reuters1908763_articoloNa manhã de segunda-feira, 9 de janeiro, o Papa Francisco recebeu em audiência no Vaticano os Embaixadores acreditados junto à Santa Sé, quando em seu discurso analisou a conjuntura mundial.

De fato, são 182 os Estados que atualmente mantém relações diplomáticas com a Santa Sé. Em 9 de dezembro de 2016, foram estabelecidas relações diplomáticas com a República islâmica da Mauritânia, em nível de Nunciatura Apostólica e de Embaixada. Aos supracitados Estados, somam-se a União Europeia e a Soberana Ordem Militar de Malta.

As Chancelarias de Embaixada com sede em Roma, incluídas aquelas da União Europeia e da Soberana Ordem Militar de Malta, somam 88, às quais se soma durante o ano, a Embaixada da Palestina, com a entrada em vigor do Acordo Global entre a Santa Sé e o Estado da Palestina de 26 de junho de 2015, e da Malásia.

Também têm sede em Roma os Escritórios da Liga dos Estados Árabes, a Organização internacional para as Migrações e o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados.

No decorrer de 2016 foram firmados três Acordos: em 20 de maio, o Acordo quadro entre a Santa Sé e a República Democrática do Congo em matérias de comum interesse; em 6 de setembro, o Acordo quadro entre a Santa Sé e a República Centro Africana, em matérias de comum interesse; em 22 de outubro, o Acordo quadro entre a Santa Sé e a República de Benin, relativo ao Estatuto Jurídico da Igreja Católica naquele país.

Além da entrada em vigor do Acordo Global entre a Santa Sé e o Estado da Palestina,  em 3 de março de 2016 foi ratificado o Acordo entre a Santa Sé e a República Democrática do Timor Leste, sobre o Estatuto Jurídico da Igreja Católica, enquanto em 15 de outubro de 2016, entrou em vigor a Convenção entre Santa Sé e o Governo da República italiana em matéria fiscal, que havia sido firmada em 1º de abril de 2015.

Já em 23 de novembro de 2016, entrou em vigor o ‘Avenant’ entre a Santa Sé e a República da França, firmado em 25 de julho precedente, às Convenções diplomáticas de 14 de maio e de 8 de setembro de 1828 e os ‘Avenants’ de 4 de maio de 1974, de 21 de janeiro de 1999 e de 12 de julho de 2005, relativos à igreja e ao Convento de Trinità dei Monti in Urbe (próximo à Praça de Espanha, centro de Roma).

Em 5 de setembro, por sua vez, foi selado um Memorandum de Intenções entre a Secretaria de Estado e o Governo dos Emirados Árabes Unidos, sobre a isenção mútua de Vistos de entrada para titulares de passaportes diplomáticos e de passaportes especiais (oficiais e de serviço).

Por fim, em 9 de setembro de 2016, a Santa Sé aderiu, também à norma e por conta do Estado da Cidade do Vaticano, à Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção, de 31 de outubro de 2013.

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Jorge Mario Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, havia declarado: “a perda do Estado Pontifício foi um evento positivo para a Igreja, porque assim é claro que o Papa governa sobre meio quilômetro quadrado”. São atualmente remotos os conflitos oitocentistas (que angustiaram tantos italianos) sobre a assim dita questão romana: a soberania dos Papas sobre Roma e uma parte da Itália. A perda destes domínios pareceu a muitos católicos o fim do mundo. Significou a ruptura entre o papado e a Itália unida com a abstenção dos católicos das eleições políticas até 1913. Paulo VI, que também considerava providencial o fim do Estado dos Papas, explicou assim o estado de alma da Igreja oitocentista: “O poder temporal tinha sido o escudo defensivo do poder espiritual”.

