“Eu passei dois anos com o Papa Francisco. E isso me mudou para sempre.”

Wim Wenders aos 40 anos contava sobre os anjos de Berlim e aos 72 apresenta para Cannes e para o mundo seu filme sobre as palavras e o pensamento de Bergoglio, “Papa Francisco – Um homem de palavra”.

Wenders, de que forma esse encontro mudou você?

Suas palavras tiveram um impacto direto sobre a minha vida. Ele pergunta: podemos viver com menos? A resposta é sim. Eu senti que eu não teria o direito de fazer este filme se eu não tivesse seguido o seu exemplo. Eu e minha esposa Donata mudamos nossa vida e foi um grande alívio. Ele diz: para a saúde mental, é preciso descansar um dia por semana. Eu percebi que eu não parava há anos. O que eu não estava passado tempo suficiente com a minha família, brincando com meus quatro netos. Ele fala coisas simples que todos nós sabemos, mas temos a tendência de esquecer.

Como foi o vosso encontro?

Nós nos conhecemos em seu escritório no Vaticano. Eu tinha estudado, eu achava que sabia muito sobre ele, mas mesmo assim ainda estava nervoso. Ele chegou sozinho, olhou para nós de forma franca, apertou as mãos de todos. Isso aliviou bastante a pressão.

O que mais lhe impressionou nele?

A coragem, a energia positiva que você percebe fisicamente quando entra na sala. E o senso de humor. Ele ria do meu espanhol estropiado e muitas vezes se percebe um sorriso no fundo de seus olhos. Tem a propensão para se divertir. Quando você olha em seus olhos, vê o velho garotinho que ele foi.

As palavras do Papa, no filme, são mais sobre os homens do que sobre Deus.

Não é um teólogo, em primeiro lugar está interessado nas pessoas, em se comunicar com os outros, nas suas necessidades. Com ele, a Igreja não é um instrumento de poder, mas da comunidade, como era na origem.

Não é um filme só para os católicos.

Eu não queria fazer um filme para aqueles que já o conhecem. O Papa Francisco quer falar com todas as pessoas de boa vontade. Não para convertê-las, mas para torná-las conscientes que precisamos remover a superfície e chegar à essência da igualdade.

Há uma cena em que ele desembarca nos EUA a bordo de um carro popular.

Desde o início de suas viagens, ele chocou a todos ao rejeitar a limusine. Quando se encontrou conosco para filmar nos jardins do Vaticano, saiu de um Fiat Panda.

Nestes anos com Francisco, você testemunhou momentos de fraqueza ou desconforto?

Eu vi nele uma esperança sem fim. Mas também a raiva, quando retornou do campo de refugiados em Lesbos. E quando fala de pedofilia, quando diz “Tolerância zero”, você entende que ele gostaria de fazer tudo e imediatamente, mas não pode. Você percebe a sua frustração.

Porque o Vaticano escolheu você para o documentário?

Por minha habilidade de desaparecer, deixando que seja o assunto do filme a brilhar. Vale para os músicos do Buena Vista Social Club, para a arte de Pina Bausch e Sebastião Salgado. Alguns fazem documentários de denúncia, eu os faço para compartilhar o que eu amo. A única regra que eu coloquei foi que o filme não poderia ser uma produção do Vaticano, eu tinha que fazer isso sozinho.

Por que optou por inserções ficcionais em preto e branco sobre São Francisco?

Quando ele foi eleito eu fiquei imediatamente impressionado com a escolha de se chamar Francisco. Esse nome traz uma grande obrigação, ninguém teve a coragem de escolhê-lo antes. A ideia de vincular o meu filme ao santo já estava lá desde o início. São Francisco é um grande herói da humanidade, visionário e revolucionário. Mas nem todos o conhecem. E nenhum filme sobre ele me impressionou, exceto aquele de Rossellini. Com pouco dinheiro rodei as cenas, usando uma filmadora da década de 1920 que eu sabia teria proporcionado um retorno ao passado. Muitos, depois da projeção, me perguntaram: “Onde você conseguiu aquelas imagens de arquivo?.

Qual é a sua relação com a religião?

Eu tive uma criação católica. Meu pai era médico, a sua missão era, como cristão, estar ao serviço de seus pacientes. Antes de cursar medicina ele tinha pensado em teologia. Aconteceu isso também comigo, até os dezesseis anos, depois vieram o rock and roll, o cinema… Em 1967 eu era um estudante, obviamente socialista. Nos anos 1970 eu voltei para minha crença, mas dessa vez como protestante. Hoje, não importa, sou um cristão e acredito no movimento ecumênico, tenho amigos católicos, frequento igrejas católicas e protestantes.

O Papa Francisco viu o filme?

