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O arcebispo alemão Georg Gänswein, prefeito da Casa Pontifícia e secretário particular de Bento XVI, em artigo publicado no jornal Corriere della Sera, 02-10-2016, comenta o recente livro-entrevista do papa emérito, Ultime conversazioni[Últimas conversas], acrescentando outras revelações sobre o papa emérito.

Gostaria de iniciar com um esclarecimento que, talvez, ainda poderá ser muito útil. Estas“últimas conversas” não são um “hard talk” beligerante, como o famoso programa de televisão da BBC, e Peter Seewald não tentou absolutamente colocar Bento XVI“contra as grades”.

O livro contém, ao contrário, o registro de uma série de encontros “coração a coração”, ocorridos antes e depois da renúncia do papa, entre duas almas muito diferentes entre si, mas bávaras até a medula (isso eu posso dizer, não sendo bávaro e vindo da Floresta Negra), que, interrogando intensamente a memória, entram em confidência. As respostas do papa emérito surpreendem aqui por uma intimidade totalmente particular e nova, em que o livro envolve o leitor, e por uma linguagem direta. Ficamos sabendo, por exemplo, da boca do papa, depois da renúncia, que o seu opositor Hans Küng “falava demais”.

“Ele não chorou no helicóptero”

Comove ler de modo igualmente repentino, na página 49, entre parênteses: “O papa chora” antes que o idoso pontífice fale daquele 28 de fevereiro de 2013, quando, ao cair da noite, ele pairou no céu de Roma a bordo de um helicóptero branco ao som de todos os sinos da cidade, dirigindo-se a Castel Gandolfo, ao encontro da noite da sua vida.

“Eu estava muito comovido”, diz. “Enquanto eu pairava lá em cima e ouvia o som dos sinos de Roma, eu sabia que podia agradecer e que o estado de ânimo de fundo era a gratidão.” Enquanto o helicóptero decolava, eu me sentei ao seu lado, profundamente abalado, como sabe quem acompanhou essa despedida pela tela da TV. E eu sei que, ao contrário de mim, ele não chorou na época, se me é possível revelar isso aqui, e eu também tenho ainda nos meus ouvidos o som dos sinos de Roma debaixo de nós, naquele voo que marcou um destino.

O amor pelas caminhadas

Devo confessar sinceramente que, hoje, lendo o livro, umedecem-me ainda mais os olhos nas passagens em que o idoso papa recorda como antigamente ele gostava de caminhar e de fazer passeios. “Eu sempre fui bom em caminhar”, diz ele em um ponto. “Todos os dias eu dava a minha passeada”, diz em outro, enquanto hoje eu tenho diante dos olhos como aquele caminhante apaixonado consegue dar, dia após dia, apenas passos cada vez mais curtos. Por isso, há muitos meses, ninguém me deve mais demonstrar o bom senso da sua renúncia de um ministério extremamente pesado.

“Nada de fuga”

O papa emérito continua esclarecendo: não se tratou de uma fuga, Roma não ardia, não havia lobos uivando debaixo da sua janela, e a sua casa estava em ordem quando entregou o bastão nas mãos do “caríssimos irmãos” do Colégio Cardinalício. O médico tinha lhe dito que ele não podia mais atravessar o Atlântico. Mas a Jornada Mundial da Juventude posterior, que deveria ocorrer em 2014, tinha sido antecipada para 2013, por causa da Copa do Mundo. Caso contrário, ele teria tentado resistir até 2014.

“Mas assim, ao contrário, eu sabia que não conseguiria.” Arrependeu-se, mesmo que por um minuto, de ter renunciado? “Não. Não, não. Vejo todos os dias que era a coisa certa a fazer.”

O papel depois da renúncia

Seewald quer saber sobre as muitas teorias da conspiração das quais se continua falando sobre a sua renúncia. Chantagem? Complô? “São todos absurdos”, corta o papa emérito. Na verdade, ainda há algo a aprender com o seu passo, uma novidade a ser valorizada: “O papa não é um super-homem. Se ele renuncia, mantém a responsabilidade que assumiu em um sentido interior, mas não na função. Por isso, o ministério papal não é diminuído, embora, talvez, se ressalte mais claramente a sua humanidade”.

A relação com Bergoglio

O que a opinião pública fica sabendo sobre a relação do papa emérito com Francisco? Primeiro: ele não esperava Bergoglio. O arcebispo de Buenos Aires foi para ele “uma grande surpresa”. Ele não tinha ideia de quem podia ser o seu sucessor. Mas, depois da eleição, assim que viu – na televisão, em Castel Gandolfo – como o novo papa “falava, de um lado, com Deus, de outro, com os homens, fiquei realmente contente. E feliz”. E até este momento está satisfeito com o ministério do Papa Francisco? Sem meias palavras, responde: “Sim. Há um novo frescor no seio da Igreja, uma nova alegria, um novo carisma que se dirige aos homens, já é uma coisa bonita. Muitos estão agradecidos porque agora o novo papa tem um novo estilo. O papa é o papa, não importa quem seja.”

O seu modo de agir não lhe criar problemas, “ao contrário. Eu gosto”. Ele não vê uma ruptura com o seu pontificado: “Talvez, coloque-se a ênfase em outros aspectos, mas não há nenhuma contraposição”.

As imitações e a “pennichella”

“Eu gostaria de ser professor por toda a vida”: ele foi e continua sendo até hoje um professor universitário, que gosta de fazer imitações das vozes, por exemplo do suíço-alemão Hans Urs von Balthasar, e que escreveu até o fim, a lápis, discursos e obras, inúmeros, em uma estenografia criada por ele mesmo para acompanhar a velocidade dos seus pensamentos. E que, mesmo nos períodos de crise, nunca renunciava às sete ou oito horas de sono de que precisa todas as noites, nem à pennichella [sesta], à qual havia se acostumado desde 1963, desde os anos do Concílio passados em Roma.

Os problemas de visão

Em setembro de 1991, ele, que nunca foi fumante nem bebedor, teve uma hemorragia cerebral. “Agora, eu realmente não posso mais”, anunciou ele depois a João Paulo II, que, no entanto, recusou categoricamente a sua renúncia. “Os anos de 1991 a 1993 foram cansativos”, comenta, lacônico.

Em 1994, teve uma embolia e, depois, uma maculopatia. Desde então, portanto, ainda anos antes da sua eleição a sucessor de Pedro, ele vê muito mal com o olho esquerdo. Isso nunca o fez pesar. O papa semicego! Quem imaginaria?!

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Publicamos o texto integral da entrevista com Bento XVI contida no livro Per mezzo della fede. Dottrina della giustificazione ed esperienza di Dio nella predicazione della Chiesa e negli Esercizi Spirituali [Por meio da fé. Doutrina da justificação e experiência de Deus na pregação da Igreja e nos Exercícios Espirituais], editado pelo jesuítaDaniel Libanori (Cinisello Balsamo: Edizioni San Paolo, 2016, 208 páginas), no qual o papa emérito fala da centralidade da misericórdia na fé cristã.

O volume reúne as atas de um congresso que ocorreu em outubro passado em Roma. Como escreve Filippo Rizzi no jornal Avvenire dessa quarta-feira, o autor da entrevista (cujo nome não está presente no livro) é o jesuíta Jacques Servais, aluno de Hans Urs von Balthasar e estudioso da sua obra.

A íntegra da conversa foi publicada pelo jornal L’Osservatore Romano.

Eis a entrevista.

Santidade, a questão posta este ano no quadro das jornadas de estudo (8-10 de outubro de 2015) promovidas pela Reitoria do Gesù, em Roma, é a da justificação pela fé. O último volume da sua Opera omnia (GS IV) evidencia a sua afirmação resoluta: “A fé cristã não é uma ideia, mas uma vida”. Comentando a célebre afirmação paulina (Rm 3, 28), o senhor falou, a esse respeito, de uma dupla transcendência: “A fé é um dom aos crentes comunicado através da Comunidade, que, de sua parte, é fruto do dom de Deus” (“Glaube ist Gabe durch die Gemeinschaft, die sich selbst gegeben wird”, GS TV; 512). Poderia explicar o que o senhor quis dizer com essa afirmação, levando em conta, naturalmente, o fato de que o objetivo dessas jornadas é esclarecer a teologia pastoral e vivificar a experiência espiritual dos fiéis?

Trata-se da questão: o que é a fé e como se chega a crer. Por um lado, a fé é um contato profundamente pessoal com Deus, que me toca no meu tecido mais íntimo e me coloca diante do Deus vivo, em absoluta imediaticidade, isto é, de modo que eu possa falar com Ele, amá-Lo e entrar em comunhão com Ele. Mas, ao mesmo tempo, essa realidade maximamente pessoal tem a ver inseparavelmente com a comunidade: faz parte da essência da fé o fato de me introduzir no nós dos filhos de Deus, na comunidade peregrina dos irmãos e das irmãs. A fé deriva da escuta (fides ex auditu), ensina-nos São Paulo.

A escuta, por sua vez, implica sempre um parceiro. A fé não é um produto da reflexão nem uma busca de penetrar nas profundezas do meu ser. Ambas as coisas podem estar presentes, mas elas continuam sendo insuficientes sem a escuta mediante a qual Deus, de fora, a partir de uma história por Ele mesmo criada, me interpela. Para que eu possa crer, eu preciso de testemunhas que encontraram Deus e O tornam acessível para mim.

