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A execução no mês passado de dois missionários chineses por militantes do Estado Islâmico – EI, no Paquistão, (imagem acima) deixa óbvio os perigos desta atividade na região, porém dois jovens cristãos chineses que viveram próximo a um reduto controlado pelo grupo terrorista, no norte do Iraque por mais de um ano, disseram que a vida pode ser mais pacífica aí do que em sua terra natal. O South China Morning Post entrevistou, com exclusividade, o casal, morador de um condomínio fechado que serve de refúgio para mulheres e crianças que fogem do EI.

Michael, de 25 anos, e Christy, 23, deixaram a China há pouco mais de um ano, logo após se casarem para ir morar numa das regiões mais atormentadas pela guerra no mundo. As preocupações com a segurança, no Iraque e na China, significam que detalhes de suas identidades não podem ser revelados.

“Aqui não é tão preocupante como muitas das pessoas imaginam quando leem os jornais. Na verdade, eu me sinto mais seguro neste local”, diz Michael, ao comparar sua experiência no Iraque com a vida na China. “A vida aqui pode ser descrita como normal”.

Não há estatísticas oficiais sobre o número de missionários chineses trabalhando no exterior, e frequentemente eles se passam por empresários ou professores diante das autoridades alfandegárias. Estimativas feitas por pesquisadores e igrejas locais dizem que pode haver centenas de missionários no exterior, ou mesmo alguns milhares.

Pastores que trabalham em suas igrejas na China dizem que o país tem o maior número de cristãos convertidos no mundo, e isso apesar de contar com um governo comunista oficialmente ateu. A China está a caminho de se tornar o maior “exportador da fé cristã”.

Espelhando-se em missionários ocidentais na China séculos atrás, a maior parte dos missionários chineses servem em países em desenvolvimento, especialmente nações muçulmanas, onde atividades desse tipo são perigosas.
A lua de mel preferida dos casais chineses seria algo como as Maldivas, porém Michael e Christy passaram a sua lua de mel e o primeiro aniversário de casamento em um vilarejo iraquiano, dizendo que simplesmente se viram chamados pela fé.

“Uns podem achar que isso é extraordinário, mas não é grande cosa”, explicou Michael. “É apenas a coisa certa a fazer”.

O casal trabalha como voluntário em um projeto a somente 60 quilômetros daquele que era, até recentemente, um território controlado pelo EI. Os militantes usaram civis como escudos humanos e realizaram execuções em massa dos que tentavam fugir.
Prometendo dedicar suas vidas à obra missionária, Michael e Christy dizem que estão preparados para permanecer no Iraque por tempo indeterminado.

“O que fazemos não é raro entre os cristãos chineses”, informou Chisty. “Há tantos outros por aí que amam a Cristo e que dedicam suas vidas ao Reino de Deus”.

Armados com a fé, o idioma inglês e o árabe, que aprenderam por conta própria, Michael e Christy trabalham com refugiados yazidis, membros de uma minoria religiosa perseguida pelo EI como adoradores do demônio. Um estudo divulgado em maio afirma que, pelo menos, 9.900 yazidis iraquianos morreram ou foram sequestrados em um ataque em 2014 perpetrado pelo Estado Islâmico. Cerca de 3.100 foram mortos – a maior parte dos quais assassinados com tiro, degolados ou queimados vivos – e aproximadamente 6.800 foram sequestrados para se tornarem escravas sexuais ou combatentes.

Christy costura roupas com viúvas yazidis para ajudá-las a ter renda, e ela e Michael também ministram aulas de inglês a crianças locais, muitas sendo órfãs ou filhas de famílias monoparentais.

“Estamos felizes por passar o tempo com estas pessoas”, diz Christy. “Cada uma delas tem a sua própria história e tudo o que precisam é de amor. Então, estamos aqui para levar o amor de Cristo a elas”.

Michael disse que não falam explicitamente sobre religião, porque acham que compartilhar o amor através de suas vidas é mais importante do que com palavras, e que querem respeitar a cultural local. O casal está também tentando aprender o dialeto curdo, falado pelos yazidis.

Segundo ele, coisas pequenas como ensinar o vocabulário básico de inglês, fazer desenhos juntos das crianças ou brincar com elas podem fazer uma enorme diferença em infundir valores positivos.

“Muito embora não preguemos o Evangelho, pelos menos plantamos uma semente em seus corações”, disse Michael.
Porém o casal também enfrenta outros perigos, além do extremismo islâmico. Recentemente Christy sobreviveu a um problema sério de saúde, tendo passado dois meses em recuperação após uma infecção, resultado de médicos iraquianos que a operaram com instrumentos sem esterilização em um teatro que se assemelhava a uma garagem mal-cuidada.

Michael e Christy estão longe das imagens estereotipadas dos chineses que vão ao exterior como turistas culturalmente insensíveis. Os dois fazem parte de uma tendência crescente de chineses ao redor do mundo que se põem em viagem por outros motivos que não os negócios, exemplo disso sendo as mortes dos dois missionários chineses, identificados pelas autoridades paquistanesas como Lee Zing Yang, de 24 anos, e Meng Li Si, de 26, mortos por atiradores do EI após sequestro na cidade de Quetta, no final de maio. (foto no topo)
Em resposta ao incidente, o Paquistão encrudesceu a liberação de novos vistos e mandou de volta para a China onze missionários que faziam parte do mesmo grupo de Lee e Meng.

“Estamos bastante tristes com o que ouvimos dos missionários no Paquistão”, disse Michael. “Eram bem jovens, tínhamos praticamente a mesma idade”.

Ele disse que o incidente servia como uma lembrança aos missionários de seu país de que, em primeiro lugar, é preciso respeitar a cultura local e evitar ser visto como se estivesse impondo a própria religião aos outros.

“Pregar o Evangelho em um país muçulmanos é ilegal”, disse Michael. “Se convertemos um filho, estamos literalmente pedindo que o seu pai o mate”.

Michael disse também que ter sido criado num lar cristão na China, onde igrejas independentes foram suprimidas, o ajudou a se adaptar ao trabalho missionário num ambiente difícil.

“Na China, a nossa religião foi severamente suprimida”, falou. “Quando a fé é resultado de um grande esforço, ela é mais genuína e sincera”.

“Só desejamos difundir valores positivos. Mesmo se viermos a construir uma igreja algum dia, ela seria tão sutil quanto aquela que temos na China. Não haveria estruturas extravagantes, o foco estaria na conexão interior com Deus e na qualidade do companheirismo”.

Missionários protestantes e católicos criaram muitas organizações de caridade, escolas e igrejas na China durante o século XIX, com James Hudson Taylor, quem visitou o país onze vezes a partir de 1854, dizendo: “Se eu tivesse mil vidas, a China deveria as ter”.
No entanto, todos os missionários estrangeiros foram expulsos da China quando os comunistas subiram ao poder em 1949.

