Mit brennender Sorge (“Com preocupação ardente”) Sobre a Igreja e o Reich alemão é uma encíclica do Papa Pio XI , emitida durante a era nazista de 10 de março de 1937 (mas com data do Domingo de Paixão , 14 de março).  Escrita em alemão, não no latim comum, foi contrabandeado para a Alemanha por medo de censura e lido nos púlpitos de todas as igrejas católicas alemãs em um dos domingos mais movimentados da Igreja, o Domingo de Ramos. (21 de março daquele ano).

A encíclica condenou as violações do acordo Reichskonkordat de 1933 , assinado entre o Reich alemão e a Santa Sé . 

Condenou a ” confusão panteísta “, o ” neopaganismo”, o “mito da raça e do sangue” e a idolatria do Estado. Continha uma vigorosa defesa do Antigo Testamento com a crença de que ele preparava o caminho para o Novo .

 A encíclica afirma que a raça é um valor fundamental da comunidade humana, que é necessária e honrosa, mas condena a exaltação da raça, ou o povo, ou o estado, acima de seu valor padrão a um nível idólatra. 

A encíclica declara “que o homem, como pessoa, possui direitos que ele detém de Deus e que qualquer coletividade deve proteger contra a negação, a supressão ou a negligência”. O nacional-socialismo, Adolf Hitler e o partido nazista não são mencionados no documento. O termo “Governo do Reich” é usado.

O esforço para produzir e distribuir mais de 300.000 cópias da carta era inteiramente secreto, permitindo que padres em toda a Alemanha lessem a carta sem interferência.  A Gestapo invadiu as igrejas no dia seguinte para confiscar todas as cópias que pudessem encontrar, e as impressoras que haviam impresso a carta foram fechadas. 

Segundo o historiador Ian Kershaw , uma intensificação da luta geral contra a igreja começou por volta de abril em resposta à encíclica. Scholder escreveu: “as autoridades estaduais e o Partido reagiram com raiva e desaprovação. Não obstante, a grande represália que se temia não veio.

A concordata permaneceu em vigor e, apesar de tudo, a intensificação da batalha contra as duas igrejas que então começaram permaneceu dentro dos limites comuns. “. O regime restringiu ainda mais as ações da Igreja e assediou os monges com processos judiciais encenados.

Embora Hitler não seja mencionado na encíclica, ele se refere a um “profeta louco” que algumas alegações se referem ao próprio Hitler.( Fonte Wikipédia)

 Carta Encíclica
“Mit Brennender Sorge”

 

Í N D I C E

Introdução. (1-2)
A concordata. (3-10)

Genuína fé em Deus. (11-19)
Genuína fé em Jesus Cristo. (20-23)
Genuína fé na Igreja. (24-29)
Genuína fé no primado. (30)

Não adulterar noções e termos sagrados. (31-38)
[Revelação (32), Fé (33), Imortalidade (34), Pecado original (35),
A Cruz de Cristo (36), Humildade (37), Graça (38).]
Doutrina e ordem moral. (39)
Reconhecimento do direito natural. (40-43)

À juventude. (44-49)
Aos sacerdotes e religiosos. (50-51)
Aos fiéis leigos. (52-54)

Conclusão. (55-59)

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CARTA ENCÍCLICA

 

Aos Patriarcas, Primazes, Arcebispos, Bispos e
outros Ordinários em paz e comunhão com a Sé
Apostólica, sobre A situação da Igreja Católica
no Reich Germânico
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PIO PAPA XI
Veneráveis Irmãos: Saúde e Bênção Apostólica.

 

Introdução.
1. Com viva ânsia e admiração sempre crescente vimos observando, desde muito tempo, a via dolorosa da Igreja e o progressivo acirramento da opressão dos fiéis que lhe ficaram devotados em espírito e obra; e tudo isto em um país e em meio do povo a quem São Bonifácio levou, um dia, a luminosa e alegre mensagem de Cristo e do reino de Deus.
2. Esta Nossa ânsia não foi aliviada pelas relações que os Reverendíssimos Representantes do Episcopado, como é de seu dever, Nos fizeram conforme a verdade, visitando-Nos durante a Nossa enfermidade. A par de muitas notícias — que Nos foram um consolo e conforto — sobre a luta sustentada por seus fiéis por motivo da religião, não puderam, não obstante o amor a seu povo e pátria e o cuidado de externar um juízo bem ponderado, passar em silêncio inumeráveis outros acontecimentos tristes e reprováveis. Quando ouvíamos suas relações com profunda gratidão a Deus pudemos exclamar com o Apóstolo do amor: Não conheço satisfação maior do que esta, de ouvir que meus filhos andam no caminho da verdade (3 Jo 4). Mas a franqueza que corresponde à grave responsabilidade de Nosso ministério Apostólico, e a decisão de apresentar-vos a Vós e ao mundo cristão inteiro a realidade em toda sua crueza, exigem também que acrescentemos: Não temos maior ânsia nem aflição pastoral mais cruel do que quando ouvimos: muitos abandonam o caminho da verdade (cf. 2 Ped 2,2).
A concordata.
3. Quando Nós, Veneráveis Irmãos, no verão de 1933, a pedido do governo do Reich, aceitamos reencetar a negociação de uma Concordata, à base de um projeto elaborado há vários anos, e chegamos assim a um solene acordo que vos trouxe satisfação a todos Vós, fomos movidos da solicitude impendiosa de salvaguardar a liberdade da missão salvadora da Igreja na Alemanha e de assegurar a salvação das almas a ela confiadas, e, ao mesmo tempo, do sincero desejo de prestar um serviço de interesse capital ao pacífico desenvolvimento e bem-estar do povo alemão.
4. Apesar de muitas e graves preocupações, chegamos então, não sem esforço, à determinação de não negar o Nosso consentimento. Queríamos poupar aos Nossos fiéis, aos Nossos filhos e Nossas filhas da Alemanha, segundo as possibilidades humanas, as tensões e tribulações que, em caso contrário, certamente deviam ter esperado, dadas as condições dos tempos. E queríamos demonstrar pelo fato a todos que Nós, procurando só a Cristo e o que pertence a Cristo, não negamos a ninguém — caso ele mesmo não a despreze — a mão pacífica da Madre Igreja.

 

5. Se a árvore da paz, que plantamos em terras da Alemanha com intenção pura, não produziu os frutos por Nós almejados no interesse do vosso povo, não haverá no mundo inteiro homem que, tendo olhos para ver e ouvidos para ouvir, possa atribuir ainda hoje a culpa à Igreja e ao seu Supremo Chefe. A experiência dos anos passados põe em claro as responsabilidades, e revela as maquinações que já desde o começo nada intentavam senão uma luta até ao aniquilamento.

 

6. Nos sulcos, em que Nos esforçamos por lançar a semente da verdadeira paz, outros espargiram — como o inimicus homo da Sagrada Escritura (Mt 13,25) — a erva má da desconfiança, da discórdia, do ódio, da difamação, de uma aversão profunda, oculta e aberta, contra Cristo e sua Igreja, desencadeando uma luta que se alimentou de mil fontes diversas e se serviu de todos os meios. Sobre eles e unicamente sobre eles e seus fautores, ocultos ou abertos, recai a responsabilidade, se no horizonte da Alemanha aparecem, não o arco-íris da paz, mas as nuvens ameaçadoras de dissolventes lutas religiosas.

 

7. Veneráveis Irmãos, não Nos cansamos de apresentar aos governantes, responsáveis pela sorte da vossa nação, as consequências que necessariamente derivariam da tolerância ou, pior ainda, da fomentação daquelas correntes. Fizemos tudo para defender a santidade da palavra solenemente dada, a inviolabilidade das obrigações livremente contraídas, contra teorias e práticas que, oficialmente admitidas, deveriam sufocar toda confiança e desvalorizar intrinsecamente toda palavra dada, também para o futuro. Se vier o momento de expor aos olhos do mundo estes Nossos esforços, todos os bem intencionados saberão onde procurar os tutores da paz e onde seus perturbadores. Quem quer que tenha conservado na sua alma um resquício de amor da verdade e no seu coração uma sombra de senso de justiça, deverá admitir que nos anos difíceis e cheios de casos notáveis que seguiram à Concordata, cada uma das Nossas palavras e ações teve por norma a fidelidade aos acordos sancionados. Mas deverá também reconhecer, com estupor e íntima repulsa, como doutro lado tornou-se regra ordinária dar aos pactos outro sentido, iludi-los, desvirtuá-los e finalmente violá-los mais ou menos abertamente.

 

8. A moderação que não obstante tudo isto Nós até agora demonstramos não foi inspirada por cálculos de interesses terrenos, nem tão pouco por fraqueza, mas simplesmente pela vontade de não arrancar, com a herva má, também boas plantas; pela decisão de não pronunciar publicamente um juízo antes que os ânimos estivessem maduros para reconhecer a inelutabilidade; pela determinação de não negar definitivamente a fidelidade de outros à palavra dada, antes que a dura linguagem da realidade tivesse rasgado os véus, com que se soube e ainda se procura mascarar, conforme um plano preestabelecido, o ataque à Igreja. Ainda hoje, quando a luta aberta contra as escolas confessionais, protegidas pela Concordata, e o aniquilamento da liberdade de voto daqueles que têm direito à educação católica, manifestam, num campo particularmente vital da Igreja, a trágica seriedade da situação e uma pressão espiritual jamais vista dos fiéis, a solicitude paternal pelo bem das almas nos aconselha a não perder de vista as perspectivas porquanto fracas que ainda possam existir de uma volta à fidelidade aos pactos e a um acordo justificável.

 

9. Acedendo aos pedidos dos Reverendíssimos Membros do Episcopado, não Nos cansaremos, também no futuro, de defender o direito violado, junto ao governo de vosso povo — sem cuidado do sucesso ou fracasso do momento presente — obedecendo unicamente à Nossa consciência e Nosso Ministério Pastoral, e não cessaremos de Nos opor a uma mentalidade que procura, com aberta ou oculta violência, sufocar o direito, garantido por documentos.

 

10. No entanto, o fim desta carta é outro, Veneráveis Irmãos. Como Vós Nos tendes visitado amavelmente em Nossa doença, assim voltamos Nós hoje a Vós e, por Vosso intermédio, aos fiéis católicos da Alemanha, que, como todos os filhos atribulados e perseguidos, estão muito perto do coração do Pai comum. Nesta hora, em que sua fé é provada, como ouro genuíno, no fogo da tribulação e perseguição, insidiosa ou aberta; em que eles são rodeados de mil formas de organizada opressão da liberdade religiosa; em que a impossibilidade de obter informações conformes à verdade e de defender-se com meios normais muito os abate, eles têm um duplo direito a uma palavra de verdade e encorajamento moral por parte daquele a cujo primeiro predecessor o Salvador dirigiu esta compendiosa palavra: Rezei por ti, para que tua fé não vacile, e tu, por tua vez, fortifica os teus irmãos (Lc 22,32).

 

Genuína fé em Deus.

 

11. Antes de tudo, Veneráveis Irmãos, cuidai que a fé em Deus, primeiro e insubstituível fundamento de toda a religião, continue a ser pura e inteira nas regiões da Alemanha. Não pode considerar-se crente em Deus o que usa o nome de Deus retoricamente, mas só quem une a esta veneranda palavra a genuína e digna noção de Deus.

 

12. Quem com imprecisão panteística identifica Deus com o universo, materializando Deus no mundo e divinizando o mundo em Deus, não pertence aos verdadeiros fiéis.

 

13. Nem é tal quem, de acordo com uma pretensa concepção precristã do antigo germanismo, coloca em lugar do Deus pessoal o fado sinistro e impessoal, negando a sabedoria divina e sua providência, a qual “com força e suavidade domina duma extremidade da terra à outra” (Sab 8,1), e tudo dirige a um bom fim. Um tal homem não pode pretender ser enumerado entre os verdadeiros crentes.

 

14. Se a raça e o povo, se o Estado e uma sua determinada forma, se os representantes do poder estatal ou outros elementos fundamentais da sociedade humana possuem, na ordem natural, um posto essencial e digno de respeito — quem, no entanto, os destaca desta escala de valores terrenos, elevando-os à suprema norma de tudo, também dos valores religiosos, e divinizando-os com culto idólatra, inverte e falsifica a ordem, criada e imposta por Deus, está longe da verdadeira fé em Deus e de uma concepção de vida conforme a ela.

 

15. Volvei, Veneráveis Irmãos, a atenção ao vezo crescente, que se manifesta em palavras e escritos, de abusar do três vezes santo nome de Deus qual rótulo sem sentido para um produto mais ou menos arbitrário de pesquisas e aspirações humanas. Esforçai-vos que tais aberrações encontrem, entre vossos fiéis, merecida e pronta repulsa. Nosso Deus é o Deus pessoal, transcendente, todo-poderoso, infinitamente perfeito, um na trindade das pessoas e trino na unidade da essência divina, criador do universo, senhor, rei e último fim da história do mundo, o qual não admite, nem pode admitir outras divindades a seu lado.

 

16. Este Deus tem dado seus mandamentos de maneira soberana, mandamentos independentes do tempo e do espaço, de país ou raça. Como o sol de Deus resplende indistintamente sobre todo o gênero humano, assim a sua lei não conhece privilégios nem exceções. Governantes e governados, coroados e não-coroados, grandes e pequenos, ricos e pobres dependem igualmente de sua palavra. Da totalidade de seus direitos de Criador promana essencialmente a sua exigência a uma obediência absoluta da parte dos indivíduos e de quaisquer sociedades. E esta exigência de obediência absoluta se estende a todas as esferas da vida, nas quais as questões morais exigem o acordo com a lei divina e, com isto mesmo, a harmonização das mutáveis leis humanas com o complexo das imutáveis ordens divinas.

 

17. Somente espíritos superficiais podem cair no erro de falar de um Deus nacional, de uma religião nacional, e empreender a tola tentativa de captar nos limites de um só povo, na estreiteza de uma só raça, Deus, Criador do mundo, rei e legislador dos povos, diante de cuja grandeza as nações são pequenas como gotas de água que caem dum balde (Is 40,15).

 

18. Os bispos da Igreja de Cristo, “constituídos a favor dos homens naquelas coisas que se referem a Deus” (Heb 5,1), devem vigiar que não se espalhem entre os fiéis tão perniciosos erros a que costumam seguir práticas ainda mais perniciosas. Pertence ao seu sagrado ministério de fazer todo o possível, a fim de que os mandamentos de Deus sejam considerados e praticados quais obrigações inconcussas de uma vida moral e ordenada, seja particular ou seja pública; que os direitos da Majestade divina, o nome e a palavra de Deus não sejam profanados (Tito 2,5); que as blasfêmias contra Deus, em palavras, escritos ou figuras, numerosas, quiçá, como a areia do mar, sejam reduzidas a silêncio; que diante do espírito revoltoso e arrogante dos que negam, ultrajam e odeiam a Deus não enlanguesça a prece expiatória dos fiéis, que sobe, qual incenso, a toda hora ao trono do Altíssimo, retendo a sua mão vingadora.

 

19. Agradecemos, Veneráveis Irmãos, a vós, a vossos sacerdotes e a todos os fiéis que, na defesa dos direitos da divina Majestade contra um provocante neo-paganismo, apoiado infelizmente por personagens influentes, tendes cumprido e cumpris o vosso dever de cristãos. Este agradecimento é particularmente íntimo e unido a uma admiração reconhecida por aqueles que, no cumprimento deste seu dever, foram julgados dignos de suportar por amor de Deus sacrifícios e sofrimentos.

 

Genuína fé em Jesus Cristo.

 

20. A fé em Deus não se manterá por muito tempo pura e incontaminada, se não se apoia na fé em Jesus Cristo. “Ninguém conhece o Filho senão o Pai, nem alguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11,27). A vida eterna é esta: que te conheçam a ti como um só Deus verdadeiro e a Jesus Cristo, a quem enviaste (Jo 17,3). Ninguém, pois, pode dizer: Creio em Deus, e isto basta para minha religião. A palavra do Redentor não nos permite subterfúgios deste quilate. “Todo aquele que nega o Filho, também não reconhece o Pai; aquele que confessa o Filho, reconhece o Pai” (1 Jo 2,23).

