080804-A-8725H-341        Iraqi children gather around as U.S. Army Pfc. Shane Bordonado patrols the streets of Al Asiriyah, Iraq, on Aug. 4, 2008.  Bordonado is assigned to 2nd Squadron, 14th Cavalry Regiment, 25th Infantry Division.  DoD photo by Spc. Daniel Herrera, U.S. Army.  (Released)

Uma análise criteriosa que durou sete anos sobre o papel da Inglaterra na invasão de 2003 liderada pelos Estados Unidos ao Iraque é devastadora em sua crítica das decisões tomadas pelo governo de Tony Blair – e indiretamente sustenta as advertências feitas na época pela Igreja Católica.

Uma investigação independente e há muito esperada sobre o papel da Inglaterra na invasão do Iraque emitiu um veredito condenatório sobre a justificativa para ir à guerra, com efeito concordando com as advertências a respeito de sua legitimidade expressas pelo Vaticano e pelos bispos católicos na ocasião.

A investigação, conhecida como “Chilcot Inquiry” – Inquérito Chilcot, que levou sete anos, resultando em 12 volume os quais, somados, são três vezes maiores que a Bíblia –, é uma análise meticulosa e rigorosa do processo de tomada de decisão feito pelo governo de Tony Blair na dianteira da invasão em março de 2013, assim como de seus resultados sangrentos.

Cerca de 179 militares ingleses morreram no conflito que tirou do poder o ditador Saddam Hussein e levou à queda quase total do governo e da infraestrutura iraquiana. Seguiram-se anos de lutas prolongadas entre facções sunitas e xiitas, alimentadas por insurgentes dos vizinhos Síria e Irã, enquanto extremistas exploraram a anarquia.

Pelo menos 150 mil iraquianos, a maioria civis, foram mortos como consequência dos conflitos, e cerca de 1 milhão acabaram deslocados.

Entre os principais achados do relatório do Sir John Chilcot estão:

  • A Inglaterra juntou-se à invasão liderada pelos Estados Unidos quando opções pacíficas para o desarmamento ainda existiam.
  • Saddam Hussein não representava uma ameaça iminente.
  • A base jurídica para a guerra esteve “longe de ser satisfatória”.
  • O trabalho de inteligência sobre a existência de armas de destruição em massa no Iraque foi “falho” e deveria ter sido reavaliado.
  • O planejamento e a execução da guerra foram “totalmente inadequados”.

Embora o Vaticano e os bispos não tenham feito referência explícita à teoria católica da guerra justa naquele momento, eles tiveram em conta implicitamente critérios de discernimento que remontam a Santo Agostinho e que foram desenvolvidos desde então. Esses critérios avaliam a legitimidade da ação militar, tanto na fase de preparação para a guerra (“ius ad bellum”) como durante a guerra (“ius in bello”).

Entre os critérios (ou princípios) “ius ad bellum” está o de que a guerra deve ter uma causa justa, ser decidida por uma autoridade válida, ser realizada por um bom motivo e ser o último recurso. As regras “ius in bello” exigem que a guerra seja executada via meios proporcionais, tenha uma probabilidade razoável de sucesso e evite baixas civis.

Enquanto os EUA e a Inglaterra se preparavam para guerrear em março de 2003, após um impasse no Conselho de Segurança da ONU, a posição do Vaticano era a de que os inspetores de armas deveriam ter a autorização para continuar em seu trabalho.

O Cardeal Jean-Louis Tauran, que foi ministro das Relações Exteriores do São João Paulo II, disse na época que não tinha sido demonstrado que Saddam Hussein “estivesse cometendo crimes contra a humanidade”, e que “somente o Conselho de Segurança das Nações Unidas pode decidir, com base em circunstâncias determinadas, que a posse de armas de destruição em massa pode constituir uma ameaça à paz”.

Na Inglaterra, o então arcebispo anglicano de Canterbury, Dr. Rowan Williams, e o então arcebispo católico de Westminster, Cardeal Cormac Murphy-O’Connor, advertiram, em um raro comunicado conjunto, que “ainda persistem dúvidas sobre a legitimidade moral, bem como sobre as consequências humanitárias e políticas imprevisíveis, de uma guerra contra o Iraque”; disseram também que não tinham se esgotado todas as alternativas.

Em março de 2003, os dois arcebispos pediram a todos os lados que “se engajam, através das Nações Unidas, plena e urgentemente, em um processo que inclua inspeções de armas e que possa tornar desnecessários o trauma e a tragédia da guerra”.

Posto diante das premissas da guerra justa, o relatório não deixa dúvida de que a guerra foi ilegítima, apesar dos argumentos apresentados à época por destacados teólogos católicos americanos, como George Weigel e Michael Novak.

Na questão da justa causa, Chilcot afirma que o primeiro-ministro britânico na época, Tony Blair, superestimou a ameaça representada pelo ditador iraquiano.

“Não havia nenhuma ameaça iminente de Saddam Hussein”, conclui o relatório. Referindo-se à principal justificativa de Blair para a necessidade de ação no Iraque, o texto declara que “os julgamentos sobre a gravidade da ameaça representada pelas armas de destruição em massa do Iraque foram apresentados com uma certeza que não se justifica”.

Quanto a ter sido um último recurso, Chilcot diz: “Concluímos que a Inglaterra optou por aderir à invasão do Iraque antes que as opções de paz estivessem se esgotado”, acrescentando claramente: “A ação militar naquela época não foi o último recurso”.

Chilcot também acha que “a estratégia de contenção poderia ter sido adaptada e continuada por algum tempo” e que “a maioria do Conselho de Segurança apoiou a continuação das inspeções e do monitoramento da ONU”.

