Em livro, o Papa Francisco abre o seu coração em uma entrevista concedida a Dominique Wolton. O pesquisador francês ficou impressionado com a sua “incrível simplicidade”.

Crise dos migrantes, laicismo, pedofilia na Igreja, relações com o islã… O Papa Francisco abre o seu coração em um livro que chegou às livrarias francesas no dia 06 de setembro passsado. O Sumo Pontífice respondeu a Dominique Wolton em uma série de entrevistas, “não menos de 12 encontros em um ano”. O pesquisador francês destaca que “este homem, que é extremamente culto, fala com uma incrível simplicidade”.

Como você convenceu o Papa e por que ele aceitou a entrevista?

Eu propus a ele o projeto sem conhecê-lo inteiramente. Eu escrevi para ele dizendo: “Eis quem eu sou e o que fiz e eu quero propor-lhe um livro sobre a política”. Anexei o plano do livro que eu tinha preparado. O que o levou a aceitar, foi, em primeiro lugar, o fato de que eu sou cientista. Isso o tranquilizou em relação a um jornalista. Eu era um leigo francês, o que lhe interessava, porque ele gosta muito da França e do debate sobre a laicidade. A segunda coisa, que não estava prevista, é que quando nós nos encontramos, houve um verdadeiro encontro humano. Rolou uma química entre as nossas duas histórias, que não tem nada a ver uma com a outra; mas isso criou esse diálogo e esta comunicação.

Como isso aconteceu? Você conversou a sós com ele?

Sim. Na primeira vez, me fizeram esperar em um pequeno escritório e eu levei um intérprete para me ajudar, porque eu não sou nenhum gênio em italiano nem em espanhol. A porta se abriu e este homem chegou de branco. Em seguida, ficamos o tempo todo sozinhos. Não é fácil falar com um papa!

Que tipo de pessoa você teve na sua frente? Um excelente comunicador? Um jesuíta? O Papa?

O que me impressionou imediatamente foi a bondade, os olhos, a gentileza, uma espécie de ternura incrível, uma vontade muito grande, uma lucidez real e uma incrível simplicidade. Nós nos conectamos intelectualmente. Logo depois, tudo aconteceu num plano mais amigável, mas não havia nenhuma linguagem estereotipada ou em todo o caso o mínimo. Em relação aos inúmeros políticos que eu já vi, de presidentes da República, políticos pretensiosos com sua linguagem estereotipada, ele é de uma simplicidade! É a razão de seu sucesso mundial. Este homem, que é extremamente culto, fala com uma incrível simplicidade.

Ele lhe pareceu sozinho? Ele até fala de uma gaiola…

Sim, é a gaiola do Vaticano! Eu não percebi que estivesse enclausurado, embora seja, como ele mesmo disse, uma gaiola muito agradável. Eu penso que ele não está sozinho. Uma boa parte dos católicos está com ele e outra boa parte lhe é hostil, mas ele tem muito mais encontros humanos, políticos e culturais com ateus e agnósticos, porque ele fala de política. É por isso que isso me interessava. Ele é extremamente sensível à sociedade: como ele diz, “a Igreja deve fazer a grande política, não a pequena política”. Portanto, ele odeia a hipocrisia, a rigidez, as críticas sobre os costumes. Ele tem uma visão do humano extremamente cristã e, ao mesmo tempo, sem ilusões. Ele não é um homem de rupturas. O que me impressiona é que é realmente da grande política, no sentido de que sua obsessão é a de estender pontes e não construir muros, isto é, conectar e não excluir. Penso que isso seja de uma inteligência política extrema, no sentido mais amplo da palavra “política”.

Ele é agora um amigo para você?

Eu penso que o que eu posso representar para ele e o que eu posso lhe dizer é importante, e vice-versa. Você sabe, é sempre assim na minha vida. Eu tive uma relação muito forte com Raymond Aron, muito forte com Jean-Marie Lustiger, forte o suficiente com Jacques Delors e muito forte com ele. Em todo caso, é este encontro humano e esta espécie de lucidez, enfim, este otimismo, que eu guardo.

Fonte: Radio France

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Autor de um livro-entrevista com o Sumo Pontífice, o sociólogo conta os segredos dos seus 14 encontros.

Faça um resumo de Politique et Société (Editions de L’Observatoire), que foi publicado na quarta-feira, 06 de setembro.

É um encontro intelectual e humano. Uma janela para o mundo entre o sociólogo agnóstico, pesquisador em comunicação política, que eu sou, e um papa que mede a importância da laicidade e repensa o equilíbrio entre tradição e modernidade. Essas 411 páginas destacam sua luta contra as corrupções e nos mostram que o tempo da Igreja é diferente do nosso.

Como você trabalhou?

Na “clandestinidade”… Manter o segredo não era muito difícil, porque ninguém me conhecia. Por conseguinte, para mim foi fácil entrar no Vaticano anonimamente na companhia do padre Louis de Romanet, meu tradutor, que, tendo trabalhado na Secretaria de Estado, também serviu de peixe-piloto para mim. Eu desci do táxi atrás da Praça de São Pedro, passei pelas várias barreiras marcadas pelo secretário particular do Papa até a Casa Santa Marta, onde ele mora. No começo, eu não sabia quantos encontros eu teria, porque o livro foi sendo construído ao longo de meses. Finalmente, trabalhando sozinho, eu não arrisquei nenhuma fuga.

Descreva para nós este Papa, que você nunca tinha encontrado antes.

Sua inteligência, sua bondade, sua alegria, sua fé, sua misericórdia, seu amor pelo povo, a humanidade me impressionaram; mas também sua energia, sua cultura, sua abertura de espírito e mais ainda a sua firmeza na luta contra a rigidez.

Francisco admitiu ter consultado uma psicanalista...

Uma surpresa que veio naturalmente quando abordamos a questão das mulheres, suas amizades femininas; ele então “confessou” isso sem barreiras entre sua vida pública e sua vida privada. Este papa não esconde estar muito à vontade com elas; a prova: os seus olhos brilham quando fala delas.

Ele é um pessimista ou um otimista?

Ele é, antes, um cético ativo, otimista contracorrente, mas sem ilusões sobre nada. Seu credo é o Evangelho, onde o bem supera o mal, mas não tem um calendário preciso. Ele trava as batalhas essenciais para ele: a batalha contra a hipocrisia, pelo serviço dos pobres, dos excluídos, pela reforma da família, da cúria, com a ambição de colocar as mulheres na Igreja católica. É uma verdadeira batalha esperando dar-lhes um papel importante no futuro, talvez até mesmo que tenham acesso às ordens sagradas. Na verdade, consciente de que se João Paulo II libertou a Europa, seu desafio é enfrentar os desafios da globalização. Mas é “diabolicamente” difícil gerenciar as tensões internacionais.

Um papa muito jesuíta?

Mais franciscano na sua abordagem da pobreza, mas jesuíta na gestão da política e do poder, e argentino no seu cosmopolitismo, no seu humor, na sua forte desconfiança dos Estados Unidos. Para entender isso, é preciso mensurar o quanto a sua relação com a Argentina é visceral…

No entanto, a imprensa argentina ainda não falou sobre o livro.

De fato, os principais jornais argentinos, ao menos por enquanto, ainda não ecoaram o livro. Sem dúvida, eles ainda não perceberam que a eleição de Jorge Mario Bergoglio mudou as prioridades. Ele também está bravo com a Europa, que ele considera não estar à altura. O Papa Francisco está obcecado com as pontes que não devem ser quebradas. Construir muros lembra-lhe muito os muros do comunismo e das ditaduras.

Que lição você aprendeu com essa experiência única?

Nosso relacionamento manteve-se técnico, profissional. Francisco me fez poucas perguntas pessoais, nunca me ofereceu um café ou me convidou para almoçar na Casa Santa Marta. Eu gostaria de dizer que, desde o final do livro, formou-se entre nós uma cumplicidade respeitosa e calorosa que, confesso, me deixa muito orgulhoso. No começo, tive que superar a emoção criada pelo poder do seu olhar, a angústia de conseguir realizar bem este trabalho, cujo projeto eu tinha feito antes de entrar em contato com o Santo Padre. Eu falei em francês lentamente – o Papa compreende perfeitamente o nosso idioma, mas suas palavras são hesitantes, então ele me respondia em italiano. Quando ele releu o livro, ele não censurou nada, apenas fez alguns ajustes, e quando, na semana passada, eu lhe levei a primeira cópia, ele exclamou: “Ah! Que lindo que ficou”. Um momento inesquecível!

Fonte: Paris Match.

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Atenção, artigo em espanhol.

Se realizará en diciembre en Colombia y reunirá a 80 figuras del continente. Por Argentina irán la ministra de Desarrollo Social, Carolina Stanley, el ex presidente de la Cámara de Diputados Julián Domínguez y el intendente de Córdoba Ramón Mestre.

El papa Francisco impulsa la realización de un Congreso para políticos católicos latinoamericanos que se hará en diciembre en Colombia y al que serán invitadas 80 figuras del continente, entre ellos, y por Argentina, la ministra de Desarrollo Social, Carolina Stanley, el ex presidente de la Cámara de Diputados Julián Domínguez y el intendente de Córdoba Ramón Mestre.

“El evento se llamara ‘Encuentro de católicos con responsabilidades políticas al servicio de los pueblos latinoamericanos’, y será el 1, 2 y 3 de diciembre en Colombia. Queremos que sea un intercambio de experiencias, de testimonios y reflexiones sobre la experiencia de los laicos católicos que asumen responsabilidades políticas”, anunció este lunes en diálogo con Télam el vicepresidente de la Pontificia Comisión para América Latina del Vaticano (CAL), Guzmán Carriquiry.

El evento, al que asistirán 80 dirigentes de toda la región, incluidos Stanley, Domínguez y Mestre, contará además con la presencia de “20 pastores”: siete cardenales y 13 Obispos, y está co-organizado por la CAL y el Consejo Episcopal Latinoamericano (CELAM).

“El encuentro tiene el aval, el apoyo y el impulso de Francisco y tiene como antecedente la cuestión que Francisco impuso como tema en 2016 de la asamblea plenaria de la CAL, sobre ‘el indispensable compromiso de los laicos en la vida pública de los países latinoamericanos’. Y 20 días después de esa asamblea envió una carta sobre este tema”, explicó Carriquiry.

Serán 80 invitados propuestos por las conferencias episcopales de la región, en una proporción de entre tres y cuatro por país, con la excepción de Brasil que tendrá ocho representantes. Se sabe el ecuatoriano Rafael Correa, para entonces con mandato cumplido, estará en las deliberaciones.

“Queremos poner a la Iglesia, en especial a sus pastores, en actitud de escucha, ante las situaciones y necesidades que viven los católicos con responsabilidades políticas”, detalló el laico uruguayo.

