O site God of Evolution, que promove a conciliação entre o cristianismo e a teoria da evolução, publicou recentemente um texto no qual Phil Ledgerwood conta um episódio envolvendo uma conversa com outros cristãos a respeito da evolução. O que lhe chamou a atenção não foi tanto a discussão sobre quem estava certo (o grupo incluía defensores de visões bem diferentes sobre o relato da criação e a teoria de Darwin), mas como alguns dos membros tinham noções totalmente equivocadas sobre o que é, ou o que propõe a teoria da evolução.

Ledgerwood listou quatro erros principais.

O primeiro é o de achar que a macroevolução é uma coisa totalmente diferente da microevolução; este é um recurso retórico que alguns usam para aceitar o fato de que existem, sim, mudanças pequenas e pontuais nas espécies, mas não que haja os “grandes saltos” evolutivos. Acontece que, no fundo, tudo é microevolução, explica Ledgerwood. Os “grandes saltos” na verdade são o resultado de pequenas mudanças após pequenas mudanças, num grande intervalo de tempo (que os criacionistas de Terra jovem negam existir, daí a necessidade desse tipo de argumentação). Mal e porcamente comparando, é como os juros sobre juros: se você faz uma aplicação e a resgata daqui a dois meses, a transformação é mínima. Mas, se você deixa aquele dinheiro rendendo por 30 anos, por exemplo naqueles títulos do Tesouro que pagam a inflação mais um porcentual, na hora do resgate ele vira outra coisa completamente diferente, embora isso seja apenas o resultado de pequenas rentabilidades acumuladas ano após ano.

O segundo erro é uma falácia de espantalho: achar que os defensores da evolução descartam o criacionismo ou o Design Inteligente como não científicos apenas porque eles propõem a ação divina. O problema do criacionismo e do DI é outro, o de não ser possível submeter suas hipóteses ao método científico. Não tem nada a ver com Deus.

O terceiro erro é uma falácia indutiva, que se aproveita do fato de haver alguns cientistas que questionam a evolução para defender que a teoria está sob ataque e longe de ser consensual. Ledgewood mostra um dado curioso: o National Center for Science Education conseguiu juntar mais cientistas defensores da evolução apenas chamados Steve do que o Discovery Institute conseguiu juntar cientistas contrários à evolução.

O quarto erro, por fim, é o de afirmar que uma explicação naturalista de um fenômeno necessariamente tira Deus da jogada. Ledgewood recorda trechos em que a Bíblia diz que Deus “manda a chuva”, embora todos saibamos hoje que a causa da chuva é o ciclo da água e nem por isso tenhamos virado ateus. Aceitar um mecanismo natural não significa negar que esse mecanismo tenha sido desenhado por Deus, que Sua vontade mantenha o universo na existência, que o mecanismo é maneira que Deus usa para criar e manter o mundo… se vale para a água, por que não valeria para a evolução? “Se a evolução é verdadeira, então Deus não existe” é o que se chama de non sequitur, uma conclusão que não deriva da premissa. Militantes ateus podem até abusar dessa falácia, mas que os cristãos caiam nela é de doer

Católicos do mundo inteiro recordam o centenário de um acontecimento extraordinário ocorrido em Portugal: o “Milagre do Sol”, durante a última aparição da Virgem Maria a três pastorinhos, Lúcia, Jacinta e Francisco, na vila portuguesa de Fátima.

As aparições tinham começado em maio de 1917, e em 13 de outubro daquele ano dezenas de milhares de pessoas foram a Fátima, atraídas pela notícia de que Nossa Senhora havia prometido um grande sinal para aquele dia. Não apenas devotos, mas jornalistas, professores universitários e céticos prontos a desqualificar o evento também estavam presentes. Transcrevo aqui a descrição do escritor norte-americano William Thomas Walsh em seu livro sobre as aparições de Fátima (Walsh não estava em Fátima no dia do milagre, mas conversou com pessoas que estiveram lá, e com a própria Lúcia):

“O sol brilhava no zênite como se fosse um imenso disco de prata. Brilhava com a intensidade normal, e no entanto podia ser fitado sem que ofuscasse. Isso durou apenas um instante. Enquanto todos olhavam assombrados, a imensa bola começou a ‘dançar’: esta foi a palavra com que todos os observadores a descreveram. Primeiro, viram-na girar rapidamente, como uma gigantesca roda de fogo. Depois de um certo tempo, parou. A seguir, voltou a girar sobre si mesma, vertiginosamente, numa velocidade incrível. Finalmente, os bordos tornaram-se escarlates e espalharam-se pelo firmamento, espargindo chamas vermelhas de fogo, como um redemoinho infernal. Essa luz foi-se refletindo na terra, nas árvores, nos arbustos, nas próprias faces voltadas para cima e nas vestes, tomando tonalidades brilhantes e cores diferentes: verde, vermelho, laranja, azul, violeta, as cores todas do espectro solar. Girando loucamente sob essa aparência, por três vezes, o globo de fogo pareceu agitar-se, estremecer e depois precipitar-se em ziguezague sobre a multidão. (…) Isso durou talvez uns dez minutos. Logo depois, viram todos o sol começar a elevar-se da mesma maneira, em ziguezague, até ao ponto onde havia aparecido antes. Ficou então tranquilo e brilhante. Ninguém mais lhe pôde suportar o fulgor. Era novamente o sol de todos os dias.”

Desde então, não faltam explicações e tentativas de validar ou desacreditar os relatos. Se por um lado nenhum observatório astronômico relatou nada de incomum naquela data, e nem todos os que estavam na Cova da Iria disseram ter visto todos os fenômenos descritos (houve mesmo pessoas devotas que afirmaram não ter visto nenhum movimento do sol), por outro lado mesmo céticos e pessoas que estavam a até 20 quilômetros de Fátima relataram ter visto coisas fora do normal (ou seja, podemos descartar um fenômeno em massa de autossugestão por parte dos devotos), e há relatos de que, durante o evento, roupas e o chão, que estavam molhados devido à chuva que caía antes do milagre, terem ficado completamente secos (você pode ler aqui vários relatos de pessoas que estavam em Fátima na ocasião).

Dezenas de milhares de pessoas estiveram em Fátima e disseram ter visto o sol se movendo no céu. Mesmo céticos que pretendiam desqualificar as aparições fizeram relatos semelhantes. (Foto: Reprodução)

O padre Stanley Jaki, uma grande referência no trabalho sobre ciência e fé, escreveu um livro apenas sobre este evento. Não tive a oportunidade de lê-lo, mas Stacy Trasancos, estudiosa do trabalho do padre Jaki, publicou um artigo quatro anos atrás em que resume as conclusões do sacerdote. Jaki conclui que, naquele dia, os espectadores na Cova da Iria presenciaram não exatamente um movimento solar, mas uma combinação única (tão única e irrepetível que, sim, Jaki a considera milagrosa) de fenômenos físicos: a presença de cristais de gelo nas nuvens e a interação entre uma massa de ar frio e outra quente. “Claramente, o ‘milagre’ do sol não foi um mero fenômeno meteorológico, ainda que raro. Do contrário, teria sido observado antes ou depois, independentemente da presença de multidões devotas. Eu apenas alego, como fiz em outros escritos meus sobre milagres, que ao produzi-los Deus frequentemente usa um substrato material e aumenta muito seus componentes físicos e suas interações. De fato, pode-se dizer, ainda que não da forma como alguns que escrevem sobre Fátima fazem, que os dedos da Mãe de Deus brincaram com os raios do sol naquela hora extraordinária, em Fátima”, diz Jaki em sua autobiografia.

Um outro artigo interessante saiu em 11 de maio deste ano, às vésperas do centenário da primeira aparição, no Catholic Herald. O padre (e especialista em física de partículas) Andrew Pinsent, diretor do Ian Ramsey Centre for Science and Religion da Universidade de Oxford, se pergunta: um cientista pode levar a sério o Milagre do Sol? E responde: por que não? Pinsent explica que muitas vezes temos uma compreensão errada do conceito de milagre, entendido de forma simplista como uma quebra das leis da natureza. O pulo do gato é que as leis da natureza descrevem o funcionamento de sistemas simples e isolados, mas eles estão sujeitos à intervenção de agentes livres, inclusive de um agente todo-poderoso. “Portanto, da perspectiva das leis científicas, não há um problema real com os milagres, porque descrever como um sistema funciona na ausência de intervenção não diz nada sobre se uma intervenção ocorre ou pode ocorrer”, afirma.

