Fonte: História viva.

A Revolução Francesa marcou para Igreja Católica um dos períodos mais difíceis de sua história. Isto porque a Revolução não só propagou os ideais iluministas que incluíam um sentimento anticlerical e anti-religioso, como também exerceu na prática esses ideais, muitas vezes de forma violenta.

A França sempre teve uma posição de destaque na cristandade, desde os séculos medievais, da conversão dos francos ao catolicismo até a época em que a cidade francesa de Avignon abrigou a sede do papado. Foi também a França um dos maiores pontos de conflito entre católicos e protestantes.  Tais fatos levaram a França a ser considerada por muitos papas como a “filha predileta da Igreja”.

Às vésperas da Revolução, o país mostrava um quadro onde o catolicismo vivia o seu auge: a população participava dos ritos religiosos e o clero paroquial cuidava da vida religiosa da sociedade. Exercia grande influencia na vida política, pois o poder absoluto do rei era garantido pelo direito divino, e o próprio clero possuía status de Estado. A religião católica influenciava também o tempo, com o calendário gregoriano que possuía festas e feriados cristãos. Por fim, era papel do clero presidir as atividades civis como os casamentos e os registros de nascimento e óbito. Era esse quadro que a revolução viria a mudar radicalmente.

A Revolução Francesa, em sua tentativa de acabar com as estruturas feudais ainda vigentes, colocou a Igreja Católica em uma difícil situação. Desde os primeiros passos da Assembléia Constituinte até a Constituição Civil do Clero, foram tomadas medidas capazes de levantar suspeitas de que a revolução era hostil ao clero. Uma das primeiras medidas dos revolucionários foi a supressão do dizimo e o confisco dos bens do clero, para saldar o déficit nacional. Essas medidas, a principio, não causaram um conflito direto entre a Igreja e a Revolução.

O conflito só viria com a Constituição Civil do Clero e o juramento dos padres. Tal medida dividiu o clero francês: o clero constitucional, fiel à constituição, e o clero refratário, fiel ao papa. Este repudiava cada medida dos revolucionários, pois, além de perder o controle sobre o clero francês também perdeu suas possessões territoriais francesas na cidade de Avignon.

É possível afirmar que a Constituição Civil do Clero foi o divisor de águas nas relações entre a Religião Católica e o Estado revolucionário francês. Foi o juramento dos padres que estimulou a contra-revolução na Vendéia e a guerrilha camponesa dos Chouans – a Chouannerie, da qual participaram o clero refratário e a aristocracia. Foi também a questão do juramento que desencadeou um movimento violento de ataques aos padres e aos templos. Além disso, subordinava o clero ao Estado rompendo os seus vínculos com o papa.

A Igreja ainda viria a perder suas áreas de influência na vida política e social. O rei Luís XVI, antes de ser decapitado, é obrigado a renunciar o seu “poder divino”, tornando-se um cidadão como outro qualquer. O clero deixa de presidir as atividades da vida civil como o casamento e os registros de certidões de nascimento e de óbito.

É importante ressaltar que na tentativa de enterrar de vez a influência católica, o governo aboliu o calendário gregoriano acabando com os dias da semana, e conseqüentemente, eliminando as festas e feriados religiosos, inclusive o domingo, conhecido como “Dia do Senhor”.Para substituí-lo criou um novo calendário, conhecido como Calendário Republicano Francês, que marcaria o inicio da nova era da Republica Francesa dando uma nova nomenclatura aos meses e semanas de acordo com as estações do ano.

O período do Terror marca o inicio do movimento violento que se deu contra a Igreja Católica. Igrejas são apedrejadas, padres são forçados a abdicar, imagens religiosas são destruídas e o culto religioso passa a ser proibido. Podemos ainda citar as tentativas de substituir o culto religioso por um culto revolucionário, como o culto à razão e ao Ser Supremo. Esses cultos exaltavam a vitória da razão e da consciência sobre a dominação da Igreja. Sobre o culto ao Ser Supremo, Robespierre aparece como pontífice da religião do Estado na tentativa promover a união entre o sentimento revolucionário e o sentimento religioso.

Passado o período violento do Terror, com a queda de Robespierre, seguiu-se uma fase confusa para a religião. Os homens que o derrubaram eram anticlericais que participaram dessas perseguições. Contudo, a política da Convenção Termidoriana seguia a lógica do retorno da liberdade que o período do Terror havia negligenciado. A essa lógica de liberdade estava ligada à questão da liberdade de culto. No período que vai de 1795 a 1799, as Assembléias do Diretório agiam ora permitindo o retorno ao culto, ora regressando a uma política de perseguição.

Esse quadro só seria resolvido com Napoleão Bonaparte. No período do Consulado, Napoleão e o Papa Pio VI assinam uma Concordata que redefine as relações entre a Igreja e o Estado. Por essa Concordata a Igreja Católica era reconhecida na sua unidade e estatuto, a liberdade de culto era garantida e o catolicismo era aceito como a religião da maioria dos franceses. Contudo a Igreja ficava subordinada ao Estado, uma vez que a nomeação de bispos era feita pelo Consulado. Os territórios da Igreja, como Avignon, e seus bens também não são restituídos.

O ultimo pilar do movimento de ataque a religião católica, o Calendário Republicano, foi extinto por Napoleão no Império, em 1805.

Cronologia:

04/08/1789                                                  Abolição dos direitos feudais e supressão do dizimo.
02/11/1789                                                   Confisco dos bens do clero para saldar déficit nacional.
12/07/1790                                                   Aprovada a Constituição Civil do Clero.
26/11/1790                                                   Decreto fixando o prazo de dois meses para o juramento dos padres em exercício à Constituição.
03/1793 à 03/1796                                     Revolta da Vendéia e guerrilha camponesa dos Chouans
07/11/1793 (17 de Brumário do ano II)  Abjuração do bispo de Paris, marca o inicio da descristianização.
21/11/1793 (1 de Frimário do ano II)      Intervenção de Robespierre, refreando a descristianização violenta.
24/11/1793 (4 de Frimário do ano II)     Convenção Nacional adota o Calendário Republicano, determinando a data de 22/09/1792 como inicio do ano I da Republica.
07/05/1794 (18 de Floreal do ano II)      Relatório da Convenção que define as relações entre Estado e Igreja.
27/07/1794 (09 de Termidor do ano II) Queda de Robespierre , sucedido por anticlericais que haviam participado da descristianização violenta.
18/08/1797 à 17/09/1797 (Frutidor do ano V)   Inicio da política de perseguição religiosa.
07/1801                                                         Concordata assinada entre Napoleão e o Papa Pio VI.
31/12/1805                                                   Abolição do Calendário Republicano por Napoleão.

Textos de época

“A lei considera o casamento como sendo um contrato civil”. (Artigo 7 do Titulo II da Constituição Francesa de 1791).

“A lei não reconhece os votos religiosos, nem qualquer outro compromisso que seja contrário aos direitos naturais, ou à Constituição”. (Constituição Francesa de 1791).

“O novo calendário assim como suas instruções serão enviadas aos corpos administrativos, as municipalidades, aos tribunais, aos juizes de paz e a todos os oficiais públicos, aos mestres de todas as instituições e as sociedades populares. O conselho executivo provisório fará passar aos ministros, cônsules e outros agentes da França nos países estrangeiros”. (Artigo 13 do Decreto da Convenção Nacional sobre a instituição do Calendário Republicano).

Veja mais:

“Em nome da Revolução levou-se a cabo na França um verdadeiro extermínio, especialmente de católicos, sobretudo no oeste e em La Vendée. No caso de La Vendeé, foi dada a ordem de eliminar as mulheres para que não pudessem trazer filhos ao mundo e mutilar os meninos para que quando maiores não se tornassem guerrilheiros.

A Revolução suprimiu, sem cerimônia, o papel da Igreja na ordem social dos séculos XVIII e XIX: com o desaparecimento dos conventos e execução de milhares de sacerdotes, apesar de que, em 1789, os elementos do baixo clero tinham se unido aos Constituintes que derrubaram a antiga ordem social, desapareceram hospitais, asilos, casas de caridade, albergues, escolas.

A retórica das leis humanitárias não pôde evitar que, na França, dos seus dezesseis milhões de habitantes em idade ativa, dois milhões fossem mendigos.” (CRUZ, Juan Cruz. Filosofia da História. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência “Raimundo Lúlio”, 2007, p.190)

“Contudo, no seio desta libertação pelo direito, certos paradoxos que mostrariam o lado utópico da Revolução começaram a ficar evidentes. O mais claro foi a relação entre a Revolução e a Igreja Católica. Como a Revolução era a proclamadora de liberdade, igualdade e Fraternidade, por que via na Igreja Católica o principal inimigo? A Revolução não foi simplesmente anticlerical, porém algo mais grave: foi anticristã, anticatólica. Pretendeu descristianizar o país, extirpando um dos fundamentos culturais do homem. Seguiu as pautas do Iluminismo com seu modelo de homem sem visão transcendente.”(CRUZ, Juan Cruz. Filosofia da História. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência “Raimundo Lúlio”, 2007, p.179)

“Se, em 1789, a maioria dos franceses era católica praticante, quinze anos mais tarde, um terço dos católicos não cumpriam sequer o preceito dominical ou o pascal. A Revolução levou a cabo a descristianização maciça da França.”(CRUZ, Juan Cruz. Filosofia da História. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência “Raimundo Lúlio”, 2007, p.179-180)

“A antiga idéia de pecado é traduzida agora em termos de exploração, desigualdade e opressão; e o modo pelo qual se sai dele não é a Redenção, mas a ‘Revolução’”. (CRUZ, Juan Cruz. Filosofia da História. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência “Raimundo Lúlio”, 2007, p.188)

“A transformação do novo templo de Ste. Geneviève no Panteão dos homens ilustres confirmaria Paris ainda mais como a sede da religiosidade revolucionária. O Panteão foi concebido como templo no qual ‘tudo será deus, exceto o próprio Deus.’”(SABORIT, Ignasi Terradas. Religiosidade na Revolução Francesa.Rio de Janeiro: Imago, 1989, p.153)