Quanto à autoridade competente, Chilcot rejeita a afirmação do governo inglês feita na época de que ele estava agindo “para defender a autoridade do Conselho de Segurança” em face de a França e a Rússia se recusarem a apoiar as ações dos EUA e da Inglaterra. Chilcot considera que “na falta de uma maioria de apoio à ação militar, pensamos que a Inglaterra estava, na verdade, enfraquecendo a autoridade do Conselho de Segurança”.

Embora o relatório não pondere sobre a legalidade da guerra, Chilcot conclui de maneira condenatória que “as circunstâncias em que se decidiu que havia uma base jurídica para a ação militar inglesa estavam longe de ser satisfatórias”.

Considerando o rescaldo sangrento da invasão, Chilcot diz que o planejamento de Blair “não conseguiu levar em conta a magnitude da tarefa de estabilizar, administrar e reconstruir o Iraque”. Os britânicos ficaram com a tarefa de administrar Basra, no sul iraquiano, para a qual eles estavam totalmente despreparados.

Chilcot diz que Blair deveria saber que isso aconteceria. “O Sr. Blair fora avisado de que tal ação militar aumentaria a ameaça da Al Qaeda ao Reino Unido e aos interesses do Reino Unido. Ele também fora alertado de que uma invasão poderia fazer com que armamentos e instalações iraquianos fossem transferidos para mãos de terroristas”.

O relatório acrescenta: “Os riscos de conflitos internos no Iraque, a busca iraniana ativa de seus interesses, a instabilidade regional e a atividade da Al Qaeda no Iraque foram identificados explicitamente antes da invasão”.

Isto significou que a ocupação tinha poucas chances de sucesso – um dos princípios-chave do “ius in bello”. Devido ao fato de que “a escala do esforço inglês no Iraque pós-conflito jamais esteve à altura do desafio”, conclui o relatório, “o papel militar do país no Iraque pôs fim a um longo caminho de sucesso”.

Em uma coletiva de imprensa marcante e, ao mesmo tempo, desafiadora de duas horas concedida na semana passada, Tony Blair expressou pesar e remorso pelos fracassos, dizendo que ele irá levar a decisão que fez de ir à guerra – a “decisão mais angustiante e importante” do seus anos como primeiro-ministro – para o resto da vida.

“As avaliações de inteligência feitas no momento antes de ir para a guerra acabaram mostrando-se erradas, as consequências acabaram sendo mais hostis, prolongadas e sangrentas do que imaginávamos (…) e uma nação cujo povo queríamos libertar do mal de Saddam tornou-se, em vez disso, vítima do terrorismo sectário”, disse ele aos jornalistas.

“Por tudo isso, expresso tristeza, arrependimento e um pedido de desculpas mais do que vocês podem imaginar ou acreditar”, disse Blair.

Ele insistiu, porém, que a decisão foi acertada, e que o mundo ficou “um lugar melhor e mais seguro como consequência”. Ele disse que em momento algum o citado relatório considerou as alternativas à decisão que tomada por ele, e que era provável que a situação da Síria, hoje, tivesse sido o destino do Iraque também, caso o seu ditador não tivesse sido removido.

“O Iraque sob Saddam não tinha chance alguma. O Iraque de hoje tem uma chance”, disse ele.

Ele concordou que algumas pessoas “podem jamais me esquecer ou perdoar”, mas sustentou que, sem a invasão, Saddam teria “se agarrado ao poder com as mesmas consequências mortais que estamos vendo na Síria”, onde o colega ditador baathista Assad agarrou-se ao poder.

Ele rejeitou os achados do relatório segundo os quais houve pressa para declarar guerra bem como a conclusão de que a invasão não era um último recurso. Falou que aqueles que morreram na guerra não morreram em vão, mas “combateram na luta global definidora do século XXI contra o terrorismo e a violência” – uma luta que acabaria por ser vencida.

A questão-chave, segundo ele, era saber se a decisão que tomada por ele em março de 2003 foi a mais acertada, dadas as circunstâncias e informações que havia no momento. “Será que mais pessoas irão sofrer e morrer caso deixarmos este ditador no poder?”, perguntou-se, acrescentando: “Se você não consegue responder à pergunta sobre qual teria sido a alternativa, você é um comentador, não um tomador de decisão”.

Blair, que se converteu ao catolicismo após deixar o cargo em 2007, acrescentou ainda que “não passa um dia” sem pensar sobre a decisão que tomou, e foi por este motivo que ele passou bastante tempo no Oriente Médio.

O Catecismo da Igreja Católica deixa claro que a avaliação das condições para a legitimidade moral de uma guerra pertence, em última instância, não à Igreja, mas às autoridades civis.

O veredito do “Chilcot Inquiry” não deixa dúvidas de que, no caso do governo inglês à época, ele errou redondamente

A opinião é do jornalista britânico Austen Ivereigh, publicada por Crux.

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Um dia de jejum e oração pelos cristãos perseguidos no Médio Oriente, em especial no Iraque e na Síria, é a resposta da Fundação AIS aos apelos dos Patriarcas D. Sako e D. Gregorios para os respectivos países mergulhados no caos, na guerra e no sofrimento.

D. Louis Raphael Sako, Patriarca dos Católicos Caldeus e Presidente da Conferência Episcopal do Iraque, e D. Gregorios III Laham, Patriarca da Igreja Católica Greco-Melquita de Antioquia e de todo o Oriente, Alexandria e Jerusalém, escreverem à Fundação AIS a explicar, uma vez mais, a situação angustiante em que se encontram milhares de cristãos expulsos de suas casas, empurrados para campos de refugiados, sem qualquer expectativa de poderem regressar às suas casas, e já sem esperança de que a guerra tenha um fim.