No meu artigo sobre o batismo, eu falei da dupla transcendência da comunidade, fazendo, assim, emergir, uma vez mais, um elemento importante: a comunidade de fé não se cria por si só. Ela não é uma assembleia de homens que têm ideias em comum e que decidem operar pela difusão de tais ideias. Então, tudo estaria baseado em uma decisão própria e, em última análise, no princípio da maioria, isto é, no fim das contas, seria opinião humana. Uma Igreja assim construída não pode ser, para mim, garantia da vida eterna, nem exigir de mim decisões que me fazem sofrer e que estão em contraste com os meus desejos. Não, a Igreja não foi feita por si mesma, foi criada por Deus e é continuamente formada por Ele. Isso encontra a sua expressão nos sacramentos, sobretudo no do batismo: eu entro na Igreja não com um ato burocrático, mas mediante o sacramento. E isso equivale a dizer que eu sou acolhido em uma comunidade que não se originou de si mesma e que se projeta para além de si mesma.

A pastoral que pretende formar a experiência espiritual dos fiéis deve proceder a partir desses dados fundamentais. É necessário que ela abandone a ideia de uma Igreja que produz a si mesma e é necessário enfatizar que a Igreja se torna comunidade na comunhão do corpo de Cristo. Ela deve introduzir ao encontro com Jesus Cristo e levar à Sua presença no sacramento.

Quando o senhor era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, comentando a Declaração Conjunta da Igreja Católica e da Federação Luterana Mundial sobre a doutrina da justificação do dia 31 de outubro de 1999, o senhor evidenciou uma diferença de mentalidade em relação a Lutero e à questão da salvação e da bem-aventurança da forma como ele a colocava. A experiência religiosa de Lutero era dominada pelo terror diante da cólera de Deus, sentimento bastante estranho ao homem moderno, marcado mais pela ausência de Deus (basta reler o seu artigo escrito para a revista Communio no ano 2000). A doutrina de Paulo da justificação pela fé, nesse novo contexto, pode chegar à experiência “religiosa” ou, ao menos, à experiência “elementar” dos nossos contemporâneos?

Acima de tudo, quero sublinhar mais uma vez o que eu escrevia na Communio no ano 2000, sobre a problemática da justificação. Para o homem de hoje, em relação ao tempo de Lutero e à perspectiva clássica da fé cristã, as coisas, em certo sentido, se inverteram, ou seja, não é mais o homem que crê precisar da justificação em relação a Deus, mas ele é do parecer de que Deus é que deve se justificar por causa de todas as coisas horrendas presentes no mundo e diante da miséria do ser humano, todas coisas que, em última instância, dependeriam d’Ele.

A esse propósito, acho indicativo o fato de que um teólogo católico assuma de modo até mesmo direto e formal tal inversão: Cristo não teria sofrido pelos pecados dos homens, mas, ao contrário, por assim dizer, teria apagado as culpas de Deus. Mesmo que, por enquanto, a maior parte dos cristãos não compartilha uma inversão tão drástica da nossa fé, pode-se dizer que tudo isso faz emergir uma tendência de fundo do nosso tempo.

Quando Johann Baptist Metz defende que a teologia hoje deve ser “sensível à teodiceia” (theodizeeempfindlich), isso ressalta o mesmo problema de modo positivo. Mesmo prescindindo de uma contestação tão radical da visão eclesial sobre a relação entre Deus e o homem, o homem de hoje, de modo totalmente geral, tem a sensação de que Deus não pode deixar a maior parte da humanidade ir à perdição. Nesse sentido, a preocupação com a salvação típica de antigamente quase desapareceu.

No entanto, a meu ver, continua existindo, de outro modo, a percepção de que nós precisamos da graça e do perdão. Para mim, é um “sinal dos tempos” o fato de que a ideia da misericórdia de Deus se torne cada vez mais central e dominante – a partir da Ir. Faustina, cujas visões, de vários modos, refletem profundamente a imagem de Deus própria do homem de hoje e o seu desejo da bondade divina. O Papa João Paulo II estava profundamente impregnado por esse impulso, embora isso nem sempre emergisse de modo explícito.

Mas certamente não é por acaso que o seu último livro, que viu a luz imediatamente antes da sua morte, fala da misericórdia de Deus. A partir das experiências nas quais, desde os primeiros anos de vida, ele chegou a constatar toda a crueldade dos homens, ele afirma que a misericórdia é a única verdadeira e última reação eficaz contra a potência do mal.

Só onde há misericórdia acaba a crueldade, acabam o mal e a violência. O Papa Francisco encontra-se totalmente de acordo com essa linha. A sua prática pastoral se expressa justamente no fato de que ele nos fala continuamente da misericórdia de Deus. É a misericórdia aquilo que nos move em direção a Deus, enquanto a justiça nos assusta em relação a Ele. A meu ver, isso ressalta que, sob o verniz da segurança de si e da própria justiça, o homem de hoje esconde um profundo conhecimento das suas feridas e da sua indignidade diante de Deus. Ele está à espera da misericórdia.

Certamente, não é por acaso que a parábola do bom samaritano seja particularmente atraente para os contemporâneos. E não só porque nela está fortemente sublinhado o componente social da existência cristã, nem só porque nela o samaritano, o homem não religioso, em relação aos representantes da religião, aparece, por assim dizer, como aquele que age de modo verdadeiramente conforme a Deus, enquanto os representantes oficiais da religião se tornaram, por assim dizer, imunes em relação a Deus.

É claro que isso agrada ao homem moderno. Mas me parece igualmente importante, no entanto, que os homens, no seu íntimo, esperem que o samaritano venha em sua ajuda, que ele se curve sobre eles, derrame óleo sobre as suas feridas, cuide deles e os proteja. Em última análise, eles sabem que precisam da misericórdia de Deus e da sua delicadeza.

Na dureza do mundo tecnicizado em que os sentimentos não importam mais nada, aumenta, porém, a expectativa de um amor salvífico que seja dado gratuitamente. Parece-me que, no tema da misericórdia divina, expressa-se de modo novo aquilo que significa a justificação pela fé. A partir da misericórdia de Deus, que todos buscam, é possível também hoje interpretar, desde o início, o núcleo fundamental da doutrina da justificação e fazer com que ele apareça em toda a sua relevância.

Quando Anselmo diz que o Cristo devia morrer na cruz para reparar a ofensa infinita que tinha sido feita a Deus e, assim, restaurar a ordem quebrada, ele usa uma linguagem dificilmente aceitável pelo homem moderno (cfr. GS IV 215.ss). Expressando-se desse modo, corre-se o risco de projetar sobre Deus uma imagem de um Deus de cólera, aferrado diante do pecado do homem, por [um estado afetivo] sentimentos de violência e de agressividade comparáveis àquilo que nós mesmos podemos experimentar. Como é possível falar da justiça de Deus sem correr o risco de minar a certeza, já consolidada junto aos fiéis, de que [o Deus] dos cristãos é um Deus “rico em misericórdia” (Ef 2, 4)?

A conceitualidade de Santo Anselmo se tornou hoje, para nós, certamente incompreensível. É nossa tarefa tentar entender de modo novo a verdade que se esconde por trás desse modo de se expressar. De minha parte, formulo três pontos de vista sobre esse ponto:

a) A contraposição entre o Pai, que insiste de modo absoluto na justiça, e o Filho que obedece ao Pai e, obedecendo, aceita a cruel exigência da justiça, não é apenas incompreensível hoje, mas, a partir da teologia trinitária, é, em si mesma, totalmente errada. O Pai e o Filho são uma coisa só, e, portanto, a Sua vontade é ab intrinseco uma só. Quando o Filho, no Jardim das Oliveiras, luta com a vontade do Pai, não se trata do fato de que ele deva aceitar para si uma cruel disposição de Deus, mas sim do fato de atrair a humanidade para dentro da vontade de Deus. Deveremos voltar ainda, em seguida, sobre a relação das duas vontades do Pai e do Filho.

b) Mas, então, por que a cruz e a expiação? De algum modo, hoje, nas contorções do pensamento moderno de que falamos acima, a resposta a tais perguntas pode ser formulada de um modo novo. Coloquemo-nos diante da incrível quantidade suja de mal, de violência, de mentira, de ódio, de crueldade e de soberba que infectam e arruínam o mundo inteiro. Essa massa de mal não pode ser simplesmente declarada como inexistente, nem mesmo por parte de Deus. Ela deve ser depurada, reelaborada e superada. O antigo Israel estava convencido de que o sacrifício cotidiano pelos pecados e, sobretudo, a grande liturgia do Dia da Expiação (Yom-Kippur) eram necessários como contrapeso para a massa de mal presente no mundo e que só mediante tal reequilíbrio o mundo poderia, por assim dizer, continuar suportável. Assim que desapareceram os sacrifícios no templo, foi necessário perguntar o que podia ser contraposto às potências superiores do mal, como encontrar, de algum modo, um contrapeso. Os cristãos sabiam que o templo destruído havia sido substituído pelo corpo ressuscitado do Senhor crucificado e que, no Seu amor radical e incomensurável, havia sido criado um contrapeso à incomensurável presença do mal. Ou, melhor, eles sabiam que as ofertas apresentadas até então só podiam ser concebidas como gesto de desejo de um real contrapeso. Eles também sabiam que, diante do excessivo poder do mal, só um amor infinito podia bastar, só uma expiação infinita. Eles sabiam que o Cristo crucificado e ressuscitado é um poder que pode combater o do mal e que salva o mundo. E, sobre essas bases, também puderam entender o sentido dos seus próprios sofrimentos como inseridas no amor sofredor de Cristo e como parte da potência redentora de tal amor. Acima, eu citava aquele teólogo para o qual Deus teve que sofrer pelas Suas culpas em relação ao mundo; ora, dada essa inversão da perspectiva, emerge a seguinte verdade: Deus simplesmente não pode deixar como está a massa do mal que deriva da liberdade que Ele mesmo concedeu. Só Ele, vindo a fazer parte do sofrimento do mundo, pode redimir o mundo.

