilidade sagrada acompanhar os jovens em sua trajetória de fé e discernimento. Os jovens são mais receptivos diante de “uma narrativa de vida” que diante de um abstrato sermão teológico; eles são conscientes e atentos, empenhando-se ativamente no mundo e na Igreja. Por isso, é importante compreender como os jovens percebem a fé, a vocação e os desafios que se apresentam no discernimento.

(6) Os jovens e Jesus

O relacionamento que muitos jovens têm com Jesus é tão variado quanto o número de jovens no mundo. Muitos deles veem Jesus como seu Salvador e Filho de Deus. Ainda, muitas vezes, os jovens encontram a proximidade de Jesus através da Sua Mãe, Maria. Outros, ao contrário, podem não ter tal relação com Jesus, mas o veem mesmo assim como um referencial moral e uma boa pessoa. Muitos jovens percebem Jesus como um personagem histórico, pertencente a uma época e a uma cultura passadas, e por isso, não relevante para as suas vidas. Outros, ainda, percebem Jesus distante de sua experiência humana, distância que para eles é perpetrada pela Igreja. Além disso, as falsas imagens que alguns jovens têm de Jesus muitas vezes os afastam dele. Ideais errôneos de modelos cristãos parecem como algo fora de alcance, assim como os preceitos dados pela Igreja. Por causa disso, o Cristianismo é percebido por alguns como um padrão inalcançável.

Um modo de superar a confusão que os jovens têm a respeito de Jesus compreende um retorno às Escrituras, de modo a poder aprofundar o conhecimento da pessoa de Cristo, da Sua vida, e da Sua humanidade. Os jovens têm a necessidade de encontrar a missão de Jesus, e não aquilo que a eles pode parecer uma expectativa moral inalcançável. Em todo caso, se sentem inseguros sobre como fazer tudo isso. O encontro com Jesus deve ser promovido entre os jovens e a Igreja deve se dirigir a eles.

(7) A Fé e a Igreja

Para muitos jovens, a fé se tornou algo inerente mais à esfera privada do que a um evento comunitário, e as experiências negativas que alguns destes tiveram com a Igreja certamente contribuíram para esta percepção. Muitos jovens se relacionam com Deus em um nível meramente pessoal, afirmando serem “espirituais, mas não religiosos”, ou mesmo concentrando-se somente em uma relação pessoal com Jesus Cristo. Alguns jovens pensam que a Igreja desenvolveu uma cultura na qual se presta mais atenção às instituições do que à pessoa de Cristo. Outros, por sua vez, consideram que os líderes religiosos são distantes, mais preocupados com a dimensão administrativa do que com a criação de uma comunidade; ainda mais, alguns veem a Igreja como uma entidade irrelevante. Como se a Igreja se esquecesse que é constituída por pessoas e não por estruturas. Existem jovens que, ao contrário, experimentam uma Igreja próxima, como no caso da África, da América Latina e da Ásia, assim como em diversos movimentos de escala mundial. Mesmo jovens que não vivem o Evangelho sentem uma ligação com a Igreja. Este sentido de pertença e família sustenta os jovens em seu caminho. Sem esta ligação e ponto de referência comunitário, correm o risco de se encontrarem sós diante de seus desafios. Por outro lado, existem muitos jovens que não percebem a necessidade de serem parte da Igreja e que encontram sentido para sua existência fora dela.

Infelizmente, em algumas partes do mundo, os jovens estão deixando a Igreja em grande número. Entender os motivos deste fenômeno é crucial para poder continuar em frente. Os jovens que não têm ligação com a Igreja, ou que estão distantes dela, o fazem porque experimentaram indiferença, julgamento e rejeição. É possível participar de uma missa e sair sem ter experimentado nenhum sentido de comunidade ou de família enquanto Corpo de Cristo. Os cristãos professam um Deus vivo, mas não obstante a isso, encontramos celebrações e comunidades que parecem mortas. Os jovens são atraídos pela alegria, que deveria ser um sinal distintivo da nossa fé. Desejam ver uma Igreja que seja testemunha viva daquilo que ensina, e que mostre a autenticidade do caminho em direção à santidade, compreendendo a admissão dos erros cometidos e tendo a humildade de pedir perdão. Os jovens esperam que as lideranças da Igreja – consagrados, religiosos e leigos – sejam o mais forte exemplo disso. Saber que os modelos de fé são autênticos, mas também vulneráveis, faz os jovens se sentirem livres para também eles o serem. Não se deseja aqui negar a sacralidade de seus ministérios, mas exercê-los de modo que os jovens possam ser inspirados por eles no caminho para a santidade.

Muitas vezes os jovens têm dificuldade de encontrar um espaço na Igreja no qual possam participar ativamente e ter responsabilidades. Os jovens, a partir de suas experiências, percebem uma Igreja que os considera demasiado jovens e pouco experientes para tomar decisões, e que deles se espera somente erros. Deve existir confiança no fato de que os jovens podem guiar e ser também protagonistas de seu caminho espiritual. Não se trata somente de imitar os mais sábios, mas de assumir verdadeiramente a responsabilidade da própria missão e de vivê-la seriamente. Os movimentos e as novas comunidades na Igreja têm desenvolvido caminhos fecundos não só para a evangelização dos jovens, mas também para legitimá-los a ser os principais embaixadores da fé para os seus coetâneos.

Uma outra percepção de muitos jovens é a falta de clareza acerca do papel das mulheres na Igreja. Se, já de uma parte, é difícil para os jovens terem um sentido de pertença e liderança na Igreja, isso é ainda mais difícil para as mulheres jovens. Por isso, seria de grande ajuda se a Igreja não só afirmasse o papel da mulher, mas que também ajudasse os jovens a explorá-lo e a compreendê-lo sempre mais claramente.

(8) O sentido vocacional da vida

É preciso encontrar uma simples e clara compreensão do significado de vocação, que seja capaz de dar destaque ao sentido do chamado, da missão, do desejo e da aspiração em persegui-la. Um significado capaz de torná-la um conceito com o qual os jovens possam relacionar-se neste momento de suas vidas. O termo “vocação” foi por vezes apresentado como um conceito meramente intelectual, entendido por muitos como fora de alcance. Os jovens conseguem entender o sentido de dar um significado à vida e de existir no mundo por uma razão, mas muitos não sabem ligar este sentido à vocação entendida como dom e chamado de Deus.

O termo “vocação” se torna então, nos ambientes eclesiásticos, sinônimo do chamado ao sacerdócio e à vida religiosa. Se, de um lado, estas são santas vocações e dignas de serem celebradas, por outro é importante que os jovens saibam que sua vocação vem da dignidade intrínseca da própria vida e que cada um tem a responsabilidade de discernir ‘quem’ é chamado a ser e ‘o quê’ é chamado por Deus a fazer. Existe uma plenitude própria que é evidenciada em cada vocação para que os jovens possam abrir os seus corações a esta possibilidade.

Os jovens pertencentes às diversas tradições religiosas incluem no termo vocação: a vida, o amor, as aspirações, a busca do próprio lugar no mundo e o modo para contribuir com este, juntamente com as vias para poder deixar um sinal tangível. A ideia geral de que a vocação é um chamado não é clara aos jovens, e por isso é necessária uma maior compreensão da vocação cristã (ao sacerdócio, à vida religiosa, ao apostolado laical, ao matrimônio e à família, etc.) e do chamado universal à santidade.

(9) Discernimento vocacional

Discernir a própria vocação representa um desafio, especialmente à luz dos equívocos inerentes a este termo, porém os jovens o aceitam mesmo assim. Este processo de discernimento pode ser uma aventura que acompanha o caminho da vida. Dito isto, muitos jovens não sabem envolver-se neste processo de discernimento, e isto constitui uma oportunidade para que a Igreja os acompanhe.

São muitos os fatores que influenciam a capacidade de um jovem no momento de discernir a própria vocação: a Igreja, as diferenças culturais, as exigências do trabalho, o mundo digital, as expectativas da família, a saúde mental e o estado de ânimo, ruídos, a pressão dos outros jovens, os cenários políticos, a sociedade, a tecnologia, etc… Passar tempos em silêncio, em introspecção e rezando, assim como lendo a Escritura e aprofundando o conhecimento de si, são oportunidades que poucos jovens de fato desfrutam. É necessária uma melhor introdução a estas práticas. Envolver-se com grupos de oração, movimentos e comunidades construídas sob o interesse comum pode também ajudar os jovens em seu discernimento.

Reconhecemos de modo particular o excepcional desafio que as jovens moças devem enfrentar no momento de discernir a sua vocação e seu espaço na Igreja. Assim como o “sim” de Maria ao chamado de Deus é fundamental na experiência cristã, é necessário dar às mulheres de hoje espaços nos quais possam dizer “sim” à sua vocação. Encorajamos a Igreja a aprofundar a compreensão do papel da mulher e valorizar as jovens, sejam essas leigas ou consagradas, no mesmo espírito de amor que a Igreja tem por Maria, mãe de Jesus.

(10) Jovens e acompanhamento

Os jovens buscam companheiros de caminho, buscam estar em torno de homens e mulheres fiéis que comuniquem a verdade, ao mesmo tempo deixando-os exprimir a sua consciência de fé e de vocação. Tais pessoas não devem ser modelos de fé irrepreensíveis, mas testemunhos vivos, capazes de evangelizar através de suas vidas. São muitos os que podem ser exemplos à altura desta expectativa: podem ser rostos familiares no próprio lar, colegas da comunidade local, ou mártires que testemunham a sua fé doando suas vidas.