Embora o número de missionários chineses que trabalham no exterior permanece pequeno comparado ao de missionários americanos ou sul-coreanos, muitos preveem que a China venha a se tornar o principal país de origem de tais pessoas no futuro.

O Centro de Estudos sobre o Cristianismo Global, do Seminário Teológico Gordon-Conwell, dos EUA, disse que, em 2010, o número de missionários internacionais era de 400 mil. Informou que os EUA, o Brasil, a Coreia do Sul e a Índia estavam entre os principais países de origem. Segundo a Associação Coreana de Missão Mundial, no ano passado havia mais de 27 mil missionários sul-coreanos atuando no exterior, com a maior parte atuando nos países do norte e do sul asiáticos.

Estatísticas oficiais chinesas põem o número de cristãos no país na casa dos 28 milhões, em 2014, com 23 milhões sendo protestantes espalhados por 56.000 igrejas com 48 mil pastores e pregadores. No entanto, estudiosos e analistas estrangeiros estimam, por baixo, que o número de protestantes evangélicos chineses está entre os 70 e 100 milhões.

Um pastor taiwanês que recentemente participou de um congresso cristão em Hong Kong falou que a China se impôs como um país exportador de capital ao se transformar numa fonte de investimento estrangeiro a países da Rota da Seda, mas que está pronto para se tornar o maior exportador da fé cristã agora.

“O reavivamento por vir na China é grande demais para ignorar”, disse o pastor, que tem trabalhado na formação lideranças cristãs há quase duas décadas e que não quis se identificar.

As igrejas locais protestantes da China trabalham de forma independente das organizações religiosas sancionadas pelo Estado, com membros de suas congregações sofrendo perseguições e com as autoridades tendo aumentado a pressão contra elas nos últimos anos.

Michael e Christy são cristãos de terceira geração, nascidos em áreas rurais, mas que cresceram em ambientes urbanos. Eles e seus pais testemunharam o crescimento resiliente de igrejas protestantes, apesar de décadas de supressão intensa. Provavelmente os sus avós se converteram ao cristianismo quando o número de cristãos rurais aumentou drasticamente durante e após a Revolução Cultural, quando os fiéis passaram a ser ilegais no país, sendo submetidos a uma severa perseguição.

Michael disse que seus pais compreenderam a escolha feita por ele e que, às vezes, sente saudades de casa.

As investigações em torno das mortes de Lee e Meng no Paquistão continuam, porém as autoridades chinesas e a imprensa os consideram pregadores ilegais que acabaram sendo coagidos por uma igreja sul-coreana.

Estas mortes vêm sendo lembradas de forma anônima em postagens nas mídias sociais por comunidades cristãs locais, que continuam dispostas a mandar missionários ao exterior, apesar de uma repressão acirrada nas fronteiras, informou o Dr. Brent

Fulton, analista americano para assuntos asiáticos e autor de “China’s Urban Christians: A Light that Cannot be Hidden”.
Segundo Fulton, em grande parte o esforço foi local, com apenas algumas igrejas cooperando com os organismos internacionais ou chineses no exterior.

“Sugerir que este casal em particular foi, de alguma forma, coagido a ir para o Paquistão por missionários coreanos me parece errado”, falou.

Um missionário americano que tem documentado as lutas das igrejas chinesas no país há mais de uma década diz que os missionários chineses alimentam-se da paixão, mas que não têm nenhuma agenda por trás.

“Eles não estão tentando estabelecer bairros chineses em Bagdá”, disse, concordando com a afirmação de que as igrejas locais na China são as principais promotoras do movimento missionário.

Uma cristã de Wenzhou, na China, em treinamento ser missionária, falou que os missionários chineses passam por uma formação, dada por igrejas ou seminários não reconhecidos pelo Estado, antes de ir ao exterior. Uma formação básica inclui estudos bíblicos e saber como viver em um ambiente transcultural; alguns dos formandos recebem aconselhamentos ou formação de missionários estrangeiros na China.

“Para que alguém se qualifique para trabalhar como missionário de longo prazo, levam-se anos”, disse ela. “Centenas iniciam um programa de treinamento que pode durar até três anos, mas pode acontecer que só dois se qualificam para ir ao exterior”.

“O movimento de enviar missionários da China ao exterior está só começando. Muitas das missões existentes são de curto prazo”.

É compreensível que algumas turmas foram canceladas após os assassinatos no Paquistão, em decorrência do medo de haver uma repressão por parte do governo chinês.

Mas em lugar de se deixar dissuadir, os cristãos aqui têm circulado mensagens nas redes sociais dizendo que a tragédia somente irá encorajá-los ainda mais a viver a fé.

Acostumado a trabalhar no limiar de uma zona de guerra, Michael não se vê como um mártir potencial.

“A situação aqui não é tão ruim”, diz. “O sacrifício não deve ser um objetivo. É um dom de Deus, portanto se ele está nos dando este dom, também nos dará a força para seguir em frente”.

Por The South China Morning Post

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O nome de Janusz Korczak não é bem conhecido fora da Polônia e Europa, mas este homem é um verdadeiro herói! Janusz Korczak era um escritor infantil, pedagogo e pediatra judeu-polonês. Ele escreveu mais de 15 livros, dois deles foram traduzidos para o inglês.

Em 1911, ele se tornou diretor de um orfanato em Varsóvia, Polônia. Esta instituição foi criada como projeto dele mesmo e tinha o intuito de dar amparo a crianças judaicas.

Quando a Segunda Guerra Mundial começou, Korczak queria servir o exército polonês, mas ele era muito velho para tal atividade.

Quando Varsóvia foi tomada pelos nazistas, ele estava na cidade. Em 1940, quando o Gueto de Varsóvia foi criado, seu orfanato se mudou para lá e Korczak não abandonou seu projeto.

Em 5 de agosto de 1942, os soldados nazistas chegaram ao orfanato para levar as crianças para o campo de concentração de Treblinka. A Korczak havia sido oferecida a opção de ficar no “lado ariano” de Varsóvia, mas ele recusou a oferta — ele não podia deixar seus “filhos” — e disse que iria com as crianças.

As crianças estavam vestidas com suas melhores roupas e cada uma levou um brinquedo ou livro favorito. Ele embarcou no trem com seus órfãos e ninguém o tinha visto desde então.

Korczak morreu com seus “filhos” em uma câmara de gás em Treblinka. Ele não traiu seus princípios mesmo diante da morte. Este homem maravilhoso escolheu morrer, mas não abandonar seus órfãos.

Devemos sempre nos lembrar de seu grande coração!

