bentoxvi

Ao La Repubblica, Dom Georg Gänswein conta a vida de Bento XVI, no retiro do mosteiro Mater Ecclesiae.

A reportagem é de Paolo Rodari, publicada por La Repubblica

Como Bento XVI se aproxima do seu aniversário?

Está sereno, tranquilo e de bom humor. Gostaria de fazer apenas uma coisa pequena adaptada às suas forças. O seu irmão Georg também virá por alguns dias. E esse para ele é o maior presente. Na Pasquetta, um dia depois do aniversário, ele vai nos dar uma modesta festa “à bávara”, com uma pequena delegação da Baviera, entre eles também os Schützen.

Fisicamente, como ele está?

É um homem de 90 anos, muito lúcido, mas as forças físicas diminuem. As pernas estão cansadas. Por isso, para se sentir mais seguro, ele se apoia em um andador que lhe garante autonomia e segurança no movimento.

Ele ainda toca o piano?

Menos do que um ano atrás. Ele diz que as mãos não lhe obedecem mais como antigamente, ou pelo menos não como deveriam obedecer para tocar bem.

Ele assiste à TV?

Só o telejornal das 20h ou das 20h30. Ele recebe o L’Osservatore Romano e o Avvenire e dois jornais alemães. Todos os dias, há também o resumo de imprensa que lhe é enviado pela Secretaria de Estado.

A que leituras ele se dedica?

Sobretudo aos seus grandes mestres, os Padres da Igreja que tanto o acompanharam nos anos em que ele lecionava teologia, mas ele também gosta de ficar atualizado sobre as recentes publicações teológicas, as vozes mais importantes, pelo menos.

Ele escreveu um testamento?

O seu testamento espiritual é o livro sobre Jesus de Nazaré. Obviamente, ele também fez um testemunho pessoal.

Ele falar sobre o além?

Na sua última saudação em Castel Gandolfo, na noite de 28 de fevereiro de 2013, ele mencionou o fato de que ali começava para ele a última etapa da sua peregrinação terrena. Todos os dias, isso é verdade para ele. Em relação ao que ele espera no além, ele repetiu várias vezes quando “dialogou” com as crianças sobre a vida eterna.

Nesses anos, ele nunca voltou a falar sobre a renúncia?

Ele nunca se arrependeu. Está convencido de ter feito a coisa certa, por amor do Senhor e pelo bem da Igreja. Na sua alma, há uma paz tocante, que nos faz entender que, na consciência, há a certeza de ter feito bem diante de Deus. A presença da paz dentro dele é um dom muito belo consequente à decisão.

Ele recebeu pressão para renunciar?

Não, absolutamente! Ele mesmo disse isso no livro O Último Testamento (Ed. Planeta), de Peter Seewald. Ele não recebeu pressão de nenhuma parte. Se tivesse havido, ele não teria cedido. Ele tinha tomado consciência de não ter mais as forças necessárias para guiar a barca de Pedro que precisava de um timão forte. Ele entendeu que devia devolver nas mãos do Senhor aquilo que ele havia recebido d’Ele.

Chegou-se ao conclave depois dos meses tempestuosos do Vatileaks. O senhor acha que, sem o Vatileaks, Bergoglio teria sido eleito?

Eu não acredito que o caso Vatileaks teve tamanha influência no conclave. Bento acompanhou o conclave pela televisão. No livro já citado de Seewald, um ano depois da eleição, ele disse que o Papa Francisco era uma bela lufada de ar fresco. Mas não fez outros comentários.

Não faltam aqueles que contrapõem o magistério de Bento ao de Francisco. Ele está ciente dessa operação?

Lendo os jornais e vendo as notícias, não é possível que Bento não perceba que, às vezes, fazem-se essas contraposições. Mas ele não se deixa provocar por artigos ou afirmações desse tipo. Ele decidiu se calar e permanecer fiel a essa decisão. Ele não tem nenhuma intenção de entrar em diatribes, que ele sente distantes dele.

Ele nunca se arrependeu de permanecer vestido de branco?

É uma pergunta que, para ele, não existia e não existe. Foi algo natural. Ele não vê problemas nisso. Ele tirou o manto e também a faixa. Para ele, é simplesmente uma veste como qualquer outra.

A Amoris laetitia provocou grande discussão na Igreja. Em particular, para alguns, o texto teria provocado confusão em nível pastoral. O que Bento XVI acha?

Ele recebeu uma cópia da Amoris laetitia pessoalmente de Francisco, em branco e com autógrafo. Ele a leu acuradamente. Mas ele não comenta o seu conteúdo, de modo algum. Certamente, está reconhecendo a discussão e as diversas formas em que foi recebido.

maxresdefault

As noites insones depois do conclave, as lutas internas, a renúncia. Joseph Ratzinger se conta em um livro que será publicado em setembro.

Chega um livro de memórias do Papa Bento XVI: agora, será impresso e estará nas livrarias do mundo inteiro em setembro. Título: Benedetto XVI. Ultime conversazioni [Bento XVI. Últimas conversas], porque vai se tratar de um livro-entrevista com o escritor alemão Peter Seewald, que já havia publicado três volumes de diálogos com Joseph Ratzinger: dois quando ele era cardeal (em 1996 e em 2000) e um como papa, em 2010, intitulado Luz do mundo.

Dos quatro volumes, este se anuncia como o mais interessante, ainda mais do que o livro escrito como papa, porque um papa é um papa, mas um papa emérito é uma absoluta novidade. Anunciando a publicação, a editora alemã Droemer, que coordena o lançamento nas diversas línguas, afirmava nessa quinta-feira que, pela primeira vez em 2.000 anos, temos “um papa que traça um balanço do próprio pontificado”.

Também por causa do título “Últimas conversas”, o volume se apresenta como o testamento de Bento XVI: nos três anos e meio que nos separam da “renúncia”, ele falou pouco e nunca de coração aberto, como dizem que ele faz nesse texto, respondendo a perguntas não reticentes sobre a própria renúncia ao papado, sobre o seu sucessor, sobre o caso do ser humano, sobre a família de origem até as tempestades dos oito anos como papa.

Dos preparativos do ato de “renúncia” até a investigação sobre o “lobby gay” do Vaticano, passando pela “surpresa” que, também para ele, representou a eleição do cardeal Bergoglio, são muitas as emoções e os bastidores que, aqui, são contadas pelo papa teólogo, que, em abril do próximo ano, completará 90 anos.

Sobre a renúncia, ele conta que a preparou com poucas pessoas mais próximas a ele e se lembra do temor de que pudesse haver um vazamento de notícias que tiraria a força do anúncio. E ele tinha razão para temer, porque nunca houve, no Vaticano do último século, tantos vazamentos de notícias e textos quanto no seu pontificado.

Ele argumenta a escolha de comunicar em latim uma decisão de tal porte, especificando que temia que, se tivesse escolhido o italiano, poderia cometer algum erro de linguagem. Ele confessa as dúvidas que teve que superar no diálogo consigo mesmo sobre o impacto que a sua decisão poderia ter sobre o futuro do papado. Mais uma vez, ele nega chantagens ou pressões.

Ele conta como acompanhou, em Castel Gandolfo, as crônicas televisivas sobre as fumaças e admite ter ficado “surpreso” com o nome do sucessor: ele tinha pensado em nomes, mas “não nele”. E, além disso, nós, jornalistas, também tínhamos feito o mesmo. A surpresa foi acompanhada pela “alegria” de ver como o novo papa rezava e se comunicava com a multidão.

Em resposta ao entrevistador, Bento XVI trata da figura humana e papal de Francisco e se refere livremente tanto ao que eles têm em comum quanto ao que os diferencia.

No livro, há recordações da infância e da adolescência na Alemanha nazista daqueles anos. A descoberta da “vocação”, a prisão no fim da Segunda Guerra Mundial em um campo estadunidense nos arredores de Ulm. Os sucessos e as decepções da carreira universitária, as publicações que fizeram dele um “perito” do Concílio Vaticano II. Temas sobre os quais ele já havia narrado no livro A minha vida, que é de 1997.

Chegando aos anos mais recentes em relação a essa autobiografia, no novo volume, ele conta o forte vínculo comJoão Paulo II, ao qual, repetidamente, pediu para ser exonerado dos seus cargos, e as recusas do papa polonês que o quis ao seu lado até o fim.

Há também o pensamento da morte e a confissão de como o papa emérito se sente fraco diante dela e a narração do modo como ele se prepara.