A velha questão foi resolvida, como é sabido, com os Pactos do Latrão de 1929, firmados por Mussolini e pelo cardeal Gasparri. O fundo da controversa questão era que o Papa não aceitava ser súdito do Estado italiano, mesmo com as garantias concedidas pela Lei das Garantias de 1871 (a extraterritorialidade do Vaticano e de outros edifícios; a imunidade do Pontífice como soberano, o direito de receber e enviar embaixadores, além de uma dotação financeira). Queria ser soberano sobre uma terra própria, enquanto os juristas discutiam se poderia existir soberania e subjetividade internacional – aquela da Santa Sé até 1929 sem controle de um território.

Desde 1929, os Papas tiveram um pequeníssimo território, chamado Estado da Cidade do Vaticano: a área de Roma compreendida entre os muros leoninos que os soldados italianos jamais ocuparam nem mesmo em 1870. Tanto que, durante a Segunda guerra mundial, o perímetro do Vaticano foi iluminado durante a noite, para evitar os bombardeios que atingiam a capital fascista. E, durante a ocupação alemã, em 1943-44, uma faixa branca delimitava a soberania vaticana na Praça São Pedro. O líder palestinense Arafat me disse certa vez que esta situação podia ser um modelo para Jerusalém hebraico-árabe. 

Hoje o prestígio internacional do Papa Bergoglio vai bem além das questões territoriais. Não é por certo aquele de um soberano, mas de um líder espiritual. Todavia, permanece o fato: O Papa governa sobre meio quilômetro quadrado vaticano, “revestido”…, disse Paulo VI apresentando-se à ONU em 1965, “de uma minúscula, quase simbólica soberania temporal, quanta lhe basta para ser livre de exercer a sua missão espiritual, e para assegurar qualquer um que trata com ele, que ele é independente…”.

É um paradoxo: um líder espiritual é ao mesmo tempo um soberano. Não há situações comparáveis em outras Igrejas cristãs ou religiões: desde 1959, desde o ingresso das tropas chinesas, o Dalai Lama não é mais o soberano do Tibete, enquanto a República monástica do Monte Athos é somente um território autônomo no âmbito da Grécia.

O Estado vaticano tem uma função instrumental com respeito à obra da Monte Athos. É a de ser titular de um corpo diplomático no mundo, os núncios (com uma função religiosa antes do que política), e a de receber embaixadores. Parece uma anomalia para as outras Igrejas cristãs. Mas atualmente entrou na prática e nas relações entre catolicismo e religiões. É uma estrutura a serviço da atividade pastoral do catolicismo e da obra de paz e diálogo do Papa. As antigas polêmicas estão distantes. De resto, a Igreja católica é uma internacional religiosa muito particular, coesa de modo forte com o seu centro, mas também articulada e presente em quase todos os Países do Mundo. A história foi bem além do mundo do poder temporal dos Papas.

 Andrea Riccardi, historiador da Igreja e fundador da Comunidade de Sant’Egidio, publicado por Corriere della Sera.

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Concluíram-se nesta quarta-feira, 16, os trabalhos da reunião do C9 (foto), o conselho dos cardeais encarregados de estudar a reforma da Cúria Romana e ajudar o papa no governo da Igreja universal. Depois dos dois primeiros encontros, que se referiram à Secretaria para a Economia e à Secretaria para a Comunicação, um próximo passo será a instituição de uma nova congregação, dedicada aos leigos, à família e aos temas relacionados com a vida.

Uma proposta do C9 nesse sentido já havia sido discutida na reunião dos chefes de dicastério da Cúria Romana e, depois, havia sido ilustrada e discutida por todos os cardeais reunidos em consistório em fevereiro passado, registrando um amplo consenso. O novo dicastério vai reunir as competências atualmente divididas entre o Pontifício Conselho para os Leigos, liderado pelo cardeal Stanislaw Rylko, e pelo Pontifício Conselho para a Família, dirigido pelo bispo Vincenzo Paglia.

A Pontifícia Academia para a Vida fará referência a nova estrutura, mas, enquanto os dois primeiros conselhos estão destinados a desaparecer, fundindo-se no novo órgão, a Academia – da qual também participam estudiosos não católicos – continuará existindo.

