Embora seja o alvo preferido da mídia, a Igreja é uma das instituições mais avançadas do mundo na luta contra os abusos sexuais. Essa Luta continua!

No recente encontro mundial com os bispos católicos no Vaticano para concretizar medidas de proteção aos menores na Igreja contra os predadores sexuais que agem dentro das suas próprias estruturas, o Papa Francisco mencionou uma lista de propostas a serem implementadas, as quais chamou de “pontos para reflexão”.

Trata-se dos 21 itens a seguir:

1. Desenvolver um guia passo-a-passo com as medidas efetivas a serem tomadas em cada momento-chave do surgimento de um caso.

2. Criar estruturas de escuta, com pessoas bem preparadas, para o primeiro discernimento de cada denúncia.

3. Definir os critérios para o envolvimento direto do bispo ou superior religioso.

4. Implementar procedimentos claros para examinar as denúncias, protegendo as vítimas e garantindo o direito de defesa dos acusados para evitar injustiças contra ambos os lados.

5. Avisar as autoridades civis e eclesiásticas conforme as normas civis e canônicas.

6. Revisar periodicamente os protocolos sobre a segurança dos ambientes para menores em todas as estruturas pastorais.

7. Estabelecer protocolos específicos para lidar com acusações contra bispos.

8. Prestar todo o acompanhamento às vítimas para a sua plena recuperação.

9. Garantir formação permanente de bispos, superiores religiosos, clérigos e agentes pastorais visando a plena conscientização sobre as causas e consequências do abuso sexual.

10. Implantar percursos de cura pastoral das comunidades que foram feridas pelos abusos, bem como de recuperação e penitência dos culpados.

11. Fortalecer a cooperação com as pessoas de boa vontade e os meios de comunicação para distinguir os verdadeiros dos falsos casos, combatendo as calúnias.

12. Elevar a idade mínima do casamento católico para 16 anos, tanto para rapazes quanto moças (até então eram 16 para eles, mas 14 para elas).

13. Facilitar e regular a participação de especialistas leigos nas investigações de abusos sexuais e de poder.

14. Salvaguardar o princípio da presunção de inocência até prova da culpa do acusado, preservando nomes durante a investigação preliminar.

15. Observar a proporcionalidade da punição com relação ao crime e deliberar que padres e bispos culpados de abuso sexual deixem de exercer o ministério publicamente.

16. Implantar programas de formação inicial e permanente para seminaristas e candidatos à vida religiosa, visando consolidar a sua maturidade humana, espiritual e psicossexual, bem como as suas relações interpessoais e o seu comportamento.

17. Realizar avaliação psicológica dos candidatos ao sacerdócio e à vida consagrada por peritos qualificados e de credibilidade.

18. Traçar regras claras sobre transferências de seminaristas e aspirantes religiosos de um seminário para outro, bem como de padres e religiosos de uma diocese ou congregação para outra.

19. Delinear códigos de conduta obrigatórios para todo o clero, religiosos, colaboradores e voluntários, com normas claras sobre relacionamentos pessoais e determinação de requisitos de admissão, incluindo verificação de registo criminal.

20. Preparar documentação detalhada sobre os perigos do abuso e os seus efeitos, o reconhecimento de indícios e o procedimento de denúncia, em colaboração com pais, professores, profissionais e autoridades civis.

21. Instituir organizações de fácil acesso para vítimas que desejem denunciar quaisquer crimes, com autonomia inclusive perante a autoridade eclesiástica local, compostas por leigos e clérigos experientes, capazes de garantir a adequada atenção da Igreja a qualquer denunciante ou vítima.

Fonte: Aleteia

Em 1969, o então teólogo Joseph Ratzinger, futuro Papa Bento XVI, escreveu em seu livro “Introdução ao Cristianismo” um pequeno capítulo sobre a Igreja, começando de uma forma que (sempre) parece bem atual:

“(…) Externemos o que hoje nos preocupa neste ponto. Se formos sinceros, seremos tentados a dizer que a Igreja não é nem santa, nem católica: o próprio Concílio Vaticano II venceu a relutância, falando não apenas da Igreja santa, mas também da Igreja pecadora; e se algo existe a lhe censurar, será, no máximo, o fato de ter-se conservado hesitante demais em suas declarações, tão forte é a impressão da pecaminosidade da Igreja na consciência de todos. Naturalmente pode haver aí alguma influência teológica luterana sobre o pecado e, com ela, a agir, uma hipótese gerada de influxo de decisões dogmáticas. Mas o que torna essa ‘dogmática’ tão penetrante é sua concordância com a nossa experiência. Os séculos da história da Igreja estão tão repletos de humano fracasso, que podemos compreender a horrível visão de Dante, ao descrever a prostituta babilônica sentada na carruagem da Igreja, parecendo-nos também plausíveis as terríveis palavras do bispo de Paris, Guillaume d’Auvergne (século XIII) o qual acreditava que qualquer pessoa que visse o embrutecimento da Igreja, deveria ficar tomado de horror: ‘Não é mais esposa, mas um monstro de medonho aspecto e selvageria’…”

Esta percepção está fundamentada não só em razões, mas também em corações que tinham altas expectativas e sofreram terrível decepção. E é deste ponto de partida, deste contraste entre aquilo em que se acredita pela fé e aquilo que se percebe na realidade, que surge a pergunta: “Por que, apesar de tudo, amamos a Igreja?”.

Igreja santa?

Dizer que a Igreja é santa não é afirmar que todos e cada um dos seus membros sejam santos, imaculados. Ratzinger afirma que o sonho de uma Igreja imaculada renasceu em todos os tempos, mas não tem lugar no Credo e que as críticas mais duras à Igreja provêm deste sonho irreal de uma Igreja imaculada.

“(…) A santidade da Igreja consiste naquela força de santificação que Deus exerce nela, apesar da pecaminosidade humana. Deparamos aqui com a precípua característica da ‘nova aliança’: em Cristo o próprio Deus amarrou-se aos homens, deixou-se atar por eles. A nova aliança não se baseia mais – no cumprimento de mútuas estipulações, mas é presente de Deus, como graça que subsiste também contra a infidelidade do homem. É expressão do amor de Deus que não se deixa vencer pela incapacidade do homem, mas, apesar de tudo, sempre volta a mostrar-se-lhe bondoso, a recebê-lo exatamente como pecador, a voltar-se para o homem, a santificá-lo, a amá-lo”.

Como o dom não depende do mérito dos crentes, a santidade que permanece na Igreja é a de Cristo, não a nossa.
Para Ratzinger, a paradoxal justaposição entre a santidade de Cristo e a infidelidade humana é a figura dramática da graça neste mundo, por cujo meio se torna visível o amor livre e incondicional de Deus, que, tanto ontem quanto hoje, se senta à mesma mesa com os pecadores.

O sonho de um mundo incontaminado

A ideia de que a Igreja não se mistura com o pecado é simplista e dualista: ela busca uma imagem ideal, não real. Ratzinger recorda que os contemporâneos de Cristo se escandalizavam porque Ele não era como um fogo que destruísse os pecadores. Ele se mostravam acessível aos pecadores que a Ele recorriam, ressaltando não a separação, mas a purificação; não a condenação, mas o amor redentor.

As questões que surgem desta maneira de ver as coisas são surpreendentes e cheias de esperança: a Igreja não é acaso a continuação dessa entrada de Deus no mundo da miséria humana? Não é a continuação da proximidade de Jesus que se senta à mesa com os pecadores? Não é a continuação do seu contato com os pecadores para chamá-los a outra vida? Não é uma mistura com a imundície do mundo para ajudar a purificá-lo? Acaso a Igreja pode ser outra coisa senão o amparar-se mutuamente, apoiados todos em Cristo?

Amparar-nos uns aos outros em Cristo, que carregou a nós todos

A santidade “quase imperceptível” da Igreja é consoladora: por acaso nos encorajaria mais uma santidade arrebatadora que não abraçasse a fragilidade humana para oferecer o perdão a quem se arrepende de coração? Se a Igreja fosse a comunidade só daqueles que merecem os prêmios pela perfeição, quem poderia permanecer nela?

Quem vive na consciência de que precisa do apoio dos outros não se recusará a prestar-lhes igualmente apoio.Este é o consolo que a comunidade cristã pode oferecer: amparar-nos uns aos outros como nós mesmos somos amparados.

O que realmente importa para os crentes

As visões reducionistas sobre a Igreja não levam em conta o que ela diz de si mesma nem o seu centro, que é Jesus Cristo.