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Em julho de 2016, o Papa Francisco autorizava a Congregação vaticana para as Causas dos Santos a promulgar o decreto de beatificação relativo ao “martírio do Servo de Deus José Mayr-Nusser; leigo; morto por ódio à fé no dia 24 de fevereiro de 1945”. Neste sábado, na catedral de Bolzano, Josef Mayr-Nusser será beatificado.

O católico de Bolzano, desde 1934 dirigente dos jovens da Ação Católica para a parte alemã da diocese de Trento, no momento das Opções de 1939 tinha escolhido permanecer na Heimat. E, na sua Heimat, havia se casado, em 1942, com a sua colega Hildegard Straub.

Depois da ocupação nazista do Alto Adige (setembro de 1943), quando há pouco tempo tinha nascido o seu filho Albert, Mayr-Nusser e muitos outros Dableiber (assim se definiram aqueles que, como ele, decidiram permanecer na sua terra), foram forçados a se alistar no exército ocupante.

Para Josef, foi previsto o alistamento nas SS, com a sua relativa transferência para Konitz (hoje Polônia). No dia 4 de outubro de 1944, Mayr-Nusser se recusou a prestar juramento ao Führer e, por causa desse ato, foi condenado à morte. A condenação deveria ser executada em Dachau, mas Josef morreu de fome e de exaustão durante a deportação, aos 35 anos de idade.

Quais são as motivações que o induziram a uma escolha tão radical? É possível, mesmo que neste curto espaço, refletir historicamente sobre seu testemunho cristão? Ajudam-nos os seus escritos dos anos 1930, reunidos nos volumes de Josef Innerhofer, Francesco Comina, Giuseppe Rizzi e Paolo Valente.

Nesses textos, Mayr-Nusser se deparava com as duas faces da modernidade, a liberal e a totalitário. Na sua reflexão, emerge uma estreita consonância com o magistério de Pio XI (1922-1939). Pode-se notar isso, por exemplo, em um discurso dirigido ao bispo auxiliar de Trento, Montalbetti, em visita pastoral a Bolzano em novembro de 1936. No discurso de saudação, o dirigente dos jovens católicos condenava aqueles que exaltavam “o sangue e a pátria como as suas novas divindades”, falando de uma “juventude profundamente enojada com a superficialidade e o espírito materialista da nossa cultura moderna, corrupta e afogada na avidez”. Ele concluía esperando que a “paz de Cristo se realize no reino de Cristo”, citando, assim, as palavras que Pio XI tinha escolhido para caracterizar o pontificado na sua primeira encíclica (Ubi Arcano, 1922).

Para o Papa Ratti, era necessário promover o reino social do Cristo, que deveria conter os inimigos da Igreja, com a “peste do laicismo” em primeiro lugar. Em 1931, Pio XI havia falado de “estadolatria pagã” para condenar a aspiração do Estado ao monopólio educativo sobre a juventude, afirmando que havia direitos “nativos” que pertenciam às pessoas e às famílias. A única guardiã da “lei natural” sobre a qual apoiavam direitos inalienáveis era a Igreja, à qual cabia a definição das leis civis.

Para Mayr-Nusser, que, em uma carta de 1934 aos grupos paroquiais da Ação Católica, tinha destacado como o catolicismo estava “gravemente ameaçado pelos diversos internacionalismos, como o liberalismo, o bolchevismo, o capitalismo, o hipernacionalismo”, tratava-se de reagir à “degeneração de grande parte da população ocidental”.

No mesmo ano, ele defendia que a política dos Estados europeus era “conduzida com critérios totalmente anticristãos e materialistas”. A visão do jovem de Bolzano parece refletir o pessimismo de Pio XI, que, fora do caminho indicado pela Igreja, via cenários funestos.

São as cartas escritas para a esposa durante a guerra que nos revelam um pensamento capaz de superar o próprio magistério da Igreja do tempo. Se, em setembro de 1940, o Papa Pio XII (1939-1958) tinha recordado que os cristãos eram obrigados a “uma leal e consciente obediência às autoridades civis e às suas legítimas prescrições”, Josef, em vez disso, desenvolvia as suas reflexões sobre a incompatibilidade absoluta entre cristianismo e nazismo .

No dia 27 de setembro de 1944, ele dirigia à esposa palavras muito claras: “São dois mundos que se chocam um com o outro. Os meus chefes mostraram muito claramente que rejeitam e odeiam aquilo que, para nós, católicos, é sagrado e irrenunciável. Reze por mim, Hildegard, para que, na hora da provação, eu aja sem medo ou hesitação, de acordo com os ditames de Deus e da minha consciência”.

Essas frases aproximam a experiência de Josef Mayr-Nusser à do agricultor austríaco Franz Jägerstätter (beatificado em 2007). Em 1943, ele tinha sido condenado à morte porque tinha se recusado ao alistamento na Wehrmacht. Franz também tinha se referido ao primado da consciência.

Em conclusão, podemos dizer, com certeza, que ambos, com o seu corajoso testemunho, anteciparam orientações que, só mais tarde, encontrariam espaço na cultura católica.

O comentário é do historiador italiano Andrea Sarri, publicado no jornal Trentino

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Definições impecáveis, nenhuma das quais pode ser isolada das outras, especialmente na véspera do primeiro centenário da morte – ou, melhor, do martírio – desse homem que se encontrou sendo tudo, mas apenas para descobrir que queria ser nada.

Por ocasião do aniversário, chegam às livrarias reproposições sugestivas (como outra biografia da época, “Charles de Foucauld. Explorador místico”, de Michel Carrouges, Castelvecchi, 228 páginas) e úteis antologias dos escritos (as “Páginas de Nazaré”, editadas por Natale Benazzi para as Edizioni di Terrasanta, 154 páginas, ou as meditações sobre os Evangelhos propostas pela editora San Paolo, com o título “Deus de misericórdia”, 204 páginas). E chega, muito esperado, o romance que o sacerdote-escritor espanhol Pablo d’Ors dedicou ao irmão Charles, “O esquecimento de si”(Vita e Pensiero, 414 páginas).

Charles de Foucauld, de fato, já tinha sido protagonista de outro livro de D’Ors, “O amigo do deserto”, publicado no ano passado pela editora Quodlibet na versão de Marino Magliani. Mas se tratava, naquele caso, de um protagonismo per absentiam, já que todo o relato girava, sim, em torno do desejo de escondimento e contemplação característico do irmão Charles, cujo nome, porém, aflorava de modo intermitente, quase para convencer o leitor da estrutura excêntrica e quase iniciática do livro.

Aparentemente, “O esquecimento de si” assume um andamento mais convencional. O que D’Ors nos apresenta desta vez é até o diário que o irmão Charles teria redigido a pedido do seu pai espiritual (e verdadeiro pai na fé), o abade Henri Huvelin. Justamente por ter sido escrito pelo próprio Charles de Foucauld, o relato é desprovido do dramático final, que coincide com a morte do religioso francês pelos invasores Senussi.