“Assim, faz sentido essa celebração de Rousseau, Franklin, Voltaire e Mirabeau feita pelos jacobinos em 12 de fevereiro de 1792:  “Cidadãos, cidadãs, que hoje reunis neste recinto as imagens reverenciadas desses filósofos, primeiros deuses da liberdade que criaram de pólo a outro do mundo, vós que prestais a sua memória o culto e as homenagens que todo cidadão amigo da igualdade e da humanidade lhes deve, segui vosso caminho, marchai com firmeza e sob a proteção das leis e dos estandartes da liberdade; ensinai, cultivai a moral pura dos Voltaire, dos Rousseau, e assim como Franklin e Mirabeau amai com grande estima a vossa pátria, defendendo-a de todas as investidas dos déspotas: arrancai seus cetros e colocai-os não mãos da razão, a única que deve governar o universo…” (SABORIT, Ignasi Terradas. Religiosidade na Revolução Francesa. Rio de Janeiro: Imago, 1989, p.158)
Segue um trecho da “missa” sans-cullote, verdadeira réplica da missa católica, com inversões simbólicas evidentes:

“Nota- O sumo sacerdote, o primeiro Ministro, não deve usar nenhum traje especial. Deve estar vestido de soldado, ou usar a faixa de magistrado do povo. Na medida do possível, deve ter uma voz dotada de extensão e emoção…
A sala está escura, a estátua da Liberdade se encontra sobre o altar colocado no fundo do templo. O Sumo Sacerdote (pegando o copo cheio de vinho das mãos do mestre de cerimônias, que deve se colocar atrás dele):
“Que esta santa libação seja hoje o sinal da aliança de todos os franceses. É em tua honra, ó Divindade tutelar da França, que derramamos este vinho sobre a terra, que o sangue de nossos inimigos umedeça assim a nossa terra natal. (Derrama o vinho no chão.) Que nossos prazeres se transformem em vitórias, e que a vitória seja para nós um prazer.”

O Sumo Sacerdote (no meio do altar):

Glória: “Glória seja dada, no céu e na terra, aos homens livres. Nós te glorificamos, te bendizemos, te adoramos santa liberdade, porque asseguraste ao povo francês uma felicidade imorredoura, aniquilando os animais ferozes que viviam de seu sangue, conduzindo Luís Capeto, os brissotinos, fuldenses e outros à Guillotina…”

Sumo Sacerdote: “Que a igualdade esteja entre nós.

Ministros: “Que nos una com os mais suaves laços.”

Credo: “Creio na declaração dos direitos do homem.”(SABORIT, Ignasi Terradas. Religiosidade na Revolução Francesa.Rio de Janeiro: Imago, 1989, p.123)

Pietro Zander: «O primeiro Papa repousa aqui, aqui estão as provas». Os restos do apóstolo Pedro em uma nuvem, com umidade de 100%. Desde 1506 as obras nunca são interrompidas.

Tocar com a mão o coração do cristianismo significa descer 8 metros nas entranhas da terra, no que à primeira vista poderia parecer o inferno, se ao longo dos túneis não fossem encontradas muitas portas automáticas de cristal. A umidade constante varia entre 98 e 100 por cento. Imediatamente o suor brota e começa a escorrer ao lado do nariz. Equilíbrio termo-higrométrico perfeito: a água não pode evaporar das paredes e, portanto, não deixa resíduos salinos nos afrescos. “Estamos em uma nuvem”, conta ao mostrar o caminho o “menor Pedro”. O arqueólogo Pietro Zander define-se assim para distinguir-se do “maior Pedro”, citado por Dante no Inferno da Divina Comédia. Sobre os ossos do primeiro papa, encontrados há 65 anos, quem vigia é ele, Zander. Não é apenas responsável pela necrópole, que está localizada no subsolo da Basílica do Vaticano, mas mais abaixo pelas Grutas, onde milhares de fiéis transitam todos os dias para se ajoelhar nos túmulos dos sucessores do pescador da Galileia: em nome da Fábrica de São Pedro (dicastério vaticano), também dirige a conservação e restauração do patrimônio artístico no imenso canteiro de obras, inaugurado em 18 de abril de 1506 pelo Papa Júlio II.

Aqui as obras nunca são interrompidas.

Quando terminam, já está na hora de recomeçá-las. Para o Jubileu de 2000, refizemos a fachada. Entre 2006 e 2016, os 35 mil metros quadrados da planta externa. Nos últimos dois anos as duas cúpulas menores, de 30 metros de altura. A partir de 2019 devemos pensar na Cúpula da basílica, de 14 mil toneladas de peso. Sem mencionar o interior.

Vamos mencionar, em vez disso.

A basílica ocupa 2,2 hectares de superfície, contém 10 mil metros quadrados de mosaicos, atinge 132 metros de altura. Somente o dossel de Bernini mede tanto quanto um prédio de dez andares.

Vocês devem ser muitos para cuidar de tudo isso.

Não, 120 pessoas, incluindo os arquivistas que têm em custódia 2 quilômetros de documentos administrativos, entre os quais os custos das “allegrezze”, os seis banquetes oferecidos por Michelangelo aos trabalhadores. Em 1º e 2 de novembro de 1549 foram consumidos 50 kg de vitela, 100 de gado, 30 de salsichas, 30 de queijo pecorino e 27 de massa e mais de 460 litros de vinho. Hoje os trabalhadores são 80, também encarregados da necrópole.

E que superfície ela ocupa?

Ao longo de um percurso de 70 metros foram encontrados 22 edifícios, com mil túmulos. Em direção ao obelisco, há pelo menos 350 outros edifícios sepulcrais ainda inviolados.

Por que não são trazidos à luz?

Para chegar ao túmulo de Pedro, foi o suficiente abrir o chão das Grutas Vaticanas. Mas, para pesquisar mais para o leste, seria preciso cavar sob a basílica e a praça até 12 metros de profundidade.

Por que as investigações sobre o túmulo de Pedro começaram apenas em 1941?

Já está confirmado que a antiga basílica, construída pelo imperador Constantino no século IV, apoiava-se sobre o túmulo do Príncipe dos Apóstolos. Naquele lugar, Pedro foi crucificado de cabeça para baixo por ordem de Nero. Depois do incêndio de Roma no ano 64, muitos cristãos “julgados culpados de ódio contra o gênero humano”, como relata Tácito, nos Anais “foram devorado por cães, ou foram crucificados e queimados vivos, para que servissem como tochas para iluminar a noite”. Portanto, sendo essa terra banhada pelo sangue dos mártires, a cada descoberta arqueológica os papas ordenavam a interrupção das escavações e fechavam tudo como sinal de respeito.

A razão pela qual Pio XII, um homem de tradição, se desviou desse hábito piedoso me escapa.

Ele tinha sido núncio apostólico em Berlim, então prestava muita atenção ao mundo protestante, que refutava a presença dos restos mortais de Pedro debaixo do altar papal da Confissão. Ele estava procurando a prova e a encontrou. Mas teria sido suficiente considerar que não havia nenhuma razão no mundo para que Constantino construísse uma basílica justamente aqui, entre os pântanos, em solo argiloso, naquele que Tácito em suas Histórias chama de ‘os infames lugares do Vaticano’.

Desculpe o trocadilho: que provas há de que “a prova” é autêntica?

Várias, começando com a primeira edícula funerária construída sobre o túmulo de Pedro, encostada em um muro pintado de vermelho. Dela fala Eusébio de Cesareia, comentando a resposta dada em 200 dC pelo padre Gaio a Proclo, herege habitante em Hierápolis da Frígia, sobre a presença dos “troféus”, ou seja, as sepulturas de Pedro no Vaticano e de Paulo na via Ostiense. Naquele muro vermelho havia um grafite, traçado por um cristão que fora venerar os restos mortais do apóstolo. Hoje é guardado no cofre da Fábrica de São Pedro com o número de inventário 0001.

Descoberta-chave, dir-se-ia pelo número.

É composto por seis letras gregas: ‘Pet eni’. Segundo os estudiosos, a frase completa significava ‘Petros eni’, Pedro está aqui, ou ‘enesti’, está aqui dentro, ou ‘Petros en irene’, Pedro em paz. Constantino encerrou essa edícula, com o túmulo subjacente, em um santuário de 3 metros de altura. Ao redor, dispostos em forma circular, outros sepulcros a uma distância de respeito, quase para sinalizar a importância do falecido. No monumento foram erigidos os altares de Gregório Magno e Calisto II e, finalmente, em 1594, o de Clemente VIII, sobre o qual celebra Francisco. Nunca, ao longo dos séculos, esse ponto central foi modificado. O Papa reside aqui porque é o sucessor de Pedro. O Vaticano existe porque aqui foi martirizado e está enterrado Pedro. Não é Zander que diz isso. É atestado desde o século IV por Eusébio de Cesareia, falando de multidões vindas de toda parte do mundo.

Mas a respeito dos ossos de Pedro…

Em 1953, a epigrafista Margherita Guarducci identificou as relíquias nos restos mortais que Constantino havia embrulhado em um pano roxo tramado com fios de ouro. Em 1962, foram examinados pelo professor Venerando Correnti, presidente do Instituto de Antropologia, que os atribuiu a um homem robusto de idade madura. Os resíduos de terra tinham a mesma composição química do túmulo de São Pedro.

Toda vez que eu desci nas Grutas Vaticanas, vi multidões de fiéis diante do túmulo do Papa Wojtyla, agora transladado para a basílica, e nunca ninguém rezando diante do túmulo de São Pedro.

Falamos de 35 mil visitantes por dia. Se chegasse de manhã cedo, antes da multidão de turistas, encontraria devotos também ali. Já me aconteceu de ver alguns colocando a cabeça, como um sinal de deferência, sob o pé da estátua de Pedro, aquela desgastada pelo toque das mãos.

E são muitos que acessam a necrópole?

Cerca de 62 mil pessoas por ano, em grupos de dez e por não mais que uma hora e meia. O número fechado se tornou necessário porque cada indivíduo emite calor como uma lâmpada incandescente de 120 watts, fazendo com que diminua a umidade e se altere o microclima. Também cria uma degradação, levando esporos com as solas dos sapatos. Isso explica o uso da iluminação especial germicida para impedir o crescimento de microfungos e algas no sítio arqueológico. Nós tivemos que procurar os mesmos restauradores que cuidavam da tumba de Nefertari no Egito.

Os pontífices visitam a cidade dos mortos onde seu antecessor descansa?