Explicó que la idea no es “formar un bloque político católico en América Latina, ni restaurar un partido de inspiración cristiana”, sino “invitar católicos dentro del espectro plural de las opciones políticas de cada país”. “Y vamos a buscar que la comunión entre ellos sea más fuerte en la sede eclesial que las contraposiciones políticas, que seguirán existiendo y no vamos a amortiguar”, anunció.

“Vamos a tratar de escuchar qué es lo que el magisterio de Papa Francisco y el Episcopado latinoamericano piden a los desafíos y las tareas de la política en América Latina”, agregó.

Tras participar junto a la plana del Celam de una reunión de trabajo en Roma sobre las conclusiones de la asamblea plenaria que la entidad tuvo la semana pasada en El Salvador, Carriquiry explicó que se buscará “estudiar cuál es el identikit ideal del católico en la política y cómo formar una nueva generación de católicos para dignificar la política en América Latina”.

El año pasado, en su carta a la CAL, Francisco planteó que “debemos reconocer que el laico por su propia realidad, por su propia identidad, por estar inmerso en el corazón de la vida social, pública y política, por estar en medio de nuevas formas culturales que se gestan continuamente tiene exigencias de nuevas formas de organización y de celebración de la fe”.

La información es publicada por Telam, 22-05-2017.

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A Câmara dos Deputados enviou ao STF seu posicionamento, por escrito, contra a liberação do aborto até a 12ª semana de gravidez, como quer o PSOL. O documento, assinado por Rodrigo Maia, sustenta que se o Supremo acatar a ação, estará indo contra o Congresso.

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Fonte: O Antagonista

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É tristemente comum a confusão que perdura no meio de muitos cidadãos, inclusive católicos, no tocante à diferença entre política e politicagem, ou política e partidarismos. O católico não deve fazer politicagem, mas deve fazer política.

Política é apenas a participação ativa e consciente nas decisões da sociedade, o que não é apenas um direito, mas também uma obrigação moral: ninguém pode se isentar da sua cota de responsabilidade nas decisões da sua própria comunidade. Somos TODOS responsáveis, em alguma medida, pelos rumos da nossa pátria, do nosso Estado, da nossa cidade, do nosso bairro, da nossa rua.

A Igreja deixa esta responsabilidade bem clara na sua doutrina social – e o Papa Francisco nos lembra disso com frequência. 

A fim de reforçar esta consciência, compartilhamos a seguinte mensagem de Dom Gil Antônio Moreira, arcebispo de Juiz de Fora, no Estado brasileiro de Minas Gerais:

* * *

Consta dos princípios cristãos o dever de colaborar com a sociedade na busca do bem comum. É ‘sagrado’ o dever de participar leal e responsavelmente da vida pública e política, buscando uma sociedade justa, fraterna e pacífica. A Igreja faz isto a partir do Evangelho cujo núcleo é a pessoa de Jesus Cristo, que veio para salvar a pessoa humana de forma integral e definitiva.

Para esclarecer sobre a participação do fiel cristão na vida pública, social e política, o Pontifício Conselho “Justiça e Paz” publicou no ano de 2004 o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, que estabelece balizas para este fim.

São João Paulo II, na encíclica Sollicitudo Rei Socialis (1987), enfatizava que não é possível amar o próximo como a si mesmo e perseverar nesta atitude sem firme e constante determinação de empenhar-se em prol do bem de todos e de cada um, porque todos nós somos verdadeiramente responsáveis por todos.

Já o Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965), na Constituição Conciliar Gaudium et Spes, proclamava que as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, são as mesmas da Igreja.

Este dever de colaboração social é também um direito que a democracia, regime que todos prezamos, garante a todos os cidadãos, independentemente de credo religioso. O direito democrático prevê a liberdade de expressão e garante a liberdade religiosa como algo inalienável na construção da civilização. Tais direitos estão explícitos na Constituição Federal Brasileira nestes termos: Art. 5.º, inciso VI: é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias. O inciso VIII garante aos que creem o direito de expressão e todos os demais diretos comuns a todos os demais cidadãos: ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei.

O referido direito é internacionalmente reconhecido, como se pode ver na Declaração Universal dos Direitos Humanos em seu artigo 18: Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião. Este direito importa a liberdade de mudar de religião, ou convicção, bem assim a liberdade de manifestá-las, isoladamente ou em comum, em público ou em particular, pelo ensino, pelas práticas, pelo culto e pela observância dos ritos. Defendendo os mesmos direitos, o Pacto de São José da Costa Rica, do qual o Brasil é signatário, reza em seu artigo 12: Toda pessoa tem direito à liberdade de consciência e de religião.

Por esses e por outros artigos de leis, nenhum governo, nenhum ideólogo nem qualquer outra pessoa pode, em nome da laicidade, impedir ou cercear a ação dos cidadãos que professam uma religião. Em nome da laicidade, ninguém, a não ser que seja totalitarista ou deseje impor uma ditadura destruidora da democracia, pode negar à Igreja o direito de existir e de se posicionar, de ensinar a seus fiéis e de expressar publicamente suas convicções a respeito da dignidade humana, mesmo porque, esta matéria não é um artigo da sua dogmática, mas faz parte de uma ordem natural aceitável pela pura razão humana.

O Estado pode e deve ser laico, mas não pode ser laicista, nem pode impor uma única religião a ser seguida, como também não pode impor o ateísmo como regra geral ao seu povo, mesmo porque isto já seria uma posição religiosa praticada por ele.

O povo brasileiro, em sua imensa maioria, é fiel e temente a Deus e merece ser respeitado no que lhe atribui a legislação. O respeito e a defesa do direito à prática religiosa são indispensáveis para que haja paz e justiça para todos; do contrário, cair-se-ia no caos social.

Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo de Juiz de Fora

Aleteia Brasil

Urna-eleitoral

Fonte: Catholic Answers (EUA) – http://www.catholic.com
(Tradução de Carlos Nabeto)

Para os Verdadeiros Católicos

Este Guia oferece declarações claras e concisas acerca de cinco assuntos morais inegociáveis. Ao terminar de lê-lo, não restará dúvida ou confusão a respeito do ensino da Igreja, sobre o que ela exige de seus filhos.

Nenhuma parte deste Guia deverá ser interpretada como apoio para algum candidato ou partido político.

Como este guia do eleitor pode ajudá-lo?

Este Guia do Eleitor o ajudará a votar de modo consciente, fundamentado no ensino moral católico. Este Guia o auxiliará a eliminar aqueles candidatos que apóiam políticas irreconciliáveis com as normas de moralidade sustentadas por todo cristão.

Face à maioria dos temas apresentados pelos candidatos e legisladores, os católicos podem favorecer um ou outro, sem ter que agir contra a sua fé. Com efeito, a maioria dos assuntos não necessita de uma “postura católica”.

Porém, alguns assuntos são tão importantes, tão fundamentais, que apenas uma única ação pode estar de acordo com o ensino do evangelho cristão. Ninguém que defenda uma postura incorreta nesses assuntos pode dizer que age segundo as normas morais da Igreja.

Este Guia do Eleitor identifica os cinco assuntos “inegociáveis” e o ajuda a chega numa lista de candidatos aceitáveis, que postulam um cargo político, seja a nível nacional, estatal ou municipal.

Os candidatos que respaldarem qualquer dos cinco assuntos inegociáveis, devem ser considerados desqualificados para o desempenho de cargo público e, portanto, não devem receber o seu voto. Assim, você deverá fazer a sua escolha entre os candidatos restantes.

Seu papel como eleitor católico

Os católicos têm a obrigação moral de promover o bem comum ao exercer o seu privilégio de voto (cf. CIC, §2240). As autoridades civis não são as únicas responsáveis pelo país. “O serviço do bem comum exige dos cidadãos que cumpram com a sua responsabilidade na vida da comunidade pública” (CIC, §2239). Isto significa que os cidadãos devem participar do processo político na urna de votação.

Porém, a votação não pode ser arbitrária. “A consciência cristã bem formada não permite a alguém favorecer com o próprio voto a concretização de um programa político ou a aprovação de uma lei particular que contenham propostas alternativas ou contrárias aos conteúdos fundamentais da fé e da moral” (CVP nº 4).

Algumas questões sempre estarão erradas e ninguém poderá votar a favor delas direta ou indiretamente. Os cidadãos votam a favor desses males quando votam nos candidatos que se propõem a promovê-los. Portanto, os católicos não devem votar a favor de alguém que promove programas ou leis intrinsecamente más.

Os cinco assuntos inegociáveis

Estes cinco assuntos são chamados inegociáveis porque contêm atos que sempre são moralmente maus e nunca podem ser promovidos pela lei. É pecado grave defender ou promover qualquer destes atos e nenhum candidato que verdadeiramente deseja fomentar o bem comum pode apoiar estes cinco assuntos inegociáveis:

1. O Aborto

Sobre uma lei que permite o aborto, a Igreja ensina que “nunca é lícito submeter-se a ela, nem participar em uma campanha de opinião a favor de uma lei semelhante, nem dar-lhe o sufrágio do próprio voto” (EV nº 73). O aborto é o assassinato intencional de um ser humano inocente e, portanto, é uma espécie de homicídio.

A criança sempre é parte inocente e nenhuma lei pode permitir que lhe seja tirada a vida. Mesmo quando uma criança é concebida em razão de estupro ou incesto, a criança não tem culpa e não deve sofrer a morte pelo pecado dos outros.

2. A Eutanásia

Às vezes disfarçada sob a denominação de “morte misericordiosa”, a eutanásia é uma forma de homicídio. Ninguém tem o direito de tirar sua própria vida (suicídio) e ninguém tem o direito de tirar a vida de uma pessoa inocente.

Com a eutanásia, os doentes e os idosos são assassinados sob um sentido de compaixão mal fundamentado, pois a verdadeira compaixão não pode incluir o cometimento de atos intrinsecamente maus contra outra pessoa (cf. EV nº 73).

3. As Pesquisas com Células Estaminais Fetais

Os embriões humanos são seres humanos. “O respeito pela dignidade do ser humano exclui toda manipulação experimental ou exploração do embrião humano” (CDF nº 4b).
Os recentes avanços científicos demonstram que qualquer cura que possa resultar dos experimentos com células estaminais fetais pode também ser desenvolvida a partir do uso de células estaminais adultas. As células estaminais adultas podem ser obtidas sem causar mal aos adultos das quais provêem. Portanto, já não existe um argumento médico favorável ao uso das células estaminais fetais.

4. A Clonagem Humana

“As tentativas… para se obter um ser humano sem conexão alguma com a sexualidade, mediante ‘fissão gemelar’, clonagem, partenogênesis, devem ser consideradas contrárias à moral, porque estão em contraste com a dignidade tanto da procriação humana como da união conjugal” (RVH 1,6).

A clonagem humana também acaba sendo uma forma de homicídio porque destrói o clone “rejeitado” ou “fracassado”; no entanto, cada clone é um ser humano.