Estes guias devem possuir algumas qualidades: ser um cristão fiel e engajado na Igreja e no mundo; buscar constantemente a santidade, não julgar, mas cuidar; escutar ativamente as necessidades dos jovens e responder com gentileza; ser profundamente amoroso e ter consciência de si, saber reconhecer os próprios limites, conhecer a alegria e as dores da vida espiritual.

Uma qualidade de importância primária para os educadores é saber reconhecer-se humano e capaz de compreender os erros: não ser perfeito, mas um pecador perdoado. Acontece muitas vezes que os guias e lideranças são colocados em um pedestal, e sua eventual ‘queda’ pode causar um impacto devastador na capacidade dos jovens de se engajarem na Igreja.

As lideranças não devem conduzir os jovens a ser seguidores passivos, mas caminhar junto deles, deixando-os serem participantes ativos desta viagem. Devem respeitar a liberdade do processo de discernimento de um jovem, fornecendo os instrumentos necessários para o cumprimento adequado deste processo. Um acompanhador deve acreditar de todo o coração na capacidade que um jovem tem de participar da vida da Igreja. Um guia deve cultivar a semente da fé nos jovens, sem nenhuma expectativa de ver os frutos do trabalho, pois este é feito pelo Espírito Santo. Este papel não pode ser restrito aos sacerdotes e religiosos, mas também os leigos deveriam ser legitimados a desenvolvê-lo. Todos estes guias e acompanhadores deveriam poder ser beneficiados por uma boa formação permanente.

Parte III – Atividades formativas e pastorais da Igreja

11) O estilo da Igreja

Hoje os jovens procuram uma Igreja autêntica. Queremos dizer, especialmente para a hierarquia da Igreja que ela deve ser transparente, acolhedora, honesta, convidativa, comunicativa, acessível, alegre e interativa com a comunidade.

Uma Igreja crível é aquela que não tem medo de ser vista como vulnerável. A Igreja deveria ser sincera em admitir os erros passados e presentes e se apresentar como uma Igreja feita de pessoas capazes de erros e incompreensões. A Igreja deveria condenar atos como abusos sexuais e o mau uso do poder e da riqueza. A Igreja deveria continuar a reforçar sua posição em não tolerar o abuso sexual dentro das suas instituições, e assim, reconhecendo-se mais humilde e humana aumentaria, sem dúvida, sua credibilidade entre os jovens do mundo. Se a Igreja agir deste modo, ela se distinguirá das demais instituições e autoridades que, em grande parte, despertam a desconfiança dos jovens.

No mais, a Igreja atrai a atenção dos jovens na medida em que está enraizada em Jesus Cristo. Cristo é a Verdade que faz a Igreja ser diferente de qualquer outro grupo secular com o qual poderíamos nos identificar. Portanto, pedimos que a Igreja continue a proclamar a Alegria do Evangelho guiada pelo Espírito Santo.

Nós desejamos que a Igreja difunda essa mensagem através dos meios modernos de comunicação e expressão. Os jovens têm muitos questionamentos sobre a fé, mas desejam respostas que não sejam aguadas ou que utilizem formulações pré-fabricadas. Nós, a Igreja jovem, pedimos que os nossos líderes falem em termos práticos sobre assuntos controversos como homossexualidade e questões de gênero, dos quais os jovens já conversam livremente sem tabus. Alguns percebem a Igreja como anticientífica, por isso o seu diálogo com a comunidade científica também é importante, já que a ciência ilumina a beleza da criação. Neste contexto, a Igreja deveria também cuidar de questões ambientais, especialmente a poluição. Nós também queremos uma Igreja empática que alcança os que estão às margens, os perseguidos e os pobres. Uma Igreja atrativa é uma Igreja relacional.

12) Jovens Protagonistas

A Igreja deve envolver jovens em seus processos de tomadas de decisão e oferecer-lhes mais funções de liderança. Essas funções devem ser na paróquia, diocese, a nível nacional e internacional, e até em comissões do Vaticano. Nós sentimos fortemente que estamos prontos para sermos líderes, amadurecermos e aprendermos com os membros mais experientes da Igreja, religiosos ou leigos. Nós precisamos de programas de liderança e formação para o desenvolvimento contínuo de lideranças jovens.

Algumas jovens sentem falta de referências femininas dentro da Igreja, com quem também elas desejam contribuir com seus talentos intelectuais e profissionais. Nós também acreditamos que os seminaristas e religiosos deveriam ter uma maior capacidade para acompanhar os jovens.

Além deste maior envolvimento institucional, queremos também ser uma presença alegre, entusiasmada e missionária dentro da Igreja. Nós também expressamos fortemente o desejo de participar como uma voz criativa proeminente. Essa criatividade é frequentemente encontrada na música, liturgia e artes, mas até o momento, esse é um potencial inexplorado, visto que a parte criativa da Igreja vem sendo dominada pelos membros mais velhos.

Existe também o desejo por comunidades fortes, nas quais os jovens partilhem suas lutas e testemunhos uns com os outros. Em muitos lugares, isso já acontece por iniciativas de leigos, movimentos e associações, mas estas têm necessidade de receber maior suporte, oficial e financeiramente.

Os jovens da Igreja querem ter também um olhar para fora. Eles têm paixão por atividades políticas, civis e humanitárias. Eles querem agir como católicos na esfera pública para o aperfeiçoamento da sociedade como um todo. Em todas estas dimensões da vida da Igreja, os jovens desejam ser acompanhados e levados à sério, como membros responsáveis da Comunidade eclesial.

13) Lugares preferenciais

Nós gostaríamos que a Igreja nos encontrasse em lugares onde ela atualmente tem pouca ou nenhuma presença.

Particularmente, desejamos que a Igreja nos encontre nas ruas, onde se encontram pessoas de todos os tipos. A Igreja deve buscar formas novas e criativas de encontrar as pessoas exatamente onde elas vivem, em lugares onde socializam naturalmente: bares, cafés, parques, academias, estádios e outros centros culturais populares. Outros lugares menos acessíveis também deveriam ser considerados, como os ambientes militares, os locais de trabalho e as áreas rurais. De igual modo, nós precisamos da luz da fé em lugares mais desafiantes como orfanatos, hospitais, bairros marginalizados, regiões devastadas pela guerra, prisões, centros de reabilitação e zonas de prostituição.

 
Enquanto a Igreja já nos encontra em escolas e universidades, queremos ver sua presença nestes lugares de maneira mais consistente e eficaz. Os recursos não são desperdiçados quando investidos nessas áreas pois são estes os lugares onde muitos jovens passam grande parte do seu tempo e frequentemente se envolvem com pessoas de várias classes sociais. Muitos já são membros de comunidades paroquiais ou de várias instituições, associações e organizações dentro da Igreja. É indispensável que aqueles que já estão engajados sejam apoiados pela comunidade eclesial para que sejam fortalecidos e inspirados em sua missão de evangelização no mundo.

Assim como podemos ser encontrados em muitos lugares físicos, o mundo digital tem de ser levado em conta pela Igreja. Nós desejamos uma Igreja que seja acessível por meio das mídias sociais assim como outros espaços digitais, para mais facil e efetivamente disponibilizar informações da Igreja, seus ensinamentos, e para favorecer a formação dos jovens.

Em resumo, queremos ser encontrados onde estamos – intelectualmente, emocionalmente, espiritualmente, socialmente e fisicamente.

14) Iniciativas a serem reforçadas

Nós esperamos por experiências que possam aprofundar nossa relação com Jesus no mundo real. Iniciativas bem-sucedidas oferecem-nos uma experiência com Deus. Portanto, concordamos com iniciativas que nos dão um entendimento dos Sacramentos, oração e liturgia, para que possamos partilhar e defender a nossa fé no mundo secularizado.

Os Sacramentos são de grande valor para nós e desejamos conhecer os seus mais profundos significados nas nossas vidas. Isso vale para a preparação para o Matrimônio, o Sacramento da Reconciliação, o Batismo de crianças e assim por diante. Por causa da falta de uma apresentação clara e atrativa daquilo que os sacramentos verdadeiramente oferecem, alguns de nós os recebemos sem valorizá-los adequadamente.

Algumas iniciativas frutuosas são: eventos como a Jornada Mundial da Juventude, cursos e programas de formação, em especial aos que são novos na fé; pastorais sociais, catecismo para jovens, retiros de finais de semana e exercícios espirituais, eventos carismáticos, coros e grupos de oração, peregrinações, iniciativas esportivas cristãs, grupos paroquiais ou diocesanos, grupos de estudo bíblico, grupos universitários cristãos, diferentes aplicativos de fé e a imensa variedade de movimentos e associações dentro da Igreja.

Nós gostamos de eventos grandes e bem organizados, mas não significa que todos os eventos precisam ser de grande porte.  Pequenos grupos locais onde podemos expressar dúvidas e partilhar uma convivência cristã também são primordiais para mantermos a fé. Esses pequenos eventos, nos vários contextos sociais, preenchem a lacuna entre os grandes eventos da Igreja e a paróquia. Reunir-se dessa forma é especialmente importante nos países onde os cristãos são menos aceitos.