Na minha memória, nem mesmo Pio XII, que promoveu as escavações, alguma vez desceu. Na véspera de 1º de abril de 2013 eu recebi uma ligação do cardeal Angelo Comastri, arcipreste de São Pedro, que me informava sobre uma visita no dia seguinte de Francisco, papa eleito 17 dias antes. No começo, pensei numa brincadeira de 1º de abril. Mas também era a Segunda-feira do Anjo. Ficamos na necrópole das 16h45 às 18h e vi o Santo Padre ficar comovido e ouvi-o repetir em voz alta as três profissões de fé do primeiro apóstolo. Ele também se demorou no túmulo de um cristão chamado Istatilio, reconhecível pelo cristograma com o X e o P do alfabeto grego sobrepostos. A inscrição latina diz: ‘Ele se dava bem com todos e nunca causava brigas’. O Papa comentou: ‘É um belo programa de vida’.

Os túmulos islâmicos não têm nome. Magdi Allam me confessou: “Enquanto eu enterrava minha mãe, eu já sabia que, sem uma lápide, eu nunca teria um lugar exato para pranteá-la. Só consegui apoiar apenas uma pedra no ponto da inumação, igual a tantas outras”.

Já para os Romanos o falecido permanecia vivo graças à memória. Nós temos o dia de 2 de novembro, eles dedicavam aos mortos nove dias de comemoração. Nós oferecemos crisântemos, eles violetas em março e rosas em maio. E no dia do aniversário faziam banquetes no túmulo do ente querido desaparecido.

Como você imagina São Pedro?

Como a iconografia nos transmite. Acostumado aos esforços da pesca, tão vigoroso a ponto de poder se deslocar a pé, mesmo já idoso, de Brindisi a Roma. Mas também tão fraco a ponto de renegar Jesus por três vezes. Por isso a Igreja foi fundada sobre Pedro. Ele era um homem normal, com todas as nossas fragilidades, porém capaz de se arrepender da traição, de chorar amargamente e de escolher a via do martírio.

Mas você entendeu para que servem os santos?

Eles são uma ponte entre nós e o Céu.

Fonte: Corriere della Sera

Das bodas de Caná até a pesca milagrosa, a comida e a bebida estão por todas as partes nos Evangelhos. Algumas das passagens mais importantes da vida de Jesus aconteceram ao redor de refeições. 

Ainda sobre as bodas de Caná, por exemplo, O Evangelho de João diz que o acontecimento foi o início do ministério de Jesus. Mais tarde, Jesus recebe críticas dos fariseus por comer com os arrecadadores de impostos e pecadores, e teve que defender seus discípulos por apanharem espigas no Sabbat.

O ministério de Jesus culmina com outra refeição: a Última Ceia, que nós, católicos, representamos na Eucaristia. Em João 6, Jesus disse aos seus seguidores que eles deveriam comer da Sua carne e beber do Seu sangue para serem salvos. Na cruz, Ele ingere uma bebida à base de vinagre. 

As refeições continuam sendo cenários importantes dos encontros entre os discípulos e Jesus depois da Ressurreição. Como exemplo, podemos citar a fração do pão no caminho a Emaús e a pesca milagrosa no mar da Galileia. 

 Mas o que exatamente comiam e bebiam Jesus e seus discípulos? No século I, a dieta típica de um judeu no Oriente Médio se baseava no pão, de acordo com os autores do livro The Food and Feasts of Jesus: Inside the World of First Century Fare [A comida e as celebrações de Jesus: por dentro do mundo dos alimentos do século I].  

“Para ricos e pobres, igualmente, o pão era o centro da dieta mediterrânea do século I. Era feito todos os dias. Era comido em todas as refeições (…). O pão era o que as pessoas comiam para viver (…). Quando o pão acabava, tudo acabava”, escrevem os autores. Isso, sem dúvida, dá um significado ainda mais profundo à prece: “O pão nosso de cada dia nos dai hoje”.

De acordo com o já referido livro, havia outros alimentos básicos, como grão de bico, feijão e lentilhas. Entre as frutas, havia uvas, romãs, e figos. A principal fonte de carne eram as ovelhas e cabras. 

De acordo com o escritor católico James Campbell, o vinho era uma bebida muito comum na época. Ainda segundo o escritor, “as refeições eram um momento sagrado (…). As pessoas reconheciam que, embora tivessem ganhado o pão de cada dia, Deus era quem lhes dava tudo o que tinham. A irmandade em uma refeição era a irmandade diante de Deus”. 

Aleteia

‘Decolando na liberdade; aterrissando na escravidão’

Aviões, sobretudo de grande porte, são constituídos por muitos componentes, mas para alçarem grandes voos também dependem de fatores externos como o clima, que é inegociável, e controladores que permanecem em solo, os quais são negociáveis.  Algo análogo ocorre com nossa liberdade. Viver em país democrático, gozar de boa saúde e não ter “rabo preso” são elementos que elevam nossa liberdade, no entanto, não optamos por nascer em determinada região (ou, talvez, em permanecer nela), também não somos capazes de evitar certas doenças, por mais cautelosos que possamos ser. Na verdade, até mesmo nossos relacionamentos interpessoais são mais negociáveis do que controláveis.

Há, porém, situações que parecem mais intuitivas no campo da aerodinâmica, do que no âmbito da liberdade (ou da ausência dela). Ninguém imagina que uma aeronave seja capaz de voar com uma única asa, também não é crível que os assentos sejam indispensáveis para que os aviões se mantenham pelos céus, mesmo que sejam vitais para que esses aparelhos cumpram adequadamente as funções para as quais foram projetados. Porém, comumente vemos pessoas que “embarcam” nos conceitos do “Estado laico”, ou até mesmo nos avanços tecnológicos (normalmente essenciais e admiráveis), crentes de que eles terão como destino uma maior liberdade – nada mais absurdo!

Em um pais democrático, caso 86,8% da população considere que determinado assunto seja proibitivo para crianças, não é coerente proibi-lo aos menores? No entanto, este é o percentual exato de cristãos no Brasil [1] e, mesmo assim, sob o incentivo de que o Estado é leigo, existem recorrentes tentativas de impor nas escolas (incluindo privadas) a ‘Ideologia de Gênero’, e não é o único exemplo. Outro, talvez mais emblemático, seja o do aborto. Contudo, é evidente que o Estado, sobretudo em nossa cultura, não deve impor, por exemplo, o catolicismo. Ao contrário, deve possibilitar que mesmo crenças dotadas de poucos adeptos possam naturalmente cativar mais pessoas, e até, talvez, tornar-se predominante, a ponto de eleger políticos que possam representar a respectiva doutrina.

Talvez você questione: “mas religiões cristãs não restringem a liberdade de seus fiéis?”. Uma resposta correta, todavia, muito sucinta, seria: “não!”. E por mais absurda ou surpreendente que possa soar, tal negação é injusta, porque todo cristão que exerça sua doutrina também acabará blindando sua liberdade por causa do uso racional do livre-arbítrio.

E quase todos nós presumimos que somos soberanos em nossas escolhas, acreditamos que temos total poder para tomar decisões corretas, como não consumir entorpecentes, ou optar por algo errôneo, como ingerir drogas. Portanto, cremos que somos portadores do livre-arbítrio, e, se realmente somos, o elegemos como aliado ou opositor.

Agora considere a história fictícia do Senhor Robert, que, influenciado por seu avô, Dr. Erasmus, certa vez tomou a decisão de visitar uma antiguíssima construção, aparentemente uma espécie de penitenciária. Para solucionar o enigma, Sr. Roberts resolveu livremente entrar naquilo que parecia ser uma cela. Na sequência, optou por trancar as grades e lançar as chaves para bem longe daquele que foi seu último aposento [2]. Histórias análogas, porém reais, são comuns.

Todos nós sabemos que o consumo de drogas é opcional e que, depois de consumi-las, delas nos tornaremos escravos. Também sabemos que o mesmo ocorre com a gula, o álcool, o sexo desregrado e uma infinidade de outras coisas, muitas das quais teologicamente podem ser resumidas pela palavra “pecado”. Por outro lado, é considerável que ninguém se torne dependente de, por exemplo, ser generoso ou estar sóbrio [3].

Em suma, a liberdade provém não só da vontade como também da razão. Battista Mondin (1926 – 2015) em sua obra “Quem é Deus? Elementos da teologia filosófica”, simplificou tal fato de modo implacável: “Se não houver orientação da razão, não há liberdade e nem vontade, mas simplesmente instinto [4]”.

Neste ponto é válido questionar: como a razão, sobretudo em função da ética, pode ser balizada em um Estado laico? Afinal, como exemplificado, um Estado leigo não é norteado pela religião da maioria e, portanto, acaba sendo direcionando pelo materialismo, o qual coloca a razão, a vontade e o instinto em pé de igualdade.

Certa vez, Olavo de Carvalho proferiu o que pode elucidar o cerne do problema aqui exposto. Não utilizando exatamente das próximas palavras, ele afirmou que: “se somos desprovidos de almas, nossos pensamentos e nossas ações são apenas resultantes de processos eletroquímicos, neste caso, condenar pessoas não teria sentido, por exemplo, se um terrorista detonar um carro-bomba, ele será tão culpado ou tão inocente quanto a própria bomba – não há reações eletroquímicas morais ou imorais [5]”!

Ainda objetivando a compreender o problema do materialismo, conjeture que você tenha sido transportado para 5 de janeiro de 1919, a data da fundação do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Com isso, presuma também que você tenha a chance de aniquilar o nazismo da história, bastando, para tanto, expor cientificamente aos seguidores de Hitler e ao próprio Hitler que o arianismo é uma absurdidade – você iria falhar – mesmo que incluísse na bagagem todo o atual conhecimento cientifico e tecnológico. Neste caso a ciência é impotente! Aliás, foi a não comprovada Teoria  ( não é por acaso que a chamam de teoria. Tem muitas perguntas ainda sem resposta )da Evolução que ofereceu toda a pujança de que os nazistas precisavam. Por outro lado, o cristianismo certamente poderia estancá-los!