5. O “Matrimônio” Homossexual

O verdadeiro matrimônio é a união entre um homem e uma mulher. O reconhecimento legal de qualquer outra forma de “matrimônio” menospreza o verdadeiro matrimônio e o reconhecimento legal das uniões homossexuais na realidade causa dano aos homossexuais, pois os anima a continuar vivendo sob um acordo objetivamente imoral.

“No caso de uma Assembléia Legislativa propor pela primeira vez um projeto de lei a favor da legalização das uniões homossexuais, o parlamentar católico tem o dever moral de expressar clara e publicamente seu desacordo e votar contra o projeto de lei. Conceder o sufrágio do próprio voto a um texto legislativo tão nocivo ao bem comum da sociedade é um ato gravemente imoral” (UPH nº 10).

Com quais cargos políticos devo me preocupar?

As leis são aprovadas pelo Legislativo, o Executivo as faz cumprir e o Judiciário as interpreta. Isto quer dizer que você deve se preocupar com qualquer candidato ao Legislativo, ou qualquer um que se apresente como candidato ao Poder Executivo e, [nos países onde for cabível] os que se candidatam à magistratura. E isto não apenas em nível nacional, mas também estadual e municipal.

É certo que, quando o cargo é inferior, há menor probabilidade do candidato apoiar certas causas. Por exemplo, é possível que a Câmara Municipal jamais discuta o tema da clonagem humana. Porém, é muitíssimo importante avaliar cada candidato antes das eleições, sem importar o cargo que está disputando.

Poucas pessoas alcançam um alto posto sem ter ocupado um cargo menor. Algumas poucas pessoas se convertem em deputados, em senadores ou presidentes sem ter sido antes eleitas para um cargo menor. Porém, a maioria dos deputados, senadores e presidentes começaram sua carreira política em nível local. O mesmo ocorre com os deputados estaduais; muitos deles começaram nas Câmaras Municipais e associações de bairro, galgando aos poucos a carreira política.

Os candidatos que futuramente postularão cargos superiores procederão principalmente dos atuais candidatos a cargos menores. Por isso, é prudente empregar os mesmos princípios para os candidatos municipais como para os estaduais e federais.

Se os candidatos que estão equivocados nos cinco assuntos inegociáveis fracassarem na eleição para os cargos menores, talvez não postularão cargos superiores. Isto facilitaria a eleição dos melhores candidatos para os postos de maior influência em nível estadual e nacional.

Como determinar a postura de um candidato

1. Isto poderá se conseguir com maior facilidade quanto mais importante for o cargo. Por exemplo: apresentar estes assuntos [inegociáveis] aos deputados e senadores e determinar sua postura. O mesmo podemos fazer em nível estadual. Em ambos os casos, conhecer a postura de um candidato pode ser fácil ao ler artigos em jornais e revistas, buscar suas opiniões na Internet ou avaliar suas propostas impressas e distribuídas durante o período eleitoral.

2. Um pouco mais difícil é conhecer as opiniões dos candidatos aos cargos municipais, porque poucos deles tiveram a oportunidade de considerar a legislação sobre temas como o aborto, a clonagem e a santidade do matrimônio. Porém, estes candidatos, por serem locais, freqüentemente podem ser contatados diretamente ou mantêm comitês eleitorais onde poderão explicar sua postura perante estes temas.

3. Se não for possível determinar a postura do candidato por outros meios, não hesite em escrever-lhe diretamente e perguntar-lhe qual a sua posição sobre cada um dos assuntos inegociáveis.

Como não se deve votar

1. Não confie seu voto apenas à sua filiação partidária, em seus anteriores hábitos de votação ou na tradição familiar de voto. Há alguns anos, estas eram formas confiáveis para determinar em quem se poderia votar, mas hoje não são mais confiáveis. Deve-se olhar cada candidato como um indivíduo. Isto significa que você pode votar em candidatos de partidos distintos.

2. Não vote pela aparência ou personalidade do candidato ou por sua astúcia perante os meios de comunicação. Alguns desses candidatos atraentes, agradáveis e que dizem o que convém apóiam males intrínsecos quando deveriam se opor a eles, enquanto que outros candidatos, que parecem simples, cansados ou incomodados pelas câmaras defendem leis que estão de acordo com os princípios cristãos.

3. Não vote em candidatos apenas porque se declaram católicos. Infelizmente, muitos dos candidatos que se dizem católicos rejeitam os ensinamentos básicos da moral católica. Eles apenas são “católicos” porque querem o voto dos católicos.

4. Não selecione os candidatos baseando-se apenas no pensamento: “O que vou ganhar?”. Tome sua decisão optando pelos candidatos que pareçam mais dispostos a promover o bem comum, ainda que você não se beneficie direta ou imediatamente do ordenamento legal que propõem.

5. Não premie com seu voto os candidatos que estejam corretos em assuntos menos importantes, mas que estão equivocados em assuntos morais fundamentais. Pode ser que um candidato adquira uma certa consideração por ter votado exatamente como você deseja, embora já tenha votado a favor – digamos – da eutanásia. Tal candidato jamais deve receber o seu voto. Os candidatos devem saber que estar equivocado em um dos cinco assuntos inegociáveis é suficiente para excluí-los da sua consideração.

Como votar

1. Para cada cargo, determine primeiro a posição que cada candidato possui em cada um dos cinco assuntos inegociáveis.

2. Elimine da sua relação os candidatos que estiverem equivocados em qualquer um dos assuntos inegociáveis. Não importa que tenham razão em outros assuntos; devem ser desprezados se estiverem equivocados em um só dos não negociáveis.

3. Escolha entre os candidatos restantes, baseando-se no seu juízo sobre as posições de cada candidato em outros assuntos de menor importância.

Quanto não há um candidato “aceitável”

Em alguns debates públicos, cada candidato assume uma postura equivocada em um ou mais assuntos inegociáveis. Nesse caso, você pode votar no candidato que assuma menos posturas incorretas; ou que pareça ser mais incapaz para fazer avançar a legislação imoral; ou pode, ainda, não votar em ninguém.

O papel da sua consciência

A consciência é como um alarme: o adverte quando está a ponto de cometer algum erro. Ela apenas não determina o que é bom ou mau. Para que a sua consciência funcione corretamente, deve estar bem informada. Ou seja, você deve se informar sobre o que é bom e o que é mau. Só assim sua consciência será um guia confiável.

Infelizmente, muitos católicos hoje em dia não formaram suas consciências adequadamente sobre os assuntos fundamentais da moralidade. O resultado é que suas consciências não disparam nos momentos apropriados, inclusive no dia das eleições.

Uma consciência bem formada jamais contradiz o ensino moral católico. Por essa razão, se você tem dúvidas sobre o caminho que deve trilhar a sua consciência no momento de votar, ponha sua confiança no firme ensino moral da Igreja (o Catecismo da Igreja Católica é uma excelente fonte de ensino moral autêntico).

Quando acabar de ler este Guia do Eleitor

Por favor, não pare com a simples leitura deste Guia. Leia-o, aprenda com ele e prepare a sua seleção de candidatos baseado nele. Após, forneça este Guia do Eleitor a um amigo e peça-lhe que o leia e o repasse a outros. Quanto mais pessoas votarem de acordo com os princípios morais básicos, melhor será o nosso país.

Abreviações:

CIC – Catecismo da Igreja Católica
CVP – Congregação para a Doutrina da Fé: Nota doutrinal sobre algumas questões relativas ao compromisso e a conduta dos católicos na vida política.
CDF – Pontifício Conselho para a Família: Carta dos Direitos da Família.
EV – João Paulo II: Carta Encíclica Evangelium Vitae (O Evangelho da Vida)
RVH – Congregação para a Doutrina da Fé: Instrução acerca do respeito da vida humana nascente e dignidade da procriação.
UPH – Congregação para a Doutrina da Fé: Considerações acerca dos projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais

VATICAN CITY, VATICAN - SEPTEMBER 18: Pope Francis attends his weekly General Audience in St. Peter's Square on September 18, 2013 in Vatican City, Vatican. Pontiff called on Catholics together with other Christians to continue to pray for peace in the most trouble parts of the world. (Photo by Franco Origlia/Getty Images)

Vossa Santidade
Papa Francisco
São Paulo, 30 de agosto de 2016.

Santíssimo Padre,

Dirijo-me a Vossa Santidade para informá-lo da gravíssima situação política e institucional que vive o Brasil, país que tive a honra de presidir de 2003 a 2010.

Tomo a liberdade de escrever-lhe considerando o respeito e a amizade que Vossa Santidade tem pelo Brasil, pelos quais somos todos imensamente gratos.

Orgulho-me de ter conseguido, apesar da complexidade inerente às grandes democracias e dos problemas crônicos do Brasil, unir o meu país em torno de um projeto de desenvolvimento econômico com inclusão social, que nos fez dar um verdadeiro salto histórico em termos de crescimento produtivo, geração de empregos, distribuição de renda, combate à pobreza e ampliação das oportunidades educacionais.

Por meios pacíficos e democráticos, fomos capazes de tirar o Brasil do mapa da fome no mundo elaborado pela ONU, libertamos da miséria mais de 35 milhões de pessoas, que viviam em condições desumanas, e elevamos outras 40 milhões a patamares médios de renda e consumo, no maior processo de mobilidade social da nossa história.

Em 2010, como se sabe, fui sucedido pela Presidenta Dilma Rousseff, também do Partido dos Trabalhadores, que havia dedicado sua vida à luta contra a ditadura militar, pela democracia e pelos direitos da população pobre do nosso país.

Mesmo enfrentando um cenário econômico internacional adverso, a Presidenta Dilma conseguiu manter o país no rumo do desenvolvimento e consolidar os programas sociais emancipadores, prosseguindo na redução das enormes desigualdades materiais e culturais ainda existentes na sociedade brasileira.

Em 2014, a Presidenta Dilma foi reeleita com 54 milhões de votos, derrotando uma poderosa coalizão de partidos, empresas e meios de comunicação que pregava o retrocesso histórico do país, com a redução de importantes programas de inclusão social, a supressão de direitos básicos das classes populares e a alienação do patrimônio público construído com o sacrifício de inúmeras gerações de brasileiros.

A coalizão adversária, vencida nas urnas em 2002, 2006, 2010 e 2014, não se conformou com a derrota e desde a proclamação do resultado procurou impugná-lo por todos os meios legais, sem alcançar nenhum êxito.

Esgotados os recursos legais, no entanto, em vez de acatar a decisão soberana do eleitorado, retomando o seu legítimo trabalho de oposição e preparando-se para disputar o próximo pleito presidencial – como o PT sempre fez nas eleições que perdeu –, os partidos derrotados e os grandes grupos de mídia insurgiram-se contra as próprias regras do regime democrático, passando a sabotar o governo e a conspirar para apossar-se do poder por meios ilegítimos.