c) Sobre essas bases, torna-se mais perspícua a relação entre o Pai e o Filho. Reproduzo, sobre o assunto, uma passagem tirada do livro de De Lubac sobre Orígenes, que me parece muito claro: “O Redentor entrou no mundo por compaixão pelo gênero humano. Ele tomou sobre Si as nossas passiones antes ainda de ser crucificado, ou, melhor, até mesmo antes de se abaixar para assumir a nossa carne: se não as tivesse provado antes Ele não teria vindo tomar parte da nossa vida humana. Mas qual foi esse sofrimento que Ele suportou com antecedência por nós? Foi a paixão do amor. Mas o Pai mesmo, o Deus do universo, Ele que é superabundante de longanimidade, paciência, misericórdia e compaixão, não sofre, também Ele, em certo sentido? ‘O Senhor, teu Deus, de fato, tomou sobre si os teus costumes como aquele que toma sobre si o seu filho’ (Deuteronômio 1, 31). Deus, portanto, toma sobre si os nossos costumes como o Filho de Deus toma sobre si os nossos sofrimentos. O próprio Pai não é sem paixão! Se Ele é invocado, então Ele conhece misericórdia e compaixão. Ele percebe um sofrimento de amor (Homilias sobre Ezequiel 6, 6)”.

Em algumas regiões da Alemanha, houve uma devoção muito comovente que contemplava die Not Gottes (“a indigência de Deus”). De minha parte, isso me faz passar diante dos meus olhos uma imagem impressionante que representa o Pai sofredor, que, como Pai, compartilha interiormente os sofrimentos do Filho. E também a imagem do “trono de graça” faz parte dessa devoção: o Pai sustenta a cruz e o crucificado, inclina-se amorosamente sobre ele e, por outro lado, por assim dizer, está junto sobre a cruz. Assim, de modo grandioso e puro, percebe-se ali o ue significam a misericórdia de Deus e a participação de Deus ao sofrimento do homem. Não se trata de uma justiça cruel, não já do fanatismo do Pai, mas sim da verdade e da realidade da criação: da verdadeira íntima superação do mal que, em última análise, pode se realizar apenas no sofrimento do amor.

Nos Exercícios Espirituais, Inácio de Loyola não utiliza as imagens vetero-testamentárias da vingança, ao contrário de Paulo (como se percebe na segunda carta aos Tessalonicenses). No entanto, ele convida a contemplar como os homens, até a Encarnação, “desciam ao inferno” e a considerar o exemplo dos “inúmeros outros que lá acabaram por muito menos pecados do que aqueles que eu cometi”. É nesse espírito que São Francisco Xavier viveu a sua própria atividade pastoral, convencido de ter que tentar salvar do terrível destino da perdição eterna o máximo de “infiéis” possível. Pode-se dizer que, nesse ponto, nas últimas décadas, houve uma espécie de “desenvolvimento do dogma”, que o Catecismo absolutamente deve levar em conta?

Não há dúvida de que, nesse ponto, estamos diante de uma profunda evolução do dogma. Enquanto os Padres e os teólogos da Idade Média ainda podiam ser da opinião de que, na substância, todo o gênero humano havia se tornado católico e que o paganismo existia quase apenas nas margens, a descoberta do Novo Mundo, no início da era moderna, mudou de maneira radical as perspectivas.

Na segunda metade do século passado, afirmou-se completamente a consciência de que Deus não pode deixar todos os não batizados irem para a perdição e que mesmo uma felicidade puramente natural para eles não representa uma resposta real para a questão da existência humana.

Se é verdade que os grandes missionários do século XVI ainda estavam convencidos de que aqueles que não eram batizados estavam perdidos para sempre, e isso explica o seu empenho missionário, na Igreja Católica depois doConcílio Vaticano II, tal convicção foi definitivamente abandonada. Disso derivou uma dupla e profunda crise. Por um lado, isso parece remover toda motivação a um futuro empenho missionário. Por que se deveria tentar convencer as pessoas a aceitarem a fé cristã quando elas podem se salvar mesmo sem ela? Mas para os cristãos também emergiu uma questão: tornou-se incerta e problemática a obrigatoriedade da fé e da sua forma de vida.

Se há quem pode se salvar mesmo de outras maneiras, não é mais evidente, no fim das contas, por que o próprio cristão está ligado às exigências da fé cristã e à sua moral. Mas se fé e salvação não são mais interdependentes, mesmo a fé se torna imotivada. Nos últimos tempos, foram formuladas diversas tentativas com o objetivo de conciliar a necessidade universal da fé cristã com a possibilidade de se salvar sem ela.

Recordo aqui duas delas: acima de tudo, a tese bem conhecida dos cristãos anônimos de Karl Rahner. Nela, defende-se que o ato-base essencial da existência cristã, que é decisivo em ordem à salvação, na estrutura transcendental da nossa consciência, consiste na abertura ao totalmente outro, em direção à unidade com Deus. A fé cristã teria feito emergir à consciência aquilo que é estrutural no homem como tal. Por isso, quando o homem se aceita no seu ser essencial, ele cumpre o essencial do ser cristão, mesmo sem conhecê-lo de modo conceitual.

O cristão, portanto, coincide com o humano e, nesse sentido, é cristão todo homem que aceita a si mesmo, mesmo que não saiba disso. É verdade que essa teoria é fascinante, mas reduz o próprio cristianismo a uma pura apresentação consciente daquilo que o ser humano é em si e, portanto, ignora o drama da mudança e da renovação que é central no cristianismo.

Ainda menos aceitável é a solução proposta pelas teorias pluralistas da religião, para as quais todas as religiões, cada um ao seu modo, seriam vias de salvação e, nesse sentido, nos seus efeitos, devem ser consideradas como equivalentes. A crítica da religião do tipo daquela exercida pelo Antigo Testamento, pelo Novo Testamento e pela Igreja primitiva é essencialmente mais realista, mais concreta e mais verdadeira no seu exame das várias religiões. Uma recepção tão simplista não é proporcional à grandeza da problemática.

Lembremos, por último, especialmente Henri de Lubac e, com ele, alguns outros teólogos que fizeram força sobre o conceito de substituição vicária. Para eles, a preexistência de Cristo seria expressão da figura fundamental da existência cristã e da Igreja como tal. É verdade que, assim, o problema não está totalmente resolvido, mas me parece que essa, na realidade, é a intuição essencial que, assim, toca a existência do indivíduo cristão.

Cristo, como único, era e é para todos os cristãos, que, na grandiosa imagem de Paulo, constituem o Seu corpo neste mundo, participam de tal ser-para [essere-per]. Não somos cristãos, por assim dizer, para nós mesmo, mas sim, comCristo, para os outros. Isso não significa uma espécie de bilhete especial para entrar na bem-aventurança eterna, mas sim a vocação para construir o conjunto, o todo.

Aquilo de que a pessoa humana precisa em ordem à salvação é a íntima abertura em relação a Deus, a íntima expectativa e adesão a Ele, e isso significa, vice-versa, que nós, junto com o Senhor que encontramos, vamos rumo aos outros e tentamos tornar visível a eles o advento de Deus em Cristo.

É possível explicar esse “ser para” também de um modo um pouco mais abstrato. É importante para a humanidade que, nela, haja verdade, que ela seja acreditada e praticada. Que se sofra por ela. Que se ame. Essas realidades penetram com a sua luz dentro do mundo como tal e o sustentam. Eu acho que, nesta presente situação, se torna para nós cada vez mais claro e compreensível aquilo que o Senhor diz a Abraão, isto é, que dez justos teriam sido suficientes para fazer sobreviver uma cidade, mas que ela destrói a si mesma se esse pequeno número não é alcançado. É claro que devemos refletir mais sobre toda a questão.

Aos olhos de muitos “laicos”, marcados pelo ateísmo dos séculos XIX e XX, o senhor notou, é mais Deus – se é que existe – e não o homem que deveria responder pelas injustiças, pelo sofrimento dos inocentes, pelo cinismo do poder a que estamos assistindo, impotentes, no mundo e na história universal (ver Spe salvi, n. 42)… No seu livro Jesus de Nazaré, o senhor ecoa aquilo que, para eles – e para nós –, é um escândalo: “A realidade da injustiça, do mal, não pode ser simplesmente ignorada, simplesmente posta de lado. Ela deve absolutamente ser superada e vencida. Só assim há verdadeiramente misericórdia” (Jesus de Nazaré, p. 153, citando 2Timóteo 2, 13). O sacramento da confissão é, e em que maneira, um dos lugares nos quais pode ocorrer uma “reparação” do mal cometido?