Ele nos diz o sentimento de “incredulidade” que experimentou no conclave, quando compreendeu que seria a vez dele. A opção de não se chamar João Paulo III, mas de ligar o seu pontificado a São Bento e a Bento XV, o papa que definiu a Primeira Guerra Mundial como “inútil massacre”.

Ficamos sabendo da dificuldade de pegar no sono que ele sofreu nos primeiros dias depois da eleição, por causa da ansiedade que estava sobre ele.

Ele rejeita a ideia ou a crítica daqueles que o consideram como um papa acadêmico demais, concentrado no estudo e na escrita. Ele se recusa a ser considerado como um restaurador em âmbito litúrgico. Ele conta algo sobre a sua tentativa de reformar o IOR e recorda as leis promulgadas por ele contra a lavagem de dinheiro, reflete sobre a chaga da pedofilia e não deixa de enfatizar as dificuldades que mesmo um papa encontra quando quer intervir sobre a “sujeira que está na Igreja”.

Ele admite a sua falta de decisão no governo. Conta que fez anotações e tomou nota durante o pontificado sobre muitas questões, mas diz que vai destruí-las, embora se dê conta de que, para os historiadores, seriam um verdadeiro “convite de casamento”.

Luigi Accattoli, Corriere della Sera

topic7

Por Papa Bento XVI

Ao amor entre homem e mulher, que não nasce da inteligência e da vontade, mas, de certa forma, impõe-se ao ser humano, a Grécia antiga deu o nome de eros. Segundo Friedrich Nietzsche, o Cristianismo teria dado veneno a beber ao eros, que, embora não tivesse morrido, daí teria recebido o impulso para degenerar em vício. [1] Este filósofo alemão exprimia assim uma sensação muito generalizada: com os seus mandamentos e proibições, a Igreja não nos torna porventura amarga a coisa mais bela da vida? Porventura não assinala ela proibições precisamente onde a alegria, preparada para nós pelo Criador, nos oferece uma felicidade que nos faz pressentir algo do Divino?

Mas, será mesmo assim? O Cristianismo destruiu verdadeiramente o eros? Vejamos o mundo pré-cristão. Os gregos — aliás de forma análoga a outras culturas — viram no eros sobretudo o inebriamento, a subjugação da razão por parte duma « loucura divina » que arranca o homem das limitações da sua existência e, neste estado de transtorno por uma força divina, faz-lhe experimentar a mais alta beatitude. Deste modo, todas as outras forças, quer no céu quer na terra, resultam de importância secundária: « Omnia vincit amor — o amor tudo vence », afirma Virgílio nas Bucólicas e acrescenta: « et nos cedamus amori — rendamo-nos também nós ao amor ». [2] Nas religiões, esta posição traduziu-se nos cultos da fertilidade, aos quais pertence a prostituição « sagrada » que prosperava em muitos templos. O eros foi, pois, celebrado como força divina, como comunhão com o Divino.

A esta forma de religião, que contrasta como uma fortíssima tentação com a fé no único Deus, o Antigo Testamento opôs-se com a maior firmeza, combatendo-a como perversão da religiosidade. Ao fazê-lo, porém, não rejeitou de modo algum o eros enquanto tal, mas declarou guerra à sua subversão devastadora, porque a falsa divinização do eros, como aí se verifica, priva-o da sua dignidade, desumaniza-o. De fato, no templo, as prostitutas, que devem dar o inebriamento do Divino, não são tratadas como seres humanos e pessoas, mas servem apenas como instrumentos para suscitar a « loucura divina »: na realidade, não são deusas, mas pessoas humanas de quem se abusa. Por isso, o eros inebriante e descontrolado não é subida, « êxtase » até ao Divino, mas queda, degradação do homem. Fica assim claro que o eros necessita de disciplina, de purificação, para dar ao homem, não o prazer de um instante, mas uma certa amostra do vértice da existência, daquela beatitude para que tende todo o nosso ser.

Como deve ser vivido o amor, para que se realize plenamente a sua promessa humana e divina?

Uma primeira indicação importante, podemos encontrá-la no Cântico dos Cânticos, um dos livros do Antigo Testamento bem conhecido dos místicos. Segundo a interpretação hoje predominante, as poesias contidas neste livro são originalmente cânticos de amor, talvez previstos para uma festa israelita de núpcias, na qual deviam exaltar o amor conjugal. Neste contexto, é muito elucidativo o fato de, ao longo do livro, se encontrarem duas palavras distintas para designar o « amor ». Primeiro, aparece a palavra « dodim », um plural que exprime o amor ainda inseguro, numa situação de procura indeterminada. Depois, esta palavra é substituída por « ahabà », que, na versão grega do Antigo Testamento, é traduzida pelo termo de som semelhante « agape », que se tornou o termo característico para a concepção bíblica do amor. Em contraposição ao amor indeterminado e ainda em fase de procura, este vocábulo exprime a experiência do amor que agora se torna verdadeiramente descoberta do outro, superando assim o caráter egoísta que antes claramente prevalecia. Agora o amor torna-se cuidado do outro e pelo outro. Já não se busca a si próprio, não busca a imersão no inebriamento da felicidade; procura, ao invés, o bem do amado: torna-se renúncia, está disposto ao sacrifício, antes procura-o.

Sua promessa visa o definitivo, o amor visa a eternidade. Sim, o amor é « êxtase »; êxtase, não no sentido de um instante de inebriamento, mas como caminho, como êxodo permanente do eu fechado em si mesmo para a sua libertação no dom de si e, precisamente dessa forma, para o reencontro de si mesmo, mais ainda para a descoberta de Deus: « Quem procurar salvaguardar a vida, perdê-la-á, e quem a perder, conservá-la-á » (Lc 17, 33) — disse Jesus; afirmação esta que se encontra nos Evangelhos com diversas variantes (cf. Mt 10, 39; 16, 25; Mc 8, 35; Lc 9, 24; Jo 12, 25). Assim descreve Jesus o seu caminho pessoal, que O conduz, através da cruz, à ressurreição: o caminho do grão de trigo que cai na terra e morre e assim dá muito fruto. Partindo do centro do seu sacrifício pessoal e do amor que aí alcança a sua plenitude, Ele, com tais palavras, descreve também a essência do amor e da existência humana em geral.

Cada vez menos perguntas sobre si próprio; procurará sempre mais a felicidade do outro

Embora o eros seja inicialmente sobretudo ambicioso, ascendente — fascinação pela grande promessa de felicidade — depois, à medida que se aproxima do outro, far-se-á cada vez menos perguntas sobre si próprio, procurará sempre mais a felicidade do outro, preocupar-se-á cada vez mais dele, doar-se-á e desejará « existir para » o outro. Assim se insere nele o momento da agape; caso contrário, o eros decai e perde mesmo a sua própria natureza. Por outro lado, o homem também não pode viver exclusivamente no amor oblativo, descendente. Não pode limitar-se sempre a dar, deve também receber. Quem quer dar amor, deve ele mesmo recebê-lo em dom. Certamente, o homem pode — como nos diz o Senhor — tornar-se uma fonte donde correm rios de água viva (cf. Jo 7, 37-38); mas, para se tornar semelhante fonte, deve ele mesmo beber incessantemente da fonte primeira e originária que é Jesus Cristo, de cujo coração trespassado brota o amor de Deus (cf. Jo 19, 34).

No fundo, o « amor » é uma única realidade, embora com distintas dimensões; caso a caso, pode uma ou outra dimensão sobressair mais. Mas, quando as duas dimensões se separam completamente uma da outra, surge uma caricatura ou, de qualquer modo, uma forma redutiva do amor. A fé bíblica não constrói um mundo paralelo ou um mundo contraposto àquele fenômeno humano originário que é o amor, mas aceita o homem por inteiro, intervindo na sua busca de amor para purificá-la, desvendando-lhe ao mesmo tempo novas dimensões.

Fonte: Carta Encíclica Deus Caritas Est, do Papa Bento XVI, sobre o amor cristão (editado)
Para conferir o texto na íntegra, clique aqui.

Notas:
[1] Cf. Jenseits von Gut und Böse, IV, 168.
[2] X, 69.

bola-de-futebol-em-chamas

Antes da Copa do Mundo de 1986, foi publicado um texto do então cardeal Joseph Ratzinger, com o título: “Busquem as coisas do alto”. O texto foi escrito em resposta à seguinte pergunta: “Por que este esporte movimenta tanta gente assim?”. O jornal italiano tempo.it publicou a resposta de Bento XVI.