Nas cartas que enviaram, os prelados destacam o apoio que a Fundação AIS já fez chegar às comunidades cristãs locais, mas agora, que se aproxima o tempo da Quaresma, suplicam essencialmente orações para que a paz possa chegar às suas pátrias.

“Sem vocês, muitos de nós estariam mortos ou já teriam emigrado. Temos extrema necessidade de vossa ajuda, mas aquilo que vos pedimos agora é a misericórdia. Rezem e jejuem para que o Senhor tenha misericórdia de nós”, pede D. Louis Sako.

Em resposta a este apelo, a fundação pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre decidiu convocar os cristãos em todo o mundo para um Dia Mundial de Oração e Jejum pela Paz na Síria e no Iraque.

Esta iniciativa, que é também um desafio, traduz-se numa pergunta: “Quer levar a cruz com eles durante um dia? Rezemos e jejuemos na Quarta-Feira de Cinzas pelo Iraque e pela Síria”.

Nas cartas que escreveram à AIS, ambos os Patriarcas sublinham o desespero em que se encontram as comunidades cristãs nos seus países. “Há cinco anos que continuamos a andar num deserto” – escreve, desde a Síria, D. Gregorio III. “Assistimos aos atrozes sofrimentos das crianças, à agonia de seus pais e estamos constantemente rodeados pelo ódio e pela morte.”

Por sua vez, D. Louis Sako sublinha o fato de só restarem no seu país, o Iraque, os mais pobres dos pobres. “Quem podia deixar o Iraque já o fez. Milhares de crianças nos campos de refugiados passam fome, mas têm sobretudo sede de futuro: querem uma escola e uma casa. Vocês fizeram tanto por nós, agora vos peço: rezem e jejuem para que possamos permanecer na nossa amada pátria e para quem já a deixou possa retornar.”

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O Arcebispo sírio-católico de Mossul (Iraque), Dom Youhanna Boutros Moshe, fez um chamado aos governos do mundo inteiro a aumentarem seus esforços para derrotar o Estado Islâmico (ISIS), para que eles devolvam as terras e as propriedades aos mais de 120 mil cristãos iraquianos exilados.

Após um ano que o ISIS invadiu Mossul, o Prelado pediu “às pessoas que têm a responsabilidade de resgatar as comunidades cristãs deslocadas, cujos membros desejam voltar para casa”.

Em uma entrevista com a organização internacional Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), o Arcebispo declarou: “A intervenção militar seria a ‘melhor opção’”.

“Pedimos a todos que pressionem aqueles que estão no poder, para que libertem o mais rápido possível todos os povos, para que possam voltar para suas casas e sigam com suas vidas”, assinalou o Arcebispo.

Os comentários do Arcebispo demonstram a frustração de numerosos clérigos do Oriente Médio com respeito à resistência do Ocidente de comprometer-se em uma ação em grande escala para enfrentar e vencer o extremismo na região, mas lamentavelmente esta ideia foi rejeitada por muitos líderes da Igreja.

Dom Moshe acrescentou: “Se o Ocidente fosse incapaz de redobrar seus esforços na luta contra o ISIS, deveria abrir suas portas aos cristãos e às outras minorias que procuram asilo”.

“Faço um chamado à comunidade internacional: Se não puderem proteger-nos, devem abrir-nos as portas para que possamos iniciar uma nova vida fora da nossa pátria. Entretanto, nós preferimos ficar no Iraque e estar protegidos aqui”, manifestou o Arcebispo.

Do mesmo modo, o Prelado comentou sobre sua situação: “Sou como alguém que está sonhando ou está bêbado. Não entendo o que está acontecendo ao meu redor. Isto é um pesadelo”.

Sobre as notícias relacionadas à destruição de objetos religiosos e Igrejas em Mossul, o Arcebispo indicou: “Não sabemos nada sobre as nossas Igrejas e monastérios, porque não temos ninguém em Mossul que nos ajude com esta informação. Todo o patrimônio cristão está em Mossul e em Qaraqosh”.

ACI

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Eram perto de mil as pessoas que participaram da vigília de Páscoa em Erbil, a capital do Curdistão iraquiano, em uma tenda levantada pelos fiéis onde todo domingo celebram a Missa. Essa noite o celebrante foi o Cardeal Fernando Filoni, que em agosto já esteve no Iraque como enviado especial do Papa Francisco. Depois do dia de Páscoa, o Cardeal celebrou em Sulemainja junto a quase 400 famílias cristãs. A história de cada uma delas mostra o triste dilema dos cristãos iraquianos: enfrentar o refúgio ou a morte pelos radicais islâmicos.

ACI Digital conheceu histórias de refugiados no Iraque ao participar de uma viagem organizada pelo Pontifício Conselho Cor Unum, entre Erbil e Duhok, de 26 a 29 de março.

A precariedade dos dois milhões e meio de deslocados, assistidos por várias instituições de caridade, é realmente indescritível. A Missa é para eles o único momento para afirmar sua própria identidade. Sobre tudo, o único momento no qual se aferram à esperança de que as coisas mudarão. É o momento no qual cada um confia sua história pessoal, seus dramas e temores, diretamente a Deus.

Os idosos

Entre estas histórias está a de um casal de idosos que vive no campo de Nishtiman Bazaar, Erbil. Vieram de Karmles. Entretanto, tiveram que passar previamente o drama de ter sido capturados pelo Estado Islâmico quando tentavam escapar de suas casas.