Lúcia, Francisco e Jacinta (da esquerda para a direita): pastorinhos disseram que a Virgem Maria havia prometido um grande sinal para o dia 13 de outubro de 1917. (Foto: Illustração Portugueza)

Mas, para Pinsent, há um outro modo de entender mal os milagres, que é buscar explicações naturais que reduzem o milagroso ao providencial. Essa afirmação parece, à primeira vista, bater de frente justamente com a explicação que Jaki oferece para o Milagre do Sol, mas podemos alegar que também Jaki aceita uma intervenção divina que “reforçou” as propriedades/características/interações do que quer que estivesse envolvido no episódio. Difícil saber, porque Pinsent não cita em nenhum momento a explicação fornecida por Jaki. Tampouco dá a sua hipótese para o que houve naquele 13 de outubro, limitando-se a dizer que tudo o que sabemos sobre o episódio é compatível com um “milagre público dos mais extraordinários”. Fica a impressão de que Pinsent admite que houve algo mais do que simplesmente um processo de ilusão de ótica, mas o quê? 

Embora eu ache a explicação de Jaki bem convincente, eu tendo a acreditar que houve algo mais ali, e nisso acho que me inclino mais para a posição de Pinsent. Agora, que algo mais é esse, aí já não sei dizer.

Fonte: Tubo de ensaio

A série de audiências do Santo Padre se encerrou com o encontro com os participantes da Assembléia Geral dos Membros da Pontifícia Academia para a Vida.

No seu discurso aos presentes o Papa partiu do tema da Assembleia: “Acompanhar a vida. Novas responsabilidades na era tecnológica”. Francisco afirmou que é um tema desafiador mas ao mesmo tempo necessário, pois o mesmo aborda o entrelaçamento de oportunidades e criticidades que interpela o humanismo planetário, em referência aos recentes desenvolvimentos tecnológicos das ciências da vida. O poder das biotecnologias que permite manipulações da vida até ontem impensáveis, apresenta enormes problemas.

É urgente, portanto, – disse o Santo Padre -, intensificar o estudo e o confronto sobre os efeitos de tal evolução da sociedade no sentido tecnológico para articular uma síntese antropológica que esteja à altura deste desafio do nosso tempo.

A área da competência de vocês – disse o Papa – não pode, portanto, ser limitada a resolver problemas apresentados por situações específicas de conflito ético, social ou legal. A inspiração de condutas coerentes com a dignidade humana diz respeito à teoria e à prática da ciência e da técnica em sua abordagem em relação à vida, ao seu sentido e valor. E foi nesta perspectiva, que o Papa ofereceu-lhe uma reflexão.

Antes de tudo as perguntas, novas e antigas, sobre o sentido da vida, sobre sua origem e seu destino.

O traço emblemático desta passagem pode ser brevemente reconhecido na rápida disseminação de uma cultura obsessivamente centrada na soberania do homem – enquanto espécie e enquanto indivíduo – em relação à realidade. Há aqueles que até falam de “egolatria”, isto é, de uma verdadeira adoração do ego, em cujo altar se sacrifica tudo, inclusive os afetos mais queridos. Esta perspectiva não é inofensiva – continuou Francisco – : ela plasma um sujeito que olha constantemente para o espelho, até se tornar incapaz de dirigir o olhar para os outros e para o mundo. A difusão desta atitude tem sérias conseqüências para todas as suas afeições e laços da vida.

Infelizmente, homens, mulheres e crianças de todo o mundo experimentam com amargura e dor as promessas ilusórias deste materialismo tecnocrático. Também porque, em contradição com a propaganda de um bem-estar que se espalharia automaticamente com a expansão do mercado, se ampliam, ao invés os territórios da pobreza e do conflito, do desperdício e do abandono, do ressentimento e do desespero. Um autêntico progresso científico e tecnológico deveria inspirar políticas mais humanas.

O mundo precisa de crentes que, com seriedade e alegria, sejam criativos e propositivos, humildes e corajosos, resolutamente decididos a recompor a fratura entre as gerações. Essa fratura interrompe a transmissão da vida. Dela se exaltam os entusiasmos potenciais: mas quem os orienta para o cumprimento da idade adulta? A condição adulta é uma vida capaz de responsabilidade e amor, seja em direção da geração futura seja em direção daquela passada. A vida dos pais e das mães em idade avançada, se espera, seja honrada pelo que generosamente deu, não ser descartada por aquilo que não tem mais.

A fonte de inspiração para essa retomada de iniciativa, mais uma vez – disse o Papa – é a Palavra de Deus, que ilumina a origem da vida e o seu destino.

Uma teologia da Criação e da Redenção que saiba se traduzir em palavras e gestos do amor por cada vida e por toda a vida é hoje mais do que nunca necessária para acompanhar o caminho da Igreja no mundo que vivemos. Francisco disse que a Encíclica Laudato si é como um manifesto dessa retomada do olhar de Deus e do homem sobre o mundo, a partir da grande narração de revelação que nos é oferecido nos primeiros capítulos do Livro do Gênesis.

Essa narração – continuou o Papa -, diz que cada um de nós é uma criatura desejada e amada por Deus por si mesma, e não somente uma montagem de células bem organizada e selecionada no decurso da evolução da vida. Toda a criação está inscrita no especial amor de Deus pela criatura humana, que se estende a todas as gerações de mães, pais e seus filhos.

A benção divina da origem e a promessa de um destino eterno, que são o fundamento da dignidade de cada vida, são de todos e para todos. Os homens, as mulheres, os filhos da terra – desses são feitos os povos – são a vida do mundo que Deus ama e quer levar à salvação, sem excluir ninguém.

O relato bíblico da Criação  – disse Francisco – precisa ser sempre reeleito para apreciar toda a amplitude e profundidade do gesto do amor de Deus que confia à aliança do homem e da mulher a criação e a história.

A aliança do homem e da mulher é chamada a tomar em suas mãos a direção de toda a sociedade. Este é um convite à responsabilidade pelo mundo, na cultura e na política, no trabalho e na economia; e também na Igreja. Não se trata apenas de oportunidades iguais ou de reconhecimento recíproco. Trata-se, sobretudo, de compreensão dos homens e das mulheres sobre o significado da vida e sobre o caminho dos povos. O homem e a mulher são chamados não apenas a falar-se de amor, mas a falar-se com amor, do que eles devem fazer para que a convivência humana se realize na luz do amor de Deus por cada criatura.

Em síntese, é uma verdadeira e própria revolução cultural que está ao horizonte da história deste tempo. E a igreja, por primeira, deve fazer a sua parte.

Nesta perspectiva, trata-se antes de tudo de reconhecer honestamente os “atrasos e as faltas”. As formas de subordinação que tristemente marcaram a história das mulheres devem definitivamente ser abandonadas. Um novo começo deve ser escrito no “ethos” dos povos, e isso pode fazê-lo uma renovada cultura da identidade e da diferença.

A hipótese recentemente avançada de reabrir o caminho para a dignidade da pessoa neutralizando radicalmente a diferença sexual e, portanto, a compreensão do homem e da mulher não é correta. Em vez de contrastar as interpretações negativas da diferença sexual, que mortificam seu valor irredutível para a dignidade humana, se deseja cancelar o fato de tal diferença, propondo técnicas e práticas que a tornam irrelevante para o desenvolvimento da pessoa e para as relações humanas. Mas a utopia do “neutro”, remove seja a dignidade humana da constituição sexualmente diferente, seja a qualidade pessoal da transmissão generativa da vida. A manipulação biológica e psíquica da diferença sexual, que a tecnologia biomédica permite vislumbrar como totalmente disponível à escolha da liberdade – enquanto não o é! – corre o risco assim de desmontar a fonte de energia que alimenta a aliança do homem e da mulher e a torna criativa e fecunda.

Ocorre aceitar o desafio apresentado pela intimidação exercitada no confronto da geração da vida humana, quase como se fosse uma mortificação da mulher e uma ameaça ao bem-estar coletivo.

A aliança geradora do homem e da mulher é uma vantagem para o humanismo planetário dos homens e das mulheres, não uma desvantagem. A nossa história não será renovada se rejeitarmos essa verdade.

A paixão pelo acompanhamento e cuidado da vida, ao longo de todo o arco de sua história individual e social, exige a reabilitação de um “ethos” da compaixão ou da ternura pela geração e regeneração do humano na sua diferença.

Trata-se, antes de tudo, de reencontrar sensibilidade pelas “diversas idades da vida”, especialmente pelas das crianças e dos idosos. Tudo nelas é delicado e frágil neles, vulnerável e corruptível, não é uma questão que deve se referir apenas à medicina e o bem-estar. Estão em jogo partes da alma e da sensibilidade humana que pedem para ser ouvidas e reconhecidas, preservadas e apreciadas por cada indivíduo e pela comunidade. Uma sociedade na qual tudo isso só pode ser comprado e vendido, burocraticamente regulado e tecnicamente predisposto, é uma sociedade que já perdeu o sentido da vida.