Ao longo de todo o ano de 2015, torpedearam de modo sistemático os esforços do governo para redefinir a política econômica no sentido de resistir ao crescente impacto da crise internacional e recuperar o crescimento sustentável. Criaram um clima artificial de impasse político e institucional, com efeitos profundamente danosos sobre a vida do país, contaminando o ambiente de negócios, deixando inseguros produtores e consumidores, constrangendo as decisões de investimento. No afã de inviabilizar o governo, apostaram contra o país, chegando até mesmo a aprovar no parlamento um conjunto de medidas perdulárias e irresponsáveis destinadas a comprometer a estabilidade fiscal.

E, finalmente, não hesitaram em deflagrar um processo de impeachment inconstitucional e completamente arbitrário contra a Presidenta da República.

Dilma Rousseff é uma mulher íntegra, cuja honestidade pessoal e pública é reconhecida até pelos seus adversários mais ferrenhos. Nunca foi nem está sendo acusada de nenhum ato de corrupção. Nada em sua ação governamental pode justificar, sequer remotamente, um processo de cassação do mandato que o povo brasileiro livremente lhe conferiu.

A Constituição brasileira é categórica a esse respeito: sem a existência de crime de responsabilidade, não pode haver impeachment. E não há nenhum – absolutamente nenhum – ato da Presidenta Dilma que possa ser caracterizado como crime de responsabilidade. Os procedimentos contábeis utilizados como pretexto para a destituição da Presidenta são idênticos aos adotados por todos os governos anteriores e pelo próprio vice-presidente Michel Temer nas ocasiões em que este substituiu a Presidenta por razão de viagem. E nunca foram motivo de punição aos governantes, muito menos justificativa para derrubá-los. Trata-se, portanto, de um processo estritamente político, o que fere frontalmente a Constituição e as regras do sistema presidencialista, no qual é o povo que escolhe diretamente o Chefe de Estado e de Governo a cada quatro anos.

As forças conservadoras querem obter por meios escusos aquilo que não conseguiram democraticamente: impedir a continuidade e o avanço do projeto de desenvolvimento e inclusão social liderado pelo PT, impondo ao país o programa político e econômico derrotado nas urnas.

Querem a todo custo comandar o Estado para apossar-se do patrimônio nacional – como já começa a acontecer com as reservas petrolíferas em águas profundas – e desmontar a rede de proteção aos trabalhadores e aos pobres que foi ampliada e consolidada nos últimos treze anos.

As mesmas forças que tentam arbitrariamente derrubar a Presidenta Dilma, e implantar a sua agenda antipopular, querem também criminalizar os movimentos sociais e, sobretudo, um dos maiores partidos de esquerda democrática da América Latina, que é o PT. E não se trata de mera retórica autoritária: o PSDB, principal partido de oposição, já apresentou formalmente uma proposta de cancelamento do registro do PT, com vistas a proibi-lo de existir. Temem que, em 2018, em eleições livres, o povo brasileiro volte a me eleger Presidente da República, para resgatar o projeto democrático e popular.

A luta contra a corrupção, que é uma mazela secular do Brasil e de tantos outros países, e deve ser combatida de modo permanente por todos os governos, foi distorcida e transformada em uma implacável perseguição midiática e política ao PT. Denuncias contra líderes de partidos conservadores são sistematicamente abafadas e arquivadas enquanto acusações semelhantes a qualquer personalidade do PT tornam-se de imediato, à revelia do devido processo legal, condenação irrevogável na maior parte dos meios de comunicação.

A verdade é que o combate à corrupção no Brasil passou a ser muito mais vigoroso e eficaz a partir dos governos do PT, com o respeito, que antes não existia, à plena autonomia do Ministério Público e da Polícia Federal no exercício de suas atribuições; a ampliação do orçamento, do quadro de funcionários e a modernização tecnológica dessas instituições e dos demais órgãos de controle; a nova lei de acesso à informação e a divulgação das contas públicas na internet; os acordos de cooperação internacional no enfrentamento da corrupção; e o estabelecimento de punições muito mais rigorosas para corruptos e membros de organizações criminosas.

Todos nós, democratas, interessados no aperfeiçoamento institucional do país, apoiamos o combate à corrupção. As pessoas que comprovadamente tiverem cometido crimes, devem pagar por eles, dentro da lei. Mas os juízes, promotores e policiais também estão obrigados a cumprir a lei e não podem abusar do seu poder contra os direitos dos cidadãos. As pessoas não podem ser publicamente condenadas (e terem a sua reputação destruída) antes da conclusão do devido processo legal, e menos ainda por meio do vazamento deliberado de informações praticado pelas próprias autoridades com fins políticos. Uma justiça discriminatória e partidarizada será fatalmente uma justiça injusta.

Eu, pessoalmente, não temo nenhuma investigação. Desde que iniciei a minha trajetória política e, particularmente nos últimos dois anos, tive toda a minha vida pública e familiar devassada – viagens, telefonemas, sigilo fiscal e bancário –, fui alvo de todo o tipo de insinuações, mentiras e ataques publicados como verdade absoluta pela grande mídia, sem que tenha sido encontrado qualquer desvio na minha conduta ou prova de envolvimento em qualquer ato irregular. Se a justiça for imparcial, as acusações contra mim jamais prosperarão. O que não posso aceitar são os atos de flagrante ilegalidade e parcialidade praticados contra mim e meus familiares por autoridades policiais e judiciárias.

É inadmissível a divulgação na tv de conversas telefônicas sem nenhum conteúdo político, a coação de presos para fazerem denúncias mentirosas contra mim em troca da liberdade, ou a condução forçada, completamente ilegal, ocorrida em março último, para prestar depoimento do qual eu sequer tinha sido notificado.

Por isso, meus advogados entraram com uma representação no Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas, relatando os abusos cometidos por algumas autoridades judiciais que querem a todo custo me eliminar da vida política do país.

A minha trajetória de mais de 40 anos de militância democrática, que começou na resistência sindical durante os anos sombrios da ditadura, prosseguiu no esforço cotidiano de conscientizar e organizar a sociedade brasileira pela base, até ser eleito como o primeiro Presidente da República de origem operária, é o meu maior patrimônio e a ele ninguém me fará renunciar. Os vínculos de fraternidade que construí com os brasileiros e brasileiras na cidade e no campo, nas favelas e nas fábricas, nas igrejas, nas escolas e universidades, e che levaram a maioria do nosso povo a apoiar o vitorioso projeto de inclusão social e promoção da dignidade humana, não serão cancelados por nenhum tipo de arbitrariedade. Da mesma forma, nada me fará abrir mão, como sabem as lideranças de todo o mundo com as quais trabalhei em harmonia e estreita cooperação  – antes, durante e depois dos meus mandatos presidenciais – do compromisso de vida com a construção de um mundo sem guerras, sem fome, com mais prosperidade e justiça para todos.

Agradeço desde já a generosa atenção que Vossa Santidade dedicou a esta mensagem e coloco-me à disposição, como sempre estive, para qualquer esclarecimento ou reflexão de interesse comum.

Reiterando o meu respeito e consideração, despeço-me fraternalmente.

Luiz Inácio Lula da Silva

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O discurso do papa à Europa é o equivalente do discurso “I have a dream”, de Martin Luther King Jr.: o sonho de Francisco com “um novo humanismo europeu”, em que a Igreja desempenha o seu papel como comunidade evangelizadora, mas também promotora de diálogo entre cristãos e entre pessoas de fés diferentes.

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor de história do cristianismo e diretor do Institute for Catholicism and Citizenship, da University of St. Thomas, nos EUA. O artigo foi publicado no sítio L’Huffington Post.

Eis o texto.

No ano do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, os políticos que vão a Roma para ver o Papa Francisco buscam uma indulgência diferente daquela que enfureceu Martinho Lutero há 500 anos: é uma indulgência para serem perdoados pela fraqueza da política e, em alguns casos, a tentativa de uma transfusão de autoridade daquele que tem mais autoridade do que todos no cenário mundial hoje.

O Vaticano de Francisco continua vendo a procissão de líderes políticos europeus e mundiais, ou aspirantes a líderes, como Bernie Sanders. É um claro sinal da autoridade moral do papa jesuíta argentino no vácuo político que caracteriza o mundo ocidental hoje.

Nessa sexta-feira, foi a vez da chanceler Merkel e dos líderes institucionais da União Europeia: Schulz, Juncker, Tusk,Draghi. Na Sala Regia do Vaticano, um verdadeiro parterre de rois (incluindo o rei da Espanha) prestou homenagem ao papa que recebia um prêmio de claro significado político.

O compromisso era para o prestigiado Prêmio Carlos Magno (Karlspreis), edição 2016. Francisco é o primeiro líder do “global South” do mundo a receber o prêmio, e apenas o quarto não europeu, junto com outro trio que tem pouco em comum com o radicalismo político do papa jesuíta: George C. Marshall (1959, idealizador do plano homônimo para salvar a Europa da fome depois de 1945), o secretário de Estado do presidente Nixon, Henry Kissinger (1987), e o presidente estadunidense Bill Clinton (2000).

O prêmio conferido ao Papa Francisco segue alguns meses de alta política ecumênica internacional do pontificado: a viagem à África Central, as relações com o patriarca ortodoxo de Moscou (o primeiro encontro na história, em Cuba, em fevereiro) e com o Patriarca de Constantinopla, Bartolomeu (a visita aos refugiados em Lesbos no mês passado) e justamente alguns meses antes da viagem de Francisco à Suécia para os 500 anos da Reforma protestante (em outubro próximo). É parte da política e da espiritualidade das viagens de Francisco, particularmente às “periferias da Europa” – Lampedusa, Sarajevo, Albânia – marcadas pela violência da história recente.

No seu discurso ao Karlspreis 2016, o Papa Francisco citou o seu discurso ao Parlamento Europeu de novembro de 2014, em que falava de uma Europa não mais fértil, incapaz de gerar processos de inclusão e transformação, de uma Europa que vai se entrincheirando.

No discurso dessa sexta-feira, Francisco ampliou e aprofundou a sua visão do continente europeu. Ele falou da tentação dos egoísmos e de construir recintos particulares. Citou Elie Wiesel e a necessidade de uma “transfusão da memória”. Citou os pais fundadores da Europa e a necessidade de uma “solidariedade de fato” e do laço entre solidariedade e paz. Ele exortou os europeus a recomeçarem um trabalho construtivo para o futuro do continente.

O centro do discurso foi focado no modo de atualizar a ideia de Europa, com um novo humanismo baseado em três capacidades: 1) capacidade de integrar (com a citação do teólogo alemão-polonês Erich Przywara, um dos mais importante para a visão de Francisco); 2) capacidade de dialogar; 3) capacidade de gerar.

Francisco defendeu o papel particular do continente europeu, mas dizendo “não” às colonizações ideológicas: uma Europa modelo de novas sínteses e de diálogo, modelo político e social inclusivo de todos os atores.