Hitler era cristão? Não! Se palavras seguramente revelassem a índole das pessoas, tribunais seriam desnecessários; se ações momentâneas obrigatoriamente expusessem a ideologia dos indivíduos, sempre votaríamos em candidatos virtuosos. Mas, na maioria das vezes, apenas as colheitas resultantes de um longo processo de plantio são capazes de desnudar corações. E bastam um pouco de estudo e o mínimo de sinceridade para reconhecer que o mundo se tornou menos sanguinário depois e por consequência da vinda de Cristo.

É inacreditável a determinação com que as pessoas dessa religião se ajudam umas às outras nas suas necessidades. Não se poupam em nada. O seu primeiro legislador meteu-lhes na cabeça que eles eram todos irmãos!”, Luciano de Samósata (ca. 130-200) : escritor pagão (focava em escárnios e sátiras relativas ao cristianismo. [*]

É fato corroborado que a sacralidade da vida humana, de viés notoriamente católico, fez muito mais do que “apenas” abolir duelos entre gladiadores e consolidar os hospitais do modo como hoje são estabelecidos. Muitas pessoas, incluindo cristãos, desconhecem o fato de que antes de Cristo, os pobres, os fracos e os doentes eram tratados com desprezo e, às vezes, completamente abandonados. Difícil imaginar, entretanto, a ideia de ajudar aos outros sem expectativa de reciprocidade era pouco justificável.

O historiador Thomas E. Woods Jr., em sua obra “Como a Igreja Católica Construiu a Civilização ocidental”, documentou: [Platão, por exemplo, disse que um pobre homem cuja a doença o tornasse incapaz de continuar a trabalhar deveria ser abandonado à morte. Sêneca escreveu: “Nós afogamos as crianças que nascem débeis e anormais”]. Ainda no mesmo livro, Woods faz referência ao sociólogo Rodney Stark, por ter declarado que a filosofia clássica “considerava a piedade e a compaixão como emoções patológicas, defeito do caráter que os homens racionais deviam evitar. Dado que a piedade implicava prestar uma ajuda ou alívio imerecidos, era contrária à justiça [6].

Certa vez, num debate televisivo, Olavo de Carvalho exclamou: “quanto menos religiosidade autêntica, mais moralismo civil!”, mas Mario Sergio Cortella, o moderador, ficou surpreso [7]. Provavelmente, naquele dia muitos não notaram que, criar leis para que suicídios sejam evitados entre reais seguidores de Cristo, é tão útil quanto legislar para que endividados não queimem dinheiro. Jesus não “plantou” regras no papiro para colhê-las nos corações dos homens; mas agiu “em verdade e espírito”, influenciando e doando as “sementes” de seu próprio coração!

Crenças todos temos! O comandante de um voo crê na equipe de manutenção; a clientela de um restaurante crê na equipe de cozinheiros. Porém, presumir que o cristianismo persiste por mais de dois mil anos, alicerçado exclusivamente na coluna da fé, é, na melhor das hipóteses, ignorância; na pior, desonestidade intelectual. E motivos para aceitá-lo vão além dos morais.

big bang e outras descobertas relativamente recentes, como estudos arqueológicos, são bons exemplos dos vestígios do Deus cristão. Entretanto, aqueles que não consideram tais fatos depositam fé em algo futuro, possivelmente baseado na ciência e na tecnologia, itens atualmente tão úteis e tão admiráveis que ignoramos o que já em 1943, na obra “A Abolição do homem, C. S. Lewis alertou:

“Consideremos três exemplos típicos: o avião, o rádio e os anticoncepcionais. Numa comunidade civilizada, em tempos pacíficos, qualquer um que tenha dinheiro pode fazer uso dessas três coisas. Mas não se pode dizer estritamente que quem o faz está exercendo seu poder pessoal ou individual sobre a Natureza. Se eu pago para que alguém me leve a algum lugar, não se pode dizer que eu seja um homem que dispõe de poder. Todas e cada uma das três coisas que mencionei podem ser negadas a alguns homens por outros homens — por aqueles que vendem, ou por aqueles que permitem que sejam vendidas, ou por aqueles que possuem os meios de produzi-las, ou por aqueles que as produzem. Aquilo que chamamos de poder do Homem é, na realidade, um poder que alguns homens possuem, e que por sua vez podem ou não delegar ao resto dos homens [8]”.

No mesmo capítulo, Lewis ainda alerta:

“E, quanto aos anticoncepcionais, existe paradoxalmente um sentido negativo no qual todas as possíveis gerações futuras são os pacientes ou objetos de um poder exercido por aqueles que já vivem”.

Muitos de nós já ficamos encantados com shows aéreos, nos quais, literalmente, vemos aviões riscando os céus e comumente em voos invertidos. É muito provável que, para os pilotos, as apresentações também sejam empolgantes, mas certamente eles precisam de muito mais concentração, sobretudo quando voam de cabeça para baixo, afinal, todos os comandos são invertidos, ou seja, ao ordenar que a aeronave suba, ela desce; ao ordenar que o avião vire à esquerda, a proa da aeronave se move para a direita!

Muitos em nossa sociedade ficam em êxtase com nossas decadências e deprimidos com nossas ascendências. Coitados, eles não estão concentrados, eles não sabem que somos todos “tripulantes” e, sobretudo, eles não sabem que estamos de cabeça para baixo!

Escrito por Eric M. Rabello.

Notas:

  1. Conforme censo realizado pelo IBGE em 2010 e divulgado em 2017. Linkhttps://www.ibge.gov.br/estatisticas-novoportal/sociais/populacao/9662-censo-demografico-2010.html?edicao=9749&t=resultados. Se preferir, acesse artigo com as mesmas informações dispostas de modo conciso, em: https://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/o-ibge-e-a-religiao-cristaos-sao-86-8-do-brasil-catolicos-caem-para-64-6-evangelicos-ja-sao-22-2/
  2. Em alusão ao naturalista britânico Charles Robert Darwin, mais conhecido apenas por Charles Darwin, e seu avô materno, Erasmus Darwin (real precursor da Teoria da Evolução das Espécies). 
  3. Referência: https://www.youtube.com/watch?v=gW-u4a8I97U
  4. Quem é Deus? Elementos da teologia filosófica”. Primeira edição (1997) e quinta reimpressão (2015). Editora Paulus, ISBN 88-7030-725-5. Pag. 389. 
  5. Mais detalhes sobre este mesmo aspecto podem ser obtidos no quarto capítulo da obra “Fundamentos inabaláveis”, escrita por Norman Geisler e Peter Bocchino. Publicado pela Editora Vida, sob ISBN 978-85-7367-623. 
  6. Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental”. Terceira edição (2010). Editora Quadrante, ISBN 978-85-7465-125-5. Págs. 161 e 191. 
  7. Referência: https://www.youtube.com/watch?v=YsN-EhlL5V8
  8. A abolição do homem”. Segunda edição. Editora WMF Martins Fontes, ISBN 978-85-7827-541-9. Pags. 52 e 53. 

Um livro publicado recentemente nos Estados Unidos pretende mostrar uma realidade sobre a Igreja Católica pouco difundida. O título da obra já expõem a tese defendida: “Heroísmo e Gênio: de como os sacerdotes católicos ajudaram a construir – e podem ajudar a reconstruir – a civilização ocidental”.

“Durante este período, os sacerdotes católicos, somando-se a tantos homens de heroísmo e gênio em suas filas e também devido a suas posições de liderança, se converteram nos pioneiros e construtores insubstituíveis da cultura e da ordem sociopolítica cristã. ‘Heroísmo e Gênio’ apresenta alguns destes homens formidáveis”, diz na apresentação do livro.

O Padre William J. Slattery, autor do livro, ressalta o modo como a Igreja Católica construiu uma nova civilização inspirada pela Fé. “A construção e a conservação da civilização ocidental, em meio ao desgaste e terremotos culturais, é uma saga que se estende ao longo de mil e seiscentos anos”, explica na obra.

Segundo o professor da Universidade de Phoenix, Robert Curtis, esta perspectiva é surpreendente e profunda. “Em todos lugares que olhamos na história, desde os momentos de povoar regiões até os descobrimentos científicos, os momentos de conquista, os sacerdotes católicos estão ali: aplicando a razão, buscando as verdades menos conhecidas da criação de Deus e exigindo justiça”.

Após o colapso de Roma, o trabalho dos sacerdotes foi de suma importância para unificação cultural da Europa e a construção da civilização ocidental. Os sacerdotes ofereceram aos governos conceitos de dignidade humana e liberdade, além de desenvolver o conceito de cavalaria e ordens monásticas.

Os sacerdotes também praticaram e impulsionaram as artes, a música e a ciência, “sempre na vanguarda do desenvolvimento humano, sempre buscando revelar a criação de Deus”, comentou Curtis.

Dentre os sacerdotes famosos estão o Beato Fra Angélico, de enorme transcendência nas artes plásticas, o grande compositor Antônio Vivaldi e os cientistas Copérnico e George Lamaitre. São Tomás de Aquino e Santo Alberto Magno foram os sacerdotes que defenderam conceitos como, por exemplo, os direitos de propriedade individual.

O professor Curtis ressalta que “tudo isto é apenas a superfície do que os sacerdotes têm feito pela civilização ocidental. O que os sacerdotes podem fazer por nós hoje é conduzir-nos de volta a este mesmo caminho, recordando-nos que Deus nos fez quem somos e que se insistimos em fazê-lo sozinhos – como humanistas seculares – não teremos uma oportunidade”. (EPC)

Fonte: Gaudium Press

O Pavilhão dos Padres’, do jornalista Guillaume Zeller, fala sobre o campo de Dachau, onde sacerdotes católicos foram exterminados pelos nazistas.

Primeiro a ser inaugurado e um dos últimos a ser fechado, o campo de concentração de Dachau, a 17 quilômetros a noroeste de Munique, na Baviera, foi um dos mais terríveis laboratórios de tortura e morte do nazismo de Adolf Hitler. Em 12 anos de funcionamento, entre 22 de março de 1933 e 29 de abril de 1945, abrigou milhares de prisioneiros políticos da Alemanha e de países ocupados.

Opositores ao regime, combatentes da resistência, religiosos de vários credos, comunistas, homossexuais, deficientes e judeus superlotaram os 30 pavilhões erguidos em uma antiga fábrica de munição, para se tornarem modelo de outros centros de detenção. Heinrich Himmler fez ali um estágio, antes de se tornar o poderoso e cruel executor da política racial nazista. Também passaram por lá outros líderes do projeto de extermínio, como Adolf Eichmann e Rudolf Hoss.