O testemunho da fé na misericórdia de Deus é condição essencial para a circulação da verdadeira compaixão entre as diversas gerações.

O Papa enfim agradeceu o trabalho da renovada Pontifícia Academia para a Vida, salientando que compreende que o mesma é difícil mas entusiasmante. (SP)

Rádio Vaticano

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Qual o impacto que a inteligência artificial tem – e terá – sobre a humanidade? Filósofos, cientistas e acadêmicos debateram esta questão durante uma conferência que aconteceu recentemente na Embaixada da Itália na Santa Sé, em Roma, como parte da série de eventos culturais do “Courtyard of the Gentiles” (Átrio dos Gentios), uma iniciativa organizada pelo Vaticano.

O cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura (www.cultura.va), participou do encontro e destacou alguns dos novos desafios que a inteligência artificial traz.

– As capacidades extraordinárias que estão sendo dadas às máquinas podem acabar mudando a condição humana tal como a conhecemos: correr, cozinhar, dirigir, ler, escrever, compor e até aprender da experiência são atividades que as máquinas poderão fazer de forma autônoma. Devemos considerar as grandes possibilidades que esses avanços abrem, bem como os riscos significativos e muito reais.

– O cardeal Ravasi explicou que o Papa Francisco, em Laudato Sì, apresentou a questão do paradigma tecnocrático, em que – o Papa explica – “aqueles com o conhecimento, e especialmente os recursos econômicos” para usar o poder que nos dá a tecnologia, têm “uma dominação impressionante sobre toda a humanidade e o mundo inteiro. Nunca a humanidade teve tal poder sobre si mesmo, mas nada garante que isso será usado com sabedoria, particularmente quando consideramos como isso está sendo usado atualmente”.

Além disso, é um paradigma que faz do progresso científico um meio de poder e dinheiro, sem muita consideração pelo certo ou o errado. “Não podemos pretender ter uma ética sólida, uma cultura e espiritualidade verdadeiramente capazes de estabelecer limites e ensinar autocontrole”, adverte Papa Francisco. É por isso que, na opinião de Ravasi, devemos refletir sobre tecnologia a partir de várias disciplinas e perspectivas. “Um verdadeiro cientista nunca é apenas um técnico… ele é alguém que considera todo o panorama… em que estamos imersos”, enfatizou.

– A inteligência humana veio em primeiro lugar. Devemos lembrar que outros tipos de inteligência foram criados por um tipo original de inteligência: a dos seres humanos. Ravasi questionou o significado do termo “inteligência artificial” e abriu um debate sobre se esse conceito é ou não um paradoxo.

– Não estamos lidando com “personalidade”, mas com “razão”. Ravasi critica o termo “pessoa eletrônica”. Na realidade, ele disse, o conceito de personalidade não é aplicável à inteligência artificial; “a consciência é prerrogativa da pessoa humana, que está na origem da razão e do pensamento”.

– Houve descobertas “extraordinárias e impressionantes”, sobretudo no campo da atenção à saúde: De acordo com o Pe. Benanti – que também participou do Átrio e foi citado pelo cardeal em uma entrevista à Rádio Vaticano – precisamos destacar a utilidade e as vantagens de ter inteligência artificial para gerenciar a informação da saúde, para fins que serão muito vantajosos para a humanidade. No entanto, existem dois grandes riscos: a perda de emprego e o uso indevido da tecnologia de forma a ampliar a distância entre os ricos e os pobres. Ou, o uso da tecnologia pode atingir o objetivo de eliminar a morte e, consequentemente, transformar a condição humana? Esta questão, intimamente relacionada com as reflexões do cardeal Ravasi, foi proposta por Alberto Cortina, autor do livro Human, or Posthuman, publicado por Fragmenta.

– Quando a ciência progride, é irreversível, mas precisamos nos perguntar sobre o papel da consciência, que sempre foi considerada uma característica distintiva dos seres humanos, o que os torna responsáveis por suas próprias ações, capazes de distinguir entre o bem e o mal. Um cérebro artificial capaz de imitar o comportamento humano está longe de ter liberdade autêntica, explicou Ravasi, e sublinhou que mesmo o famoso astrofísico Stephen Hawking alertou contra o uso desenfreado da tecnologia.

“Até que as pessoas vejam robôs nas ruas matando pessoas, elas não sabem como reagir porque isso parece ilusão”, advertiu Elon Musk, CEO da Tesla, em julho, no National Governors Association Summer Meeting. Musk insistiu na necessidade de regular a inteligência artificial antes que “seja muito tarde”.

Quem garante o uso ético dessa tecnologia? O cardeal levantou esta questão e reiterou que é necessário reunir tecnologias e áreas humanísticas de estudo, como filosofia e teologia. A tecnologia não pode regular a si mesma. O mundo das humanidades tem um papel importante a desempenhar; filosofia, cultura, teologia e religião se concentram em estudar o único verdadeiro assunto de liberdade e responsabilidade, que é a pessoa humana.

Aleteia

sokolka
Análises laboratoriais: estrutura da fibra do músculo do coração e estrutura do pão estavam interligadas de forma impossível de ser feita por ingerência humana

Todos os dias, em todos os altares do mundo, dá-se o maior milagre possível: o da transformação do pão e do vinho no verdadeiro Corpo e Sangue de Jesus Cristo.

No entanto, ao recebermos a comunhão, podemos tocá-lo apenas pela fé, pois aos nossos sentidos é oferecida somente a forma do pão e do vinho fisicamente inalterada pela consagração.

O que é, então, que o acontecimento eucarístico de Sokólka, na Polônia, proporciona à nossa fé?

Foi em 12 de outubro de 2008, domingo, logo após a beatificação do servo de Deus pe. Miguel Sopocko.

Na Santa Missa iniciada na igreja paroquial de Santo Antônio de Sokólka às 8h30, uma hóstia consagrada caiu das mãos de um dos sacerdotes durante a distribuição da comunhão, junto ao altar. O sacerdote interrompeu a distribuição da comunhão, recolheu-a e, de acordo com as normas litúrgicas, a colocou no vásculum, um pequeno recipiente com água que se encontra normalmente ao lado do sacrário, servindo para o sacerdote lavar os dedos após a distribuição da comunhão. A hóstia deveria dissolver-se nesse recipiente.

A irmã Julia Dubowska, da congregação das Irmãs Eucarísticas, era sacristã em serviço na paróquia. No fim da missa, a pedido do pároco, pe. Stanislaw Gniedziejko, ela despejou o conteúdo do vásculum noutro recipiente, sabendo que a hóstia consagrada levaria algum tempo para dissolver-se, e colocou o outro recipiente no cofre da sacristia da paróquia. Somente ela e o pároco tinham as chaves do cofre.

Após uma semana, em 19 de outubro, Domingo das Missões, a irmã Julia, questionada pelo pároco sobre o estado da hóstia, foi ver o cofre. Ao abrir a porta, sentiu um aroma delicado de pão ázimo. Quando abriu o recipiente, viu a água limpa com a hóstia a dissolver-se e, no meio dela, uma mancha arqueada de cor vermelha intensa, lembrando um coágulo de sangue, uma partícula viva de um corpo. A água permanecia incolor.

A irmã informou imediatamente o padre, que trouxe os sacerdotes locais e o missionário pe. Ryszard Górowski. Todos ficaram surpresos e atônitos com o que viram.

Mantiveram discrição e prudência, não esquecendo o peso do acontecimento, pois tratava-se de pão consagrado que, pelo poder das palavras de Cristo no cenáculo, é verdadeiramente o Seu Corpo. Do ponto de vista humano, foi difícil definir se a forma alterada do fragmento da hóstia era o resultado de uma reação orgânica, química ou de outro tipo.

Imediatamente notificaram o arcebispo metropolitano de Bialystok, dom Edward Ozorowski, que se dirigiu a Sokólka juntamente com o chanceler da cúria, os sacerdotes prelados e catedráticos. Todos ficaram profundamente comovidos com o que viram. O arcebispo mandou proteger a hóstia, esperar e observar o que iria acontecer.

No dia 29 de outubro, o recipiente com a hóstia foi transportado para a capela da Misericórdia Divina, na casa paroquial, e colocado no sacrário. No dia seguinte, por decisão do arcebispo, retirou-se a hóstia com a mancha visível da água, colocou-se num pequeno corporal e em seguida no sacrário. Deste modo a hóstia foi conservada durante três anos até ser levada solenemente à igreja, em 2 de outubro de 2011. Durante o primeiro ano, ela foi guardada em segredo. Foi um tempo de reflexão sobre o que fazer, já que se tratava de um sinal de Deus que era necessário interpretar.

Até meados de janeiro de 2009, o fragmento da hóstia alterada secou de forma natural e permaneceu como coágulo de sangue. Desde então, não mudou de aparência.