Quando o conheci, ele nunca tinha visto um dos meus filmes, nem vai ver esse. Ele me chamou: “Eles me disseram que você fez um bom trabalho. Eu tenho muito respeito, mas o cinema não é uma coisa para mim.

Fonte: La Repubblica

Veja o Trailler

Homossexual segundo o mundo e segundo Cristo

Recentemente apareceram na internet textos escritos por religiosos católicos com ideias sobre a homossexualidade que em quase nada condizem com a fé e a moral da Igreja de Cristo. É assim mesmo: os tempos atuais são muito difíceis e, por vezes, quem deveria defender e ilustrar a fé da Igreja deforma e escandaliza o Povo cristão…

Gostaria de propor algumas reflexões – e peço que você, meu caro Amigo, procure ponderar bem o que estou dizendo:

1. As pessoas homossexuais devem respeitadas e nunca estigmatizadas por suas tendências sexuais.

Hoje sabe-se de psicologia e sexualidade humana o que não se sabia no passado… Consequentemente, o modo de avaliar determinados comportamentos deve levar em conta estes novos conhecimentos. Assim, a violência contra homossexuais – sejam elas físicas ou morais – é um crime diante da lei brasileira e, diante de Deus, um pecado.

2. Também é correto desejar que cada pessoa tenha o direito de viver sua vida de acordo com seus valores e sua consciência, desde que respeitando o bem comum e as normas da boa convivência social.

No entanto, não é aceitável que minorias homossexuais organizadas queiram impor a toda a sociedade seus valores e seu modo de pensar, destruindo o sentido genuíno do que seja família e do que seja casamento…

3. O sincero respeito que se deve ter pelos homossexuais não deve e não pode significar que todos tenham a obrigação de fazer uma avaliação positiva da homossexualidade e, mais ainda, da prática homossexual. Respeitar a pessoa, suas tendências, suas opções, sim. A avaliação de suas ações e modo de viver, depende dos critérios que alguém tome como norte e sentido da existência humana… Para um ateu, o critério é ele próprio; para um crente, o critério do certo e do errado é o próprio Deus: ao que Deus chama errado, o crente somente poderá chamar de errado também!

4. Pensemos num cristão homossexual. Para um mundo pagão como o nosso, para pessoas que não têm como critério o Evangelho, ser homossexual e viver a homossexualidade não são problema algum; como não o é a infidelidade conjugal, como não o são as relações pré-matrimoniais e outras realidades mais… Mas, para alguém que creia em Cristo e deseje viver segundo a fé cristã, o ser homossexual traz sim dificuldades, conflitos e dores. E isto porque o critério da vida de um cristão não é a moda, não é a mentalidade dominante, não é a própria pessoa, mas a norma do Evangelho, expressa na fé da Igreja. Ora, deixar-se a si mesmo para abraçar na própria vida e com a própria vida a norma de vida de um Outro – Daquele que disse: “Quem quiser ser Meu discípulo, renuncie-se a si mesmo e siga-Me!” – não é e não será nunca uma tarefa fácil.

5. Um homossexual cristão deve sim procurar corajosamente aceitar sua realidade homossexual, mas não para viver do seu jeito e sim do jeito de Cristo! E qual é o jeito de Cristo? Qual a sua norma para a sexualidade humana? Certamente que tal norma é aquela da vida sexual como expressão do amor e da entrega a outra pessoa, numa tal comunhão que, selada pelo sacramento do matrimônio, seja até à morte e aberta de modo fecundo aos filhos que Deus der. Para Deus – sejamos claros – a norma é a heterossexualidade e não a homossexualidade! Para um cristão homossexual certamente isto provoca uma séria crise! (Todos nós temos nossas crises… É verdade, no entanto, que a crise no tocante à sexualidade é muito mais séria e estrutural!) E é preciso que se diga: para um cristão com tendência homoafetiva, a homossexualidade tem a marca da cruz – é sim uma cruz! Mas, o nosso Salvador Jesus disse: “Toma a tua cruz e segue-Me!” Em outras palavras: “Segue-Me com tua homossexualidade! Segue-Me com as crises e dificuldades nas quais ela te coloca!”

Um homossexual que deseje viver seriamente sua fé cristã deve saber que é amado pelo Senhor, que não é rejeitado pela Igreja, mas que deve – como também os heterossexuais – colocar sua sexualidade debaixo do senhorio de Cristo: deve lutar para ser casto, para ser reto, para fugir de toda leviandade e imoralidade; deve claramente reconhecer que os atos homossexuais não são moralmente corretos como a relação heterossexual no casamento… Por isso é muito importante que um homossexual cristão procure a ajuda de um sacerdote ou de um cristão maduro, ponderado, fiel a Cristo e à Igreja que possa ajudá-lo no seu caminho. Quem não precisa da ajuda dos outros no caminho de Cristo? Não é isto a Igreja? Não é isto que nos manda a fé cristã: ter uma orientação espiritual com alguém que saiba curar as próprias feridas e as dos outros?