Francisco apelou a uma “justa distribuição dos bens da terra”, a “novos modelos econômicos mais inclusivos e equitativos”, à passagem “de uma economia líquida a uma economia social”, em que a prioridade seja o acesso ao trabalho, e não uma economia especulativa. Uma Europa solidária e aberta aos jovens, aos migrantes, aos refugiados.

Francisco falou de uma “Europa cansada, mas ainda rica em energias”. O fundamento teológico do discurso é claro: “Deus deseja habitar entre os homens” e pode fazer isso em um mundo fecundado pelas suas testemunhas.

A conclusão do discurso é o equivalente para o papa do discurso “I have a dream”, de Martin Luther King Jr.: o sonho de Francisco com “um novo humanismo europeu”, em que a Igreja desempenha o seu papel como comunidade evangelizadora, mas também promotora de diálogo entre cristãos e entre pessoas de fés diferentes.

Na sua crise mais grave durante os últimos 60 anos, a Europa unida parece quase se confiar novamente ao Sacro Império Romano de Carlos Magno e do papa de Roma. São os tempos longos da história, diante dos tempos breves dos ciclos eleitorais e dos tempos muito breves do ciclo das notícias.

Seria possível pensar em um retorno da hegemonia geopolítica alemã ao Vaticano, mesmo depois da renúncia do Papa Bento XVI. Mas é uma história mais longa. O projeto europeu nasce depois da Segunda Guerra Mundial de líderes europeus católicos que pensam e falam em alemão – Adenauer, De Gasperi, Schuman: tanto que o projeto europeu foi visto com desconfiança por muitos protestantes, que julgavam a nova comunidade dos Estados europeus como o filho ilegítimo de um casamento de interesses, que se tornou necessário por causa do anticomunismo, entre o Vaticano de Pio XII e os Estados Unidos à frente da Guerra Fria.

Em tempos recentes, foi um “católico adulto” como Romano Prodi (entre muitos outros) que pensou e quis firmemente o alargamento para 27, pouco mais de uma década atrás (mas parece ter se passado muito mais tempo).

É possível dizer que a União Europeia redescobre hoje a lição de João Paulo II sobre as “raízes cristãs” do continente, e em parte isso é verdade. Mas, seguramente, é um novo modo, o de Francisco, para encarnar aquelas raízes. A diversidade ideológica dos líderes europeus que escutavam Francisco no Vaticano nessa sexta-feira (entre eles, Matteo Renzi, uma das suas poucas vezes no Vaticano) testemunha a profunda remistura das identidades políticas, mas também o reconhecimento de um profundo substrato de valores comuns ao continente.

Na Europa incapaz de gerir a crise humanitária, no ressurgimento dos nacionalismos, a centralidade do Vaticano continua exercendo um papel no cenário mundial.

Esse Karlspreis 2016 conferido ao Papa Francisco lembra o Prêmio Balzan da Paz ao Papa João XXIII em 1963. Mas é um mundo diferente e uma Igreja diferente dos anos 1960. A centralidade do Vaticano continua mesmo depois da saída de cena dos papas europeus (por enquanto, pelo menos) e mesmo depois do desaparecimento do catolicismo político europeu (com a importante exceção alemã).

É uma centralidade geopolítica, espiritual e simbólica, que nenhum outro centro religioso tem hoje – nem mesmo Jerusalém. A secularização, no sentido de perda de fé, é, para a política, não menos grave do que para a Igreja. A Europa não é apenas um espaço e um mercado comum, mas acima de tudo um artigo de fé. A assembleia dos políticos reunidos no Vaticano nessa sexta-feira, diante de Francisco, parecia muito com uma confissão de fé e também com uma confissão de pecados.

AFP4559389_Articolo“O Papa Francisco está tentando transformar Roma no trampolim para uma Igreja sinodal e colegiada. É uma Igreja não apegada à Europa ou a uma cultura em particular. Não está claro aonde este esforço irá levar. Mas claro está que a visão de Roma e do Vaticano que o papa jesuíta possui decorre não só a partir de sua eclesiologia, mas também de sua leitura dos sinais dos tempos”, escreve Massimo Faggioli, professor de História do Cristianismo na University of St. Thomas, EUA, em artigo publicado por Global Pulse, 27-04-2016.

***

Frequentemente o Papa Francisco é acusado de ser populista. No entanto, ele vem tendo muito sucesso em estabelecer relações entre Roma e as demais capitais da assim-chamada geopolítica cristã: Constantinopla (“a segunda Roma” do cristianismo bizantino), Moscou (“a terceira Roma” da ortodoxia russa) e Nova York (a capital cultural do país cristão mais militante do mundo).

A capacidade do papa de estabelecer tais conexões ficou evidente já no início de seu pontificado. Mas ultimamente algumas coisas se aceleraram.

Num breve período de oito dias (de 8 a 16 de julho), ele publicou a exortação pós-sinodal fundamentalmente importanteAmoris Laetitia, habilmente lidou com a presença diplomaticamente delicada de um presidenciável americano no Vaticano e viajou para a Grécia com dois importantes líderes ortodoxos para se encontrar com refugiados mantidos na ilha de Lesbos.

As viagens de Francisco estão sendo significativas não só por causa da geografia física delas; quer dizer, os destinos para onde ele foi. As suas viagens também esboçam uma outra geografia: um mapa daquelas figuras que ele consegue atrair e envolver em suas iniciativas.

O papa de 79 anos “atraiu” a colaboração de Bartolomeu I, o Patriarca de Constantinopla (um verdadeiro parceiro de diálogo), e o Arcebispo Jerônimo, chefe da Igreja Ortodoxa Grega, um dos mais relutantes ao diálogo com o catolicismo romano. Ambos fizeram parte de sua visita emblemática a Lesbos.

De forma inesperada, Francisco foi também capaz de engajar Kirill I, o Patriarca de Moscou, num encontro histórico entre os dois na Cuba comunista – uma das ironias da história da Igreja.

Estas iniciativas possuem consequências ecumênicas para o catolicismo assim como para a tradição ortodoxa. O Bispo de Roma está atraindo os hierarcas da ortodoxia oriental e ajudando-os a lidar com as franjas intransigentes e antiecumênicas. Isso é particularmente importante hoje, nas vésperas do Sínodo Pan-ortodoxo histórico que vai acontecer em junho próximo em Creta.

Mas Francisco igualmente seduziu – de uma forma não costumeira para o Vaticano, a mais antiga diplomacia do mundo ocidental – o candidato socialista judeu à presidência americana, Bernie Sanders. A significação disso ultrapassa os alinhamentos políticos novos e surpreendentes entre o Vaticano e os políticos mundiais. Ele sublinha a resiliência do Vaticano e da Roma papal no cenário mundial.

Em termos políticos, o Vaticano é uma relíquia do passado que deve mais à história política da Europa do que ao martírio de Pedro e Paulo. Há, porém, uma resiliência deste lugar, o seu simbolismo, a sua capacidade de reconhecer e interpretar eventos mundiais, que é fruto da capacidade da Igreja de se adaptar a condições cambiantes.

Em 1870, o papado perdeu Roma e seu poder temporal. Os pontífices de 1846-1939 (de Pio IX a Pio XI) lamentaram essa perda. Porém, no rescaldo do Concílio Vaticano II, Paulo VI considerou-a providencial.

Durante os pontificados de João Paul II e Bento XVI, o Vaticano se transformou no centro da política católica, como uma consequência dos esforços em centralizar em Roma tudo o que dizia respeito à Igreja Católica global.

Mas o Papa Francisco agora está tentando transformar Roma no trampolim para uma Igreja sinodal e colegiada. É uma Igreja não apegada à Europa ou a uma cultura em particular.

Não está claro aonde este esforço irá levar. Mas claro está que a visão de Roma e do Vaticano que o papa jesuíta possui decorre não só a partir de sua eclesiologia, mas também de sua leitura dos sinais dos tempos.

A ida a Lesbos foi, ao mesmo tempo, uma peregrinação ecumênica e uma visita ao cemitério inter-religioso imenso em que o Mediterrâneo se tornou por causa das ondas de refugiados que morreram no mar enquanto tentavam escapar da guerra. E um dos sinais dos tempos é a ilusão dos políticos europeus em suas tentativas de livrar a Europa e o Mediterrâneo do DNA multirreligioso e multicultural da região.

A ênfase de Francisco em que esta é “a crise humanitária mais grave desde a Segunda Guerra Mundial” é um outro lembrete de que, hoje, é preciso um papa da Argentina para recordar a Europa do que a Europa deve fazer.

A atração que Bernie Sanders e as igrejas ortodoxas têm por este papa contrasta-se com a hostilidade que o establishment político europeu tem mostrado para com esta sua mensagem social.

As palavras, em Lesbos, de Francisco, Bartolomeu e Jerônimo emitiram uma mensagem clara à União Europeia e à Turquia com respeito às suas políticas concernentes aos refugiados. Mas as palavras deles também sinalizaram que existem paralelos entre o período pós-Segunda Guerra e o momento atual.

O período imediatamente após 1945 foi o começo do envolvimento da Igreja Católica (mesmo se lenta e cautelosamente) no movimento ecumênico cristão. De forma parecida, a presente crise humanitária pode ser o berço de um novo internacionalismo ecumênico na medida em que o mundo tenta ajudar as vítimas da explosão do mundo árabe.

Isto não é a construção de uma arquitetura geopolítica complexa, mas uma intuição profunda do Papa Francisco. Os refugiados não sabem de teologia, mas sabem o que a Igreja é. É um exemplo da pastoralidade da doutrina que o papa tem em mente. É também uma resposta aos que se queixam de que os ensinamentos dele carecem de clareza e que denigrem a pastoralidade como sendo meras sutilezas eclesiásticas.

Mas, claramente, a ênfase pastoral do papa é algo maior, especialmente a sua volta a Roma com doze refugiados muçulmanos a bordo de seu avião. O ato simbólico de libertar refugiados dos campos onde eles estão detidos é igualmente um ato de reforma na Igreja.

A ironia é que esse ato político perturbador foi possível também devido ao papel extraordinário do Vaticano como um Estado, à sua extraterritorialidade e à herança do poder temporal antigo que o papa possui.

Estas últimas semanas constituíram mais um daqueles momentos em que Francisco coloca o seu pontificado profundamente em desacordo com um século que tem visto conservadores e reacionários fazerem conversões ideológicas ao catolicismo, desde Carl Schmitt na Alemanha nazista até Richard John Neuhaus nas guerras culturais americanas pós-Reagan.

Não é por acaso que estas conversões políticas envolveram nacionalistas que buscavam um refúgio ideológico desta modernidade cosmopolita. Também não é por acaso que a resposta a eles é o espírito global e ecumênico do catolicismo.

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Ao finalizar a 54a Assembleia Geral os bispos do Brasil publicaram, na tarde de hoje, 14, uma declaração, assinada pela presidência da CNBB, a respeito do momento nacional.