Em janeiro de 2009, o arcebispo ordenou que se fizessem análises pato-morfológicas da hóstia, e, em 30 de março, criou uma comissão eclesial para analisar o fenômeno.

O fragmento recolhido da hóstia em forma alterada foi analisado pela professora Dra. Maria Sobaniec-Lotowska e pelo professor Dr. Stanislaw Sulkowski, de forma independente um do outro, com vista à maior credibilidade dos resultados. Ambos são pato-morfologistas da Universidade de Medicina de Bialystok. As análises foram realizadas no Instituto de Pato-Morfologia da mesma universidade. O trabalho dos dois especialistas foi regido pelas normas e obrigações dos cientistas para analisar cada problema científico de acordo com as diretrizes do Comitê de Ética da Ciência da Academia das Ciências Polonesas. As análises foram descritas e fotografadas exaustivamente. A documentação completa foi entregue à Cúria Metropolitana de Bialystok.

Quando foram recolhidas as amostras para análise, a parte não dissolvida da hóstia consagrada estava já embebida no tecido. Porém, a estrutura de sangue acastanhado do fragmento da hóstia não perdeu nada da sua clareza. Este fragmento estava seco e frágil, intimamente ligado à restante parte da hóstia em forma de pão. A amostra recolhida foi o suficiente para realizar todas as análises indispensáveis.

Os resultados de ambas as análises independentes sobrepuseram-se completamente. Concluíram que a estrutura do fragmento da hóstia que foi analisado é idêntica à do tecido do músculo do coração de uma pessoa viva, mas em estado de agonia. A estrutura da fibra do músculo do coração e a estrutura do pão estavam interligadas de forma muito estreita, impossível de se realizar por ingerência humana, conforme declaração da professora Maria Sobaniec-Lotowska.

As análises realizadas provaram que não foi adicionada nenhuma outra substância à hóstia consagrada, mas que o seu fragmento tomou a forma de tecido do músculo do coração de uma pessoa em estado de agonia. Este tipo de fenômeno não é explicável pelas ciências naturais. Já o ensinamento da Igreja nos diz que a hóstia consagrada é o Corpo do próprio Cristo, pelo poder das Suas próprias palavras, proferidas durante a Última Ceia.

O resultado das análises pato-morfológicas datadas de 21 de janeiro de 2009 foi incluído no protocolo entregue à Cúria Metropolitana de Bialystok.

Em seu comunicado oficial, a Cúria Metropolitana de Bialystok afirmou:

“O acontecimento de Sokólka não se opõe à fé da Igreja, mas a confirma. A Igreja professa que, após as palavras da consagração, pelo poder do Espírito Santo, o pão se transforma no Corpo de Cristo e o vinho no Seu Sangue. Além disso, trata-se de um chamamento para que os ministros da Eucaristia distribuam o Corpo do Senhor com fé e cuidado e que os fiéis O recebam com adoração”.

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Com informações do site sokolka.archibial.pl e adaptação de texto a partir do blog Senza Pagare

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Ainda no embalo do 90.º aniversário de nascimento de Joseph Ratzinger, o papa emérito Bento XVI, comemorado no mês passado, o blog traz um artigo de um convidado: Mariusz Biliniewicz leciona Teologia na Universidade de Notre Dame, na Austrália, e é um estudioso do pensamento do papa emérito, sendo autor de The Liturgical Vision of Pope Benedict XVI. Ele escreveu, especialmente para o blog Tubo de Ensaio, um texto analisando a visão de Ratzinger sobre a relação entre ciência e fé.

Ciência e fé no pensamento de Bento XVI

Mariusz Biliniewicz

A relação entre fé e ciência, no pensamento de Joseph Ratzinger, o papa Bento XVI, é melhor compreendida dentro do contexto da forma como ele vê a relação entre fé e razão em geral. Essa relação, de acordo com Ratzinger, é fundada no conceito de λόγος (logos), encontrado tanto na filosofia grega pré-cristã como em uma de suas passagens favoritas do Novo Testamento: o início de seu Evangelho preferido, o de São João: “No princípio era o Verbo (logos), e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”. Ratzinger explica que o termo logos significa tanto “palavra/Verbo” quanto “razão”, e isso indica que uma das características mais importantes da fé cristã é o fato de ela ser razoável, acessível à razão. Isso não significa que a razão humana é capaz de penetrar até o mais profundo da fé cristã; isso seria confundir as duas realidades. O que isso significa é que a fé cristã deve sempre estar aberta ao encontro com a razão humana em todas as suas dimensões. Ou seja: em primeiro lugar, um diálogo da fé com a filosofia, mas não limitado a ela. Hoje, mais que nunca, também um diálogo com a ciência.

Diálogo significa parceria, troca mútua, mas também crítica construtiva. Ciência e fé têm suas respectivas áreas de competência que são obviamente diferentes, mas que ao mesmo tempo apresentam uma convergência. Esse encontro construtivo significa que a Igreja não pode aceitar automaticamente, sem refletir, tudo que a “razão secular” tenha a dizer, assim como tudo o que a ciência contemporânea pode fazer. Pelo contrário: Ratzinger jamais se cansa de nos lembrar que, enquanto a ciência precisa gozar da liberdade de pesquisa e de uma necessária autonomia em seu trabalho, ela também precisa de um certo padrão universal pelo qual suas realizações podem ser medidas. Nem tudo que é cientificamente possível é moralmente aceitável, e nem toda rota tecnologicamente viável é digna de ser percorrida. A convicção crescente do caráter irrefreável do desenvolvimento científico deveria vir acompanhada da consciência crescente da necessidade de um princípio objetivo que ajudaria a distinguir o que é factível do que vale a pena fazer. Sem esse padrão, uma ciência completamente fora de controle, que só reconhece como limite a possibilidade técnica, pode se virar contra seu próprio agente, a pessoa humana. O desenvolvimento das armas nucleares de destruição em massa é, para Ratzinger, um exemplo eloquente de quão curta é a estrada entre o progresso sem amarras e a ameaça da aniquilação total da espécie humana.

Além disso, enquanto a ciência pode e deve nos ajudar a suprir as necessidades materiais mais importantes de nosso tempo, ela não pode “preencher totalmente todas as necessidades existenciais e espirituais do homem”. Essa realização, para a pessoa humana, só pode vir de fora; não podemos fazê-la nós mesmos, só podemos recebê-la. De acordo com Ratznger, a distinção importante entre o natural e o sobrenatural, o possível e o permissível, o ethos (fazer) e o logos (ser), exige um equilíbrio delicado entre a razão e a Revelação. Esse equilíbrio pode ser, e no passado o foi frequentemente, interrompido por exageros vindos de ambos os lados. Quando isso acontece, a humanidade é exposta ou a “patologias da religião” (fé cega, nada razoável, sem nenhum recurso à razão) ou a “patologias da razão” (uma urgência de progresso sem restrições e sem controles, independentemente do preço a pagar e sem interesse algum em considerações éticas).A compreensão de Ratzinger sobre a relação entre fé e razão ajuda a entender seu pensamento sobre o diálogo entre ciência e religião. (Foto: Rodolfo Buhrer/Arquivo Gazeta do Povo)

De acordo com Ratzinger, uma reflexão sobre a dignidade humana e o bem comum, movida pela razão, pode levar à descoberta de um necessário padrão universal de conduta para a atividade científica. Mas essa reflexão é especialmente eficiente e frutuosa se iluminada pela fé. Como a fé cristã é construída sobre o princípio do logos, e como a abertura à reflexão pela razão está imersa nesta natureza, a fé cristã é provavelmente o ambiente mais amigável à ciência que um pesquisador pode encontrar.

A contribuição de Ratzinger para o desenvolvimento do diálogo entre ciência e fé é reconhecida não apenas nos círculos católicos, mas também fora deles. Um dos sinais mais notáveis deste reconhecimento foi sua nomeação como member associe stranger da Academia de Ciências Morais e Políticas do Institut de France, em 1992, quando ele foi convidado a assumir a cadeira que ficou vaga com a morte do dissidente soviético Andrei Sakharov.