É significativo que o novo dicastério dedicado aos leigos assuma a estrutura de uma congregação, isto é, de um “ministério” vaticano do mais alto nível, como são as Congregações para a Doutrina da Fé, dos Bispos, do Clero, dos Religiosos, dos Santos e da Educação Católica. Um sinal que vai na direção de valorizar o laicado, segundo as indicações do Concílio Ecumênico Vaticano II.

Os cardeais do C9 apresentarão uma proposta bem definida ao Papa Francisco, que provavelmente não vai aguardar a conclusão do quadro das reformas e a nova constituição apostólica, sobre a qual o conselho dos purpurados está trabalhando.

Ainda em fevereiro passado, o diretor da Sala de Imprensa do Vaticano, Pe. Federico Lombardi, havia observado: “Nada impede que, durante esse processo de reforma, já se possam ter implementações mais específicas, a título experimental, depois retomadas na redação final”. A instituição da nova congregação poderia ocorrer em breve e prever um período de teste, para depois ser finalmente enquadrada no contexto geral da reforma.

Atualmente, os dois Pontifícios Conselhos de cuja fusão nascerá o novo dicastério dos leigos e da família têm a sua sede no Palácio Vaticano de São Calisto, em Trastevere.

Já se tinha falado várias vezes sobre a possibilidade de que, à frente da nova congregação, houvesse leigos, mas ainda em fevereiro passado o Pe. Lombardi havia excluído que o responsável último do dicastério pudesse ser um leigo. Embora não se descarte que sejam leigos os secretários ou secretários adjuntos da congregação.

Andrea Tornielli, publicada no sítio Vatican Inside.

AP2834781_Articolo1. Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai. O mistério da fé cristã parece encontrar nestas palavras a sua síntese. Tal misericórdia tornou-se viva, visível e atingiu o seu clímax em Jesus de Nazaré. O Pai, « rico em misericórdia » (Ef 2, 4), depois de ter revelado o seu nome a Moisés como « Deus misericordioso e clemente, vagaroso na ira, cheio de bondade e fidelidade » (Ex 34, 6), não cessou de dar a conhecer, de vários modos e em muitos momentos da história, a sua natureza divina. Na « plenitude do tempo » (Gl 4, 4), quando tudo estava pronto segundo o seu plano de salvação, mandou o seu Filho, nascido da Virgem Maria, para nos revelar, de modo definitivo, o seu amor. Quem O vê, vê o Pai (cf. Jo 14, 9). Com a sua palavra, os seus gestos e toda a sua pessoa,[1]Jesus de Nazaré revela a misericórdia de Deus.

2. Precisamos sempre de contemplar o mistério da misericórdia. É fonte de alegria, serenidade e paz. É condição da nossa salvação. Misericórdia: é a palavra que revela o mistério da Santíssima Trindade. Misericórdia: é o acto último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro. Misericórdia: é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. Misericórdia: é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado.

3. Há momentos em que somos chamados, de maneira ainda mais intensa, a fixar o olhar na misericórdia, para nos tornarmos nós mesmos sinal eficaz do agir do Pai. Foi por isso que proclamei um Jubileu Extraordinário da Misericórdia como tempo favorável para a Igreja, a fim de se tornar mais forte e eficaz o testemunho dos crentes.

O Ano Santo abrir-se-á no dia 8 de Dezembro de 2015, solenidade da Imaculada Conceição. Esta festa litúrgica indica o modo de agir de Deus desde os primórdios da nossa história. Depois do pecado de Adão e Eva, Deus não quis deixar a humanidade sozinha e à mercê do mal. Por isso, pensou e quis Maria santa e imaculada no amor (cf. Ef 1, 4), para que Se tornasse a Mãe do Redentor do homem. Perante a gravidade do pecado, Deus responde com a plenitude do perdão. A misericórdia será sempre maior do que qualquer pecado, e ninguém pode colocar um limite ao amor de Deus que perdoa. Na festa da Imaculada Conceição, terei a alegria de abrir a Porta Santa. Será então uma Porta da Misericórdia, onde qualquer pessoa que entre poderá experimentar o amor de Deus que consola, perdoa e dá esperança.