Era o dia 1º de dezembro de 1916, o irmão Charles tinha 58 anos e, há já 15 anos, levava uma vida como eremita no Saara argelino. A igreja-fortaleza de Tamanrasset, alvo do ataque que lhe custou a vida, tinha sido pensada e construída como posto avançado espiritual no coração do deserto. Antes de cair, o evangelizador dos tuaregues tinha salvo a Eucaristia, que representava o centro da sua espiritualidade.

É uma história conhecida, mas que nunca deixa de impressionar, de parecer tão extraordinária a ponto de parecer ter sido inventada por um romancista. Porque Charles de Foucauld nasceu nobre no dia 15 de setembro de 1858, logo se viu órfão e rico, passou por preguiçoso na escola e por fanfarrão no exército, onde também deu prova de coragem e aperfeiçoou a técnica da camuflagem, que lhe seria novamente útil dali a pouco, quando – entre 1883 e 1884 – faria a longa viagem no Marrocos interno, ao qual está ligada a sua fama de explorador.

A conversão remonta a 1886. Inicialmente, Charles foi admitido na Trapa de Nossa Senhora das Neves, em L’Ardèche, mas a sua vocação era inquieta demais para se conformar totalmente à regra monástica.

Os anos decisivos foram os passados em Nazaré, justamente, entre 1897 e 1900. O irmão Charles trabalhou como jardineiro no convento das clarissas, avançando cada vez mais na busca espiritual e esboçando os contornos daquela que, mais tarde, se tornaria a comunidade dos Irmãozinhos e das Irmãzinhas do Sagrado Coração.

Ordenado sacerdote, estabeleceu-se na Argélia, em 1901, primeiro no oásis de Beni Abbes e, por último, em Tamansarret, dedicando-se, dentre outras coisas, à compilação do primeiro e fundamental dicionário berber-francês.

Uma vida que já parece um romance, como dizíamos, mas que Pablo d’Ors consegue reconstruir sem nunca insistir nos elementos mais surpreendentes, preferindo se concentrar na interioridade do irmão Charles. Se a sua entrada em cena pode lembrar a agitação do jovem Rimbaud, o título escolhido para um dos capítulos finais, “A missa sobre o mundo”, retoma literalmente uma expressão cara ao cristocentrismo cósmico de Pierre Teilhard de Chardin, para reafirmar a continuidade acima de tudo espiritual da qual o irmão Charles é testemunha.

Do mesmo modo, nas epígrafes que introduzem cada seção do livro, D’Ors se mantém fiel ao estilo de fraternidade universal do seu Charles de Foucauld, que não guarda segredo do fato de ter redescoberto o Evangelho depois de ter conhecido o Alcorão.

Em “O esquecimento de si”, depois, aparecem citações dos “Contos de um peregrino russo” e do livro de canções sufi de Yunus Emre, dos mestres do zen budismo e das poesias do místico contemporâneo Dag Hammarskjöld, das cartas de São Paulo e do diário de Etty Hillesum.

Não é uma exibição genérica de sincretismo, mas sim a consciência de que a aventura do irmão Charles é, de fato, a aventura de qualquer alma em busca de Deus. De qualquer corpo, deve-se acrescentar, já que um dos aspectos mais convincentes do livro de D’Ors– autor, dentre outros, da magnífica “Biografia do silêncio”, publicada pela Vita e Pensiero em 2014 – consiste precisamente na insistência sobre o vínculo indivisível entre material e imaterial, entre visível e invisível.

Começamos a crer quando nos colocamos de joelhos, adverte o irmão Charles do “Esquecimento de si”, e iniciamos a progredir na imitação de Cristo quando se aprende a praticar o jejum. Não é por acaso, aliás, que, entre as páginas mais belas, estejam precisamente aquelas em que os objetos da cotidianidade, iluminados pela luz sobrenatural da Eucaristia, revelam ao protagonista a silenciosa vastidão da Revelação: “As coisas não reivindicam nada de nós: elas estão, são. E assim é Deus, eu pensava, Aquele que está, Aquele que é, Aquele que se oferece em tudo e em todos”.

O Rimbaud de “Vogais” não está longe, o Teilhard de Chardin do “Cristo na matéria” já está às portas.

Jornal Avvenire

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O relatório da Liberdade Religiosa no Mundo, publicado pela Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre, conclui que a liberdade religiosa diminuiu em onze – quase metade – dos vinte e três países que já sofriam as piores violações. Nos outros sete países desta categoria, os problemas já eram tão grandes que dificilmente poderiam ficar piores.

A análise também revela que, dos trinta e oito países com violações mais significativas da liberdade religiosa, 55% permaneceram estáveis em relação à liberdade religiosa e, em 8%, nomeadamente no Butão, no Egito e no Catar, a situação melhorou.

O relatório demonstra que é errada a visão popular de que os governos são os maiores culpados pela perseguição religiosa. Os atores não estatais (ou seja, organizações fundamentalistas ou militantes) são responsáveis pela perseguição religiosa em doze dos vinte e três países com as piores violações.

O período em análise neste relatório, que vai de junho de 2014 a junho de 2016, viu surgir um novo fenômeno de violência com motivação religiosa que pode ser descrito como hiperextremismo islamita, um processo de radicalização intensificada, sem precedentes na sua expressão violenta. As suas características são:

a) Crença extremista e um sistema radical de lei e governo;

b) Tentativas sistemáticas de aniquilar ou afastar todos os grupos que não concordem com a sua perspectiva, incluindo correligionários: moderados e aqueles com diferentes tradições;

c) Tratamento cruel das vítimas;

d) Uso das redes sociais mais recentes, principalmente para recrutar seguidores e intimidar os opositores através da exibição de violência extrema;

e) Impacto global, tornado possível através de grupos extremistas filiados e de redes de apoio com bons recursos.

Este novo fenômeno tem tido um impacto contaminante na liberdade religiosa em todo o mundo:

a) Desde meados de 2014, ocorreram ataques islamitas violentos em um de cada cinco países do mundo, desde a Suécia à Austrália, incluindo dezessete países africanos;

b) Em alguns países do Oriente Médio, incluindo a Síria e o Iraque, este hiperextremismo está eliminando todas as formas de diversidade religiosa e está ameaçando fazê-lo igualmente em países da África e da Ásia Meridional. A intenção é substituir o pluralismo por uma monocultura religiosa;

c) O extremismo e o hiperextremismo islamita, observados em países que incluem o Afeganistão, a Somália e a Síria, tem sido um fator-chave na repentina explosão de refugiados que, de acordo com os números das Nações Unidas para o ano de 2015, aumentou 5,8 milhões, chegando a um novo número máximo de 65,3 milhões;

d) Na Ásia Central, a violência hiperextremista está sendo usada pelos regimes autoritários como pretexto para uma repressão desproporcionada das minorias religiosas, cerceando liberdades civis de todos os tipos, incluindo a liberdade religiosa;

e) No Ocidente, este hiperextremismo está em risco de desestabilizar o tecido sócio-religioso, com países esporadicamente alvos de fanáticos e sob pressão para receberem números sem precedentes de refugiados, majoritariamente de uma fé diferente das comunidades nativas. Claros efeitos em cascata incluem o aumento de grupos populistas e de direita; restrições ao livre movimento; discriminação e violência contra religiões minoritárias; e um declínio da coesão social, inclusive nas escolas públicas.