O papado de Bento XVI também foi marcado por esse princípio teológico. De muitas formas, Bento foi um pontífice muito pró-ciência e apoiou pesquisas científicas com entusiasmo, interesse pessoal e com a bênção apostólica do sucessor de Pedro. Em 2012, ele constituiu a Fundação Ciência e Fé (Stoq), para dar sequência ao trabalho da iniciativa Science, Theology and the Ontological Quest, criada por João Paulo II em 2003. Em muitas ocasiões ele pediu uma “interação frutuosa entre compreensão e crença”. Ele enfatizava que, como tanto a ciência quanto a fé estão chamadas a promover o bem universal, a fé deveria encorajar a ciência a se empenhar em pesquisas que ajudassem a preservar a vida, a combater doenças, a eliminar a pobreza ou simplesmente a entender melhor como nosso planeta funciona e o que isso significa para nós, humanos. A fé não apenas não entra em conflito com a ciência, mas “coopera com ela, oferecendo critérios fundamentais para garantir que ela promova o bem comum”. Ao mesmo tempo, a fé pede que “a ciência desista daquelas iniciativas que, em oposição ao plano original de Deus, possam produzir efeitos que se voltem contra o próprio homem”. Bento promoveu a ideia da “unidade interna” entre ciência e fé, e expressou sua convicção de que há uma “necessidade urgente de diálogo e cooperação contínuos” entre ambas.

Não apenas “não há conflito entre a providência divina e o engenho humano”, mas o desenvolvimento da ciência, em si mesmo, poderia ser considerado parte da providência divina. Ainda mais: Bento defendeu que a atividade científica também é um caminho de santidade. Na catequese da audiência geral de 24 de março de 2010, ele citou Santo Alberto Magno como exemplo de um “santo cientista” e afirmou que “os homens de ciência podem percorrer, através da sua vocação para o estudo da natureza, um autêntico e fascinante percurso de santidade”. Pela observação e pelo estudo da criação divina, os olhos do cientista se voltam ao Criador cujo gênio artístico e criativo se torna mais e mais evidente ao pesquisador. Dessa forma, “o estudo científico transforma-se, então, num hino de louvor” e pode servir não apenas para satisfazer as necessidades naturais dos homens, mas também se tornar um primeiro passo no caminho para satisfazer as necessidades sobrenaturais.

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Alexis Carrel, Prêmio Nobel de Medicina em 1912, chegou a se converter ao catolicismo graças aos milagres que presenciou na cidade mariana de Lourdes, na França, a partir de 1903, quando ainda era um jovem médico ateu.

Na época, um colega que acompanharia um grupo de peregrinos a Lourdes lhe pediu, por força maior, que o substituísse. Carrel aceitou pensando em comprovar pessoalmente a falsidade dos supostos milagres – mas o que lhe coube foi justamente assistir a um deles.

O médico visitou, observou e analisou todos os sintomas de uma mulher tuberculosa em leito de morte. Não havia dúvida alguma de que ela morreria em breve. No entanto, quando aquela mulher, diante dos seus olhos incrédulos, saiu das piscinas de Lourdes, tudo tinha desaparecido. O depoimento de Carrel ao revelar a sua conversão foi recebido com escândalo nos âmbitos naturalistas céticos que dominavam a França.

A propósito: é recomendável que os incrédulos, em vez de promulgarem os seus próprios dogmas de “intelectualidade superior” diante daquilo que não entendem, procurem conhecer o assunto com mais rigor científico e menos conclusões precipitadas (e anticientíficas). É o que propõe outro médico premiado com o Nobel de Medicina: o dr. Luc Montagnier, que, entre outras relevantes contribuições à ciência, ficou famoso pela descoberta do vírus HIV. Ele afirma:

“Muitos cientistas cometem o erro de rejeitar o que não entendem. Não gosto dessa atitude. Frequentemente cito a frase do astrofísico Carl Sagan: ‘A ausência de prova não é prova de ausência’ (…) Quanto aos milagres de Lourdes que eu estudei, creio que realmente se trata de algo inexplicável (…) Não consigo entender esses milagres, mas reconheço que há curas que não estão previstas no estado atual da ciência”.

De fato, são milhares os registros de “curas inexplicáveis” que acontecem todos os anos no santuário mariano de Lourdes, mas são pouquíssimas as curas consideradas efetivamente milagrosas por parte da Igreja, que adota critérios rigorosos em sua minuciosa avaliação científica de cada caso.

Na verdade, a Igreja não afirma a ocorrência de um milagre apenas porque queira ou possa: ela submete a análise de cada suposto milagre a uma sequência criteriosa de etapas científicas, que incluem, por exemplo, comissões médicas para estudar cada alegação de cura cientificamente inexplicável.

É o caso da Comissão Médica Internacional de Lourdes, cuja metodologia é a mesma usada na investigação científica. Aliás, seus membros costumam citar o princípio de Jean Bernard: “Quem não é científico não é ético“. Não se trata de cair no cientificismo ou no positivismo por si mesmos, e sim de buscar a verdade com a clara consciência daquilo que a encíclica Fides et Ratio veio a sintetizar magnificamente:

“A fé e a razão são como as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva à contemplação da verdade”.

OS 7 CRITÉRIOS DA CURA MILAGROSA

O cardeal Prospero Lambertini, que se tornaria mais tarde o papa Bento XIV (pontífice de 17 de agosto de 1740 até a morte em 3 de maio de 1758), detalhou as características do milagre do ponto de vista médico-científico na “De servorum beatificatione et beatorum canonizatione” (“A beatificação dos servos de Deus e a canonização dos beatos“), livro IV, capítulo VIII, 2-1734, definindo 7 critérios para o reconhecimento de uma cura extraordinária ou inexplicável:

  1. A doença deve ter características de gravidade, com prognóstico negativo.
  2. O diagnóstico real da doença deve ser certo e preciso.
  3. A doença deve ser apenas orgânica.
  4. Eventual tratamento não pode ter favorecido o processo de cura.
  5. A cura deve ser repentina, inesperada e instantânea.
  6. A retomada da normalidade deve ser completa (e sem convalescênça).
  7. A cura deve ser duradoura (sem recaída).

Os 7 critérios de Lambertini são válidos até hoje e esclarecem o perfil específico da cura inexplicável, garantindo que toda objeção ou contestação seja levada em ampla consideração antes de se atestar que uma determinada cura foi “não explicável cientificamente”.

DE 7.200 SUPOSTOS MILAGRES, SÓ 69 RECONHECIDOS

A seriedade das avaliações de supostos milagres pode ser percebida nos números relacionados ao santuário mariano de Lourdes, na França, o mais visitado do mundo por peregrinos em busca de cura física:  desde 1858, houve mais de 7.200 alegações de cura milagrosa, mas apenas 69 casos foram declarados efetivamente inexplicáveis do ponto de vista médico-científico até hoje.

O mais recente caso é o de Danila Castelli: ela foi curada em 1989, mas o reconhecimento formal da inexplicabilidade científica de sua cura só aconteceu em 2013; portanto, após 24 anos de estudos, disponíveis para a contestação da comunidade científica.

Já o primeiro caso reconhecido em Lourdes tinha sido a cura de Catherine Latapie, ocorrida poucos dias depois da primeira aparição de Nossa Senhora em Massabielle.

UM CASO DE IMPRESSIONAR

Um dos casos de cura mais impactantes que passaram pela Comissão Médica Internacional de Lourdes é o da religiosa Luigina Traverso, curada repentinamente de uma lombociática incapacitante de meningocele no dia 23 de julho de 1965, após anos de tratamento médico e várias cirurgias que não tinham dado resultado.

Em 20 de julho de 1965, a irmã viajou até Lourdes em estado grave – aliás, os médicos tinham recomendado que ela não fizesse a peregrinação porque a viagem representava alto risco de morte.

Em 23 de julho, na passagem do Santíssimo Sacramento durante a celebração eucarística, a irmã Luigina relata ter experimentado uma súbita sensação de forte calor e bem-estar, acompanhada pelo “desejo de ficar de pé” – o que era impossível para ela havia meses. De repente, ela recuperou o movimento dos pés e deixou de sentir dor.

Em 24 de julho, acompanhada pela madre superiora, a religiosa caminhou sem ajuda alguma até a gruta de Lourdes para agradecer a Nossa Senhora. No mesmo dia, participou da via-crúcis dos peregrinos e subiu rezando até a quarta estação – a subida é íngreme. Ao longo dos dias seguintes, a irmã Luigina já estava ajudando a cuidar dos doentes que peregrinavam ao santuário.

Demorou até 2012 para que o milagre fosse reconhecido, cumpridas todas as rígidas etapas de estudos médicos e científicos e, por último, de análise por parte da Igreja.

Aleteia

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Treze votos a favor do reconhecimento da sobrenaturalidade das primeiras sete aparições de Medjugorje, um voto contra e uma abstenção. A maioria dos votos suspensivos e muitas dúvidas sobre o prosseguimento do fenômeno das aparições que aconteceram entre o final de 1981 e hoje. Este é o resultado final do trabalho da comissão sobre Medjugorje instituída em 2010 por Bento XVI e presidida pelo cardeal Camilo Ruini.