Os aspectos sociais e espirituais das iniciativas da Igreja podem ser complementares uns aos outros. Existe também um desejo de um alcance social e de evangelização das pessoas que lutam contra doenças e vícios, assim como o envolvimento em um diálogo com pessoas de diferentes religiões e contextos culturais e socioeconômicos. A Igreja deve reforçar as iniciativas que combatem o tráfico humano e migrações forçadas, assim como o narcotráfico que é especialmente importante na América Latina.

15) Instrumentos a serem usados

A Igreja deve adotar uma linguagem que a torne capaz de se relacionar com os costumes e culturas dos jovens, de modo que todas as pessoas tenham a oportunidade de ouvir a mensagem do Evangelho. Somos apaixonados pelas diferentes expressões da Igreja. Alguns têm um forte entusiasmo pelo “fogo” dos movimentos Carismáticos contemporâneos, que focam na ação do Espírito Santo; outros são atraídos pelo silêncio, meditação e tradições litúrgicas. Todas essas coisas são boas pois nos ajudam a rezar de formas diferentes. Fora da Igreja, muitos jovens vivem uma espiritualidade difícil, mas a Igreja poderia ajudá-los com os instrumentos adequados.

  • Multimídia – A internet oferece à Igreja uma oportunidade de evangelização sem precedentes, especialmente por meio das mídias sociais e dos conteúdos de vídeo online. Como jovens, somos nativos no meio digital e por isso podemos guiar a Igreja neste caminho. Também é um lugar fantástico de encontro e relação com pessoas de outra fé ou sem fé alguma. As séries de vídeos do Papa Francisco são um bom exemplo do potencial de evangelização da internet.
  • Experiências de um Ano (Ano Sabático) – Anos de serviço dentro dos movimentos e obras de caridade dão aos jovens a experiência de missão e espaço para o discernimento. Também criam a oportunidade para a Igreja encontrar os não- crentes e pessoas de uma outra fé. 
  • A Beleza e as Artes – A beleza é universalmente reconhecida e a Igreja tem um belo histórico de evangelizar por meio das artes, como a música, artes visuais, arquitetura, design etc. Os jovens respondem a isto com facilidade e gostam de ser criativos e expressivos.
  • Adoração, Meditação e Contemplação – Nós também apreciamos o contraste do silêncio oferecido pela tradição da Igreja, na Adoração Eucarística e na oração contemplativa. Isto nos afasta dos barulhos constantes da comunicação moderna e assim podemos nos encontrar com Jesus. O silêncio é onde podemos ouvir a voz de Deus e discernir a Sua Vontade para nós. Muitos, mesmo fora da Igreja, também apreciam a meditação, e isto pode ser uma ponte para aqueles que, mesmo não tendo fé, se reconhecem como pessoas espirituais. Pode ser contra-cultural, mas é eficaz.
  • Testemunho – As histórias pessoais de quem fez parte da Igreja são meios eficazes de evangelizar já que experiências pessoais não podem ser contraditas. Testemunhos de cristãos modernos e aqueles perseguidos no Oriente Médio são particularmente fortes sinais da vida plena que se encontra na Igreja. As histórias dos santos são muito relevantes para nós, pois são caminhos rumo à santidade e à plenitude.
  • O processo Sinodal – Ficamos entusiasmados por termos sido levados a sério pela hierarquia da Igreja e sentimos que este diálogo entre os jovens e a Igreja madura é um processo vital e frutuoso. Seria uma pena se a este diálogo não fosse dada a oportunidade de continuar crescendo! Esta cultura de abertura é extremamente saudável para nós.

Ao início deste encontro Pré-Sinodal, e neste espírito de diálogo, o Papa Francisco propôs o seguinte trecho bíblico: “Depois de tudo isso, derramarei o meu espírito sobre todos os viventes. E, então, todos os vossos filhos e filhas falarão como profetas: Os anciãos receberão em sonho suas mensagens e os jovens terão visões” (Joel 3,1).

“Eu passei dois anos com o Papa Francisco. E isso me mudou para sempre.”

Wim Wenders aos 40 anos contava sobre os anjos de Berlim e aos 72 apresenta para Cannes e para o mundo seu filme sobre as palavras e o pensamento de Bergoglio, “Papa Francisco – Um homem de palavra”.

Wenders, de que forma esse encontro mudou você?

Suas palavras tiveram um impacto direto sobre a minha vida. Ele pergunta: podemos viver com menos? A resposta é sim. Eu senti que eu não teria o direito de fazer este filme se eu não tivesse seguido o seu exemplo. Eu e minha esposa Donata mudamos nossa vida e foi um grande alívio. Ele diz: para a saúde mental, é preciso descansar um dia por semana. Eu percebi que eu não parava há anos. O que eu não estava passado tempo suficiente com a minha família, brincando com meus quatro netos. Ele fala coisas simples que todos nós sabemos, mas temos a tendência de esquecer.

Como foi o vosso encontro?

Nós nos conhecemos em seu escritório no Vaticano. Eu tinha estudado, eu achava que sabia muito sobre ele, mas mesmo assim ainda estava nervoso. Ele chegou sozinho, olhou para nós de forma franca, apertou as mãos de todos. Isso aliviou bastante a pressão.

O que mais lhe impressionou nele?

A coragem, a energia positiva que você percebe fisicamente quando entra na sala. E o senso de humor. Ele ria do meu espanhol estropiado e muitas vezes se percebe um sorriso no fundo de seus olhos. Tem a propensão para se divertir. Quando você olha em seus olhos, vê o velho garotinho que ele foi.

As palavras do Papa, no filme, são mais sobre os homens do que sobre Deus.

Não é um teólogo, em primeiro lugar está interessado nas pessoas, em se comunicar com os outros, nas suas necessidades. Com ele, a Igreja não é um instrumento de poder, mas da comunidade, como era na origem.

Não é um filme só para os católicos.

Eu não queria fazer um filme para aqueles que já o conhecem. O Papa Francisco quer falar com todas as pessoas de boa vontade. Não para convertê-las, mas para torná-las conscientes que precisamos remover a superfície e chegar à essência da igualdade.

Há uma cena em que ele desembarca nos EUA a bordo de um carro popular.

Desde o início de suas viagens, ele chocou a todos ao rejeitar a limusine. Quando se encontrou conosco para filmar nos jardins do Vaticano, saiu de um Fiat Panda.

Nestes anos com Francisco, você testemunhou momentos de fraqueza ou desconforto?

Eu vi nele uma esperança sem fim. Mas também a raiva, quando retornou do campo de refugiados em Lesbos. E quando fala de pedofilia, quando diz “Tolerância zero”, você entende que ele gostaria de fazer tudo e imediatamente, mas não pode. Você percebe a sua frustração.

Porque o Vaticano escolheu você para o documentário?

Por minha habilidade de desaparecer, deixando que seja o assunto do filme a brilhar. Vale para os músicos do Buena Vista Social Club, para a arte de Pina Bausch e Sebastião Salgado. Alguns fazem documentários de denúncia, eu os faço para compartilhar o que eu amo. A única regra que eu coloquei foi que o filme não poderia ser uma produção do Vaticano, eu tinha que fazer isso sozinho.

Por que optou por inserções ficcionais em preto e branco sobre São Francisco?

Quando ele foi eleito eu fiquei imediatamente impressionado com a escolha de se chamar Francisco. Esse nome traz uma grande obrigação, ninguém teve a coragem de escolhê-lo antes. A ideia de vincular o meu filme ao santo já estava lá desde o início. São Francisco é um grande herói da humanidade, visionário e revolucionário. Mas nem todos o conhecem. E nenhum filme sobre ele me impressionou, exceto aquele de Rossellini. Com pouco dinheiro rodei as cenas, usando uma filmadora da década de 1920 que eu sabia teria proporcionado um retorno ao passado. Muitos, depois da projeção, me perguntaram: “Onde você conseguiu aquelas imagens de arquivo?.

Qual é a sua relação com a religião?

Eu tive uma criação católica. Meu pai era médico, a sua missão era, como cristão, estar ao serviço de seus pacientes. Antes de cursar medicina ele tinha pensado em teologia. Aconteceu isso também comigo, até os dezesseis anos, depois vieram o rock and roll, o cinema… Em 1967 eu era um estudante, obviamente socialista. Nos anos 1970 eu voltei para minha crença, mas dessa vez como protestante. Hoje, não importa, sou um cristão e acredito no movimento ecumênico, tenho amigos católicos, frequento igrejas católicas e protestantes.

O Papa Francisco viu o filme?

Quando o conheci, ele nunca tinha visto um dos meus filmes, nem vai ver esse. Ele me chamou: “Eles me disseram que você fez um bom trabalho. Eu tenho muito respeito, mas o cinema não é uma coisa para mim.

Fonte: La Repubblica

Veja o Trailler

Homossexual segundo o mundo e segundo Cristo

Recentemente apareceram na internet textos escritos por religiosos católicos com ideias sobre a homossexualidade que em quase nada condizem com a fé e a moral da Igreja de Cristo. É assim mesmo: os tempos atuais são muito difíceis e, por vezes, quem deveria defender e ilustrar a fé da Igreja deforma e escandaliza o Povo cristão…

Gostaria de propor algumas reflexões – e peço que você, meu caro Amigo, procure ponderar bem o que estou dizendo:

1. As pessoas homossexuais devem respeitadas e nunca estigmatizadas por suas tendências sexuais.

Hoje sabe-se de psicologia e sexualidade humana o que não se sabia no passado… Consequentemente, o modo de avaliar determinados comportamentos deve levar em conta estes novos conhecimentos. Assim, a violência contra homossexuais – sejam elas físicas ou morais – é um crime diante da lei brasileira e, diante de Deus, um pecado.