Permaneceram cinco dias como prisioneiros do ISIS, em uma das casas onde tinham sido confinados junto a outros idosos e mulheres. Durante seu cativeiro os jihadistas lhes deram a possibilidade de converter-se ao islã, do contrário deveriam deixar o lugar ou ser assassinados. Eles decidiram partir.

Deixaram Karmles a pé junto a outras pessoas. Entretanto, no meio do calor da região foram ficando atrás, pois não podiam seguir o passo dos mais jovens. No meio da marcha o idoso feriu-se e não podiam mais caminhar devido à lesão em uma das suas pernas.

Felizmente, uma freira do grupo com quem tinham partido se deu conta que ambos se ficaram atrás e decidiu voltar para buscá-los. O homem foi posto em uma espécie de carroça até que chegaram a Erbil. Chegaram a salvo, mas o homem teve sua perna amputada.

As famílias

Além disso, está o drama das famílias, como o casal yazidí Nora de 37 anos e seu marido de 55 anos, que foram evacuados em 3 de agosto de Sinjar, onde viviam junto dos seus filhos. Agora estão refugiados em Ozal City, em um dos tantos edifícios que inacabados. Ambos tiveram que fugir a pé às 10 da manhã para alcançar as montanhas. Não levaram consigo mais que suas roupas.

Entretanto, os jihadistas do Estado Islâmico estavam no meio do caminho. As crianças estavam assustadas. Sua casa estava destruída e tudo tinha sido roubado. Permaneceram nas montanhas por nove dias, depois planejaram fugir para a Síria, também a pé. De lá foram para Zakho.

Sem comida nem água tiveram que suportar as altas temperaturas, que no Iraque podem chegar até os 50 graus. A fome, o calor e a sede os obrigaram a uma parada em Zakho, onde procuraram ajuda e puderam recuperar-se. Logo partiram para Erbil, onde a vida não é fácil. O mais velho dos filhos, de 17 anos, teve que deixar a escola para encontrar trabalho e ajudar ao sustento da família.

A vida dos refugiados não é simples. A ajuda financeira chega, mas os gastos são altíssimos. A Diocese cosntruiu três novas clínicas para ajudar estas pessoas e se projeta construir uma universidade católica, mas tudo tem um preço, como o aluguel das casas ou espaços onde vivem provisoriamente.

Por último está o caso de Gerges Fares, de 49 anos e sua família de cinco pessoas. São cristãos provenientes de Karmles, lugar que abandonaram no dia 8 de agosto e agora vivem em Ankawa em uma casa alugada.

Dois dias antes ele disse à população de Karmles que não deixassem suas casas e resistissem. Entretanto, no 8 agosto às 7 da manhã, Fares viu por sua janela que os terroristas do ISIS estavam ingressando na cidade. Reuniu a sua família, tomou alguns pertences e abandonou sua moradia.

Porém os terroristas o detiveram. Entre ameaças perguntaram-lhes por que estavam partindo. Fares respondeu que não havia água nem comida e por isso deixavam a cidade. Mas no seguinte posto de controle, jihadistas armados os ameaçaram por ser cristãos. Mesmo assim conseguiram chegar a Kazhir, controlado pelos peshmerge, um grupo de Curdos armados que resiste a invasão do ISSI, que os ajudou.

Na Missa presidida pelo Cardeal Filoni a noite de Páscoa houve este incrível cruzamento de histórias. Histórias infelizmente cotidianas em um Iraque sempre em conflito, mas além em Síria, país também atacado pelo Estado Islâmico.

Por Andrea Gagliarducci- Via ACI

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                                                                           Touro alado, símbolo da cultura assíria
O EI (Estado Islâmico) divulgou, nesta quinta-feira (26/02), um vídeo em que integrantes do grupo jihadista aparecem destruindo diversas estátuas e esculturas com mais de três mil anos com marretas.

Homens golpeiam esculturas até que elas caiam no chão, destruídas

O material era parte do patrimônio cultural da civilização assíria, que habitou o norte do Iraque e da Síria desde o século X a.C. Cidadãos assírios, que compõem a minoria católica no Iraque também estão sendo perseguidos.

Esta não é a primeira vez que o grupo promove este tipo de ação. Recentemente, o diretor da biblioteca pública de Mossul, Ghanim al-Ta’na, disse ao site Fiscal Times que os jihadistas queimaram a biblioteca pública da cidade, onde se encontravam mais de oito mil livros raros e manuscritos antigos.

Um professor da Universidade de Mossul disse à AP que a destruição da biblioteca teve início no começo deste mês. Há também relatos de que cerca de dois mil livros foram transportados de lá.

Antiga capital do império Assírio, Mossul tem 1.791 sítios arqueológicos registrados.

https://www.youtube.com/watch?v=f2le2WzZgdY

Fonte: Opera Mundi

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A foto acima é ilustrativa

É quase com lágrimas nos olhos que o canônico Andrew White, pastor da pequena comunidade anglicana da igreja de São Jorge de Bagdá, narrou uma recente atrocidade (mais uma) cometida pelos milicianos do Isis contra quatro jovens cristãos perto de Mosul.

Em um vídeo divulgado pela Christian Broadcasting Network e retomado por Marco Tosatti de La Stampa, White disse que quatro jovens cristãos, todos com menos de 15 anos de idade, foram capturados pelos terroristas, que lhes forçaram a pronunciar a shahada, o testemunho de fé no Islã: “Declaro que não há Deus senão Alá e que Maomé é o seu profeta”. Os quatro responderam: “Não. Nós amamos Jesus”. Ao continuar o pedido a resposta dos adolescentes não mudou: “Não. Não podemos fazer isso”. E assim, os milicianos do Isis os decapitaram.