O Papa Francisco mencionou esse relatório durante a conversa com os jornalistas durante o voo de retorno de Fátima, quando revelou a diferença entre as primeiras aparições e o fenômeno posterior, dizendo: “Uma comissão composta por bons teólogos, bispos e cardeais. A relação da comissão é muito, muito boa”. Como se sabe, a indicação das palavras do Pontífice é positiva sobre os frutos espirituais e as conversões (“pessoas que se convertem, que encontram Deus, que mudam de vida. E isto não graças a uma varinha mágica”), mas negativa sobre as aparições que continuam atualmente: “Eu, pessoalmente, sou mais malvado, prefiro a Nossa Senhora Mãe em vez da Nossa Senhora chefe de um escritório de telégrafos e que diariamente envia uma mensagem com hora marcada”.

Uma comissão instituída por Ratzinger

Entre 17 de março de 2010 e 17 de janeiro de 2014, por vontade de Bento XVI, foi instituída uma comissão presidida por Ruini. Além do ex-presidente da Conferência Episcopal da Itália, faziam parte dela os cardeais Jozef Tomko, Vinko Puljic, Josip Bozanic, Julián Herranz e Angelo Amato. Além disso, era integrada pelo psicanalista Tony Anatrella, os teólogos Pierangelo Sequeri, Franjo Topic, Mihály Szentmártoni e Nela Gaspar, o mariólogo Salvatore Perrella, o antropólogo Achim Schütz, o canonista David Jaeger, o relator das Causas dos Santos Zdzislaw Józef Kijas, o psicólogo Mijo Mikic e o oficial da Doutrina da Fé Krzysztof Nykiel.

Eles tiveram a tarefa de “reunir e examinar todo o material” sobre Medjugorje e apresentar “um relatório detalhado”, com a votação sobre a “sobrenaturalidade ou não” das aparições, além de indicar as “soluções pastorais” mais adequadas. A comissão reuniu-se 17 vezes, avaliou toda a documentação depositada no Vaticano, na paróquia de Medjugorje e nos arquivos dos serviços secretos da ex-Iugoslávia. Ouviu todos os videntes e testemunhas, e em abril de 2012 fez uma visita ao pequeno povoado da Bósnia-Herzegovina.

Juízo positivo sobre as primeiras aparições

A comissão identificou uma diferença muito clara entre o início do fenômeno e seu desenvolvimento posterior. E decidiu expressar-se com duas votações diferentes sobre duas fases diferentes: as primeiras sete supostas aparições, que aconteceram entre o dia 24 de junho e o dia 03 de julho de 1981, e tudo o que aconteceu depois disso. Os membros e os peritos se expressaram com 13 votos a favor do reconhecimento da sobrenaturalidade das primeiras visões. Um dos membros votou contra e um dos peritos se absteve. A comissão sustenta que os sete rapazes videntes eram normais psiquicamente, foram surpreendidos pela aparição e que não houve nenhuma influência externa (nem por parte dos franciscanos da paróquia nem de outros sujeitos) sobre o que disseram ter visto. Negaram-se a contar o que tinham visto apesar de a polícia tê-los detido e ameaçado de morte. A comissão também descartou a hipótese de origem demoníaca das aparições.

As dúvidas sobre a evolução do fenômeno

Em relação à segunda fase das aparições, a comissão considerou as fortes interferências provocadas pelo conflito entre o bispo e os franciscanos da paróquia, assim como pelo fato de que as aparições, pré-anunciadas e programadas singularmente para os videntes (e já não em grupo), tenham continuado com mensagens repetitivas. Estas continuam, embora os rapazes tenham dito que não, coisa que não se verificou. E depois há a questão dos “segredos” com requintes apocalípticos que os videntes afirmam ter recebido da aparição. Sobre esta segunda fase, a comissão votou em dois momentos diferentes. Uma primeira vez, considerando os frutos espirituais de Medjugorje, mas deixando de lado o comportamento dos videntes. Nesta votação três membros e três peritos afirmaram que havia efeitos positivos, quatro membros e três peritos indicaram que havia efeitos mistos, principalmente positivos, e outros três membros disseram que havia efeitos mistos (positivos e negativos). Se além dos frutos espirituais se considera o comportamento dos videntes, oito membros e quatro peritos consideraram que não se podia fazer um juízo, ao passo que outros dois membros votaram contra a sobrenaturalidade. 

A solução pastoral

Após constatar que os videntes de Medjugorje nunca foram acompanhados adequadamente do ponto de vista espiritual e observar que há muito tempo já não faziam parte de um grupo, a comissão pronunciou-se a favor da suspensão da proibição de organizar peregrinações a Medjugorje (com o voto de 13 membros e peritos dos 14 que estavam presentes) e votou a favor da criação, em Medjugorje, de “uma autoridade dependente da Santa Sé” e da transformação da paróquia em um santuário pontifício. Uma decisão motivada por questões pastorais (o cuidado dos milhões de peregrinos que chegam ali, evitar que se formem “igrejas paralelas”, esclarecer questões econômicas), mas que não implicaria o reconhecimento da sobrenaturalidade das aparições.

As dúvidas da Congregação para a Doutrina da Fé

O Papa Francisco também falou sobre isso durante a entrevista que o levava de volta a Roma de Fátima. A Congregação para a Doutrina da Fé, dirigida pelo cardeal Gerhard Ludwig Müller, manifestou suas dúvidas sobre o fenômeno e também sobre o relatório da comissão Ruini, considerado como um documento confiável, mas que deve ser comparado com outros pareceres e documentos. Em 2016, aconteceu a Feira IV, reunião mensal dos membros do dicastério, convocada para discutir o caso de Medjugorje e o relatório da comissão Ruini. Cada um dos cardeais e bispos membros recebeu o texto da comissão, mas também mais documentos que se encontram na Congregação para a Doutrina da Fé. Durante a reunião pediu-se aos membros que expressassem suas opiniões. O Papa Francisco, que não queria que o relatório da comissão Ruini fosse “leiloado”, estabeleceu que enviassem a ele, pessoalmente, todos os pareceres dos membros da Feira IV. E isso foi feito na hora.

A decisão do Papa Francisco

O Papa, após ter examinado o relatório da comissão Ruini e os pareceres dos membros da Congregação para a Doutrina da Fé, decidiu encomendar ao arcebispo polonês Henryk Hoser uma missão de “enviado especial da Santa Sé” e, “sobretudo, das exigências dos fiéis que para ali se dirigem em peregrinação” para “sugerir eventuais iniciativas pastorais para o futuro”. Antes que termine o verão deste ano de 2017, o enviado da Santa Sé entregará os resultados do seu trabalho ao Papa e este tomará uma decisão.

Andrea Tornielli – Vatican Insider

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O Professor Shmuel Pietrokovski e o Dr. Moran Gershoni, pesquisadores do Departamento de Genética Molecular do Instituto de Weizmann de Ciências, revelaram que cerca de 6.500 genes humanos codificadores de proteínas reagem de forma diferente no sexo masculino e feminino.

Esta descoberta desmascara o mito da ideologia de gênero, a qual considera que a diferença entre homens e mulheres é um fato social e/ou cultural, ou seja, uma construção, em vez de algo biológico ou natural.

Em um recente artigo da sua instituição, os cientistas indicaram que para identificar os milhares de genes recorreram ao projeto GTEx, um grande estudo de expressão genética humana registrado para numerosos órgãos e tecidos do corpo de aproximadamente 550 doadores adultos.

“Este projeto permitiu, pela primeira vez, o mapeamento integral da estrutura genética do sexo humano diferencial”, detalharam.

Em seguida, ambos os investigadores examinaram cerca de 20.000 genes codificadores de proteínas, classificando-os por sexo e procurando diferenças na expressão de cada tecido.

Eventualmente, identificaram cerca de “6.500 genes com atividade que estava orientada a um sexo ou outro em pelo menos um tecido”.

“Por exemplo, descobriram genes que estavam altamente expressos na pele dos homens em relação aos da pele das mulheres, e perceberam que estavam relacionados com o crescimento do cabelo no corpo. A expressão genética para a construção muscular foi maior nos homens; e para o armazenamento de gordura foi maior nas mulheres”.

O mapa detalhado desses genes, publicado na revista BMC Biology, proporciona evidências de que os homens e as mulheres experimentam “um tipo de evolução separada”, que também está interligada.

Há vários anos, o Professor Shmuel Pietrokovski e o Dr. Moran Gershoni se perguntaram por que é comum a prevalência de algumas doenças humanas.

Nesse sentido, viram que as mutações que afetam a fertilidade eram relativamente generalizadas, onde aproximadamente “15% dos casais que tentam engravidar se definiam como inférteis”.

Para os cientistas, o “senso comum” lhes disse que estas mutações, que “afetam diretamente a sobrevivência da espécie através da redução do número de filhos, deveriam ter sido rapidamente eliminadas pela seleção natural”.