A cada quatro anos a Copa do Mundo se transforma num evento que fascina milhões de pessoas. Nenhum acontecimento na Terra pode ter um efeito vasto assim, o que demostra que esta manifestação esportiva toca qualquer elemento primordial da humanidade.

jogo vai além da vida do dia a dia. Mas, sobretudo nas crianças, tem a característica de exercício para a vida. Simboliza a própria vida e a antecipa a experiência, por assim dizer, de uma maneira de viver livremente estruturada.

Força o homem a se impor uma disciplina de modo a obter com treinamento o domínio de si. Com o domínio, a superioridade; e com a superioridade, a liberdade. Ensina sobretudo uma disciplinada harmônica: como jogo de equipe obriga à inclusão do indivíduo na equipe. Unir os jogadores com um objetivo comum; o sucesso e o insucesso de cada um está no sucesso e no insucesso de tudo.

Ensina também uma leal rivalidade, onde a regra comum permanece no elemento que liga e une na oposição. Enfim, a liberdade do jogo, se este se executa corretamente, anula a seriedade da rivalidade. Assistindo, os homens se identificam com o jogo e com os jogadores, e participam assim, pessoalmente da união e rivalidade, da serenidade e liberdade: os jogadores se tornam um símbolo da própria vida; o que repercute a sua volta sobre eles: esses sabem que os homens representam neles, eles mesmos, e se sentem confirmados. Naturalmente tudo pode ser inclinado a um espírito empresarial, sujeitando tudo à seriedade sombria do dinheiro, transformando o jogo em indústria, e criando um mundo fictício de dimensão assustadora. 

Mas nem mesmo este mundo fictício poderia existir sem o aspecto positivo que está na base do jogo: o exercício à vida e a superação da vida em direção ao Paraíso perdido. Em ambos os casos se trata porém de buscar uma disciplina de liberdade; para exercer com harmonia a rivalidade e o acordo em obediência à regra.

Talvez, refletindo sobre estas coisas, podemos novamente aprender dojogo a viver, porque em si mesmo é evidente uma coisa fundamental: o homem não vive somente de pão, o mundo do pão é somente o prelúdio da verdadeira humanidade, do mundo da liberdade. A liberdade se nutre porém da regra, da disciplina, que ensina a harmonia e a rivalidade leal, a independência do sucesso exterior e do arbítrio, e torna-se precisamente assim verdadeiramente livre. O jogo, uma vida. Se vamos mais fundo, o fenômeno de modo apaixonado pelo futebol pode nos dar mais do que um pouco de diversão. 

topo_fides
Apresentamos as palavras do Papa Bento XVI durante a catequese realizada na tradicional Audiência Geral na sala Paulo VI, no Vaticano. 21 de Novembro de 2012

***

Queridos irmãos e irmãs,

Continuamos avançando neste Ano da Fé carregando no coração a esperança de redescobrir a grande alegria que existe no ato de acreditar, bem como a esperança de reencontrar o entusiasmo para comunicar a todos as verdades da fé. Verdades que não são uma simples mensagem sobre Deus, uma informação a seu respeito. Verdades que expressam o evento do encontro de Deus com os homens, encontro salvífico e libertador, que realiza as aspirações mais profundas do homem, o seu anseio de paz, fraternidade e amor.

A fé nos leva a descobrir que o encontro com Deus melhora, aperfeiçoa e eleva o que há de verdadeiro, de bom e de belo no homem. Acontece, portanto, que, enquanto Deus se revela e se deixa conhecer, o homem vem a saber quem é Deus e, conhecendo-o, descobre a si mesmo, a sua origem, seu destino, a grandeza e a dignidade da vida humana.

A fé permite um conhecimento autêntico de Deus, que envolve toda a pessoa: é um saber no sentido latino de “sàpere” [degustar], um conhecimento que dá “sabor” à vida, um novo sabor de existir, uma maneira alegre de estar no mundo. A fé se exprime no dom de si mesmo aos outros, na fraternidade que nos torna solidários, capazes de amar, vencedores da solidão que nos deixa tristes.

Esse conhecimento de Deus através da fé não é, portanto, só intelectual, mas vital.

É o conhecimento do Deus-Amor, graças ao seu próprio amor. O amor de Deus nos mostra, nos abre os olhos, nos permite conhecer toda a realidade, indo além das perspectivas estreitas do individualismo e do subjetivismo, que desorientam as consciências. O conhecimento de Deus é uma experiência de fé, que implica, ao mesmo tempo, um caminho intelectual e moral: profundamente tocados pela presença do Espírito de Jesus em nós, superamos os horizontes do nosso egoísmo e nos abrimos para os verdadeiros valores da existência.

Hoje, nesta catequese, quero focar na razoabilidade da fé em Deus.

A tradição católica, desde o início, rejeitou o assim chamado fideísmo, que é a vontade de acreditar contra a razão. Credo quia absurdum (creio porque é absurdo) não é a fórmula que interpreta a fé católica. Deus não é um absurdo: em todo caso, é um mistério. O mistério, por sua vez, não é irracional: ele é um excesso de sentido, de significado, de verdade. Se, ao olhar para o mistério, a razão vê o escuro, não é porque não haja luz no mistério, mas sim porque há luz demais. Assim como, quando os olhos de um homem se dirigem diretamente para o sol, eles veem apenas escuridão. Mas quem diria que o sol não é brilhante? Quem diria que ele não é a fonte da luz? A fé nos permite olhar para o “sol”, Deus, porque é o acolhimento da sua revelação na história e, por assim dizer, recebe realmente todo o brilho do mistério de Deus, reconhecendo o grande milagre: Deus veio até o homem, se ofereceu ao seu conhecimento, condescendendo à limitação natural da razão humana (cf. Concílio Vaticano II, Constituição dogmática Dei Verbum, 13).

Ao mesmo tempo, com a sua graça, Deus ilumina a razão, lhe abre novos horizontes, imensuráveis e infinitos. A fé, por isto, é um forte incentivo para buscarmos sempre, para nunca pararmos nem nos acomodarmos na busca incansável da verdade e da realidade. É vão o preconceito de alguns pensadores modernos, que afirmam que a razão humana seria bloqueada pelos dogmas de fé. É exatamente o oposto, como os grandes mestres da tradição católica mostraram. Santo Agostinho, antes da sua conversão, procura pela verdade com grande inquietação, através de todas as filosofias disponíveis, achando todas insatisfatórias. Sua meticulosa procura racional é para ele uma pedagogia significativa para o encontro com a Verdade de Cristo. Quando ele diz “compreende para crer e crê para compreender” (Discurso 43, 9: PL 38, 258), é como se estivesse contando a sua própria experiência de vida. Intelecto e fé, diante da revelação divina, não são estranhos nem antagonistas; são, ambos, condições para compreendermos o seu significado, para recebermos a autêntica mensagem, aproximando-nos do limiar do mistério.

Santo Agostinho, junto com muitos outros autores cristãos, é testemunha de uma fé que se exercita com a razão, que pensa e convida a pensar. Neste caminho, Santo Anselmo dirá em seu Proslogion que a fé católica é fides quaerens intellectum, e que a busca da inteligência é um ato interior do acreditar. Será especialmente São Tomás de Aquino quem lidará com a razão dos filósofos, mostrando a força fecunda e nova da vitalidade racional que inunda o pensamento humano a partir dos princípios e das verdades da fé cristã.

A fé católica é razoável e tem confiança na razão humana. O concílio Vaticano I, na constituição dogmática Dei Filius, disse que a razão é capaz de conhecer com certeza a existência de Deus através da criação, e que apenas a fé tem a oportunidade de conhecer “facilmente, com certeza absoluta e sem erro “(DS 3005) as verdades sobre Deus, à luz da graça. O conhecimento da fé, ainda, não é contrário à razão. O beato papa João Paulo II, na encíclica Fides et ratio, resume: “A razão humana não é anulada nem humilhada quando presta assentimento aos conteúdos de fé, que são, em qualquer caso, alcançados por livre e consciente escolha” (número 43).

No irresistível desejo da verdade, só a relação harmoniosa entre a fé e a razão é o caminho certo que conduz a Deus e à realização de si mesmo.

Esta doutrina é facilmente reconhecível em todo o Novo Testamento. São Paulo, escrevendo aos coríntios, sustenta: “Enquanto os judeus pedem sinais e os gregos buscam a sabedoria, nós pregamos o Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios” (1 Cor 1,22-23 ).

Deus, de fato, salvou o mundo não por um ato de poder, mas através da humilhação do seu Filho único: de acordo com os padrões humanos, o modo incomum escolhido por Deus contradiz as exigências da sabedoria grega. No entanto, a cruz de Cristo tem sua razão, que São Paulo chama de logos tou staurou, a palavra da cruz (1 Co 1,18). Aqui, o termo logos indica tanto a palavra quanto a razão, e, se alude à palavra, é porque expressa verbalmente processos que a razão elabora. Paulo, assim, vê na cruz não um evento irracional, mas um fato da salvação, que tem uma racionalidade própria, reconhecível à luz da fé. Ao mesmo tempo, ele tem tanta confiança na razão humana que se maravilha de que muitos, mesmo vendo as obras realizadas por Deus, se obstinem em não acreditar nele. Diz ele em sua carta aos romanos: “Os atributos invisíveis [de Deus], ​​ou seja, o seu eterno poder e a sua natureza divina, são contemplados e compreendidos na criação do mundo através das obras das suas mãos” (1,20).

Também São Pedro exorta os cristãos da diáspora para adorarem “o Cristo Senhor em vossos corações, sempre prontos a responder a todo aquele que vos pedir razões da esperança que habita em vós” (1 Pe 3,15). Em um clima de perseguição e de forte necessidade de testemunhar a fé, os crentes são convidados a justificar a sua adesão à palavra do evangelho, a dar razão da sua esperança.

É nesse terreno, de ligação frutuosa entre o compreender e o acreditar, que está enraizada ainda a relação virtuosa entre ciência e fé. A pesquisa científica leva ao conhecimento de verdades sempre novas sobre o homem e sobre o cosmos, conforme sabemos. O verdadeiro bem da humanidade, que é acessível pela fé, abre o horizonte para a sua jornada de descoberta.Devem ser incentivadas, portanto, as pesquisas a serviço da vida, que visam erradicar a doença. Também são importantes as investigações sobre os segredos do nosso planeta e do universo, na consciência de que o homem é a coroa da criação, não com o fim de explorá-la insensatamente, mas de preservá-la e torná-la habitável.

Assim, vivida na verdade, a fé não entra em conflito com a ciência, mas coopera com ela, oferecendo critérios básicos para que ela promova o bem de todos, e lhe pede renunciar apenas às tentativas que, em oposição ao plano original de Deus, podem produzir efeitos que se voltam contra o próprio homem. Por isso mesmo, é razoável acreditar: se a ciência é uma aliada valiosa para a compreensão do plano de Deus no universo, a fé permite que o progresso científico aconteça sempre em prol do bem e da verdade do homem, permanecendo fiel a esse mesmo plano.

É por isso que é crucial para as pessoas abrir-se à fé e conhecer a Deus e o seu plano de salvaçãoem Jesus Cristo. O evangelho inaugura um novo humanismo, uma autêntica “gramática” do homem e de toda a realidade. O Catecismo da Igreja Católica afirma: “A verdade de Deus e a sua sabedoria sustentam a ordem da criação e do governo do mundo. Deus, o único que “fez o céu e a terra” (Sl 115,15), pode dar, somente ele, o verdadeiro conhecimento de cada coisa criada na relação com ele” (número 216).

Esperamos, portanto, que o nosso compromisso na evangelização ajude a dar nova centralidade ao evangelho na vida de muitos homens e mulheres do nosso tempo. E oramos para que todos reencontrem em Cristo o sentido da vida e o fundamento da verdadeira liberdade: sem Deus, o homem se perde. Os testemunhos daqueles que vieram antes de nós e que dedicaram a vida ao evangelho o confirma para sempre. É razoável acreditar, pois o que está em jogo é a nossa existência. Vale a pena nos desgastarmos por Cristo. Só ele satisfaz os desejos de verdade e de bem enraizados na alma de cada homem: agora, no tempo que passa, e no dia sem fim da eternidade bem-aventurada.

Papa Bento 16 pintadinho de gay

Um panfleto publicitário no qual aparece uma imagem retocada do papa emérito Bento XVI com maquiagem para promover um festival cinematográfico sobre homossexualidade e religião organizado na Universidade de Milão por uma associação de estudantes causou várias críticas no país.

Na imagem é possível ver o rosto de Joseph Ratzinger com os olhos pintados com sombra verde, supercílios falsos e batom, graças a um retoque por computador.

O panfleto foi criticado nas páginas do jornal  “Il Giornale”, que considera a iniciativa “blasfema e uma ofensa para toda a comunidade católica”.

O conselheiro do partido Forza Itália na prefeitura de Milão, Matteo Forte, em declarações recolhidas por “Corriere della Sera”, destaca que se trata de “um menosprezo à autoridade religiosa”.

A resposta dos organizadores não demorou e estes afirmaram que “o verdadeiro problema não é a provocação, mas a homofobia”.

A professora Laura Boella, catedrática de Filosofia Moral na Universidade de Milão, manifestou, por sua parte, que “a escolha dos estudantes” na elaboração do panfleto “deve ser contextualizada” e aplaudiu que tenham organizado um evento sobre um assunto importante como a homofobia.

No entanto, considerou que “sempre é preciso levar em conta que efeito podem ter nossas decisões sobre aqueles que se encontram em uma posição oposta à nossa”.

Por sua vez, o jurista da Universidade Católica de Milão, Andrea Nicolussi, afirmou que não se sentiu “escandalizado” pela foto, mas declarou que a imagem representa “uma provocação paradoxal, já que quem combate a discriminação está, por sua vez, discriminando”.

“Como católico me surpreendeu o fato de que o papa emérito, como ser humano, foi tratado mal. É uma pessoa idosa que escolheu retirar-se da vida pública e sua vontade foi violada”, considerou.

georg_gaenswein_0403

Ele faz um trabalho sem precedentes: ocupar-se de dois papas ao mesmo tempo, Francisco e Joseph Ratzinger, não é algo que acontece todos os dias. Dom Georg Ganswein, ex-secretário particular de Bento XVI e agora prefeito da Casa Pontifícia, é o homem-ponte, a memória histórica dos dias da renúncia, a conexão entre o velho e o novo.

Sobre a batina preta, “Don Giorgio”, como o chamam na Cúria, veste uma cruz simples de prata (“é a do Ano da Fé com o brasão de Bento XVI atrás”), em conformidade com o imperativo que abriu caminho do outro lado do Tibre, sob a insígnia da sobriedade.

Eis a entrevista.

É muito complicado trabalhar para dois papas?

Digamos que é um belo desafio, independentemente da quantidade de coisas para se fazer. De vez em quando eu gostaria de pedir conselhos ao meu antecessor, mas não é possível, porque ninguém antes de mim teve essa dupla tarefa. No entanto, com o bom senso, eu faço o meu melhor. Coloco em prática as palavras do Papa Francisco: nunca se fechar em si mesmo e não ter medo. Por isso, todos os dias eu percorro um caminho sereno. Antes, a atenção era toda para Bento XVI, agora obviamente é para Francisco. Mas, no fim, o serviço é feito para o Senhor e para a Igreja. 

No Vaticano, não há o risco de ter um papa e um antipapa?

Nem um pouco. Há um papa reinante e um papa emérito. Quem conhece Bento XVI sabe que esse perigo não existe. Ele nunca se intrometeu e não se intromete no governo da Igreja, não faz parte do seu estilo. O teólogo Ratzinger, além disso, sabe que cada palavra pública sua poderia atrair a atenção, e qualquer coisa que ele dissesse seria lida ou a favor ou contra o seu sucessor. Portanto, publicamente, ele não intervirá. Entre ele e Francisco há uma relação de sincera estima e de afeto fraterno.

Como vive Ratzinger  no convento na colina vaticana?

Ele está bem, reza, lê, ouve música, dedica-se à correspondência, que é muita, e também há visitas. Todos os dias, fazemos um passeio juntos pelo pequeno bosque atrás do mosteiro, rezando o rosário. O dia é bem programado.

A sua renúncia foi uma surpresa para o senhor?

Não totalmente. Eu conhecia há muito tempo a sua decisão, mas nunca falei disso com ninguém. O momento do anúncio, no dia 11 de fevereiro, permanece indelével. Depois do dia 28 de fevereiro, começaram dias difíceis quando partimos do Vaticano. Eu nunca vou me esquecer de quando desliguei as luzes do apartamento pontifício com lágrimas nos olhos. Depois, a corrida de carro até o heliporto, o voo a Castel Gandolfo, a chegada, a última saudação de Bento XVI na sacada. Finalmente, o fechamento do portão do palácio. Todo o mês de março foi duro, até porque ninguém sabia quem seria eleito no conclave. Felizmente, com o novo papa, criou-se imediatamente uma relação humana de afeto e de estima, embora Bento XVI e Francisco sejam pessoas com estilos e personalidades diferentes. Alguns quiseram interpretar tais diferenças de modo antitético. Mas não é assim.

Em que consiste a Igreja pobre de Francisco?

Estou tentando entender cada vez mais o que significa. Uma coisa me parece clara: a expressão “Igreja pobre” tornou-se um fio condutor no ministério petrino do Papa Bergoglio. Mas, em primeiro lugar, não é uma expressão sociológica, mas sim teológica. No centro está o Cristo pobre, e a partir daí tudo segue. Sem dúvida, isso toca o estilo de vida de cada cristão, requer uma atenção particular aos sofredores, aos doentes e aos pobres em sentido estrito. Se olharmos ao passado, perceberemos que o Papa Francisco está realizando em Roma aquilo ele havia feito anteriormente em Buenos Aires. Não mudou a sua linha nem o seu estilo. No máximo, o ponto é outro.

Qual?

Que, com o seu exemplo, ele oferece a todos um precioso testemunho. O exemplo pessoal é um método pastoral.

E a “revolução” em curso?

Falar de revolução me parece um slogan fácil que alguns meios de comunicação utilizam de bom grado. Certamente, alguns gestos e iniciativas do Papa Francisco surpreenderam e ainda surpreendem. Mas é normal que uma mudança de pontificado traga consigo mudanças em diversos níveis. O novo pontífice, necessariamente, deve montar uma equipe com pessoas da sua confiança. Mas isso não é uma revolução, é simplesmente um ato de governo e de responsabilidade.

Enquanto isso, os oito cardeais estão estudando as reformas…

Certamente, a instituição desse grupo foi uma grande surpresa, uma de muitas. Mas, na verdade, isso faz parte das tarefas próprias dos cardeais que são os primeiros conselheiros do pontífice. Os cardeais se encontraram uma primeira vez no início deste mês, e outros encontros seguirão. Eu acho que é exagerado querer prever já agora resultados definitivos. Isso leva tempo. Antes do resultado, há a fase da reflexão, da discussão, do aprofundamento. Confesso que estou curioso para ver o que vai vir à tona.

A racionalização também incluirá cortes de pessoal?

Talvez devêssemos esclarecer os termos. O que se entende quando se fala de racionalização? É óbvio que a Santa Sé tem responsabilidade para com todos aqueles que trabalham nos diversos dicastérios. Racionalizar é uma palavra que requer uma explicação, caso contrário permanece sem sentido. Eu acrescento que, se compararmos, por exemplo, os nossos membros orgânicos aos das dioceses alemãs, estes últimos são menos expressivos.

A reportagem é de Franca Giansoldati, publicada no jornal Il Messaggero

1040054_10151839079529789_949383617_o

 “Cada um dos três últimos Papas teve uma ênfase diferente, mas complementar, destacando diferentes aspectos dos fiéis e da Igreja”, assinalou o Arcebispo de Nova Iorque e Presidente da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, Cardeal Timothy Dolan.

Uma boa maneira de entender os diferentes dons de cada um destes últimos pontífices poderia ser o uso das imagens: alma, mente e coração”, escreveu o Cardeal em uma recente coluna de opinião publicada pelo New York Post.

Os três Papas mais recentes –o Beato João Paulo II que será canonizado em abril de 2014, Bento XVI e o Papa Francisco– “são todos gigantes”, expressou o Cardeal Dolan, e cada um “tem talentos particulares.”

“João Paulo II se enfocava na alma”, indicou. “Seus eloquentes chamados à oração; o seu acento na renovação do espírito, a importância que deu aos sacramentos e devoções da Igreja que trazem a graça e a misericórdia de Jesus, a sua terna confiança na Virgem Maria, a mãe de Jesus, e seu recorde nos processos de canonização, recorda-nos de maneira convincente que a alma é o primeiro.”

“No Papa Bento XVI temos um sucessor de São Pedro, que se enfocava na mente”, continuou o Cardeal Dolan, assinalando que o Bispo Emérito de Roma ajudou a “renovar o vasto patrimônio intelectual da Igreja, e a recordar-nos que a fé e a razão não se opõem, mas, de fato, são aliadas”.

“E agora o Papa Francisco põe ênfase no coração”, escreve o Cardeal. “A calidez, a misericórdia, a alegria, a ternura, a difusão, aceitação e o amor”, são um distintivo de Francisco que usa estas palavras que “vêm do coração, e são muito utilizadas” por ele.

“Não me interpretem mal: Os três sabiam muito bem que a alma, a mente e o coração são todos essenciais”, explicou o Cardeal Dolan, “Mas cada um tinha o seu favorito em particular”.

O Arcebispo de Nova Iorque precisou logo que “Deus nos deu o Papa que necessitávamos para cada época específica”.

“Toda pessoa precisa da alma, da mente e do coração, como os necessita a Mãe Igreja e como cada um de nós precisamos”.

Há o risco de que a nova encíclica seja mais recordada pela curiosidade de ter sido escrita a quatro mãos do que por ressaltar que a construção cristã se alicerça na fé

Por Rafael Navarro-Valls

Há encíclicas que se tornaram especialmente “famosas” pelo seu conteúdo. Por exemplo, a Rerum Novarum (1891), que iniciou uma verdadeira revolução na doutrina social da Igreja, e a Humanae Vitae (1968), que ratificou a não licitude da contraconcepção mediante métodos artificiais.

Outras passarão à história pelo caráter inédito da sua gênese. É o caso da Lumen Fidei, que acaba de ser apresentada em Roma. O texto escrito “a quatro mãos” (aceno de Francisco à paixão do cardeal Ratzinger pela música) tem de inédito o fato de que os seus dois protagonistas vivem: um papa emérito e outro reinante.

Não seria um caso sem precedentes caso Bento XVI já tivesse falecido. A primeira encíclica do próprio Ratzinger (Deus caritas est) utiliza material inédito do falecido João Paulo II. A novidade, portanto, não é que apareçam outros papas citados nas notas, como fonte, mas que apareçam dois como co-autores.

É o que expressamente afirma Francisco no começo da encíclica: que Bento XVI “já tinha completado praticamente uma primeira redação desta carta encíclica sobre a fé. A ele agradeço de coração e, na fraternidade de Cristo, assumo o seu precioso trabalho, acrescentando ao texto algumas contribuições”.

É curioso que o primeiro anúncio desta encíclica sobre a fé tenha sido feito em pleno escândalo Vatileaks, um ano atrás, em agosto de 2012.

O texto seria uma análise sobre  a virtude teologal que faltava no grupo da esperança (encíclica Spe Salvi) e da caridade (encíclica Caritas in veritate ): ou seja, a fé. Muitas águas já rolaram sob as pontes do Rio Tibre desde então.

A renúncia de Bento XVI fazia pensar que a carta seria publicada como um trabalho privado do próprio papa emérito. Porém, praticamente coincidindo com a viagem de Francisco à ilha de Lampedusa, veio à luz a encíclica revisada por ele, mas escrita por Bento. Há quem compare esta parceria com o gesto nobre de Neymar no terceiro gol brasileiro em cima da Espanha, na recente final da Copa das Confederações, ao deixar a bola passar para que seu companheiro Fred concretizasse a jogada que outros jogadores tinham começado.

Deste modo, e empregando os termos de Piero Schiavazzi, “dois faróis se acenderam na Itália: o primeiro, uma luz sobre a fé, junto ao Tibre; e o outro, em favor dos pobres do mar, nas praias da ilha de Lampedusa. Ambos foram acesos pelo papa Francisco”. Todo um símbolo.

Se no século XX todos os recordes em matéria de encíclicas foram batidos por Pio XI, que escreveu nada menos que 41, Francisco acaba de bater o recorde de papa que publica uma encíclica em menos tempo após a eleição: quatro meses. Ainda mais veloz que João Paulo II, que aos cinco meses de pontificado escreveu sua programática Redemptor hominis.

Aliás, a Lumen Fidei também é programática? Sim e não. Sim, porque, desde que foi eleito, o papa Bergoglio vem insistindo na centralidade da fé para qualquer atuação verdadeiramente cristã. Não, porque, para Francisco, o programático do seu pontificado provavelmente seja o que está escrito na última parte da encíclica, aquela que parece ter sido elaborada pelo próprio Francisco, e que diz: “A luz da fé não nos leva a esquecer dos sofrimentos do mundo. Quantos homens e mulheres de fé receberam a luz das pessoas que sofrem! São Francisco de Assis, do leproso; a beata Madre Teresa de Calcutá, dos seus pobres”.

Esta encíclica corre um perigo: o de passar à história mais pela sua gênese peculiar do que pelo conteúdo excepcional; o risco de ser lembrada mais como “aquela que foi escrita a quatro mãos” do que aquela que reconduziu cinquenta anos do concílio Vaticano II à ênfase nos alicerces de toda construção cristã: a fé.

Talvez, por isso, no ato de apresentação, insistiu-se naquilo que a própria encíclica proclama: que o Vaticano II foi, antes de qualquer outra coisa, “um concílio sobre a fé”.


VISITA AO PARLAMENTO FEDERAL DA ALEMANHA

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI

Palácio Reichstag de Berlim
Quinta-feira, 22 de Setembro de 2011

Ilustre Senhor Presidente Federal!
Senhor Presidente do
Bundestag!
Senhora Chanceler Federal!
Senhor Presidente do
Bundesrat!
Senhoras e Senhores Deputados!

Constitui para mim uma honra e uma alegria falar diante desta Câmara Alta, diante do Parlamento da minha Pátria alemã, que se reúne aqui em representação do povo, eleita democraticamente para trabalhar pelo bem da República Federal da Alemanha. Quero agradecer ao Senhor Presidente do Bundestag o convite que me fez para pronunciar este discurso, e também as amáveis palavras de boas-vindas e de apreço com que me acolheu. Neste momento, dirijo-me a vós, prezados Senhores e Senhoras, certamente também como concidadão que se sente ligado por toda a vida às suas origens e acompanha solidariamente as vicissitudes da Pátria alemã. Mas o convite para pronunciar este discurso foi-me dirigido a mim como Papa, como Bispo de Roma, que carrega a responsabilidade suprema da Igreja Católica. Deste modo, vós reconheceis o papel que compete à Santa Sé como parceira no seio da Comunidade dos Povos e dos Estados. Na base desta minha responsabilidade internacional, quero propor-vos algumas considerações sobre os fundamentos do Estado liberal de direito.

Seja-me permitido começar as minhas reflexões sobre os fundamentos do direito com uma pequena narrativa tirada da Sagrada Escritura. Conta-se, no Primeiro Livro dos Reis, que Deus concedeu ao jovem rei Salomão fazer um pedido por ocasião da sua entronização. Que irá pedir o jovem soberano neste momento tão importante: sucesso, riqueza, uma vida longa, a eliminação dos inimigos? Não pede nada disso; mas sim: «Concede ao teu servo um coração dócil, para saber administrar a justiça ao teu povo e discernir o bem do mal» (1 Re 3, 9). Com esta narração, a Bíblia quer indicar-nos o que deve, em última análise, ser importante para um político. O seu critério último e a motivação para o seu trabalho como político não devem ser o sucesso e menos ainda o lucro material. A política deve ser um compromisso em prol da justiça e, assim, criar as condições de fundo para a paz. Naturalmente um político procurará o sucesso, sem o qual não poderia jamais ter a possibilidade de uma ação política efetiva; mas o sucesso há-de estar subordinado ao critério da justiça, à vontade de atuar o direito e à inteligência do direito. É que o sucesso pode tornar-se também um aliciamento, abrindo assim a estrada à falsificação do direito, à destruição da justiça. «Se se põe de parte o direito, em que se distingue então o Estado de uma grande banda de salteadores?» – sentenciou uma vez Santo Agostinho (De civitate Dei IV, 4, 1).

Nós, alemães, sabemos pela nossa experiência que estas palavras não são um fútil espantalho. Experimentamos a separação entre o poder e o direito, o poder colocar-se contra o direito, o seu espezinhar o direito, de tal modo que o Estado se tornara o instrumento para a destruição do direito: tornara-se uma banda de salteadores muito bem organizada, que podia ameaçar o mundo inteiro e impeli-lo até à beira do precipício. Servir o direito e combater o domínio da injustiça é e permanece a tarefa fundamental do político. Num momento histórico em que o homem adquiriu um poder até agora impensável, esta tarefa torna-se particularmente urgente. O homem é capaz de destruir o mundo. Pode manipular-se a si mesmo. Pode, por assim dizer, criar seres humanos e excluir outros seres humanos de serem homens. Como reconhecemos o que é justo? Como podemos distinguir entre o bem e o mal, entre o verdadeiro direito e o direito apenas aparente? O pedido de Salomão permanece a questão decisiva perante a qual se encontram também hoje o homem político e a política.

Grande parte da matéria que se deve regular juridicamente, pode ter por critério suficiente o da maioria. Mas é evidente que, nas questões fundamentais do direito em que está em jogo a dignidade do homem e da humanidade, o princípio maioritário não basta: no processo de formação do direito, cada pessoa que tem responsabilidade deve ela mesma procurar os critérios da própria orientação.

No século III, o grande teólogo Orígenes justificou assim a resistência dos cristãos a certos ordenamentos jurídicos em vigor: «Se alguém se encontrasse no povo de Scizia que tem leis irreligiosas e fosse obrigado a viver no meio deles, (…) estes agiriam, sem dúvida, de modo muito razoável se, em nome da lei da verdade que precisamente no povo da Scizia é ilegalidade, formassem juntamente com outros, que tenham a mesma opinião, associações mesmo contra o ordenamento em vigor» [Contra Celsum GCS Orig. 428 (Koetschau); cf. A. Fürst, «Monotheismus und Monarchie. Zum Zusammenhang von Heil und Herrschaft in der Antike», inTheol.Phil. 81 (2006) 321-338; a citação está na página 336; cf. também J. Ratzinger, Die Einheit der Nationem, Eine Vision der Kirchenväter (Salzburg-München 1971) 60].

Com base nesta convicção, os combatentes da resistência agiram contra o regime nazista e contra outros regimes totalitários, prestando assim um serviço ao direito e à humanidade inteira. Para estas pessoas era evidente de modo incontestável que, na realidade, o direito vigente era injustiça. Mas, nas decisões de um político democrático, a pergunta sobre o que corresponda agora à lei da verdade, o que seja verdadeiramente justo e possa tornar-se lei não é igualmente evidente. Hoje, de fato, não é de per si evidente aquilo que seja justo e possa tornar-se direito vigente relativamente às questões antropológicas fundamentais. À questão de saber como se possa reconhecer aquilo que verdadeiramente é justo e, deste modo, servir a justiça na legislação, nunca foi fácil encontrar resposta e hoje, na abundância dos nossos conhecimentos e das nossas capacidades, uma tal questão tornou-se ainda muito mais difícil.

Como se reconhece o que é justo? Na história, os ordenamentos jurídicos foram quase sempre religiosamente motivados: com base numa referência à Divindade, decide-se aquilo que é justo entre os homens. Ao contrário doutras grandes religiões, o cristianismo nunca impôs ao Estado e à sociedade um direito revelado, nunca impôs um ordenamento jurídico derivado duma revelação. Mas apelou para a natureza e a razão como verdadeiras fontes do direito; apelou para a harmonia entre razão objetiva e subjetiva, mas uma harmonia que pressupõe serem as duas esferas fundadas na Razão criadora de Deus. Deste modo, os teólogos cristãos associaram-se a um movimento filosófico e jurídico que estava formado já desde o século II (a.C.). De facto, na primeira metade do século II pré-cristão, deu-se um encontro entre o direito natural social, desenvolvido pelos filósofos estóicos, e autorizados mestres do direito romano [cf. W. Waldstein,Ins Herz geschrieben. Das Naturrecht als Fundament einer menschlichen Gesellschaft(Augsburg 2010) 11ss; 31-61]. Neste contacto nasceu a cultura jurídica ocidental, que foi, e é ainda agora, de importância decisiva para a cultura jurídica da humanidade. Desta ligação pré-cristã entre direito e filosofia parte o caminho que leva, através da Idade Média cristã, ao desenvolvimento jurídico do Iluminismo até à Declaração dos Direitos Humanos e depois à nossa Lei Fundamental alemã, pela qual o nosso povo reconheceu, em 1949, «os direitos invioláveis e inalienáveis do homem como fundamento de toda a comunidade humana, da paz e da justiça no mundo».

Foi decisivo para o desenvolvimento do direito e o progresso da humanidade que os teólogos cristãos tivessem tomado posição contra o direito religioso, requerido pela fé nas divindades, e se tivessem colocado da parte da filosofia, reconhecendo como fonte jurídica válida para todos a razão e a natureza na sua correlação. Esta opção realizara-a já São Paulo, quando afirma na Carta aos Romanos: «Quando os gentios que não têm a Lei [a Torah de Israel], por natureza agem segundo a Lei, eles (…) são lei para si próprios. Esses mostram que o que a Lei manda praticar está escrito nos seus corações, como resulta do testemunho da sua consciência» (Rm 2, 14-15). Aqui aparecem os dois conceitos fundamentais de natureza e de consciência, sendo aqui a «consciência» o mesmo que o «coração dócil» de Salomão,  a razão aberta à linguagem do ser.

Deste modo se até à época do Iluminismo, da Declaração dos Direitos Humanos depois da II Guerra Mundial e até à formação da nossa Lei Fundamental, a questão acerca dos fundamentos da legislação parecia esclarecida, no último meio século verificou-se uma dramática mudança da situação. Hoje considera-se a ideia do direito natural uma doutrina católica bastante singular, sobre a qual não valeria a pena discutir fora do âmbito católico, de tal modo que quase se tem vergonha mesmo só de mencionar o termo. Queria brevemente indicar como se veio a criar esta situação. Antes de mais nada é fundamental a tese segundo a qual haveria entre o ser e o dever ser um abismo intransponível: do ser não poderia derivar um dever, porque se trataria de dois âmbitos absolutamente diversos. A base de tal opinião é a concepção positivista, quase geralmente adotada hoje, de natureza. Se se considera a natureza – no dizer de Hans Kelsen – «um agregado de dados objetivos, unidos uns aos outros como causas e efeitos», então realmente dela não pode derivar qualquer indicação que seja de algum modo de carácter ético (Waldstein, op. cit., 15-21). Uma concepção positivista de natureza, que compreende a natureza de modo puramente funcional, tal como a conhecem as ciências naturais, não pode criar qualquer ponte para a ética e o direito, mas suscitar de novo respostas apenas funcionais. Entretanto o mesmo vale para a razão numa visão positivista, que é considerada por muitos como a única visão científica. Segundo ela, o que não é verificável ou falsificável  não entra no âmbito da razão em sentido estrito. Por isso, a ética e a religião devem ser atribuídas ao âmbito subjetivo, caindo fora do âmbito da razão no sentido estrito do termo. Onde vigora o domínio exclusivo da razão positivista – e tal é, em grande parte, o caso da nossa consciência pública –, as fontes clássicas de conhecimento da ética e do direito são postas fora de jogo. Esta é uma situação dramática que interessa a todos e sobre a qual é necessário um debate público; convidar urgentemente para ele é uma intenção essencial deste discurso.

O conceito positivista de natureza e de razão, a visão positivista do mundo é, no seu conjunto, uma parcela grandiosa do conhecimento humano e da capacidade humana, à qual não devemos de modo algum renunciar. Mas ela mesma no seu conjunto não é uma cultura que corresponda e seja suficiente ao ser humano em toda a sua amplitude. Onde a razão positivista se considera como a única cultura suficiente, relegando todas as outras realidades culturais para o estado de subculturas, aquela diminui o homem, antes, ameaça a sua humanidade. Digo isto pensando precisamente na Europa, onde vastos ambientes procuram reconhecer apenas o positivismo como cultura comum e como fundamento comum para a formação do direito, reduzindo todas as outras convicções e os outros valores da nossa cultura ao estado de uma subcultura. Assim coloca-se a Europa, face às outras culturas do mundo, numa condição de falta de cultura e suscitam-se, ao mesmo tempo, correntes extremistas e radicais.

A razão positivista, que se apresenta de modo exclusivista e não é capaz de perceber algo para além do que é funcional, assemelha-se aos edifícios de cimento armado sem janelas, nos quais nos damos o clima e a luz por nós mesmos e já não queremos receber estes dois elementos do amplo mundo de Deus. E no entanto não podemos iludir-nos, pois em tal mundo autoconstruído bebemos em segredo e igualmente nos “recursos” de Deus, que transformamos em produtos nossos. É preciso tornar a abrir as janelas, devemos olhar de novo a vastidão do mundo, o céu e a terra e aprender a usar tudo isto de modo justo.

Mas, como fazê-lo? Como encontramos a entrada justa na vastidão, no conjunto? Como pode a razão reencontrar a sua grandeza sem escorregar no irracional? Como pode a natureza aparecer novamente na sua verdadeira profundidade, nas suas exigências e com as suas indicações? Chamo à memória um processo da história política recente, esperando não ser mal entendido nem suscitar demasiadas polémicas unilaterais. Diria que o aparecimento do movimento ecológico na política alemã a partir dos Anos Setenta, apesar de não ter talvez aberto janelas, todavia foi, e continua a ser, um grito que anela por ar fresco, um grito que não se pode ignorar nem acantonar, porque se vislumbra nele muita irracionalidade. Pessoas jovens deram-se conta de que, nas nossas relações com a natureza, há algo que não está bem; que a matéria não é apenas uma material para nossa feitura, mas a própria terra traz em si a sua dignidade e devemos seguir as suas indicações. É claro que aqui não faço propaganda por um determinado partido político; nada me seria mais alheio do que isso. Quando na nossa relação com a realidade há qualquer coisa que não funciona, então devemos todos refletir seriamente sobre o conjunto e todos somos reenviados à questão acerca dos fundamentos da nossa própria cultura. Seja-me permitido deter-me um momento mais neste ponto. A importância da ecologia é agora indiscutível. Devemos ouvir a linguagem da natureza e responder-lhe coerentemente. Mas quero insistir num ponto que – a meu ver –, hoje como ontem, é descurado: existe também uma ecologia do homem. Também o homem possui uma natureza, que deve respeitar e não pode manipular como lhe apetece. O homem não é apenas uma liberdade que se cria por si própria. O homem não se cria a si mesmo. Ele é espírito e vontade, mas é também natureza, e a sua vontade é justa quando respeita a natureza e a escuta e quando se aceita a si mesmo por aquilo que é e que não se criou por si mesmo. Assim mesmo, e só assim, é que se realiza a verdadeira liberdade humana.

Voltemos aos conceitos fundamentais de natureza e razão, donde partíramos. O grande teórico do positivismo jurídico, Kelsen, em 1965 – com a idade de 84 anos (consola-me o facto de ver que, aos 84 anos, ainda se é capaz de pensar algo de razoável) –, abandonou o dualismo entre ser e dever ser. Antes, ele tinha dito que as normas só podem derivar da vontade. Consequentemente – acrescenta ele – a natureza só poderia conter em si mesma normas, se uma vontade tivesse colocado nela estas normas. Mas isto – diz ele – pressuporia um Deus criador, cuja vontade se inseriu na natureza. «Discutir sobre a verdade desta fé é absolutamente vão» – observa ele a tal propósito (citado segundo Waldstein, op.cit., 19). Mas sê-lo-á verdadeiramente? – apetece-me perguntar. É verdadeiramente desprovido de sentido refletir se a razão objectiva que se manifesta na natureza não pressuponha uma Razão criadora, um Creator Spiritus?

Aqui deveria vir em nossa ajuda o património cultural da Europa. Foi na base da convicção sobre a existência de um Deus criador que se desenvolveram a ideia dos direitos humanos, a ideia da igualdade de todos os homens perante a lei, o conhecimento da inviolabilidade da dignidade humana em cada pessoa e a consciência da responsabilidade dos homens pelo seu agir. Estes conhecimentos da razão constituem a nossa memória cultural. Ignorá-la ou considerá-la como mero passado seria uma amputação da nossa cultura no seu todo e privá-la-ia da sua integralidade.

A cultura da Europa nasceu do encontro entre Jerusalém, Atenas e Roma, do encontro entre a fé no Deus de Israel, a razão filosófica dos Gregos e o pensamento jurídico de Roma. Este tríplice encontro forma a identidade íntima da Europa. Na consciência da responsabilidade do homem diante de Deus e no reconhecimento da dignidade inviolável do homem, de cada homem, este encontro fixou critérios do direito, cuja defesa é nossa tarefa neste momento histórico.

Ao jovem rei Salomão, na hora de assumir o poder, foi concedido formular um seu pedido. Que sucederia se nos fosse concedido a nós, legisladores de hoje, fazer um pedido? O que é que pediríamos? Penso que também hoje, em última análise, nada mais poderíamos desejar que um coração dócil, a capacidade de distinguir o bem do mal e, deste modo, estabelecer um direito verdadeiro, servir a justiça e a paz.

Agradeço-vos pela vossa atenção!

A intensa atividade intelectual de Joseph Ratzinger, antes e durante o pontificado, se reflete na publicação de inúmeros artigos, discursos e livros – nem todos traduzidos para o português – que transmitem uma visão espiritual da vida cristã, enaltecendo a importância de vivenciá-la em atos, gestos e palavras cotidianas.

Em geral, pode-se fazer uma distinção entre as obras do pensador Joseph Ratzinger e as do papa Bento XVI. Como cardeal, Ratzinger tenta esclarecer questões relacionadas à fé e ao seu impacto na vida das pessoas e da sociedade.

No período, a obra apontada como uma das mais sig­­nificativas é Introdução ao Cristianismo: preleções ao sím­bolo católico, série de conferências ministradas por Ratzinger durante um curso de verão em 1967, em Tubinga (Alemanha). “Segundo o teólogo Ratzinger– e, como papa, ele sempre reiterou esse aspecto –, o Cristianismo não é o encontro com uma ideia ou uma verdade abstrata ou conceitual, mas é o encontro com uma pessoa, que confere sentido à existência”.

A partir de 2005, quando assume o pontificado, as obras de Bento XVI adotam uma postura mais universal, tentando superar eventuais idiossincrasias acadêmicas. As três encíclicas, além das catequeses e alguns documentos, como a exortação Verbum Domini, sobre a palavra de Deus na vida e missão da Igreja, são exemplos representativos do período.

Outra forma de conhecer o pensamento de Bento XVI é se basear nos livros escritos sobre ele. O papa já foi retratado em diversas obras – algumas nem sempre condizentes com a realidade –, mas é o próprio Ratzinger quem oferece o retrato mais fiel de sua vida na autobiografia parcial” Lembranças da minha vida”, lançada no Brasil em 2006 e que cobre sua vida até 1977, quando se tornou arcebispo.

As entrevistas ao jornalista Peter Seewald, apresentadas nos livros O Sal da Terra e Luz do Mundo, também são uma boa fonte para conhecer um pouco mais da riqueza intelectual e da vida de Joseph Ratzinger.

Biblioteca Ratzinger

• Introdução ao Cristianismo: Preleções sobre o Símbolo dos Apóstolos (Loyola).

O livro analisa o problema da fé e do ateísmo, discutindo a fé em Deus, na Santíssima Trindade e na Igreja Católica. É definido pela escritora australiana Tracey Rowland, autora de Ratzinger’s Faith, como “o primeiro best-seller internacional” de Bento XVI.

• Introdução ao Espírito da Liturgia (Paulinas Portugal).

Apresenta a centralidade da ação litúrgica como fonte da vida eclesial, manifesta nos sacramentos em geral, principalmente na eucaristia.

• Sal da Terra (Imago) e Luz do mundo – O papa, a Igreja e os sinais dos tempos (Paulinas).

Dois livros-entrevista – o primeiro, ainda antes da eleição de Bento XVI; o segundo, já durante o pontificado – em que o papa responde a perguntas feitas pelo jornalista alemão Peter Seewald.

• Lembranças da minha vida (Paulinas).

Autobiografia parcial, que cobre os primeiros 50 anos da vida de Ratzinger. Recomendada pelo historiador Alex Catharino como “uma fonte mais confiável do que qualquer texto escrito por terceiros” sobre a vida pessoal de Bento XVI.

• Trilogia Jesus de Nazaré (Planeta).

Nos livros da série, Bento XVI conta a vida de Jesus a partir do Evangelho, desmontando muitas especulações sobre a figura de Cristo.

• Encíclicas Deus caritas est, Spe salvi e Caritas in veritate (várias editoras), também disponíveis no site do vaticano no endereço http://bit.ly/enciclicas

• Outras obras

Via-Sacra no Coliseu – Meditações e orações de Bento XVI (Paulinas) 
Palavras do papa Bento XVI no Brasil (Paulinas)
Os apóstolos e os primeiros discípulos de Cristo (Planeta) 
A segunda primavera (Quadrante) 
Breve introdução ao catecismo da Igreja Católica (Santuário) 
Os amigos de Jesus (Thomas Nelson Brasil) – livro ilustrado para crianças
Natureza e missão da teologia (Vozes)
Perguntas e respostas (Pensamento) 
Deus Existe? (Planeta) – debate entre Ratzinger e o filósofo ateu Paolo Flores d’Arcais
Dogma e anúncio (Loyola) 
E o Verbo se fez carne – reflexões sobre o mistério do Natal (Ecclesiae) 
São Paulo – catequeses paulinas (Ecclesiae) 
Dialética da secularização – sobre razão e religião (Ideia e Letras) – debate entre Ratzinger e o filósofo Jürgen Habermas
Fé, verdade, tolerância (Raimundo Lulio)
Vocação para a comunhão (Vozes) 
A porta da fé (Paulus) 
No princípio Deus criou o céu e a terra (Principia) 
Os Padres da Igreja I: de Clemente Romano a Agostinho (Ecclesiae) 
Os Padres da Igreja II – de São Leão Magno a São Bernardo de Claraval (Ecclesiae) 
Abri as portas a Cristo – Meditações sobre João Paulo II (Lucerna) 
Os movimentos da Igreja (Principia) 
Paulo – Os seus colaboradores e as suas comunidades (Paulus) 
Pensamentos espirituais (Lucerna)
Fé e futuro (Principia) 
A fé em crise? (EPU) – entrevista dada pelo cardeal Ratzinger ao jornalista italiano Vittorio Messori

Livros sobre Bento XVI

• Joseph Ratzinger – Uma biografia (Quadrante), de Pablo Blanco.

• Meu irmão, o papa (Principia), de Georg Ratzinger.

• Chico e Bento: a vida de Bento XVI contada por um gato (Principia), de Jeanne Perego. Livro infantil que conta o cotidiano de Bento XVI a partir de seu gato de estimação

Tudo o que tinha era apenas uma mala, alguns livros e o necessário

Por Mirticeli Dias de Medeiros

Quem diria que aquele velhinho, o qual, todos os dias, com sua maleta, fazia o trajeto de seu apartamento até o trabalho, a pé, tornar-se-ia o 265º Papa da Igreja Católica? Creio que, para muitos, especialmente para aqueles que moravam em Roma, foi uma surpresa vê-lo na sacada central da Basílica de São Pedro, em 19 de abril de 2005, após um dos Conclaves mais rápidos da história – tão rápido quanto o do nosso Papa Francisco.

Ratzinger disse, em entrevista, nunca ter almejado cargos na Igreja e nem mesmo visado os “holofotes”, mas afirmou também estar à disposição desta mesma Igreja diante de uma necessidade. No entanto, mal saberia ele que, tamanha disposição e desapego, o levaria à Sé de Pedro.

Um Papa que, em sua infância e adolescência, viu os horrores da guerra, foi obrigado a deixar o seminário para alistar-se e, neste tempo tão doloroso, foi alvo de chacotas entre os soldados de Hitler, porque alimentava um imutável e concreto desejo: ser padre.

O Pontífice que, quando ainda cardeal, ao ser convocado por João Paulo II para transferir-se para Roma, sentiu a dor de deixar sua terra natal, a ponto de querer expressar visivelmente uma vida de simplicidade e renúncia: “Tudo o que tinha era apenas uma mala, alguns livros e o necessário”, ressaltou.

Um homem que fez questão de cumprimentar cada um dos vizinhos do modesto apartamento que habitava antes de transferir-se para o Palácio Apostólico, a residência oficial do Santo Padre.

Um Sumo Pontífice que, em uma de suas primeiras catequeses, ao ver uma criança com câncer, fez o sinal da cruz também no ursinho que ela portava, demonstrando, com isso, que um Papa também é capaz de dobrar-se para entrar no universo dos pequenos – tal gesto levou um jornalista judeu a mudar os seus conceitos. Um papa que escolheu ser simplesmente Bento, o santo que, no silêncio de um mosteiro, devolveu à Europa a identidade perdida. O pastor que, considerando-se no fim de sua peregrinação terrestre, afirmou, em 2012, que uma certeza o motivava a ir adiante: “Deus é, Deus está”.

O Sucessor de Pedro que usou um relógio cobiçado por colecionadores mas que, para ele, tinha um valor que não poderia ser calculado por eles: era o relógio de sua irmã, a qual, em seu leito de morte, ofereceu-lhe esta lembrança. Um Papa que, pouco antes de ser eleito, por causa de sua doação à Igreja, não tinha tempo de fazer algo que gostava: passear por Roma. “Eu gostaria de ter uma qualidade de vida mais leve. Eu raramente consigo chegar até a cidade”, disse.

Ele, apesar de ter feito tanto, não hesitou em sair de cena para que a Igreja pudesse seguir adiante, mesmo que isso lhe custasse a falta de reconhecimento de muitos católicos sem memória.

Bento XVI foi alguém que viveu uma humildade por vezes não captada pelas potentes câmeras de televisão, mas demonstrou aquilo que, um dia, o apóstolo das nações fez questão de frisar: “Convém que Cristo cresça e eu diminua”.

Rezamos por ti, Bento XVI, nosso Bento XVI.