Esta terrível notícia se soma àquela publicada por Mail Online, que diz que os chefes do Isis difundiram entre os próprios um manual que prescreve os casos em que é legítimo bater nas mulheres sequestradas ou fazer sexo com eles e em quais circunstâncias está permitido usar a violência também com crianças que não alcançaram a idade da puberdade.

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O Arcebispo Siro Ortodoxo de Mossul, Mar Nicodemus Dawod Sharaf, começou a chorar durante uma entrevista ao recordar que em 1500 anos de história, essa é a primeira vez que os cristãos do norte do Iraque não puderam celebrar a padroeira na igreja devido à perseguição do Estado Islâmico; um fato que nunca tinha acontecido, nem mesmo durante as invasões mongólicas ou tártaras do passado.

O fato ocorreu durante uma entrevista com um jornal estrangeiro, na qual o arcebispo também denunciou a passividade dos organismos de direitos humanos. Entretanto, assegurou que em meio ao sofrimento, os cristãos do Iraque estão orgulhosos porque as perseguições são consequência de sua fidelidade a Cristo.

“Só queria dizer algo que é muito importante: Hoje é a festa de Santa Shmuni (15 de outubro). Esta é uma grande festa na nossa diocese, porque temos uma igreja em Qaraqosh”, relatou.

“Todos os anos nesta Igreja, Santa Shmuni aparece sobre o muro da igreja, nós a vemos, todos nós. Há 1500 anos não deixamos de celebrar esta festa nesta igreja. Há 1500 anos, apesar dos mongóis, dos tártaros, Hulagu (neto de Gengis Kan) terem cruzado a região, apesar da grande quantidade de guerras que aconteceram no Iraque, não deixamos de rezar nas nossas igrejas, nem em Mossul ou nas vilas próximas”, afirmou.

Entretanto, “este é o primeiro ano (começa a chorar por alguns segundos), este é o primeiro ano que estamos rezando fora da nossa igreja, que estamos rezando fora das nossas Igrejas”.

Onde estão os organismos de direitos humanos?

Durante a entrevista, o Arcebispo Siro Ortodoxo condenou as ações do Estado Islâmico, que em julho expulsou dezenas de milhares de cristãos de Mossul –e depois de Qaraqosh-, por não aceitarem converter-se ao Islã. Os que permaneceram nas cidades foram decapitados, incluindo as crianças.

Além disso, as informações chegadas do Iraque e Síria mostram que os Jihadistas se dedicam a vender as cristãs e yazidís que capturam como escravas. “Verdadeiramente estas pessoas não têm Deus”, expressou o Arcebispo.

Entretanto, também criticou a passividade dos organismos de direitos humanos. “Nada de humanidade permanece nesta região. Todos aqueles que se chamam ‘direitos humanos’, são mentirosos, todos são mentirosos. Os representantes dos direitos humanos estiveram vendo o que está acontecendo com a nossa pobre gente, e ninguém nos ajuda”, expressou.

O líder religioso recordou que se pediu ajuda a estes organismos para que as centenas de milhares de refugiados possam suportar o inverno cruel, pois atualmente muitos deles vivem em barracas. “Ajudem-nos antes que o inverno e as chuvas cheguem. Vocês (dos direitos humanos) visitaram e viram como o povo está em uma situação miserável”, advertiu.

“Por que? Qual pecado cometemos? Por que está acontecendo isso conosco? Mas estamos muito felizes por causa de apenas uma coisa: Todas estas coisas que nos acontecem e acontecerão, é porque não deixamos o nosso cristianismo, não estamos deixando o nosso Senhor e não estamos deixando a nossa fé, e temos a honra de sermos os filhos dos mártires”, expressou.

O Arcebispo Siro Ortodoxo manifestou que “temos a honra de que cada coisa que está acontecendo conosco é só porque somos cristãos. Isso é uma honra para nós. Eles (o Estado Islâmico) acreditam que tudo isso nos fará renunciar, mas lhes dizemos: tudo isso nos fará mais unidos à nossa fé”.

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Bombas caiam e o som da explosão enchia os corações do povo de choque e medo. Ao som de choro e atividade frenética, as pessoas arrumavam os pertences que conseguiam carregar para fugir à noite.

Em meio a tudo isso estava Martin Baani, um seminarista de 24 anos de idade. Ele começava a perceber que esta seria a última vez em Karamlesh.

Por 1.800 anos, o cristianismo teve um lar nos corações e nas mentes das pessoas desta aldeia, cheia de resquícios da antiguidade. Mas agora estava prestes a ser dominada pelo Estado Islâmico que avança em sua direção.

O celular de Martin toca: um amigo que gagueja a notícia de que a cidade vizinha de Telkaif foi dominada pelo “Da’ash” – o nome árabe para Estado Islâmico. Karamlesh certamente será a próxima.

Martin corre para fora da casa de sua tia, onde está hospedado, e segue para a igreja de Santo Addai, próxima dali. Ele leva o Santíssimo, um pacote de papéis oficiais e caminha para fora da igreja. Do lado de fora um carro o espera – o padre de sua paróquia, o padre Thabet, e três outros sacerdotes.
Ele entra e o carro acelera. Eles deixam Karamlesh e os últimos vestígios da presença cristã da aldeia vão com eles.

Falando com Martin na calma do Seminário de São Pedro, em Ankawa, é difícil imaginar que ele descreve algo além de um sonho ruim. Mas não há nada de sonhador na expressão de Martin. “Até o último minuto, o Pashmerga [as forças armadas curdas que protegem as aldeias] estavam nos dizendo que era seguro”.