Eu já tentei expor no seu conjunto os pontos fundamentais relativos a esse problema ao responder a terceira questão. O contrapeso ao domínio do mal só pode consistir, em primeiro lugar, no amor divino-humano de Jesus Cristo que é sempre maior do que toda possível potência do mal. Mas é necessário que nós nos insiramos nessa resposta que Deus nos dá mediante Jesus Cristo. Mesmo que o indivíduo seja responsável por um fragmento de mal e, portanto, seja cúmplice do seu poder, junto com Cristo, ele pode, no entanto, “completar o que ainda falta aos seus sofrimentos” (cfr. Colossenses 1, 24).

O sacramento da penitência, nesse campo, certamente tem um papel importante. Isso significa que nós nos deixamos sempre moldar e transformar por Cristo e que passamos continuamente do lado de quem destrói para o de quem salva.

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Após ser o primeiro Pontífice a fazer publicações no Twitter, o Papa Emérito Bento XVI chega ao Facebook por meio da Fundação Vaticana Joseph Ratzinger – Bento XVI. A página da instituição foi inaugurada na quinta-feira (14/1) e pretende divulgar o Magistério de Ratzinger ao longo dos anos.

A ideia partiu do presidente da fundação, Padre Giuseppe Antonio Scotti, para manter um contato mais próximo entre o Papa Emérito e os fiéis que apreciam o trabalho de Bento XVI na Igreja. Por meio da página no Facebook, gerenciada pelo vaticanista Luca Caruso, a Fundação Vaticana quer aproximar o público dessas atividades, principalmente quando Ratzinger esteve à frente da Congregação para a Doutrina da Fé e durante os oito anos de Pontificado.

Na primeira publicação, a página da fundação traz um foto de Bento XVI junto com o Papa Francisco em um evento realizado na Praça São Pedro. A instituição nasceu em março de 2010 com a tarefa de promover o conhecimento e o estudo da teologia.

Desde a criação da conta oficial do Pontífice no Twitter, agora sob comando do Papa Francisco, dados revelam que a iniciativa se tornou um sucesso na divulgação de mensagens na rede social. Com nove contas em diversos idiomas, na semana passada, os números de seguidores no microblog já tinha ultrapassado a marca dos 26 milhões. Em língua portuguesa, mais de 1,8 milhão de pessoas seguem o Papa Francisco. (PS)

Rádio Vaticano

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O dia 11 de fevereiro de 2013 prometia ser uma segunda-feira particularmente tranquila. No consistório, conforme previsto, o papa Bento XVI decretou a inscrição de Santa Catarina de Siena Montoya e Upegui e de Maria Guadalupe Garcia Zavala no Livro dos Santos. Era um dia a tal ponto tranquilo que a Sala de Imprensa da Santa Sé estava quase vazia.

O que ninguém esperava eram as seguintes palavras de Bento XVI: “Convoquei este consistório não só para as três causas de canonização, mas também para comunicar uma decisão de grande importância para a vida da Igreja”.

E veio o anúncio: “Depois de examinar reiteradamente a minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que, devido à idade avançada, não tenho mais forças para exercer adequadamente o ministério petrino”.

E prosseguiu: “Por isso, muito consciente da seriedade deste ato, com plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério de bispo de Roma, Sucessor de São Pedro, que me foi confiado por meio dos cardeais em 19 de abril de 2005, de forma que, a partir do dia 28 de fevereiro de 2013, às 20 horas, ficará vacante a sé de Roma, a sé de São Pedro, e deverá ser convocado, por meio de quem tem a devida competência, o conclave para a eleição do novo Sumo Pontífice”.

“O papa esperou este consistório com a participação de grande quantidade de cardeais presentes”, disse o porta-voz vaticano, pe. Federico Lombardi, “e leu o seu pronunciamento em latim”.

“O papa continuará na plenitude das suas funções até 28 de janeiro, às 20 horas. A partir desse momento, entraremos em sé vacante”, explicou o porta-voz, acrescentando: “Não existem dúvidas sobre a renúncia, que foi feita do modo válido previsto pelo direito canônico”.

Gestos precursores da renúncia

No dia 28 de abril de 2009, o papa Bento XVI viajou a L’Aquila, na Itália, para orar pelas vítimas do terremoto que tinha atingido a região. Na basílica de Nossa Senhora de Collemaggio, onde está a relíquia do papa Celestino V, Bento XVI depositou o pálio que lhe fora entregue no dia da sua entronização.

Celestino V (1209-1296) foi eleito papa após uma longa sé vacante, o que se deveu à divisão do colégio cardinalício entre os candidatos apoiados pelas famílias Colonna e Orsini. Após cinco meses como pontífice, ele renunciou voluntariamente ao pontificado para retornar à sua vida de ermitão. Reunido o conclave, seu sucessor, Bonifácio VIII, foi eleito em um dia.

Quando Bento XVI voltou a essa região, por ocasião do “perdão de Celestino V”, ele declarou em sua homilia: “Passaram-se oitocentos anos, mas Celestino V permanece presente na história em razão dos célebres acontecimentos de sua época e do seu pontificado e, especialmente, da sua santidade”.

O papa Bento XVI quis ressaltar, ainda, “vários ensinamentos” da vida do papa Celestino, que são “válidos também para a nossa época”. Precisamos ver nele um “buscador de Deus”, que, “no silêncio exterior, mas em especial no interior, conseguiu perceber a voz de Deus, capaz de orientar a sua vida”. Além disso, “São Pedro-Celestino, mesmo levando uma vida de eremita, não se ‘fechou em si mesmo’, mas manteve a paixão por levar a boa notícia do Evangelho aos seus irmãos. E o segredo da sua fecundidade pastoral estava precisamente no fato de permanecer com o Senhor, na oração”.

Depois da perplexidade normal que um ato histórico desta envergadura suscita, veio o conclave e, com ele, o papa Francisco. Depois de um ano, tudo agora parece mais claro.

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Monsenhor Ratzinger: “Meu irmão não se arrepende de ter renunciado” O irmão do papa emérito se pronuncia no aniversário da histórica renúncia

Georg Ratzinger, hoje com noventa anos, se lembra com preocupação do dia em que o seu irmão menor, Joseph, foi eleito Sumo Pontífice. “Devo dizer, com toda a sinceridade, que, naquele momento, eu me senti bastante derrotado”. O que o entristecia era pensar que o irmão não teria mais tempo para ele a partir de então. No dia 19 de abril de 2005, não conseguiu telefonar para Joseph Ratzinger. Passaram-se dias depois da eleição do Sucessor de Pedro até que mons. Georg conseguisse falar com o irmão. “Agora eu tenho, graças a Deus, um segundo telefone, com um número que só ele conhece. Quanto toca esse telefone, eu sei que o meu irmão, o papa, está me ligando”.

É conhecida a relação estreita entre os irmãos Ratzinger. Detalhes inéditos da vocação de Joseph Ratzinger foram revelados no livro “Meu irmão, o papa” (Mein Bruder, der Papst), entrevista concedida por mons. Georg Ratzinger ao jornalista e escritor alemão Michael Hesemann. Mons. Georg começa pelos anos da infância e, entre outras coisas, conta como nasceu e amadureceu no seio da família a decisão do jovem Joseph de servir à Igreja no sacerdócio, até chegar aos anos do pontificado.

Ambos os irmãos continuaram se encontrando. Georg visitava o irmão várias vezes por ano em Roma. As festas natalinas, a páscoa e o mês de agosto em Castel Gandolfo eram as ocasiões em que ambos podiam passar algum tempo juntos. Mons. Ratzinger ficava no Vaticano de 28 de dezembro até 10 de janeiro. Neste ano, porém, ele prolongou a estada para festejar o seu 90º aniversário em companhia do papa emérito, no dia 15 de janeiro.

Mons. Georg Ratzinger passa o resto do ano em casa, em Ratisbona, cidade em que se localiza o Instituto Papa Bento XVI, encarregado de publicar as obras completas do emérito bispo de Roma. Foi para esse lugar que se dirigiu um jornalista do periódico espanhol La Razón, a fim de conversar com Georg Ratzinger. Tanto no Instituto quanto na diocese, ele recebeu a informação de que, por causa da idade avançada, o irmão de Bento XVI “não está mais em condições de conceder entrevistas”.

Mesmo assim, o jornalista Michael Hesseman sugere uma conversa por telefone. Mons. Georg aceita.

“Meu irmão está em bom estado de saúde. Ele tenta manter a serenidade, mesmo sem ter todo o tempo que gostaria para tocar o piano ou conversar por telefone, já que ainda recebe muitas visitas e mantém audiências”. O irmão de Bento XVI diz que o papa emérito continua estudando teologia, mas não confirma a possibilidade de que ele esteja escrevendo as suas memórias: “Não posso confirmar. Além disso, já existem livros que relatam amplamente a vida do meu irmão, que já contêm a essência do seu trabalho”.

Perguntado sobre o primeiro aniversário da renúncia e sobre as reflexões feitas durante esses meses, Georg Ratzinger afirma: “Meu irmão não se arrepende da decisão que tomou há um ano. Para ele, estão bem claras as tarefas e funções que ele quer realizar. A renúncia foi uma decisão clara que continua sendo válida hoje”.