2. Também é correto desejar que cada pessoa tenha o direito de viver sua vida de acordo com seus valores e sua consciência, desde que respeitando o bem comum e as normas da boa convivência social.

No entanto, não é aceitável que minorias homossexuais organizadas queiram impor a toda a sociedade seus valores e seu modo de pensar, destruindo o sentido genuíno do que seja família e do que seja casamento…

3. O sincero respeito que se deve ter pelos homossexuais não deve e não pode significar que todos tenham a obrigação de fazer uma avaliação positiva da homossexualidade e, mais ainda, da prática homossexual. Respeitar a pessoa, suas tendências, suas opções, sim. A avaliação de suas ações e modo de viver, depende dos critérios que alguém tome como norte e sentido da existência humana… Para um ateu, o critério é ele próprio; para um crente, o critério do certo e do errado é o próprio Deus: ao que Deus chama errado, o crente somente poderá chamar de errado também!

4. Pensemos num cristão homossexual. Para um mundo pagão como o nosso, para pessoas que não têm como critério o Evangelho, ser homossexual e viver a homossexualidade não são problema algum; como não o é a infidelidade conjugal, como não o são as relações pré-matrimoniais e outras realidades mais… Mas, para alguém que creia em Cristo e deseje viver segundo a fé cristã, o ser homossexual traz sim dificuldades, conflitos e dores. E isto porque o critério da vida de um cristão não é a moda, não é a mentalidade dominante, não é a própria pessoa, mas a norma do Evangelho, expressa na fé da Igreja. Ora, deixar-se a si mesmo para abraçar na própria vida e com a própria vida a norma de vida de um Outro – Daquele que disse: “Quem quiser ser Meu discípulo, renuncie-se a si mesmo e siga-Me!” – não é e não será nunca uma tarefa fácil.

5. Um homossexual cristão deve sim procurar corajosamente aceitar sua realidade homossexual, mas não para viver do seu jeito e sim do jeito de Cristo! E qual é o jeito de Cristo? Qual a sua norma para a sexualidade humana? Certamente que tal norma é aquela da vida sexual como expressão do amor e da entrega a outra pessoa, numa tal comunhão que, selada pelo sacramento do matrimônio, seja até à morte e aberta de modo fecundo aos filhos que Deus der. Para Deus – sejamos claros – a norma é a heterossexualidade e não a homossexualidade! Para um cristão homossexual certamente isto provoca uma séria crise! (Todos nós temos nossas crises… É verdade, no entanto, que a crise no tocante à sexualidade é muito mais séria e estrutural!) E é preciso que se diga: para um cristão com tendência homoafetiva, a homossexualidade tem a marca da cruz – é sim uma cruz! Mas, o nosso Salvador Jesus disse: “Toma a tua cruz e segue-Me!” Em outras palavras: “Segue-Me com tua homossexualidade! Segue-Me com as crises e dificuldades nas quais ela te coloca!”

Um homossexual que deseje viver seriamente sua fé cristã deve saber que é amado pelo Senhor, que não é rejeitado pela Igreja, mas que deve – como também os heterossexuais – colocar sua sexualidade debaixo do senhorio de Cristo: deve lutar para ser casto, para ser reto, para fugir de toda leviandade e imoralidade; deve claramente reconhecer que os atos homossexuais não são moralmente corretos como a relação heterossexual no casamento… Por isso é muito importante que um homossexual cristão procure a ajuda de um sacerdote ou de um cristão maduro, ponderado, fiel a Cristo e à Igreja que possa ajudá-lo no seu caminho. Quem não precisa da ajuda dos outros no caminho de Cristo? Não é isto a Igreja? Não é isto que nos manda a fé cristã: ter uma orientação espiritual com alguém que saiba curar as próprias feridas e as dos outros?

E se houver quedas no caminho desse irmão homossexual? E se as amizades descambarem para atos homossexuais? É não desanimar: como qualquer cristão, trata-se de olhar para o Cristo, pedir perdão no sacramento da Penitência e recomeçar o caminho, procurando vencer o pecado!

E se um homossexual cristão, mesmo reconhecendo que os atos homossexuais não são moralmente agradáveis a Deus, não conseguir ser casto, e procurar viver com outra pessoa do mesmo sexo, inclusive tendo uma vida sexualmente ativa? Nem assim deve pensar que já não é cristão! Deve reconhecer claramente que sua situação não é o ideal diante de Deus. No entanto, deve viver uma vida o quanto possível digna diante do Senhor e dos homens. Não deve deixar a oração nem a frequência da Santa Missa e deve dizer sempre – todos nós devemos dizer sempre com o coração, o afeto, a alma e também com as lágrimas: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador!”

Certamente que aquele que se decida por uma vida de prática de atos homossexuais não deve se confessar sacramentalmente nem receber a comunhão eucarística; mas pode sim procurar sempre o conselho e a ajuda de um sacerdote ou de um cristão que o auxilie no caminho de seu seguimento a Cristo. É muito importante compreender que não há miséria e drama humanos que não possam ser atingidos pela Cruz do Senhor. Não se trata de chamar certo ao que é errado ou de avaliar como virtude ao que é fraqueza aos olhos do Senhor; trata-se, sim, de ter misericórdia, de acolher, de ter compaixão do outro! Triste daquele que vir o irmão levando pesado fardo e ainda lhe aumentar o peso com o desprezo e a rejeição! O pecado deve ser chamado sempre pecado, mas o pecador deve ser sempre acolhido com misericórdia e respeito e tratado como um irmão. Quem de nós não é pecador? Quem de nós não é ferido? Quem de nós não tem suas doenças espirituais?

6. Não sabemos por que algumas pessoas são homossexuais. Sabemos que elas não escolheram a tendência que possuem; sabemos também que não são moralmente doentes – há tantos homossexuais tão dignos e generosos! Mas, sabemos que elas podem seguir o Senhor e devem fazer o melhor de si para serem santos, para serem cristãos de verdade! O resto, coloquemos nas mãos do Senhor, com os olhos fitos em Cristo, que morreu por todos de modo tão atroz, exatamente porque grande é a profundidade de nossas misérias e contradições. Diante de mistérios assim, diante dos enigmas da existência, diante da dor e da cruz dos irmãos, devemos olhar para o céu e pronunciar, comovidos e humildes, aquela sábia bênção judaica, que cabe muito bem nos lábios de um cristão: “Bendito sejas Tu, Senhor nosso Deus, que guardas os segredos!” Isto mesmo: Ele sabe os mistérios! Ele conhece o motivo; Ele sabe o porquê. Nós não sabemos nada!

7. Esta é a diferença entre o pensar cristão e a perspectiva de um mundo que descarta Deus, o Deus das Escrituras, o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo: para a atual cultura “mundana”, a vida é sem Deus mesmo: cada um é a sua verdade, a sua medida e o seu próprio critério; cada um faz o que bem entende com a existência.
Para o cristão a vida é dom, é mistério a ser vivido diante de um Outro que nos ama e a Quem deveremos prestar contas. Num mundo sempre mais pagão e menos cristão, vai ficando difícil compreender estas coisas…

Aos pais cristãos que tenham filhos homossexuais, eu digo: acolham-nos com amor e respeito, ajudem-nos a definir os valores de sua vida segundo os critérios de Cristo, não os abandonem nunca nem os tratem com desprezo, mostrem-lhes sempre Jesus como ideal e caminho de felicidade e realização e, no fim de tudo, rezem muito por eles e os respeitem no rumo que derem à vida, desde que digno e responsável, sem leviandades ou desrespeito ao sagrado recinto do lar!

8. Quanto àqueles, “felizes e realizados” com sua “opção” sexual, que não é segundo Cristo, paciência: é o modo de pensar e viver dos que já não conhecem a Deus e Seu Cristo Jesus! Eles merecem o nosso respeito. É necessário que, no âmbito civil, construamos uma convivência que dê espaço para que todos vivam sua vida livremente, desde que respeitando o bem-comum.
Que Nosso Senhor também a esses mostre a luz bendita do Seu Rosto para que vejam o verdadeiro sentido da vida e encontrem a verdadeira paz e realização!
Não podemos impor aos não-crentes nossos valores; devemos respeitá-los, desde que não queiram impor tais valores aos demais; por eles podemos rezar, amá-los e anunciar-lhes Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida da humanidade e de cada pessoa!

Dom Henrique Soares da Costa, Bispo.

 “Nós encontramos a marca de um selo do século VIII a.C. que deve ter sido feita pelo próprio profeta Isaías a apenas três metros de onde havíamos descoberto uma impressão de selo do rei Ezequias de Judá”

O profeta Isaías é um dos maiores profetas do Antigo Testamento. O nome Isaías significa “Deus ajuda” ou “Deus é auxílio” e viveu entre 765 a.C. e 681 a.C.

Numa visão do trono de Deus no Templo rodeado de serafins, um anjo lhe purificou os lábios com brasas ardentes enquanto a voz de Deus lhe ordenava levar Sua mensagem ao povo.

Em seu livro, incluído na Bíblia, Isaías é o profeta que mais fala sobre o Messias prometido, Nosso Senhor Jesus Cristo, descrevendo-o como “servo sofredor” que morreria pelos pecados da humanidade e como um príncipe soberano que governará com justiça.