“Mas depois soubemos que eles estavam montando grandes armas no monte de Santa Bárbara [na borda da aldeia] e compreendemos então que a situação era muito perigosa.”

Fazendo um balanço daquela terrível noite de 06 de agosto, a confiança de Martin é reforçada pela presença de outros 27 seminaristas em São Pedro, muitos deles com suas próprias histórias de fuga das garras dos militantes islâmicos.

Martin e seus colegas de sacerdócio sabem que o futuro é sombrio no que diz respeito ao cristianismo no Iraque. A comunidade de 1,5 milhão de cristãos antes de 2003 caiu para menos de 300 mil e, daqueles que permanecem, mais de um terço estão foragidos. Muitos, se não a maioria, buscam uma nova vida em um novo país.

Martin, no entanto, não é um deles. “Eu poderia facilmente ir”, ele explica calmamente. “Minha família vive agora na Califórnia. Já me foi dado um visto para ir para os Estados Unidos pra visitá-los”.

“Mas eu quero ficar. Eu não quero fugir do problema”.
Martin já fez a escolha que marca os sacerdotes que decidiram permanecer no Iraque: sua vocação é para servir o povo, venha o que vier.

“Temos que lutar por nossos direitos, não devemos ter medo”, explica. Descrevendo em detalhes o trabalho de socorro de emergência, que tem ocupado muito de seu tempo, é fácil ver que ele sente que seu lugar é lá com as pessoas.

Martin já é um diácono. Agora, em seu último ano de teologia, a ordenação ao sacerdócio é – se Deus quiser – daqui a alguns meses.

“Agradeço por suas orações”, diz Martin, ao se despedir de mim. “Contamos com o vosso apoio.”

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O Pe. Luis Montes, missionário argentino do Instituto do Verbo Encarnado (IVE) no Iraque, compartilhou recentemente que a sua mãe, que ficou viúva há oito anos, converteu-se aos 82 anos de idade em religiosa que atende crianças no Lar Nossa Senhora da Divina Providência, de Rama Caída.

Em diálogo com o programa Sem Medo, do site Mediamza.com, o Pe. Luis Montes recordou que “somos sete irmãos, um já faleceu, três somos sacerdotes. Meu pai faleceu há oito anos e faz pouco tempo minha mãe, sendo viúva, entrou no convento das irmãs, assim, agora é religiosa”.

Outro de seus irmãos, assinalou, é leigo consagrado.

O sacerdote recordou como foi que chegou a ser pároco em Bagdá, no Iraque, um país que sofre com a violência, onde os cristãos, entre outras minorias religiosas, sofrem a perseguição do grupo extremista Estado Islâmico.

“Eu estava no Oriente Médio desde 96, já são quase 20 anos. A última missão que tive no Oriente Médio, depois da Terra Santa e Jordânia, foi o Egito. Estive lá por sete anos, fui o superior provincial da região para o meu Instituto”.

O Pe. Montes recordou que “terminado o meu mandato, perguntaram-me concretamente se queria ir para o Iraque. Eles sabiam o carinho que eu tinha pelo Iraque, o amor que sempre tive a essa fundação, que pude concretizar como provincial. Então me perguntaram e eu adorei”.

“Se eu tivesse que escolher entre todos os lugares do mundo, escolheria o Iraque”, assegurou.

O sacerdote argentino recordou que chegou ao Iraque “em 2010, isso foi em dezembro”, pouco tempo depois “do grande atentado que houve contra a Igreja Nossa Senhora da Salvação, no qual morreram cerca de 50 cristãos que estavam participando da Missa”.

Esse evento, assinalou, “marcou muito a comunidade de Bagdá, porque desde esse dia aumentou o êxodo de cristãos fugindo do país”.

O Pe. Montes assinalou que “missionar no Iraque é uma coisa maravilhosa, porque no coração do homem sempre se dá uma luta entre o bem e o mal. Deus quer levar-nos para si, quer dar-nos a vida eterna, e o diabo, inimigo de Deus, quer afastar-nos de Deus”.

“É realmente uma batalha, é algo que ocorre sempre nos nossos corações, portanto nós temos que estar pensando o tempo todo em fazer melhor as coisas”.

“E em um país como o Iraque, onde está o terrorismo, um terrorismo tão satânico, isso fica mais patente. Aí se vê ao que chega o homem que se separa de Deus”.

Por outra parte, assinalou, está “a força que Deus dá aos seus filhos, e temos assim casos de heroísmo, gente que dá a sua vida por Cristo, que dá a sua vida pelos seus irmãos. E isso faz que seja realmente ao mesmo tempo um espetáculo muito triste e algo muito edificante. Nós estamos aprendendo com os cristãos no Oriente Médio, com os cristãos iraquianos”.

O sacerdote assegurou que “Deus triunfa em seus santos, e faz que seus filhos deem um testemunho que é irrefutável”.

“No futuro, o Estado Islâmico vai desaparecer, assim como Nero desapareceu, assim como desapareceram os imperadores que perseguiram a Igreja. Eles morrem e a coisa acaba. Os santos viverão para sempre”.

“Assim como nós falamos agora dos santos perseguidos nos primeiros séculos, assim vai se falar dos santos iraquianos no futuro”, assegurou. 

Fonte: ACI

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O trabalho pastoral em um país de maioria muçulmana é “certamente todo um desafio”, afirmou o sacerdote Luis Montes, que há anos acompanha os fiéis católicos em Bagdá (Iraque), e que hoje enfrenta o desafio de apoiar os cristãos que fogem da violência do Estado Islâmico (ISIS).