No domingo seguinte, o Terceiro Domingo de Advento, abrir-se-á a Porta Santa na Catedral de Roma, a Basílica de São João de Latrão. E em seguida será aberta a Porta Santa nas outras Basílicas Papais. Estabeleço que no mesmo domingo, em cada Igreja particular – na Catedral, que é a Igreja-Mãe para todos os fiéis, ou na Concatedral ou então numa Igreja de significado especial – se abra igualmente, durante todo o Ano Santo, uma Porta da Misericórdia. Por opção do Ordinário, a mesma poderá ser aberta também nos Santuários, meta de muitos peregrinos que frequentemente, nestes lugares sagrados, se sentem tocados no coração pela graça e encontram o caminho da conversão. Assim, cada Igreja particular estará directamente envolvida na vivência deste Ano Santo como um momento extraordinário de graça e renovação espiritual. Portanto o Jubileu será celebrado, quer em Roma quer nas Igrejas particulares, como sinal visível da comunhão da Igreja inteira.

4. Escolhi a data de 8 de Dezembro, porque é cheia de significado na história recente da Igreja. Com efeito, abrirei a Porta Santa no cinquentenário da conclusão do Concílio Ecuménico Vaticano II. A Igreja sente a necessidade de manter vivo aquele acontecimento. Começava então, para ela, um percurso novo da sua história. Os Padres, reunidos no Concílio, tinham sentido forte, como um verdadeiro sopro do Espírito, a exigência de falar de Deus aos homens do seu tempo de modo mais compreensível. Derrubadas as muralhas que, por demasiado tempo, tinham encerrado a Igreja numa cidadela privilegiada, chegara o tempo de anunciar o Evangelho de maneira nova. Uma nova etapa na evangelização de sempre. Um novo compromisso para todos os cristãos de testemunharem, com mais entusiasmo e convicção, a sua fé. A Igreja sentia a responsabilidade de ser, no mundo, o sinal vivo do amor do Pai.

Voltam à mente aquelas palavras, cheias de significado, que São João XXIII pronunciou na abertura do Concílio para indicar a senda a seguir: « Nos nossos dias, a Esposa de Cristo prefere usar mais o remédio da misericórdia que o da severidade. (…) A Igreja Católica, levantando por meio deste Concílio Ecuménico o facho da verdade religiosa, deseja mostrar-se mãe amorosa de todos, benigna, paciente, cheia de misericórdia e bondade com os filhos dela separados ».[2] E, no mesmo horizonte, havia de colocar-se o Beato Paulo VI, que assim falou na conclusão do Concílio: « Desejamos notar que a religião do nosso Concílio foi, antes de mais, a caridade. (…) Aquela antiga história do bom samaritano foi exemplo e norma segundo os quais se orientou o nosso Concílio. (…) Uma corrente de interesse e admiração saiu do Concílio sobre o mundo actual. Rejeitaram-se os erros, como a própria caridade e verdade exigiam, mas os homens, salvaguardado sempre o preceito do respeito e do amor, foram apenas advertidos do erro. Assim se fez, para que, em vez de diagnósticos desalentadores, se dessem remédios cheios de esperança; para que o Concílio falasse ao mundo actual não com presságios funestos mas com mensagens de esperança e palavras de confiança. Não só respeitou mas também honrou os valores humanos, apoiou todas as suas iniciativas e, depois de os purificar, aprovou todos os seus esforços. (…) Uma outra coisa, julgamos digna de consideração. Toda esta riqueza doutrinal orienta-se apenas a isto: servir o homem, em todas as circunstâncias da sua vida, em todas as suas fraquezas, em todas as suas necessidades ».[3]

Com estes sentimentos de gratidão pelo que a Igreja recebeu e de responsabilidade quanto à tarefa que nos espera, atravessaremos a Porta Santa com plena confiança de ser acompanhados pela força do Senhor Ressuscitado, que continua a sustentar a nossa peregrinação. O Espírito Santo, que conduz os passos dos crentes de forma a cooperarem para a obra de salvação realizada por Cristo, seja guia e apoio do povo de Deus a fim de o ajudar a contemplar o rosto da misericórdia. [4]