A partir de 1938, começaram a chegar a Dachau os primeiros sacerdotes católicos. Do total de 2.720 enviados para o campo, 1.034 foram assassinados até 1945, no fim da 2.ª Guerra Mundial. Desembarcaram sucessivamente padres vindos da Áustria, de outras cidades da Alemanha, da antiga Checoslováquia, da França e de outros países, principalmente da Polônia. É a história desses prisioneiros que o jornalista Guillaume Zeller conta no livro O Pavilhão dos Padres, publicado em 2015 em Paris e lançado agora no Brasil pela editora Contexto. Zeller é diretor do Canal+, rede de televisão francesa, e autor do livro Oran, 5 Juillet 1962, sobre a guerra na Argélia.

É um relato preciso, com nomes, datas, depoimentos e descrições dos sofrimentos impostos aos prisioneiros. Dois deles, Pierre Metzger e Gérard Pierré, sobreviventes do pavilhão 26, onde se concentravam os sacerdotes, encabeçam a lista de agradecimentos do autor às pessoas que colaboram para a edição de ‘O Pavilhão dos Padres’. Além transcrever depoimentos sobre o horror de Dachau com chocante realismo, Zeller faz uma análise das relações da Igreja Católica com o nazismo, desde antes de Hitler conquistar o controle do partido e da Alemanha, em 5 de março de 1933. Os bispos alemães apoiaram o regime de início, mas mudaram de posição ao avaliar os riscos de sua ideologia.

O Vaticano assinou uma concordata com a Alemanha, quatro meses depois, com a pretensão de evitar um endurecimento do governo nazista. A Igreja recebeu garantias de respeito e liberdade, desde que renunciasse a qualquer atividade política.

Sacerdotes foram presos e torturados por terem protegido judeus. Na Noite dos Cristais, quando os nazistas invadiram residências e depredaram lojas de judeus, padre Bernhard Lichtenberg declarou na igreja Santa Edwiges de Berlim: “Lá fora, a sinagoga está ardendo, mas também é uma casa de Deus.” Detido em outubro de 1941, morreu em 5 de novembro de 1943, durante sua transferência para Dachau. Em 1994, foi reconhecido “Justo entre as Nações” pelo memorial de Yad Vashem, o Museu do Holocausto de Jerusalém.

Na Itália, invadida pelos alemães em julho de 1943, após a derrota do fascismo de Mussolini, 28 padres foram deportados. O frade dominicano Giuseppe Girotti foi mandado para Dachau, onde morreu, por ter protegido judeus, fornecendo-lhes documentos falsos e esconderijos. Também foi considerado “Justo entre as Nações” em Israel e seu decreto de beatificação foi assinado pelo papa Francisco em março de 2013.

A Congregação para as Causas dos Santos estuda vários casos de beatificação e canonização de religiosos do campo de Dachau. Alguns deles poderiam canonizados e juntar-se ao polonês São Maximiliano Kolbe e à alemã Santa Edith Stein, judia convertida, mártires do campo de Aushwitz, na Polônia.

Fonte:  O Estado de S. Paulo

 “Nós encontramos a marca de um selo do século VIII a.C. que deve ter sido feita pelo próprio profeta Isaías a apenas três metros de onde havíamos descoberto uma impressão de selo do rei Ezequias de Judá”

O profeta Isaías é um dos maiores profetas do Antigo Testamento. O nome Isaías significa “Deus ajuda” ou “Deus é auxílio” e viveu entre 765 a.C. e 681 a.C.

Numa visão do trono de Deus no Templo rodeado de serafins, um anjo lhe purificou os lábios com brasas ardentes enquanto a voz de Deus lhe ordenava levar Sua mensagem ao povo.

Em seu livro, incluído na Bíblia, Isaías é o profeta que mais fala sobre o Messias prometido, Nosso Senhor Jesus Cristo, descrevendo-o como “servo sofredor” que morreria pelos pecados da humanidade e como um príncipe soberano que governará com justiça.

O capítulo 53 profetiza nossa Redenção pelo Messias:

“Mas ele foi castigado por nossos crimes, e esmagado por nossas iniquidades; o castigo que nos salva pesou sobre ele; fomos curados graças às suas chagas”. (Is 53:5)

Ele também profetizou que Nosso Senhor nasceria de Maria Virgem:

“o próprio Senhor vos dará um sinal: uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e o chamará Deus Conosco [Emanuel]” (Is 7,14).

No Novo Testamento há centenas de citações ou referências às suas predições, fato reconhecido até por não católicos:

“O Livro de Isaías contém muitas referências diretas e indiretas ao Messias, chamando-O de ‘Renovo do Senhor’” (Is 4.2), “rebento do tronco de Jessé” (Is 11.1), “meu servo [de Deus]” (Is 42.1), e “o meu escolhido [de Deus], em quem a minha alma se compraz” (Is 42.1).

“A Palavra declara que Ele é o herdeiro por direito ao trono de Davi (Is 9.7; cf. Lc 1.32-33) e diz que Ele autenticará Seu papel como Messias ao curar os cegos, os surdos e os aleijados (Is 29.18; Is 35.5-6; cf. Mt 11.3-5; Lc 7.22).

“Ele também estabelecerá a Nova Aliança (Is 55.3-4; cf. Lc 22.20) e um dia estabelecerá um Reino Messiânico sobre o qual reinará e no qual será adorado (Is 9.7; Is 66.22-23; cf. Lc 1.32-33; Lc 22.18,29-30; Jo 18.36)”. (apud O Evangelho Segundo Isaías”)

Ele viveu no reino de Judá entre os séculos VIII e VII a.C., durante os reinados de Ozias, Jotão, Acaz e Ezequias. Também participou na defesa de Jerusalém cercada pelo rei assírio Senaqueribe.
Mas, só até agora, comemorou Eilat Mazar, pesquisadora do Instituto de Arqueologia da Universidade Hebraica de Jerusalém:Mas, fora desta enorme contribuição registrada na Bíblia que constata documentalmente sua existência, não se tinha evidências arqueológicas, portanto materiais, da vida do profeta.

“Nós encontramos a marca de um selo do século VIII a.C. que deve ter sido feita pelo próprio profeta Isaías a apenas três metros de onde havíamos descoberto uma impressão de selo do rei Ezequias de Judá.”

A descoberta foi anunciada por Eliat em seu artigo “Esta é a assinatura do profeta Isaias?” (“Is This the Prophet Isaiah’s Signature?”) publicado na revista Biblical Archaeology Review.

O selo, ou mais propriamente “bula”, foi encontrado num sítio arqueológico em Ophel, área entre o Monte do Templo e a Cidade de Davi, usada na antiguidade como complexo residencial da família real em Jerusalém.

Os arqueólogos encontraram 34 pequenas peças de argila com impressões de “bulas”, com os nomes de seus donos.

Vista geral de Jerusalém com o campo arqueológico de Ophel, local do achado.

Os pedaços de argila tinham apenas um centímetro de diâmetro.

Entre as peças, uma traz o nome do rei Ezequias.

Mas o artefato mais interessante tinha a inscrição “Yesha’yah”, o nome de Isaías em hebraico antigo, acompanhado pelas letras “N”, “V” e “Y”, as três primeiras da palavra “profeta” em hebraico.

O nome de Isaías está claro, mas há discussão sobre uma letra que faltaria para ter certeza da palavra “profeta”.

Para a Dra. Mazar, o lugar exato da letra foi perdido junto com a metade faltante da “bula”.

A inscrição completa deveria dizer “Pertencente a Isaías profeta”.

A Dra. Mazar aponta casos semelhantes verificados em outras descobertas.

E se a interpretação for correta teríamos a primeira prova material extra bíblica da existência do profeta e de que era reconhecido como tal durante sua vida, de acordo com matéria publicada pela “National Geographic”.

O selo, ou bula, com o nome do profeta Isaías, desenterrado em Ophel.

O Antigo Testamento conta episódios em que Ezequias procurou Isaías, indicando que o profeta lhe era bastante próximo e que seria um dos principais conselheiros reais.

“Se for o caso de a peça ser realmente do profeta Isaías, então não seria surpresa encontrá-la perto de uma pertencente ao rei Ezequias dada à relação simbiótica entre o profeta Isaías e o rei Ezequias descrita na Bíblia”, acrescentou Mazar.

A Bíblia é o maior testemunho escrito da Antiguidade. Ela contém a palavra revelada e a ela devemos um assentimento de Fé, inclusive do ponto de vista histórico.

A veracidade inclusive histórica da Bíblia foi confirmada – e continua sendo-o – em inúmeras descobertas de valor científico que confortam às inteligências e corações de boa fé que possam ter dúvidas a respeito.

(via Ciência confirma Igreja)

Paulo é um personagem difícil de entender. A Escritura contém seus pensamentos sobre muitos temas, mas diz relativamente pouco sobre as motivações por trás deles. Nisso, Paulo difere de outros personagens bíblicos, cuja vida interior faz parte de sua história.

O comentário é do jesuíta estadunidense Michael Simone, professor assistente de Escritura no Boston College, em artigo publicado por America, 23-03-2018

Por exemplo, os Evangelhos retratam Pedro – indubitavelmente o único apóstolo igual a Paulo em importância – como alguém cuja fé mal superou sua insegurança. Com o encorajamento de Jesus, ele caminhou sobre as águas, mas apenas por um momento antes que seu medo da tempestade o dominasse. A fraqueza de personagens como Pedro tem um valor espiritual. Ela dá aos leitores um ponto de identificação com alguém que superou seu tumulto interior e desenvolveu uma confiança mais profunda na graça.

Paulo admite essas fraquezas, mas sua extraordinária autoconfiança pode obscurecê-las. Isso pode se dever a seu ambiente intelectual grego, que enfatizava a importância do sōphrōn, a virtude do autocontrole. Indivíduos maduros projetavam autocontrole e não falavam de suas fraquezas.

Assim, embora Paulo falasse de seu “espinho na carne”, ele não dava detalhes específicos. Do mesmo modo, quando Paulo enfrentou sua própria tempestade no mar, ele disse a seus companheiros de tripulação: “Aconselho que vocês sejam corajosos, porque ninguém de vocês vai morrer: só perderão o navio. Esta noite me apareceu um anjo do Deus ao qual pertenço e a quem adoro. O anjo me disse: ‘Não tenha medo, Paulo’” (At 27, 22-24; trad. Bíblia Pastoral). Este é um forte contraste com Pedro, e pode ser desafiador se identificar com uma pessoa com um autocontrole tão destemido.