Em declarações à Ajuda à Igreja que Sofre, o Pe. Montes indicou que a realidade que vive a Igreja local é “algo totalmente diferente do que nós conhecemos no Ocidente”, pois enquanto nas nações onde predomina o cristianismo é possível manifestar publicamente a fé, no Iraque “é tudo mais a conta gotas: não se podem realizar atividades pastorais fora da igreja, como, por exemplo: procissões”.

“Aqui os cristãos não têm nada disso. Todo nosso apostolado é dentro da igreja, tudo mais reduzido, com menos fiéis e com muita gente que é hostil ao cristianismo”, expressou.

Entretanto, a isto se soma a insegurança que o país vive há anos, desde antes da aparição do Estado Islâmico. “Há anos se calcula que há uns vinte atentados por dia no Iraque. Em Bagdá quase todos os dias há atentados nas ruas. Isto certamente cria um cenário perigoso”.

“Nós –indicou-, vivemos de um lugar onde os cristãos não podem viver a sua fé livremente, onde são minoria e onde são discriminados na prática. É um lugar onde até as crianças sofrem discriminação nas escolas. A isto se soma a situação de insegurança e violência de um país que vive a pós-guerra. É um desafio grande para nós, para fazer que o Evangelho continue vivo”.

Apesar disso e com a chegada dos refugiados, a Igreja local tenta fazer de tudo. “Continuamos realizando a mesma ação pastoral de sempre para oferecer um sustento espiritual, só que com maior dificuldade para chegar a todos. Quanto à ajuda humanitária, estamos tentando conseguir ajuda para cobrir as necessidades básicas e também coordenamos sua distribuição. Este é nosso dia a dia”.

O Pe. Montes, junto com o Pe. Jorge Cortês – ambos do Instituto do Verbo Encarnado-, atendem atualmente aos fiéis que fogem da violência dos extremistas islâmicos.

Para ajudá-los ingresse em: http://amigosdeiraque.verboencarnado.net/como-nos-ajudar/

Também pode segui-los no facebook: https://www.facebook.com/amigosdoiraque

2014-09-04-Christian-TentCom a constante perseguição e o reino de terror imposto pelo Estado Islâmico na região fronteiriça entre Iraque e Síria, muitos refugiados buscam um local seguro para escapar do conflito que tomou conta de sua terra.

Nos arredores de Erbil, capital do Curdistão, no norte iraquiano, existem vários campos de refugiados. Eles foram criados pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) e abrigam milhares de pessoas.

O Curdistão Iraquiano tem seu próprio governo, pois é considerado uma região autônoma e até o momento tem conseguido resistir às investidas do EI graças à milícia “peshmerga”, que têm apoio dos EUA. Estima-se que o número de refugiados no Curdistão Iraquiano já passa de 200 mil.

Entre as milhares de tendas beges fornecidas pelo ONU, a maioria abriga cristãos, que foram os maiores alvos do EI. Quando os terroristas invadem uma aldeia, dão a opção dos cristãos se converterem ao islamismo. Caso contrário, morrerão. A maioria se recusa e acaba sendo executada. Os poucos que conseguem escapar têm dado testemunho de sua fé.

Embora tenha graves problemas relacionados à saúde e saneamento básico, pode-se ver nas imagens das tendas que os cristãos continuam firmes. A maioria usou tinta spray para desenhar o mesmo “n” – que marca Propriedade dos Nasrani ( Nazarenos, em árabe)

A imagem de um dos acampamentos de Erbil vem sendo compartilhada milhares de vezes, acompanhadas por diferentes textos. Todos eles destacam o testemunho e a perseverança daqueles cristãos que perderam tudo por causa da sua fé.

Destaque para a tenda número 68, que trás em árabe e inglês a frase “Jesus Cristo é a luz do mundo”.

Fonte: Conservative Tribune

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Estamos sendo perseguidos por causa da nossa religião. Nenhum de nós jamais pensou que iríamos viver em campos de refugiados por causa disso. É difícil acreditar que isso esteja acontecendo no século XXI.

Assim escrevem as Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Siena em uma carta onde descrevem a situação dos cristãos refugiados no norte do Iraque. O texto foi publicado na página do Facebook, Help for the Iraqi Dominican Sisters, 23-08-2014. 

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23 de agosto de 2014

Queridos,

Continuamos a compartilhar com vocês a nossa luta diária, esperando que o nosso grito alcance o mundo. Somos como o cego de Jericó (Mc 10, 46-52), que não tinha outro modo de expressar-se, mas a sua voz, clamando a Jesus por misericórdia. Embora algumas pessoas tivessem ignorado sua voz, outras ouviram-na e lhe ajudaram. Contamos com as pessoas que irão ouvir!

Entramos na terceira semana de desocupação. As coisas estão andando muito devagar em termos de fornecimento de abrigo, alimentação e necessidades para o povo. Ainda há pessoas vivendo nas ruas. Ainda não há acampamentos organizados em volta das escolas que são usadas ​​como centros de refugiados. Um edifício inacabado de três andares também tem sido usado como um centro de refugiados. Por razões de privacidade, as famílias fizeram quartos usando lonas de plástico fornecidas pela agência de refugiados das Nações Unidas nesses edifícios inacabados. Estes locais parecem estábulos.

Todos nós nos perguntamos, tem um fim à vista? Estamos agradecidos por todos os esforços feitos para fornecer ajuda às pessoas desalojadas. No entanto, por favor, notem que o fornecimento de comida e abrigo não é a única coisa essencial de que precisamos. Nosso problema é muito maior. Estamos falando de duas minorias (cristãos eiazidis) que perderam suas terras, suas casas, seus pertences, seus empregos, seu dinheiro; alguns foram separados de suas famílias e entes queridos, e todos são perseguidos por causa da sua religião.