Houve um aumento nos ataques antissemitas, nomeadamente em países da Europa.

Os grupos islâmicos tradicionais estão agora começando a lutar contra o fenômeno do hiperextremismo por meio de posições públicas e outras iniciativas, através das quais condenam a violência e os que estão por trás dela.

Em países como a Índia, Paquistão e Mianmar, onde uma religião específica é identificada com o estado-nação, foram dados passos para defender os direitos dessa religião, por oposição aos direitos das minorias religiosas. Isto resultou em restrições mais rigorosas à liberdade religiosa dos grupos minoritários, aumentando os obstáculos à conversão e impondo maiores sanções para a blasfêmia.

Nos países com as piores violações, incluindo a Coreia do Norte e a Eritreia, a contínua penalização da expressão religiosa representa a negação total dos direitos e liberdades; por exemplo, através do encarceramento de longa duração sem julgamento justo, da violação e do assassinato.

Houve uma repressão renovada dos grupos religiosos que se recusam a seguir a linha do partido nos regimes autoritários, como a China e o Turcomenistão. Como caso ilustrativo, mais de 2.000 igrejas viram as suas cruzes demolidas em Zhejiang e nas províncias vizinhas.

Ao definir um novo fenômeno de hiperextremismo islamita, o relatório corrobora as alegações generalizadas de que, ao atacar cristãos, yazidis, mandeanos e outras minorias, o grupo Estado Islâmico (EI) e outros grupos fundamentalistas estão infringindo a Convenção das Nações Unidas para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio.

Veja aqui o Relatório da Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre sobre a liberdade religiosa no mundo.

Fonte: Aleteia

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Eles poderão ser abandonados por todos, mas não por Deus. Os pastores que seguem Jesus e não o poder, o dinheiro ou as corjas, mesmo se ficarem sozinhos e desolados, nunca ficarão “amargurados”, porque o Senhor sempre estará ao seu lado. Palavra do Papa Francisco.

Comentando a Segunda Carta a Timóteo na homilia da manhã dessa terça-feira, 18 de outubro de 2016, na Casa Santa Marta, o pontífice refletiu sobre o fim dos Apóstolos, que, como São Paulo no fim dos seus dias, devem enfrentar o drama da solidão em momentos de dificuldade.

Os Apóstolos são despojados, atacados, vítimas de fúria; até mesmo pedem esmola.

O bispo de Roma ressalta: “Sozinho, mendicante, vítima de fúria, abandonado. Mas é o grande Paulo, aquele que ouviu a voz do Senhor, o chamado do Senhor! Aquele que andou de um lado ao outro, que sofreu tantas coisas e tantas provas pela pregação do Evangelho, que fez com que os Apóstolos entendessem que o Senhor queria que os gentios também entrassem na igreja, o grande Paulo que, na oração, subiu até o Sétimo Céu e ouviu coisas que ninguém tinha ouvido antes: o grande Paulo, ali, naquele pequeno quarto de uma casa em Roma, esperando como vai acabar essa luta dentro da Igreja entre as partes, entre a rigidez dos judaizantes e aqueles discípulos fiéis a ele”.

Assim termina a existência “do grande Paulo, na desolação, não no ressentimento e na amargura, mas com a desolação interior”.

O mesmo destino foi o de São Pedro e de São João Batista, que, “na cela, sozinho, angustiado”, envia os seus discípulos para perguntar a Cristo se ele é o Messias e acaba decapitado pelo “capricho de uma bailarina e pela vingança de uma adúltera”.

No século passado, São Maximiliano Kolbe, “que fizera um movimento apostólico em todo o mundo e tantas coisas grandes”, morreu na prisão de um campo de concentração.

“O apóstolo, quando é fiel – destaca o Papa Bergoglio –, não espera outro fim senão o de Jesus.”

Justamente nesses momentos trágicos, Deus está particularmente perto, “não o abandona e ali encontra a sua força”. Assim, de fato, morrem São Paulo. Essa é a “lei do Evangelho: se a semente de trigo não morre, não dá fruto”.

Além disso, chega um momento decisivo, crucial: a ressurreição. Morrer assim “como mártires, como testemunhas de Jesus é a semente que morre e dá o fruto e enche a terra com novos cristãos”. Quando “o pastor vive assim não está amargurado: talvez tenha desolação, mas tem a certeza de que o Senhor está ao seu lado. Quando o pastor, na sua vida, se ocupou com outras coisas que não fossem os fiéis – por exemplo, está apegado ao poder, está apegado ao dinheiro, está apegado às corjas, está apegado a tantas coisas –, no fim, não estará sozinho, talvez estarão os sobrinhos, que vão esperar que ele morra para ver o que podem levar consigo”.

Depois, o papa contou: “Quando eu vou visitar a casa de repouso dos sacerdotes idosos, eu encontro muitos daqueles grandes, grandes, que deram a vida pelos fiéis. E estão lá, doentes, paralíticos, na cadeira de rodas, mas logo se vê aquele sorriso. ‘Está bem, Senhor; está bem, Senhor’, porque sentem o Senhor muito perto deles. E também aqueles olhos brilhantes que eles têm e perguntam: ‘Como vai a Igreja? Como vai a diocese? Como vão as vocações?’. Até o fim, porque são padres, porque deram a vida pelos outros”.

São Paulo, “sozinho, mendicante, vítima de fúria”, é “abandonado por todos, exceto pelo Senhor Jesus: ‘Só o Senhor ficou perto de mim!’. E o Bom Pastor, o pastor deve ter esta segurança: se ele vai pelo caminho de Jesus, o Senhor estará perto dele no fim”.

Francisco convida a rezar pelos “pastores que estão no fim da sua vida e que estão esperando que o Senhor os leve consigo. E rezemos para que o Senhor lhes dê a força, a consolação e a segurança de que, embora se sintam doentes e até mesmo sozinhos, o Senhor está com eles, perto deles. Que o Senhor lhes dê força”.

Domenico Agasso Jr., publicada no sítio Vatican Insider, 18-10-2016.

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Um Papa sincronizado não com ideologias, mas com o Evangelho!