 

21. Em Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem, apareceu a plenitude da revelação divina. “Deus, tendo falado outrora muitas vezes e de muitos modos a nossos pais pelos profetas, ultimamente, nestes dias, falou-nos por meio de seu Filho” (Heb 1,1 ss.). Os livros sagrados do antigo testamento são todos palavra de Deus, parte orgânica de sua revelação. De acordo com o desenvolvimento gradual da revelação sobre eles pousa o crepúsculo do tempo que devia preparar o pleno meio-dia da revelação. Em umas partes fala-se da imperfeição dos homens, da sua fraqueza e do pecado, como não podia ser diversamente em se tratando de livros de história e legislação. Ao lado das coisas belas e nobres, falam da tendência superficial e material que diversas vezes invadiu o povo do antigo testamento, depositário da revelação e das promessas de Deus. Mas a toda a vista, não cegada pelos preconceitos e paixões, não pode senão raiar mais luminosa, não obstante a fraqueza humana de que trata a história bíblica, a luz divina do caminho da salvação, que, finalmente, triunfa de todas as fraquezas e pecados.

 

22. E justamente neste fundo, muitas vezes escuro, a pedagogia divina da salvação se alarga em perspectivas, que, ao mesmo tempo, dirigem, admoestam, sacodem, elevam e tornam felizes. Unicamente a cegueira e soberba pode fechar os olhos diante dos tesouros de salutares ensinamentos, contidos no antigo testamento. Quem pois quer ver banida da Igreja e da escola a história bíblica e os sábios ensinamentos do antigo testamento, blasfema a palavra de Deus, blasfema o plano de salvação do Todo-poderoso e arvora em juiz dos planos divinos um angusto e estreito pensar humano. Ele nega a fé em Jesus Cristo, aparecido na realidade de sua carne, que tomou a natureza humana de um povo que devia depois pregá-lo na cruz. Nada compreende do drama mundial do Filho de Deus, que ao crime de seus algozes opôs, qual sumo sacerdote, a ação divina da morte salvadora e fez assim encontrar o antigo testamento o seu cumprimento, o seu fim e a sua sublimação em o novo testamento.

 

23. A revelação que culminou no evangelho de Jesus Cristo é definitiva e obrigatória para sempre, não admite apêndices de origem humana e, menos ainda, sucedâneos ou substituições e “revelações” arbitrárias que alguns palradores modernos quiseram derivar do assim chamado mito do sangue e da raça. Desde que Cristo, o Ungido do Senhor, cumpriu a obra da redenção, quebrando o domínio do pecado e merecendo-nos a graça de nos tornarmos filhos de Deus, já nenhum outro nome foi dado aos homens, sob o céu, pelo qual nós devemos ser salvos, senão o nome de Jesus (At 4,12). Ainda que um homem possua todo saber, todo poder e todo o domínio material da terra, não pode pôr outro fundamento, senão o que foi posto por Cristo (1 Cor 3,11). E quem, com sacrílego desconhecimento da diversidade essencial entre Deus e a criatura, entre o Homem-Deus e o simples homem, ousasse pôr ao lado de Cristo ou, o que é pior ainda, acima dele e contra ele, um simples mortal, fosse ele o mais perfeito de todos os tempos, saiba que é um profeta de quimeras, a quem pavorosamente assentam as palavras da Escritura: “Aquele que habita no céu zombará deles” (Ps 24).

 

Genuína fé na Igreja.

 

24. A fé em Jesus Cristo não se conservará pura e incontaminada se não for sustentada e defendida pela fé na Igreja, coluna e fundamento da verdade (1 Tim 3,15). Cristo próprio, Deus bendito eternamente, levantou esta coluna da fé; o seu mandamento de escutar a Igreja (Mt 18,17) e de ouvir, através as palavras e os mandamentos da Igreja, as suas próprias palavras e mandamentos (Lc 10,16), vale para os homens de todos os tempos e de todos os países. A Igreja, fundada pelo Salvador, é a única para todos os povos e todas as nações.

 

25. Sob sua cúpula, que levanta seus arcos como o firmamento sobre o universo inteiro, encontram lugar e asilo todos os povos e todas as línguas, e podem desenvolver-se todas as propriedades, qualidades, missões e funções que foram assinadas por Deus Criador e Salvador aos indivíduos e à sociedade humana. O amor maternal da Igreja é bastante largo para ver no desenvolvimento, conforme à vontade de Deus, destas particularidades e funções peculiares, antes a riqueza da variedade que o perigo de cisão; alegra-se pelo elevado nível espiritual dos indivíduos e povos. Vê, com alegria e ufania maternais, nas suas genuínas atuações, frutos de edificação e progresso, que abençoa e promove todas as vezes que o pode de boa consciência. Mas sabe também que a esta liberdade foram assinalados limites pela lei da divina Majestade, que quis e fundou esta Igreja como unidade inseparável nas suas partes essenciais. Quem atentar contra esta unidade inseparável, arrebata à Esposa de Cristo um dos diademas com que o próprio Deus a coroou. Submete o edifício divino, que pousa sobre fundamentos eternos, ao exame e transformação de arquitetos a que o Pai celeste não concedeu poderes para tanto.

 

26. A divina missão, que a Igreja cumpre entre os homens, e deve cumprir por meio de homens, pode ser dolorosamente obscurecida pelo elemento humano, quiçá humano demais, que, em certos tempos, viceja como herva má entre o trigo do reino de Deus. Quem conhece a palavra do Redentor sobre o escândalo e os que o dão, sabe como a Igreja e todo indivíduo deve julgar o que foi e o que é pecado. Mas quem, fundando-se sobre estes lamentáveis contrastes entre fé e vida, entre palavras e ação, entre atitude exterior e interior de alguns — e fossem eles muitos — esquece, ou conscientemente passa em silêncio este imenso cabedal de genuíno esforço pela virtude, o espírito de sacrifício, o amor fraterno, o heroísmo de santidade de tantos membros da Igreja, manifesta uma cegueira injusta e reprovável. E quando depois se vê que esta rígida norma com que ele julga a Igreja odiada, é posta de lado se se trata de outras sociedades que lhe são mais acessíveis por interesse ou sentimento, manifesta-se então que, aparentando-se ofendido no seu pretenso senso de purismo, se assemelha com os que, conforme a palavra incisiva do Salvador, veem a palha no olho do irmão, mas não percebem a trave no próprio. Ainda que não seja pura a intenção dos que fazem da ocupação com o humano na Igreja sua vocação ou até um baixo negócio, e ainda que o poder dos portadores da dignidade eclesiástica que se funda em Deus não dependa de sua elevação humana e moral, não há época, nem indivíduo, nem sociedade que não devia seriamente examinar a consciência, purificar-se inexoravelmente, renovar profundamente seu sentir e proceder. Em Nossa Encíclica sobre o sacerdócio e a Ação Católica temos, com suplicante insistência, atraído a atenção de quantos pertencem à Igreja, e sobretudo dos eclesiásticos, religiosos e leigos que colaboram no apostolado, sobre o sagrado dever de estabelecer entre fé e conduta a harmonia exigida pela lei de Deus e pedida com incansável solicitude pela Igreja.

 

27. Também hoje repetimos com funda gravidade: não é suficiente pertencer à Igreja de Cristo. É necessário ser em espírito e verdade membro vivo desta Igreja. E tais são somente os que estão na graça do Senhor e continuamente andam em sua presença, seja na inocência ou seja na penitência sincera e operosa. Se o apóstolo das gentes, “o vaso de eleição”, castigava o seu corpo, para que não sucedesse que, tendo pregado aos outros, ele mesmo viesse a ser réprobo, pode então haver para os outros, em cujas mãos é colocada a guarda e dilatação do reino de Deus, caminho diverso do da íntima união do apostolado e da santificação própria? Só assim se demonstrará aos homens de hoje e, em primeiro lugar, aos inimigos da Igreja, que o sal da terra e o fermento do cristianismo não se tornou ineficaz, mas é poderoso e capaz de trazer renovamento e rejuvenescimento aos que estão na dúvida e no erro, na indiferença e perplexidade espiritual, no relaxamento da fé e afastamento de Deus, de que eles — admitam ou o neguem — precisam mais que nunca. Uma cristandade, em que todos os membros vigiem sobre si mesmos, que repila toda tendência puramente exterior e mundana, que se atenha seriamente aos mandamentos de Deus e na ativa caridade do próximo, poderá e deverá ser exemplo e guia do mundo profundamente enfermo que procura esteio e direção, se se não quer que sobrevenha um desastre indizível e uma catástrofe inimaginável.

 

28. Toda reforma genuína e duradoura teve propriamente origem no santuário, de homens inflamados e movidos de amor de Deus e do próximo. Eles, por sua grande generosidade de corresponder a todos os apelos de Deus e pô-los em prática antes de tudo em si próprios, cresceram em humildade e, com a segurança de quem é chamado por Deus, iluminaram e renovaram seu tempo. Onde o zelo da reforma não brota do puro manancial da integridade pessoal, mas foi efeito da explosão de impulsos apaixonados, em vez de iluminar ofuscou, em vez de construir destruiu, e foi bastas vezes ponto de partida de erros mais funestos do que o mal a que queriam ou pretendiam remediar. Certamente, o Espírito de Deus sopra onde quer (Jo 3,3), ele pode suscitar das pedras os executores de seus desígnios (Mt 3,9; Lc 3,8), e escolhe os instrumentos de sua vontade de acordo com os seus planos, e não os dos homens. No entanto, ele, que fundou a Igreja e a chamou à vida no dia de Pentecostes, não destrói a estrutura fundamental da salutar instituição, por ele próprio querida. Quem é movido do espírito de Deus por isto mesmo possui uma atitude exterior e interior respeitosa para com a Igreja, nobre fruto da árvore da cruz, dom do Espírito do Pentecostes ao mundo tão necessitado de guia.

 

29. Em vossas regiões, Veneráveis Irmãos, se elevam, em coro, vozes sempre mais fortes que incitam a separar-se da Igreja. E entre os seus pioneiros encontram-se homens que, por sua posição oficial, procuram produzir a impressão de que esta debandada da Igreja e, por conseguinte, infidelidade a Cristo-Rei, seja uma prova particularmente evidente e meritória de sua fidelidade ao regime presente. Com pressões, ocultas ou abertas, intimidações, perspectivas de desvantagens econômicas, profissionais, civis ou de outra espécie, o apego à fé dos católicos e, especialmente, de algumas classes de funcionários públicos, é submetido a uma violentação tanto ilegal quanto desumana. Toda Nossa compaixão de pai e mais profundo pesar, aos que tão caro pagaram o seu apego a Cristo e à Igreja. Mas aqui já se chegou ao ponto onde está em jogo o fim último e mais alto, a salvação ou perdição, e logo o único caminho de salvação que resta aos crentes é o caminho de um generoso heroísmo. Quando o tentador ou opressor se lhe aproxima com as insinuações traidoras de sair da Igreja, então não poderá senão contrapor-lhe, ainda que ao preço dos mais graves sacrifícios terrenos, a palavra do Salvador: “Vai-te, Satanás, porque está escrito: O Senhor teu Deus adorarás, e a ele só servirás” (Mt 4,8; Lc 4,8). À Igreja, ao invés, dirá: Tu, que és minha Mãe desde os dias de minha primeira infância, meu conforto na vida, minha advogada na morte, apegue-se-me a língua às fauces, se eu, cedendo a lisonjas ou ameaças, traísse as promessas do batismo. Aos que opinam poder conciliar com o externo abandono da Igreja a fidelidade interna a ela, seja lembrada a palavra do Salvador: “Quem me nega diante dos homens, eu o renegarei diante de meu Pai que está no céu” (Lc 12,9).

 

Genuína fé no primado.

 

30. A fé na Igreja não se manterá pura e incontaminada se não se apoiar na fé no Primado do Bispo de Roma. No mesmo momento, em que Pedro, prevenindo os outros apóstolos e discípulos, professou a sua fé em Cristo, Filho de Deus vivo, o anúncio da fundação de sua Igreja, da única Igreja, sobre Pedro, a rocha (Mt 16,18), foi a resposta de Cristo, recompensa de sua fé e profissão. A fé em Cristo, na Igreja e no Primado estão por isto em sagrado liame de interdependência. Uma autoridade legítima e legal é sobretudo um vínculo de unidade e fonte de forças, defesa contra o esfacelamento e a desagregação, garantia do porvir. E isto se verifica, no sentido mais alto e mais nobre, onde, como no caso da Igreja, a esta autoridade é prometida a assistência sobrenatural do Espírito Santo e o seu apoio invencível. Se homens, que nem são unidos na sua fé em Cristo, vos seduzem e lisonjeiam com o fantasma duma “Igreja nacional alemã”, sabei que isto não é outra coisa senão renegar a única Igreja de Cristo, numa apostasia manifesta do mandado de Cristo de evangelizar todo o orbe, o que só uma igreja universal pode realizar. O desenvolvimento histórico de outras igrejas nacionais, a sua petrificação espiritual, a sua sufocação e escravização pelos poderes leigos mostram a desolante esterilidade que, com inelutável certeza, atinge o ramo separado da videira vital da Igreja. Quem opõe a estes errôneos desenvolvimentos, desde o começo, seu pronto e inexorável não, rende serviço, não só à pureza de sua fé, mas também à saúde e força vital de seu povo.

 

Não adulterar noções e termos sagrados.

 

31. Veneráveis Irmãos, tende um ouvido particularmente atento, quando noções religiosas são desvirtuadas de seu sentido genuíno e aplicadas a significações profanas.

 

32. Revelação, em sentido cristão, significa a palavra de Deus aos homens. Usar este mesmo termo para sugestões provenientes do sangue e da raça, para irradiações da história de um povo, é, em todo caso, causar desorientação. Estas falsas moedas não merecem passar do tesouro linguístico do fiel cristão.

 

33. A fé consiste em ter por verdade o que Deus revelou e impõe a crer por intermédio da Igreja. É “uma demonstração das coisas que não se veem” [Heb 9,1]. A confiança alegre e ufanosa no porvir do próprio povo, cara a todos, significa bem outra coisa que a fé em sentido religioso. Usar uma pela outra e pretender com isso ser reconhecido como “crente” por um cristão convicto, é um vão jogo de palavras, uma consciente confusão de termos, ou pior ainda.

 

34. A imortalidade, em sentido cristão, é a sobrevivência do homem depois da morte terrena, como ser individual, para a eterna recompensa ou o eterno castigo. Quem com a palavra imortalidade não quer indicar senão uma sobrevivência coletiva na continuidade do próprio povo, para um porvir de indeterminada duração neste mundo, perverte e falsifica uma das verdades fundamentais da fé cristã e abala os fundamentos de qualquer concepção religiosa que exija uma ordem moral universal. Quem não quiser ser cristão, renuncie ao menos a querer enriquecer o vocabulário de sua incredulidade com o patrimônio linguístico cristão.

 

35. O pecado original é a culpa hereditária, própria, se bem que não pessoal, de cada um dos filhos de Adão, que nele pecaram (Rom 5,12), é a perda da graça e, por conseguinte, da vida eterna, acompanhada da concupiscência que cada qual deve sufocar e domar por meio da graça, da penitência, da luta e do esforço moral. A paixão e morte do Filho de Deus remiu o mundo do maldito apanágio da morte e do pecado. A fé nesta verdade, feita hoje objeto de baixo ludíbrio dos inimigos de Cristo em vossa pátria, pertence ao depósito inalienável da religião cristã.

 

36. A cruz de Cristo, também se seu só nome se tornou para muitos loucura e escândalo, é para o cristão o sinal sagrado da redenção, a bandeira da grandeza e força moral. Na sua sombra vivemos. No seu amplexo morremos. Sobre a nossa campa estará a anunciar a nossa fé, testemunho de nossa esperança que está na vida eterna.

 

37. A humildade no espírito do evangelho e a imploração do auxílio de Deus harmonizam bem com a própria dignidade, com a confiança em si mesmo e o heroísmo. A Igreja de Cristo, que, em todos os tempos, até nos que nos estão mais próximos, conta mais confessores e mártires heróis que qualquer outra sociedade moral, não tem necessidade de receber, nesta matéria, ensinamentos sobre o sentimento e ação heroicas. Ao apresentar tolamente a humildade cristã como aviltamento e mesquinhez, a repugnante soberba destes inovadores se torna ridícula a si própria.

 

38. Graça, em sentido lato, pode chamar-se tudo que a criatura recebe do Criador. Graça, no sentido cristão da palavra, compreende as provas sobrenaturais do divino amor, as mercês e obras de Deus pelas quais eleva o homem a esta íntima comunhão de sua vida, que o novo testamento chama de filiação divina. “Considerai que amor nos mostrou o Pai: que sejamos chamados filhos de Deus e que o sejamos na realidade” (1 Jo 3,1). O repúdio desta elevação sobrenatural à graça, por motivo de uma pretensa particularidade do caráter germânico, é uma aberta declaração de guerra a uma verdade fundamental do cristianismo. Equiparar a graça sobrenatural aos dons naturais é violentar a linguagem criada e santificada pela religião. Os pastores e guardas do povo de Deus farão bem em opor-se a este furto sacrílego e a este trabalho de desnorteamento dos espíritos.