Nossos líderes religiosos estão fazendo o máximo para resolver o problema. Eles se reuniram com líderes políticos, com o presidente do Iraque e do Curdistão, mas as iniciativas e ações desses líderes políticos são muito lentas e modestas. Na verdade, todas as reuniões políticas não levaram a nada. Até agora, nenhuma decisão foi tomada sobre a atual situação das minorias refugiadas. Por esta razão, a confiança nos líderes políticos diminuiu, se é que ela ainda existe. As pessoas não conseguem mais tolerar. É um fardo muito pesado. Ontem, um jovem expressou que ele preferia morrer a viver sem dignidade. As pessoas sentem que a sua dignidade lhes foi extirpada. Estamos sendo perseguidos por causa da nossa religião. Nenhum de nós jamais pensou que iríamos viver em campos de refugiados por causa disso.

É difícil acreditar que isso esteja acontecendo no século XXI. Gostaríamos de saber o que está acontecendo exatamente. É um outro plano ou acordo para subdividir o Iraque? Se isso é verdade, por quem e por quê? Por que os eventos da divisão do Oriente Médio, que aconteceram em 1916, estão se repetindo agora? Naquele tempo era uma questão política e inocentes pagaram por isso. É evidente que há pessoas pecaminosamente astutas dividindo oIraque, agora. Em 1916, perdemos sete de nossas irmãs, muitos cristãos morreram, e muitos outros se dispersaram. É apenas por acaso que novamente enfrentamos essa divisão ou ela é deliberada?

No entanto, a luta não é só nos campos de refugiados. O que aconteceu em nossas cidades cristãs, que foram evacuadas, é ainda pior. O Estado Islâmico (IS) forçou a saída de suas casas de todos aqueles que não deixassem suas cidades até a noite de 6 de agosto. Ontem, setenta e duas pessoas foram expulsas de Karakosh. No entanto, nem todos eles chegaram; aqueles que chegaram ontem à noite estavam em condições miseráveis. Eles tiveram que atravessar o rio Al-Khazi (um afluente do Grande Zab) a pé porque a ponte havia sido destruída. Ainda há um bom número do outro lado da margem do rio. Não sabemos quando eles vão conseguir chegar a Erbil. Depende da situação e das negociações entre os curdos e o Estado Islâmico. Algumas pessoas foram buscar os idosos e aqueles incapazes de andar. Uma de nossas irmãs foi buscar seus pais, e contou sua história. Outra mulher disse que ela foi separada de seu marido e dos filhos, e ela não sabe mais nada deles; eles estão, provavelmente, entre aqueles que estão no outro lado do rio, ou eles podem estar entre os reféns tomados pelo Estado Islâmico. Além disso, uma menina de três anos de idade foi pega do colo de sua mãe e não se tem notícias dela. Não sabemos por que o IS está expulsando as pessoas de Karakosh, mas temos ouvido de quem acabou de chegar que os militantes do IS estão levando barris para Karakosh e os conteúdos são desconhecidos.

Além disso, sabemos de quatro famílias cristãs que estão presas em Sinjar há mais de três semanas; eles provavelmente estão ficando sem comida e água. Se eles não receberem ajuda, vão morrer lá. No momento, não há nenhum contato com eles, e não há nenhuma maneira de negociar com o IS.

Quanto à nossa comunidade, sabemos que o nosso convento em Tel Kaif está sendo usado como uma sede doEstado Islâmico. Além disso, sabemos que eles entraram em nosso convento de Karakosh. Aqueles que chegaram recentemente disseram que todas as imagens, ícones e estátuas foram destruídas. Cruzes foram retiradas do topo das igrejas e substituídas pelas bandeiras do IS. Isso não acontece somente em Karakosh e em Tel Kaif. EmBaqofa, uma de nossas irmãs ficou sabendo que a situação estava calma, então ela voltou com algumas poucas pessoas para buscar remédios. Ela encontrou o convento todo revirado; tudo foi aberto e todas as coisas espalhadas pelas peças. Na hora em que entraram no convento, três bombas atingiram a cidade. Eles sairam imediatamente.

Além do que está acontecendo com os cristãos, ontem, sexta-feira, dia 22, um homem-bomba xiita e homens armados atacaram a mesquita sunita de Abou Mussab em uma vila que está sob o controle do governo iraquiano na província de Diyala, deixando 68 mortos. É de partir o coração saber que pessoas estão sendo mortas enquanto estão rezando. Em termos da mídia e da liberação de notícias, esse massacre tem ofuscado o que está acontecendo com os cristãos na planície de Nínive. Temos medo de que nossa luta se torne apenas o nosso próprio problema e não tenha um impacto a mais no mundo.

Por fim, temos a dizer que as pessoas estão perdendo a paciência. Elas sentem falta de tudo de suas cidades de origem: as igrejas, os sinos das igrejas, suas ruas e seus bairros. É penoso para elas ouvirem que suas casas foram saqueadas. Embora eles amem suas cidades, a maioria das pessoas já está pensando em deixar o país para que possam viver com dignidade e ter um futuro para seus filhos. É difícil ter esperança no Iraque ou confiar na liderança do país.

Por favor, lembrem-se de nós em suas orações.

Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Siena – Iraque

P.S. Por favor, compartilhe a carta com outras pessoas. Deixe o mundo ouvir o grito dos pobres e inocentes.