Centenas de milhares deles não viram nada. Não conseguiram ver o Papa, nem sequer de longe, nem sequer em um dos raros telões. Participaram de todos os eventos da Jornada Mundial da Juventude, talvez em setores muito distantes dos palcos, conseguindo apenas escutar os cânticos, as orações e a voz de Bergoglio. E tudo isto após ter viajado o dia todo ou mais de ônibus. Por que estão aqui? Por que dedicaram tanto tempo e energias a um encontro como este? Não, não é a geração do “sofá”, costume que talvez fique melhor para seus pais. São jovens de todo o mundo que acreditam, apesar de tudo. Que não se deixam embasbacar pelos ídolos de um consumismo que os escraviza e que é muito cômodo para os poderosos. Não se rendem ao confronto de civilizações, nem ao ódio e nem à violência cega, apesar de tudo.

A Jornada Mundial da Juventude que foi realizada no coração da Europa centro-oriental foi marcada pelos fatos terríveis que aconteceram em Nice, em Munique, em Ruan. O terrorismo fundamentalista de matriz islâmica, o dos massacres, dos carros-bomba, dos kamikazes jihadistas, da violência cega, dos grupos armados até os dentes e cheios de dinheiro graças à ajuda dos países considerados os melhores aliados do Ocidente, entrou em nossas vidas. Enquanto era só imagens na televisão, com milhares de corpos de crianças, mulheres, jovens e anciãos inocentes destroçados nos atentados diários em Cabul, Bagdá…, enquanto se tratava somente das perseguições e dos massacres que aconteciam na Nigéria ou no Paquistão, parecia que não tinham nada a ver conosco. Agora, no mundo onde regia a “globalização da indiferença”, há pessoas que pressionam para globalizar o ódio, o fechamento, os muros.

Exatamente aquilo que os terroristas do Daesh, seus filiados e “fãs” desejavam: semear o terror e o medo, fazer acreditar que estamos à beira do Juízo Final, do enfrentamento final entre a civilização cristã ocidental e o Islã. E alimentam esta fábula, contada interessadamente pelos que necessitam desesperadamente fechar as filas do Islãsunita contra o inimigo “cruzado”, os chamados às armas por intelectuais e comentadores que reduziram o cristianismo a uma ideologia identitária. O Papa Francisco, com coragem e determinação, recordou que aquilo que o mundo está vivendo é uma terceira guerra mundial “em pedaços”, mas recordou com todas as suas letras que não se trata de uma guerra de religião. Eventualmente, poderia ser uma guerra dentro de uma religião, como demonstra o fato de que a maior parte das vítimas dos jihadistas são inocentes muçulmanos. Mas, trata-se, principalmente, de uma guerra por dinheiro, por interesses, pelo domínio sobre os povos.

Seja qual for a natureza deste conflito, o Papa não pode prescindir do Evangelho. E para considerá-lo em sincronia com as exigências da guerra de religião, de uma resposta dura contra o islã (muitos gostariam que fosse assim), não se pode esquecer o magistério de seus dois imediatos predecessores. É preciso fingir que seus dois predecessores imediatos não existiram. É necessário construir uma imagem falsa e enganosa. Acusa-se Francisco de não ter se lançado contra o islã publicamente, em seus comentários, após os atentados. Na Polônia, a terra de São João Paulo II, como se pode esquecer que nunca (nem sequer após o dia 11 de setembro) atacou o Islã? E a todos os exegetas do discurso de Bento XVI, em Regensburg, apresentado hoje como um grito de batalha, seria necessário lhes recordar que aquela lição acadêmica não foi pronunciada após algum atentado e que seu núcleo não era a violência muçulmana, mas, ao contrário, uma crítica ao Ocidente, que esqueceu suas raízes e que considera que as religiões são subculturas. O Papa Ratzinger nunca se referiu ao Islã quando se pronunciou sobre atentados jihadistas. Envolver Wojtyla e Ratzinger contra Francisco na guerra santa é procurar três pés em um gato, e mais, trata-se de uma operação pouco transparente. E só é possível colocando a realidade entre parênteses ou em uma nota de rodapé.

Nós não gritaremos, agora, contra ninguém, não brigaremos, não queremos destruir. Nós não queremos vencer o ódio com mais ódio, vencer a violência com mais violência, vencer o terror com mais terror”, disse Francisco aos jovens, durante a vigília da Jornada Mundial da Juventude(foto acima) Porque “nossa resposta a este mundo em guerra tem um nome: se chama fraternidade, se chama irmandade, se chama comunhão, se chama família”. A verdadeira luta “anti-jihad” são essas milhões de mãos jovens de todo o mundo entrelaçadas, sua silenciosa oração. A única reação cristã frente à violência. A única maneira evangélica de honrar o sangue dos mártires de nosso tempo.

Andrea Tornielli, publicada por Vatican Insider

REUTERS1570853_ArticoloO Arcebispo de Rouen, Dominique Lebrun, presente em Cracóvia para a Jornada Mundial da Juventude, divulgou um comunicado através do Twitter da Igreja católica na França (@eglisecatho), após tomar conhecimento do assassinato do sacerdote Jacques Hamel, na Igreja Saint-Etienne-du-Rouvray.

“De Cracóvia soube da matança ocorrida esta manhã na Igreja de Saint-Etienne-du-Rouvray. As três vítimas: o sacerdote, Padre Jacques Hamel, 84, e os autores do assassinato. Três outras pessoas ficaram feridas,  sendo uma delas gravemente. Eu clamo a Deus com todos os homens de boa vontade. Convido os não-crentes para participarem deste clamor! Com os jovens da JMJ, nós rezamos como rezávamos junto ao túmulo do Padre Popielusko, em Varsóvia, assassinado durante o regime comunista”.

O Vigário Geral, Padre Philippe Maheut, chegou à Igreja Saint-Etienne-du-Rouvray momentos após o ataque, disse o Arcebispo.  Eu estarei na noite de hoje em minha Diocese junto às famílias e à comunidade paroquial que está chocada. A Igreja Católica não pode usar outras armas que a oração e a fraternidade entre os homens. Eu deixo aqui centenas de jovens que são o futuro da humanidade, é verdade. Peço-lhes para não ceder à violência e se tornarem apóstolos da civilização do amor”.

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Estudos recentes realizados pelo Centro de Pesquisas Pew, comprovam que a perseguição aos cristãos tanto pelos governos quanto pela sociedade está aumentando. Há 2,3 bilhões de cristãos em todo o mundo. Estima-se que pelo menos 8.000 são martirizados a cada ano. Em alguns lugares, como zonas de guerra, as estatísticas são imprecisas, o que significa que o número é muito maior.

O estudo da Pew considera perseguição ataques que sejam verbais ou físicos, bem como prisões, detenções e profanação de locais sagrados. Também foi levada em conta a discriminação por motivos religiosos relacionadas com acesso a emprego, educação e habitação.