 

Doutrina e ordem moral.

 

39. Sobre a fé em Deus, genuína e pura, se alicerça a moralidade do gênero humano. Todas as tentativas de separar a doutrina da ordem moral da base granítica da fé, para reconstruí-la sobre a areia movediça de normas humanas, levam, cedo ou tarde, indivíduos e nações à decadência moral. O insensato que diz no seu coração: “Não há Deus” (Ps 13, 1 ss.) resvalará na corrupção moral. E estes insensatos, que presumem separar a moral da religião, são hoje legião. Não enxergam ou não querem enxergar que, banindo o ensino confessional clara e determinadamente cristão da escola e educação, impedindo-o de contribuir à formação da sociedade e vida pública, se aventuram por caminhos de empobrecimento e decadência moral. Nenhum poder corretivo do estado, nenhum ideal puramente terreno, porquanto alto e nobre, poderá substituir, por muito tempo, os mais profundos e decisivos estímulos que provêm da fé em Deus e Jesus Cristo. Se ao que é chamado às mais altas renúncias, ao sacrifício de seu pequeno eu em bem da comunidade, se toma o apoio que lhe vem do eterno e divino, da fé elevante e consoladora naquele que premeia todo o bem e castiga todo o mal, então o resultado final para inumeráveis homens não será fidelidade ao dever, mas muitas vezes deserção. A observância fiel dos dez mandamentos de Deus e dos preceitos da Igreja, não sendo os últimos senão regulamentos derivados das normas do Evangelho, é para todo o indivíduo uma incomparável escola de disciplina orgânica, de revigoramento moral e formação do caráter. É uma escola que muito exige; mas não acima das forças. Deus misericordioso, quando como legislador ordena: “Tu deves”, dá, com sua graça, a possibilidade de executar sua ordem. Deixar, pois, inutilizadas energias morais de tão poderosa eficácia, ou obstruir-lhes conscientemente o caminho no campo da instrução pública, é obra de irresponsáveis, que tende a produzir a deficiência religiosa no povo. Confundir a doutrina moral com opiniões humanas, subjetivas e mutáveis no tempo, em vez de ancorá-la na santa vontade de Deus e seus mandamentos, iguala a escancarar as portas às forças dissolventes. Portanto, promover o abandono das eternas diretivas de uma doutrina moral para a formação das consciências, para o nobilitamento de todas as esferas da vida e todos os regulamentos, é atentado pecaminoso contra o porvir do povo, cujos tristes frutos amargurarão as gerações futuras.

 

Reconhecimento do direito natural.

 

40. É um característico nefasto do tempo presente querer separar não só a doutrina moral, mas ainda os fundamentos do direito e de sua administração, da verdadeira fé em Deus e das normas da revelação divina. Nosso pensamento se volve aqui ao que se sói chamar o direito natural, que o dedo do mesmo Criador gravou nas tábuas do coração humano (Rom 2,14 ss), e que a razão humana, sã e não obscurecida por pecados e por paixões, pode nelas decifrar. À luz das normas deste direito natural, todo direito positivo, seja qual for seu legislador, pode ser aquilatado no seu conteúdo ético e, por conseguinte, na sua força ordenativa e obrigatoriedade de cumprimento. Estas leis humanas, que contrastam insoluvelmente com o direito natural, são afetadas de erro original, não sanável nem por constrangimento nem por desdobramento de força externa. Segundo este critério, julgue-se o princípio: “Direito é aquilo que é útil à nação”. Certamente, a este princípio pode dar-se um sentido justo, se se entende que aquilo que é moralmente ilícito jamais será realmente vantajoso ao povo. Entretanto, já o antigo paganismo compreendeu que, para ser justa, esta frase deve ser invertida e soar: “Jamais alguma coisa é vantajosa, se ao mesmo tempo não é moralmente boa, e não por ser vantajosa é moralmente boa, mas por ser moralmente boa é vantajosa” (Cícero, De officiis 3,33). Este princípio, destacado da lei ética, significaria, no que concerne à vida internacional, um eterno estado de guerra entre as nações. Na vida nacional desconhece, confundindo interesse e direito, o fato fundamental que o homem, enquanto pessoa, está de posse de direitos, concedidos por Deus, que devem ser defendidos contra toda investida da comunidade que os queira negar, abolir e interceptar-lhes o exercício. Desprezando esta verdade, perde-se de vista que o verdadeiro bem comum, em última análise, é determinado e conhecido mediante a natureza do homem, com seu harmonioso equilíbrio entre o direito pessoal e o liame social, como também do fim da sociedade determinado pela mesma natureza humana. A sociedade é estimada pelo Criador como meio para o pleno desenvolvimento das faculdades individuais e sociais, das quais o homem há de se valer, ora dando ora recebendo para seu bem e o do próximo. Também os valores mais universais e mais altos que só podem ser realizados não pelo indivíduo, mas pela sociedade, têm, por vontade de Deus, como último fim, o desenvolvimento e perfeição do homem natural e sobrenatural. Quem se afasta desta ordem, abala as pilastras sobre que repousa a sociedade, e põe em perigo sua tranquilidade, segurança e existência.

 

41. O crente possui um direito inalienável de professar sua fé e de praticá-la na forma que a ela convém. As leis que suprimem ou tornam difícil a profissão e prática desta fé estão em oposição com o direito natural.

 

42. Os pais conscienciosos e conscientes de sua missão educativa têm, antes de qualquer outro, o direito essencial à educação dos filhos que Deus lhes deu, segundo o espírito da verdadeira fé e de acordo com seus princípios e prescrições. Leis ou outras semelhantes disposições que, na questão escolar, não respeitam a vontade dos pais ou a tornam ineficaz pelas ameaças ou violências, estão em contradição com o direito natural e em sua íntima essência são imorais.

 

43. A Igreja, cuja missão é vigiar e interpretar o direito natural, não pode fazer outra coisa senão declarar serem efeito de violência e, portanto, privadas de todo o valor jurídico, as inscrições escolásticas feitas recentemente, em uma atmosfera de notório tolhimento de liberdade.

 

À juventude.

 

44. Representante daquele que no evangelho disse a um jovem: Se queres entrar na vida eterna observa os mandamentos (Mt 19,17), dirigimos uma palavra particularmente paterna à juventude.

 

45. De mil bocas hoje se repete aos vossos ouvidos um evangelho que não foi revelado pelo Pai do céu. Milhares de penas escrevem a serviço de um pseudo-cristianismo que não é o cristianismo de Cristo. Imprensa e rádio inundam-vos diariamente com produções de conteúdo inimigo da fé e de Deus, e, sem consideração e respeito, atacam tudo o que vos é sagrado e santo.

 

46. Sabemos que muitíssimos dentre vós, por seu apego à fé e à Igreja e por pertencerem a uma associação religiosa, garantidos pela Concordata, deveram e devem atravessar períodos trevosos de falta de compreensão, de suspeitas, de invectivas, de acusação de antipatriotismo, de múltiplas desvantagens profissionais e sociais. E bem sabemos como muitos desconhecidos soldados de Cristo se acham em vossas fileiras, que com o coração confrangido mas a fronte elevada suportam sua sorte e acham conforto no só pensamento de que sofrem afrontas pelo nome de Jesus (At 5,41).
47. E hoje, que ameaçam novos perigos e novas compressões, dizemos a esta juventude: Se alguém vos quisesse anunciar um evangelho diverso daquele que haveis recebido, sobre os joelhos de uma piedosa mãe, dos lábios de um pai crente, na doutrina de um educador fiel a Deus e à sua Igreja, seja ele anátema (Gál 1,9).

 

48. Se o Estado organiza a juventude em associação nacional obrigatória para todos, então, resguardados sempre os direitos das associações religiosas, os jovens têm o direito óbvio e inalienável, e com eles os pais responsáveis por eles diante de Deus, de exigir que ela seja purgada de toda tendência hostil à fé cristã e à Igreja, tendência que até recentíssimo passado, e ainda presentemente, acorrenta os pais crentes em insolúvel conflito de consciência, pois que não podem dar ao Estado o que deles é exigido em nome do Estado, sem tomar a Deus o que pertence a Deus.
49. Ninguém cogita em pôr à juventude da Alemanha pedras de tropeço no caminho que a deverá conduzir à atuação de uma verdadeira unidade nacional e fomentar um nobre amor pela liberdade e um inabalável devotamento à pátria. Ao que Nos opomos e Nos devemos opor é ao contraste querido e sistematicamente atiçado, mediante o qual se separam estas finalidades educativas das religiosas. Por isto, dizemos a esta juventude: Cantai os vossos hinos de liberdade, mas não vos esqueçais que a verdadeira liberdade é a liberdade dos filhos de Deus. Não permitais que a nobreza desta insubstituível liberdade se emaranhe nos laços servis do pecado e da concupiscência. Ao que canta o hino de fidelidade à pátria terrestre não é lícito tornar-se desertor e traidor pela infidelidade a seu Deus, à sua Igreja e sua pátria eterna. Muito vos falam de uma grandeza heroica, contrapondo-a voluntária e falsamente à humildade e paciência evangélica, mas por que vos ocultam que há também um heroísmo na luta moral? e que a conservação da pureza batismal representa uma ação heroica que deveria ser apreciada devidamente no campo religioso e natural? Falam-vos das fragilidades na história da Igreja, mas por que vos ocultam os grandes feitos que a acompanham através dos séculos, os santos que produziu, a vantagem que adveio à cultura ocidental da união vital entre esta Igreja e vosso povo? Falam-vos muito de exercícios desportivos, que, usados numa bem entendida medida, dão vigor físico, o que é um benefício para a juventude. Mas a eles é assinalada, muitas vezes, hoje, uma extensão que não tem em conta nem a formação integral e harmoniosa do corpo e espírito, a conveniente cultura da vida familiar, nem o mandamento de santificar o dia do Senhor. Com uma indiferença que toca às raias do desprezo tira-se ao dia do Senhor seu caráter sagrado e recolhido, que tanto corresponde às melhores tradições alemãs. Esperamos confiadamente dos jovens alemães católicos que eles, no difícil ambiente das organizações obrigatórias do Estado, reivindiquem explicitamente o dia do Senhor, que o cuidado de robustecer o corpo não os faça esquecer sua alma imortal, que não se deixem vencer pelo mal, mas procurem vencer o mal com o bem (Rom 12,21), que considerem como sua altíssima meta a de conquistar a coroa da vitória no estádio da vida eterna (1 Cor 9,24, s.).
Aos sacerdotes e religiosos.
50. Uma palavra de particular reconhecimento, de exortação, dirigimos aos sacerdotes da Alemanha, aos quais, em submissão aos seus bispos, compete a missão de, em tempos difíceis e circunstâncias duras, mostrar à grei de Cristo os caminhos retos, em doutrina e exemplo, e dedicação e paciência apostólica. Não vos canseis, filhos diletos e participantes dos divinos mistérios, de seguir o eterno sumo sacerdote Jesus Cristo no amor e ofício de bom samaritano. Andai sempre em conduta imaculada diante de Deus, disciplinando e aperfeiçoando-vos, em amor misericordioso para com todos que vos são confiados, especialmente os que perigam, fraquejam e vacilam. Sede guias dos fiéis, apoio dos atribulados, mestres dos que estão em dúvida, consoladores dos aflitos, desinteressados assistentes e conselheiros de todos. As provas e sofrimentos, por que passou o povo no período após-guerra, não passaram sem deixar traços em sua alma. Deixaram tensões e amarguras que só lentamente se cicatrizarão e serão superadas pelo espírito de amor desinteressado e operoso. Este amor, arma indispensável ao apóstolo, especialmente no mundo presente, agitado e revolto, Nós o desejamos e imploramos para vós de Deus em medida copiosa. O amor apostólico, se não vos faz esquecer, vos fará ao menos perdoar muitas imerecidas amarguras, que no vosso caminho de sacerdotes e pastores de almas são mais numerosas que em qualquer outro tempo. Este amor inteligente e misericordioso aos errantes e aos mesmos maldizentes não significa, no entanto, nem de modo algum pode significar, renúncia de proclamar, de fazer valer e defender a verdade e de aplicá-la livremente à realidade que vos rodeia. O primeiro e mais óbvio dom de amor do sacerdote ao mundo é de servir à verdade, a verdade toda inteira, desmascarar e confutar o erro, seja qual for sua forma, disfarce e arrebique. A renúncia a isto não seria somente uma traição a Deus e vossa santa vocação, mas delito contra o verdadeiro bem-estar de vosso povo e vossa pátria. A todos os que mantiveram a seus bispos a fidelidade prometida na ordenação, aos que nos cumprimento de seu ofício pastoral deveram e devem suportar dores e perseguições — alguns até serem encarcerados e enviados aos campos de concentração — vale o agradecimento e elogio do Pai da cristandade.
51. E o nosso agradecimento paterno se estende igualmente aos religiosos de ambos os sexos: um agradecimento unido a uma participação íntima pelo fato que, em consequência de medidas contra Ordens e Congregações religiosas, muitos foram arrancados do campo de sua atividade bendita, que lhes era tão cara. Se alguns falhavam e se mostravam indignos de sua vocação, as suas falhas, condenadas também pela Igreja, não diminuem os méritos da esmagadora maioria dos que por desinteresse e voluntária pobreza se esforçaram por servir com plena dedicação a seu Deus e seu povo. O zelo, a fidelidade, o esforço de perfeição, a operosa caridade do próximo e a prontidão de socorrer destes religiosos, cuja atividade se desenvolve na cura pastoral, nos hospitais e escolas, são e continuam a ser uma gloriosa contribuição ao bem-estar particular e público. A eles um tempo futuro mais tranquilo renderá justiça melhor que o presente turbulento. Confiamos que aos superiores das comunidades as provações e dificuldades sejam ensejo de, por zelo redobrado, uma vida espiritual aprofundada, santa fidelidade à vocação e genuína disciplina regular, implorar do Altíssimo novas bênçãos e nova fertilidade para o duro campo de seu trabalho.

 

Aos fiéis leigos.

 

52. Diante de Nossos olhos está a turba magna de Nossos diletos filhos e filhas, a que os sofrimentos da Igreja na Alemanha e os próprios nada tiraram de sua dedicação à causa de Deus, nada de seu terno afeto ao Pai da cristandade, nada de sua obediência aos bispos e sacerdotes, nada de sua alegre prontidão de continuar, também no futuro, venha o que vier, fiéis ao que hão crido e recebido como preciosa herança de seus avós. Com coração comovido enviamos-lhes a Nossa saudação de pai.

 

53. Em primeiro lugar aos membros das associações católicas que extremamente e a preço de sacrifícios muitas vezes dolorosos se mantiveram fiéis a Cristo, e jamais estiveram dispostos de largar os direitos que uma solene Convenção havia garantido à Igreja e a eles.

 

54. Uma saudação particularmente afetuosa aos pais católicos. Os seus direitos e deveres na educação dos filhos que Deus lhes deu estão, na hora presente, no ponto central de uma luta como mais grave e fatal não pode ser imaginada. A Igreja de Cristo não pode começar a gemer e chorar só quando os altares são espoliados e mãos sacrílegas ateiam as chamas aos santuários. Quando se procura profanar o tabernáculo da alma da criança, santificada pelo batismo, com uma educação anticristã, quando é arrancada deste templo vivo de Deus a lâmpada da fé e é substituída pelo fogo fátuo de um sucedâneo de fé que nada tem de comum com a fé da cruz — então a profanação espiritual está próxima e é dever de todo o crente separar claramente a sua responsabilidade daquela da parte adversa e conservar sua consciência livre de toda colaboração pecaminosa nesta nefasta destruição. E quanto mais os inimigos se esforçam por negar ou disfarçar seus negros desígnios, tanto mais necessária se torna uma desconfiança vigilante e uma vigilância desconfiada, estimulada por amargas experiências. A conservação formalista de uma instrução religiosa, inspecionada e manietada por gente incompetente, no ambiente de uma escola que em outros ramos da instrução trabalha sistemática e ostensivamente contra a mesma religião, já não pode apresentar o título justificativo ao fiel cristão, a fim de que aprove uma tal escola, deletéria para a religião. Sabemos, diletos pais católicos, que não é de falar, em vista de vós, de tal consentimento e sabemos que uma livre votação secreta entre vós equivaleria a um esmagador plebiscito em favor da escola confessional. E por isto, não cansaremos, nem no futuro, de francamente lançar em rosto das autoridades responsáveis a ilegalidade das medidas violentas tomadas até agora e de reclamar o dever de permitir a livre manifestação da vontade. Entretanto, não vos esqueçais: nenhum poder da terra pode libertar-vos de vínculo de responsabilidade querido por Deus, que vos une com vossos filhos. Nenhum dos que hoje oprimem o vosso direito à educação e pretendem substituir-se a vós nos vossos deveres de educadores, poderá responder por vós ao Juiz eterno quando vos fizer a pergunta: Onde estão os que vos dei? Oxalá todos estejais na possibilidade de responder: Não perdi nenhum dos que me destes (Jo 18,19).