“Os crentes autênticos não dão excessiva importância à luta pela reorganização de formas eclesiásticas. Vivem do que a Igreja sempre é. E querendo saber o que é a Igreja, basta dirigir-se a eles. Porquanto a Igreja geralmente está não onde se organiza, reforma, rege, mas nos que creem singelamente, recebendo dela a dádiva da fé, que se lhes torna fonte de vida. Só quem experimentou de que modo, por cima das vicissitudes dos seus ministros e das suas formas, a Igreja sustenta os homens, lhes dá pátria e esperança, uma pátria que é esperança: caminho para a vida eterna”.

Para Joseph Ratzinger, a Igreja vive na luta entre o pecado de seus membros e a santidade de Cristo que nela habita. Essa luta é frutífera quando por amor real e eficaz. Uma Igreja de portas fechadas destrói quem está dentro.

É ilusão acreditar que, deixando o mundo de fora, a Igreja pode torná-lo melhor. É ilusão acreditar numa “Igreja dos santos” quando o que existe é uma “Igreja santa”: santa porque é de Cristo, não porque nós sejamos santos.

Autor: Miguel Pastorinho

O previsto encontro de fevereiro sobre a proteção dos menores não parte do “ponto zero”, mas “certamente é um evento inédito que se propõe a dar um forte impulso para novos e urgentes passos adiante”.

São palavras do padre Federico Lombardi na última edição da revista Civiltà Cattolica em um longo artigo intitulado “Rumo ao encontro dos bispos sobre a proteção dos menores”. Às vezes, adverte o jesuíta, “continua-se a iludir que se trate de um problema principalmente ocidental, ou mesmo americano ou anglófono”, na realidade, “não se deve ignorar desta presença algumas vezes ainda latente a ponto de possibilitar uma futura e dramática erupção”. Por isso, adverte Padre Lombardi, “é preciso olhar a realidade de frente”.

Minimizar a questão dos abusos é caminho errado

Algumas vezes, escreve o jesuíta, “mesmo em ambientes da Igreja ouve-se que é hora de mudar de assunto, que não está certo dar muito peso a este tema, porque pode se tornar opressivo e a questão será engrandecida. Mas este é um caminho errado”. Se a questão “não for enfrentada com profundidade nos seus vários aspectos – prossegue – a Igreja continuará a se encontrar em crise continuamente”, a credibilidade dos sacerdotes ficará “ferida” e, principalmente, “serão prejudicadas a substância da sua missão de anúncio evangélico e o trabalho educativo para a infância e a juventude”.

O caso de Boston fez emergir a questão

Padre Lombardi repercorre a história da questão dos abusos na Igreja, recordando que a primeira grande crise ocorreu depois do ano 2000 nos Estados Unidos e foi enfrentada por São João Paulo II nos seus últimos anos de Pontificado. As “grandes lições” do que ocorreu na arquidiocese de Boston, escreve o jesuíta, são “bem claras, mesmo se foram entendidas e aceitas com dificuldade”. Primeiramente, “a seleção e a formação dos candidatos ao sacerdócio”, devem ser revistas “com cuidado e com rigor”. Assim como é “indefensável” o modo com o qual as autoridades eclesiásticas ocultaram a verdade para evitar escândalos, “negligenciando a gravidade do sofrimento das vítimas”. Também o papel da mídia requer uma resposta de transparência, enfim é necessária uma colaboração com as autoridades civis.

Com Bento XVI a renovação das normas canônicas

Já na parte final do pontificado de João Paulo II, o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cardeal Joseph Ratzinger, comprometeu-se com particular força em enfrentar a questão. Um esforço que se amplificou quando o cardeal alemão foi eleito Papa. Bento XVI decreta uma série de novas “Normas para os delitos mais graves”, seguido em 2011 pela importante “Carta às Conferência Episcopais de todo o Mundo” para ajudar-lhe a preparar as “Diretrizes para o tratamento dos casos de abuso sexual de menores por parte de membros do clero”. Diretrizes que, escreve padre Lombardi, “tornam se assim o documento de referência necessário para a conversão e a renovação da comunidade eclesial a partir da dramática experiência dos abusos”. O compromisso pessoal que Bento XVI assumiu nesta dramática questão, “é evidenciado também pelos seus vários encontros com as vítimas durante suas viagens apostólicas pelo mundo”.

Francisco contra os abusos sexuais, de poder e de consciência

Francisco, destaca padre Lombardi, continua com decisão “o caminho traçado pelo seu Predecessor”. Ele também “se envolveu pessoalmente, encontrando vítimas de abusos sexuais”. Um ato importante, escreve o jesuíta, foi a constituição – poucos meses depois da sua eleição – da Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores (dezembro de 2013), presidida pelo cardeal Sean O’Malley. Um organismo que obteve particularmente três resultados, segundo a revista dos jesuítas: o modelo oferecido pelas “Diretrizes”; os cursos de formação para os bispos recém nomeados; e a proposta de um Dia de Oração pelas vítimas de abusos.

Padre Lombardi destacou também a importância de dois documentos aprovados pelo Papa Francisco: o Rescrito de 2014 e o motu proprio de 2016 “Como uma mãe amorosa”. São dois documentos que reforçam a responsabilidade das autoridades eclesiásticas. Foi particularmente significativa a Carta ao Povo de Deus, de 20 de agosto deste ano. Francisco já “não fala somente de abusos sexuais”, mas também “de poder e de consciência”. E pede com força que, para enfrentar este escândalo, todos os fiéis sintam-se co-responsáveis pelo “caminho sinodal da Igreja” e que “toda forma de clericalismo seja decididamente combatida”.

Fonte: Vatican News

Ao pedido que chegou de várias partes logo após o caso do relatório do Grande Júri da Pensilvânia de um Sínodo extraordinário para abordar as questões relacionadas com a luta e a prevenção da pedofilia clerical, o Santo Padre, com o apoio do Conselho dos nove cardeais, ofereceu uma resposta diferente, talvez mais pertinente e eficaz, a saber, um encontro no Vaticano dos 112 presidentes das Conferências Episcopais dos cinco continentes.

A esses 112, deverão se somar outros presidentes de coordenações eclesiais regionais e sub-regionais (Celam, Amecea, Secam, CCEE etc.).

Obviamente, é muito cedo para falar sobre a modalidade e sobre o desenvolvimento do encontro, que será realizado entre a quinta-feira, 14, ao domingo, 21 de fevereiro de 2019. Ele certamente deverá durar três dias completos e deverá se encerrar com uma solene concelebração eucarística presidida pelo papa.

O número relativamente reduzido de participantes, se não forem acrescentados muitos especialistas de todos os tipos, deverá facilitar grandemente um resultado do mais alto nível, especialmente de natureza pastoral.

De fato, o desafio da pedofilia na Igreja é acima de tudo um desafio pastoral, do qual devem derivar, naturalmente, outras dimensões que, para serem eficazes e irreversíveis, devem ter as suas raízes bem plantadas, precisamente, na dimensão pastoral. Muitas questões ainda pendentes, tais como alguns aspectos disciplinares, processuais e normativos, deverão ser abordados a partir dessa perspectiva, a fim de garantir solidez, consistência e aplicabilidade, comprometendo em tudo as Conferências Episcopais, o bispo individual e a coordenação entre eles.

Isso significa que o encontro de fevereiro não deve ser transformado em um megacongresso espetacular e de grande atratividade midiática, em uma passarela para escutar palestras repetitivas e às vezes óbvias e banais. A pedofilia no clero já é uma realidade mais do que conhecida.

O desafio é outro: o que fazer e como fazer para que esse mal costume, “crime e pecado”, seja erradicado de uma vez por todas da vida da Igreja e, como sempre se disse com razão, o que fazer e como fazer para colocar as vítimas no centro.

O encontro também deverá servir para dar carne e corpo a uma ideia que já circula há algum tempo, que parece justa, mas nem sempre é compreensível: a participação dos leigos nesses compromissos, especialmente das mulheres.

Pode-se e deve-se chegar ao encontro caminhando por um caminho seguro, ou seja, a Carta do Papa Francisco ao Povo de Deus (20 de agosto de 2018), onde se lê:

“É impossível imaginar uma conversão do agir eclesial sem a participação ativa de todos os integrantes do povo de Deus. E mais, cada vez que tentamos suplantar, calar, ignorar, reduzir a pequenas elites o Povo de Deus, construímos comunidades, planos, ênfases teológicas, espiritualidades e estruturas sem raízes, sem memória, sem rosto, sem corpo, em última análise, sem vida. Isso se manifesta com clareza em uma maneira anômala de entender a autoridade na Igreja – tão comum em muitas comunidades em que ocorreram as condutas de abuso sexual, de poder e de consciência – como é o clericalismo, essa atitude que ‘não só anula a personalidade dos cristãos, mas também tem uma tendência de depreciar e desvalorizar a graça batismal que o Espírito Santo colocou nos corações da nossa gente. O clericalismo, favorecido tanto pelos próprios sacerdotes como pelos leigos, gera uma divisão no corpo eclesial que beneficia e ajuda a perpetuar muitos dos males que hoje denunciamos. Dizer não ao abuso significa dizer não energicamente a qualquer forma de clericalismo”.