Baseado em dados de 2014, observa-se que os assédios institucionais (promovidos pelo governo) ocorreram em 79 países, enquanto que o assédio social (por indivíduos), foi registrado em 85. Alguns dados mostram uma variação para baixo, sendo que o “ápice” foi registrado em 2012.

A conclusão dos pesquisadores da Pew é que, de modo geral, ocorreu uma diminuição na perseguição “oficial”, mas um aumento no número de países com atividade terrorista motivada pela religião. Oitenta e dois países foram vítimas, sendo que em 60 deles ocorreram ferimentos e mortes. A maioria dos atentados foram realizados por grupos islâmicos como Boko Haram, al-Qaeda e Estado Islâmico.

O estudo pesquisou o status da religião em 198 países e descobriu que cerca de 75% da população mundial vive em países onde a restrição motivada pela religião é considerada “alta” ou “muito alta”.

Seguidores de Jesus enfrentam dificuldades por causa de sua fé em 108 países. Outro aspecto que chama atenção é o antissemitismo. A perseguição aos judeus teve o maior índice dos últimos oito anos, com seus seguidores passando por isso em 81 países.

Os índices de restrições e hostilidades de fundo religioso nos 25 países mais populosos do mundo – onde vivem mais de 5 dos cerca de 7,5 bilhões de habitantes do globo – variam muito.

Enquanto no Brasil, Japão e África do Sul estão na parte de baixo, com pouca variação, Índia, Paquistão e Indonésia permanecem no topo, com a Nigéria sendo o que teve o maior aumento de todos

Via G Prime

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O Custódio da Terra Santa, Padre Pierbattista Pizzaballa, Superior dos Franciscanos no Oriente Médio, consultou aos religiosos da região se desejam ser transferidos a lugares mais seguros ou permanecer junto às comunidades cristãs, algumas das quais foram severamente reduzidas pela violência. “Quase todos expressaram claramente a perspectiva de que só é correto permanecer nos povoados, sem considerar o número de fiéis ou o perigo que significa”, indicou o Superior, segundo o informativo Breitbart.

O sacerdote indicou também que os frades franciscanos “nunca abandonaram os lugares e as pessoas que a Igreja lhes confiou, inclusive com risco” e que “não poucos de nossos mártires, inclusive em tempos recentes, morreram em circunstâncias não muito diferentes da situação atual”.

“Um pastor não abandona seu rebanho e não pergunta se suas ovelhas valem muito ou pouco, se são numerosas ou se são jovens”, acrescentou o Custódio. “Para um pastor todas as ovelhas são importantes e ele as ama a todas da mesma maneira”. Nos territórios sob influência de grupos extremistas, os crentes não podem realizar manifestações públicas de Fé, como o são as procissões, o toque dos sinos e a exibição de símbolos cristãos ou imagens religiosas.

Um antecedente preocupante da situação atual se registrou em 2014, quando o sacerdote franciscano Frei Hanna Jallouf acudiu a uma corte de uma área ocupada por rebeldes a denunciar os abusos de brigadas extremistas contra o mosteiro. Como resposta, o presbítero foi encarcerado junto com vários jovens fiéis sob acusações de cooperação com o regime do presidente sírio. Eventualmente se permitiu mudar sua sentença para prisão domiciliar. (GPE/EPC)

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Durante décadas, a Índia vem assistindo a uma onda crescente de nacionalismo hindu que, hoje, domina não só o governo federal, mas também vários estados e regiões. Em agosto de 2008, irrompeu uma onda de hostilidade para com o “outro” cristão em Kandhamal, matando aproximadamente 100 pessoas, deixando milhares de feridos, com 300 igrejas e 6 mil casas destruídas, além de 50 mil deslocados, muitos deles forçados a se esconder em florestas próximas onde tantos outros morreram de fome e mordidas de cobra.

Tal violência foi levada a cabo por grupos usando tiara açafrão, símbolo da militância hindu de direita, e gritando frases como “Jai shri ram!” (a vitória ao deus hindu Ram) e “Jai bajrang bali!” (um tributo a uma outra deidade hindu). Os agressores lançaram mão de varas, espadas, armas de fogo, querosene e até mesmo ácido.

O nível da barbárie quase desafia a crença.

Parikhit Nayak, por exemplo, era um dálit empobrecido que se converteu ao protestantismo em uma grande aldeia hindu. Os seus companheiros o mataram queimando o seu corpo com ácido, cortando fora os seus órgãos genitais e, depois, arrancaram o seu intestino para usá-lo em volta do pescoço como um troféu. Durante todo o tempo, eles forçaram a sua esposa a assistir a cena.

Nós ouvimos dois ecos destes horrores nesta semana.

Um foi uma marcha ocorrida no dia 3 deste mês em Nova Déli para lançar uma petição – “Free the Innocentes” (libertem os inocentes). Com ela, os organizadores estão visando libertar sete cristãos que padecem na prisão desde 2008, acusados de instigar atos de violência ao assassinar um hindu sagrado local. Essas acusações são amplamente tidas como tendo motivações políticas, e um jornalista investigativo recentemente chamou o caso de uma “paródia da justiça”.

No ano passado, dois policiais prestaram depoimento em uma investigação em Kandhamal dizendo que as acusações contra estas pessoas – seis das quais são analfabetas – são falsas. No entanto, as apelações para reverter as suas condenações vêm sendo repetidamente adiadas.

Porque é importante que as vítimas não permaneçam anônimas, abaixo apresento os nomes dos sete condenados:

Bijay Kr Sunseth, casado, pai de 2 filhos e 2 filhas.
Gornath Chalanseth, casado, pai de 1 filha e 3 filhos.
Budhadeb Nayak, casado, pai de 3 filhos e 2 filhas.
Bhaskar Sunamajhi, casada, pai de um criança de 6 anos que nunca o viu, exceto atrás das grades.
Durjo Sunamajhi, casado, pai de três, 2 dos quais são trabalhadores braçais, e de 2 filhas em idade escolar.
Munda Badmajhi, casado, pai de 2 filhos e 2 filhas. O filho mais velho foi forçado a deixar a escola quando o pai foi preso e agora é trabalhador braçal.
Sanatan Badmajhi, casado, pai de 2 filhos e 2 filhas.

O outro lembrete veio quando Dom John Barwa, da Arquidiocese de Cuttack-Bhubaneswar, onde fica Kandhamal, proferiu um discurso à Conferência Episcopal da Índia.

A própria sobrinha de Barwa, Meena, freira da Ordem das Servas de Maria (servita), estava trabalhando em Kandhamal em 2008 quando foi estuprada durante um ataque, em algum momento perdendo a consciência por causa do espancamento selvagem que sofreu. Até hoje, ninguém foi detido ou processado pelo ataque.