O capítulo 53 profetiza nossa Redenção pelo Messias:

“Mas ele foi castigado por nossos crimes, e esmagado por nossas iniquidades; o castigo que nos salva pesou sobre ele; fomos curados graças às suas chagas”. (Is 53:5)

Ele também profetizou que Nosso Senhor nasceria de Maria Virgem:

“o próprio Senhor vos dará um sinal: uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e o chamará Deus Conosco [Emanuel]” (Is 7,14).

No Novo Testamento há centenas de citações ou referências às suas predições, fato reconhecido até por não católicos:

“O Livro de Isaías contém muitas referências diretas e indiretas ao Messias, chamando-O de ‘Renovo do Senhor’” (Is 4.2), “rebento do tronco de Jessé” (Is 11.1), “meu servo [de Deus]” (Is 42.1), e “o meu escolhido [de Deus], em quem a minha alma se compraz” (Is 42.1).

“A Palavra declara que Ele é o herdeiro por direito ao trono de Davi (Is 9.7; cf. Lc 1.32-33) e diz que Ele autenticará Seu papel como Messias ao curar os cegos, os surdos e os aleijados (Is 29.18; Is 35.5-6; cf. Mt 11.3-5; Lc 7.22).

“Ele também estabelecerá a Nova Aliança (Is 55.3-4; cf. Lc 22.20) e um dia estabelecerá um Reino Messiânico sobre o qual reinará e no qual será adorado (Is 9.7; Is 66.22-23; cf. Lc 1.32-33; Lc 22.18,29-30; Jo 18.36)”. (apud O Evangelho Segundo Isaías”)

Ele viveu no reino de Judá entre os séculos VIII e VII a.C., durante os reinados de Ozias, Jotão, Acaz e Ezequias. Também participou na defesa de Jerusalém cercada pelo rei assírio Senaqueribe.
Mas, só até agora, comemorou Eilat Mazar, pesquisadora do Instituto de Arqueologia da Universidade Hebraica de Jerusalém:Mas, fora desta enorme contribuição registrada na Bíblia que constata documentalmente sua existência, não se tinha evidências arqueológicas, portanto materiais, da vida do profeta.

“Nós encontramos a marca de um selo do século VIII a.C. que deve ter sido feita pelo próprio profeta Isaías a apenas três metros de onde havíamos descoberto uma impressão de selo do rei Ezequias de Judá.”

A descoberta foi anunciada por Eliat em seu artigo “Esta é a assinatura do profeta Isaias?” (“Is This the Prophet Isaiah’s Signature?”) publicado na revista Biblical Archaeology Review.

O selo, ou mais propriamente “bula”, foi encontrado num sítio arqueológico em Ophel, área entre o Monte do Templo e a Cidade de Davi, usada na antiguidade como complexo residencial da família real em Jerusalém.

Os arqueólogos encontraram 34 pequenas peças de argila com impressões de “bulas”, com os nomes de seus donos.

Vista geral de Jerusalém com o campo arqueológico de Ophel, local do achado.

Os pedaços de argila tinham apenas um centímetro de diâmetro.

Entre as peças, uma traz o nome do rei Ezequias.

Mas o artefato mais interessante tinha a inscrição “Yesha’yah”, o nome de Isaías em hebraico antigo, acompanhado pelas letras “N”, “V” e “Y”, as três primeiras da palavra “profeta” em hebraico.

O nome de Isaías está claro, mas há discussão sobre uma letra que faltaria para ter certeza da palavra “profeta”.

Para a Dra. Mazar, o lugar exato da letra foi perdido junto com a metade faltante da “bula”.

A inscrição completa deveria dizer “Pertencente a Isaías profeta”.

A Dra. Mazar aponta casos semelhantes verificados em outras descobertas.

E se a interpretação for correta teríamos a primeira prova material extra bíblica da existência do profeta e de que era reconhecido como tal durante sua vida, de acordo com matéria publicada pela “National Geographic”.

O selo, ou bula, com o nome do profeta Isaías, desenterrado em Ophel.

O Antigo Testamento conta episódios em que Ezequias procurou Isaías, indicando que o profeta lhe era bastante próximo e que seria um dos principais conselheiros reais.

“Se for o caso de a peça ser realmente do profeta Isaías, então não seria surpresa encontrá-la perto de uma pertencente ao rei Ezequias dada à relação simbiótica entre o profeta Isaías e o rei Ezequias descrita na Bíblia”, acrescentou Mazar.

A Bíblia é o maior testemunho escrito da Antiguidade. Ela contém a palavra revelada e a ela devemos um assentimento de Fé, inclusive do ponto de vista histórico.

A veracidade inclusive histórica da Bíblia foi confirmada – e continua sendo-o – em inúmeras descobertas de valor científico que confortam às inteligências e corações de boa fé que possam ter dúvidas a respeito.

(via Ciência confirma Igreja)

Trata-se de um Lamborghini Huracán. O dinheiro arrecadado será destinado a projetos de ajuda humanitária.

O Papa Francisco recebeu um presente muito especial: um Lamborghini Huracán. Mas ele mal o benzeu e o enviou imediatamente ao leilão.

O leilão do esportivo de luxo, um cupê branco com linhas douradas que tinha sido dado de presente ao Papa Francisco, conseguiu angariar 3,2 milhões de reais (800 mil dólares) destinados a projetos de ajuda humanitária, principalmente para cristãos que foram expulsos do Iraque, mulheres vítimas do tráfico de pessoas e populações pobres na África, informou hoje a Pontifícia Fundação.

Em sua página, a empresa Lamborghini descreve que o Huracán pode atingir 325 quilômetros por hora e que precisa de apenas 3,2 segundos para acelerar de 0 a 100 quilômetros por hora. Para isso, conta com um motor V10, alavanca de sete marchas, e está equipado com “assentos esportivos perfeitamente moldados” e “cabine com acabamentos de alta qualidade”.

A casa Sotheby’s, no Principado de Mônaco, foi a empresa encarregada de fazer o leilão do carro de luxo vendido – finalmente – a cerca de 715 mil euros, bem mais do que os 230 mil euros em que tinha sido avaliada esta edição especial para o Papa.

Conforme relatado oficialmente, 70% do dinheiro arrecadado irá para a Ajuda à Igreja que Sofre (ACN), que trabalha no retorno dos cristãos que foram expulsos do Iraque pelo Estado Islâmico. A maioria deles vivia em Nínive e perdeu casas, pertences e locais de culto.

Francisco recebeu o Lamborghini em 15 de novembro passado em um ato do qual participaram os diretores da empresa automotiva.

Além da Ajuda à Igreja que Sofre, a Comunidade Papa João XXIII, que trabalha com mulheres vítimas do tráfico de pessoas e da prostituição, e duas associações italianas que realizam tarefas humanitárias na África, receberão parte das receitas. Trata-se do Gicam de Marco Lanzetta (que faz cirurgias de mãos) e da Amigos da África Central, cujo trabalho centra-se em ajudar crianças e mulheres, de acordo com a agência ANSA.

Fonte: Infobae

Cientistas descobriram 1.559 diferenças genéticas entre machos e fêmeas que se relacionam não apenas com os órgãos sexuais, mas surpreendentemente com outros órgãos como cérebro, pele e coração. 

“No geral, os genes específicos do sexo são expressos principalmente no sistema reprodutivo, enfatizando a notável distinção fisiológica entre homens e mulheres”, descobriram os cientistas. “No entanto, dezenas de genes que não são conhecidos por se associar diretamente com a reprodução também foram encontrados para ter expressão específica do sexo (por exemplo, os genes da pele de homens específicos)”, acrescentaram.

As descobertas sugerem ao leitor casual que há muito mais envolvido na ideia de mudar o gênero para o sexo oposto do que simplesmente cirurgia e tratamento hormonal. 

“Nossos resultados podem facilitar a compreensão de diversas características biológicas no contexto do sexo [masculino e feminino]”, afirmaram os pesquisadores em sua conclusão. 

O estudo, intitulado A paisagem do transcriptoma sexual-diferencial e sua consequente seleção em adultos humanos , foi publicado na BMC Biology no início deste ano. 

No estudo, os pesquisadores Moran Gershoni e Shmuel Pietrokovski do Departamento de Genética Molecular do Instituto Weizmann mapearam milhares de genes – os bancos de dados biológicos de todas as informações que tornam cada pessoa única – de 53 tecidos semelhantes a machos e fêmeas, como o pele, músculo e cérebro. 

O estudo foi conduzido para examinar até que ponto os genes determinam como certas doenças visam machos e fêmeas de forma diferente. 

“Homens e mulheres diferem de maneiras óbvias e menos óbvias – por exemplo, na prevalência de certas doenças ou reações a drogas. Como estas estão ligadas ao sexo de alguém? Pesquisadores do Instituto Weizmann de Ciência descobriram recentemente milhares de genes humanos que são expressos – copiados para produzir proteínas – de forma diferente nos dois sexos ”, afirma relatório do Instituto Weizmann sobre as descobertas.

Fonte original aqui 

 

A universidade “deve estar ligada exclusivamente à autoridade da verdade” e, portanto, deve ser autônoma, livre “de autoridades políticas e eclesiásticas”. Por isso, se interroga sobre o que um papa tem a dizer no encontro com a universidade de sua cidade, Roma. Para responder, ele reflete acima de tudo sobre a natureza e a missão do papado e, depois, sobre a natureza e a missão da universidade.