Número de Conferências Episcopais por continente:

Oceania – 4
Ásia – 17
América – 24
África – 36
Europa – 31

Fonte:  Il Sismografo

 

 

A dor dessas vítimas é um gemido que clama ao céu, que alcança a alma e que, por muito tempo, foi ignorado, emudecido ou silenciado. Mas seu grito foi mais forte do que todas as medidas que tentaram silenciá-lo ou, inclusive, que procuraram resolvê-lo com decisões que aumentaram a gravidade caindo na cumplicidade”, escreve o Papa Francisco, em carta ao Povo de Deus, referindo-se ao relatório que foi divulgado detalhando aquilo que vivenciaram pelo menos 1.000 sobreviventes, vítimas de abuso sexual, de poder e de consciência, nas mãos de sacerdotes por aproximadamente setenta anos”.

A carta do Papa Francisco, cujo original é em espanhol, publicada pela Sala de Imprensa do Vaticano.

A carta.

«Um membro sofre? Todos os outros membros sofrem com ele» (1 Co 12, 26). Estas palavras de São Paulo ressoam com força no meu coração ao constatar mais uma vez o sofrimento vivido por muitos menores por causa de abusos sexuais, de poder e de consciência cometidos por um número notável de clérigos e pessoas consagradas. Um crime que gera profundas feridas de dor e impotência, em primeiro lugar nas vítimas, mas também em suas famílias e na inteira comunidade, tanto entre os crentes como entre os não-crentes. Olhando para o passado, nunca será suficiente o que se faça para pedir perdão e procurar reparar o dano causado. Olhando para o futuro, nunca será pouco tudo o que for feito para gerar uma cultura capaz de evitar que essas situações não só não aconteçam, mas que não encontrem espaços para serem ocultadas e perpetuadas. A dor das vítimas e das suas famílias é também a nossa dor, por isso é preciso reafirmar mais uma vez o nosso compromisso em garantir a proteção de menores e de adultos em situações de vulnerabilidade.

1. Um membro sofre?

Nestes últimos dias, um relatório foi divulgado detalhando aquilo que vivenciaram pelo menos 1.000 sobreviventes, vítimas de abuso sexual, de poder e de consciência, nas mãos de sacerdotes por aproximadamente setenta anos. Embora seja possível dizer que a maioria dos casos corresponde ao passado, contudo, ao longo do tempo, conhecemos a dor de muitas das vítimas e constamos que as feridas nunca desaparecem e nos obrigam a condenar veementemente essas atrocidades, bem como unir esforços para erradicar essa cultura da morte; as feridas “nunca prescrevem”. A dor dessas vítimas é um gemido que clama ao céu, que alcança a alma e que, por muito tempo, foi ignorado, emudecido ou silenciado. Mas seu grito foi mais forte do que todas as medidas que tentaram silenciá-lo ou, inclusive, que procuraram resolvê-lo com decisões que aumentaram a gravidade caindo na cumplicidade.

Clamor que o Senhor ouviu, demonstrando, mais uma vez, de que lado Ele quer estar. O cântico de Maria não se equivoca e continua a se sussurrar ao longo da história, porque o Senhor se lembra da promessa que fez a nossos pais: «dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias» (Lc 1, 51-53), e sentimos vergonha quando percebemos que o nosso estilo de vida contradisse e contradiz aquilo que proclamamos com a nossa voz.

Com vergonha e arrependimento, como comunidade eclesial, assumimos que não soubemos estar onde deveríamos estar, que não agimos a tempo para reconhecer a dimensão e a gravidade do dano que estava sendo causado em tantas vidas. Nós negligenciamos e abandonamos os pequenos. Faço minhas as palavras do então Cardeal Ratzinger quando, na Via Sacra escrita para a Sexta-feira Santa de 2005, uniu-se ao grito de dor de tantas vítimas, afirmando com força: «Quanta sujeira há na Igreja, e precisamente entre aqueles que, no sacerdócio, deveriam pertencer completamente a Ele! Quanta soberba, quanta autossuficiência!… A traição dos discípulos, a recepção indigna do seu Corpo e do seu Sangue é certamente o maior sofrimento do Redentor, o que Lhe trespassa o coração. Nada mais podemos fazer que dirigir-Lhe, do mais fundo da alma, este grito: Kyrie, eleison – Senhor, salvai-nos (cf. Mt 8, 25)» (Nona Estação).

2. Todos os outros membros sofrem com ele.

Se no passado a omissão pôde tornar-se uma forma de resposta, hoje queremos que seja a solidariedade, entendida no seu sentido mais profundo e desafiador, a tornar-se o nosso modo de fazer a história do presente e do futuro – Papa Francisco

A dimensão e a gravidade dos acontecimentos obrigam a assumir esse facto de maneira global e comunitária. Embora seja importante e necessário em qualquer caminho de conversão tomar conhecimento do que aconteceu, isso, em si, não basta. Hoje, como Povo de Deus, somos desafiados a assumir a dor de nossos irmãos feridos na sua carne e no seu espírito. Se no passado a omissão pôde tornar-se uma forma de resposta, hoje queremos que seja a solidariedade, entendida no seu sentido mais profundo e desafiador, a tornar-se o nosso modo de fazer a história do presente e do futuro, num âmbito onde os conflitos, tensões e, especialmente, as vítimas de todo o tipo de abuso possam encontrar uma mão estendida que as proteja e resgate da sua dor (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 228). Essa solidariedade exige que, por nossa vez, denunciemos tudo o que possa comprometer a integridade de qualquer pessoa. Uma solidariedade que exige a luta contra todas as formas de corrupção, especialmente a espiritual «porque trata-se duma cegueira cômoda e autossuficiente, em que tudo acaba por parecer lícito: o engano, a calúnia, o egoísmo e muitas formas subtis de autorreferencialidade, já que “também Satanás se disfarça em anjo de luz” (2 Cor 11, 14)» (Exort. ap. Gaudete et exultate, 165). O chamado de Paulo para sofrer com quem sofre é o melhor antídoto contra qualquer tentativa de continuar reproduzindo entre nós as palavras de Caim: «Sou, porventura, o guardião do meu irmão?» (Gn 4, 9).

Reconheço o esforço e o trabalho que são feitos em diferentes partes do mundo para garantir e gerar as mediações necessárias que proporcionem segurança e protejam à integridade de crianças e de adultos em situação de vulnerabilidade, bem como a implementação da “tolerância zero” e de modos de prestar contas por parte de todos aqueles que realizem ou acobertem esses crimes. Tardamos em aplicar essas medidas e sanções tão necessárias, mas confio que elas ajudarão a garantir uma maior cultura do cuidado no presente e no futuro.

Juntamente com esses esforços, é necessário que cada batizado se sinta envolvido na transformação eclesial e social de que tanto necessitamos. Tal transformação exige conversão pessoal e comunitária, e nos leva dirigir os olhos na mesma direção do olhar do Senhor. São João Paulo II assim o dizia: «se verdadeiramente partimos da contemplação de Cristo, devemos saber vê-Lo sobretudo no rosto daqueles com quem Ele mesmo Se quis identificar» (Carta ap. Novo millennio ineunte, 49). Aprender a olhar para onde o Senhor olha, estar onde o Senhor quer que estejamos, converter o coração na Sua presença. Para isso nos ajudarão a oração e a penitência. Convido todo o Povo Santo fiel de Deus ao exercício penitencial da oração e do jejum, seguindo o mandato do Senhor [1], que desperte a nossa consciência, a nossa solidariedade e o compromisso com uma cultura do cuidado e o “nunca mais” a qualquer tipo e forma de abuso.