Mons. Georg Ratzinger nasceu em Pleiskirchen, na Alemanha, em 15 de janeiro de 1924. É conhecido pela atividade como músico e como diretor de coral: com apenas onze anos, o pequeno Georg já tocava o órgão da igreja. Em 1935, ele entrou no Kleine Seminar, um internato para meninos que querem ser sacerdotes, na cidade de Traunstein. Ratzinger recebeu ali as primeiras aulas de música, que continuaria no Seminário de Munique e de Freising, onde entrou junto com o irmão Joseph em janeiro de 1946. Cinco anos depois, em 1951, ambos foram ordenados, também juntos, pelo cardeal Michael von Faulhaber.

Piergiorgio Odifreddi-2

Relato do matemático e lógico italiano Piergiorgio Odifreddi, ex-professor da Universidade de Turim e da Cornell University, em artigo publicado no jornal La Repubblica

Pouquíssimas pessoas no mundo, e Peirgiorgio é uma delas, podem compreender a surpresa e a emoção que se sentem ao receber na própria casa uma inesperada carta de um papa. Uma surpresa e uma emoção que não são arranhadas pelo fato de sermos não crentes, porque o ateísmo se refere à razão, enquanto a personalidade e os símbolos do poder agem sobre os sentimentos.

Para mim, essa surpresa e essa emoção aconteceram no dia 3 de setembro, quando o carteiro me entregou um envelope lacrado, contendo 11 páginas timbradas datadas de 30 de agosto, nas quais Bento XVI respondia ao meu livro Caro papa, ti scrivo (Mondadori, 2011). Uma resposta que me surpreendeu por duas razões. Acima de tudo, porque um papa leu um livro que, desde a capa, era apresentado como uma “luciferina introdução ao ateísmo”. E, depois, porque quis comentá-lo e discuti-lo.

Pouco depois da renúncia de Ratzinger, eu tinha aproveitado um amigo comum para pedir ao arcebispo Georg Gänswein se era possível entregar ao agora papa emérito uma cópia do meu livro, na esperança de que o pudesse ver. E, em seguida, em algumas ocasiões, foi-me dito no início que ele o tinha recebido e, depois, que o estava lendo. Mas que ele pudesse me responder, e até mesmo comentá-lo em profundidade, estavam além das razoáveis esperanças.

Abrir o envelope e encontrar nele 11 páginas densas, que iniciavam com um pedido de desculpas pelo atraso na resposta e uma oferta de agradecimento pela lealdade da discussão, era a realização do máximo das expectativas possíveis, em um mundo que normalmente não as realiza senão minimamente. E era também a satisfação de ver finalmente levados a sério, e não removidos, embora não compartilhados, os meus argumentos em favor do ateísmo e contra a religião em geral e o catolicismo em particular.

Por outro lado, certamente não foi por acaso que eu enderecei a minha carta aberta a Ratzinger. Depois de ter lido o seu Introdução ao Cristianismo, que me foi sugerido por Sergio Valzania, eu tinha entendido que a fé e a doutrina de Bento XVI, ao contrário das dos outros, eram suficientemente sólidas e aguerridas para poder enfrentar e sustentar muito bem ataques frontais. Um diálogo com ele, embora então imaginado apenas à distância, poderia se revelar, portanto, como uma obra estimulante e não banal, a ser enfrentada de cabeça erguida.

Escrevendo o meu livro como um comentário ao seu, eu havia tentado favorecer a possibilidade, embora remota, de que um dia o destinatário pudesse realmente recebê-lo. Portanto, eu tinha baixado os tons sarcásticos de outros ensaios, escolhendo um estilo de intercâmbio entre professores “iguais”, obviamente no sentido acadêmico da expressão. E eu tinha me concentrado nos argumentos intelectuais que eu podia esperar que manteriam viva a sua atenção, sem, contudo, renunciar a enfrentar de peito aberto os problemas internos da fé e as suas relações externas com a ciência.

A abordagem, evidentemente, não era equivocada, visto que alcançou o seu objetivo: que, obviamente, não era tentar “desconverter o papa”, mas sim expôr a ele honestamente as perplexidades, e às vezes as incredulidades, de um matemático qualquer sobre a fé. Analogamente, a carta de Bento XVI não tenta “converter o ateu”, mas contorce contra ele, honestamente, as mesmas simétricas perplexidades, e às vezes as incredulidades, de um crente muito especial sobre o ateísmo.

O resultado é um diálogo entre fé e razão que, como Bento XVI nota, permitiu a ambos confrontarmo-nos francamente, e às vezes até duramente, no espírito daquele Átrio dos gentios que ele mesmo tinha desejado em 2009. Se eu quis esperar algumas semanas para tornar pública a sua participação no diálogo, é porque eu queria estar certo de que ele não queria mantê-la privada.

Agora que eu recebi a confirmação, antecipo uma parte da sua carta, que, contudo, é muito longa e detalhada para ser reproduzida na íntegra, sobretudo nas seções filosóficas iniciais. Ela será reproduzida em breve em uma nova versão do meu livro, editada das partes sobre as quais ele decidiu não se deter e ampliada com um relato do nascimento e dos desdobramentos daquele que parece ser um unicum na história da Igreja: um diálogo entre um papa teólogo e um matemático ateu. Divididos em quase tudo, mas unidos ao menos por um objetivo: a busca da Verdade, com maiúscula.

Fonte: Frates in Unum

Talvez ele precisasse de respirar um ar diferente daquele dos Jardins do Vaticano, ou, ao terminar o verão, ele quisesse rever a casa onde passou oito verões e apreciar a vista do Lago Albano. O fato é que, ontem à tarde, Bento XVI se permitiu uma curta viagem até Castel Gandolfo, vila que é a residência de verão dos papas desde o papa Urbano VIII, onde passou os primeiros dois meses após a renúncia do ministério petrino.

O papa emérito – de acordo com relatos de fontes do Vaticano – passou cerca de três horas na cidade, caminhou nos jardins do palácio, recitou o rosário e assistiu a um concerto de piano.  Retornou à noite para o mosteiro Mater Ecclesiae, no Vaticano, onde decidiu viver “escondido do mundo” após a decisão histórica de 11 de Fevereiro.

Bento XVI, ainda Pontífice reinante, em Castel Gandolfo.

Acompanharam Bento XVI na tarde de ontem, seus “anjos da guarda”: as memores domini,Loredana, Carmela, Cristina e Manuela, quatro leigas consagradas, do movimento Comunhão e Libertação, que cuidavam do apartamento, da capela e do guarda-roupa de Ratzinger nos anos de seu pontificado, e continuam a ajudá-lo, mesmo agora, após a renúncia.

Papa Francisco teria”cedido” o lugar ao predecessor, convidando-o para passar o verão, nas colinas Albani, já que ele ficaria em Roma por “compromissos de trabalho”. O papa emérito recusou o convite, evitando assim o possível rumor de uma transferência e mantendo o perfil discreto.

Cerca de seis meses após o anúncio que chocou o mundo, a decisão de Ratzinger de viver uma vida oculta ainda suscita reflexões e questionamentos. Alguns tiveram o privilégio de ouvir dos lábios do papa emérito as razões desta escolha. Apesar da vida de clausura, Ratzinger concede, esporadicamente, e apenas em certas ocasiões, algumas visitas muito particulares no Mater Ecclesiae. Durante estes encontros, o ex-pontífice não revela segredos, não faz declarações que podem pesar como “as palavras do outro papa”,e mantém a discrição que sempre o caracterizou.

No máximo observa com satisfação as maravilhas que o Espírito Santo está fazendo com o seu sucessor, ou fala sobre si mesmo, de como a escolha de renunciar foi inspiração de Deus.

Assim teria dito Bento XVI a um convidado destes encontros raros que teve a graça de encontrá-lo algumas semanas atrás, em Roma. “Deus me disse”, foi a resposta do papa emérito à pergunta sobre por que ele quis renunciar. Ele imediatamente esclareceu que não houve qualquer tipo de atitude por aparência ou algo parecido, mas foi uma”experiência mística”, em que o Senhor suscitou em seu coração um “desejo absoluto”de ficar a sós com Ele, recolhido em oração.

A atitude de Bento XVI, portanto, não foi uma fuga do mundo, mas um refúgio em Deus para viver do Seu amor. Ratzinger disse -revelou a fonte,que prefere permanecer anônima- que esta “experiência mística”perdura por todos esses longos meses, aumentando cada vez mais o desejo de uma relação única e direta com o Senhor. Além disso, o papa emérito revelou que quanto mais observa o carisma de Francisco, mais compreende o quanto essa escolha foi a vontade de Deus.

Tudo o que tinha era apenas uma mala, alguns livros e o necessário

Por Mirticeli Dias de Medeiros

Quem diria que aquele velhinho, o qual, todos os dias, com sua maleta, fazia o trajeto de seu apartamento até o trabalho, a pé, tornar-se-ia o 265º Papa da Igreja Católica? Creio que, para muitos, especialmente para aqueles que moravam em Roma, foi uma surpresa vê-lo na sacada central da Basílica de São Pedro, em 19 de abril de 2005, após um dos Conclaves mais rápidos da história – tão rápido quanto o do nosso Papa Francisco.