 

Conclusão.

 

55. Veneráveis Irmãos! estamos certos que as palavras que dirigimos a vós, e por vosso meio aos católicos do Reich germânico, nesta hora decisiva encontrarão no coração e ação de Nossos filhos fiéis um eco que corresponda à solicitude amorosa do Pai comum. Se há coisa que imploramos ao Senhor com particular fervor é que Nossas palavras cheguem ao ouvido e coração dos que já começaram a deixar-se prender pelas lisonjas e ameaças dos inimigos de Cristo e seu santo Evangelho, e os façam refletir.

 

56. Temos pesado cada palavra desta Encíclica na balança da verdade e do amor. Não queríamos com silêncio inoportuno tornar-Nos culpado de não ter esclarecido a situação, nem com rigor excessivo de haver endurecido os corações dos que, estando submetidos à Nossa responsabilidade de Pastor, não são menos objeto de Nosso amor, por caminharem nas veredas do erro e estarem afastados da Igreja. Ainda que muitos destes, conformados com os hábitos do ambiente, não tenham senão palavras de infidelidade, ingratidão e até de injúria, pela casa paterna abandonada e pelo próprio pai, ainda que se esqueçam quão precioso é o que alijaram — virá o dia em que o horror que sentirão do afastamento de Deus e de sua indigência espiritual pesará sobre estes filhos hoje desgarrados, e a saudade os reconduzirá ao Deus “que alegrou sua juventude”, e à Igreja, cuja mão materna lhes mostrou o caminho ao Pai do céu. Apressar esta hora é o objeto de Nossas incessantes preces.

 

57. Como outras épocas da Igreja, também esta será o anúncio de novos progressos e purificação interna, quando a fortaleza na profissão da fé e a prontidão em suportar os sacrifícios da parte de Cristo serão bastante grandes para contrapor à força material dos opressores da Igreja a adesão incondicionada à fé, a esperança inconcussa, ancorada no eterno, a força vencedora da operosa caridade. O sagrado tempo da quaresma e Páscoa, que prega recolhimento e penitência e faz voltar os olhos do cristão mais que nunca sobre a cruz, mas também sobre os esplendores da ressurreição, seja para todos e para cada um de vós uma ocasião que saudareis com alegria e de que vos prevalecereis com ardor para encher a alma toda com o espírito heroico, paciente e vitorioso que irradia da cruz de Cristo. Então os inimigos da Igreja — estamos seguros disto — que acreditam ter chegado a sua última hora, reconhecerão que cedo demais rejubilaram e muito cedo a quiseram sepultar. Então virá o dia em que em vez de prematuros hinos de triunfo dos inimigos de Cristo, se elevará ao céu dos corações e lábios dos fiéis o Te Deum da libertação: um Te Deum de ação de graças ao Altíssimo, um Te Deum de júbilo, porque o povo alemão, também em seus membros errantes, terá reencontrado o caminho de volta à religião; com uma fé purificada pelos sofrimentos, dobrará de novo o joelho diante do Rei dos tempos e da eternidade, Jesus Cristo, e se cingirá para a luta contra os negadores e destruidores do ocidente cristão, em união com os homens bem intencionados das outras nações, a cumprir a missão que lhes assinalaram os planos do Eterno.

 

58. Ele, que perscruta coração e rins (Sl 7,10), Nos é testemunha que não temos aspiração mais íntima que a do restabelecimento da verdadeira paz entre a Igreja e o Estado na Alemanha. Mas se sem culpa Nossa a paz não vier, a Igreja de Deus defenderá os seus direitos e liberdade, em nome do Todo-poderoso, cujo braço também hoje não foi abreviado. Cheios de confiança nele “não cessamos de orar e pedir” (Col 1,19) por vós, filhos da Igreja, a fim de que os dias das tribulações sejam abreviados e vós sejais encontrados fiéis no dia da provação; e também aos opressores e perseguidores o Pai de toda luz e toda misericórdia conceda a hora de Damasco, para si e os muitos que com eles têm errado e erram.

 

59. Com esta súplica no coração e lábios, Nós vos damos, como penhor do divino auxílio, como apoio nas vossas decisões difíceis e cheias de responsabilidade, como robustecimento nas lutas, como conforto nos sofrimentos, a Vós bispos, pastores de vosso povo fiel, aos sacerdotes, aos religiosos, aos apóstolos leigos da Ação Católica e todos os vossos diocesanos, e não em último lugar, aos doentes e encarcerados, com paternal amor a bênção apostólica.

Dado no Vaticano, no domingo da Paixão, 14 de março de 1937.

PIO XI, PAPA.

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Papa PIO XI, Encíclica “Mit Brennender Sorge, de 14 de março de 1937. Tradução de Frei Frederico Vier, O.F.M.

Fonte: Coleção Documentos Pontifícios – 133, Petrópolis: Vozes, 1961, 30p.

Endereço breve desta transcrição: http://goo.gl/woymU3

Publicado originalmente na internet pelo blog Acies Ordinata.

O Vaticano falsificou secretamente as certidões de batismo para permitir que muitos judeus emigrassem como católicos.

O que documenta a ação direta do Papa Pacelli são os documentos encontrados pelo historiador Michael Hesemann nos arquivos de Santa Maria dell`Anima, igreja nacional alemã em Roma. Em um telegrama original enviado pelo comando alemão em Berlim ao quartel general das SS de Romaem que ordenava a prisão de 8.000 judeus romanos a serem levados ao campo de trabalho de Mauthausen. Depois de uma intervenção papal, não foram detidos 8.000, mas pouco mais de 1.000.

Está documentada a ação pessoal e direta de Pio XII para frear as detenções dos judeus em Roma no dia 16 de outubro de 1943. Quando as prisões terminaram, o Papa Pacelli enviou um representante ao local em que estavam detidos para pedir libertação dos mil judeus que haviam sido presos, mas não foi permitido o ingresso.

O Papa ordenou que os judeus de Roma recebessem hospitalidade nas propriedades da Igreja e nas casas católicas, suspendendo as normas claustrais de modo que os homens pudessem ser admitidos nos conventos e as mulheres nos mosteiros de toda a Europa. Ele literalmente escondeu 7.000 judeus em um dia.

“Provavelmente, o Papa Pacelli salvou mais judeus do que todos os líderes políticos e religiosos do mundo juntos”. Gary Krupp, presidente da Pave the Way Foundation, comenta que “é hora de reconhecer o Papa Pio XII pelo que ele realmente fez e não pelo que ele não disse”. E acrescenta: “Pelo que eu vi e conheci, o papa é, sem dúvida, o maior herói da Segunda Guerra Mundial. Pio XII não foi o Papa de Hitler. Ao contrário, era um homem que Hitler queria matar”.

Além disso, o futuro Pio XII se aproveitou de sua influência para que o então representante da Organização Sionista Mundial Nachum Sokolov fosse recebido pessoalmente pelo Papa Bento XV para falar de uma pátria judaica na Palestina. Em 1926, Dom Pacelli exortou os católicos alemães a apoiar o Comitê Pró-Palestina, que apoiava os assentamentos judeus na Terra Santa.

Os documentos, que podem ser baixados no site da fundação, incluem um manuscrito de uma freira, datado de 1943, que explica detalhadamente as instruções recebidas do papa, assim como uma lista de judeus protegidos. Um outro documento é um relatório do US Foreign Service do cônsul norte-americano em Colônia, que informa sobre o “novo Papa” em 1939. O diplomata se mostrou surpreso pela “extrema aversão” de Pacelli contra Hitler e o regime nazista, e pelo seu apoio aos bispos alemães na sua oposição ao nacional-socialismo, mesmo às custas da supressão das Juventudes Católicas Alemãs.

Em um documento datado de 1938, o então secretário de Estado Eugenio Pacelli se opõe ao projeto de lei polonês que declarava como ilegal o sacrifício kosher, visto que essa lei “significaria uma grave perseguição contra o povo judeu”.

Durante a guerra, Pio XII escreveu um telegrama ao então regente da Hungria, o almirante Miklós Horthy, para que evitasse a deportação dos judeus, e estes concordaram, pelo qual se estima que tenham sido salvas 80 mil vidas. Ao governo brasileiro, ele pediu que aceitasse 3.000 “não arianos”.

Em um testemunho, o general Karl Wolff fala detalhadamente do plano de Hitler de atacar o Vaticano e sequestrar o papa. Havia espiões no Vaticano, e franco-atiradores alemães a 200 metros das janelas papais. A própria limitação das declarações públicas do papa, que suscitou muitas críticas contra ele, é explicada pelo aumento das penas nos campos de concentração, testemunhada por ex-prisioneiros, todas as vezes que as autoridades eclesiásticas falavam contra o regime nazista.

Estão documentados muitos exemplos das ações diretas e do ministério pastoral de Eugenio Pacelli para salvar os judeus da tirania nazista. Há provas da “direta intercessão de Pacelli para defender os judeus da Palestina dos turcos otomanos em 1917 e do seu encorajamento para instituir uma pátria judaica na Palestina em 1925.

Além disso, o Papa Pio XII teve um papel ativo na oposição a Hitler. Entre as testemunhas do que Pio XII fez em favor dos judeus durante o Holocausto, está também a prova da ordem que o papa deu para hospedar os judeus nos conventos.

No Memorial das Religiosas Agostinianas do Mosteiro das SS. Quattro Coronati de Roma, de 1943, está escrito: “Chegadas a este mês de novembro, devemos estar prontas para prestar serviços de caridade de forma totalmente insuspeita. O Santo Padre Pio XII, de coração paterno, sente em si todos os sofrimentos do momento. Infelizmente, com a entrada dos alemães em Roma, ocorrida em setembro, iniciou uma guerra implacável contra os judeus que querem exterminar mediante atrocidades sugeridas pela mais obscura barbárie”.

“Nessas dolorosas circunstâncias – lê-se ainda no Memorial –, o Santo Padre quer salvar os seus filhos, também os judeus, e ordena que, nos mosteiros, se deve hospitalidade a esses perseguidos, e as clausuras também devem aderir ao desejo do Sumo Pontífice, e, a partir do dia 4 de novembro, nós hospedamos, até o dia 6 de junho posterior, as pessoas aqui listadas… “. No Memorial, conta-se que, “para a quaresma, os judeus também vinha ouvir as pregações, e o senhor Alfredo Sermoneta ajudava na igreja”.

E ainda: “Com a guerra terminada, falava-se da bondade do Santo Padre que havia ajudado e salvo tantos judeus, assim como jovens e famílias inteiras”. Isso confirma o compromisso pessoal e institucional de Pio XII para proteger e salvar os judeus perseguidos. Falta a cópia escrita da ordem de Pio XII, porque, em uma situação de guerra, com a cidade ocupada pelos nazistas, uma pessoa prudente não publica uma ordem, mas manda mensageiros de confiança para comunicar as vontades do Santo Padre. Teria sido imprudente e perigoso escrever uma ordem que poderia cair nas mãos erradas e pôr em perigo a vida de muitos.

Além disso, foi organizado um grupo de sacerdotes que, sob as ordens da Secretaria de Estado, andavam de uma casa religiosa a outra, batendo também nas universidades, seminários, escolas, paróquias, para pedir que abrissem os conventos e organizassem uma rede de assistência.

No fim da guerra, foram cerca de 150 as casas religiosas, mosteiros e paróquias que salvaram milhares de judeus da morte certa. Pio XII e a Igreja Católica salvaram a vida de centenas de milhares de judeus em toda a Europa.

A reportagem é de Giacomo Galeazzi, publicada no Vatican Insider

Daqui a um ano o Vaticano abrirá o Arquivo secreto relativo ao pontificado de Pio XII. Isso foi anunciado pelo Papa Francisco durante a audiência aos membros do Arquivo Secreto Vaticano, recebidos na Sala Clementina do Palácio Apostólico. “Anuncio a minha decisão de abrir para a consulta dos pesquisadores o material de arquivo relativo ao pontificado de Pio XII, até sua morte, ocorrida em Castel Gandolfo em 9 de outubro de 1958″, declarou solenemente o Pontífice.

“Eu decidi que a abertura dos Arquivos Vaticanos para o pontificado de Pio XII terá lugar em 2 de março de 2020, exatamente um ano após o 80º aniversário da eleição à Cátedra de Pedro de Eugênio Pacelli. Assumo esta decisão – explica Papa – depois de ter ouvido a opinião dos meus colaboradores mais próximos, com espírito sereno e confiante”.

O Papa afirma estar “confiante que a séria e objetiva pesquisa histórica saberá avaliar sob a correta luz, com crítica apropriada, momentos de exaltação daquele Pontífice e, sem dúvida, também momentos de grande dificuldade, de atormentadas decisões, de humana e cristã prudência, que a alguns pareceram reticência, mas que, na verdade, foram tentativas, humanamente também muito controversas, para manter acesa, nos períodos de mais densa escuridão e de crueldade, a chama das iniciativas humanitárias, da diplomacia escondida, mas ativa, da esperança em possíveis boas aberturas dos corações”.

Papa Francisco, anunciando a abertura dos documentos sobre o pontificado de Pio XII mantidos no Arquivo secreto Vaticano, destacou que “a Igreja não tem medo da História, aliás, a ama e gostaria de amá-la mais e melhor, como a ama Deus! Assim, com a mesma confiança de meus antecessores, abro e confio aos pesquisadores este patrimônio documental”.

Para o Papa, “a figura do Pontífice, que esteve conduzindo o Barca de Pedro em um momento entre os mais triste e sombrios do século XX, agitado e em muitos lugares dilacerado pelo último conflito mundial, com o subsequente período de reorganização das Nações e reconstrução pós-conflito, esta figura já foi investigada e estudada em muitos dos seus aspectos, por vezes discutida e até mesmo criticada, ao que parece, com algum preconceito ou exagero”.

Hoje, ressalta novamente o Papa, “é oportunamente reavaliada e, aliás, colocada na luz correta por suas poliédricas qualidades: pastorais, em primeiro lugar, mas, também, teológicas, ascéticas e diplomáticas.”

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Com a abertura do arquivo sobre o Pontificado, é possível compreender melhor suas decisões, inclusive as mais polêmicas. Andrea Riccardi, historiador do cristianismo e fundador da Comunidade de Santo Egídio, um dos maiores especialistas sobre a vida do Papa Pacelli, não tem dúvida sobre isso.

Quão importante é tornar esses documentos públicos?

A decisão do Papa é muito positiva. Havia a hipótese de abrir o arquivo somente até 1945, mas eu era absolutamente contra, porque é necessário tomar todo o Pontificado, como estabeleceu Francisco.

O que você acha da expectativa que se cria em torno da abertura do arquivo?

Há muito medo pelo que os documentos contêm. Além disso, a discronia entre o trabalho dos historiadores contemporâneos e a abertura dos arquivos não ajudou a Santa Sé, porque se trabalhou com documentos secundários.

O que a Igreja deveria temer?

Nada, claro. Com Pio XII nos deparamos com um problema muito particular: a questão da guerra e dos silêncios diante das atrocidades nazistas, a Shoah. Mas estou convencido de que a imagem que surgirá dará uma história concreta, a percepção dos protagonistas destes eventos e explicará os motivos das decisões. Além do mais, a partir de 1965, Paulo VI iniciou a publicação das “Atas e documentos da Santa Sé sobre o período da Segunda Guerra Mundial”, motivo pelo qual já tivemos um gostinho do que os documentos podem conter.

Quais são os efeitos que eles poderiam ter?

O amor dos documentos reduzirá os “scoops”. Mas vai precisar de um grande e sério trabalho.

O Papa, no anúncio, disse que “a Igreja ama a história”: o que você acha?

O discurso do Pontífice torna concreta a relação entre a Igreja e a história, porque a Igreja é história e o cristianismo é uma religião histórica. A Igreja é a história do povo de Deus e, portanto, seus documentos são importantes. Mas isso não significa que devamos enfrentá-la teologicamente, porque essa história é em si mesma preciosa para a própria Igreja.

Como você interpreta a reação do mundo hebraico, que manifestou, com exceções, satisfação e otimismo cauteloso?