5. O Ano Jubilar terminará na solenidade litúrgica de Jesus Cristo, Rei do Universo, 20 de Novembro de 2016. Naquele dia, ao fechar a Porta Santa, animar-nos-ão, antes de tudo, sentimentos de gratidão e agradecimento à Santíssima Trindade por nos ter concedido este tempo extraordinário de graça. Confiaremos a vida da Igreja, a humanidade inteira e o universo imenso à Realeza de Cristo, para que derrame a sua misericórdia, como o orvalho da manhã, para a construção duma história fecunda com o compromisso de todos no futuro próximo. Quanto desejo que os anos futuros sejam permeados de misericórdia para ir ao encontro de todas as pessoas levando-lhes a bondade e a ternura de Deus! A todos, crentes e afastados, possa chegar o bálsamo da misericórdia como sinal do Reino de Deus já presente no meio de nós.

6. « É próprio de Deus usar de misericórdia e, nisto, se manifesta de modo especial a sua omnipotência ».[5] Estas palavras de São Tomás de Aquino mostram como a misericórdia divina não seja, de modo algum, um sinal de fraqueza, mas antes a qualidade da omnipotência de Deus. É por isso que a liturgia, numa das suas colectas mais antigas, convida a rezar assim: « Senhor, que dais a maior prova do vosso poder quando perdoais e Vos compadeceis…»[6] Deus permanecerá para sempre na história da humanidade como Aquele que está presente, Aquele que é próximo, providente, santo e misericordioso.

« Paciente e misericordioso » é o binómio que aparece, frequentemente, no Antigo Testamento para descrever a natureza de Deus. O facto de Ele ser misericordioso encontra um reflexo concreto em muitas acções da história da salvação, onde a sua bondade prevalece sobre o castigo e a destruição. Os Salmos, em particular, fazem sobressair esta grandeza do agir divino: « É Ele quem perdoa as tuas culpas e cura todas as tuas enfermidades. É Ele quem resgata a tua vida do túmulo e te enche de graça e ternura » (103/102, 3-4). E outro Salmo atesta, de forma ainda mais explícita, os sinais concretos da misericórdia: « O Senhor liberta os prisioneiros. O Senhor dá vista aos cegos, o Senhor levanta os abatidos, o Senhor ama o homem justo. O Senhor protege os que vivem em terra estranha e ampara o órfão e a viúva, mas entrava o caminho aos pecadores » (146/145, 7-9). E, para terminar, aqui estão outras expressões do Salmista: « [O Senhor] cura os de coração atribulado e trata-lhes as feridas. (…) O Senhor ampara os humildes, mas abate os malfeitores até ao chão » (147/146, 3.6). Em suma, a misericórdia de Deus não é uma ideia abstracta mas uma realidade concreta, pela qual Ele revela o seu amor como o de um pai e de uma mãe que se comovem pelo próprio filho até ao mais íntimo das suas vísceras. É verdadeiramente caso para dizer que se trata de um amor « visceral ». Provém do íntimo como um sentimento profundo, natural, feito de ternura e compaixão, de indulgência e perdão.

7. « Eterna é a sua misericórdia »: tal é o refrão que aparece em cada versículo do Salmo 136, ao mesmo tempo que se narra a história da revelação de Deus. Em virtude da misericórdia, todos os acontecimentos do Antigo Testamento aparecem cheios dum valor salvífico profundo. A misericórdia torna a história de Deus com Israel uma história da salvação. O facto de repetir continuamente « eterna é a sua misericórdia », como faz o Salmo, parece querer romper o círculo do espaço e do tempo para inserir tudo no mistério eterno do amor. É como se se quisesse dizer que o homem, não só na história mas também pela eternidade, estará sempre sob o olhar misericordioso do Pai. Não é por acaso que o povo de Israel tenha querido inserir este Salmo – o « grande hallel », como lhe chamam – nas festas litúrgicas mais importantes.