A declaração destaca “Escândalos de corrupção sem precedentes na história do Brasil”, com “impacto devastador”. Os prelados falam de “Empresários, políticos, agentes públicos envolvidos num esquema imoral, criminoso”. E perguntam-se: quem paga por tudo isso? “Os pobres são os que pagam pela corrupção”, dizem.

Assim, afirmam os bispos, “As suspeitas de corrupção devem continuar sendo rigorosamente apuradas”, “Os culpados punidos e os danos devidamente reparados”.

“A crise atual – dizem – evidencia a necessidade de uma autêntica e profunda reforma política”. Portanto, que “Os três poderes da república cumpram integralmente as suas responsabilidades”.

Os prelados do Brasil exortam ao diálogo: “A polarização de posições ideológicas em clima fortemente emocional geral perda de credibilidade e pode levar à violência”; Por isso é importante “Promover o debate político com serenidade”. Finalmente, dizem os bispos, “Acreditamos no diálogo”.

Durante a coletiva de imprensa uma jornalista perguntou a Dom Sergio da Rocha, presidente da instituição se a CNBB é contra ou a favor do impeachment?

Destacando que quem se pronuncia agora é a Assembleia Geral e não só a CNBB, dom Sergio diz que “a nossa posição é a que está sendo manifestada nessa declaração. Continuamos a linha adotada nos posicionamentos anteriores”, ou seja, “Não manifestar uma posição de caráter político-partidário”. O presidente da CNBB afirma que há um critério, e que portanto, não se pode falar que a CNBB não se pronunciou. “Que se preserve a ordem constitucional estabelecida. Que as manifestações devem ser pacíficas. A violência não deve ser forma de manifestação de posição política, seja ela qual for”, disse, esclarecendo que “Normalmente não nos pronunciamos sobre pessoas, partidos e governos. Continuamos a nossa missão e dispostos a dialogar e favorecer o diálogo”.

Já dom Murilo Krieger, vice-presidente da CNBB, afirmou que “a nossa preocupação é de apontar um caminho, mas não temos nem critério e nem condições de ficar analisando cada pessoa, cada partido, cada posição”, afirmou. “Isso implicaria entrar em um campo que não é o nosso”, e que portanto, “Queremos que o nosso leigo, ou quem ler uma nota como essa, faça as suas escolhas de acordo com essas orientações”. Dessa forma que “no diálogo se respeite o outro. O grande problema é quando cada um começa a se fechar. O que nós queremos, em termos de Brasil, é que aja paz e que tudo seja resolvido sem conflitos”.

O secretário geral da conferência episcopal, Dom Leonardo, por sua vez, afirmou que “O bem da nação requer de todos a superação de interesses pessoais, partidários e cooperativistas” e que, também “Seria deselegante da nossa parte ficar citando nomes. Tem que seguir a constituição e a verdade dos fatos”, disse.

***

Nós, bispos católicos do Brasil, reunidos em Aparecida, na 54ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), frente à profunda crise ética, política, econômica e institucional pela qual passa o país, trazemos, em nossas reflexões, orações e preocupações de pastores, todo o povo brasileiro, pois, “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens e mulheres de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (Gaudium et Spes, 1).

Depois de vinte anos de regime de exceção, o Brasil retomou a experiência de um Estado democrático de direito. Os movimentos populares, organizações estudantis, operárias, camponesas, artísticas, religiosas, dentre outras, tiveram participação determinante nessa conquista. Desde então, o país vive um dos mais longos períodos democráticos da sua história republicana, no qual muitos acontecimentos ajudaram no fortalecimento da democracia brasileira. Entre eles, o movimento “Diretas Já!”, a elaboração da Carta Cidadã, a experiência das primeiras eleições diretas e outras mobilizações pacíficas.

Neste momento, mais uma vez, o Brasil se defronta com uma conjuntura desafiadora. Vêm à tona escândalos de corrupção sem precedentes na história do país. É verdade que escândalos dessa natureza não tiveram início agora; entretanto, o que se revela no quadro atual tem conotações próprias e impacto devastador. São cifras que fogem à compreensão da maioria da população. Empresários, políticos, agentes públicos estão envolvidos num esquema que, além de imoral e criminoso, cobra seu preço.

Quem paga pela corrupção? Certamente são os pobres, “os mártires da corrupção” (Papa Francisco). Como pastores, solidarizamo-nos com os sofrimentos do povo. As suspeitas de corrupção devem continuar sendo rigorosamente apuradas. Os acusados sejam julgados pelas instâncias competentes, respeitado o seu direito de defesa; os culpados, punidos e os danos, devidamente reparados, a fim de que sejam garantidas a transparência, a recuperação da credibilidade das instituições e restabelecida a justiça.

A forma como se realizam as campanhas eleitorais favorece um fisiologismo que contribui fortemente para crises como a que o país está enfrentando neste momento.

Uma das manifestações mais evidentes da crise atual é o processo de impeachment da Presidente da República. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil acompanha atentamente esse processo e espera o correto procedimento das instâncias competentes, respeitado o ordenamento jurídico do Estado democrático de direito.

A crise atual evidencia a necessidade de uma autêntica e profunda reforma política, que assegure efetiva participação popular, favoreça a autonomia dos Poderes da República, restaure a credibilidade das instituições, assegure a governabilidade e garanta os direitos sociais.

De acordo com a Constituição Federal, os três Poderes da República cumpram integralmente suas responsabilidades. O bem da nação requer de todos a superação de interesses pessoais, partidários e corporativistas. A polarização de posições ideológicas, em clima fortemente emocional, gera a perda de objetividade e pode levar a divisões e violências que ameaçam a paz social.

Conclamamos o povo brasileiro a preservar os altos valores da convivência democrática, do respeito ao próximo, da tolerância e do sadio pluralismo, promovendo o debate político com serenidade. Manifestações populares pacíficas contribuem para o fortalecimento da democracia. Os meios de comunicação social têm o importante papel de informar e formar a opinião pública com fidelidade aos fatos e respeito à verdade.

Acreditamos no diálogo, na sabedoria do povo brasileiro e no discernimento das lideranças na busca de caminhos que garantam a superação da atual crise e a preservação da paz em nosso país. “Todos os cristãos, incluindo os Pastores, são chamados a se preocupar com a construção de um mundo melhor” (Papa Francisco).

Pedimos a oração de todos pela nossa Pátria. Do Santuário de Nossa Senhora Aparecida, invocamos a bênção e a proteção de Deus sobre toda a nação brasileira.

Aparecida – SP, 13 de abril de 2016.

Dom Sergio da Rocha Arcebispo de Brasília Presidente da CNBB

Dom Murilo Sebastião Ramos Krieger, SCJ Arcebispo de São Salvador da Bahia Vice-Presidente da CNBB

Dom Leonardo Ulrich Steiner Bispo Auxiliar de Brasília Secretário-Geral da CNBB

Fonte: Zenit

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“A melhor forma dos cristãos se posicionarem diante dos protestos anti-governo é rejeitando o marxismo cultural”, afirmou a ZENIT o nosso colaborador, o Dr. Ivanaldo Santos (ivanaldosantos@yahoo.com.br), filósofo, escritor e professor universitário. Acompanhe essa conversa abaixo sobre Antonio Gramsci e a atual crise brasileira.

***

Quem foi o filósofo Antonio Gramsci (1891-1937) e qual a importa da teoria da hegemonia política e cultural?

Ivanaldo Santos: Ele foi membro-fundador e secretário geral do Partido Comunista da Itália (PCI), foi perseguido e preso durante o regime fascista, na Itália, na década de 1930. O Brasil é um dos poucos países do mundo onde Antonio Gramsci é apresentado como um teórico da democracia. Em muitos países ele é visto como um teórico do autoritarismo, mas não do autoritarismo militar representa pelo fascismo, pelo nazismo e pelo regime socialista de Stalin na Rússia. A tese de Gramsci é que o partido, nesse caso o partido socialista-marxista, fracassará na tomada do poder se insistir apenas na via militar. Segundo ele, é necessário estabelecer a hegemonia político-cultural dentro da sociedade. Por hegemonia deve-se entender a predominância das ideias marxistas dentro da política, da cultura, das escolas e em outros espaços sociais. Essa é uma perspectiva autoritária, pois, numa sociedade livre e democrática, não deve haver uma hegemonia, mas sim uma pluralidade de grupos, de ideias e pensamentos. O conceito de hegemonia é adotado por vários grupos e partidos políticos e perigosamente vem vendo colocado em prática em muitos países.

Explique o conceito de infiltração cultural de Antonio Gramsci.

Ivanaldo Santos: Trata-se de um dos mais complexos e importantes conceitos do século XX. Para Gramsci a revolução socialista só terá pleno êxito se conseguir controlar o que, em sua opinião, são as principais estruturas culturais da sociedade ocidental. Entre essas estruturas cita-se: a Igreja, escola e universidade, e o sistema de produção e divulgação cultural (arte e artistas, música, cinema, livros, editoras, canais de rádio e TV, etc). Para isso acontecer é necessário lentamente “infiltrar”, colocar pessoas de confiança da ideologia marxista dentro dessas estruturas sociais para, lentamente, encherem essas estruturas com ideias, valores e com a ideologia marxista.

Na prática, o conceito de infiltração cultural de Gramsci não passa de uma sofisticada lavagem cerebral. A escola e a universidade é um exemplo clássico do sucesso da estratégia de infiltração gramsciana. No Brasil, nos últimos 50 ou 60 anos constantemente esses espaços de educação foram sendo lentamente preenchidos com professores, diretores, livros, cartilhas e todo tipo de material didático ligado à ideologia marxista. Ao ponto de chegarmos, ao século XXI, com um grande número de universidades públicas sendo aparelhadas por partidos e grupos marxistas, fazendo abertamente campanhas políticas para candidatos e presidentes da república que seguem a ideologia marxista. Sem contar que em grande número de escolas no Brasil os livros, as propostas de ensino são voltadas, quase que unicamente, para a ideologia marxista.

Qual a relação das ideias e do conceito de marxismo cultural, oriundo de Gramsci, com o povo e a cultura popular?

Ivanaldo Santos: As ideias de Gramsci são autoritárias. Isso acontece porque, entre outras coisas, ele deseja, seguindo Karl Max, abolir os principais pilares da sociedade ocidental, incluindo a família e o cristianismo. No lugar desses pilares, o marxismo cultural propõe colocar “novos valores” ligados com o estilo de vida de algumas minorias. Entre esses “novos valores” cita-se: o aborto, a legalização das drogas ilegais, o fim da família e o indivíduo ter como único ponto de apoio o Estado. Em grande medida, o marxismo cultural representa uma ditadura de algumas minorias que desejam impor a grande sociedade, as maiorias desorganizadas, seu estilo de vida.

Existe alguma relação entre a onda de protestos anti-governo, que atualmente varre o Brasil, e as ideias de Gramsci?