Publicamos aqui a conferência do jesuíta italiano Federico Lombardi, ex-porta-voz da Santa Sé, proferida na International Academic Conference: In search of the truth. From Nicolaus Copernicus to Benedict XVI, realizada na Faculdade de Teologia da University of Nicolaus Copernicus, em Toruń, Polônia, 17-04-02018.

O discurso foi publicado no sítio da Fundação Ratzinger.

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Autor: Federico Lombardi

Ilustres professores, estudantes e amigos,

Estou muito grato pela honra que vocês me prestam, ao me acolherem nesta importante conferência e me dando a palavra por primeiro. Na realidade, estou ciente de que falar por primeiro não significa tanto que o meu discurso seja o mais importante, mas que, não podendo participar de todos os seus trabalhos por causa da minha grave ignorância da língua de vocês, é bom que meu discurso seja o primeiro, de modo que, depois, vocês fiquem mais livres para continuar os seus trabalhos na belíssima língua polonesa.

O meu breve discurso se propõe dois objetivos.

O primeiro é de oferecer uma contribuição para recordar um discurso do Papa Bento XVI, que é bastante significativo para quem trabalha na universidade, como vocês, mas que permaneceu menos conhecido do que outros. Justamente há três meses, em janeiro deste ano, celebrava-se o 10º aniversário desse discurso, e, por isso, eu o escolhi para esta intervenção.

O segundo objetivo, inspirando-se nesse discurso, é de expressar algumas ideias sobre a linha programática da Fundação Ratzinger, que eu represento e que tem a alegria de colaborar com vocês nesta ocasião e, se possível, também no futuro.

O discurso do Papa Bento de que falo é um discurso que, na realidade, nunca foi proferido. Recordo, aqui, muito brevemente os acontecimentos. Bento XVI havia sido convidado oficialmente pelo reitor da mais antiga e maior universidade de Roma, que se chama “La Sapienza” – fundada pelo Papa Bonifácio VIII em 1303 –, para visitar a universidade e fazer um discurso na Aula Magna. Alguns professores, em sua maioria ideologicamente orientados à esquerda, manifestaram-se contrários. Mas se tratava de relativamente poucas pessoas.

A data havia sido fixada para o dia 17 de janeiro, mas, nos dias anteriores, um grupo de estudantes ocupou a reitoria em protesto e iniciou uma contestação com tons muito duros contra a visita, dizendo que o Papa Bento era um expoente do obscurantismo contrário à cultura e que a universidade, como lugar da liberdade de pesquisa e depensamento, não podia aceitar essa visita. Tratava-se de uma pequena minoria, mas a repercussão foi grande. Para evitar tensões, Bento XVI renunciou à visita dois dias antes da data marcada, mas enviou o texto do discurso, que foi lido e aplaudido por muitos presentes.

Na realidade, o episódio continua sendo um fato de séria intolerância por parte daqueles que queriam se apresentar como arautos da razão e da liberdade, e muitíssimos intelectuais italianos, até mesmo não católicos, se envergonharam profundamente disso.

Mas eu não tenho a intenção de voltar sobre isso. Acho que hoje é preciso refletir mais sobre o conteúdo do próprio discurso, que se insere na série de muitos discursos dedicados por Bento XVI à natureza e à finalidade da universidade, e é provavelmente um dos mais importantes deles.

Bento XVI começa afirmando expressamente que a universidade “deve estar ligada exclusivamente à autoridade da verdade” e, portanto, deve ser autônoma, livre “de autoridades políticas e eclesiásticas”. Por isso, se interroga sobre o que um papa tem a dizer no encontro com a universidade de sua cidade. Para responder, ele reflete acima de tudo sobre a natureza e a missão do papado e, depois, sobre a natureza e a missão da universidade.

Bento reconhece naturalmente que a missão do papado é, acima de tudo, de guiar a comunidade dos fiéis, mas observa que essa comunidade vive no mundo e, portanto, as suas condições e as suas vicissitudes atuam sobre o conjunto da comunidade humana. Por isso, o papa “tornou-se cada vez mais uma voz da razão ética da humanidade” (à luz da autoridade internacional conquistada pelos papas recentes, em particular por João Paulo II, antes, e Francisco, hoje, isso parece ser completamente correspondente à nossa experiência).

Depois de pronunciar as palavras: “razão ética da humanidade”, Bento faz um aprofundamento muito interessante. Pode-se falar de “razão” ética, se os juízos do papa provêm da fé? Que validade eles podem ter para quem não compartilha essa fé? Por isso, Bento se pergunta: “O que é a razão? Como uma afirmação – acima de tudo, uma norma moral – pode se demonstrar como ‘razoável’?”.

Para responder Bento faz referência ao famoso filósofo político estadunidense John Rawls, que reconhece às doutrinas das grandes religiões o caráter de “razoabilidade” pois “derivam de uma tradição responsável e motivada, na qual, durante longos tempos, foram desenvolvidas argumentações suficientemente boas em seu sustento”.

De sua parte, Bento concorda e evidencia “que a experiência e a demonstração ao longo de gerações, o fundo histórico da sabedoria humana são também um sinal da sua razoabilidade e do seu duradouro significado”. A razão não deve ser a-histórico, “a sabedoria da humanidade como tal – a sabedoria das grandes tradições religiosas – deve ser valorizada”, não pode ser “jogada na lata de lixo da história das ideias”.

Bento conclui, então, a resposta à primeira pergunta dizendo que o papa fala à universidade “como representante de uma comunidade que conserva em de si um tesouro de conhecimento e de experiência éticos, que é importante para a humanidade inteira: nesse sentido, fala como representante de uma razão ética”.

Passando, depois, à pergunta sobre a natureza da universidade, o papa pensa que “a íntima origem da universidade está na ânsia de conhecimento que é própria do ser humano”. Ele quer saber o que é tudo o que o cerca. Quer verdade”.

Bento XVI identifica no interrogar-se de Sócrates a manifestação mais clara desse desejo de conhecer e enfatiza o fato de que Sócrates exerce a sua maiêutica justamente na crítica à antiga religião mítica e na busca de um Deus supremo e verdadeiramente divino. Para Bento, é fundamental entender que os cristãos dos primeiros séculos se reconheceram nesse exercício socrático: para eles, “o interrogar-se da razão sobre o Deus maior, assim como sobre a verdadeira natureza e sobre o verdadeiro sentido do ser humano (…), fazia parte da essência do seu modo de ser religioso”. Eles deviam “reconhecer como parte da própria identidade a busca fatigante da razão para alcançar o conhecimento da verdade inteira”.

Bento dá também outro passo aqui. “O ser humano quer conhecer – quer verdade”, e verdade é “coisa do ver, do compreender (…) mas – ele observa – nunca é somente teórica”. “Verdade significa mais do que saber: o conhecimento da verdade tem como propósito o conhecimento do bem. Este é também o sentido do interrogar-se socrático: qual é o bem que nos torna verdadeiros? A verdade nos torna bons, e a bondade é verdadeira”.

Os cristãos se reconhecem também nessa direção, ou, melhor, nessa direção, sua reflexão floresce esplendidamente. Os Padres sublinham que “a fé corresponde às exigências da razão em busca da verdade (…) é o ‘sim’ à verdade, em relação às religiões míticas”.

Assim, a dissolução da religião mitológica dá lugar “à descoberta daquele Deus que é Razão criadora e, ao mesmo tempo, Razão-Amor”. A fé cristã é profundamente “otimista” – observa Ratzinger – “porque a ela foi concedida a visão do Logos, da Razão criadora, que, na encarnação de Deus, revelou-se ao mesmo tempo como o Bem, a própria Bondade”.

Bento XVI está convencido de que, pelo fato de a busca da razão fazer parte da própria identidade cristã, a universidade “podia ou, melhor, devia nascer no âmbito da fé cristã, no mundo cristão”.

Nesse ponto, o discurso se desloca, então, para a estrutura da universidade medieval e para como a busca do conhecimento e da verdade se desenvolve nas suas quatro faculdades fundamentais: Medicina, Jurisprudência, Filosofia e Teologia.

Sobre a Medicina, Ratzinger não diz muito: limita-se a destacar que, na época, a medicina não era concebida tanto como “ciência”, mas como “arte de curar”, mas sua inserção na universidade significa que ela é “subtraída do âmbito da magia” para entrar cada vez mais no âmbito e sob a orientação da racionalidade.

Muito mais amplo é o discurso sobre a Jurisprudência, porque nela “se trata de dar forma justa à liberdade humana”. Aqui, Ratzinger dá um “salto ao presente” para levantar uma das questões debatidas hoje e que mais estão em seu coração: “É a questão de como pode ser encontrada uma normativa jurídica que constitua um ordenamento da liberdade, da dignidade humana e dos direitos humanos”.

Ratzinger a considera como uma questão crucial para a democracia moderna e para o futuro da humanidade, estando totalmente ciente dos problemas que nascem da contínua multiplicação dos “direitos humanos” e dos conflitos que surgem entre eles, e dos fundamentalismos ideológicos e religiosos (não foi à toa que Bento XVI abordou isso em várias ocasiões, como os grandes discursos públicos de Westminster Hall em Londres ou do Reichstag em Berlim). Sobre tal questão, portanto, ele quis dialogar de modo construtivo com grandes pensadores atuais.