Antes da Paixão, Jesus rezou ao Pai com este Salmo da misericórdia. Assim o atesta o evangelista Mateus quando afirma que « depois de cantarem os salmos » (26, 30), Jesus e os discípulos saíram para o Monte das Oliveiras. Enquanto instituía a Eucaristia, como memorial perpétuo d’Ele e da sua Páscoa, Jesus colocava simbolicamente este acto supremo da Revelação sob a luz da misericórdia. No mesmo horizonte da misericórdia, viveu Ele a sua paixão e morte, ciente do grande mistério de amor que se realizaria na cruz. O facto de saber que o próprio Jesus rezou com este Salmo torna-o, para nós cristãos, ainda mais importante e compromete-nos a assumir o refrão na nossa oração de louvor diária: « eterna é a sua misericórdia ».

8. Com o olhar fixo em Jesus e no seu rosto misericordioso, podemos individuar o amor da Santíssima Trindade. A missão, que Jesus recebeu do Pai, foi a de revelar o mistério do amor divino na sua plenitude. « Deus é amor » (1 Jo 4, 8.16): afirma-o, pela primeira e única vez em toda a Escritura, o evangelista João. Agora este amor tornou-se visível e palpável em toda a vida de Jesus. A sua pessoa não é senão amor, um amor que se dá gratuitamente. O seu relacionamento com as pessoas, que se abeiram d’Ele, manifesta algo de único e irrepetível. Os sinais que realiza, sobretudo para com os pecadores, as pessoas pobres, marginalizadas, doentes e atribuladas, decorrem sob o signo da misericórdia. Tudo n’Ele fala de misericórdia. N’Ele, nada há que seja desprovido de compaixão.

Vendo que a multidão de pessoas que O seguia estava cansada e abatida, Jesus sentiu, no fundo do coração, uma intensa compaixão por elas (cf. Mt 9, 36). Em virtude deste amor compassivo, curou os doentes que Lhe foram apresentados (cf. Mt 14, 14) e, com poucos pães e peixes, saciou grandes multidões (cf. Mt 15, 37). Em todas as circunstâncias, o que movia Jesus era apenas a misericórdia, com a qual lia no coração dos seus interlocutores e dava resposta às necessidades mais autênticas que tinham. Quando encontrou a viúva de Naim que levava o seu único filho a sepultar, sentiu grande compaixão pela dor imensa daquela mãe em lágrimas e entregou-lhe de novo o filho, ressuscitando-o da morte (cf. Lc 7, 15). Depois de ter libertado o endemoninhado de Gerasa, confia-lhe esta missão: « Conta tudo o que o Senhor fez por ti e como teve misericórdia de ti » (Mc 5, 19). A própria vocação de Mateus se insere no horizonte da misericórdia. Ao passar diante do posto de cobrança dos impostos, os olhos de Jesus fixaram-se nos de Mateus. Era um olhar cheio de misericórdia que perdoava os pecados daquele homem e, vencendo as resistências dos outros discípulos, escolheu-o, a ele pecador e publicano, para se tornar um dos Doze. São Beda o Venerável, ao comentar esta cena do Evangelho, escreveu que Jesus olhou Mateus com amor misericordioso e escolheu-o: miserando atque eligendo.[7] Sempre me causou impressão esta frase, a ponto de a tomar para meu lema.

9. Nas parábolas dedicadas à misericórdia, Jesus revela a natureza de Deus como a dum Pai que nunca se dá por vencido enquanto não tiver dissolvido o pecado e superada a recusa com a compaixão e a misericórdia. Conhecemos estas parábolas, três em especial: as da ovelha extraviada e da moeda perdida, e a do pai com os seus dois filhos (cf. Lc 15, 1-32). Nestas parábolas, Deus é apresentado sempre cheio de alegria, sobretudo quando perdoa. Nelas, encontramos o núcleo do Evangelho e da nossa fé, porque a misericórdia é apresentada como a força que tudo vence, enche o coração de amor e consola com o perdão.