Ivanaldo Santos: Sim, é possível se traçar um paralelo entre esses dois acontecimentos. O Brasil foi um dos países onde as ideias de Gramsci foram largamente colocadas em práticas. A infiltração cultural foi fortemente praticada dentro de escolas, universidades, no meio cultural e até mesmo dentro da Igreja. Nas últimas décadas se investiu muito na formação do “indivíduo marxista”, um tipo de indivíduo que só conhece os ideais marxistas, que anda na rua usando símbolos socialistas, que não crer na família, nos valores cristãos e em outros valores. O surpreendente é que a onda de manifestações anti-governo, manifestações não previstas pelo gramscismo, muito mais do que o Movimento das Diretas Já (1983-1984) e do Movimento Cara Pintada (1992), trouxeram a toma os valores rejeitados pelo marxismo cultural. Valores, por exemplo, da pátria, da família, do casamento, da natalidade, da fé e do cristianismo. Depois de décadas de domínio do marxismo cultural, vê-se nas ruas do Brasil multidões cantando o hino nacional, segurando a bandeira do Brasil e até mesmo o estandarte de Nossa Senhora e do Sagrado Coração de Jesus. Em muitos aspectos, a atual onda de protestos anti-governo é uma reação inconsciente contra o marxismo cultural, é o Brasil profundo, o Brasil real e vertical que está se insurgindo contra a tirania de uma minoria que se autoproclama de esclarecida, é uma luta contra o novo Illuminati.

Como os cristãos podem se posicionar diante da atual onda de protestos anti-governo?

Ivanaldo Santos: Inicialmente, é necessário esclarecer que o Brasil é em essência uma nação cristã, trata-se da Terra da Santa Cruz. De um lado, a melhor forma dos cristãos se posicionarem diante dos protestos anti-governo é rejeitando o marxismo cultural e, por isso, fazendo um caminho de volta para o Evangelho, para a Tradição e para a Doutrina da Igreja. Do outro lado, os cristãos devem ser uma força consciente no intuito de conduzir o país a estabelecer um novo governo, um governo que não esteja comprometido em destruir a família, mas sim em conduzir o país a um caminho de inclusão social, estabilidade política e de prosperidade econômica.

caravaggio-e1458595084561-740x493Eis um tempo difícil. As informações são desencontradas, os ânimos, exaltados. Uma crise política aguda, com as pessoas opinando e brigando em defesa das próprias convicções e informações, muitas vezes sem tê-la. Multiplicam-se notas, comentários, manifestações de autoridades civis, judiciárias e mesmo eclesiásticas. O povo está na rua, seja para defender o fim imediato do governo, seja para defender o próprio governo, em manifestações que a imprensa costuma chamar, sem reparar no paradoxo, de “protestos a favor”.

Não é admissível que alguns, para defender o indefensável, desqualifiquem setores inteiros da população como se fossem “golpistas, “manipuladores da opinião pública” ou “títeres das grandes redes de imprensa a serviço de interesses imperialistas”. Não são. As pessoas estão de fato se sentindo traídas, revoltadas, com um governo que sempre se escondeu no pretexto do “eu não sabia”, mas, quando flagrado em conversas desaconselháveis ou com patrimônio em nome de terceiros, mobilizem os correligionários a desautorizar agressivamente o clamor popular por justiça.

Também não se trata de imputar o descobrimento de todo esse esquema de corrupção a uma suposta “maior liberdade de investigação” no país. Isto não escusa ninguém. Não existe a possibilidade de que se perdoe um político corrupto simplesmente porque, supostamente, ele deixou a polícia trabalhar mais facilmente do que outros corruptos. Primeiro, porque isto não é verdade: temos, desde 1988, uma estrutura policial, de Ministério Público e de Judiciário livre e atuante no país, como comprovam as milhares de operações de combate à corrupção que ocorreram desde então. Segundo, porque isto não desmente a própria corrupção. Nem torna alguém mais apto a ser governante. Um corrupto transparente não é mais desejável do que um corrupto dissimulado. Talvez seja apenas mais cínico, ou mais incompetente.

Mas, no inflamar do debate, há sempre uma tendência a desqualificar o outro, em vez de responder aos seus legítimos questionamentos. Por exemplo, já ouvi alguém chamar de “vozes do conservadorismo”, ou de “saudosos de 64”, ou de “setores que usam o discurso do combate à corrupção para promover um retrocesso democrático” às parcelas da população que, com muita legitimidade, clamam por justiça.

A tendência a desqualificar o outro e a palavra de equilíbrio da Igreja.

Nestes momentos, é sempre alentador ouvir este ou aquele pastor da Igreja dirigir uma palavra justa ao povo de Deus. É o momento de reconhecer a importância desses pronunciamentos e ensinamentos justos na manutenção da paz e da democracia em nosso país.

É sempre importante registrar que não há um “movimento de desprezo à democracia” em curso no país por parte da maioria esmagadora da população. Há, isto sim, uma grande operação policial e judicial fundamentada em dados concretos, que já resultou em diversas condenações de empresários e servidores públicos, e na repatriação de enormes somas de dinheiro público. Existe uma grande decepção popular com um governo que se elegeu prometendo acabar com a corrupção, com slogans do tipo “por um Brasil mais decente”, e acabou envolvido com sucessivos escândalos. Não há de surpreender que o povo não aceite, por parte de quem se elegeu prometendo ser diferente, que agora argumente que apenas fez apenas “igual” a todos os outros governantes, quanto à corrupção. Não tem o direito de usar o argumento de que é apenas “igual a todos” quem se elegeu prometendo “ser diferente”. Não se pode aceitar que o “combate à corrupção”, quando era usado para eleger o governo, fosse um bom mote, e agora, quando torna-se público mais um esquema de corrupção nas entranhas governamentais, o grito popular contra a corrupção seja “denunciado” como “pretexto para golpismo” de uma “elite pequeno-burguesa”.

O Magistério e a justa relação entre o fiel leigo e o poder público.

Quem usa de argumentos assim ignora que o Catecismo da Igreja Católica considera próprio do bom exercício da cidadania pelo fiel católico a justa reclamação contra os desmandos do governo. O católico que clama por justiça e contra a corrupção segue o que diz o Catecismo da Igreja Católica, § 2238, in fine:

A leal colaboração dos cidadãos inclui o direito, e às vezes o dever, de apresentar suas justas reclamações contra o que lhes parece prejudicial à dignidade das pessoas e ao bem da comunidade.

O Catecismo cita a Gaudium et Spes no § 2242, e ensina:

Se a autoridade pública, exorbitando de sua competência, oprimir os cidadãos, estes não recusem o que é objetivamente exigido pelo bem comum; contudo, é lícito defenderem os seus direitos e os de seus concidadãos contra os abusos do poder, guardados os limites traçados pela lei natural e pela lei evangélica.

É assim que as grandes manifestações estão acontecendo, como a do último dia 13 de março de 2016. Concorde-se ou discorde-se, são milhões de pessoas que saíram na rua em ordem e com tranquilidade, para manifestar sua revolta com a corrupção. Não seguiam qualquer suposto “messias”, nem estavam saudosas de épocas passadas. Apenas exercem com simplicidade o direito à manifestação pública, como a Constituição lhes garante. Não há messianismo no caso concreto. Nem saudosismo de ditaduras, como se a democracia somente existisse se o atual partido estiver sempre no poder, a pretexto de preocupações sociais ou populares – como se fosse o monopolista do bem.

Há, isto sim, um povo que acompanha uma grande força-tarefa com servidores de diversos órgãos de Estado, como a Receita Federal, a Polícia Federal, o Ministério Público e o Judiciário, que, após julgar e condenar, na Ação Penal 470 (mensalão), inclusive no Supremo Tribunal Federal, um grande esquema de desvio público, depara-se agora com um esquema maior ainda. Se o povo manifesta empolgação com esta ou aquela figura do Judiciário ou do Ministério Público, isto não se dá por messianismo, senão por decepção com os líderes políticos em geral.

A pluralidade de opiniões políticas e a verdade como libertação.

É claro que dentro da Igreja convivem diversas opiniões. E deve ser assim: em matéria de opinião política, a pluralidade é esperada.

Ficamos felizes porque nossos pastores não se deixam enganar pelos que usam uma linguagem que desqualifica o debate, que reduz a população descontente com a corrupção a uma “massa de conservadores” ou de “alienados manipulados”, que imputa às manifestações de descontentamento com o governo a certa “imprensa golpista” ou que desqualifica a atitude firme de alguns agentes públicos de investigação como “messianismo”. Sabemos que, mais do que ninguém, a Igreja é capaz de saber que não é verdade que os políticos estão “todos no mesmo saco”, como se todos fossem igualmente corruptos e os atuais fossem “perseguidos” porque são” sociais”. Há gente correta lutando no mundo da política, que é o campo próprio da atuação dos leigos. São poucos, é certo, mas não merecem ser todos colocados no mesmo saco. Não imaginaríamos, portanto, que nossos pastores afirmassem que todos os leigos na política são iguais na corrupção, para defender este ou aquele por causa de supostos engajamentos sociais.

É claro que muitas vezes esta ou aquela manifestação destoante pode sair numa página eclesial oficial, mas estamos certos de que nossos pastores estão muito atentos também a isto.

É sempre muito bom ouvir uma palavra que conduz ao respeito recíproco no debate, àpacificação dos ânimos e à livre manifestação democrática de opiniões, levando a sério o que o nosso povo está sentindo. Sempre o fazem, com muita justiça e retidão. Não queremos jamais imaginar que alguém dentro da Igreja pudesse acreditar que implantar esta ou aquela ideologia no país justificasse valer-se da estrutura eclesial para algum outro fim que não fosse o de evangelizar o mundo com a verdade de fé, de moral e a legítima doutrina social da Igreja. O Papa Francisco tem denunciado com palavras muito fortes a corrupção. É o roubo daquilo que é comum, é o empobrecimento dos que mais precisam, e nenhuma ideologia pode justificar isto.

De fato, Jesus Cristo libertador não é aquele engajado em supostas lutas ou movimentos sociais que escondem muitas vezes interesses inconfessáveis de quem já não acredita nem no Evangelho, nem na Tradição, nem no Magistério. O verdadeiro Jesus Cristo é o que nos conduz à verdade. Porque só a verdade nos liberta.

Paulo Jacobina

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Um momento político de preocupação e delicado. Assim o Arcebispo de São Paulo, Cardeal Odilo Pedro Scherer, classificou o atual contexto vivido pelo Brasil, durante entrevista coletiva concedida na quinta-feira, 18, e vídeo divulgado em seguida em sua página no Facebook.

Ao receber a imprensa na Cúria Metropolitana no tradicional encontro para falar das celebrações da Semana Santa, o Arcebispo também comentou a crise política nacional e a nomeação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como ministro-chefe da Casa Civil.