No discurso de que estamos falando, ele indica como seu interlocutor significativo Jürgen Habermas (com quem – como sabemos – ele tivera, em 2004, um famoso diálogo público na Katholische Akademie de München). Ratzinger aprecia o fato de Habermas ver os fundamentos da legitimidade de um ordenamento estatal não só “na participação política igualitária de todos os cidadãos”, mas também na “forma razoável em que os contrastes políticos são resolvidos”. Ele aprecia sobretudo que essa “forma razoável” não é identificada por Habermas apenas com o cálculo aritmético das maiorias, mas como “um processo de argumentação sensível à verdade” (wahrheitssensibles Argumentationsverfahren).

Ratzinger conclui a parte do discurso dedicada a esse assunto com duas observações importantes. Por um lado, destaca com grande realismo que, na realidade do debate político, “a sensibilidade à verdade é sempre de novo subjugada pela sensibilidade aos interesses”. Por outro lado, considera significativo que Habermas, ao falar da “sensibilidade à verdade como elemento necessário no processo de argumentação política, insere novamente o conceito de verdade no debate filosófico e no político”.

No decorrer do diálogo – primeiro com Rawls, depois com Habermas, dois dos maiores filósofos políticos contemporâneos – são reacendidos, portanto, os conceitos de “razoabilidade” e de “verdade”, como conceitos inevitáveis se quisermos tentar fundamentar a legitimidade da convivência humana, o direito da liberdade, além de uma mera composição dos interesses graças às regras da maioria. Mas o que são a razoabilidade e a verdade?

Aqui, Ratzinger retorna à estrutura da universidade medieval e à função das outras duas faculdades: a filosofia e a teologia, às quais “era confiada a pesquisa sobre o ser humano na sua totalidade e, com isso, a tarefa de manter viva a sensibilidade pela verdade”. Isso ainda vale; porque não só naquela época, mas hoje também esse é “o sentido permanente de ambas as faculdades: serem guardiães da sensibilidade pela verdade, não permitir que o ser humano seja desviado da busca da verdade”.

Mas o que me parece particularmente significativo é aquilo que o Papa Bento diz logo depois, manifestando um espírito extraordinariamente humilde e respeitoso, verdadeiramente aberto ao diálogo com a grande cultura da história e do mundo.

De fato, após dizer que as faculdades de filosofia e teologia “não devem permitir que o ser humano se desvie da busca da verdade”, ele faz uma das afirmações mais emocionantes e impressionantes para mim de todo o discurso: “Como elas podem corresponder a essa tarefa? Essa é uma pergunta para a qual é preciso, sempre de novo, se esforçar e que nunca é posta e resolvida definitivamente. Assim, nesse ponto, nem eu posso oferecer propriamente uma resposta, mas sim um convite para permanecer a caminho com essa pergunta – a caminho com os grandes que, ao longo de toda a história, lutaram e buscaram, com as suas respostas e com a sua inquietação pela verdade, que continuamente remete para além de cada resposta individual”.

O título desta conferência diz: “Em busca da verdade: de Nicolau Copérnico a Bento XVI”. Com efeito, Bento XVI absolutamente não é – como afirmavam aqueles que o impediram de proferir essas palavras – uma pessoa que impõe aos outros com prepotência a sua posse da verdade, mas sim uma pessoa que se sente solidária com todos os grandes apaixonados buscadores da verdade, sabendo que, nesta terra, ninguém jamais a possuirá.

À universidade medieval da Europa cristã e, em particular, a São Tomás de Aquino, Ratzinger reconhece o mérito de ter destacado a autonomia da filosofia, isto é, “o direito e a responsabilidade próprios da razão que se interroga com base nas suas forças”. As religiões míticas haviam desaparecido, e, ao contrário, os escritos filosóficos de Aristóteles haviam se tornado acessíveis integralmente, e as filosofias judaicas e árabes haviam se apropriado deles. Nesse contexto, “o cristianismo, em um novo diálogo com a razão dos outros, que vinha encontrando, teve que lutar pela própria razoabilidade”. A filosofia, portanto, torna-se uma verdadeira faculdade, “uma parceira autônoma da teologia e da fé nela refletida”.

A relação entre filosofia e teologia é apresentada por Ratzinger em analogia com a famosa fórmula de Calcedônia sobre as duas naturezas de Cristo: “sem confusão e sem separação”.

Sem confusão. “A filosofia deve permanecer verdadeiramente como uma busca da razão na própria liberdade e responsabilidade (…)deve ver seus limites e sua grandeza”. “A teologia deve continuar recorrendo a um tesouro de conhecimento que não foi inventado por ela mesma”, mas que recebeu e que a supera, e, sendo inesgotável, sempre a coloca novamente em movimento.

Sem separação. Porque a filosofia não deve se isolar, mas se mover no grande diálogo da sabedoria histórica, que inclui também a riqueza trazida pelas religiões e, particularmente, pelo cristianismo. Enquanto a teologia – e também as autoridades eclesiais – deve aceitar a purificação da crítica da razão e, ao mesmo tempo, constituir uma força purificadora da própria razão, em particular libertando-a das pressões do poder e dos interesses. (Esse tema da purificação recíproca entre fé e razão voltou com força em outros grandes discursos de Ratzinger, como o da Westminster Hall, em Londres, onde era aplicado à contribuição positiva da fé cristã e das religiões na vida pública e na sociedade moderna).

Naturalmente, Ratzinger sabe muito bem que a universidade moderna abraça outras dimensões do saber que cresceram de modo extraordinário e maravilhoso. Ele fala sobretudo de dois âmbitos, o das ciências naturais e o das ciências históricas e humanísticas.

O discurso aqui se torna muito mais sintético, mas continua sendo rico em intuições de reflexão fundamentais.

“Abriu-se à humanidade uma medida imensa de saber e de poder; cresceram também o conhecimento e o reconhecimento dos direitos e da dignidade do ser humano.” Bento vê e admira o positivo, mas adverte com lucidez e coragem as ambiguidades e os riscos, algo que, aliás, é evidente nos eventos dramáticos da história atual. Como o discurso de que estamos falando se dirige ao mundo da universidade, ou seja, daqueles que estão envolvidos plenamente no estudo, no alargamento e no aprofundamento do saber, Ratzinger se encaminha à conclusão se concentrando nos riscos relacionados com essa dimensão da nossa vida histórica.

“O perigo do mundo ocidental – para falar apenas dele – é hoje que o ser humano, precisamente em consideração da grandeza do seu saber e poder, se rende perante a questão da verdade. E isso significa, ao mesmo tempo, que a razão, no fim, se curva diante da pressão dos interesses e da atratividade da utilidade, forçada a reconhecê-la como critério último.”

Do ponto de vista da vida da universidade, para Ratzinger, isso significa que a filosofia se degrada em positivismo e que a teologia se confine à esfera privada de um pequeno grupo. Significa que a razão se torna surda à sabedoria que lhe é oferecida pela fé cristã e se empobrece e seca. Perde a coragem da verdade e se apequena nas tarefas e nos horizontes.

Do ponto de vista da cultura europeia, para Ratzinger, isso significa que, “se quiser apenas se autoconstruir com base no círculo das próprias argumentações e – preocupada com a sua laicidade – se afasta das raízes das quais vive, então não se torna mais razoável e mais pura, mas se decompõe e se despedaça”.

A conclusão do discurso, nesse ponto, é clara: o papa não vai à universidade para impor de modo autoritário a fé, que só pode ser dada, mas para “manter desperta a sensibilidade pela verdade; convidar sempre de novo a razão a se pôr em busca do verdadeiro, do bem, de Deus” e a entrever ao longo da história as luzes que surgiram a partir da fé cristã, de modo a poder perceber Jesus Cristo como a Luz que ilumina a história e o caminho rumo ao futuro.

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Quem conhece o pensamento de Joseph Ratzinger e os grandes discursos do pontificado de Bento XVI facilmente reconhecerá reflexões e temas familiares e característicos. O discurso poderia ser facilmente enriquecido e ampliado com inúmeras citações e referências. Evidentemente, não é o que pretendo fazer. Em vez disso, como mencionei no início, no rastro do que recordei, quero explicar brevemente o espírito no qual a nossa Fundação está se movendo e se propõe a operar.

Simplificando de maneira extrema, pode-se dizer que o grande pensamento de Joseph Ratzinger se desenvolveu ao longo de duas diretrizes principais complementares. Uma que podemos chamar de vertical: o chamado do primado de Deus, do Deus revelado por Jesus Cristo e aquilo que se segue para a vida cristã e da Igreja. E uma que podemos chamar de horizontal ou transversal: o diálogo com a cultura contemporânea, fundamentado na confiança na razão, considerada capaz de buscar e encontrar respostas razoáveis e verdadeiras para as suas perguntas.