Em primeiro lugar, uma premissa: a ideia de negar o acesso a um arquivo não causa uma boa impressão àqueles que têm perguntas sobre a história. É por isso que a decisão do Vaticano de negar o acesso aos arquivos, explicada com o problema da catalogação, nunca me pareceu correta, porque não é do interesse da história nem da Igreja.

Alguns dos meus interlocutores me disseram: “Mas desta maneira virão à tona as recomendações”; mas as recomendações já vieram à luz, estão nos arquivos diocesanos. Fico impressionado com o favor do mundo judaico, porque no fundo tem os problemas bem conhecidos com relação a Pio XII. Mas, ao mesmo tempo, sei que o mundo judaico tem o cuidado de “fazer história” de maneira concreta e documentada.

O que poderá aparecer?

Um patrimônio histórico de valor inestimável: o nascimento da Democracia Cristã, o grande papel de Giovanni Battista Montini, futuro Paulo VI, e sua transferência para Milão, que foi considerada como um afastamento, mas que acabou se revelando uma preparação para o papado. Aparecerá também o papel de Roncalli, futuro João XXIII, núncio durante a guerra e na França.

Quais são os textos pelos quais está aguardando?

Os documentos sobre os nove meses de ocupação alemã em Roma. Porque naquela época o Vaticano e Pio XII tiveram um grande papel, no sentido de que ajudaram milhares de pessoas, judeus e não judeus, a se esconderem, e esse fato foi decisivo na história de Roma. Em certo sentido, fizeram um “jogo” com o comando alemão, tranquilizando-o e, por outro lado, transformaram todos os espaços religiosos em lugares de asilo. E foi um jogo não apenas generoso, mas também inteligente.

 Fonte: Vatican Insider

Manuscrito mais antigo de  “Silent Night”, escrito pelo Rev. Joseph Mohr. (Foto: Salzburg Museum)

Uma canção de Natal – provavelmente a mais famosa – está comemorando 200 anos. Na véspera do Natal de 1818, na Igreja de São Nicolau em Oberndorf, próximo a Salzburgo, “Stille Nacht” (Silent Night, em inglês; Noite Feliz, na versão em português) foi cantada pela primeira vez.

A letra de “Silent Night” foi escrita pelo Rev. Joseph Mohr, um jovem sacerdote em Oberndorf. Ele a escreveu em 1816 como uma reflexão sobre a paz após um verão de violência em Salzburgo. Na véspera de Natal, dois anos depois, ele pediu a seu amigo Franz Xaver Gruber, um professor na cidade vizinha de Arnsdorf e também organista em Oberndorf, para criar uma melodia para o texto. Os dois realizaram “Silent Night” na missa de véspera de Natal. Mohr cantou e Gruber tocou violão, pois o órgão da Igreja não estava funcionando. “Silent Night” foi uma sensação imediata.

A história da origem do canto ficou esquecida por algumas décadas, mesmo com corais tiroleses o tocando por toda Europa. Em Berlim, as pessoas tentaram rastrear sua origem.

Em 1854, a Royal Hofkapelle (Orquestra da Corte) em Berlim entrou em contato com a Arquiabadia de São Pedro em Salzburgo para tentar descobrir quem era o compositor da canção. Pensava-se que o compositor poderia ter sido Johann Michael Haydn (1737-1806), irmão mais novo de Joseph Haydn.

Nesta época, Felix Gruber, filho de Franz Xaver Gruber, fazia parte do coral da Arquiabadia de São Pedro. Ele direcionou a consulta da Royal Hofkapelle ao seu pai. Franz Xaver Gruber, ao se dar conta da importância da música, escreveu uma declaração sobre ela, a qual chamou de “Authentic Origination of the Composition of the Christmas Carol ‘Silent Night'” (Origem Autêntica da Composição do Canto de Natal ‘Silent Night’, em tradução livre), e a enviou a Berlim. O Museu Stille Nacht em Hallein, perto de Salzburgo, casa onde Franz Xaver Gruber viveu por 28 anos, mantém dois rascunhos desta carta, documentando assim a criação do hino.

O canto já foi traduzido para cerca de 300 línguas. A primeira tradução para o inglês apareceu na cidade de Nova York em 1851.

Em 29 de setembro de 2018, algumas exposições em Salzburgo e oito cidades vizinhas comemoraram seu bicentenário. A exposição no Museu de Salzburgo reúne documentos e artefatos relacionados à canção, como cópias da carta de Gruber e as primeiras partituras.

A primeira sala do museu, a Sala de Natal, mostra como o advento e o Natal foram comemorados na região. Na sala seguinte se encontram caixas de música, vinis e a versão da canção por Bing Crosby, bem como as versões de Mahalia Jackson e da Trapp Family Singers. Um guia no museu explica que a gravação de Bing Crosby havia sido a canção mais vendida de todos os tempos, desde sua apresentação em 1948 até 1997, quando o tributo “Candle in the Wind” de Elton John à Princesa Diana o superou.

Outra sala mostra a história da canção em filmes; entre eles estão “das Unsterbliche Lied” de 1934; “The Legend of Silent Night” de 1968; “Merry Christmas” de 2005; e “Stille Nacht” de 2012 (A Canção Imortal; A Lenda da Noite Silenciosa; Feliz Natal; Noite Silenciosa, em tradução livre).

A canção foi usada para animar os soldados reunidos para a trégua de Natal na Primeira Guerra Mundial, em 1914. Em 1941, Franklin D. Roosevelt e Winston Churchill foram até a varanda da Casa Branca e se juntaram à multidão cantando o hino.

A exposição de Salzburgo também mostra como a canção foi usada para fins comerciais e de propaganda. Uma distorção horripilante mudou as palavras para dizer que nesta “Stille Nacht, Heilige Nacht, Alles ruht, Einer wacht … Adolph Hitler führt uns zu Größe, zu Ruhm und zum Glück… ” (“Noite Silenciosa, Noite Santa, Tudo está Calmo, Alguém se Acorda … Adolf Hitler nos conduz à grandeza, ao Reconhecimento e à Fortuna…”, em tradução livre). As homenagens também incluem um engradado de cervejas com cada um dos seis versos da canção em uma garrafa.

A última sala da exposição é um lugar de silêncio com uma placa dizendo “Laut Sein ist cool! Ainda Sein Auch” (‘É bacana fazer barulho. Mas também ficar em silêncio’, em tradução livre). Esta bela canção de Natal traz serenidade com a sua calma melodia e meigas palavras, “Durma na paz celestial!”.

Outras referências

Silent Night: A Companion to the Song, por Thomas Hochradner e Michael Neureiter (eds.) (Salzburg: Verlag Anton Pustet, 2018).

“All Is Calm: The Christmas Truce of 1914” por Peter Rothstein, é um musical à capela sobre o momento em que soldados inimigos saíram das trincheiras e se abraçaram para celebrarem juntos o Natal, uma trégua dos horrores da guerra.

Fonte: America

Fonte: História viva.

A Revolução Francesa marcou para Igreja Católica um dos períodos mais difíceis de sua história. Isto porque a Revolução não só propagou os ideais iluministas que incluíam um sentimento anticlerical e anti-religioso, como também exerceu na prática esses ideais, muitas vezes de forma violenta.

A França sempre teve uma posição de destaque na cristandade, desde os séculos medievais, da conversão dos francos ao catolicismo até a época em que a cidade francesa de Avignon abrigou a sede do papado. Foi também a França um dos maiores pontos de conflito entre católicos e protestantes.  Tais fatos levaram a França a ser considerada por muitos papas como a “filha predileta da Igreja”.

Às vésperas da Revolução, o país mostrava um quadro onde o catolicismo vivia o seu auge: a população participava dos ritos religiosos e o clero paroquial cuidava da vida religiosa da sociedade. Exercia grande influencia na vida política, pois o poder absoluto do rei era garantido pelo direito divino, e o próprio clero possuía status de Estado. A religião católica influenciava também o tempo, com o calendário gregoriano que possuía festas e feriados cristãos. Por fim, era papel do clero presidir as atividades civis como os casamentos e os registros de nascimento e óbito. Era esse quadro que a revolução viria a mudar radicalmente.

A Revolução Francesa, em sua tentativa de acabar com as estruturas feudais ainda vigentes, colocou a Igreja Católica em uma difícil situação. Desde os primeiros passos da Assembléia Constituinte até a Constituição Civil do Clero, foram tomadas medidas capazes de levantar suspeitas de que a revolução era hostil ao clero. Uma das primeiras medidas dos revolucionários foi a supressão do dizimo e o confisco dos bens do clero, para saldar o déficit nacional. Essas medidas, a principio, não causaram um conflito direto entre a Igreja e a Revolução.

O conflito só viria com a Constituição Civil do Clero e o juramento dos padres. Tal medida dividiu o clero francês: o clero constitucional, fiel à constituição, e o clero refratário, fiel ao papa. Este repudiava cada medida dos revolucionários, pois, além de perder o controle sobre o clero francês também perdeu suas possessões territoriais francesas na cidade de Avignon.

É possível afirmar que a Constituição Civil do Clero foi o divisor de águas nas relações entre a Religião Católica e o Estado revolucionário francês. Foi o juramento dos padres que estimulou a contra-revolução na Vendéia e a guerrilha camponesa dos Chouans – a Chouannerie, da qual participaram o clero refratário e a aristocracia. Foi também a questão do juramento que desencadeou um movimento violento de ataques aos padres e aos templos. Além disso, subordinava o clero ao Estado rompendo os seus vínculos com o papa.

A Igreja ainda viria a perder suas áreas de influência na vida política e social. O rei Luís XVI, antes de ser decapitado, é obrigado a renunciar o seu “poder divino”, tornando-se um cidadão como outro qualquer. O clero deixa de presidir as atividades da vida civil como o casamento e os registros de certidões de nascimento e de óbito.

É importante ressaltar que na tentativa de enterrar de vez a influência católica, o governo aboliu o calendário gregoriano acabando com os dias da semana, e conseqüentemente, eliminando as festas e feriados religiosos, inclusive o domingo, conhecido como “Dia do Senhor”.Para substituí-lo criou um novo calendário, conhecido como Calendário Republicano Francês, que marcaria o inicio da nova era da Republica Francesa dando uma nova nomenclatura aos meses e semanas de acordo com as estações do ano.

O período do Terror marca o inicio do movimento violento que se deu contra a Igreja Católica. Igrejas são apedrejadas, padres são forçados a abdicar, imagens religiosas são destruídas e o culto religioso passa a ser proibido. Podemos ainda citar as tentativas de substituir o culto religioso por um culto revolucionário, como o culto à razão e ao Ser Supremo. Esses cultos exaltavam a vitória da razão e da consciência sobre a dominação da Igreja. Sobre o culto ao Ser Supremo, Robespierre aparece como pontífice da religião do Estado na tentativa promover a união entre o sentimento revolucionário e o sentimento religioso.

Passado o período violento do Terror, com a queda de Robespierre, seguiu-se uma fase confusa para a religião. Os homens que o derrubaram eram anticlericais que participaram dessas perseguições. Contudo, a política da Convenção Termidoriana seguia a lógica do retorno da liberdade que o período do Terror havia negligenciado. A essa lógica de liberdade estava ligada à questão da liberdade de culto. No período que vai de 1795 a 1799, as Assembléias do Diretório agiam ora permitindo o retorno ao culto, ora regressando a uma política de perseguição.

Esse quadro só seria resolvido com Napoleão Bonaparte. No período do Consulado, Napoleão e o Papa Pio VI assinam uma Concordata que redefine as relações entre a Igreja e o Estado. Por essa Concordata a Igreja Católica era reconhecida na sua unidade e estatuto, a liberdade de culto era garantida e o catolicismo era aceito como a religião da maioria dos franceses. Contudo a Igreja ficava subordinada ao Estado, uma vez que a nomeação de bispos era feita pelo Consulado. Os territórios da Igreja, como Avignon, e seus bens também não são restituídos.

O ultimo pilar do movimento de ataque a religião católica, o Calendário Republicano, foi extinto por Napoleão no Império, em 1805.

Cronologia:

04/08/1789                                                  Abolição dos direitos feudais e supressão do dizimo.
02/11/1789                                                   Confisco dos bens do clero para saldar déficit nacional.
12/07/1790                                                   Aprovada a Constituição Civil do Clero.
26/11/1790                                                   Decreto fixando o prazo de dois meses para o juramento dos padres em exercício à Constituição.
03/1793 à 03/1796                                     Revolta da Vendéia e guerrilha camponesa dos Chouans
07/11/1793 (17 de Brumário do ano II)  Abjuração do bispo de Paris, marca o inicio da descristianização.
21/11/1793 (1 de Frimário do ano II)      Intervenção de Robespierre, refreando a descristianização violenta.
24/11/1793 (4 de Frimário do ano II)     Convenção Nacional adota o Calendário Republicano, determinando a data de 22/09/1792 como inicio do ano I da Republica.
07/05/1794 (18 de Floreal do ano II)      Relatório da Convenção que define as relações entre Estado e Igreja.
27/07/1794 (09 de Termidor do ano II) Queda de Robespierre , sucedido por anticlericais que haviam participado da descristianização violenta.
18/08/1797 à 17/09/1797 (Frutidor do ano V)   Inicio da política de perseguição religiosa.
07/1801                                                         Concordata assinada entre Napoleão e o Papa Pio VI.
31/12/1805                                                   Abolição do Calendário Republicano por Napoleão.

Textos de época

“A lei considera o casamento como sendo um contrato civil”. (Artigo 7 do Titulo II da Constituição Francesa de 1791).

“A lei não reconhece os votos religiosos, nem qualquer outro compromisso que seja contrário aos direitos naturais, ou à Constituição”. (Constituição Francesa de 1791).

“O novo calendário assim como suas instruções serão enviadas aos corpos administrativos, as municipalidades, aos tribunais, aos juizes de paz e a todos os oficiais públicos, aos mestres de todas as instituições e as sociedades populares. O conselho executivo provisório fará passar aos ministros, cônsules e outros agentes da França nos países estrangeiros”. (Artigo 13 do Decreto da Convenção Nacional sobre a instituição do Calendário Republicano).

Veja mais:

“Em nome da Revolução levou-se a cabo na França um verdadeiro extermínio, especialmente de católicos, sobretudo no oeste e em La Vendée. No caso de La Vendeé, foi dada a ordem de eliminar as mulheres para que não pudessem trazer filhos ao mundo e mutilar os meninos para que quando maiores não se tornassem guerrilheiros.

A Revolução suprimiu, sem cerimônia, o papel da Igreja na ordem social dos séculos XVIII e XIX: com o desaparecimento dos conventos e execução de milhares de sacerdotes, apesar de que, em 1789, os elementos do baixo clero tinham se unido aos Constituintes que derrubaram a antiga ordem social, desapareceram hospitais, asilos, casas de caridade, albergues, escolas.