Lula foi empossado ministro-chefe da Casa Civil na manhã de quinta-feira, 18. Entretanto, minutos depois da cerimônia, uma decisão liminar do juiz Itagiba Catta Preta Neto, da 4ª Vara do Distrito Federal, suspendeu a nomeação. Esta suspensão foi derrubada na noite de ontem pelo presidente do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), Cândido Ribeiro. Mesmo assim, o ex-presidente ainda não pode exercer sua nova função, porque outra decisão da juíza Regina Coeli Formisano, da 6ª Vara da Justiça Federal no Rio de Janeiro, também o suspendeu do cargo.

“Eu vejo o atual momento político brasileiro com preocupação visto as situações que se criaram de incertezas, de instabilidade, até de manifestações com certo risco de violência – que graças a Deus até aqui foram muito contidas”, expressou o Purpurado.

Para Dom Odilo, esta crise é, por um lado, “fruto do acirramento das posições políticas” e, por outro, resulta “das investigações sobre fatos de corrupção, de desvios, de finalidade na administração pública”.

Este cenário, conforme assinala, “vai criando uma situação de descredito, de indignação”.

O Arcebispo expressou ainda ter a impressão de que o atual momento “revela certa fragilidade do atual governo, inclusive em decisões importantes a tomar”. Como exemplo, citou nomeação do ex-presidente Lula para a chefia da Casa Civil.

“Evidentemente, a presidente Dilma e seus assistentes têm todo o direito de tomar suas decisões, porém, a sociedade está vendo com olhares diferentes esta decisão”, declarou o Cardeal, para quem esta “não foi a melhor coisa a se fazer” no atual “momento da história e do governo que estamos vivendo”.

Em meio à esta crise, porém, Dom Odilo destacou como “um fato certamente promissor” o “amadurecimento político das instituições brasileiras, do sistema democrático e até mesmo da população brasileira”.

“A população brasileira está com vontade de falar, de participar. Ela não está alheia, não está apática à situação política. E isso é bom, é sinal de um crescimento da consciência política e da consciência democrática, inclusive com as manifestações, digamos, de diferentes tendências, mas no devido respeito também à ordem legal, democrática e pública”.

Por outro lado, pontuou como positivo também a forma como as instituições estão lidando com tal situação, de maneira “firme, atravessando essa crise com maturidade, lutando pela isenção e pela autonomia dos poderes democráticos da República e tentando exercer, cada uma, a sua função”.

“Isso – avaliou o Cardeal – sem dúvida é fundamental para a normalidade democrática e para garantir a ordem democrática no futuro”.

Por fim, Dom Odilo expressou seus votos de que o “Brasil consiga superar, amadurecido, este momento de crise e também a crise econômica, que está pesando já bastante fortemente sobre a população, possa também encontrar uma solução”.

ACI

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O Brasil atravessa um difícil momento de crise política, institucional e ética, que não deixa indiferente ninguém de nós. Ao contrário, pede-nos oração e reflexão. Se de um lado há um despertar das pessoas para agir na sociedade, de outro há também situações de conflitos preocupantes. Ao querer o bem do país, devemos procurar fazê-lo bem também.

Em tempos de tantas situações anômalas e tensas, ao mesmo tempo em que nos cabe manifestar nossas opiniões, somos chamados também a encontrar caminhos de solução. Eis o grande desafio que se impõe nesse momento à nossa pátria!

Em tempos como estes, os homens da Igreja são chamados a dar uma palavra de apoio e incentivo a todos os filhos e filhas desta amada nação que – queiramos ou não – nasceu sob o signo da Cruz do único e divino Redentor do gênero humano. Ele, sem deixar de ser Deus, se fez homem igual a nós em tudo, menos no pecado, na plenitude dos tempos (cf. Gl 4,4). A história é inexorável. Pode ser reinterpretada, nunca, porém, negada por quem quer que seja.

Essas raízes religiosas dão base à unidade nacional de Norte a Sul, de Leste a Oeste, sempre dentro do respeito às diferentes denominações religiosas ou mesmo às pessoas ou grupos que afirmam não ter religião. É a unidade nacional na pluralidade de pensamentos. Isso constitui um Estado que se confessa laico no sentido exato do termo, mas não laicista, ou seja, aquela Nação que, sob a aparência de laicidade, persegue as instituições não concordes com o seu modo de pensar ou, pior, com a linha ideológica do seu governo. Isso caracterizaria um tipo de intolerância que o próprio povo jamais toleraria.

É certo, como a Igreja entende desde o distante pontificado do Papa Leão XIII (1878-1903), que a chamada questão social jamais será resolvida se nos esquecermos dos valores humanos e evangélicos, pois ela é uma questão do homem e da mulher dos nossos tempos com fome e sede do Absoluto ou de Deus, sem o qual tudo o mais parece sem sentido. Daí dizer aquele Papa o seguinte: “Alguns professam a opinião, assaz vulgarizada, de que a questão social, como se diz, é somente econômica; ao contrário, porém, a verdade é que ela é principalmente moral e religiosa e, por este motivo, deve ser resolvida em conformidade com as leis da moral e da religião”. (Encíclica Graves de communi, 18/01/1901).

Em outras palavras, seguindo a sabedoria bimilenar da Igreja, não se pode fazer verdadeira reforma social sem, antes de tudo, transformar o coração humano em um coração que ama o próximo antes de amar a si. Mais: faz isso por amor de Deus e não por mera filantropia. Qualquer reforma social que não parta da própria reforma interior de cada um de nós está sujeita aos mais vergonhosos fracassos, como já ficou comprovado em diversos países que tentaram destronar Deus para colocar em Seu lugar qualquer outra coisa ou pessoa no campo social e político.

Um dos princípios básicos de todo povo civilizado, que se preze de ter esse adjetivo, tem de ser o respeito à vida desde a sua concepção até o seu natural ocaso. Afinal, que credibilidade teria quem dissesse defender os mais fragilizados, mas advogasse – inclusive oficialmente em um programa político ou legislativo – a morte dos mais inermes e indefesos, como são os nascituros no ventre de suas mães? Ainda: como poderia ser chamado de civilizado um país no qual é roubada a dignidade de viver dos idosos a cambalearem pelas filas de alguns órgãos públicos de saúde ou mesmo em hospitais ou instituições semelhantes?

Como poderia ser tida por avançada uma sociedade que, por meio de suas autoridades maiores e contra o sentimento do povo, investisse pesadamente contra a família, célula mãe da vida social e cultural? É na família que se aprendem os primeiros passos da fé, da honestidade, da partilha (e não do tirar vantagem, especialmente com o que é do outro), do amor, enfim, dos valores humanos e cristãos necessários para a vida saudável em comunidade. Tentar quebrar essa instituição querida por Deus é desejar destruir a sociedade a partir de seus alicerces.

Ora, sem o respeito à religião, à vida e à família não se pode, de modo algum, construir uma sociedade verdadeiramente próspera e respeitável. Todos os artifícios de progresso serão uma quimera, que cedo ou tarde acabarão por ruir. Seu alicerce está sobre a areia movediça e não sobre a Rocha firme que é Deus, criador de tudo e desejoso do bem dos seus filhos e filhas. Os caminhos que não respeitam a fé do povo e seus valores acabam por desencadear em situações irrespiráveis.

A falta de ética na vida pública, especialmente no exercício de um mandato público eletivo, neste caso, é mera consequência. É triste, mas não assusta a quem reflita um pouco. Sim, se não se respeita a fé alheia, a vida, a família etc., que se pode mais esperar? O triunfo ou o fracasso? Esperemos que não seja necessário cantar como a ópera Nabucco de Verdi: “Ó minha pátria, tão bela e perdida”, que foi o hino patriótico dos italianos no final do século XIX. Mas o Salmo a que isso se refere (137) coloca sua confiança no Senhor: “Lembra-te, Senhor!”

Ausente de Deus, na prática a pessoa se julga um deus acima de tudo e de todos, e exige para si prerrogativas especiais acima dos demais seres humanos comuns. É a loucura de alguns governantes que, ao longo da história, atribuíram a si mesmos, inclusive, poderes divinos, ou se faziam adorar pelo povo.

Haverá espaço para a ética aí, a não ser aquela “ética” que leva a tirar vantagens de tudo em nome dos que mais necessitam e, pior, à custa deles? A lei, no caso, será igual para todos, menos para alguns privilegiados? Teríamos dois pesos e duas medidas: na hora que convém, invocar-se-ia a Constituição do País, quando não convém, se fariam críticas ferrenhas a essa mesma Lei Maior? Lembremo-nos, porém, de que o comum não é o normal na vida das pessoas. O sonho desmedido e perpetuado de poder não combina com democracia e com progresso em nenhuma parte do mundo.

Um Estado que se pretendesse totalitário, sufocador e abocanhador das demais instituições, não conseguiria prosperar a não ser pelo império do medo e das ameaças, ou jogos sujos de atirar uns contra os outros e enquanto esses menos avisados brigassem aqui embaixo, os poderosos continuariam imunes lá em cima, usufruindo dos benefícios lícitos que o cargo lhes dá ou dos ilícitos tirados especialmente dos mais necessitados. Necessitados que esses homens e mulheres públicos tanto diriam defender.

Passando ao Brasil, em especial, devemos dizer que o momento é grave e requer o despertar e o aliar-se de todas as forças vivas da Nação, a fim de, juntos, dizermos um forte e rotundo “Não” à corrupção, venha ela de quem vier e de que esfera ou natureza for. Não se podem sacrificar os valores éticos e morais, nem se podem espezinhar os benefícios ao povo sofrido como saúde, moradia, educação, saneamento básico. Afinal, sempre é o povo humilde o mais atingido em meio a esse turbilhão de coisas, que desde algum tempo vem se abatendo sobre o Brasil.

Essas mesmas forças vivas da Nação precisam dizem “Sim” à união de todos os homens e mulheres, independentemente de seu time de futebol, da sua cor de pele, da sua condição social ou de quaisquer outras pequenas diferenças acidentais, a fim de que o mal seja combatido com seriedade, dentro da lei e da ordem e, sobretudo, sem ódio ou revolta contra quem quer que seja, nem luta entre classes. Somos todos irmãos em Cristo Jesus!

É hora de mantermos a unidade nacional, a fim de, unidos, vermos o triunfo do bem nesta Terra de Santa Cruz. Portanto, irmãos e irmãs, que todos nós – católicos, cristãos ou homens e mulheres de boa vontade em geral – apoiemos a melhoria desta grande Nação brasileira de modo firme, mas, ao mesmo tempo, cordato e pacífico, sem ódio ou incitações a revoltas. Já temos violência demais! E, assim, Deus nos abençoará com as mais copiosas graças celestiais.

Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, mãe de Jesus, o príncipe da Paz, e também nossa mãe (cf. Jo 19,25-27), dado que somos filhos no Filho (cf. Gl 4,5), intercederá sempre por nós, sobretudo nesta hora decisiva ao povo brasileiro. Amém!

 

Orani João, Cardeal Tempesta, O.Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