E se houver quedas no caminho desse irmão homossexual? E se as amizades descambarem para atos homossexuais? É não desanimar: como qualquer cristão, trata-se de olhar para o Cristo, pedir perdão no sacramento da Penitência e recomeçar o caminho, procurando vencer o pecado!

E se um homossexual cristão, mesmo reconhecendo que os atos homossexuais não são moralmente agradáveis a Deus, não conseguir ser casto, e procurar viver com outra pessoa do mesmo sexo, inclusive tendo uma vida sexualmente ativa? Nem assim deve pensar que já não é cristão! Deve reconhecer claramente que sua situação não é o ideal diante de Deus. No entanto, deve viver uma vida o quanto possível digna diante do Senhor e dos homens. Não deve deixar a oração nem a frequência da Santa Missa e deve dizer sempre – todos nós devemos dizer sempre com o coração, o afeto, a alma e também com as lágrimas: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador!”

Certamente que aquele que se decida por uma vida de prática de atos homossexuais não deve se confessar sacramentalmente nem receber a comunhão eucarística; mas pode sim procurar sempre o conselho e a ajuda de um sacerdote ou de um cristão que o auxilie no caminho de seu seguimento a Cristo. É muito importante compreender que não há miséria e drama humanos que não possam ser atingidos pela Cruz do Senhor. Não se trata de chamar certo ao que é errado ou de avaliar como virtude ao que é fraqueza aos olhos do Senhor; trata-se, sim, de ter misericórdia, de acolher, de ter compaixão do outro! Triste daquele que vir o irmão levando pesado fardo e ainda lhe aumentar o peso com o desprezo e a rejeição! O pecado deve ser chamado sempre pecado, mas o pecador deve ser sempre acolhido com misericórdia e respeito e tratado como um irmão. Quem de nós não é pecador? Quem de nós não é ferido? Quem de nós não tem suas doenças espirituais?

6. Não sabemos por que algumas pessoas são homossexuais. Sabemos que elas não escolheram a tendência que possuem; sabemos também que não são moralmente doentes – há tantos homossexuais tão dignos e generosos! Mas, sabemos que elas podem seguir o Senhor e devem fazer o melhor de si para serem santos, para serem cristãos de verdade! O resto, coloquemos nas mãos do Senhor, com os olhos fitos em Cristo, que morreu por todos de modo tão atroz, exatamente porque grande é a profundidade de nossas misérias e contradições. Diante de mistérios assim, diante dos enigmas da existência, diante da dor e da cruz dos irmãos, devemos olhar para o céu e pronunciar, comovidos e humildes, aquela sábia bênção judaica, que cabe muito bem nos lábios de um cristão: “Bendito sejas Tu, Senhor nosso Deus, que guardas os segredos!” Isto mesmo: Ele sabe os mistérios! Ele conhece o motivo; Ele sabe o porquê. Nós não sabemos nada!

7. Esta é a diferença entre o pensar cristão e a perspectiva de um mundo que descarta Deus, o Deus das Escrituras, o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo: para a atual cultura “mundana”, a vida é sem Deus mesmo: cada um é a sua verdade, a sua medida e o seu próprio critério; cada um faz o que bem entende com a existência.
Para o cristão a vida é dom, é mistério a ser vivido diante de um Outro que nos ama e a Quem deveremos prestar contas. Num mundo sempre mais pagão e menos cristão, vai ficando difícil compreender estas coisas…

Aos pais cristãos que tenham filhos homossexuais, eu digo: acolham-nos com amor e respeito, ajudem-nos a definir os valores de sua vida segundo os critérios de Cristo, não os abandonem nunca nem os tratem com desprezo, mostrem-lhes sempre Jesus como ideal e caminho de felicidade e realização e, no fim de tudo, rezem muito por eles e os respeitem no rumo que derem à vida, desde que digno e responsável, sem leviandades ou desrespeito ao sagrado recinto do lar!

8. Quanto àqueles, “felizes e realizados” com sua “opção” sexual, que não é segundo Cristo, paciência: é o modo de pensar e viver dos que já não conhecem a Deus e Seu Cristo Jesus! Eles merecem o nosso respeito. É necessário que, no âmbito civil, construamos uma convivência que dê espaço para que todos vivam sua vida livremente, desde que respeitando o bem-comum.
Que Nosso Senhor também a esses mostre a luz bendita do Seu Rosto para que vejam o verdadeiro sentido da vida e encontrem a verdadeira paz e realização!
Não podemos impor aos não-crentes nossos valores; devemos respeitá-los, desde que não queiram impor tais valores aos demais; por eles podemos rezar, amá-los e anunciar-lhes Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida da humanidade e de cada pessoa!

Dom Henrique Soares da Costa, Bispo.