É impossível imaginar uma conversão do agir eclesial sem a participação ativa de todos os membros do Povo de Deus. Além disso, toda vez que tentamos suplantar, silenciar, ignorar, reduzir em pequenas elites o povo de Deus, construímos comunidades, planos, ênfases teológicas, espiritualidades e estruturas sem raízes, sem memória, sem rostos, sem corpos, enfim, sem vidas [2]. Isto se manifesta claramente num modo anômalo de entender a autoridade na Igreja – tão comum em muitas comunidades onde ocorreram as condutas de abuso sexual, de poder e de consciência – como é o clericalismo, aquela «atitude que não só anula a personalidade dos cristãos, mas tende também a diminuir e a subestimar a graça batismal que o Espírito Santo pôs no coração do nosso povo» [3]. O clericalismo, favorecido tanto pelos próprios sacerdotes como pelos leigos, gera uma ruptura no corpo eclesial que beneficia e ajuda a perpetuar muitos dos males que denunciamos hoje. Dizer não ao abuso, é dizer energicamente não a qualquer forma de clericalismo.

É sempre bom lembrar que o Senhor, «na história da salvação, salvou um povo. Não há identidade plena, sem pertença a um povo. Por isso, ninguém se salva sozinho, como indivíduo isolado, mas Deus atrai-nos tendo em conta a complexa rede de relações interpessoais que se estabelecem na comunidade humana: Deus quis entrar numa dinâmica popular, na dinâmica dum povo» (Exort. ap. Gaudete et exultate, 6). Portanto, a única maneira de respondermos a esse mal que prejudicou tantas vidas é vivê-lo como uma tarefa que nos envolve e corresponde a todos como Povo de Deus. Essa consciência de nos sentirmos parte de um povo e de uma história comum nos permitirá reconhecer nossos pecados e erros do passado com uma abertura penitencial capaz de se deixar renovar a partir de dentro. Tudo o que for feito para erradicar a cultura do abuso em nossas comunidades, sem a participação ativa de todos os membros da Igreja, não será capaz de gerar as dinâmicas necessárias para uma transformação saudável e realista. A dimensão penitencial do jejum e da oração ajudar-nos-á, como Povo de Deus, a nos colocar diante do Senhor e de nossos irmãos feridos, como pecadores que imploram o perdão e a graça da vergonha e da conversão e, assim, podermos elaborar ações que criem dinâmicas em sintonia com o Evangelho. Porque «sempre que procuramos voltar à fonte e recuperar o frescor original do Evangelho, despontam novas estradas, métodos criativos, outras formas de expressão, sinais mais eloquentes, palavras cheias de renovado significado para o mundo atual» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 11).

É imperativo que nós, como Igreja, possamos reconhecer e condenar, com dor e vergonha, as atrocidades cometidas por pessoas consagradas, clérigos, e inclusive por todos aqueles que tinham a missão de assistir e cuidar dos mais vulneráveis. Peçamos perdão pelos pecados, nossos e dos outros. A consciência do pecado nos ajuda a reconhecer os erros, delitos e feridas geradas no passado e permite nos abrir e nos comprometer mais com o presente num caminho de conversão renovada.

Da mesma forma, a penitência e a oração nos ajudarão a sensibilizar os nossos olhos e os nossos corações para o sofrimento alheio e a superar o afã de domínio e controle que muitas vezes se torna a raiz desses males. Que o jejum e a oração despertem os nossos ouvidos para a dor silenciada em crianças, jovens e pessoas com necessidades especiais. Jejum que nos dá fome e sede de justiça e nos encoraja a caminhar na verdade, dando apoio a todas as medidas judiciais que sejam necessárias. Um jejum que nos sacuda e nos leve ao compromisso com a verdade e na caridade com todos os homens de boa vontade e com a sociedade em geral, para lutar contra qualquer tipo de abuso de poder, sexual e de consciência.

Desta forma, poderemos tornar transparente a vocação para a qual fomos chamados a ser «um sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano» (Conc. Ecum. Vat. II, Lumen gentium, 1).

Quando experimentamos a desolação que nos produz essas chagas eclesiais, com Maria nos fará bem «insistir mais na oração» (S. Inácio de Loiola, Exercícios Espirituais), procurando crescer mais no amor e na fidelidade à Igreja – Papa Francisco

«Um membro sofre? Todos os outros membros sofrem com ele», disse-nos São Paulo. Através da atitude de oração e penitência, poderemos entrar em sintonia pessoal e comunitária com essa exortação, para que cresça em nós o dom da compaixão, justiça, prevenção e reparação. Maria soube estar ao pé da cruz de seu Filho. Não o fez de uma maneira qualquer, mas permaneceu firme de pé e ao seu lado. Com essa postura, Ela manifesta o seu modo de estar na vida. Quando experimentamos a desolação que nos produz essas chagas eclesiais, com Maria nos fará bem «insistir mais na oração» (cf. S. Inácio de Loyola, Exercícios Espirituais, 319), procurando crescer mais no amor e na fidelidade à Igreja. Ela, a primeira discípula, nos ensina a todos os discípulos como somos convidados a enfrentar o sofrimento do inocente, sem evasões ou pusilanimidade. Olhar para Maria é aprender a descobrir onde e como o discípulo de Cristo deve estar.

Que o Espírito Santo nos dê a graça da conversão e da unção interior para poder expressar, diante desses crimes de abuso, a nossa compunção e a nossa decisão de lutar com coragem.

Cidade do Vaticano, 20 de Agosto de 2018.

FRANCISCO

Durante um TEDx*  Talk, Mirjam Heine, ( Psicóloga e estudante de medicina) da Universidade de Würzburg, Alemanha, afirmou que “a pedofilia é uma orientação sexual natural, assim como a heterossexualidade”.

“De acordo com pesquisas atuais, a pedofilia é uma orientação sexual imutável”, argumentou Heine. “Assim como, por exemplo, a heterossexualidade. Ninguém escolhe ser pedófilo. Ninguém pode deixar de ser um.

“A diferença entre a pedofilia e outras orientações sexuais é que viver essa orientação sexual terminará em um desastre … É nossa responsabilidade superar nossos sentimentos negativos em relação aos pedófilos. E tratá-los com o mesmo respeito que tratamos as outras pessoas.

“Devemos aceitar que os pedófilos são pessoas que não escolheram sua sexualidade … Devemos aceitar que a pedofilia é uma preferência sexual, um pensamento, um sentimento e não um ato. Devemos diferenciar entre abuso sexual infantil e pedofilia. Não devemos aumentar o sofrimento dos pedófilos excluindo-os, culpando-os e ridicularizando-os ”.

  • Sob o lema “ideias que merecem ser espalhadas”, o TEDx é um programa de eventos locais, auto-organizados, que reúne pessoas para compartilhar ideias e conectar pessoas.

Confira abaixo

A Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara (EUA), hospeda um site que incentiva os pais permitirem que crianças de até quatro anos se envolvam em brincadeiras sexuais, afirmando que é “perfeitamente normal”, e que os cuidadores devem responder “positivamente” a tal comportamento.

O site SexInfo Online é mantido pelo departamento de sociologia da instituição e por estudantes “que estudaram tópicos avançados em sexualidade humana”, segundo a plataforma.

O site apresenta um número significativo de subseções e artigos relacionados à sexualidade humana. Um deles, “Sexualidade Infantil” , discute tópicos como “masturbação infantil”, “brincadeiras sexuais” e “reações” apropriadas a esses comportamentos pelos pais.

O site afirma que, para crianças pequenas, a autoestimulação sexual são “completamente normais”, encorajando os pais a permitirem tal comportamento.

Sobre o tema da “brincadeira sexual” entre crianças pequenas, os autores afirmam que é mais comum “entre as idades de quatro e sete anos” e que são “geralmente inofensivas”.

“As crianças podem demonstrar afeto a seus amigos, abraçando-se e beijando-se, ou tocando os genitais um do outro, o que é perfeitamente normal. Os pais não devem reagir de maneira negativa porque as crianças estão apenas explorando”, afirma o site.

“Se uma criança está realizando essas atividades excessivamente ou em público, os pais devem sentar e conversar com eles sobre como essas atividades devem ser feitas em particular, ao invés de tentar frustrar completamente a atividade”, acrescentam os autores.

Além disso, em relação à masturbação, as crianças “não devem aprender que a auto-exploração é suja ou ruim, mas que a masturbação é um assunto privado e não deve ser realizada em público”, afirma o site.

Em outro artigo intitulado “ Conversando com seus filhos sobre sexo”, o site sugere que os pais devem permitir que seus filhos assistam à pornografia.

“É importante que as crianças entendam que ver pornografia é um hábito normal e que elas não precisam se envergonhar disso”, afirma o guia.

O site não aconselha os pais a impedir que seus filhos assistam a pornografia; em vez disso, afirma que os pais devem dizer às crianças que o material pornográfico pode criar “expectativas sobre o sexo que não são realistas”.

Comentário:

O leitor desinformado acerca do ativismo sexual em curso no mundo, especialmente envolvendo o movimento pedófilo, certamente pensará que o site em questão está apenas ressaltando o comportamento exploratório das crianças no tocante à sexualidade. Puro engano.