Ratzinger disse, em entrevista, nunca ter almejado cargos na Igreja e nem mesmo visado os “holofotes”, mas afirmou também estar à disposição desta mesma Igreja diante de uma necessidade. No entanto, mal saberia ele que, tamanha disposição e desapego, o levaria à Sé de Pedro.

Um Papa que, em sua infância e adolescência, viu os horrores da guerra, foi obrigado a deixar o seminário para alistar-se e, neste tempo tão doloroso, foi alvo de chacotas entre os soldados de Hitler, porque alimentava um imutável e concreto desejo: ser padre.

O Pontífice que, quando ainda cardeal, ao ser convocado por João Paulo II para transferir-se para Roma, sentiu a dor de deixar sua terra natal, a ponto de querer expressar visivelmente uma vida de simplicidade e renúncia: “Tudo o que tinha era apenas uma mala, alguns livros e o necessário”, ressaltou.

Um homem que fez questão de cumprimentar cada um dos vizinhos do modesto apartamento que habitava antes de transferir-se para o Palácio Apostólico, a residência oficial do Santo Padre.

Um Sumo Pontífice que, em uma de suas primeiras catequeses, ao ver uma criança com câncer, fez o sinal da cruz também no ursinho que ela portava, demonstrando, com isso, que um Papa também é capaz de dobrar-se para entrar no universo dos pequenos – tal gesto levou um jornalista judeu a mudar os seus conceitos. Um papa que escolheu ser simplesmente Bento, o santo que, no silêncio de um mosteiro, devolveu à Europa a identidade perdida. O pastor que, considerando-se no fim de sua peregrinação terrestre, afirmou, em 2012, que uma certeza o motivava a ir adiante: “Deus é, Deus está”.

O Sucessor de Pedro que usou um relógio cobiçado por colecionadores mas que, para ele, tinha um valor que não poderia ser calculado por eles: era o relógio de sua irmã, a qual, em seu leito de morte, ofereceu-lhe esta lembrança. Um Papa que, pouco antes de ser eleito, por causa de sua doação à Igreja, não tinha tempo de fazer algo que gostava: passear por Roma. “Eu gostaria de ter uma qualidade de vida mais leve. Eu raramente consigo chegar até a cidade”, disse.

Ele, apesar de ter feito tanto, não hesitou em sair de cena para que a Igreja pudesse seguir adiante, mesmo que isso lhe custasse a falta de reconhecimento de muitos católicos sem memória.

Bento XVI foi alguém que viveu uma humildade por vezes não captada pelas potentes câmeras de televisão, mas demonstrou aquilo que, um dia, o apóstolo das nações fez questão de frisar: “Convém que Cristo cresça e eu diminua”.

Rezamos por ti, Bento XVI, nosso Bento XVI.

MATTHEW ALDERMAN, ARQUITETO ESPECIALISTA EM ARQUITETURA SACRA, ARTISTA, ILUSTRADOR E COLABORADOR DO SITE THE NEW LITURGICAL MOVEMENT

Alguns anos atrás, enquanto estudava Arquitetura em Roma, nosso grupo foi levado para ver o maravilhoso Êxtase de Santa Teresa, de Bernini. Nele, o genial escultor barroco apresenta aquele momento místico em que a grande carmelita foi transpassada pela flecha ardente do amor divino. Também eu fui alvejado pela profundidade e beleza daquele trabalho. Agora, minha mente volta àquela tarde na semiescuridão de Santa Maria della Vittoria e à face de mármore leitoso da santa, levemente iluminada, depois que dois amigos chamaram minha atenção para uma mesma passagem nos escritos de Bento XVI.

Em ‘On the way to Jesus Christ, o então cardeal Ratzinger descreve a verdade como ser “atingido pela flecha da beleza que fere o homem: ser tocado pela realidade, ‘pela presença pessoal do próprio Cristo’”, citando o teólogo grego Nicolau Cabasilas. O homem contemporâneo confunde a beleza com o glamour superficial. Quando os jornalistas comentam sobre a “teologia da beleza” do papa, enfatizam o exterior – os brocados de seda, os sapatos vermelhos, as mitras – e a associam a uma exibição orgulhosa desses itens. Mas o papa é uma pessoa culta e reservada, um pianista amador que aprecia Mozart e gosta da companhia de gatos; a autopromoção pomposa não é de sua índole.

Para Bento, a visibilidade inerente ao cargo insinua uma realidade mais profunda. Para ele, a verdadeira beleza é algo que vai bem mais fundo, que penetra o coração humano. Essa beleza transcendente abrange a totalidade da verdade de Jesus Cristo, a glória e o sofrimento, a luz da ressurreição e a escuridão do Calvário. Como na visão de Santa Teresa, há tanto deleite quanto dor no toque da beleza à medida que ela nos abre para Deus.

Bento XVI também escreveu que “a única defesa realmente efetiva do Cristianismo se resume em dois argumentos: os santos que a Igreja produziu e a arte que floresceu em seu seio”. Em uma era que perdeu a arte da argumentação filosófica, essa experiência da beleza – no testemunho de sacrifício da vida cristã, e na beleza física da arte e da arquitetura – nos permite vencer os muros defensivos que erguemos dentro de nós mesmos contra Deus. O testemunho de beleza de Bento é, portanto, um ato evangélico, de pregação e apostolado. A beleza nunca se encerra em si mesma.

Em um nível mais concreto, o amor do papa pela arte coloca a beleza em um contexto histórico, passado e presente. Os elaborados rituais papais e outros atos que podem parecer arcaicos ao não católico, e até para muitos católicos, são tentativas de nos colocar em continuidade com dois milênios de pintura, escultura e música que buscam nos levar a Cristo. Eles representam não a autoglorificação, mas um desejo de união de Bento com seu cargo, de comunhão com seus predecessores. Ele não quer que ninguém desvie para o homem Joseph Ratzinger a atenção devida a Cristo. Por isso, em muitas missas papais, ele coloca no altar um enorme crucifixo: assim, ele e os fiéis podem olhar para o mesmo Cristo e ser transpassados pelo mesmo raio de beleza que emana dEle.

Como Teresa, Bento XVI foi atingido pelo amor e pela beleza. Sua renúncia nos mostra que seu coração também foi alvejado por muitas outras flechas – tristeza, desunião, o fardo do papado e o peso da idade. Também há beleza em aceitar esse sofrimento, e rezemos por ele, agora que terá um merecido descanso.


Se vivemos em tempos sem fé e se a Igreja Católica é irrelevante e fala sozinha, segundo se apregoa, como explicar a fixação de manchetes de jornais e TV na renúncia de um papa octogenário?

Em razão do ineditismo do gesto, da sensação criada por escândalos romanos, até se compreenderia o impacto do choque inicial.

Mas, dia após dia, semanas a fio, o fascínio da história convida a buscar outros motivos.

Um deles seria a carência de uma figura paterna, sobretudo em época pobre de grandes homens, quando os líderes são, por toda a parte, mornos e insossos. Mesmo desse ponto de vista, Bento 16 se enquadra de modo diferente.

Ele não é, como o antecessor, um grande papa político, cujo papel enérgico teria sido decisivo na queda do comunismo.

Tampouco tem aquele ar bonacheirão de avô bem humorado e contador de histórias de João 23.

Seu jeito é mais do mestre escolar de sorriso tímido. Todo seu pontificado não foi mais que uma lição repetida com infinita paciência.

Nisso me lembra Julius Nyerere, o fundador da Tanzânia, que conheci bem em Genebra. Um dos raros heróis da independência africana capaz de criar um país que superou os ódios tribais, Nyerere só aceitava um título -o de Mwalimu, o singelo professor que tinha sido e jamais cessou de ser.

Nyerere ensinou que não é o exercício absoluto do poder que constrói, mas sim o exemplo da abnegação, a capacidade de se impor limites, de deixar o poder quando o julgavam insubstituível.

Da mesma forma que seu vizinho Mandela, soube sair no momento em que todos queriam que ficasse.

Não foram os grandes líderes da guerra e da paz -Churchill, Roosevelt ou de Gaulle- os gigantes morais que dominaram o século.

O ensinamento do perdão e da reconciliação de Mandela e a pregação da não violência até o sacrifício da própria vida por Gandhi ou Martin Luther King se mostraram muito mais fecundos e duráveis que os efeitos do poder.

Ninguém exerceu o poder de modo mais brutal e absoluto que Stálin, do qual nada ficou a não ser a maldição dos descendentes de suas incontáveis vítimas. O próprio ditador confessou, num instante de melancolia, que, no final, quem ganhava sempre era a morte.

Ao confessar que em horas difíceis “o Senhor parecia dormir”, ao revelar sua fragilidade, Bento 16 fez mais pela nova evangelização, alcançou mais corações que no uso dos meios do poder centralizado de pontífice.

Abrir mão da “glória de mandar”, da vã cobiça “dessa vaidade a quem chamamos fama”, faz parte do processo pelo qual o grão de trigo tem de morrer para poder dar fruto.

Sinal de contradição, Jesus legou à igreja a herança de continuar a ser a força dos fracos, a grandeza dos pequenos e humildes.

Ao encarnar de novo o signo de contradição, Bento 16 nos dá esperança de que tinha razão François Mauriac ao dizer pouco antes de morrer: “Às vezes penso que somos os últimos cristãos, mas depois me pergunto -será que somos os últimos cristãos ou seremos os primeiros?”