A grande conquista do filme Paul, Apostle of Christ [Paulo, Apóstolo de Cristo] é seu esforço de explorar a vida interior do homem que podia falar tais palavras. Quaisquer que sejam os méritos cinematográficos do filme, trata-se de um estudo fascinante do encontro de Paulo com a graça.

A obra é uma produção da Affirm Films, uma divisão da Sony que produz filmes com temáticas que atraem o público cristão. Os cineastas imaginam a prisão de Paulo durante a perseguição de Nero (64-68 d.C.), retratando-a com todos os terríveis detalhes encontrados nos Anais de Tácito. As conversas entre Paulo e os outros personagens permitem aos cineastas explorar aspectos do caráter do apóstolo que são difíceis de ver de outro modo. Essas explorações revelam um homem que, embora destemido, também era profundamente humilde, que inspirava os outros com sua confiança, e cuja vida foi irrevogavelmente transformada pelo amor de Cristo. “Todavia, esse tesouro nós o levamos em vasos de barro, para que todos reconheçam que esse incomparável poder pertence a Deus e não é propriedade nossa” (2 Co 4, 7).

A humildade de Paulo aparece com mais clareza em suas conversas com Maurício, o soldado que dirigia a prisão de Mamertina. Maurício encarna a cultura romana; é orgulhoso, severo, supersticioso e cínico. A filha de Maurício está morrendo de uma doença misteriosa, e suas orações à deusa Bona Dea ficaram sem resposta.

Ao ouvir a reputação de Paulo como ‘curador’, Maurício o convoca, mas, quando Paulo explica que não tem nenhum poder exceto aquele que Cristo confere, Maurício hesita, temendo que a confiança em Cristo pudesse enfurecer os deuses de Roma e exacerbar a condição de sua filha.

Enquanto Maurício reúne mais evidências de que Paulo é um milagreiro, Paulo intensifica sua reivindicação de impotência, até mesmo se orgulhando de sua fraqueza. Maurício não tem paciência para isso: “Muito poucos homens admitem fraqueza; certamente nenhum deles se orgulha disso!” No entanto, Paulo o faz, evitando qualquer crédito pelo bem que vem de seus esforços.

Os cineastas também traçam a maneira pela qual a própria confiança de Paulo na graça inspira uma confiança semelhante em toda a comunidade cristã. O filme destaca o serviço que uns oferecem aos outros com confiança simples, mas contagiante, no amor de Deus. Paulo acreditava no infinito poder de Deus, e outros encontravam forças para acreditar também. “Deus, por meio do seu poder que age em nós, pode realizar muito mais do que pedimos ou imaginamos; a ele seja dada a glória na Igreja e em Jesus Cristo por todas as gerações, para sempre. Amém!” (Ef 3, 20-21).

Alguns dos momentos mais marcantes do filme surgem quando Paulo tenta explicar a fonte de seu zelo. Ele descreve sua conversão como um momento em que foi “completamente conhecido e completamente amado”. O filme revela que seu “espinho na carne” seria a culpa que ele continua experimentando sobre suas antigas perseguições. Seu papel na morte de uma criança pesa especialmente sobre ele e o torna desconfortavelmente semelhante com os romanos que matam um órfão cristão no início do filme.

O caminho para Damasco colocou Paulo em uma estrada diferente. Receber a misericórdia de Cristo e ser amado por aqueles que ele mesmo odiava o abalou profundamente. Com o passar do tempo, isso evocou um amor semelhante por parte dele. Esse amor crescente aquietou seus medos e o atraiu para o serviço vitalício a Cristo e à Igreja. Perto do auge do filme, o amor destemido de Paulo inspira um amor semelhante nos cristãos de Roma, que correm o risco de serem presos no esforço de salvar a filha de Maurício.

Assim, o filme revela que a motivação de Paulo era o seu espanto pelo fato de Cristo poder amá-lo, apesar de seus crimes. Sua transformação não ocorreu a partir de uma humilhação punitiva, mas sim a partir do poder dos sonhos de Cristo. Seu zelo destemido foi sua resposta a esse ato de graça.

No filme, vemos Paulo viver a transformação descrita em Coríntios: “Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Depois que me tornei adulto, deixei o que era próprio de criança. Agora vemos como em espelho e de maneira confusa; mas depois veremos face a face. Agora o meu conhecimento é limitado, mas depois conhecerei como sou conhecido. Agora, portanto, permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor. A maior delas, porém, é o amor” (1Co 13, 11-13).

O comentário é do jesuíta estadunidense Michael Simone, professor assistente de Escritura no Boston College, em artigo publicado pela revista America

Logo no início da pré-estreia em Nova York do novo filme Paul, Apostle of Christ[Paulo, apóstolo de Cristo], perto da primeira fileira do cinema, um bebê começou a chorar. E chorou por cerca de um minuto durante a cena de abertura – em que Lucas atravessa secretamente passagens iluminadas por tochas, em busca dos cristãos escondidos de Roma – e continuou intermitentemente ao longo do filme. Os responsáveis pela criança não se levantaram e não a levaram para fora. Você podia sentir que todo o público não podia acreditar nisso. Alguém levou seu recém-nascido para ver um filme, e esse recém-nascido chorou e não foi levado para fora do cinema.

Mas o que se podia fazer? A exibição aconteceu no Sheen Center, um ministério católico de artes no centro de Manhattan. Paul, Apostle of Christ não é apenas sobre Paulo que passa seu tempo em uma prisão romana, mas também sobre um grupo de cristãos que enfrenta pagãos que abandonam cruelmente seus órfãos recém-nascidos. Qual empregado de uma entidade de arte católica que exibe um filme sobre cristãos lutando por crianças pequenas se levantaria diante de todos e diria a uma mãe e a um bebê que eles devem sair?

E para melhorar um pouco mais: em três quartos do filme, quando o bebê começou a chorar de novo, uma freira pegou a criança, levou-a para um corredor lateral e balançou-a em seus braços. Uma irmã religiosa em um hábito branco e azul nina ternamente uma criança, enquanto, diretamente em cima das nossas cabeças, o apóstolo Paulo nos diz que o amor é paciente, o amor é gentil. Que gerente de cinema contemplaria essa cena e diria: “Chega. Fora”? Isso não aconteceria.

E para melhorar ainda mais: o prédio que abriga o Sheen Center fica perto, dentre todas as outras possibilidades, da Planned Parenthood [ONG conhecida por realizar abortos]. Um dos serviços da Planned Parenthood ocorre a cerca de 35 segundos de caminhada daquilo que acontece dentro do Sheen Center. Quem no mundo paulino gostaria de ver o espetáculo de uma mãe, que tenta ver um filme sobre o amor paciente de cristãos oprimidos, forçada a sair de um cinema cristão porque seu bebê está agindo de forma inconveniente e que, com terrível ironia, deve passar na frente da Planned Parenthood para fazer isso?

Então, todos nós aguentamos o garoto. O filme foi exibido. O bebê não chorou nos últimos 20 minutos. Paulo foi decapitado. O resto dos cristãos romanos seguiu em frente.

A exibição de Paul, Apostle of Christ foi realizada em grande parte para “líderes da fé” católicos e cristãos, como a equipe de publicidade do filme afirmou. Produzido por uma divisão da Sony chamada Affirm, a estratégia de relações públicas da empresa era promover exibições em igrejas em todo o país  antes de sua estreia. Todos que compareceram à exibição receberam uma sacola de tecido com cartazes e postais do filme, uma caneta com a inscrição “Paulo, Apóstolo de Cristo” e uma pulseira de couro com as palavras: “O amor é o único caminho. paulmovie.com”.

Antes da pré-estreia no Sheen Center, a Affirm já havia feito 60 desse tipo de eventos (o filme “Quarto de Guerra”, também da Affirm, que teve uma distribuição semelhante, foi um sucesso, arrecadando um total de 67 milhões de dólares de bilheteria).

Antes do filme, meu colega José Dueño e eu gravamos entrevistas com o ator James Faulkner (Paulo), com o produtor do filme, T. J. Berden, e com o diretor, Andrew Hyatt. […]

As entrevistas centram-se principalmente em Faulkner e nos encontros dos cineastas com a fé, a esperança e o amor durante as filmagens de “Paul…”. Durante nossa conversa, esses homens se mostrariam ávidos, humildes e espiritualmente arraigados. Possivelmente tão arraigados a ponto de poderem achar que um bebê chorando durante seu filme grave e trágico não é algo irritante, mas sim até apropriado.

O comentário é de Joe Hoover, S.J., em artigo publicado por America, 23-03-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Assista ao trailer:

Um grupo de arqueólogos acredita que a recente descoberta de um grande edifício nas colinas do vale de Hebron, em Israel, indica que o Rei Davi foi uma figura histórica real e que dirigiu um reino judeu.

Até agora, não havia prova arqueológica de que o Rei Davi (que aparece no Antigo Testamento) tivesse existido realmente, já que não havia indícios de prédios públicos relacionados à sua figura.

Porém, um artigo do Haaretz.com informa que os arqueólogos da Universidade Bar-llan afirmam que a estrutura monumental e o assentamento ao redor descobertos perto das colinas de Hebron, nas terras baixas centrais de Israel, representa uma possível prova da existência de edifícios públicos da era de Davi (século X a.C.).

Segundo o Haaretz, o edifício – que os arqueólogos chamaram de “casa do governador” – foi construído para uma longa duração, em estilo da arquitetura monumental:

 “Ele contém alvenaria e foi erguido sobre fundações profundas, usando materiais de construção de qualidade. Um investimento assim na construção seria algo específico de uma sociedade complexa e uma entidade política forte”.

As paredes eram de pedras talhadas com ferramentas que permitiam que elas se encaixassem. As provas de rádio-carbono da cerâmica encontrada nas fundações indicam que a casa foi construída entre os séculos XI e X a.C..

 “Isso é relevante para data em que houve uma evolução da complexidade social e para o debate sobre a historicidade do Reino de Davi e Salomão”, escrevem os arqueólogos Avraham Yair Faust e Sapir  em um artigo publicado no início de 2018 pela revista de arqueologia, Radiocarbon.