Há um componente sexual na exploração das crianças envolvendo o próprio corpo. Esse componente é natural. Se tocar, de fato, faz parte do autoconhecimento, e quando isso envolve o prazer físico através das genitália, tem a ver com a “pulsão” da qual Sigmund Freud se refere ao falar de sexualidade infantil.

Entretanto, essa exploração não é “terra de ninguém” e também não deve ser deixada à revelia. Há uma diferença muito grande em compreender o comportamento e incentivá-lo, especialmente porque para a criança tal exploração não possui o mesmo significado sexual que nós adultos lhe atribuímos. É ai onde está o “X” da questão, que é a orientação dos pais.

A criança precisa conhecer limites, inclusive acerca da própria sexualidade. Isso não é um capricho ou uma função meramente repressora, mas uma – necessidade – vital para o seu desenvolvimento psicossexual, porque é através dos pais, que são seus modelos, que ela deve enxergar a si mesma e formar a sua identidade.

Está claro pela descrição do site, por exemplo, ao incentivar a exploração “em particular” da sexualidade (sugerindo também a participação de outros) consigo mesmo e principalmente da pornografia, que a intenção não tem relação alguma com a compreensão natural do comportamento sexual infantil, mas sim com o incentivo à erotização precoce.

O que está por trás disso é a intenção de se admitir a possibilidade de práticas sexuais entre adultos e crianças. Se trata de pedofilia!

Para que a pedofilia seja aceita como “normal”, primeiro é necessário fazer parecer que crianças possuem necessidades sexuais iguais às do adulto. Tal conceito é uma distorção da doutrina psicanalítica sobre sexualidade infantil, que não tem a ver com sexo, propriamente, mas sim com “pulsão” para a vida.

A insinuação de que crianças podem se explorar sexualmente no “particular” e também serem expostas a conteúdos pornográficos são formas de se adequar o comportamento infantil aos abusos sexuais praticados por adultos, manipulando crianças em função do que elas, naturalmente, não desejariam fazer.

Definitivamente, expor crianças à pornografia é abuso sexual psicológico, uma agressão e violação da sua inocência, capaz de deixar nelas sequelas emocionais profundas para o resto de suas vidas. Incentivar a exploração sexual nelas mesmas (que é diferente do auto conhecimento) e principalmente em outras pessoas, também.

Portanto, não aceite como normal o que alguns acadêmicos dizem ser “natural”. Eles não estão preocupados com o desenvolvimento sadio das crianças, mas com o interesse de moldar a sociedade de acordo com seus interesses.

Via Opinião Critica
Comentário: Will R. Filho

Nossas Crianças, por Alexandre Garcia  (Jornalista da Globo)

O volante Gabriel, do Corinthians, foi suspenso por dois jogos por causa de gesto obceno feito para a torcida do São Paulo. Ele pusera a mão sobre a parte da frente do calção, entre as pernas. Fico me perguntando se seria arte, na mesma cidade, quando aquela mãe induziu a filhinha a tocar num homem nu, deitado no chão. Em Jundiaí, a alguns quilômetros dali, um pai de 24 anos foi preso por estar fumando maconha no carro de vidros fechados, com seu bebê de uma semana deitado ao lado. Fico me perguntando porque estava aberta para crianças uma exposição em Porto Alegre que mostra um negro com o pênis de um branco na boca, enquanto outro branco o assedia por trás. A mesma exposição tem uma ovelha sendo violentada por duas pessoas, enquanto uma mulher pratica sexo com um cachorro. Não entendi porque isso estava num museu, aberto a crianças, e não numa casa noturna de shows de esquisitices sexuais e restrito a adultos.

Tampouco entendi a performance de um homem nu que esfrega num ralador uma imagem de Nossa Senhora. Em São Paulo, alguém que pensa que somos idiotas explicou que o homem nu é arte interativa com o corpo humano. Ora, arte com o corpo humano é o que a gente vê, e aplaude, no Cirque du Soleil. E a Veja, de que sou assinante, deve pensar que abandono meus neurônios ao abrir a revista. Comparou as garatujas da exposição de Porto Alegre a Leda e o Cisne, de Leonardo. Como piada, eu poderia acrescentar, no mesmo tom, que deveriam convidar o tarado ejaculador em ônibus para mandar uma foto a ser exposta entre as semelhantes manifestações de “arte”. As pinturas murais artesanais eróticas em Pompéia, têm um significado histórico que o mau-gosto do tal museu não tem.

Tudo bem, eu não gosto mas há milhões de gostam. Respeito. Só não aprovo, como cidadão, que abram as portas para as crianças se chocarem com essas agressões. Que limitem a adultos. Aprendi que arte é beleza, tem padrão estético, tem perfeição técnica, dá prazer intelectual. Há quem pense que arte é escatologia, agressão, garatujas ou até uma tela pintada de branco. Como disse Affonso Romano de Sant’Anna: “arte não é qualquer coisa que qualquer um diga que é arte, nem é crítico qualquer um que escreva sobre arte”.

No Peru, o povo encheu as ruas de Lima para exigir a retirada de doutrinação de crianças em assuntos sexuais no ensino público. E ganhou. Nas ruas, defenderam que as crianças são educadas pelos pais e parentes. No Senado brasileiro, excelentes senadores, como Ana Amélia (RS) e Magno Malta(ES) estão convocando os responsáveis por tais exposições a explicarem em CPI onde não estão agredindo o Estatuto da Criança e do Adolescente e qual o objetivo de envolverem crianças nos seus estranhos experimentos.

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Despertou uma grande repercussão o anúncio da renúncia de Marie Collins, vítima de abusos, da Comissão para a Proteção dos Menores instituída pelo Papa Francisco. Uma decisão que não abranda a luta contra o flagelo da pedofilia na Igreja. Essa é a convicção do padre Hans Zollner, membro da mesma Comissão e presidente do Centro para a Proteção dos Menores da Universidade Gregoriana.

“Marie Collins tinha me avisado da sua consideração de deixar a Comissão há cerca de quatro semanas. Certamente, estou muito descontente. É triste que ela tenha sentido a necessidade de sair. Na minha opinião, foi por causa do acúmulo de tantas frustrações que – eu conheço muito bem – uma vítima de abuso deve sentir, porque não vê aquela velocidade, aquela consistência da resposta, como ela disse, por parte de alguns escritórios da Santa Sé.”

O senhor recebeu reações por parte de vítimas dos abusos diante dessa decisão de Marie Collins?

Isso me desagrada muito, porque, obviamente, muitas das vítimas de abuso estão muito tristes, expressaram uma grande decepção, mas também entenderam que a situação é muito complexa, porque não falamos de uma instituição que reage na mesma velocidade em todos os escritórios. A própria Marie confirmou que colaboraremos também no futuro, como já fizemos no ano passado na formação de membros da própria Cúria. Como ela disse em uma das entrevistas, o balanço – são palavras dela – é positivo sobre o seu trabalho na Comissão, que continuará, e devemos nos comprometer com uma mudança de mentalidade. Aqui, falamos de uma mudança de cultura que não é feita instantaneamente, porque é preciso muita paciência, mas eu entendo que a sua paciência acabou. Sigamos em frente. Estou muito confiante de que podemos ser mais incisivos, porque eu acho que a mensagem que ela queria dar foi enviada.

Com a renúncia de Marie Collins, há um risco de que se enfraqueça o trabalho, a credibilidade em nível de opinião pública por parte da Comissão?

Certamente, o risco existe. A voz das vítimas não é representada por pessoas identificadas como vítimas, mas isso não significa que a voz das vítimas não esteja presente ou representada, porque todos nós, o cardeal O’Malley em primeiro lugar, encontramos centenas de vítimas de abuso. A voz das vítimas estará presente, e estou certo de que, mesmo com ou talvez por causa da ausência de Marie, estaremos ainda mais atentos para considerar aquilo que pensam, sentem, percebem as vítimas tanto com respeito ao trabalho da Comissão, quanto com aquela que é a tarefa da Comissão, transmitir ao Santo Padre recomendações precisas.

Essa situação ocorre quando estamos perto do quarto aniversário da eleição do Papa Francisco. Como o senhor dizia, a velocidade do processo talvez seja menor do que se podia esperar, mas é possível dizer que a luta contra a pedofilia na Igreja foi reforçada nos últimos anos?