Barwa descreveu os esforços de sua pequena – e perenemente sem dinheiro – diocese em ajudar as vítimas, tanto em termos espirituais quanto em termos materiais. Ele também apontou o dedo para áreas com necessidades não satisfeitas, incluindo lesões que ainda não foram tratadas, propriedades da Igreja que ainda precisam de reparos e a justiça ainda a ser feita em termos de processar os perpetradores.

Das 100 pessoas assassinadas em agosto de 2008, houve somente 30 processos e apenas duas condenações.

Embora grande parte disso esteja fora do alcance direto da Igreja, um passo que poderia ser dado imediatamente por ela seria apressar a beatificação e a canonização dos mártires de Kandhamal.

Um deles é o Rev. Bernard Digal, que foi espancado por extremistas hindus enquanto tentava resgatar um outro sacerdote já idoso, que acabou morrendo. Ele, de alguma forma, conseguiu sobreviver e foi levado a um hospital em Mumbai, onde viveu por um mês antes de sucumbir à febre contraída durante a sua provação extrema.

Muitas vezes vemos o Papa Francisco falar sobre o “ecumenismo de sangue” que a perseguição aos cristãos cria, levando estes a uma unidade mais profunda por causa da percepção de que as diferenças denominacionais nada significam para os perseguidores.

Provavelmente não há lugar melhor no mundo para marcar este fato do que Kandhamal, e espera-se que o apelo deBarwa para lembrar os mártires não caia no esquecimento.

John L. Allen Jr., publicada por Crux.

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A visita do papa Francisco ao México tem redespertado as atenções para uma história arrepiante: a de um garoto de 14 anos que foi martirizado, com sadismo satânico, durante a brutal perseguição anticatólica perpetrada naquele país pelo governo ateu e covarde do presidente Plutarco Elías Calles.

O garoto José Luis Sánchez del Río nasceu na cidade de Sahuayo no dia 28 de março de 1913.

Aos 10 anos de idade, ele já ensinava os seus amigos a rezar e os levava para a adoração eucarística.

Aos 13 anos, ele testemunhou em primeira pessoa os inícios da “guerra cristera“, a épica resistência armada dos católicos mexicanos em defesa da sua fé e da sua liberdade. Naquele contexto de leis anticristãs e violência covarde contra padres, religiosos, fiéis, templos católicos e contra a própria Eucaristia, tantas vezes profanada, os irmãos de José Luis se alistaram no improvisado exército católico. Ele, obviamente, não foi aceito como soldado porque ainda era um menino; mas tanto fez e insistiu que conseguiu ajudar os cristeros em muitas outras tarefas e serviços.

Aos 14 anos, ele foi até o túmulo do beato Anacleto González Flores, um dos mártires cristeros, morto porque não renunciou à fé em Cristo. Diante do túmulo, José Luis pediu a Deus “a coragem de testemunhar a verdade do Evangelho até a oferta plena da minha vida“.

E a sua oração foi atendida.

Ainda aos 14 anos, o valente José Luis foi preso pelas tropas do governo ateu e perseguidor. Foi ridicularizado, humilhado. Foi torturado. Foi provocado e intimidado para trair a fé. Foi tentado com ofertas de dinheiro, carreira militar e vida nova nos Estados Unidos. Do alto dos seus 14 anos, o pequeno grande José Luis não aceitou nenhuma dessas tentações. Ele apenas respondia com os gritos heroicos dos cristeros:

“Viva Cristo Rei!”

“Viva a Virgem de Guadalupe!”

Os covardes sequestradores (que eram do governo: o governo que é sustentado com os impostos do povo para proteger, respeitar e servir ao povo) pediram à família de José Luis um resgate pela vida do garoto. Mas o próprio garoto implorou à mãe que não pagasse e a encorajou a preferir um filho mártir a um filho apóstata.

No dia do martírio, uma tia de José Luis, Madalena, conseguiu levar para o sobrinho a sua última comunhão eucarística – literalmente, um viático para o seu caminho da cruz.

E a via-crúcis começou.

De início, os soldados cortaram a pele da sola dos pés de José Luis – a sola dos pés de um garoto de 14 anos.

Os soldados o obrigaram, em seguida, a caminhar  sobre sal, com o único intuito de torturá-lo – torturar um garoto de 14 anos.

Os soldados o levaram, depois, até o cemitério do povoado, numa procissão grotesca de insultos, golpes, empurrões. E lhe fizeram a última tentativa de chantagem apóstata: “Se tu gritares ‘morra Cristo Rei’, nós te salvaremos a vida. Grita: ‘Morra Cristo Rei!’”.

José Luis Sánchez del Río gritou com todas as forças que lhe restavam:

“VIVA CRISTO REI”.

Um tiro da pistola do capitão o matou nesse instante.

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OBS.: No primeiro parágrafo deste texto, dissemos que “a visita do papa Francisco ao México tem redespertado as atenções para uma história arrepiante”. Tem, sim: mas apenas entre os católicos. Você acha que a grande mídia vai dar espaço a este relato do martírio de um garoto católico?

Aleteia

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“Se me perseguiram, também perseguirão vocês. Se obedeceram à minha palavra, também obedecerão à de vocês.” (João 15.20b)

Existem hoje mais de 100 milhões de cristãos que são perseguidos por sua fé, eles compartilham de nossa fé, mas não de nossa liberdade.

Confira a relação atualizada dos países mais fechados ao Evangelho em todo mundo e o que mudou em relação à perseguição religiosa.

Entendendo a Classificação
A Classificação da Perseguição Religiosa lista os 50 países com maior grau de perseguição para com aqueles que seguem a Cristo. Ela é atualizada anualmente com base em pesquisas da Portas Abertas Internacional, que consideram as leis no país, a postura das autoridades, da sociedade e da família em relação a cristãos, novos convertidos e igreja. Um questionário cobrindo esses aspectos determina a posição do país na Classificação.

Esse conteúdo nos ajuda a ter um conhecimento mais atual e preciso da perseguição aos cristãos; além de determinar onde a necessidade de apoio é mais urgente. Dessa forma, o planejamento de projetos e ações torna-se mais eficaz.

Perseguição X Liberdade Religiosa
A perseguição aos cristãos ocorre quando:
– São negados os seus direitos à liberdade religiosa;

– A conversão ao cristianismo é proibida por conta de ameaças vindas do governo ou de grupos extremistas;
– São forçados a deixar suas casas ou empregos temerosos da violência que pode lhes sobrevir;
– São agredidos fisicamente ou mortos por causa de sua fé;
– São presos, interrogados e, por diversas vezes, torturados por se recusarem a negar Jesus.

Caso queria, baixe o arquivo.

Classificação 2016 – A2 em PDF
Classificação 2016 – A3 em PDF
Classificação 2016 – A4 em PDF