No seu estudo, os especialistas demostraram que as mutações nos genes específicos da formação do esperma persistem precisamente “porque os genes se expressam somente nos homens”.

“Uma mutação que é problemática somente para a metade da população, não importa o quanto é prejudicial, passa livremente à próxima geração pela outra metade”.

Outras diferenças

Além disso, os cientistas observaram as tendências para acumular mutações “para ver se a seleção natural põe mais ou menos pressão sobre os genes que são específicos para homens ou mulheres”, ou seja, até que ponto são mutações prejudiciais eliminadas ou toleradas na população.

De fato, os pesquisadores descobriram que a eficiência da seleção natural é mais fraca em muitos desses genes.

“Quanto mais um gene era específico de um determinado sexo, menos seleção (natural) vimos no gene. E mais uma diferença: esta seleção foi ainda mais fraca com os homens”, disse o Dr. Gershoni.

Embora não haja uma explicação completa desta diferença adicional, os pesquisadores apontaram uma teoria da evolução sexual proposta pela primeira vez na década de 1930.

“Em muitas espécies, as fêmeas podem produzir apenas um número limitado de descendentes, enquanto os machos podem, teoricamente, mais. Por isso, a sobrevivência da espécie dependerá das fêmeas mais viáveis ??na população do que os homens. Assim, a seleção natural pode ser mais ‘permissiva’ (pouco exigente) com os genes que só são prejudiciais para os homens”, explicou o Professor Pietrokovski.

Além dos órgãos sexuais, os pesquisadores descobriram uma série de genes ligados ao sexo nas glândulas mamárias, “algo não tão surpreendente”, a exceção “de que aproximadamente a metade destes genes se expressaram em homens”.

“Como os homens têm estruturas mamárias totalmente equipadas, mas basicamente não funcionais, os cientistas fizeram uma suposição de que alguns desses genes poderiam suprimir a amamentação”, detalharam.

Um lugar menos óbvio que incluiu a expressão genética foi somente o ventrículo esquerdo do coração nas mulheres. Outro desses genes, também relacionados à absorção de cálcio, mostrou níveis de expressão muito elevados em mulheres jovens que diminuíram drasticamente com a idade.

“Os cientistas pensam que são ativos em mulheres até a menopausa, protegendo seus corações, mas que causa doenças cardíacas e osteoporose nos últimos anos, quando a expressão genética está fechada”, assinalaram os pesquisadores.

Entretanto, outro gene que principalmente se expressou de maneira ativa no cérebro das mulheres e, “embora a sua função exata seja desconhecida”, os cientistas pensam que “pode ??proteger os neurônios de Parkinson, uma doença que predomina e começa mais cedo nos homens”.

Os pesquisadores também identificaram a expressão do gene no fígado de mulheres que regula o metabolismo de drogas, “fornecendo evidência molecular para a diferença conhecida no processamento de drogas entre mulheres e homens”.

“O genoma básico é quase o mesmo em todos nós, mas é usado de forma diferente em todo o corpo e entre os indivíduos. Portanto, quando se trata das diferenças entre os sexos, vemos que a evolução muitas vezes funciona no nível da expressão genética”, acrescentou o Dr. Gershoni.

Nesse sentido, o Prof. Pietrokovski indicou que, “paradoxalmente”, aqueles “genes vinculados ao sexo são aqueles nos quais as mutações prejudiciais são mais propensas a serem transmitidas, incluindo aqueles que afetam a fertilidade”.

“A partir deste ponto de vista, homens e mulheres sentem diferentes pressões de seleção e, pelo menos até certo ponto, a evolução humana deve ser vista como uma coevolução”.

Finalmente, o pesquisador detalhou que este estudo também enfatiza a necessidade de uma compreensão melhor das diferenças entre homens e mulheres, “nos genes que causam a doença ou respondem aos tratamentos”.

ACI Digital

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“Não devemos ter medo se a ciência e a religião, por vezes, nos dão imagens diferentes do universo de Deus”.

A opinião é do irmão jesuíta Guy Consolmagno, astrônomo do Observatório do Vaticano.

“O que eu faço se a ciência me diz uma coisa, mas a religião me diz outra coisa? Em qual delas eu acredito?”

Há uma suposição falsa no centro dessa questão, porque nem a ciência nem a religião têm a ver com acreditar em “coisas”.

Nossa crença religiosa não é uma “coisa”, mas uma pessoa – na verdade, três pessoas. A nossa fé está no Pai, Filho e Espírito Santo, conforme descrito e identificado no Credo e na Igreja que nos leva a essas pessoas.

As palavras do Credo são importantes justamente porque elas identificam um Deus muito específico: o Pai, fora do tempo e do espaço (já presente no início) que deliberadamente escolheu criar tempo e espaço, e que ama este universo; Jesus, que encarnou neste universo pelo Espírito Santo, nascido de Maria, que viveu em um determinado momento, morreu de uma forma particular, foi ressuscitado em um determinado momento; e esse mesmo Espírito Santo agora enviado a nós como nosso advogado, presente neste universo e em nossa Igreja.

Quando o Credo foi escrito, havia uma abundância de outros deuses que algumas pessoas queriam acreditar. Mas nós, cristãos rejeitamos especificamente os deuses da natureza pagãos. Nós não acreditamos neles assim como não adoramos algum outro homem chamado Jesus, que viveu em um tempo e lugar diferentes, e tinha uma história diferente do Jesus que nós chamamos de Senhor.

É tentador voltar a nossa adoração do Criador para adorar um deus da natureza, que se articula com a forma de como as coisas funcionam no mundo natural, como uma força similar à eletricidade e à gravidade. É a mesma tentação de adorar uma versão de “Jesus” que era apenas um “cara legal” que acabou tendo um final infeliz, ou de uma versão de “Jesus” que era apenas uma divindade vestida com uma vestimenta de homem. Tanto o deus da natureza quanto o “Jesus” simplificado são fáceis de entender e compreender; mas são falsos. Eles não são o que os cristãos acreditam.

Assim como é complicado entender Jesus tanto como verdadeiro Deus quanto verdadeiro homem, é difícil de entender como o Criador relaciona-se com a criação. É aí que entra a ciência.

A ciência é a nossa melhor maneira de descrever como o universo se comporta. Você pode dizer que, onde a fé nos diz que Deus criou o universo, a ciência nos diz como ele fez isso.

A ciência é importante precisamente porque “a ciência pode purificar a religião do erro e da superstição”, citando o Papa João Paulo II. Mas a ciência nunca está finalizada; nunca é perfeita. É um entendimento humano da verdade. A descrição da verdade pela ciência é humanamente compreensível, mas é sempre uma descrição incompleta. Ciência é entender, buscar a verdade – constantemente se aproximando da verdade, sem nunca apreendê-la totalmente.

É aí que entra a religião. Para citar São João Paulo II mais uma vez, “a religião pode purificar a ciência da idolatria e dos falsos absolutos”. A religião nos dá verdades e absolutos que a ciência não tem poder para contradizer. Mas, enquanto a religião começa com verdades, devemos reconhecer que elas são sempre compreendidas imperfeitamente.

À medida que experimentamos Deus na oração, na vida, na teologia, constantemente, temos momentos em que podemos dizer: “Ahá! Agora eu vejo um pouco melhor o que isso significa”. A religião é a verdade em busca de entendimento.

Assim, não devemos ter medo se a ciência e a religião, por vezes, nos dão imagens diferentes do universo de Deus. Isso é de se esperar; ambas são ainda obras em andamento. A ciência nunca poderá refutar (ou provar) um ponto da religião mais do que nossa atual compreensão da nossa fé poderá negar (ou confirmar) uma teoria científica. Em última análise, “a verdade não contradiz a verdade”, para citar João Paulo II mais uma vez.

Além disso, a religião é onde a nossa compreensão do mundo físico está situado no universo mais amplo, que inclui não apenas os átomos e as forças, mas também os desejos humanos que nos fazem querer entender os átomos e as forças, para chegar mais perto do Criador, experimentando e valorizando a sua criação.

O fato é que a ciência tem o seu credo fundamental também. Um cientista tem que acreditar que o universo físico é real, não uma ilusão; que opera por leis maiores que o próprio universo, e não pelos caprichos dos deuses da natureza; e que a compreensão dessas leis é algo bom em si mesmo, não apenas como uma forma de controlar a natureza, mas como uma forma de estar em um relacionamento com a natureza, uma maneira de desfrutar, apreciar e amar a criação. Observe como esse credo está em completo acordo com o credo cristão, e de fato desenvolve-se a partir dele.

Claro que, se você optar por ser um materialista e ateu, Deus não vai impedi-lo. Se você quiser assumir que o universo físico não é nada mais do que átomos e forças, então você pode ter sucesso em olhar para o universo inteiro e não ver nada, apenas átomos e forças. Você pode até mesmo fazer algo que se pareça com a ciência com esse pressuposto.