Certamente sim. Eu posso testemunhar isso a partir das minhas visitas aos cinco continentes, a mais de 40 países. Em duas semanas, eu estarei na África do Sul e no Malawi. São países onde, até pouco tempos atrás, esse tema era tabu! Estamos fazendo muitas outras coisas: em maio, iremos para Bangkok para a Federação de todas as Conferências Episcopais da Ásia. É uma mudança em termos de desenvolvimento bastante rápido, conhecendo a Igreja, quer é a maior e a mais antiga instituição do mundo. Infelizmente, não tão veloz como todos nós gostaríamos, mas um órgão de 1,3 bilhão de membros não se move de um dia para o outro, quando falamos de mudança de atitudes, especialmente como a própria Marie Collins diz em uma das entrevistas concedidas, e que eu li há pouco tempo. Isso não acontece da noite para o dia.

Geralmente, reconhece-se ao Papa Francisco, até mesmo por parte de meios de comunicação nada próximos da Igreja, um forte compromisso contra essa chaga da pedofilia. Ultimamente, porém, alguns meios de comunicação criticaram o papa por não ser suficientemente severo com os sacerdotes que abusaram de menores. O que o senhor acha?

Em uma das notícias, foi apresentado um caso que, depois, foi extrapolado como se fosse uma mudança geral de atitude do papa para com aqueles que cometeram abusos. Isso não só não é verdade, quanto é exatamente o contrário! A principal linha daquela notícia sugere que há uma diluição da severidade… Não, o papa também disse isso há duas semanas no prefácio que escreveu para o livro de uma das vítimas [Daniel Pittet]. Ele diz claramente qual é e continua sendo a sua posição.

A reportagem é de Alessandro Gisotti, publicada no sítio da Radio Vaticana, 02-03-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

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Mentes pequenas discutem pessoas enquanto grandes mentes debatem idéias. Trata-se de um lugar comum; mas todo lugar comum encerra importantes verdades. As pessoas passam e seu horizonte de atuação é muito restrito; as idéias permanecem, transcendem os homens e modificam o mundo. Discutir pessoas, destarte, é mesquinho, é pequeno, é insignificante. Quem detém pretensões um pouco mais ambiciosas precisa voltar-se para as idéias que levam as pessoas a agirem de tal ou qual maneira.

As idéias, contudo, para produzirem os seus efeitos no mundo, precisam de tempo. Raras vezes os primeiros propagadores de uma nova ideia verão todas as consequências de sua disseminação. Talvez não fosse claro, por exemplo, aos adeptos entusiasmados da revolução sexual da década de 60 que, poucos anos depois, crianças de 12 anos estariam fazendo filmes pornográficos. Por esses dias eu ouvia uma professora comentar que os anos 80 foram estranhos — eu já o comentei aqui. De fato foram tempos sinistros aqueles; considerá-los imprevisíveis, contudo, parece-me excessiva ingenuidade. O abuso sexual infantil é uma lástima sob quaisquer aspectos deplorável. Creditá-lo à Igreja Católica, no entanto, é de uma hipocrisia avassaladora . Ora, não é possível esquecer — para ficar só no exemplo talvez mais paradigmático — que, há bem pouco tempo, a sexualidade infantil mereceu o apoio entusiasmado e aberto do cinema nacional (veja foto abaixo); e de uma maneira tão constrangedora que a protagonista do filme, posteriormente, empregou sem sucesso a sua fortuna para tentar removê-lo de circulação.

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Não se diga que foi apenas uma excentricidade isolada da época: hoje mesmo, em pleno terceiro milênio, não falta quem chame de “cultura” o funk que estimula o estupro de meninas. Ora, as idéias têm consequências, por mais que o ignorem os seus propagadores. Nos dias de hoje parece haver um certo consenso de que o abuso sexual de crianças é uma coisa condenável. No entanto, somente a Igreja Católica o tem consistentemente condenado com a devida coerência! Ninguém faz mais que a Igreja contra a pedofilia. Recentemente se noticiaram novas medidas tomadas pela Santa Sé para facilitar a responsabilização de bispos que forem lenientes em casos de abusos infantis. Fui procurar; o documento que o Papa Francisco promulgou no último 4 de junho chama-se Come una madre amorevole— assim, em italiano mesmo, fugindo ao latim com que se costuma dar título aos documentos pontifícios. A Mãe Amorosa revela-se aqui implacável logo no primeiro artigo: os bispos podem ser legitimamente removidos de suas dioceses se a sua negligência provocar ou não impedir que seja provocado um grave dano a alguém.

Parágrafo primeiro: este dano pode ser físico, moral, espiritual ou patrimonial.

Parágrafo segundo: o bispo pode ser removido ainda que sua negligência não constitua culpa pessoal grave.

Parágrafo terceiro: em casos de abusos sexuais, basta que a indiligência seja grave (em oposição à molto grave do parágrafo antecedente).

Fico pensando em que hipótese um bispo pode ser negligente em matéria de abuso infantil e, ao mesmo tempo, não ser moralmente réu de culpa grave. Porque é evidente que a negligência pode configurar pecado mortal — e, para afastá-lo, é preciso que o agente ou não tenha visto com clareza a dimensão do problema, ou não dispusesse de plenas condições para o evitar. Em uma palavra: a negligência só não implica em pecado mortal se ela não for exigível. Mas, ora, se a atitude que se omitiu não era exigível, é ainda possível dizer que subsiste a própria negligência? Afinal, ser negligente é precisamente deixar de fazer algo que devia ser feito. Se devia ser feito, como é possível que não importe em culpa pessoal? Se não devia, como se pode falar ainda em negligência?

Penso que a novidade do documento reside precisamente nesta possibilidade de responsabilizar pessoas sobre as quais não é possível formar com segurança um juízo moral negativo. Fui olhar o Sacramentorum Sanctitatis Tutelae, nele, não encontrei semelhante previsão; a Graviora Delicta — que afirma ser «Congregationi pro Doctrina Fidei reservata» , entre outros, o «delictum contra sextum Decalogi praeceptum cum minore infra aetatem duodeviginti annorum a clerico commissum» — tampouco a traz. Não me recordo de a ter já visto em algum lugar — e, no entanto, ei-la reluzindo no frontispício da Madre Amorevole do Papa Francisco!

No Direito Penal secular isso provavelmente seria considerado responsabilidade objetiva — a possibilidade de se punir pessoas sem que lhes esteja caracterizado o dolo ou a culpa — e os doutrinadores contemporâneos, ciosos das garantias individuais contra a hipertrofia punitiva estatal, esmerar-se-iam por pintá-la aos olhos de todos como uma excrescência odiosa, não sossegando enquanto não a lograssem proscrever do Ordenamento Jurídico. No entanto, a justiça de Deus não deve prestar contas à justiça dos homens e, se é verdade que Leviathan não pode aplicar uma pena sem um fato típico, antijurídico e culpável, a Esposa de Cristo pode, sim, prescindir dessa culpabilidade na hora de desferir os golpes necessários à proteção dos Seus filhos.

É evidente que pode. Mais até: deve. Em se tratando de uma matéria grave como o abuso sexual de menores, mais do que estabelecer a culpa dos responsáveis importa fazer cessar o abuso e tomar medidas para que ele não se repita. Se determinado bispo não foi capaz de impedir a lepra da pedofilia de apodrecer parte do seu clero, é evidente que este bispo precisa ser substituído independente de sua culpa própria na propagação da epidemia — porque o papel do bispo é proteger os fiéis a ele confiados, e este dever é grave demais para que alguém possa eximir-se dele simplesmente dizendo “não consigo”. Ora, uma pessoa pode, perfeitamente, ser pessoalmente incapaz de enfrentar pervertidos sem que isso lhe acarrete culpa particular alguma. No entanto, tal pessoa não pode ser bispo católico. Não pode, porque de um bispo se exige mais do que de um católico comum. É bom que seja assim. Não pode não ser assim.

O abuso sexual de crianças é uma coisa terrível; nossa sociedade doente, no entanto, encontra e sempre encontrou mil modos de condescender com essa mácula! Lembremo-nos, o cinema brasileiro já filmou Amor Estranho Amor. Os nossos programas de auditório infantis já estiveram repletos de mulheres seminuas. As músicas cantadas ainda hoje por nossas crianças e adolescentes incentivam o sexo mais animalesco. O STF já há alguns anos flexibilizou a presunção de violência no estupro de vulnerável. O MEC há muito propõe aulas de educação sexual para crianças e jovens. Somente a Igreja é de uma intolerância obstinada, medieval, contra o sexo infantil. Somente a Igreja afirma, sozinha, que o sexo é sagrado e que o seu lugar é dentro do Matrimônio com vistas à formação de uma família. Somente a Igreja prega, sozinha, que é preciso fugir do pecado e das ocasiões de pecado, e que é preciso mortificar os sentidos, e que a pornografia é pecado grave, e que certas modas imodestas muito ofendem a Nosso Senhor. Somente a Igreja ensina, sozinha, que o consentimento mútuo não elide o pecado contra a castidade, e que as depravações sexuais exaltadas pelo mundo moderno não deixam de ser depravações quando são consentidas. E, agora, somente a Igreja, sozinha, determina punição independente de culpa para quem não faz cessar os abusos sexuais sofridos por menores que de algum modo estavam sob sua responsabilidade.A pedofilia é uma desgraça que cresce assustadoramente no mundo sob o impulso das concepções modernas a respeito do sexo. E somente a Igreja a combate com a coerência exigida. Somente à luz d’Ela este mal poderá ser vencido. Apenas esta Mãe Amorosa é capaz de proteger verdadeiramente os pequenos e indefesos.