A retórica das leis humanitárias não pôde evitar que, na França, dos seus dezesseis milhões de habitantes em idade ativa, dois milhões fossem mendigos.” (CRUZ, Juan Cruz. Filosofia da História. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência “Raimundo Lúlio”, 2007, p.190)

“Contudo, no seio desta libertação pelo direito, certos paradoxos que mostrariam o lado utópico da Revolução começaram a ficar evidentes. O mais claro foi a relação entre a Revolução e a Igreja Católica. Como a Revolução era a proclamadora de liberdade, igualdade e Fraternidade, por que via na Igreja Católica o principal inimigo? A Revolução não foi simplesmente anticlerical, porém algo mais grave: foi anticristã, anticatólica. Pretendeu descristianizar o país, extirpando um dos fundamentos culturais do homem. Seguiu as pautas do Iluminismo com seu modelo de homem sem visão transcendente.”(CRUZ, Juan Cruz. Filosofia da História. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência “Raimundo Lúlio”, 2007, p.179)

“Se, em 1789, a maioria dos franceses era católica praticante, quinze anos mais tarde, um terço dos católicos não cumpriam sequer o preceito dominical ou o pascal. A Revolução levou a cabo a descristianização maciça da França.”(CRUZ, Juan Cruz. Filosofia da História. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência “Raimundo Lúlio”, 2007, p.179-180)

“A antiga idéia de pecado é traduzida agora em termos de exploração, desigualdade e opressão; e o modo pelo qual se sai dele não é a Redenção, mas a ‘Revolução’”. (CRUZ, Juan Cruz. Filosofia da História. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência “Raimundo Lúlio”, 2007, p.188)

“A transformação do novo templo de Ste. Geneviève no Panteão dos homens ilustres confirmaria Paris ainda mais como a sede da religiosidade revolucionária. O Panteão foi concebido como templo no qual ‘tudo será deus, exceto o próprio Deus.’”(SABORIT, Ignasi Terradas. Religiosidade na Revolução Francesa.Rio de Janeiro: Imago, 1989, p.153)

“Assim, faz sentido essa celebração de Rousseau, Franklin, Voltaire e Mirabeau feita pelos jacobinos em 12 de fevereiro de 1792:  “Cidadãos, cidadãs, que hoje reunis neste recinto as imagens reverenciadas desses filósofos, primeiros deuses da liberdade que criaram de pólo a outro do mundo, vós que prestais a sua memória o culto e as homenagens que todo cidadão amigo da igualdade e da humanidade lhes deve, segui vosso caminho, marchai com firmeza e sob a proteção das leis e dos estandartes da liberdade; ensinai, cultivai a moral pura dos Voltaire, dos Rousseau, e assim como Franklin e Mirabeau amai com grande estima a vossa pátria, defendendo-a de todas as investidas dos déspotas: arrancai seus cetros e colocai-os não mãos da razão, a única que deve governar o universo…” (SABORIT, Ignasi Terradas. Religiosidade na Revolução Francesa. Rio de Janeiro: Imago, 1989, p.158)
Segue um trecho da “missa” sans-cullote, verdadeira réplica da missa católica, com inversões simbólicas evidentes:

“Nota- O sumo sacerdote, o primeiro Ministro, não deve usar nenhum traje especial. Deve estar vestido de soldado, ou usar a faixa de magistrado do povo. Na medida do possível, deve ter uma voz dotada de extensão e emoção…
A sala está escura, a estátua da Liberdade se encontra sobre o altar colocado no fundo do templo. O Sumo Sacerdote (pegando o copo cheio de vinho das mãos do mestre de cerimônias, que deve se colocar atrás dele):
“Que esta santa libação seja hoje o sinal da aliança de todos os franceses. É em tua honra, ó Divindade tutelar da França, que derramamos este vinho sobre a terra, que o sangue de nossos inimigos umedeça assim a nossa terra natal. (Derrama o vinho no chão.) Que nossos prazeres se transformem em vitórias, e que a vitória seja para nós um prazer.”

O Sumo Sacerdote (no meio do altar):

Glória: “Glória seja dada, no céu e na terra, aos homens livres. Nós te glorificamos, te bendizemos, te adoramos santa liberdade, porque asseguraste ao povo francês uma felicidade imorredoura, aniquilando os animais ferozes que viviam de seu sangue, conduzindo Luís Capeto, os brissotinos, fuldenses e outros à Guillotina…”

Sumo Sacerdote: “Que a igualdade esteja entre nós.

Ministros: “Que nos una com os mais suaves laços.”

Credo: “Creio na declaração dos direitos do homem.”(SABORIT, Ignasi Terradas. Religiosidade na Revolução Francesa.Rio de Janeiro: Imago, 1989, p.123)

Pietro Zander: «O primeiro Papa repousa aqui, aqui estão as provas». Os restos do apóstolo Pedro em uma nuvem, com umidade de 100%. Desde 1506 as obras nunca são interrompidas.

Tocar com a mão o coração do cristianismo significa descer 8 metros nas entranhas da terra, no que à primeira vista poderia parecer o inferno, se ao longo dos túneis não fossem encontradas muitas portas automáticas de cristal. A umidade constante varia entre 98 e 100 por cento. Imediatamente o suor brota e começa a escorrer ao lado do nariz. Equilíbrio termo-higrométrico perfeito: a água não pode evaporar das paredes e, portanto, não deixa resíduos salinos nos afrescos. “Estamos em uma nuvem”, conta ao mostrar o caminho o “menor Pedro”. O arqueólogo Pietro Zander define-se assim para distinguir-se do “maior Pedro”, citado por Dante no Inferno da Divina Comédia. Sobre os ossos do primeiro papa, encontrados há 65 anos, quem vigia é ele, Zander. Não é apenas responsável pela necrópole, que está localizada no subsolo da Basílica do Vaticano, mas mais abaixo pelas Grutas, onde milhares de fiéis transitam todos os dias para se ajoelhar nos túmulos dos sucessores do pescador da Galileia: em nome da Fábrica de São Pedro (dicastério vaticano), também dirige a conservação e restauração do patrimônio artístico no imenso canteiro de obras, inaugurado em 18 de abril de 1506 pelo Papa Júlio II.

Aqui as obras nunca são interrompidas.

Quando terminam, já está na hora de recomeçá-las. Para o Jubileu de 2000, refizemos a fachada. Entre 2006 e 2016, os 35 mil metros quadrados da planta externa. Nos últimos dois anos as duas cúpulas menores, de 30 metros de altura. A partir de 2019 devemos pensar na Cúpula da basílica, de 14 mil toneladas de peso. Sem mencionar o interior.

Vamos mencionar, em vez disso.

A basílica ocupa 2,2 hectares de superfície, contém 10 mil metros quadrados de mosaicos, atinge 132 metros de altura. Somente o dossel de Bernini mede tanto quanto um prédio de dez andares.

Vocês devem ser muitos para cuidar de tudo isso.

Não, 120 pessoas, incluindo os arquivistas que têm em custódia 2 quilômetros de documentos administrativos, entre os quais os custos das “allegrezze”, os seis banquetes oferecidos por Michelangelo aos trabalhadores. Em 1º e 2 de novembro de 1549 foram consumidos 50 kg de vitela, 100 de gado, 30 de salsichas, 30 de queijo pecorino e 27 de massa e mais de 460 litros de vinho. Hoje os trabalhadores são 80, também encarregados da necrópole.

E que superfície ela ocupa?

Ao longo de um percurso de 70 metros foram encontrados 22 edifícios, com mil túmulos. Em direção ao obelisco, há pelo menos 350 outros edifícios sepulcrais ainda inviolados.

Por que não são trazidos à luz?

Para chegar ao túmulo de Pedro, foi o suficiente abrir o chão das Grutas Vaticanas. Mas, para pesquisar mais para o leste, seria preciso cavar sob a basílica e a praça até 12 metros de profundidade.

Por que as investigações sobre o túmulo de Pedro começaram apenas em 1941?

Já está confirmado que a antiga basílica, construída pelo imperador Constantino no século IV, apoiava-se sobre o túmulo do Príncipe dos Apóstolos. Naquele lugar, Pedro foi crucificado de cabeça para baixo por ordem de Nero. Depois do incêndio de Roma no ano 64, muitos cristãos “julgados culpados de ódio contra o gênero humano”, como relata Tácito, nos Anais “foram devorado por cães, ou foram crucificados e queimados vivos, para que servissem como tochas para iluminar a noite”. Portanto, sendo essa terra banhada pelo sangue dos mártires, a cada descoberta arqueológica os papas ordenavam a interrupção das escavações e fechavam tudo como sinal de respeito.

A razão pela qual Pio XII, um homem de tradição, se desviou desse hábito piedoso me escapa.

Ele tinha sido núncio apostólico em Berlim, então prestava muita atenção ao mundo protestante, que refutava a presença dos restos mortais de Pedro debaixo do altar papal da Confissão. Ele estava procurando a prova e a encontrou. Mas teria sido suficiente considerar que não havia nenhuma razão no mundo para que Constantino construísse uma basílica justamente aqui, entre os pântanos, em solo argiloso, naquele que Tácito em suas Histórias chama de ‘os infames lugares do Vaticano’.

Desculpe o trocadilho: que provas há de que “a prova” é autêntica?

Várias, começando com a primeira edícula funerária construída sobre o túmulo de Pedro, encostada em um muro pintado de vermelho. Dela fala Eusébio de Cesareia, comentando a resposta dada em 200 dC pelo padre Gaio a Proclo, herege habitante em Hierápolis da Frígia, sobre a presença dos “troféus”, ou seja, as sepulturas de Pedro no Vaticano e de Paulo na via Ostiense. Naquele muro vermelho havia um grafite, traçado por um cristão que fora venerar os restos mortais do apóstolo. Hoje é guardado no cofre da Fábrica de São Pedro com o número de inventário 0001.

Descoberta-chave, dir-se-ia pelo número.

É composto por seis letras gregas: ‘Pet eni’. Segundo os estudiosos, a frase completa significava ‘Petros eni’, Pedro está aqui, ou ‘enesti’, está aqui dentro, ou ‘Petros en irene’, Pedro em paz. Constantino encerrou essa edícula, com o túmulo subjacente, em um santuário de 3 metros de altura. Ao redor, dispostos em forma circular, outros sepulcros a uma distância de respeito, quase para sinalizar a importância do falecido. No monumento foram erigidos os altares de Gregório Magno e Calisto II e, finalmente, em 1594, o de Clemente VIII, sobre o qual celebra Francisco. Nunca, ao longo dos séculos, esse ponto central foi modificado. O Papa reside aqui porque é o sucessor de Pedro. O Vaticano existe porque aqui foi martirizado e está enterrado Pedro. Não é Zander que diz isso. É atestado desde o século IV por Eusébio de Cesareia, falando de multidões vindas de toda parte do mundo.

Mas a respeito dos ossos de Pedro…

Em 1953, a epigrafista Margherita Guarducci identificou as relíquias nos restos mortais que Constantino havia embrulhado em um pano roxo tramado com fios de ouro. Em 1962, foram examinados pelo professor Venerando Correnti, presidente do Instituto de Antropologia, que os atribuiu a um homem robusto de idade madura. Os resíduos de terra tinham a mesma composição química do túmulo de São Pedro.

Toda vez que eu desci nas Grutas Vaticanas, vi multidões de fiéis diante do túmulo do Papa Wojtyla, agora transladado para a basílica, e nunca ninguém rezando diante do túmulo de São Pedro.

Falamos de 35 mil visitantes por dia. Se chegasse de manhã cedo, antes da multidão de turistas, encontraria devotos também ali. Já me aconteceu de ver alguns colocando a cabeça, como um sinal de deferência, sob o pé da estátua de Pedro, aquela desgastada pelo toque das mãos.

E são muitos que acessam a necrópole?

Cerca de 62 mil pessoas por ano, em grupos de dez e por não mais que uma hora e meia. O número fechado se tornou necessário porque cada indivíduo emite calor como uma lâmpada incandescente de 120 watts, fazendo com que diminua a umidade e se altere o microclima. Também cria uma degradação, levando esporos com as solas dos sapatos. Isso explica o uso da iluminação especial germicida para impedir o crescimento de microfungos e algas no sítio arqueológico. Nós tivemos que procurar os mesmos restauradores que cuidavam da tumba de Nefertari no Egito.

Os pontífices visitam a cidade dos mortos onde seu antecessor descansa?

Na minha memória, nem mesmo Pio XII, que promoveu as escavações, alguma vez desceu. Na véspera de 1º de abril de 2013 eu recebi uma ligação do cardeal Angelo Comastri, arcipreste de São Pedro, que me informava sobre uma visita no dia seguinte de Francisco, papa eleito 17 dias antes. No começo, pensei numa brincadeira de 1º de abril. Mas também era a Segunda-feira do Anjo. Ficamos na necrópole das 16h45 às 18h e vi o Santo Padre ficar comovido e ouvi-o repetir em voz alta as três profissões de fé do primeiro apóstolo. Ele também se demorou no túmulo de um cristão chamado Istatilio, reconhecível pelo cristograma com o X e o P do alfabeto grego sobrepostos. A inscrição latina diz: ‘Ele se dava bem com todos e nunca causava brigas’. O Papa comentou: ‘É um belo programa de vida’.

Os túmulos islâmicos não têm nome. Magdi Allam me confessou: “Enquanto eu enterrava minha mãe, eu já sabia que, sem uma lápide, eu nunca teria um lugar exato para pranteá-la. Só consegui apoiar apenas uma pedra no ponto da inumação, igual a tantas outras”.

Já para os Romanos o falecido permanecia vivo graças à memória. Nós temos o dia de 2 de novembro, eles dedicavam aos mortos nove dias de comemoração. Nós oferecemos crisântemos, eles violetas em março e rosas em maio. E no dia do aniversário faziam banquetes no túmulo do ente querido desaparecido.

Como você imagina São Pedro?

Como a iconografia nos transmite. Acostumado aos esforços da pesca, tão vigoroso a ponto de poder se deslocar a pé, mesmo já idoso, de Brindisi a Roma. Mas também tão fraco a ponto de renegar Jesus por três vezes. Por isso a Igreja foi fundada sobre Pedro. Ele era um homem normal, com todas as nossas fragilidades, porém capaz de se arrepender da traição, de chorar amargamente e de escolher a via do martírio.

Mas você entendeu para que servem os santos?

Eles são uma ponte entre nós e o Céu.

Fonte: Corriere della Sera

Das bodas de Caná até a pesca milagrosa, a comida e a bebida estão por todas as partes nos Evangelhos. Algumas das passagens mais importantes da vida de Jesus aconteceram ao redor de refeições. 

Ainda sobre as bodas de Caná, por exemplo, O Evangelho de João diz que o acontecimento foi o início do ministério de Jesus. Mais tarde, Jesus recebe críticas dos fariseus por comer com os arrecadadores de impostos e pecadores, e teve que defender seus discípulos por apanharem espigas no Sabbat.

O ministério de Jesus culmina com outra refeição: a Última Ceia, que nós, católicos, representamos na Eucaristia. Em João 6, Jesus disse aos seus seguidores que eles deveriam comer da Sua carne e beber do Seu sangue para serem salvos. Na cruz, Ele ingere uma bebida à base de vinagre. 

As refeições continuam sendo cenários importantes dos encontros entre os discípulos e Jesus depois da Ressurreição. Como exemplo, podemos citar a fração do pão no caminho a Emaús e a pesca milagrosa no mar da Galileia. 

 Mas o que exatamente comiam e bebiam Jesus e seus discípulos? No século I, a dieta típica de um judeu no Oriente Médio se baseava no pão, de acordo com os autores do livro The Food and Feasts of Jesus: Inside the World of First Century Fare [A comida e as celebrações de Jesus: por dentro do mundo dos alimentos do século I].  

“Para ricos e pobres, igualmente, o pão era o centro da dieta mediterrânea do século I. Era feito todos os dias. Era comido em todas as refeições (…). O pão era o que as pessoas comiam para viver (…). Quando o pão acabava, tudo acabava”, escrevem os autores. Isso, sem dúvida, dá um significado ainda mais profundo à prece: “O pão nosso de cada dia nos dai hoje”.

De acordo com o já referido livro, havia outros alimentos básicos, como grão de bico, feijão e lentilhas. Entre as frutas, havia uvas, romãs, e figos. A principal fonte de carne eram as ovelhas e cabras. 

De acordo com o escritor católico James Campbell, o vinho era uma bebida muito comum na época. Ainda segundo o escritor, “as refeições eram um momento sagrado (…). As pessoas reconheciam que, embora tivessem ganhado o pão de cada dia, Deus era quem lhes dava tudo o que tinham. A irmandade em uma refeição era a irmandade diante de Deus”. 

Aleteia

‘Decolando na liberdade; aterrissando na escravidão’

Aviões, sobretudo de grande porte, são constituídos por muitos componentes, mas para alçarem grandes voos também dependem de fatores externos como o clima, que é inegociável, e controladores que permanecem em solo, os quais são negociáveis.  Algo análogo ocorre com nossa liberdade. Viver em país democrático, gozar de boa saúde e não ter “rabo preso” são elementos que elevam nossa liberdade, no entanto, não optamos por nascer em determinada região (ou, talvez, em permanecer nela), também não somos capazes de evitar certas doenças, por mais cautelosos que possamos ser. Na verdade, até mesmo nossos relacionamentos interpessoais são mais negociáveis do que controláveis.

Há, porém, situações que parecem mais intuitivas no campo da aerodinâmica, do que no âmbito da liberdade (ou da ausência dela). Ninguém imagina que uma aeronave seja capaz de voar com uma única asa, também não é crível que os assentos sejam indispensáveis para que os aviões se mantenham pelos céus, mesmo que sejam vitais para que esses aparelhos cumpram adequadamente as funções para as quais foram projetados. Porém, comumente vemos pessoas que “embarcam” nos conceitos do “Estado laico”, ou até mesmo nos avanços tecnológicos (normalmente essenciais e admiráveis), crentes de que eles terão como destino uma maior liberdade – nada mais absurdo!