O discurso que evoquei é típico dessa linha do diálogo, do exercício confiante da razão, que olha com otimismo e com gosto ao enriquecimento recíproco das diversas dimensões do saber, das ciências naturais às humanas, à filosofia, à teologia. Para isso, porém, a razão não deve se fechar nos estreitos limites do positivismo, deve se manter aberta à questão da verdade, do bem, do sentido da vida, de Deus. Também deve se manter aberta àquele fascinante diálogo com os grandes da história de que Ratzinger nos falou por referências, de Sócrates e a filosofia grega, às testemunhas da sabedoria do Antigo Testamento e das grandes religiões, ao Evangelho e aos Padres da Igreja, aos filósofos e aos teólogos medievais, a Copérnico e aos cientistas modernos, até Rawls e Habermas, filósofos políticos dos nossos dias…

Ainda no discurso evocado, vieram à tona alguns nós problemáticos cruciais para a humanidade do nosso tempo, aos quais Ratzinger dedicou muitíssima atenção. Cito dois em particular: os fundamentos do direito e de um ordenamento jurídico e político legítimo no mundo atual; os fundamentos de um uso responsável do imenso saber e poder dado ao ser humano pelo desenvolvimento da ciência e da tecnologia. Não se trata, de modo algum, de problemas abstratos. São de interesse comum evidente, estão no centro da preocupação da Igreja, como ficou claro a partir das últimas duas grandes encíclicas sociais, a Caritas in veritate de Bento XVI e a Laudato si’ do Papa Francisco. São também nós problemáticos que, para serem enfrentados na sua complexidade, requerem naturalmente abordagens interdisciplinares e, portanto, chamam ao apelo o mundo que, por sua vocação, é chamado ao diálogo interdisciplinar: o mundo universitário.

Por todos esses motivos, a nossa Fundação, embora se conservando em suas finalidades institucionais atenta a encorajar muitas iniciativas e direções do trabalho teológico e, mais amplamente, cultural, sente-se chamada hoje a promover em particular os esforços que se orientam ao exercício da “razão aberta”, do diálogo interdisciplinar que se ocupa de responder aos grandes desafios da humanidade atual.

Em certo sentido, queremos continuar o compromisso de Bento XVI com o diálogo com a cultura moderna, como um dos grandes serviços pela humanidade hoje, mesmo que se trate, às vezes, de um diálogo difícil, que pode se encontrar diante de fechamentos ou preconceitos, como nos recorda a recusa encontrada por Bento na Universidade de Roma.

Assim, o Simpósio Anual realizado no ano passado na Costa Rica, com a nossa contribuição e apoio, ocupou-se dos desafios da ecologia humana já enfocados pelo Papa Ratzinger e aprofundados mais ainda na encíclica Laudato si’. Por sua vez, o Simpósio em preparação para o próximo outono [europeu] se ocupará especificamente dos problemas dos fundamentos do direito e dos direitos humanos, no 70º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Depois, em colaboração com a Universidade Francisco de Vitoria de Madri, está sendo desenvolvida a segunda edição do Prêmio Razão Aberta, que pretende promover pesquisas específicas e iniciativas de docência universitária que traduzam concretamente em ações aquele diálogo entre as diversas disciplinas – ciências naturais, humanas, da comunicação, artes, filosofia, teologia… –, diálogo no espírito comum da busca da verdade que Ratzinger deseja para que o saber não se despedace e se decomponha em setores não comunicantes, mas conserve a coragem e o gosto de responder às grandes perguntas do ser humano e da sociedade, sem excluir aquelas últimas sobre a origem e o fim, sobre o sentido e sobre Deus.

Se, nessas perspectivas, conseguirmos identificar linhas realistas de colaboração e de promoção na pesquisa, a nossa Fundação terá muita alegria em colaborar e dar a contribuição possível a ela.

Obrigado pela atenção!

Em 2012, um tabelionato lavrou a primeira escritura pública, até onde se sabe, reconhecendo a união estável entre um homem e duas mulheres. Três anos depois, foi a vez de três mulheres terem reconhecida sua “união poliafetiva”. Diante disso, a Associação de Direito de Família e das Sucessões (ADFAS) fez um pedido à Corregedoria Nacional de Justiça do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em 2016, para que a matéria seja regulamentada e as “uniões poliafetivas” sejam declaradas ilegais. O caso deve voltar ao plenário do CNJ no próximo dia 15.

Mas qual o problema, afinal, de pessoas adultas viverem juntas em união estável poliafetiva? Por que o Estado teria algo a ver com isso? Não seria o caso de simplesmente se lhes reconhecer uma liberdade que as pessoas que querem viver em monogamia já têm?

Não poucos anos atrás, essas perguntas seriam impensáveis e a rejeição da poligamia (um homem vivendo com mais de uma mulher) ou da poliandria (uma mulher vivendo com mais de um homem) seria imediata, por ferir nossas intuições mais vitais. E aqui talvez resida o drama do nosso tempo: demos por óbvias muitas verdades por muito tempo e não nos esforçamos por defendê-lasUma dessas verdades é que as uniões poliafetivas (chamemos assim todos os arranjos possíveis) são uma profunda agressão à dignidade humana.

É evidente, para quem tenha refletido em profundidade no significado da dignidade humana, que a poliafetividade agride essa mesma dignidade. Quando se afirma que o ser humano tem uma especial dignidade, afirma-se que ele é dotado de um valor extraordinariamente elevado, de uma nobreza ímpar, decorrente da riqueza de seus potenciais (inteligência, vontade e afetividade, para Aristóteles; autodeterminação, para Kant, por exemplo). Por outro lado, quando se pensa na união conjugal, se pensa naquele tipo de união em que duas pessoas compartilham seus mundos, tanto interior quanto exterior, enriquecendo-os e envolvendo-os num projeto comum. E, como já escrevemos em outro momento, “um coração dividido não dá tudo o que é devido ao parceiro”.

Uma verdadeira relação conjugal é caracterizada pelo mais alto grau de cumplicidade, de entrega da própria vida, e é impossível fazer essa entrega a duas, três, quatro ou dez pessoas. Mais ainda, a aparência dessa entrega é uma agressão à dignidade, pelo aviltamento de cada uma das pessoas nessa relação múltipla. De fato, quando se aborda o do ponto de vista da igualdade, um valor especialmente estimado por todos nós, modernos, fica mais fácil compreender o mal da poliafetividade.

As uniões poliafetivas são intrinsecamente desiguais e seu reconhecimento normatiza a iniquidade. Em qualquer arranjo conjugal com mais de duas pessoas, sempre haverá o preferido para a satisfação dos desejos sexuais, o predileto para se conversar sobre este ou aquele assunto, o escolhido para se acompanhar nesta ou naquela aventura. De uma forma ou de outra, todos acabarão instrumentalizados por este ou aquele desejo passageiro de um dos integrantes do arranjo. Mais do que isso, e aí reside a mesura que o vício presta à virtude, é normal, nas relações poliafetivas, que o indivíduo dominante acabe por eleger informalmente sua parelha preferida, o que é facilmente comprovado, quer por pesquisas, quer pela experiência cotidiana de muitas pessoas que têm embarcado no conto do vigário do “poliamor”.

Por isso, o histórico prestígio dado à união monogâmica no Ocidente não é fruto de mera conveniência de época, mas sim resultado de uma conclusão natural a respeito da dignidade humana e do amor conjugal, que, por sua própria essência, não pode ser repartido em inúmeras fatias e manter-se autêntico amor. O fato é que o amor entre os cônjuges é tão sui generis na intensidade de seu compromisso que não é possível senão vivê-lo a dois. Ele consiste na entrega plena de um ao outro em vista de um projeto de vida comum. Sendo plena, essa entrega não pode ser dividida sem ser enfraquecida, prejudicando aquela que é a razão de ser da conjugalidade – a experiência de um amor tão total, incondicional e exclusivo que, na monogamia, quando se casa, se diz: tudo que de mim for conjugal será teu, tudo que de ti for conjugal será meu, celebrando-se a igualdade na vida privada.

Tampouco se deve ignorar, como também já argumentamos neste espaço, o mal que a poliafetividade trará às crianças porventura criadas em tais arranjos, por crescerem privadas do contato diário com a experiência profunda de amor monogâmico entre seus pais. Enfrentar essa questão com o rigor que merece fugiria de nossa intenção aqui, mas é preciso ter clareza que o consenso nas ciências sociais mostra que a desestruturação familiar tem impacto direto no bem-estar de crianças e adolescentes, perpetua ciclos de pobreza, fomenta a criminalidade e mina a capacidade de autoafirmação e comportamento responsável dos seres humanos, que são requisitos fundamentais do autogoverno democrático. Em suma, a monogamia é não só o único modelo conjugal que respeita a dignidade humana, mas também o único que realmente contribui para o bem comum.

Nada disso é novidade aos olhos do direito brasileiro. A Constituição Federal, em seu artigo 226, § 3º afirma que “Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento”. O Supremo Tribunal Federal (STF), mesmo ao reconhecer a possibilidade de união estável entre homossexuais, passou a interpretar a união estável como possível entre “duas pessoas”. A jurisprudência brasileira é firme ao reconhecer como ilícitos civis, em regra, o concubinato e a união estável paralela, por contrariarem todo o sentido do regramento de família, que tem por base a monogamia.

Se o Estado deveria proibir ou criminalizar o mal da poligamia, enquanto agressão à dignidade humana, é uma questão que foge daquilo que se discute aqui e tem relação com os limites do poder estatal. O que não se pode admitir é que o Estado chancele tal agressão, dando-lhe o manto da respeitabilidade social. Se os tribunais resolvessem inovar a ordem jurídica e reconhecer a licitude da poligamia, isso já seria um absurdo. Que os cartórios o queiram fazer, é um acinte. O CNJ fará bem ao acolher o pedido de providências e impedir esse disparate.

Fonte: Gazeta do Povo