Fonte Original http://www.deuslovult.org/

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Há mentiras que são ditas usando a verdade como instrumento. Os que usam a verdade para conduzir à mentira são mais criminosos do que os que usam a mentira como instrumento de trabalho. A verdade não se rende à mentira; ela é conduzida até certo ponto, onde fica ancorada, mas a exploração da mentira fica a cargo dos aventureiros.

A revista Veja trouxe na capa desta semana um caso de pedofilia cometido por um padre em Goiás. Conta a reportagem que Fabiano Santos Gonzaga, 28 anos, abusou de um adolescente de 15 anos numa sauna de um clube. O garoto tem retardo mental e  sua compreensão do mundo é próxima à de uma criança de 9 anos de idade. Segundo a denúncia, o padre, ao ficar sozinho com o menino, obrigou-o a fazer sexo. Ao que consta, sem entender bem a gravidade do ocorrido, o menino pediu à mãe para lavar a boca e justificou o motivo. A mãe foi atrás do abusador e descobriu posteriormente que, embora vestido de “civil”, ele era, na verdade, um padre católico. O padre nega que o fato tenha ocorrido, mas, como o seu celular foi apreendido,  já se sabe que ele não vivia a castidade e mantinha relações homossexuais.

É um caso escandaloso! Como o Fides Press me dá liberdade para dizer o que desejo, então vamos ver não somente os fatos, mas os bastidores da notícia. Pois bem: dessa notícia resumida acima, a revista Veja cria uma capa em letras garrafais: “Pedofilia na Igreja”. Acompanha o título a imagem de um falso padre, vestido de batina, segurando um terço e tapando a boca de uma criança assustada.

Ora, ora, pois, pois. Nesta capa, a revista Veja deu uma aula de vigarice. Nunca se devem usar termos genéricos em casos específicos, nem se associarem instituições a delitos de membros quando estes agem por orientação própria. O que se pretende com isso? É evidente que atacar um padre específico seria trabalho de amador. O que a grande imprensa deseja é atacar a Igreja, afugentar novas vocações e afastar dela as crianças. A Veja, mesmo tendo a foto do acusado, não pôde fazer seu terrorismo plenamente porque lhe faltava uma batina e um terço nas mãos. Coube à edição da revista fazer a montagem criminosa. Não era mais o padre Fabiano, mas sim a Igreja católica. Notou o truque? Definitivamente, não estou preparado para um mundo onde não existe culpa individual e sim pecados sociais.

O famosíssimo sociólogo italiano Massimo Introvigne analisou, em 2010, o panorama da pedofilia na Igreja visto a partir da imprensa. A conclusão dele é que se trata de um caso de pânico moral. Segundo Introvigne, o objetivo da imprensa é usar de uma famosa técnica de repetição discreta. A insistência em palavras-chaves leva o grande público a aderir a uma tese mesmo sem ter razões para isso. O público é induzido a crer que se trata de algo de tal obviedade que só pode ser visto como autoprovante. “Sempre vejo padre pedófilo na TV. Eureca: o clero é todo pedófilo”. Bocejando o seu clichê, o povo guiado pela grande mídia não poderá mais desassociar a Igreja da pedofilia.  Aqueles que ousarem analisar o problema serão taxados de “religiosos fanáticos”. Na prática, o problema material desaparece e começa uma discussão que previamente esvaziou o significado da palavra que deveria estar ao centro da questão: “pedofilia”. Por mais que se insista, o problema não vai ser posto na devida métrica.  Jamais será justificado o salto olímpico entre um sacerdote delinquente e um clero indecente. Sim, existem padres pedófilos. Mas quantos são? Pouco importa. Essa análise é típica de fiéis fanáticos, dizem.

Introvigne mostrou que, num período de várias décadas, cem (100) padres foram denunciados e condenados na Itália, enquanto 6 mil professores de Educação Física sofriam condenação pelo mesmo delito. Na Alemanha, desde 1995, existiram 210 mil denúncias de abusos. Dessas 210 mil, 300 estavam ligadas ao clero, ou seja, menos de 0,2%. Por que só nos ocupamos das 300 denúncias contra a Igreja? Sim, um caso que fosse seria um absurdo, mas negar a proporção dos fatos é render-se à mentira. Não, não desejo justificar nenhum crime. Padres que se envolveram em pedofilia devem ser imediatamente expulsos do clero e presos. A Igreja tem hoje mais de 400 mil padres no mundo.

Alguém poderia contra-argumentar que o importante é saber que existe o crime, não quantos são. Por que não? Ora, qual instituição não tem pedofilia? Definitivamente é uma vergonha que exista um membro da Igreja envolvido nisso, mas negar as devidas proporções dos crimes é lógica de psicopata.

Neste vendaval, alguém perguntará: “Até quando a Igreja manterá o celibato sacerdotal?”. Respondo com uma indagação: por que um homem que se abstém do sexo começaria a sentir atração por crianças? Enquanto não obtiver uma resposta, continuarei defensor do celibato. Mas, como perguntar não ofende, gostaria de indagar à editora Abril, dona da revista Veja, se a erotização das crianças ou o bombardeio sexual em revistas como Nova Escola pode gerar algum tipo de fomento da pedofilia. Quer brincar de apontar a promoção da pedofilia, dona Abril? Vamos brincar!

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Para bater na Igreja, qualquer instrumento serve. No Brasil, a CPI da Pedofilia, por exemplo, considerou como prova de crime de pedofilia um vídeo em que o monsenhor Luis Marques Barbosa, falecido em 2014, mantinha uma relação homossexual com uma “criança” de 20 anos (sic). Claro que é contestável. Afinal, quem estava sendo abusado? O “bebê” de 20 anos ou o monsenhor de 83? “Ah, mas ele deveria seguir o celibato”, retruca um espertão. É evidente! Mas não venha chamar de pedofilia o que não é.

Na verdade, temos uma imagem associada a esta palavra que ajuda a destruir os fatos concretos que deveriam ser analisados. A palavra “pedofilia” traz a imagem de uma pobre criança sem ter o que fazer enquanto um adulto, que detém todos os meios de ação, a obriga a manter relações sexuais. Neste caso poderíamos dizer isso? Acho que não.

Enquanto qualquer argumento for válido para atacar a honra da Igreja, não haverá discussão séria.

___________________

Renato Aquino, em Fides Press

Bispos - foto de costas

A Sala de Imprensa do Vaticano publicou nota sobre o Motu Proprio que decreta a remoção do cargo dos bispos que ocultem casos de abusos sexuais (explicada embaixo, em preto)

O Papa Francisco divulgou novas orientações legislativas que preveem a remoção do cargo de bispos que sejam considerados negligentes na gestão de casos de abusos sexuais de menores e adultos vulneráveis.

Os responsáveis por dioceses católicas dos vários ritos podem ser “legitimamente” removidos do seu encargo, caso se determine que tenham “por negligência, realizado ou omitido atos que tenham provocado dano grave a outros”, tanto a pessoas como à comunidade.

O Motu Proprio (documento legislativo de iniciativa pessoal do pontífice), intitulado ‘Como uma mãe amorosa’, sublinha que “a missão de proteção e do cuidado” diz respeito à toda Igreja, mas envolve em particular os bispos.

“O bispo diocesano ou o eparca pode ser removido apenas quando tenha objetivamente falhado de maneira grave à diligência que lhe é pedida pelo seu ofício pastoral, ainda que sem grave culpa moral da sua parte”, precisa.

No caso de abusos sobre menores ou adultos vulneráveis “é suficiente que a falta de diligência seja grave”.

“O dano pode ser equilíbrio físico, moral ou espiritual”, especifica o documento assinado por Francisco.