Em um pais democrático, caso 86,8% da população considere que determinado assunto seja proibitivo para crianças, não é coerente proibi-lo aos menores? No entanto, este é o percentual exato de cristãos no Brasil [1] e, mesmo assim, sob o incentivo de que o Estado é leigo, existem recorrentes tentativas de impor nas escolas (incluindo privadas) a ‘Ideologia de Gênero’, e não é o único exemplo. Outro, talvez mais emblemático, seja o do aborto. Contudo, é evidente que o Estado, sobretudo em nossa cultura, não deve impor, por exemplo, o catolicismo. Ao contrário, deve possibilitar que mesmo crenças dotadas de poucos adeptos possam naturalmente cativar mais pessoas, e até, talvez, tornar-se predominante, a ponto de eleger políticos que possam representar a respectiva doutrina.

Talvez você questione: “mas religiões cristãs não restringem a liberdade de seus fiéis?”. Uma resposta correta, todavia, muito sucinta, seria: “não!”. E por mais absurda ou surpreendente que possa soar, tal negação é injusta, porque todo cristão que exerça sua doutrina também acabará blindando sua liberdade por causa do uso racional do livre-arbítrio.

E quase todos nós presumimos que somos soberanos em nossas escolhas, acreditamos que temos total poder para tomar decisões corretas, como não consumir entorpecentes, ou optar por algo errôneo, como ingerir drogas. Portanto, cremos que somos portadores do livre-arbítrio, e, se realmente somos, o elegemos como aliado ou opositor.

Agora considere a história fictícia do Senhor Robert, que, influenciado por seu avô, Dr. Erasmus, certa vez tomou a decisão de visitar uma antiguíssima construção, aparentemente uma espécie de penitenciária. Para solucionar o enigma, Sr. Roberts resolveu livremente entrar naquilo que parecia ser uma cela. Na sequência, optou por trancar as grades e lançar as chaves para bem longe daquele que foi seu último aposento [2]. Histórias análogas, porém reais, são comuns.

Todos nós sabemos que o consumo de drogas é opcional e que, depois de consumi-las, delas nos tornaremos escravos. Também sabemos que o mesmo ocorre com a gula, o álcool, o sexo desregrado e uma infinidade de outras coisas, muitas das quais teologicamente podem ser resumidas pela palavra “pecado”. Por outro lado, é considerável que ninguém se torne dependente de, por exemplo, ser generoso ou estar sóbrio [3].

Em suma, a liberdade provém não só da vontade como também da razão. Battista Mondin (1926 – 2015) em sua obra “Quem é Deus? Elementos da teologia filosófica”, simplificou tal fato de modo implacável: “Se não houver orientação da razão, não há liberdade e nem vontade, mas simplesmente instinto [4]”.

Neste ponto é válido questionar: como a razão, sobretudo em função da ética, pode ser balizada em um Estado laico? Afinal, como exemplificado, um Estado leigo não é norteado pela religião da maioria e, portanto, acaba sendo direcionando pelo materialismo, o qual coloca a razão, a vontade e o instinto em pé de igualdade.

Certa vez, Olavo de Carvalho proferiu o que pode elucidar o cerne do problema aqui exposto. Não utilizando exatamente das próximas palavras, ele afirmou que: “se somos desprovidos de almas, nossos pensamentos e nossas ações são apenas resultantes de processos eletroquímicos, neste caso, condenar pessoas não teria sentido, por exemplo, se um terrorista detonar um carro-bomba, ele será tão culpado ou tão inocente quanto a própria bomba – não há reações eletroquímicas morais ou imorais [5]”!

Ainda objetivando a compreender o problema do materialismo, conjeture que você tenha sido transportado para 5 de janeiro de 1919, a data da fundação do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Com isso, presuma também que você tenha a chance de aniquilar o nazismo da história, bastando, para tanto, expor cientificamente aos seguidores de Hitler e ao próprio Hitler que o arianismo é uma absurdidade – você iria falhar – mesmo que incluísse na bagagem todo o atual conhecimento cientifico e tecnológico. Neste caso a ciência é impotente! Aliás, foi a não comprovada Teoria  ( não é por acaso que a chamam de teoria. Tem muitas perguntas ainda sem resposta )da Evolução que ofereceu toda a pujança de que os nazistas precisavam. Por outro lado, o cristianismo certamente poderia estancá-los!

Hitler era cristão? Não! Se palavras seguramente revelassem a índole das pessoas, tribunais seriam desnecessários; se ações momentâneas obrigatoriamente expusessem a ideologia dos indivíduos, sempre votaríamos em candidatos virtuosos. Mas, na maioria das vezes, apenas as colheitas resultantes de um longo processo de plantio são capazes de desnudar corações. E bastam um pouco de estudo e o mínimo de sinceridade para reconhecer que o mundo se tornou menos sanguinário depois e por consequência da vinda de Cristo.

É inacreditável a determinação com que as pessoas dessa religião se ajudam umas às outras nas suas necessidades. Não se poupam em nada. O seu primeiro legislador meteu-lhes na cabeça que eles eram todos irmãos!”, Luciano de Samósata (ca. 130-200) : escritor pagão (focava em escárnios e sátiras relativas ao cristianismo. [*]

É fato corroborado que a sacralidade da vida humana, de viés notoriamente católico, fez muito mais do que “apenas” abolir duelos entre gladiadores e consolidar os hospitais do modo como hoje são estabelecidos. Muitas pessoas, incluindo cristãos, desconhecem o fato de que antes de Cristo, os pobres, os fracos e os doentes eram tratados com desprezo e, às vezes, completamente abandonados. Difícil imaginar, entretanto, a ideia de ajudar aos outros sem expectativa de reciprocidade era pouco justificável.

O historiador Thomas E. Woods Jr., em sua obra “Como a Igreja Católica Construiu a Civilização ocidental”, documentou: [Platão, por exemplo, disse que um pobre homem cuja a doença o tornasse incapaz de continuar a trabalhar deveria ser abandonado à morte. Sêneca escreveu: “Nós afogamos as crianças que nascem débeis e anormais”]. Ainda no mesmo livro, Woods faz referência ao sociólogo Rodney Stark, por ter declarado que a filosofia clássica “considerava a piedade e a compaixão como emoções patológicas, defeito do caráter que os homens racionais deviam evitar. Dado que a piedade implicava prestar uma ajuda ou alívio imerecidos, era contrária à justiça [6].

Certa vez, num debate televisivo, Olavo de Carvalho exclamou: “quanto menos religiosidade autêntica, mais moralismo civil!”, mas Mario Sergio Cortella, o moderador, ficou surpreso [7]. Provavelmente, naquele dia muitos não notaram que, criar leis para que suicídios sejam evitados entre reais seguidores de Cristo, é tão útil quanto legislar para que endividados não queimem dinheiro. Jesus não “plantou” regras no papiro para colhê-las nos corações dos homens; mas agiu “em verdade e espírito”, influenciando e doando as “sementes” de seu próprio coração!

Crenças todos temos! O comandante de um voo crê na equipe de manutenção; a clientela de um restaurante crê na equipe de cozinheiros. Porém, presumir que o cristianismo persiste por mais de dois mil anos, alicerçado exclusivamente na coluna da fé, é, na melhor das hipóteses, ignorância; na pior, desonestidade intelectual. E motivos para aceitá-lo vão além dos morais.

big bang e outras descobertas relativamente recentes, como estudos arqueológicos, são bons exemplos dos vestígios do Deus cristão. Entretanto, aqueles que não consideram tais fatos depositam fé em algo futuro, possivelmente baseado na ciência e na tecnologia, itens atualmente tão úteis e tão admiráveis que ignoramos o que já em 1943, na obra “A Abolição do homem, C. S. Lewis alertou:

“Consideremos três exemplos típicos: o avião, o rádio e os anticoncepcionais. Numa comunidade civilizada, em tempos pacíficos, qualquer um que tenha dinheiro pode fazer uso dessas três coisas. Mas não se pode dizer estritamente que quem o faz está exercendo seu poder pessoal ou individual sobre a Natureza. Se eu pago para que alguém me leve a algum lugar, não se pode dizer que eu seja um homem que dispõe de poder. Todas e cada uma das três coisas que mencionei podem ser negadas a alguns homens por outros homens — por aqueles que vendem, ou por aqueles que permitem que sejam vendidas, ou por aqueles que possuem os meios de produzi-las, ou por aqueles que as produzem. Aquilo que chamamos de poder do Homem é, na realidade, um poder que alguns homens possuem, e que por sua vez podem ou não delegar ao resto dos homens [8]”.

No mesmo capítulo, Lewis ainda alerta:

“E, quanto aos anticoncepcionais, existe paradoxalmente um sentido negativo no qual todas as possíveis gerações futuras são os pacientes ou objetos de um poder exercido por aqueles que já vivem”.

Muitos de nós já ficamos encantados com shows aéreos, nos quais, literalmente, vemos aviões riscando os céus e comumente em voos invertidos. É muito provável que, para os pilotos, as apresentações também sejam empolgantes, mas certamente eles precisam de muito mais concentração, sobretudo quando voam de cabeça para baixo, afinal, todos os comandos são invertidos, ou seja, ao ordenar que a aeronave suba, ela desce; ao ordenar que o avião vire à esquerda, a proa da aeronave se move para a direita!

Muitos em nossa sociedade ficam em êxtase com nossas decadências e deprimidos com nossas ascendências. Coitados, eles não estão concentrados, eles não sabem que somos todos “tripulantes” e, sobretudo, eles não sabem que estamos de cabeça para baixo!

Escrito por Eric M. Rabello.

Notas:

  1. Conforme censo realizado pelo IBGE em 2010 e divulgado em 2017. Linkhttps://www.ibge.gov.br/estatisticas-novoportal/sociais/populacao/9662-censo-demografico-2010.html?edicao=9749&t=resultados. Se preferir, acesse artigo com as mesmas informações dispostas de modo conciso, em: https://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/o-ibge-e-a-religiao-cristaos-sao-86-8-do-brasil-catolicos-caem-para-64-6-evangelicos-ja-sao-22-2/
  2. Em alusão ao naturalista britânico Charles Robert Darwin, mais conhecido apenas por Charles Darwin, e seu avô materno, Erasmus Darwin (real precursor da Teoria da Evolução das Espécies). 
  3. Referência: https://www.youtube.com/watch?v=gW-u4a8I97U
  4. Quem é Deus? Elementos da teologia filosófica”. Primeira edição (1997) e quinta reimpressão (2015). Editora Paulus, ISBN 88-7030-725-5. Pag. 389. 
  5. Mais detalhes sobre este mesmo aspecto podem ser obtidos no quarto capítulo da obra “Fundamentos inabaláveis”, escrita por Norman Geisler e Peter Bocchino. Publicado pela Editora Vida, sob ISBN 978-85-7367-623. 
  6. Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental”. Terceira edição (2010). Editora Quadrante, ISBN 978-85-7465-125-5. Págs. 161 e 191. 
  7. Referência: https://www.youtube.com/watch?v=YsN-EhlL5V8
  8. A abolição do homem”. Segunda edição. Editora WMF Martins Fontes, ISBN 978-85-7827-541-9. Pags. 52 e 53. 

Um livro publicado recentemente nos Estados Unidos pretende mostrar uma realidade sobre a Igreja Católica pouco difundida. O título da obra já expõem a tese defendida: “Heroísmo e Gênio: de como os sacerdotes católicos ajudaram a construir – e podem ajudar a reconstruir – a civilização ocidental”.

“Durante este período, os sacerdotes católicos, somando-se a tantos homens de heroísmo e gênio em suas filas e também devido a suas posições de liderança, se converteram nos pioneiros e construtores insubstituíveis da cultura e da ordem sociopolítica cristã. ‘Heroísmo e Gênio’ apresenta alguns destes homens formidáveis”, diz na apresentação do livro.

O Padre William J. Slattery, autor do livro, ressalta o modo como a Igreja Católica construiu uma nova civilização inspirada pela Fé. “A construção e a conservação da civilização ocidental, em meio ao desgaste e terremotos culturais, é uma saga que se estende ao longo de mil e seiscentos anos”, explica na obra.

Segundo o professor da Universidade de Phoenix, Robert Curtis, esta perspectiva é surpreendente e profunda. “Em todos lugares que olhamos na história, desde os momentos de povoar regiões até os descobrimentos científicos, os momentos de conquista, os sacerdotes católicos estão ali: aplicando a razão, buscando as verdades menos conhecidas da criação de Deus e exigindo justiça”.

Após o colapso de Roma, o trabalho dos sacerdotes foi de suma importância para unificação cultural da Europa e a construção da civilização ocidental. Os sacerdotes ofereceram aos governos conceitos de dignidade humana e liberdade, além de desenvolver o conceito de cavalaria e ordens monásticas.

Os sacerdotes também praticaram e impulsionaram as artes, a música e a ciência, “sempre na vanguarda do desenvolvimento humano, sempre buscando revelar a criação de Deus”, comentou Curtis.

Dentre os sacerdotes famosos estão o Beato Fra Angélico, de enorme transcendência nas artes plásticas, o grande compositor Antônio Vivaldi e os cientistas Copérnico e George Lamaitre. São Tomás de Aquino e Santo Alberto Magno foram os sacerdotes que defenderam conceitos como, por exemplo, os direitos de propriedade individual.

O professor Curtis ressalta que “tudo isto é apenas a superfície do que os sacerdotes têm feito pela civilização ocidental. O que os sacerdotes podem fazer por nós hoje é conduzir-nos de volta a este mesmo caminho, recordando-nos que Deus nos fez quem somos e que se insistimos em fazê-lo sozinhos – como humanistas seculares – não teremos uma oportunidade”. (EPC)

Fonte: Gaudium Press

O Pavilhão dos Padres’, do jornalista Guillaume Zeller, fala sobre o campo de Dachau, onde sacerdotes católicos foram exterminados pelos nazistas.

Primeiro a ser inaugurado e um dos últimos a ser fechado, o campo de concentração de Dachau, a 17 quilômetros a noroeste de Munique, na Baviera, foi um dos mais terríveis laboratórios de tortura e morte do nazismo de Adolf Hitler. Em 12 anos de funcionamento, entre 22 de março de 1933 e 29 de abril de 1945, abrigou milhares de prisioneiros políticos da Alemanha e de países ocupados.

Opositores ao regime, combatentes da resistência, religiosos de vários credos, comunistas, homossexuais, deficientes e judeus superlotaram os 30 pavilhões erguidos em uma antiga fábrica de munição, para se tornarem modelo de outros centros de detenção. Heinrich Himmler fez ali um estágio, antes de se tornar o poderoso e cruel executor da política racial nazista. Também passaram por lá outros líderes do projeto de extermínio, como Adolf Eichmann e Rudolf Hoss.

A partir de 1938, começaram a chegar a Dachau os primeiros sacerdotes católicos. Do total de 2.720 enviados para o campo, 1.034 foram assassinados até 1945, no fim da 2.ª Guerra Mundial. Desembarcaram sucessivamente padres vindos da Áustria, de outras cidades da Alemanha, da antiga Checoslováquia, da França e de outros países, principalmente da Polônia. É a história desses prisioneiros que o jornalista Guillaume Zeller conta no livro O Pavilhão dos Padres, publicado em 2015 em Paris e lançado agora no Brasil pela editora Contexto. Zeller é diretor do Canal+, rede de televisão francesa, e autor do livro Oran, 5 Juillet 1962, sobre a guerra na Argélia.

É um relato preciso, com nomes, datas, depoimentos e descrições dos sofrimentos impostos aos prisioneiros. Dois deles, Pierre Metzger e Gérard Pierré, sobreviventes do pavilhão 26, onde se concentravam os sacerdotes, encabeçam a lista de agradecimentos do autor às pessoas que colaboram para a edição de ‘O Pavilhão dos Padres’. Além transcrever depoimentos sobre o horror de Dachau com chocante realismo, Zeller faz uma análise das relações da Igreja Católica com o nazismo, desde antes de Hitler conquistar o controle do partido e da Alemanha, em 5 de março de 1933. Os bispos alemães apoiaram o regime de início, mas mudaram de posição ao avaliar os riscos de sua ideologia.

O Vaticano assinou uma concordata com a Alemanha, quatro meses depois, com a pretensão de evitar um endurecimento do governo nazista. A Igreja recebeu garantias de respeito e liberdade, desde que renunciasse a qualquer atividade política.

Sacerdotes foram presos e torturados por terem protegido judeus. Na Noite dos Cristais, quando os nazistas invadiram residências e depredaram lojas de judeus, padre Bernhard Lichtenberg declarou na igreja Santa Edwiges de Berlim: “Lá fora, a sinagoga está ardendo, mas também é uma casa de Deus.” Detido em outubro de 1941, morreu em 5 de novembro de 1943, durante sua transferência para Dachau. Em 1994, foi reconhecido “Justo entre as Nações” pelo memorial de Yad Vashem, o Museu do Holocausto de Jerusalém.