As descobertas se devem à ajuda de ratos-toupeira, que cavaram o subsolo, desenterrando vestígios de ocupação humana.

 “Os ratos nos alertaram que havia um pequeno assentamento onde ninguém nunca imaginou”, disse Faust ao Haaretz.

Segundo informa o Haaretz:

“Está claro que a casa do governador, a estrutura monumental no topo da colina, havia sido destruída pelos assírios. Ele [o arqueólogo] diz: eles encontraram pontas de flechas no pátio. Com base no local em que foram achadas essas pontas, os arqueólogos conseguiram deduzir de onde as flechas foram disparadas: mais precisamente, um lugar desprovido das atividades do rato-toupeira”, diz Fausto.

“No entanto, outros arqueólogos pediram cautela antes de afirmar que o local recentemente descoberto foi necessariamente da era de Davi”, afirma Haaretz.

O doutor Ido Koch, da Universidade de Tel Aviv afirma que a “casa do governador” não tem escritos para indicar que foi parte de um reino judeu.

“Nas descobertas do século X, não há nada com [a palavra] ‘Jerusalém’ escrito nelas, e enquanto [não houver] sinais de administração ou escrita no estilo judaico”, disse ele ao Haaretz, “ ligar o assentamento ao reino de Jerusalém seria pura especulação”.

Fonte: Aleteia

Estamos diante de uma reconstituição do corpo real de Jesus Cristo!

“Esta estátua é a representação tridimensional do Homem do Sudário, em tamanho natural, feita com base em medidas milimétricas tomadas do pano em que o corpo de Cristo foi envolvido após a crucificação”.

Quem explica é Giulio Fanti, professor de medições mecânicas e térmicas na Universidade de Pádua e estudioso da relíquia, uma das mais enigmáticas e apaixonantes do mundo cristão (e também do mundo incrédulo). Com base em suas medições, o professor fez a reconstituição em 3D que, a seu ver, permite afirmar que essas são as reais características do Cristo crucificado.

“Consideramos que finalmente estamos diante de uma imagem precisa de como era Jesus nesta terra. A partir de agora não será mais possível retratá-lo sem levar em conta este trabalho”.

O professor concedeu à revista italiana Chi a conversa exclusiva em que afirmou:

“Segundo os nossos estudos, Jesus era um homem de extraordinária beleza. Longilíneo, mas muito robusto, tinha 1m80 de altura, quando a altura média naquele tempo era de cerca de 1m65. E tinha uma expressão real e majestosa” (cf. Vatican Insider).

Mediante os estudos e a projeção tridimensional, Fanti pôde também computar as numerosas feridas no corpo do Homem do Sudário:

“No Sudário eu contei 370 feridas de açoites, sem considerar as laterais, que o pano não revela porque envolveu apenas a parte anterior e a posterior do corpo. Mas podemos supor pelo menos 600 golpes. Além disso, a reconstrução tridimensional permitiu observar que, na hora da morte, o Homem do Sudário pendeu para a direita, porque o ombro direito foi deslocado de modo tão grave que lesou os nervos” (cf. Il Mattino di Padova).

É notório que, nesse homem torturado, vemos sinais inquestionáveis de sofrimento. Os olhos da fé enxergam nele o homem por excelência, aquele que foi apresentado pela arrepiante frase “Ecce Homo”, “Eis o homem”; aquele que foi visto manso e majestoso diante de Pilatos, mas que sofreu terrível flagelação, espancamentos, coroação de espinhos, subida ao Calvário carregando aos ombros a própria cruz, crucificação como inocente e morte pela nossa redenção.

Acreditar na autenticidade do Sudário não é obrigatório para nenhum cristão. Mas o carácter excepcional daquele pano fúnebre e seus séculos e séculos de mistério fascinante e desafiador provoca o nosso entendimento e as nossas certezas, tal como fez aquele Nazareno que desafiou as nossas certezas ao amar os seus perseguidores, a perdoá-los do alto da cruz e derrotar a morte para sempre.

Aleteia

Embora o Santo Sudário de Turim (Itália) seja o objeto mais importante relacionado a Jesus que permanece até hoje, a Espanha também tem entre os seus tesouros duas relíquias importantes de Cristo.

Estas relíquias são o Sudário de Oviedo, pano que cobriu o rosto de Jesus e o Lignum Crucis, um pedaço da cruz do Senhor.

Estas relíquias foram estudadas em profundidade e permitem aproximar-se um pouco mais da Paixão de Cristo.

O Sudário de Oviedo

Segundo a tradição, o sudário que cobria o rosto de Jesus está guardado na Catedral de Oviedo e é exposto ao público apenas três vezes por ano: na Sexta-feira Santa; no dia 14 de setembro, dia da Santa Cruz; e em 21 de setembro, festa do Apóstolo São Mateus, padroeiro da cidade espanhola.

Os apóstolos veneraram em Jerusalém as relíquias da Paixão, incluindo o Sudário, durante os primeiros anos do cristianismo. Com a invasão dos persas no século VII, conseguiram salvá-lo e foi levado à Espanha.

Jorge Manuel Rodríguez Almenar, presidente do Centro Espanhol de Sindonologia, explicou em diversas ocasiões que os estudos mostram que todos os elementos do Sudário de Oviedo coincidem com os do Santo Sudário.

O último estudo realizado pela Universidade Católica de Murcia, na Espanha, concluiu que ambos os panos envolveram a mesma pessoa. Também precisou que o homem do Santo Sudário e do Sudário de Oviedo sofreu a mesma ferida no lado.

Algo que está de acordo com o que foi relatado no Evangelho de João, quando diz: “Mas, vindo a Jesus, e vendo-o já morto, não lhe quebraram as pernas. Contudo um dos soldados lhe furou o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água”.

Lignum Crucis: Uma relíquia da Cruz de Cristo

O mosteiro franciscano de Santo Toribio de Liébana, na Cantábria, guarda há mais de 1200 anos um grande pedaço da Cruz de Jesus.

Esta relíquia é conhecia pelo seu nome em latim Lignum Crucis, que significa lenho ou madeira da Cruz. Este objeto sagrado corresponde à madeira horizontal do lado esquerdo.

Santa Helena, mãe do imperador Constantino, decidiu conservar as relíquias da Paixão do Senhor. Uma delas foi a Cruz, que chegou à Espanha no século XVI, com os restos de Santo Toribio, que tinha sido custódio dos lugares santos em Jerusalém.

Em 1958, realizaram alguns testes para comprovar a sua autenticidade e “confirmaram que a madeira é de uma árvore que existe na Terra Santa e que tem uma idade superior a 2000 anos”, assegurou ao Grupo ACI o Pe. Juan Manuel Núñez, superior do convento de Santo Toribio de Liébana.

Além disso, o DNA da relíquia coincide com o de outros pedaços menores da cruz conservados em diferentes lugares do mundo.

“A maior prova de veracidade das Lignum Crucis são todas as conversões que ocorrem no sacramento da confissão no mosteiro”, afirma o sacerdote.

Segundo o Pe. Nunez, o Lignum Crucis fala, “através de uma linguagem silenciosa, do amor de Deus que se entrega ao coração de todos os homens. Um amor que ficou marcado para sempre na Cruz e que diz a todos: ‘Embora não saibam lê-lo aqui diz como e quanto os amo’”.

Desde o século XVI se celebra o Ano Jubilar Lebaniego Santo Toribio de Liébana. Este Ano Santo ocorre cada vez que o dia 16 de abril (festa de Santo Toribio) cai em um domingo. Como o dia 16 de abril de 2017 coincide com o Domingo de Ressurreição, o início deste Ano Santo começará no dia 23 de abril.

Fonte: ACI Digital

Do ponto de vista histórico, talvez nenhum túmulo do mundo esteja tão apoiado em documentos de época, quanto o de São Pedro na Basílica Vaticana.

O lugar da sepultura havia sido mencionado pela primeira pelo presbítero Gaio, nos tempos do papa Zeferino (entre 198 e 217):

“Posso mostrar-te os troféus dos apóstolos [Pedro e Paulo]. Se quiseres dirigir-te ao Vaticano ou à Via de Óstia, encontrarás os troféus daqueles que fundaram esta Igreja [de Roma]” (in: Eusébio de Cesareia, História eclesiástica, II, 25, 7). Gaio entendia por “troféu” o corpo do mártir.

O martírio de Pedro é confirmado por Tertuliano, que, por volta do ano 200, escreve que a preeminência de Roma está ligada ao fato de que três apóstolos, Pedro, Paulo e João, nessa cidade ensinaram, tendo sido os dois primeiros mártires nela (cf. A prescrição contra os hereges, 36).

Clemente Romano, no ano 96, escreveu:

“Levemos em consideração os bons apóstolos: Pedro, que por inveja injusta suportou não um, nem dois, mas muitos sofrimentos, e assim, depois de ter dado testemunho, encaminhou-se para o merecido lugar da glória. […]

“Em torno desses homens [Pedro e Paulo], que se comportaram piamente, reuniu-se uma grande multidão de eleitos, os quais, depois de terem sofrido por inveja muitos ultrajes e tormentos, tornaram-se entre nós belíssimo exemplo”.

Entre muitos outros testemunhos históricos pode se citar os de:

Orígenes (185 – 253) responsável pela Escola catequética em Alexandria afirmou: “Pedro, ao ser martirizado em Roma, pediu e obteve fosse crucificado de cabeça para baixo”.

Santo Ireneu (130 – 202), bispo de Lião referiu:

“Para a maior e mais antiga a mais famosa Igreja, fundada pelos dois mais gloriosos Apóstolos, Pedro e Paulo”.

E ainda “Os bem-aventurados Apóstolos portanto, fundando e instituindo a Igreja, entregaram a Lino o cargo de administrá-la como bispo; a este sucedeu Anacleto; depois dele, em terceiro lugar a partir dos Apóstolos, Clemente recebeu o episcopado.”

E acrescentou: “Mateus, achando-se entre os hebreus, escreveu o Evangelho na língua deles, enquanto Pedro e Paulo evangelizavam em Roma e aí fundavam a Igreja.”