O Papa sublinha que “empregar uma particular diligência” em proteger aqueles que são “os mais vulneráveis entre as pessoas a eles confiadas” é dever dos bispos diocesanos e dos superiores maiores de Institutos Religiosos e das Sociedades de Vida Apostólica de Direito Pontifício.

Francisco indica também que quando os indícios são “sérios” a autoridade competente da Cúria Romana pode começar “uma investigação” e informar a pessoa que tem a oportunidade de defesa “com os meios previstos pela lei”, através de depoimentos e documentos.

Após essa apresentação, o organismo da Santa Sé pode “decidir” fazer “uma investigação suplementar” mais aprofundada.

O artigo seguinte explica que, antes de decidir, a Congregação competente deve reunir-se, se necessário, com outros bispos da Conferência Episcopal à qual o investigado faz parte.

Francisco indica que se o organismo Cúria Romana considerar que o bispo em causa deve ser afastado há duas possibilidades: através de “decreto de destituição, no menor tempo possível” ou fraternalmente convidar o prelado a “apresentar a renúncia num período de 15 dias”, após o qual se pode “emitir um decreto de destituição”.

O quinto e último artigo estabelece que a decisão final deve ser apresentada “à aprovação específica” do Papa antes da “decisão definitiva” é assistido por um “colégio de juristas”.

Francisco recorda que o Direito Canônico já prevê “a possibilidade da remoção do ofício eclesiástico por ‘causas graves’” e com o Motu Proprio ‘Como uma mãe amorosa’ quer “precisar” que nessas causas está incluída “a negligência dos bispos” relativas “aos casos de abusos sexuais contra menores e adultos vulneráveis”, como já era previsto pelo Motu Proprio do Papa São João Paulo II ‘Sacramentorum Sanctitatis Tutela’, que foi atualizado por Bento XVI.

A Carta apostólica insiste sobre a importância do cuidado vigilante da proteção dos menores e dos adultos vulneráveis, exigindo uma “diligência particular”.

Assim, precisa que entre as “causas graves” que justificam a remoção dos Cargos eclesiásticos, também dos Bispos, é a negligência no que diz respeito aos casos de abusos sexuais cometidos contra menores ou adultos vulneráveis.

Trata-se de uma Lei que estabelece um Procedimento a ser seguido pela atuação do Cânone já presente no CIC e CCEO (193§1 CIC, 975§1 CCEO).

Não se trata de um procedimento penal, porque não se trata de um “delito” realizado, mas de casos de “negligência” por parte dos Bispos ou Superiores religiosos.

A “instrutória” dos casos de negligência cabe às Congregações competentes, que são 4:

– Bispos
– Evangelização dos Povos
– Igrejas Orientais
– Institutos de Vida Consagrada e Sociedade de Vida Apostólica

A Congregação para a Doutrina da Fé não é chamada em causa porque não se trata de delitos de abuso, mas de negligência no ofício.

Junto às Congregações já existem os  Escritórios disciplinares ou análogos.

Chama a atenção dois pontos:

– A falta de diligência pode existir também “sem grave culpa moral” por parte do Bispo (artigo 1§2).

– Para a remoção, no caso dos abusos de menores “é suficiente que a falta de diligência seja grave” (artigo 1§3), enquanto nos outros casos se requer falta de diligência “muito grave” (artigo 1§2).

Tratando-se de decisões importantes sobre Bispos, a aprovação específica depende do Santo Padre.

Nova é a constituição de um “Colégio de juristas” que assessorará  o Santo Padre antes que tome uma decisão definitiva. Se pode prever que tal Colégio seja constituído por Cardeais e Bispos.

Nota: Tratando-se de uma normativa sobre Procedimentos não se põe a questão da retroatividade ou não, porque a lei sobre a possibilidade de remoção “por causas graves” já existia. De agora em diante, o procedimento para a aplicação do Cânone 193§1 é a que foi estabelecida.

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Foi no final de outono de 2001. A cobertura de notícias sobre os ataques de 11 de setembro perdia a sua força e meia dúzia de jornalistas de investigação trabalhavam juntos em uma sala de imprensa em Boston. Estavam reunidos em torno da seguinte grande história:

Desde o começo do verão, a equipe havia rastreado evidências acreditáveis de abusos sexuais cometidos por mais de 70 sacerdotes nessa Arquidiocese. Nenhum dos casos havia sido divulgado. A história era grande, mas ainda não era suficiente.

Segundo o filme “Spotlight”, o qual relata como Boston Globe divulgou o escândalo de abusos sexuais do clero em 2002, o editor Marty Baron não só estava interessado em dar um golpe na Igreja. Ele queria fazer mais dano.

Em uma cena chave, Baron disse a sua equipe: “Provem que os sacerdotes estavam sendo protegidos de ser processados e que eram designados uma e outra vez”.

O filme termina quando a primeira edição de Globe sobre o escândalo chega nas ruas no domingo, 6 de janeiro de 2002. A propaganda diz: “Igreja permite abusos dos sacerdotes durante anos: Consciente dos antecedentes de Geoghan, a Arquidiocese o designa de paróquia em paróquia”.

Como o título do filme sugere, o filme “destaca” (spotlights) o trabalho dos jornalistas para evidenciar a má gestão das denúncias de abusos sexuais em Boston ao mais alto nível. Entretanto, o que o filme não fez foi contar a história do que aconteceu depois disso.

Depois das revelações sobre as investigações de Globe, o Bispo de Belleville, Wilton Gregory, então presidente da Conferência Episcopal dos Estados Unidos da América, emitiu uma declaração formal expressando uma “dor profunda pela responsabilidade destes abusos cometidos por alguns de nossos sacerdotes sob nossa vigilância”.

Em junho daquele ano, os bispos dos Estados Unidos decidiram que seria necessária uma política coordenada e uma resposta da conferência episcopal, e aprovaram por unanimidade a “Carta para a Proteção de Crianças e Jovens”.

É importante compreender que, antes de 2002, a maneira pela qual uma diocese investigava as acusações de abusos sexuais estava nas mãos do bispo local (a Arquidiocese de Denver emitiu primeiro seu Código de Conduta em 1991).

Com a nova Carta, iniciaram procedimentos uniformes para administrar as acusações de abusos sexuais não só do clero, mas também de professores leigos, funcionários das paróquias e qualquer outro adulto que tivesse contato com a juventude em nome da Igreja. Em uma ação sem precedentes, comprometeram-se a prover um “ambiente seguro” para todos as crianças nas atividades patrocinadas pela Igreja.

Outros componentes importantes foram uma política de “tolerância zero” para abusos sexuais, investigação de antecedentes para todos os funcionários da Igreja, obrigação de informar às autoridades civis, a retirada imediata dos acusados de seus ministérios, melhoramento na formação dos seminaristas e, o mais importante, ajuda às vítimas.

Em 2015, a Conferência Episcopal dos Estados Unidos da América informou que 2,4 milhões de adultos e 4,4 milhões de crianças foram formados para identificar e denunciar abusos. Quase todas as dioceses estabeleceram um escritório para coordenar a formação acerca de um ambiente seguro e para proporcionar apoio às vítimas de abusos. Cada diocese faz as denúncias às autoridades civis e trabalha com a lei em casos de conduta sexual imprópria. De acordo com as cifras divulgadas pelos bispos dos Estados Unidos, a Igreja gastou 2,8 bilhões de dólares para indenizar às vítimas.

Desde 2003, o primeiro ano de aplicação da carta, a Arquidiocese de Denver formou a mais de 65.000 adultos e continua treinando cerca de 4.000 a 5.000 a cada ano. 23.000 crianças estão capacitadas e são treinadas a cada ano, em seu nível de grau correspondente.

A Arquidiocese de Denver também colabora com o Estado do Colorado em seu esforço a fim de combater o abuso de crianças em todo o estado. A novidade deste ano é um número de telefone para todo o estado (1-844-CO-4-KIDS) que qualquer pessoa pode utilizar para informar casos de negligência ou abuso de menores.

A série do Boston Globe sobre o escândalo de abusos por parte do clero foi exatamente o que todo jornalista espera que seja seu trabalho – o estímulo que cause a mudança em um sistema que está falhando.

Por que o filme “Spotlight” ignorou os efeitos duradouros que continuaram sendo feitos após a investigação do Globe? Não se sabe, mas é evidente que fizeram muito bem para corrigir os erros do passado e isso é uma vitória para o Globe, para as vítimas e para todos nós.

Este artigo foi publicado originalmente por “El Pueblo Católico” em novembro de 2015. Outro dos dados que o filme não conta é que o ex-sacerdote John Geoghan, acusado de abusar de dezenas de menores, foi condenado à prisão em 2002 e morreu assassinado dentro do cárcere um ano depois.

ACI