Rubens Ricupero, diretor da Faculdade de Economia da Faap, foi secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento), ministro da Amazônia e do Meio Ambiente, ministro da Fazenda (governo Itamar), embaixador em Genebra, Washington e Roma. Escreve quinzenalmente, aos domingos, na versão impressa de “Mercado”.

John L. Allen Jr.- National Catholic Reporter

Uma coisa engraçada aconteceu com a história do recente fechamento de um lendário mosteiro de Roma, ordenado pelo Vaticano, na imprensa de língua inglesa. E digo isso literalmente – a história se transformou em uma piada, obscurecendo assim a sua real importância.

Para aqueles que tem olhos para ver, a supressão da abadia cisterciense na Basílica da Santa Cruz em Jerusalém (foto), um dos sete maiores locais tradicionais de peregrinação em Roma, merece muito mais do que a sua colocação em uma coluna de “notícias bizarras”. Ao contrário, é o capítulo mais recente do que se poderia chamar de “Revolução Silenciosa” sob o Papa Bento XVI, referindo-se a uma reforma da cultura clerical começando por Roma e irradiando-se para muito além.

A sua essência é esta: é o fim da lógica “pelos frutos os conhecereis” que uma vez se traduzia em um passe livre, ou pelo menos em um forte benefício da dúvida, para clérigos superestrelas e grupos de alto perfil acusados de má conduta. Uma vez, a hipótese de trabalho no oficialismo eclesial geralmente era que, se alguém está fazendo um grande bem para a Igreja, então as alegações de impropriedade sexual ou financeira contra eles eram provavelmente falsas, e levá-las muito a sério apresentava o risco de incentivar os inimigos da fé.

Sem grande alarde, Bento XVI deixou claro que, hoje, uma nova regra se aplica. Não importa quão talentosa uma pessoa ou instituição possa ser, se também estiver envolvida no que o pontífice memoravelmente chamou uma vez de “sujeira” na Igreja, eles não estão fora de alcance de serem atingidos pela punição.

Esse é o profundo significado da recente ação do Vaticano com relação aos cistercienses da Basílica da Santa Cruz em Jerusalém, embora você certamente não chegaria a essa conclusão a partir da grande maioria da cobertura midiática em inglês. A manchete da BBC da quinta-feira era típica: “Papa fecha mosteiro das danças eróticas”, dizia, fazendo referência ao fato de que uma ex-dançarina de casa noturna que se tornou freira católica, Anna Nobili, uma vez apresentou na basílica algo chamado de “dança sacra”, diante de um público que incluía dignitários vaticanos.

Na realidade, porém, a basílica dificilmente era uma piada recorrente.

Acima de tudo, os cistercienses estavam na basílica há quase cinco séculos, desde 1561, e, em um período, o Abade da Santa Cruz também foi o Abade Geral de toda a ordem. Dado o fino senso de tradição de Bento XVI, assim como sua reverência pela vida monástica, seria necessário mais do que uma freira dançarina para desencadear a supressão de toda a abadia.

Além disso, até muito recentemente, a basílica era vista, na realidade, como uma grande história de sucesso. O consenso era de que um renascimento se desdobrava sob o abade cisterciense Simone Maria Fioraso, uma influente figura eclesiástica. As vocações eram crescentes, e a basílica se tornou um ponto de encontro para a nobreza italiana, VIPs políticos e ícones da cultura pop.

No outono de 2008, Fioraso fez a sua maior ação bem-sucedida de relações públicas. Ele organizou uma leitura de seis dias de toda a Bíblia, chamada “A Bíblia, dia e noite”, transmitido ao vivo pela TV estatal italiana. A maratona foi lançada por Bento XVI e concluída pelo secretário de Estado do Vaticano, o cardeal italiano Tarcisio Bertone. Uma série de outros potentados vaticanos participaram, junto com celebridades como o ator Roberto Benigni e o ex-presidente da Itália, Carlo Azeglio Ciampi. (Os cardeais norte-americanos William Joseph Levada, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, e Daniel DiNardo, de Houston, também participaram. DiNardo estava na cidade para Sínodo sobre a Bíblia, que foi a ocasião para o festival de leitura da Bíblia).

É difícil superestimar a impressão midiática que o evento constituiu na Itália. As manchetes proclamavam: “Santa Cruz em Jerusalém torna-se uma superestrela”.

“Relações inapropriadas”

No entanto, nessa mesma época, começaram a surgir boatos de que algo não estava muito certo. Alguns críticos acusaram Fioraso de parecer mais interessado em adular as elites sociais do que as tradicionais disciplinas da vida monástica, enquanto outros levantavam questões sobre a gestão do dinheiro, especialmente levando em conta que os monges administravam uma loja e um hotel de sucesso, aparentemente sem uma clara contabilidade do fluxos de receita. E, o que é pior, havia rumores de “relações inapropriadas” praticadas por alguns monges, entendendo-se como o código para algum tipo de má conduta sexual.

Tudo isso, antes, podia ser descartado como inveja ou difamação, especialmente dada a reputação de Fioraso como uma estrela em ascensão, mas não desta vez. A Congregação vaticana para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica lançaram uma Visitação Apostólica, que terminou com a dramática decisão de suprimir completamente a abadia e de mandar embora os cerca de 30 monges. O decreto foi assinado pelo arcebispo brasileiro João Braz de Aviz, prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, e pelo arcebispo norte-americano Joseph Tobin, seu secretário, e foi aprovado por Bento XVI.

Como é sua prática, o Vaticano não forneceu uma explicação pública. No jargão tipicamente eufemístico, as autoridades dizem apenas que há “inúmeras alegações de conduta incompatível com a vida consagrada”. O ponto principal é que houve problemas reais na abadia, tanto em termos de responsabilidade financeira, quanto de personalidade moral.

Um padrão de conduta para “limpar a casa”

A supressão faz parte de um padrão de Bento XVI, que começou com a repressão contra os clérigos de alto perfil como Gino Burresi, fundador das Servas do Coração Imaculado de Maria, e Marcial Maciel Degollado, fundador dos Legionários de Cristo. Mais recentemente, em setembro de 2008, Bento laicizou um padre muito conhecido de Florença, Lelio Cantini, cuja paróquia Rainha da Paz foi considerada uma das mais dinâmicas do país. No início deste ano, Bento removeu Fernando Karadima permanentemente do ministério, um lendário padre do Chile conhecido como guia espiritual para uma grande parte do clero e do episcopado.

Todos esses casos, e outros como esses que poderiam ser mencionados, centravam-se na acusação de má conduta e abuso sexual.

Também fazem parte desse quadro as medidas políticas de Bento XVI para agilizar os procedimentos para remover os abusadores do sacerdócio, incluindo um recente conjunto de revisões do Direito Canônico, assim como a sua decisão no início deste ano de criar uma nova autoridade de fiscalização financeira, com o poder de supervisionar as entidades uma vez intocáveis como o Banco do Vaticano ou a Propaganda Fide. A impressão geral é que este é um papa cansado de escândalos, fazendo o que pode para limpar a casa.

Entrevista com Ramiro Pellitero
Ainda são muitos os aspectos a serem descobertos pela opinião pública sobre o pensamento de Bento XVI, como explica, nesta entrevista, Ramiro Pellitero, sacerdote e médico, professor da Faculdade de Teologia e do Instituto Superior de Ciências Religiosas, e capelão da Clínica da Universidade de Navarra.Coincidindo com a celebração do quinto aniversário do pontífice, acaba de publicar um livro intitulado À linha de um pontificado: o grande ‘sim’ de Deus (Ed. Eunsa, 2010).

Entre as perguntas que nossos leitores querem fazer, há uma primeira que talvez esteja relacionada ao título do livro: Bento XVI tem repetido ao longo de seu pontificado que o cristianismo não é um conjunto de “nãos”, principalmente de caráter ético, mas um grande “sim”. Mas isso continua sem ser compreendido. Por quê?

Ramiro Pellitero: Penso que isso vem de longa data e tem causas diversas. Aponto duas que me parecem importantes. De um lado, ao explicar a fé cristã nos últimos séculos, certo moralismo – que Bento XVI mostrou em mais de uma ocasião – colocava o dever antes da verdade. Mas quando se ama a Deus e ao próximo, nossos deveres não são um peso nem uma negação, mas uma libertação e uma plena realização da própria personalidade.

Ao mesmo tempo, parece que nas notícias e na mídia há uma pressão “interessada” em silenciar esse grande “sim” que é o Evangelho a tudo o que é bom, belo e nobre: ao amor humano, ao verdadeiro progresso, à vida em todas suas fases, à razão e às mais valiosas experiências da humanidade. Isto é silenciado, enquanto se põe em primeiro lugar só as negações que são deduzidas daquele grande “sim”. Certamente, o sim ao verdadeiro progresso não pode deixar de ser um não ao que escraviza as pessoas, as destrói ou pelo menos as prejudica: não ao egoísmo das injustas desigualdades sociais, às ameaças à vida, à falta de liberdade religiosa etc. Quem pode ter esse interesse em manipular o que disse o Evangelho, calando o “sim” e permitindo ouvir somente o “não”, de maneira que se dê impressão triste e retrógrada do cristianismo? Esta pergunta eu faria, em especial, aos que trabalham a serviço da opinião pública.

-Quais são os aspectos do pensamento de Bento XVI que a opinião pública ainda não descobriu?