Tertuliano (155-222 d.C.):

“A Igreja também dos romanos publica ‒ isto é, demonstra por instrumentos públicos e provas ‒ que Clemente foi ordenado por Pedro.

“Feliz Igreja, na qual os Apóstolos verteram seu sangue por sua doutrina integral!” ‒ e fala da Igreja Romana, “onde a paixão de Pedro se fez como a paixão do Senhor.”

São Eusébio (263-340 d.C.) bispo de Cesareia, escreveu a “História Eclesiástica” onde narra a história da Igreja das origens até 303, e diz: “Pedro, de nacionalidade galileia, o primeiro pontífice dos cristãos, tendo inicialmente fundado a Igreja de Antioquia, se dirige a Roma, onde, pregando o Evangelho, continua vinte e cinco anos Bispo da mesma cidade.”

“A sucessão de Bispos em Roma é nesta ordem: Pedro e Paulo, Lino, Cleto, Clemente etc..”Santo Epifânio (315-403 d.C.), bispo de Constância falando da sucessão dos Bispos de Roma, registrou:

Doroteu: “Lino foi Bispo de Roma após o seu primeiro guia, Pedro.”

Optato de Milevo: “Você não pode negar que sabe que na cidade de Roma a cadeira episcopal foi primeiro investida por Pedro, na qual Pedro, cabeça dos Apóstolos, a ocupou.”

São Cipriano (martirizado em 258), bispo de Cartago (norte da África), no livro De Ecclesiae Unitate diz: “A cátedra de Roma é a cátedra de Pedro, a Igreja principal, de onde se origina a unidade sacerdotal.”[28]

E o grande Santo Agostinho (354 – 430): “A Pedro sucedeu Lino.”

São Pedro morreu nos jardins de Nero, no Vaticano, ao lado de uma grande multidão de cristãos, na perseguição desencadeada por esse imperador.

É ao ano de 64, ano do início das perseguições que deve remontar, a data do martírio do Príncipe dos Apóstolos.

São Jerônimo punha o martírio de São Pedro no ano de 67, juntamente com o martírio de São Paulo.

O historiador romano Tácito descreveu essa perseguição:

“Portanto, em primeiro lugar foram presos aqueles que confessavam abertamente sua crença [na ressurreição de Cristo]; depois, por denúncia destes, foi presa uma grande multidão, não tanto sob a acusação de ter provocado o incêndio, mas, sim, pelo ódio que tinham à espécie humana.

“À morte de todos eles acrescentava-se o escárnio, pois que, revestidos de peles de animais, pereciam dilacerados pelos cães, ou eram pregados nas cruzes, ou queimados vivos, ao pôr-do-sol, como tochas para a noite.


“Por isso, embora fosse gente culpada e merecedora de tão originais tormentos, crescia um sentimento de piedade por eles, pois eram sacrificados não para o bem comum, mas em razão da crueldade de um só” (Anais, XV, 44, 4-5).“Nero cedeu seus jardins para esse espetáculo, e providenciou jogos circenses, participando deles misturado à multidão, em vestes de auriga, ou de pé sobre o carro.

O imperador Constantino deu liberdade ao cristianismo e o imperador Teodósio o fez religião oficial do Império.

Na segunda década do século IV, Constantino encerrou num monumento em alvenaria a sepultura de Pedro. Até então só havia um túmulo escavado diretamente na terra, perto do circo que marcava o limite setentrional dos jardins de Nero.

Por volta de 320, o mesmo imperador edificou uma basílica em função da sepultura.

Para isso foi necessário um grandioso trabalho de engenharia, que, de um lado, cortava os declives da colina Vaticana e, de outro, soterrava e utilizava como fundamentos as estruturas de uma necrópole dos séculos I e IV.

Quis Constantino que a basílica fosse o monumento que encerrava a sepultura do apóstolo. Por esse motivo, o eixo do edifício de Constantino não levou em conta, como teria sido mais fácil, a necrópole e o circo.

Assim, desde aquela época o sepulcro do apóstolo é o centro exato de do transepto da Basílica. E, por sua vez, o ponto de referência de tudo o que foi construído ao seu redor ao longo dos séculos.

Primeira basílica constantiniana com acréscimos medievais

Desde as sepulturas dos primeiros fiéis cristãos até as instalações para os peregrinos no início da Idade Média, tudo foi feito em volta do eixo da Basílica, cujo centro era o túmulo do Príncipe dos Apóstolos.

Acrescente-se ainda as estradas e os muros da civitas Leoniana edificados depois do saque dos sarracenos de 846 além do moderno bairro do Borgo.

A construção da atual basílica, fundada pelo papa Júlio II em 18 de abril de 1506, embora tenha levado à demolição da basílica constantiniana e de seus acréscimos medievais, respeitou rigorosamente a centralidade do sepulcro de Pedro.

O atual altar-mor, construído pelo papa Clemente VIII (1594), encontra-se exatamente acima do medieval, do papa Calixto II (1123), que, por sua vez, engloba o primeiro altar, do papa Gregório Magno (cerca de 590), construído sobre o monumento constantiniano que guarda o túmulo de Pedro.

O ápice da cúpula de Michelangelo se encontra em posição exatamente perpendicular acima desse altar.

O papa Pio XII dispôs uma escavação arqueológica sob o altar-mor da Basílica Vaticana. Essa aconteceu entre 1939 e 1949 e foi levada a cabo por quatro estudiosos de arqueologia, arquitetura e história da arte.

Tratou-se de Bruno Maria Apollonj-Ghetti; Pe Antonio Ferrua, S.J.; Enrico Josi e Pe. Engelbert Kirschbaum, S.J.; sob a direção de dom Ludwig Kaas, secretário da Insigne Fábrica de São Pedro.

Eles encontraram o monumento de Constantino, um paralelepípedo com cerca de três metros de altura, revestido de mármore pavonáceo e pórfiro.

Escavando ao longo dos lados do monumento constantiniano encontraram debaixo dele o túmulo de Pedro.

As escavações revelaram uma pequena capela, formada por uma mesa sustentada por duas pequenas colunas de mármore e apoiada num muro rebocado e pintado de vermelho (o chamado “muro vermelho”) em posição correspondente à de um nicho; no chão, diante do nicho, sob uma pequena laje, um túmulo escavado diretamente na terra.

Túmulo de São Pedro desde a nave central da basílica

A pequena capela, que pode ser datada do século II, logo foi identificada como sendo o “troféu de Gaio”.

Tratava-se do mais primitivo túmulo que guardou originalmente as relíquias.

Mas o túmulo encontrado estava vazio, pois as relíquias foram transferidas posteriormente.

O monumento constantiniano havia englobado também uma outra estrutura, ao lado da capela, um pequeno muro perpendicular ao “muro vermelho”.

Esse pequeno muro foi denominado “muro dos grafitos”, pois, na face oposta à capela, continha um grande número de grafitos sobrepostos uns aos outros, anteriores ao próprio Constantino.

No interior do pequeno muro, havia sido escavado em tempos antigos, seguramente depois da inserção dos grafitos e antes do arranjo definitivo do monumento constantiniano, um lóculo em forma de paralelepípedo revestido de mármore em toda a base e, até uma certa altura, nos quatro lados, um dos quais, o ocidental, terminava justamente no “muro vermelho”.

Segundo a reconstrução elaborada mais tarde pela arqueóloga Margherita Guarducci, desse lóculo havia sido retirada grande parte do material que continha.

“Pedro está aqui”

Dali provém um importantíssimo documento. Trata-se um fragmento extremamente pequeno (3,2 x 5,8 cm) de reboco vermelho, sobre o qual está grafitado, em grego, a expressão “PETR[Oc] ENI”, ou seja, “Pedro está aqui”.

Túmulo de São Pedro, visto desde a cripta

Os estudos de Guarducci entre 1952 e 1965, levaram à decifração dos grafitos mostrando que estes continham uma ampla série de invocações a Cristo, a Maria e a Pedro, sobrepostas e combinadas.

Os mesmos estudos, compostos de pesquisas complexas e bem articuladas, realizadas com o máximo rigor científico, permitiram constatar que nesse lóculo tinham ficado as relíquias de Pedro depois de retiradas do túmulo escavado na terra.

Onde estavam então as relíquias?

Encontravam-se numa pequena caixa extraída daquele mesmo lóculo durante as excavações dos cientistas e guardada nas dependências das Grutas Vaticanas.

Depois de analisados, os restos mortais revelaram-se pertencentes a um só homem, de compleição robusta, que morrera em idade avançada.

Tinham incrustações de terra e mostravam terem sido envolvidas num pano de lã colorida de púrpura, com trama de ouro.

As relíquias eram compostas de fragmentos de todos os ossos do corpo, exceto dos ossos dos pés, dos quais não havia o menor vestígio.

Esse pormenor, realmente singular, não podia deixar de trazer à memória a circunstância da crucifixão inverso capite (de cabeça para baixo), atestada por antiga tradição como símbolo da humildade de Pedro.

Os resultados desse tipo de crucifixão, ou seja, a separação dos pés, eram visíveis nos restos do corpo encontrado.

Crucifixão de São Pedro. Massaccio, Pisa

A mesma circunstância correspondia perfeitamente a um conhecimento bem sólido, do ponto de vista histórico: o do costume romano de tornar espetaculares as execuções dos condenados à morte.

O cadáver dos executados, privado do direito de sepultura, era abandonado no lugar do suplício.

Foi o que ocorreu a Pedro, levado à morte sem nenhuma distinção, entre muitos outros; só quando foi possível recuperar o corpo é que o apóstolo foi sepultado na terra, da maneira mais humilde – provavelmente às pressas, no lugar mais próximo à disposição.

O arqueólogo Antônio Ferrua descobriu ainda características das substâncias químicas contidas na ossada, pertencente a um homem que viveu a maior parte de sua vida próximo do Lago de Tiberíades, na Galileia.

Por fim, no encerramento do Jubileu de 1950, Pio XII deu o anúncio do reconhecimento da sepultura de Pedro, que uma tradição antiquíssima e unânime também atestava, e a ciência arqueológica confirmava.

“Nos subterrâneos da Basílica Vaticana estão os fundamentos da nossa fé. A conclusão final dos trabalhos e dos estudos responde um claríssimo ‘sim’: o túmulo do Príncipe dos Apóstolos foi encontrado”.

Via Aleteia