Mas, assumindo que existem apenas átomos e forças, você vai perder coisas como a beleza, a verdade e o amor. Você vai perder as coisas que fazem você querer fazer ciência em primeiro lugar.

Fonte: OSV Newsweekly

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“No princípio, Deus falou conosco através da criação, diz a Carta de São Paulo aos Romanos. Portanto, estudar o universo com a ciência é um ato de oração, um modo de encontrar Deus”. Mas, para isso, é necessário antes encontrar Deus, como pai, como Abba. Do contrário, não se pode encontrar Deus na Ciência”. Ou seja, “a fé vem antes quando se quer ver Deus na criação”.

A explicação é do astrônomo Guy Consolmagno, em conversa com Zenit, durante o encontro que aconteceu na segunda-feira na Sala de Imprensa, onde foi apresentado o congresso científico sobre os buracos negros, ondas gravitacionais e singularidades do espaço-tempo, que acontecerá entre os dias 09 e 12 de maio no Observatório Astronômico Vaticano de Castel Gandolfo.

O astrônomo estadunidense Guy Consolmagno, quando já contava com um brilhante currículo científico, entrou, em 1989, na Companhia de Jesus, fazendo os votos em 1991. Em 2005, foi nomeado diretor da Specola Vaticana ou Observatório Astronômico do Vaticano. Em 2000, a União Astronômica Internacional deu seu nome a um asteróide da faixa principal, o 4597 Consolmagno, também conhecido como Little Guy.

Perguntado sobre Deus, que, como disse Santo Tomás, não é uma evidência porque não se pode ‘tocá-lo” com os sentidos e sobre o universo que, ao contrário, é um reflexo de Deus, assinalou: “Deus é a evidência da existência do Universo. Porque, se não se acredita em um Deus se poderia pensar que o universo não existe, que é tudo imaginação”.

Acrescentou que “se não se acredita em um Deus como o Deus do cristianismo, não se pode crer no universo que trabalha com leis e com um sistema”; ao invés disso, “seria um universo do caos, do deus natureza, como Jove ou Júpiter”. Precisou, dessa maneira, que “esta não é a nossa ideia de Deus. A ideia de um Deus sobrenatural que abre espaço para as leis da Ciência”.

“Nós também acreditamos – acrescentou Consolmagno – em um Deus bom que criou o Universo por sua vontade e não por um acidente ou por um acaso”. Em um Deus “que disse que o Universo é bom, e que disse ‘Isso é bom'”.

Sobre o evento que acontecerá esta semana em Castel Gandolfo, precisou: “É um congresso científico que quer reunir tantos especialistas de vários campos, especialistas em buracos negros”. E precisou que o congresso reúne não apenas os teóricos dos buracos negros, mas também aqueles que os observam e estudam a partir de outras perspectivas científicas.

“Porque acontece, muitas vezes, que há um convênio de observadores, outro de teóricos, outro de buracos negros, etc. Mas aqui queremos colocar os diversos cientistas juntos, como em uma oficina”. Além disso, porque “sempre faltará tempo para fazer apresentações e discussões; por isso, queremos favorecer a troca livre de ideias”.

Fonte: Zenit

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A Sociedade de Cientistas Católicos, uma organização criada nos Estados Unidos, celebrou seu primeiro Congresso em Chicago de 21 a 23 de abril, uma oportunidade para mais de 100 participantes de conhecer a outros fiéis no meio científico e compartilhar experiências e temas de interesse. Além de confirmar que não existe contradição entre a Fé e a ciência, o encontro permitiu dar visibilidade aos fiéis em um ambiente no qual podem se sentir isolados.

“Durante meus estudos, encontrei muita rejeição à minha Fé”, comentou a professora Darlene Douglas, Doutora em Genética que se dedicou à docência ao não encontrar laboratórios nos quais pudesse trabalhar sem violentar as normas morais da Igreja sobre o respeito à vida humana desde a sua concepção. Para ela, o prejuízo de que a Fé seria incompatível com as descobertas científicas significou pressões por parte de seus professores.

Este tipo de experiências poderiam reduzir-se, segundo o presidente da Sociedade, Stephen Barr, se os cientistas católicos soubessem quantos de seus colegas compartilham sua Fé. “Muitos católicos em ciências, especialmente estudantes e jovens cientistas, se sentem isolados”, expôs. “Isto é porque a maior parte dos cientistas religiosos são discretos sobre sua Fé. Este sentido de solidão pode ser desmoralizante”.

O Congresso dedicou seus temas às origens do universo e da pessoa humana, com palestrantes como o Diretor do Observatório Vaticano, Irmão Guy Consolmagno, e os Professores John D. Barrow, Kenneth R. Miller, Karin Öberg e Robert J. Scherrer.

Apesar dos temas de discussão serem profundos e atrativos para os acadêmicos, o principal objetivo era fomentar o sentido de companheirismo entre os cientistas católicos e dar “testemunho da harmonia entre a vocação do cientista e a vida de Fé”, segundo indicou a organização. (EPC)

Fonte: gaudiumpress.org

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“Fiquei surpreso, fiquei contente e feliz que Recife tenha dado essa contribuição. Todos aqui ficaram muito satisfeitos e felizes que esse facto tenha sido levado em conta. Não conheço a criança, mas pretendo entrar em contacto para conhecê-la”, afirmou à Lusa Antônio Saburido.

O caso do “milagre” reconhecido pela igreja católica data de 2007, quando uma criança, então com seis anos, recuperou incólume de danos cerebrais considerados irreversíveis depois de uma queda de sete metros.

Na altura, Antônio Saburido era bispo de Sobral, no estado do Ceará e a arquidiocese de Recife era dirigida pelo seu antecessor, José Cardoso Sobrinho.

Por isso, o arcebispo admitiu não conhecer pessoalmente a criança, até porque a avaliação deste caso foi feita pelos serviços da postulação da causa de canonização dos pastorinhos beatos Jacinta e Francisco Marto, em Portugal.

No próximo dia 13 de maio, o bispo brasileiro não vai estar presente em Fátima por motivos de agenda, mas disse esperar que a criança participe nas celebrações em Portugal.

“Se houver facilidade para a criança ir, seria muito importante que ela fosse. Vai ser uma coisa muito bonita e é importante que esteja lá a criança que provocou a confirmação do que faltava” para a conclusão do processo de canonização de Jacinta e Francisco Marto.

O caso foi considerado formalmente “milagre” pela Igreja católica em 23 de março passado e diz respeito a uma criança brasileira, que na época tinha seis anos.

A criança “estava na casa do avô, brincando com a irmãzinha, quando caiu, por acidente, de uma janela de cerca sete metros de altura, sofrendo um grave traumatismo crânio encefálico, com a perda de material cerebral”, de acordo com a Rádio Vaticana.

Depois de transportada para “o hospital, em coma, foi operada” e os médicos disseram que, “caso sobrevivesse, viveria em estado vegetativo ou, no máximo, com graves deficiências cognitivas”.

A Rádio do Vaticano escreveu que, “milagrosamente, após três dias, a criança recebeu alta, não sendo constatado nenhum dano neurológico ou cognitivo”.

A 02 de fevereiro de 2007, uma equipa médica, segundo a mesma fonte, deu um “parecer positivo unânime sobre o caso, como `cura inexplicável do ponto de vista científico`”.

Na descrição da Rádio Vaticana, “no momento do incidente, o pai da criança havia invocado Nossa Senhora de Fátima e os dois pequenos beatos”.

“Na mesma noite, os familiares e uma comunidade de irmãs de clausura haviam rezado com insistência, pedindo a intercessão dos pastorinhos de Fátima”, descreveu a emissora católica.

Construído em 1935, apenas cinco anos depois do reconhecimento formal das “aparições” marianas pela diocese de Leiria, o Recife tem um dos mais antigos santuários do mundo dedicados a Nossa Senhora de Fátima, com atividades regulares, milhares de peregrinos e várias celebrações religiosas, muitas delas dedicadas ao pedido de graças divinas, na tradição católica brasileira.

Após a beatificação dos pastorinhos, em 2000, foram colocadas duas imagens grandes de Jacinta e Francisco Marto, um sinal da devoção mariana do local.

Esta tradição começou “pelo facto de termos aqui tantos portugueses”, mas agora é evidente a “grande a devoção a Nossa Senhora de Fátima” por parte da população e “temos muitas paróquias dedicadas a Nossa Senhora de Fátima” em todo o Brasil, afirmou o arcebispo de Recife.

O Vaticano anunciou que o papa Francisco vai canonizar, a 13 de maio, os dois pastorinhos Jacinta e Francisco durante a visita a Fátima para assinalar o centenário das “aparições”.

RTP Notícias