Na Itália, invadida pelos alemães em julho de 1943, após a derrota do fascismo de Mussolini, 28 padres foram deportados. O frade dominicano Giuseppe Girotti foi mandado para Dachau, onde morreu, por ter protegido judeus, fornecendo-lhes documentos falsos e esconderijos. Também foi considerado “Justo entre as Nações” em Israel e seu decreto de beatificação foi assinado pelo papa Francisco em março de 2013.

A Congregação para as Causas dos Santos estuda vários casos de beatificação e canonização de religiosos do campo de Dachau. Alguns deles poderiam canonizados e juntar-se ao polonês São Maximiliano Kolbe e à alemã Santa Edith Stein, judia convertida, mártires do campo de Aushwitz, na Polônia.

Fonte:  O Estado de S. Paulo

 “Nós encontramos a marca de um selo do século VIII a.C. que deve ter sido feita pelo próprio profeta Isaías a apenas três metros de onde havíamos descoberto uma impressão de selo do rei Ezequias de Judá”

O profeta Isaías é um dos maiores profetas do Antigo Testamento. O nome Isaías significa “Deus ajuda” ou “Deus é auxílio” e viveu entre 765 a.C. e 681 a.C.

Numa visão do trono de Deus no Templo rodeado de serafins, um anjo lhe purificou os lábios com brasas ardentes enquanto a voz de Deus lhe ordenava levar Sua mensagem ao povo.

Em seu livro, incluído na Bíblia, Isaías é o profeta que mais fala sobre o Messias prometido, Nosso Senhor Jesus Cristo, descrevendo-o como “servo sofredor” que morreria pelos pecados da humanidade e como um príncipe soberano que governará com justiça.

O capítulo 53 profetiza nossa Redenção pelo Messias:

“Mas ele foi castigado por nossos crimes, e esmagado por nossas iniquidades; o castigo que nos salva pesou sobre ele; fomos curados graças às suas chagas”. (Is 53:5)

Ele também profetizou que Nosso Senhor nasceria de Maria Virgem:

“o próprio Senhor vos dará um sinal: uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e o chamará Deus Conosco [Emanuel]” (Is 7,14).

No Novo Testamento há centenas de citações ou referências às suas predições, fato reconhecido até por não católicos:

“O Livro de Isaías contém muitas referências diretas e indiretas ao Messias, chamando-O de ‘Renovo do Senhor’” (Is 4.2), “rebento do tronco de Jessé” (Is 11.1), “meu servo [de Deus]” (Is 42.1), e “o meu escolhido [de Deus], em quem a minha alma se compraz” (Is 42.1).

“A Palavra declara que Ele é o herdeiro por direito ao trono de Davi (Is 9.7; cf. Lc 1.32-33) e diz que Ele autenticará Seu papel como Messias ao curar os cegos, os surdos e os aleijados (Is 29.18; Is 35.5-6; cf. Mt 11.3-5; Lc 7.22).

“Ele também estabelecerá a Nova Aliança (Is 55.3-4; cf. Lc 22.20) e um dia estabelecerá um Reino Messiânico sobre o qual reinará e no qual será adorado (Is 9.7; Is 66.22-23; cf. Lc 1.32-33; Lc 22.18,29-30; Jo 18.36)”. (apud O Evangelho Segundo Isaías”)

Ele viveu no reino de Judá entre os séculos VIII e VII a.C., durante os reinados de Ozias, Jotão, Acaz e Ezequias. Também participou na defesa de Jerusalém cercada pelo rei assírio Senaqueribe.
Mas, só até agora, comemorou Eilat Mazar, pesquisadora do Instituto de Arqueologia da Universidade Hebraica de Jerusalém:Mas, fora desta enorme contribuição registrada na Bíblia que constata documentalmente sua existência, não se tinha evidências arqueológicas, portanto materiais, da vida do profeta.

“Nós encontramos a marca de um selo do século VIII a.C. que deve ter sido feita pelo próprio profeta Isaías a apenas três metros de onde havíamos descoberto uma impressão de selo do rei Ezequias de Judá.”

A descoberta foi anunciada por Eliat em seu artigo “Esta é a assinatura do profeta Isaias?” (“Is This the Prophet Isaiah’s Signature?”) publicado na revista Biblical Archaeology Review.

O selo, ou mais propriamente “bula”, foi encontrado num sítio arqueológico em Ophel, área entre o Monte do Templo e a Cidade de Davi, usada na antiguidade como complexo residencial da família real em Jerusalém.

Os arqueólogos encontraram 34 pequenas peças de argila com impressões de “bulas”, com os nomes de seus donos.

Vista geral de Jerusalém com o campo arqueológico de Ophel, local do achado.

Os pedaços de argila tinham apenas um centímetro de diâmetro.

Entre as peças, uma traz o nome do rei Ezequias.

Mas o artefato mais interessante tinha a inscrição “Yesha’yah”, o nome de Isaías em hebraico antigo, acompanhado pelas letras “N”, “V” e “Y”, as três primeiras da palavra “profeta” em hebraico.

O nome de Isaías está claro, mas há discussão sobre uma letra que faltaria para ter certeza da palavra “profeta”.

Para a Dra. Mazar, o lugar exato da letra foi perdido junto com a metade faltante da “bula”.

A inscrição completa deveria dizer “Pertencente a Isaías profeta”.

A Dra. Mazar aponta casos semelhantes verificados em outras descobertas.

E se a interpretação for correta teríamos a primeira prova material extra bíblica da existência do profeta e de que era reconhecido como tal durante sua vida, de acordo com matéria publicada pela “National Geographic”.

O selo, ou bula, com o nome do profeta Isaías, desenterrado em Ophel.

O Antigo Testamento conta episódios em que Ezequias procurou Isaías, indicando que o profeta lhe era bastante próximo e que seria um dos principais conselheiros reais.

“Se for o caso de a peça ser realmente do profeta Isaías, então não seria surpresa encontrá-la perto de uma pertencente ao rei Ezequias dada à relação simbiótica entre o profeta Isaías e o rei Ezequias descrita na Bíblia”, acrescentou Mazar.

A Bíblia é o maior testemunho escrito da Antiguidade. Ela contém a palavra revelada e a ela devemos um assentimento de Fé, inclusive do ponto de vista histórico.

A veracidade inclusive histórica da Bíblia foi confirmada – e continua sendo-o – em inúmeras descobertas de valor científico que confortam às inteligências e corações de boa fé que possam ter dúvidas a respeito.

(via Ciência confirma Igreja)

Paulo é um personagem difícil de entender. A Escritura contém seus pensamentos sobre muitos temas, mas diz relativamente pouco sobre as motivações por trás deles. Nisso, Paulo difere de outros personagens bíblicos, cuja vida interior faz parte de sua história.

O comentário é do jesuíta estadunidense Michael Simone, professor assistente de Escritura no Boston College, em artigo publicado por America, 23-03-2018

Por exemplo, os Evangelhos retratam Pedro – indubitavelmente o único apóstolo igual a Paulo em importância – como alguém cuja fé mal superou sua insegurança. Com o encorajamento de Jesus, ele caminhou sobre as águas, mas apenas por um momento antes que seu medo da tempestade o dominasse. A fraqueza de personagens como Pedro tem um valor espiritual. Ela dá aos leitores um ponto de identificação com alguém que superou seu tumulto interior e desenvolveu uma confiança mais profunda na graça.

Paulo admite essas fraquezas, mas sua extraordinária autoconfiança pode obscurecê-las. Isso pode se dever a seu ambiente intelectual grego, que enfatizava a importância do sōphrōn, a virtude do autocontrole. Indivíduos maduros projetavam autocontrole e não falavam de suas fraquezas.

Assim, embora Paulo falasse de seu “espinho na carne”, ele não dava detalhes específicos. Do mesmo modo, quando Paulo enfrentou sua própria tempestade no mar, ele disse a seus companheiros de tripulação: “Aconselho que vocês sejam corajosos, porque ninguém de vocês vai morrer: só perderão o navio. Esta noite me apareceu um anjo do Deus ao qual pertenço e a quem adoro. O anjo me disse: ‘Não tenha medo, Paulo’” (At 27, 22-24; trad. Bíblia Pastoral). Este é um forte contraste com Pedro, e pode ser desafiador se identificar com uma pessoa com um autocontrole tão destemido.

A grande conquista do filme Paul, Apostle of Christ [Paulo, Apóstolo de Cristo] é seu esforço de explorar a vida interior do homem que podia falar tais palavras. Quaisquer que sejam os méritos cinematográficos do filme, trata-se de um estudo fascinante do encontro de Paulo com a graça.

A obra é uma produção da Affirm Films, uma divisão da Sony que produz filmes com temáticas que atraem o público cristão. Os cineastas imaginam a prisão de Paulo durante a perseguição de Nero (64-68 d.C.), retratando-a com todos os terríveis detalhes encontrados nos Anais de Tácito. As conversas entre Paulo e os outros personagens permitem aos cineastas explorar aspectos do caráter do apóstolo que são difíceis de ver de outro modo. Essas explorações revelam um homem que, embora destemido, também era profundamente humilde, que inspirava os outros com sua confiança, e cuja vida foi irrevogavelmente transformada pelo amor de Cristo. “Todavia, esse tesouro nós o levamos em vasos de barro, para que todos reconheçam que esse incomparável poder pertence a Deus e não é propriedade nossa” (2 Co 4, 7).

A humildade de Paulo aparece com mais clareza em suas conversas com Maurício, o soldado que dirigia a prisão de Mamertina. Maurício encarna a cultura romana; é orgulhoso, severo, supersticioso e cínico. A filha de Maurício está morrendo de uma doença misteriosa, e suas orações à deusa Bona Dea ficaram sem resposta.

Ao ouvir a reputação de Paulo como ‘curador’, Maurício o convoca, mas, quando Paulo explica que não tem nenhum poder exceto aquele que Cristo confere, Maurício hesita, temendo que a confiança em Cristo pudesse enfurecer os deuses de Roma e exacerbar a condição de sua filha.

Enquanto Maurício reúne mais evidências de que Paulo é um milagreiro, Paulo intensifica sua reivindicação de impotência, até mesmo se orgulhando de sua fraqueza. Maurício não tem paciência para isso: “Muito poucos homens admitem fraqueza; certamente nenhum deles se orgulha disso!” No entanto, Paulo o faz, evitando qualquer crédito pelo bem que vem de seus esforços.

Os cineastas também traçam a maneira pela qual a própria confiança de Paulo na graça inspira uma confiança semelhante em toda a comunidade cristã. O filme destaca o serviço que uns oferecem aos outros com confiança simples, mas contagiante, no amor de Deus. Paulo acreditava no infinito poder de Deus, e outros encontravam forças para acreditar também. “Deus, por meio do seu poder que age em nós, pode realizar muito mais do que pedimos ou imaginamos; a ele seja dada a glória na Igreja e em Jesus Cristo por todas as gerações, para sempre. Amém!” (Ef 3, 20-21).

Alguns dos momentos mais marcantes do filme surgem quando Paulo tenta explicar a fonte de seu zelo. Ele descreve sua conversão como um momento em que foi “completamente conhecido e completamente amado”. O filme revela que seu “espinho na carne” seria a culpa que ele continua experimentando sobre suas antigas perseguições. Seu papel na morte de uma criança pesa especialmente sobre ele e o torna desconfortavelmente semelhante com os romanos que matam um órfão cristão no início do filme.

O caminho para Damasco colocou Paulo em uma estrada diferente. Receber a misericórdia de Cristo e ser amado por aqueles que ele mesmo odiava o abalou profundamente. Com o passar do tempo, isso evocou um amor semelhante por parte dele. Esse amor crescente aquietou seus medos e o atraiu para o serviço vitalício a Cristo e à Igreja. Perto do auge do filme, o amor destemido de Paulo inspira um amor semelhante nos cristãos de Roma, que correm o risco de serem presos no esforço de salvar a filha de Maurício.

Assim, o filme revela que a motivação de Paulo era o seu espanto pelo fato de Cristo poder amá-lo, apesar de seus crimes. Sua transformação não ocorreu a partir de uma humilhação punitiva, mas sim a partir do poder dos sonhos de Cristo. Seu zelo destemido foi sua resposta a esse ato de graça.

No filme, vemos Paulo viver a transformação descrita em Coríntios: “Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Depois que me tornei adulto, deixei o que era próprio de criança. Agora vemos como em espelho e de maneira confusa; mas depois veremos face a face. Agora o meu conhecimento é limitado, mas depois conhecerei como sou conhecido. Agora, portanto, permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor. A maior delas, porém, é o amor” (1Co 13, 11-13).

O comentário é do jesuíta estadunidense Michael Simone, professor assistente de Escritura no Boston College, em artigo publicado pela revista America

Logo no início da pré-estreia em Nova York do novo filme Paul, Apostle of Christ[Paulo, apóstolo de Cristo], perto da primeira fileira do cinema, um bebê começou a chorar. E chorou por cerca de um minuto durante a cena de abertura – em que Lucas atravessa secretamente passagens iluminadas por tochas, em busca dos cristãos escondidos de Roma – e continuou intermitentemente ao longo do filme. Os responsáveis pela criança não se levantaram e não a levaram para fora. Você podia sentir que todo o público não podia acreditar nisso. Alguém levou seu recém-nascido para ver um filme, e esse recém-nascido chorou e não foi levado para fora do cinema.

Mas o que se podia fazer? A exibição aconteceu no Sheen Center, um ministério católico de artes no centro de Manhattan. Paul, Apostle of Christ não é apenas sobre Paulo que passa seu tempo em uma prisão romana, mas também sobre um grupo de cristãos que enfrenta pagãos que abandonam cruelmente seus órfãos recém-nascidos. Qual empregado de uma entidade de arte católica que exibe um filme sobre cristãos lutando por crianças pequenas se levantaria diante de todos e diria a uma mãe e a um bebê que eles devem sair?

E para melhorar um pouco mais: em três quartos do filme, quando o bebê começou a chorar de novo, uma freira pegou a criança, levou-a para um corredor lateral e balançou-a em seus braços. Uma irmã religiosa em um hábito branco e azul nina ternamente uma criança, enquanto, diretamente em cima das nossas cabeças, o apóstolo Paulo nos diz que o amor é paciente, o amor é gentil. Que gerente de cinema contemplaria essa cena e diria: “Chega. Fora”? Isso não aconteceria.

E para melhorar ainda mais: o prédio que abriga o Sheen Center fica perto, dentre todas as outras possibilidades, da Planned Parenthood [ONG conhecida por realizar abortos]. Um dos serviços da Planned Parenthood ocorre a cerca de 35 segundos de caminhada daquilo que acontece dentro do Sheen Center. Quem no mundo paulino gostaria de ver o espetáculo de uma mãe, que tenta ver um filme sobre o amor paciente de cristãos oprimidos, forçada a sair de um cinema cristão porque seu bebê está agindo de forma inconveniente e que, com terrível ironia, deve passar na frente da Planned Parenthood para fazer isso?

Então, todos nós aguentamos o garoto. O filme foi exibido. O bebê não chorou nos últimos 20 minutos. Paulo foi decapitado. O resto dos cristãos romanos seguiu em frente.

A exibição de Paul, Apostle of Christ foi realizada em grande parte para “líderes da fé” católicos e cristãos, como a equipe de publicidade do filme afirmou. Produzido por uma divisão da Sony chamada Affirm, a estratégia de relações públicas da empresa era promover exibições em igrejas em todo o país  antes de sua estreia. Todos que compareceram à exibição receberam uma sacola de tecido com cartazes e postais do filme, uma caneta com a inscrição “Paulo, Apóstolo de Cristo” e uma pulseira de couro com as palavras: “O amor é o único caminho. paulmovie.com”.

Antes da pré-estreia no Sheen Center, a Affirm já havia feito 60 desse tipo de eventos (o filme “Quarto de Guerra”, também da Affirm, que teve uma distribuição semelhante, foi um sucesso, arrecadando um total de 67 milhões de dólares de bilheteria).

Antes do filme, meu colega José Dueño e eu gravamos entrevistas com o ator James Faulkner (Paulo), com o produtor do filme, T. J. Berden, e com o diretor, Andrew Hyatt. […]

As entrevistas centram-se principalmente em Faulkner e nos encontros dos cineastas com a fé, a esperança e o amor durante as filmagens de “Paul…”. Durante nossa conversa, esses homens se mostrariam ávidos, humildes e espiritualmente arraigados. Possivelmente tão arraigados a ponto de poderem achar que um bebê chorando durante seu filme grave e trágico não é algo irritante, mas sim até apropriado.

O comentário é de Joe Hoover, S.J., em artigo publicado por America, 23-03-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Assista ao trailer: