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O arcebispo alemão Georg Gänswein, prefeito da Casa Pontifícia e secretário particular de Bento XVI, em artigo publicado no jornal Corriere della Sera, 02-10-2016, comenta o recente livro-entrevista do papa emérito, Ultime conversazioni[Últimas conversas], acrescentando outras revelações sobre o papa emérito.

Gostaria de iniciar com um esclarecimento que, talvez, ainda poderá ser muito útil. Estas“últimas conversas” não são um “hard talk” beligerante, como o famoso programa de televisão da BBC, e Peter Seewald não tentou absolutamente colocar Bento XVI“contra as grades”.

O livro contém, ao contrário, o registro de uma série de encontros “coração a coração”, ocorridos antes e depois da renúncia do papa, entre duas almas muito diferentes entre si, mas bávaras até a medula (isso eu posso dizer, não sendo bávaro e vindo da Floresta Negra), que, interrogando intensamente a memória, entram em confidência. As respostas do papa emérito surpreendem aqui por uma intimidade totalmente particular e nova, em que o livro envolve o leitor, e por uma linguagem direta. Ficamos sabendo, por exemplo, da boca do papa, depois da renúncia, que o seu opositor Hans Küng “falava demais”.

“Ele não chorou no helicóptero”

Comove ler de modo igualmente repentino, na página 49, entre parênteses: “O papa chora” antes que o idoso pontífice fale daquele 28 de fevereiro de 2013, quando, ao cair da noite, ele pairou no céu de Roma a bordo de um helicóptero branco ao som de todos os sinos da cidade, dirigindo-se a Castel Gandolfo, ao encontro da noite da sua vida.

“Eu estava muito comovido”, diz. “Enquanto eu pairava lá em cima e ouvia o som dos sinos de Roma, eu sabia que podia agradecer e que o estado de ânimo de fundo era a gratidão.” Enquanto o helicóptero decolava, eu me sentei ao seu lado, profundamente abalado, como sabe quem acompanhou essa despedida pela tela da TV. E eu sei que, ao contrário de mim, ele não chorou na época, se me é possível revelar isso aqui, e eu também tenho ainda nos meus ouvidos o som dos sinos de Roma debaixo de nós, naquele voo que marcou um destino.

O amor pelas caminhadas

Devo confessar sinceramente que, hoje, lendo o livro, umedecem-me ainda mais os olhos nas passagens em que o idoso papa recorda como antigamente ele gostava de caminhar e de fazer passeios. “Eu sempre fui bom em caminhar”, diz ele em um ponto. “Todos os dias eu dava a minha passeada”, diz em outro, enquanto hoje eu tenho diante dos olhos como aquele caminhante apaixonado consegue dar, dia após dia, apenas passos cada vez mais curtos. Por isso, há muitos meses, ninguém me deve mais demonstrar o bom senso da sua renúncia de um ministério extremamente pesado.

“Nada de fuga”

O papa emérito continua esclarecendo: não se tratou de uma fuga, Roma não ardia, não havia lobos uivando debaixo da sua janela, e a sua casa estava em ordem quando entregou o bastão nas mãos do “caríssimos irmãos” do Colégio Cardinalício. O médico tinha lhe dito que ele não podia mais atravessar o Atlântico. Mas a Jornada Mundial da Juventude posterior, que deveria ocorrer em 2014, tinha sido antecipada para 2013, por causa da Copa do Mundo. Caso contrário, ele teria tentado resistir até 2014.

“Mas assim, ao contrário, eu sabia que não conseguiria.” Arrependeu-se, mesmo que por um minuto, de ter renunciado? “Não. Não, não. Vejo todos os dias que era a coisa certa a fazer.”

O papel depois da renúncia

Seewald quer saber sobre as muitas teorias da conspiração das quais se continua falando sobre a sua renúncia. Chantagem? Complô? “São todos absurdos”, corta o papa emérito. Na verdade, ainda há algo a aprender com o seu passo, uma novidade a ser valorizada: “O papa não é um super-homem. Se ele renuncia, mantém a responsabilidade que assumiu em um sentido interior, mas não na função. Por isso, o ministério papal não é diminuído, embora, talvez, se ressalte mais claramente a sua humanidade”.

A relação com Bergoglio

O que a opinião pública fica sabendo sobre a relação do papa emérito com Francisco? Primeiro: ele não esperava Bergoglio. O arcebispo de Buenos Aires foi para ele “uma grande surpresa”. Ele não tinha ideia de quem podia ser o seu sucessor. Mas, depois da eleição, assim que viu – na televisão, em Castel Gandolfo – como o novo papa “falava, de um lado, com Deus, de outro, com os homens, fiquei realmente contente. E feliz”. E até este momento está satisfeito com o ministério do Papa Francisco? Sem meias palavras, responde: “Sim. Há um novo frescor no seio da Igreja, uma nova alegria, um novo carisma que se dirige aos homens, já é uma coisa bonita. Muitos estão agradecidos porque agora o novo papa tem um novo estilo. O papa é o papa, não importa quem seja.”

O seu modo de agir não lhe criar problemas, “ao contrário. Eu gosto”. Ele não vê uma ruptura com o seu pontificado: “Talvez, coloque-se a ênfase em outros aspectos, mas não há nenhuma contraposição”.

As imitações e a “pennichella”

“Eu gostaria de ser professor por toda a vida”: ele foi e continua sendo até hoje um professor universitário, que gosta de fazer imitações das vozes, por exemplo do suíço-alemão Hans Urs von Balthasar, e que escreveu até o fim, a lápis, discursos e obras, inúmeros, em uma estenografia criada por ele mesmo para acompanhar a velocidade dos seus pensamentos. E que, mesmo nos períodos de crise, nunca renunciava às sete ou oito horas de sono de que precisa todas as noites, nem à pennichella [sesta], à qual havia se acostumado desde 1963, desde os anos do Concílio passados em Roma.

Os problemas de visão

Em setembro de 1991, ele, que nunca foi fumante nem bebedor, teve uma hemorragia cerebral. “Agora, eu realmente não posso mais”, anunciou ele depois a João Paulo II, que, no entanto, recusou categoricamente a sua renúncia. “Os anos de 1991 a 1993 foram cansativos”, comenta, lacônico.

Em 1994, teve uma embolia e, depois, uma maculopatia. Desde então, portanto, ainda anos antes da sua eleição a sucessor de Pedro, ele vê muito mal com o olho esquerdo. Isso nunca o fez pesar. O papa semicego! Quem imaginaria?!

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Em Roma, o céu está carregado de nuvens ameaçadoras, mas quando chego a Mater Ecclesiae, a residência do Papa emérito, um inesperado raio de sol enaltece, abaixo, a harmonia da cúpula de São Pedro e dos jardins do Vaticano. “O meu paraíso”, havia comentado, em uma visita anterior, Bento XVI. Sou levado a sala que é, atualmente, a biblioteca privada e, de forma espontânea, penso no título do livro de Jean Leclercq, O amor às letras e o desejo de Deus, citado por Bento XVI no famoso discurso no Colégio dos Bernadinos em Paris.

O Papa chega depois de alguns minutos, cumprimenta com o sorriso e a cortesia de sempre, e logo me diz: “Estou no quinze”. Não entendo, por isso repete: “Li quinze capítulos”. Estou verdadeiramente surpreso. Alguns meses antes, enviei-lhe boa parte do livro, mas nunca esperaria que o lesse por inteiro. Ofereço-lhe os outros capítulos e lhe digo que agora falta pouco. Ele está contente com aquilo que leu e assim acrescento: “Importa-se se fizer algumas perguntas na forma de entrevista?”. Responde como sempre, gentil e prático: “Me faça as perguntas, depois me mande tudo e veremos”. Obviamente, sigo as instruções. Algum tempo depois, me escreve consentindo com a publicação. Resta-me agradecer novamente pela confiança depositada.

Santidade, visitando pela última vez a Alemanha, em 2011, o senhor disse: “Não se pode renunciar a Deus”. E ainda: “Onde há Deus, lá há futuro”. Não lhe desagradou ter que sair no ano da fé?

Sem dúvida, tinha em mente concluir o ano da fé e escrever a Encíclica da Fé que deveria finalizar o percurso iniciado com Deus caritas est. Como disse Dante, o amor que move o sol e outras estrelas, nos impulsiona, nos conduz à presença de Deus que nos doa esperança e futuro. Em uma situação de crise, o melhor comportamento é aquele de se colocar frente a Deus com o desejo de encontrar a fé para poder prosseguir no caminho da vida. Da sua parte, o Senhor é feliz de acolher o nosso desejo, de nos dar a luz que nos guia na peregrinação da vida. É a experiência dos santos, de São João da Cruz ou de Santa Terezinha do Menino Jesus. Em 2013, todavia, existiam numerosos compromissos que eu acreditava não mais conseguir finalizar. 

Quais eram esses compromissos?

Em especial, já estava definida a data da Jornada Mundial da Juventude que deveria acontecer no verão de 2013, no Rio de Janeiro, Brasil. A respeito disso, tinha duas convicções bem precisas. Depois da experiência de viagem ao México e à Cuba, não me sentia apto a cumprir uma viagem tão desafiadora. Além disso, com a perspectiva dada por João Paulo II a essas jornadas, a presença física do Papa é indispensável. Não se podia pensar em uma transmissão televisiva ou em outras formas de tecnologia. Essa também era uma circunstância pela qual a renúncia era, para mim, um dever. Havia, enfim, a confiança necessária que, mesmo sem a minha presença, o ano da fé seria, de qualquer maneira, um sucesso. A fé, na verdade, é uma graça, uma dádiva generosa de Deus aos fiéis. Eu tinha, portanto, a firme convicção de que o meu sucessor, assim como ocorreu, teria, da mesma forma, o êxito desejado pelo Senhor, na iniciativa por mim iniciada.

Visitando a Basílica de Collemaggio em Áquila, o senhor fez questão de deixar o pálio sobre o altar de São Celestino V. Pode me dizer quando chegou à decisão de dever renunciar ao exercício do ministério petrino para o bem da Igreja?

A viagem ao México e à Cuba foi para mim bela e comovente de muitos pontos de vista. No México fiquei comovido ao encontrar a fé profunda de tantos jovens, experimentando sua alegre paixão por Deus. Da mesma forma, fiquei impressionado com os grandes problemas da sociedade mexicana e com o esforço da Igreja para encontrar, a partir da fé, uma resposta ao desafio da pobreza e da violência. Não há, no entanto, necessidade de recordar especialmente como, em Cuba, me afetou ver o modo como Raul Castro quer conduzir o seu país por um novo caminho sem romper a continuidade com o passado imediato. Mesmo aqui, fiquei muito impressionado com o modo que os meus irmãos de episcopado tentam encontrar a orientação neste difícil processo da fé. Naqueles dias, todavia, experimentei, com grande força, os limites da minha resistência física. Sobretudo, me dei conta de não ser mais capaz de enfrentar, no futuro, voos transoceânicos pelos problemas do fuso horário. Naturalmente, falei desses problemas com o meu médico, o Prof. Dr. Patrizio Polisca. Tornava-se, desta forma, claro que não estaria em condições de participar da Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro, no verão de 2013, ao qual se opunha evidentemente o problema do fuso horário. A partir desse momento, tive que decidir, em um tempo relativamente breve, a data da minha aposentadoria.

Depois da renúncia, muitos imaginavam cenários medievais com portas batendo e denúncias clamorosas. De tal modo que, os próprios comentaristas ficaram surpresos, quase desiludidos, com a sua decisão de permanecer nos confins de São Pedro, de subir ao Mosteiro Mater Ecclesiae. Como chegou a essa decisão?

Havia visitado muitas vezes o Mosteiro Mater Ecclesiae desde sua origem. Frequentemente, dirigia-me ali para participar das Vésperas, para celebrar a Santa Missa para todas as religiosas que ali estavam. Por último, estive ali por ocasião da ocorrência do aniversário de fundação das Irmãs Visitandinas. No passado, João Paulo II decidiu que a casa, que anteriormente servia de residência ao diretor da Radio Vaticana, devia tornar-se um local de oração contemplativa, como uma fonte de água viva no Vaticano. Sabendo que naquela primavera terminava o triênio das Visitandinas, foi-me proporcionada, quase obviamente, a percepção de que este seria o local onde poderia me recolher para continuar, ao meu modo, o serviço de oração para o qual João Paulo II havia destinado a casa.

Não sei se o senhor também viu uma fotografia de um enviado da BBC que retratava, no dia da sua renúncia, a cúpula de São Pedro ser atingida por um raio (Bento faz sinal com a cabeça de haver visto). A muitos, aquela imagem sugeria a ideia da decadência ou mesmo do fim do mundo. Agora, porém, devo dizer: esperavam ter pena de um vencido, um derrotado pela história, mas eu vejo aqui um homem sereno e confiante.

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Eu concordo totalmente. Eu deveria, realmente, me preocupar se não estivesse convencido, como disse no início do meu pontificado, de ser um simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor. Desde o início, estava ciente dos meus limites e eu concordei, como sempre procurei fazer na minha vida, no espírito de obediência. Depois, existiram as dificuldades mais ou menos grandes do pontificado, mas houve também muitas graças. Eu percebi que tudo aquilo que devia fazer não poderia fazer sozinho e, assim, eu era quase obrigado a me colocar nas mãos de Deus, a confiar em Jesus que, conforme escrevia meu livro sobre ele, me sentia ligado por uma antiga amizade, cada vez mais profunda. Em seguida, havia a Mãe de Deus, a mãe da esperança, que era um apoio seguro nas dificuldades e que sentia sempre mais próxima ao recitar o Santo Rosário e nas visitas aos santuários marianos. Por fim, havia os santos, os meus companheiros de viagem de uma vida: Santo Agostinho e São Boaventura, os meus mestres do espírito, mas também São Bento cujo lema “nada antepor a Cristo” me vinha sempre mais familiar e São Francisco, o pobre de Assis, o primeiro a sugerir que o mundo é o espelho do amor criador de Deus, do qual viemos e para o qual estamos a caminho”.

Somente consolações espirituais, então?

Não. O meu caminho não era acompanhado somente de cima. Todos os dias, recebia inúmeras cartas, não apenas dos grandes da Terra, mas também das pessoas humildes e simples que diziam estar perto de mim, que rezavam por mim. Assim, mesmo nos momentos difíceis, tinha a confiança e a certeza de que a Igreja é guiada pelo Senhor e que, portanto, eu podia colocar nas suas mãos o mandato que Ele me havia confiado no dia da eleição. Aliás, esse apoio continuou mesmo depois da minha renúncia, pelo qual só posso ser grato ao Senhor e a todos aqueles que manifestaram e ainda manifestam o seu afeto.

Na sua saudação de despedida dos Cardeais, em 28 de fevereiro de 2013, desde então prometeu obediência ao seu sucessor. Enquanto isso, tenho a impressão que o senhor também garantiu proximidade humana e cordialidade ao Papa Francisco. Como é o relacionamento com o seu sucessor?

A obediência ao meu sucessor nunca foi colocada em discussão. Mas, então, existe o sentimento de comunhão profunda e de amizade. No momento da sua eleição, eu experimentei, como tantos, um espontâneo sentimento de gratidão com relação a Providência. Depois de dois pontífices provenientes da Europa Central, o Senhor lançava seu olhar, por assim dizer, a uma Igreja universal e nos convidava a uma comunhão mais ampla, mais católica. Pessoalmente, eu fiquei profundamente comovido, desde o primeiro momento, com a extraordinária disponibilidade humana do Papa Francisco em nossos diálogos. Logo após sua eleição, tentou telefonar-me. Não conseguindo nessa oportunidade, telefonou-me mais uma vez logo após o encontro com a Igreja universal da sacada de São Pedro e falou comigo com grande cordialidade. Desde então, me concedeu uma relação maravilhosamente paternal-fraternal. Frequentemente, chegam, aqui em cima, pequenos presentes, cartas escritas pessoalmente. Antes de iniciar grandes viagens, o Papa não deixa nunca de me fazer uma visita. A benevolência humana com a qual me trata é, para mim, uma graça particular nessa última fase da minha vida, pela qual somente posso ser grato. Aquilo que diz da disponibilidade com relação a outros homens não são apenas palavras. A coloca em prática comigo. Que o Senhor lhe faça, por sua vez, sentir, todos os dias, a sua benevolência. Por isso, eu oro a Deus por ele.

A entrevista é de Elio Guerriero, publicada por La Repubblica, 24-08-2016.  Elio Guerriero é o editor italiano do próximo livro de Joseph Ratzinger “Ultime Converzazioni”, a ser publicado proximamente.

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As noites insones depois do conclave, as lutas internas, a renúncia. Joseph Ratzinger se conta em um livro que será publicado em setembro.

Chega um livro de memórias do Papa Bento XVI: agora, será impresso e estará nas livrarias do mundo inteiro em setembro. Título: Benedetto XVI. Ultime conversazioni [Bento XVI. Últimas conversas], porque vai se tratar de um livro-entrevista com o escritor alemão Peter Seewald, que já havia publicado três volumes de diálogos com Joseph Ratzinger: dois quando ele era cardeal (em 1996 e em 2000) e um como papa, em 2010, intitulado Luz do mundo.

Dos quatro volumes, este se anuncia como o mais interessante, ainda mais do que o livro escrito como papa, porque um papa é um papa, mas um papa emérito é uma absoluta novidade. Anunciando a publicação, a editora alemã Droemer, que coordena o lançamento nas diversas línguas, afirmava nessa quinta-feira que, pela primeira vez em 2.000 anos, temos “um papa que traça um balanço do próprio pontificado”.

Também por causa do título “Últimas conversas”, o volume se apresenta como o testamento de Bento XVI: nos três anos e meio que nos separam da “renúncia”, ele falou pouco e nunca de coração aberto, como dizem que ele faz nesse texto, respondendo a perguntas não reticentes sobre a própria renúncia ao papado, sobre o seu sucessor, sobre o caso do ser humano, sobre a família de origem até as tempestades dos oito anos como papa.

Dos preparativos do ato de “renúncia” até a investigação sobre o “lobby gay” do Vaticano, passando pela “surpresa” que, também para ele, representou a eleição do cardeal Bergoglio, são muitas as emoções e os bastidores que, aqui, são contadas pelo papa teólogo, que, em abril do próximo ano, completará 90 anos.

Sobre a renúncia, ele conta que a preparou com poucas pessoas mais próximas a ele e se lembra do temor de que pudesse haver um vazamento de notícias que tiraria a força do anúncio. E ele tinha razão para temer, porque nunca houve, no Vaticano do último século, tantos vazamentos de notícias e textos quanto no seu pontificado.

Ele argumenta a escolha de comunicar em latim uma decisão de tal porte, especificando que temia que, se tivesse escolhido o italiano, poderia cometer algum erro de linguagem. Ele confessa as dúvidas que teve que superar no diálogo consigo mesmo sobre o impacto que a sua decisão poderia ter sobre o futuro do papado. Mais uma vez, ele nega chantagens ou pressões.

Ele conta como acompanhou, em Castel Gandolfo, as crônicas televisivas sobre as fumaças e admite ter ficado “surpreso” com o nome do sucessor: ele tinha pensado em nomes, mas “não nele”. E, além disso, nós, jornalistas, também tínhamos feito o mesmo. A surpresa foi acompanhada pela “alegria” de ver como o novo papa rezava e se comunicava com a multidão.

Em resposta ao entrevistador, Bento XVI trata da figura humana e papal de Francisco e se refere livremente tanto ao que eles têm em comum quanto ao que os diferencia.

No livro, há recordações da infância e da adolescência na Alemanha nazista daqueles anos. A descoberta da “vocação”, a prisão no fim da Segunda Guerra Mundial em um campo estadunidense nos arredores de Ulm. Os sucessos e as decepções da carreira universitária, as publicações que fizeram dele um “perito” do Concílio Vaticano II. Temas sobre os quais ele já havia narrado no livro A minha vida, que é de 1997.

Chegando aos anos mais recentes em relação a essa autobiografia, no novo volume, ele conta o forte vínculo comJoão Paulo II, ao qual, repetidamente, pediu para ser exonerado dos seus cargos, e as recusas do papa polonês que o quis ao seu lado até o fim.

Há também o pensamento da morte e a confissão de como o papa emérito se sente fraco diante dela e a narração do modo como ele se prepara.

Ele nos diz o sentimento de “incredulidade” que experimentou no conclave, quando compreendeu que seria a vez dele. A opção de não se chamar João Paulo III, mas de ligar o seu pontificado a São Bento e a Bento XV, o papa que definiu a Primeira Guerra Mundial como “inútil massacre”.

Ficamos sabendo da dificuldade de pegar no sono que ele sofreu nos primeiros dias depois da eleição, por causa da ansiedade que estava sobre ele.

Ele rejeita a ideia ou a crítica daqueles que o consideram como um papa acadêmico demais, concentrado no estudo e na escrita. Ele se recusa a ser considerado como um restaurador em âmbito litúrgico. Ele conta algo sobre a sua tentativa de reformar o IOR e recorda as leis promulgadas por ele contra a lavagem de dinheiro, reflete sobre a chaga da pedofilia e não deixa de enfatizar as dificuldades que mesmo um papa encontra quando quer intervir sobre a “sujeira que está na Igreja”.

Ele admite a sua falta de decisão no governo. Conta que fez anotações e tomou nota durante o pontificado sobre muitas questões, mas diz que vai destruí-las, embora se dê conta de que, para os historiadores, seriam um verdadeiro “convite de casamento”.

Luigi Accattoli, Corriere della Sera

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Após ser o primeiro Pontífice a fazer publicações no Twitter, o Papa Emérito Bento XVI chega ao Facebook por meio da Fundação Vaticana Joseph Ratzinger – Bento XVI. A página da instituição foi inaugurada na quinta-feira (14/1) e pretende divulgar o Magistério de Ratzinger ao longo dos anos.

A ideia partiu do presidente da fundação, Padre Giuseppe Antonio Scotti, para manter um contato mais próximo entre o Papa Emérito e os fiéis que apreciam o trabalho de Bento XVI na Igreja. Por meio da página no Facebook, gerenciada pelo vaticanista Luca Caruso, a Fundação Vaticana quer aproximar o público dessas atividades, principalmente quando Ratzinger esteve à frente da Congregação para a Doutrina da Fé e durante os oito anos de Pontificado.

Na primeira publicação, a página da fundação traz um foto de Bento XVI junto com o Papa Francisco em um evento realizado na Praça São Pedro. A instituição nasceu em março de 2010 com a tarefa de promover o conhecimento e o estudo da teologia.

Desde a criação da conta oficial do Pontífice no Twitter, agora sob comando do Papa Francisco, dados revelam que a iniciativa se tornou um sucesso na divulgação de mensagens na rede social. Com nove contas em diversos idiomas, na semana passada, os números de seguidores no microblog já tinha ultrapassado a marca dos 26 milhões. Em língua portuguesa, mais de 1,8 milhão de pessoas seguem o Papa Francisco. (PS)

Rádio Vaticano

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Mais de 13.000 pessoas já assinaram uma petição online pedindo ao Museu de Arte de Milwaukee, EUA, para não exibir um retrato recém-adquirido do Papa Bento XVI formado a partir de 17.000 preservativos coloridos.

A petição foi divulgada por CitizenGo.org, um site de defesa cristã com sede em Madrid:  “A decisão do Art Museum Milwaukee para apresentar esta peça ofensiva de arte expõe um duplo padrão quando se trata de ofender grupos religiosos”, disse em um comunicado à imprensa. “Eles nunca se atreveriam a insultar Maomé ou outros líderes religiosos da maneira que rebaixa seguidores de Cristo.”

O museu de arte confirmou em junho que havia adquirido a peça controversa pelo artista Shorewood Niki Johnson e gostaria de exibi-la quando ela for concluída a renovação de sua galeria de coleções permanentes, no outono.

A notícia atraiu condenação dos católicos locais , incluindo o Arcebispo Jerome Listecki, muitos dos quais prometeram cancelar suas associações. Autoridades do museu defendem a aquisição, disseram que ouviram um número igual de clientes que manifestaram interesse em ver a peça.

Johnson disse que o retrato, intitulado “Ovos Benedict,” foi um comentário sobre os comentários de o então pontífice durante uma visita de 2009 a África, em que ele sugeriu que o uso de preservativos pode agravar a propagação da AIDS por estimular a promiscuidade, fonte principal de propagação do vírus.

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Dois anos depois de anunciar sua decisão histórica de renunciar, o ex-Papa Bento XVI continua, aos 88 anos, a tocar Mozart ao piano e “sua cabeça funciona perfeitamente”, segundo seu secretário particular, Georg Gänswein.

Em uma entrevista publicada nesta quinta-feira (12) pelo jornal “Corriere della Sera”, o prelado alemão evocou a aposentadoria do Papa alemão Emérito no antigo mosteiro Mater Ecclesiae, na Colina do Vaticano.

“Bento XVI tem alguns problemas com as pernas, mas a cabeça funciona perfeitamente”. “Nas últimas semanas, ele voltou a tocar piano com mais frequência. Especialmente Mozart. Mas também outras peças que lhe vêm à mente, que ele toca de memória”, disse ele.

O prelado alemão descreveu o ritmo muito “metódico” do Papa emérito: levantar às 7h45, “um pouco mais tarde do que antes”, missa, breviário, café da manhã, oração, leitura, correspondência e, “às vezes, visitas”.

Por volta das 13h, almoço e caminhada pelo terraço e depois descanso. Às 16h15, passeio nos jardins do Vaticano até a gruta com imagem de Nossa Senhora de Lourdes e recitação do rosário. Então, novamente oração e leitura.

Bento XVI janta às 19h30, antes de assistir ao telejornal italiano e ler a última oração na capela.

Joseph Ratzinger “escolheu uma vida monástica. Ele só sai quando o Papa Francisco pede. Quanto ao resto, ele não aceita outros convites”.

O Papa Emérito e seu sucessor “são diferentes, por vezes muito diferentes. Mas eles compartilham a substância, o ‘depositum fidei’ (o conteúdo da fé) a anunciar, defender e promover”, considerou Gänswein, que é também responsável pela organização das visitas oficiais do Papa Francisco.

Em 11 de fevereiro de 2013, Bento XVI anunciou aos cardeais sua renúncia, que entrou em vigor em 28 de fevereiro. “Uma renúncia expressa livremente, sem qualquer pressão”, insistiu Gänswein.

Fonte: G1

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Totalmente de branco, inclusive a boina que cobre seu cabelo. Assim aparece o papa Emérito Bento XVI em imagens que na quarta-feira mostrou com exclusividade o semanário Chi, o mesmo que publicou as primeiras fotografias do Papa emérito em sua residência de Castel Gandolfo.

Agora, as fotos foram tiradas no mosteiro Mater Ecclesiae, em que vive, e nos mostram um Ratzinger preparando-se para seu passeio diário, apoiado em um bastão e ajudado por Georg Gänswein, e depois descansando ao ar livre.

As imagens desataram o alarma em muitos fiéis italianos, a ponto de que a Santa Sé teve que se apressar para tranquilizar a opinião pública, indicando que o estado de saúde de Bento XVI não é ruim, embora tenha problemas com artrite nas pernas.

“Às vezes se sente cansado e encurta a caminhada”, contam que afirma Gänswein. O secretário do Papa emérito destaca como, apesar de tudo, sempre se ajoelha ao entrar na capela. “Nunca se dá por vencido nesta homenagem ao Santíssimo, sem se importar com o sofrimento que poderia lhe causar”.

Jesús Bastante e publicada no sítio espanhol Religión Digital

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No mosteiro “Mater Ecclesiae”, o Papa emérito recriou seu universo: os estudos de teologia, o rosário recitado com seu fiel secretário-filho espiritual dom Georg (que continua chamando-lhe de “Santo Padre”), a convivência cotidiana com as quatro Memores Domini que se ocupam do aposento, a correspondência, alguma visita e, é claro, a música adorada. Sobretudo Mozart,Bach e Beethoven.

Com grande lucidez e discreta forma física, vive oculto e em oração, inspirando-se na regra beneditina.

Bergoglio nunca deixou de se dirigir a seu predecessor, com visitas e chamadas telefônicas, para aproveitar o tesouro de sua experiência e para manifestar-lhe seu afeto. Durante as últimas festividades, houve uma troca de visitas. Francisco, pouco antes do Natal, foi ver Ratzinger em seu “bom retiro” (em companhia do mordomo Sandro Mariotti), e o Papa emérito, quatro dias depois, respondeu ao convite de seu sucessor participando de um café da manhã na residência Santa Marta.

Há seis meses, durante uma missa para o grupo de ex-alunos na capela do Governatorado, Bento XVI pronunciou palavras que pareciam evocar o sentido de sua renúncia ao Trono de Pedro. A lógica cristã inverte por completo a lógica humana: responde-se ao mal com amor, a salvação se obtém mediante o sofrimento da cruz e o “bom lugar” não é o “primeiro lugar”, cobiçado durante toda a vida, mas esse que nos torna humildes e nos leva a experimentar o amor gratuito de Deus.

As saídas públicas do Papa emérito foram raras, apesar de Bergoglio ter insistido em que “pode sair quando quiser”. Fez isso discretamente, no último dia 4 de janeiro, para ver seu irmão Georg no Hospital Gemelli, e, há alguns meses (no dia da publicação da encíclica “Lumen Fidei “), para abençoar com Bergoglio a estátua de São Miguel dos Jardins Vaticanos. Todo domingo celebra e prega no ex-convento reestruturado de quatro pisos (incluindo o subterrâneo, que conta com um elevador, onde o irmão mais velho de Ratzinger sempre tem um quarto à sua disposição).

Um horário cotidiano que indica uma vida de estudo. Despertador às 5h30min, missa antes das 7h00s, manhãs dedicadas à leitura dos padres da Igreja e à correspondência pessoal que chega à Secretaria de Estado. Uma sesta após o almoço, o passeio cotidiano com Gänswein pelo jardim que cerca o convento, o rosário, mais horas na biblioteca para ler e escrever, o jantar e o fundamental telejornal das 20h00s. Às 22h00s a luz se apaga.

As únicas mudanças nessa rotina são as visitas que recebe: encontros cujo conteúdo, às vezes, é revelado pelos protagonistas. O cardeal Tarcisio Bertone apontou que o convidou para almoçar em seu departamento, durante as festas de Natal. Há colaboradores de sua antiga comitiva que o visitam, após ter superado o choque inicial que desencadeou o corajoso anúncio de sua renúncia, no dia 11 de fevereiro. Entre os visitantes que passaram pelo salão de sua nova residência, destacam-se o ator Lino Banfi e o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé,Gerhard Ludwig Müller, teólogo como o Papa emérito.

Giacomo Galeazzi, publicada por Vatican Insider.