Ramiro Pellitero: Penso que é necessário uma atenção maior, por parte da opinião pública, em torno dos núcleos deste pontificado: a validez da razão e ao mesmo tempo sua necessidade de se abrir à transcendência; a “revolução” do amor e a aprendizagem de uma esperança que compromete todos, principalmente a favor dos mais pobres e fracos. Entre os cristãos, o Papa promoveu um redescobrimento da Eucaristia e da Palavra de Deus, como fontes de uma vida cheia de sentido no dia a dia. Quem dá por lógico que estes pontos pertencem ao “já ouvido” ou “já vivido”, como se já não merecessem atenção, comete um erro. Todos e cada um – e, no caso dos cristãos, também como Igreja – estamos sendo convidados por Bento XVI a perceber nossa responsabilidade.

-É interessante que um dos capítulos de seu livro fale de “evangelização e comunicação”, enquanto nos últimos dois anos o Papa teve de confrontar sérias crises de comunicação. O que significa a comunicação para Bento XVI?

Ramiro Pellitero: Entendo que para Bento XVI, como intelectual de seu tempo e agora Pastor supremo da Igreja, a comunicação é um valor muito importante. Mas é necessário, acima de tudo, ter clara a mensagem que se irá comunicar. Neste caso, trata-se de nada menos que do Evangelho, com toda sua riqueza, força e capacidade transformadora do homem e da história. Talvez o Papa avalie os elementos da comunicação em uma ordem e proporção diferentes se comparados ao que fazem alguns profissionais da comunicação. Penso que, para ele, a coisa mais importante é a verdade e o bem, antes de outros valores legítimos, mas secundários, como a mera atualidade, a utilidade ou a dialética. Estes aspectos podem ser, à primeira vista, mais atraentes, enquanto geram mais “notícia”; mas deveriam se colocar ao serviço das pessoas, ao serviço da verdade e do bem, da justiça e da paz.

– Aproveitando a resposta da pergunta anterior, Joseph Ratzinger tem sido realmente um teólogo notável. Ele deixou de sê-lo agora como Papa, para transformar-se em um Pastor?

Ramiro Pellitero: Eu não acho que ele tenha deixado de se manifestar como teólogo, embora agora se veja mais claramente o que considera propósito da teologia: o conhecimento e, mais ainda, a participação no amor de Deus que transforma o mundo. Isso comporta a abertura do humanismo para a transcendência, a ampliação da racionalidade além do empírico (para as dimensões da verdade e do bem), a verdadeira sabedoria que leva à civilização do amor.

Em outras palavras, a teologia esboça e abre o senso da realidade para a vida das pessoas. Nesta medida, provê um marco de referência para a pedagogia da fé e do apostolado cristão. Como o Papa mesmo disse antes da Comissão Teológica Internacional, em dezembro de 2009, o verdadeiro teólogo é aquele que, tornando-se pequeno diante de Deus, permite que Ele lhe toque o coração e a existência, para colocar-se a serviço do Evangelho. Com efeito, tal é o horizonte da teologia, que hoje – e sempre – pode iluminar a cultura contemporânea; e que, no caso do Papa, está totalmente ao serviço de seu ministério pastoral.

-A quem se dirige seu livro e qual seria sua principal mensagem?

Ramiro Pellitero: O texto se dirige a um público amplo, com espírito jovem e humor aberto; com certo gosto pela leitura, mas principalmente com capacidade de surpreender-se e rebelar-se ante uma existência monótona ou aburguesada, trocando-a por uma vida plenamente vivida, se vale a redundância. Sem dúvida, são os jovens – de todas as idades – os que têm melhor disposição para captar e realizar este projeto. O livro convida a prestar uma atenção maior ao Papa. Seus gestos e palavras nos confirmam, como cristãos, na perene atualidade do Evangelho. Convidam-nos a mudar tantas coisas que devem ser mudadas, como consequência do amor a Deus e ao próximo. Um amor que necessariamente passa pela cruz, e que, também necessariamente, leva à felicidade

Zenit

Existe um triplo desafio que cristãos e muçulmanos devem enfrentar, afirmou o cardeal Jean-Louis Tauran em uma conferência na localidade francesa de Villeurbanne.

Trata-se do “desafio da identidade” (saber e aceitar o que somos), o “desafio da alteridade” (nossas diferenças são fonte de enriquecimento) e o “desafio da sinceridade” (os crentes não podem renunciar a propor sua fé, mas devem fazê-lo dentro dos limites do respeito e da dignidade de cada ser humano).

Em sua intervenção, o presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-Religioso recordou que o diálogo inter-religioso “se baseia nas relações de confiança entre fiéis de diversas religiões para conhecer-se, enriquecer-se mutuamente e considerar como cooperar juntos para o bem comum”.

Isso não supõe renunciar à própria fé – indicou. Supõe deixar-se interpelar pelas convicções de outro, aceitar levar em consideração alguns argumentos diferentes dos meus ou dos da minha comunidade.”

Assim, para o cardeal Tauran, as “condições para um diálogo inter-religioso fecundo” são múltiplas: “ter uma ideia clara da própria religião”, “ser humilde” (reconhecer os erros de ontem e de hoje), “reconhecer os valores do outro”, (que não é necessariamente um inimigo) e “compartilhar os valores que temos em comum”.

No diálogo inter-religioso, “não se põe a própria fé entre parênteses, o que implica em um conhecimento da própria tradição”.

“O diálogo, para ser sincero, deve ser levado a cabo sem segundas intenções”, acrescentou em sua intervenção, que foi publicada na íntegra no site da diocese de Lyon.

“Os crentes podem oferecer aos seus companheiros de humanidade, em particular aos responsáveis das sociedades, os valores que podem contribuir para a harmonia dos espíritos, ao reencontro das culturas e à conservação do bem comum”, destacou.

Por outro lado, reconheceu “graves dificuldades que subsistem”, citando “os líderes muçulmanos mais acesos que não são capazes de admitir aos seus correligionários o princípio de liberdade de mudar de religião segundo sua consciência”.

Também indicou que “o novo clima que experimentamos no âmbito das elites ainda não penetrou na base da sociedade”.

“Mas estou certo de que é preciso continuar encontrando-se para escutar, compreender e propor as maneiras concretas e modestas que podem abrir o caminho para os debates mais profundos”, disse.

E concluiu: “A história das religiões ensina que só existe um futuro possível: o futuro compartilhado”.

“A pequena barca do pensamento de muitos cristãos foi muitas vezes agitada por estas ondas, lançada de um extremo ao outro: do marxismo ao liberalismo, até à libertinagem, ao coletivismo radical; do ateísmo a um vago misticismo religioso; do agnosticismo ao sincretismo e por aí adiante.

Cada dia surgem novas seitas e realiza-se quanto diz São Paulo acerca do engano dos homens, da astúcia que tende a levar ao erro (Ef 4,14). Ter uma fé clara, segundo o Credo da Igreja, muitas vezes é classificado como fundamentalismo. Enquanto o relativismo, isto é, deixar-se levar ‘aqui e além por qualquer vento de doutrina’, aparece como a única atitude à altura dos tempos hodiernos. Vai-se constituindo uma ditadura do relativismo que nada reconhece como definitivo e que deixa como última medida apenas o próprio eu e as suas vontades. Ao contrário, nós, temos outra medida: o Filho de Deus, o verdadeiro homem. É ele a medida do verdadeiro humanismo.

‘Adulta’ não é uma fé que segue as ondas da moda e a última novidade; adulta e madura é uma fé profundamente radicada na amizade com Cristo. É esta amizade que nos abre a tudo o que é bom e nos dá o critério para discernir entre verdadeiro e falso, entre engano e verdade. Devemos amadurecer esta fé, para esta fé devemos guiar o rebanho de Cristo. E é esta fé só esta fé que gera unidade e se realiza na caridade”.

A constante defesa da Verdade e do Amor promovida por Bento XVI tem levado à mídia secularizada e outros inimigos da Igreja Católica a lançarem pesadas críticas ao Santo Padre, muitas vezes distorcendo o que foi dito pelo Romano Pontífice.
Da mesma forma que o pensamento de João Paulo II, os valores defendidos pelo atual Papa incomodam todos aqueles que foram cooptados pelas visões errôneas acerca do homem e da sociedade, pois são um espelho que constantemente acentuam os erros nos quais tais pessoas estão imersas.

O que é mais triste é quando vemos pessoas que estão ou já estiveram no seio da Igreja Católica discordando dos ensinamentos de Bento XVI. Conforme foi inúmeras vezes destacado por João Paulo II, “Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e sempre”, logo, os ensinamentos do Magistério Romano não devem ser influenciados pelos erros que contaminam nossa sociedade, ao contrário, as palavras do Santo Padre devem ser o “Sal da Terra”, mostrando a todos quem é “o Caminho, a Verdade e a Vida” e agindo como fermento, para aumentar o número de pessoas que abraçam o Evangelho, ajudando na salvação da humanidade sofredora.

Agradecemos a Deus pelo nosso Pastor, que ele tenha vida longa, muita saúde e nunca seja entregue em poder de seus inimigos. Que a cada dia possamos nos tornar mais fiéis aos ensinamentos do Santo Padre Bento XVI, pois, somente dessa forma, seremos fiéis à Nosso Senhor Jesus Cristo.

Autor: Alex Catharino