Temos depois outra parábola da qual tiramos uma lição para o nosso estilo de vida cristã. Interpelado pela pergunta de Pedro sobre quantas vezes fosse necessário perdoar, Jesus respondeu: « Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete » (Mt 18, 22) e contou a parábola do « servo sem compaixão ». Este, convidado pelo senhor a devolver uma grande quantia, suplica-lhe de joelhos e o senhor perdoa-lhe a dívida. Mas, imediatamente depois, encontra outro servo como ele, que lhe devia poucos centésimos; este suplica-lhe de joelhos que tenha piedade, mas aquele recusa-se e fá-lo meter na prisão. Então o senhor, tendo sabido do facto, zanga-se muito e, convocando aquele servo, diz-lhe: « Não devias também ter piedade do teu companheiro, como eu tive de ti? » (Mt 18, 33). E Jesus concluiu: « Assim procederá convosco meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar ao seu irmão do íntimo do coração » (Mt 18, 35).

A parábola contém um ensinamento profundo para cada um de nós. Jesus declara que a misericórdia não é apenas o agir do Pai, mas torna-se o critério para individuar quem são os seus verdadeiros filhos. Em suma, somos chamados a viver de misericórdia, porque, primeiro, foi usada misericórdia para connosco. O perdão das ofensas torna-se a expressão mais evidente do amor misericordioso e, para nós cristãos, é um imperativo de que não podemos prescindir. Tantas vezes, como parece difícil perdoar! E, no entanto, o perdão é o instrumento colocado nas nossas frágeis mãos para alcançar a serenidade do coração. Deixar de lado o ressentimento, a raiva, a violência e a vingança são condições necessárias para se viver feliz. Acolhamos, pois, a exortação do Apóstolo: « Que o sol não se ponha sobre o vosso ressentimento » (Ef 4, 26). E sobretudo escutemos a palavra de Jesus que colocou a misericórdia como um ideal de vida e como critério de credibilidade para a nossa fé: « Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia » (Mt 5, 7) é a bem-aventurança a que devemos inspirar-nos, com particular empenho, neste Ano Santo.

Na Sagrada Escritura, como se vê, a misericórdia é a palavra-chave para indicar o agir de Deus para connosco. Ele não Se limita a afirmar o seu amor, mas torna-o visível e palpável. Aliás, o amor nunca poderia ser uma palavra abstracta. Por sua própria natureza, é vida concreta: intenções, atitudes, comportamentos que se verificam na actividade de todos os dias. A misericórdia de Deus é a sua responsabilidade por nós. Ele sente-Se responsável, isto é, deseja o nosso bem e quer ver-nos felizes, cheios de alegria e serenos. E, em sintonia com isto, se deve orientar o amor misericordioso dos cristãos. Tal como ama o Pai, assim também amam os filhos. Tal como Ele é misericordioso, assim somos chamados também nós a ser misericordiosos uns para com os outros.

10. A arquitrave que suporta a vida da Igreja é a misericórdia. Toda a sua acção pastoral deveria estar envolvida pela ternura com que se dirige aos crentes; no anúncio e testemunho que oferece ao mundo, nada pode ser desprovido de misericórdia. A credibilidade da Igreja passa pela estrada do amor misericordioso e compassivo. A Igreja « vive um desejo inexaurível de oferecer misericórdia ».[8] Talvez, demasiado tempo, nos tenhamos esquecido de apontar e viver o caminho da misericórdia. Por um lado, a tentação de pretender sempre e só a justiça fez esquecer que esta é apenas o primeiro passo, necessário e indispensável, mas a Igreja precisa de ir mais além a fim de alcançar uma meta mais alta e significativa. Por outro lado, é triste ver como a experiência do perdão na nossa cultura vai rareando cada vez mais. Em certos momentos, até a própria palavra parece desaparecer. Todavia, sem o testemunho do perdão, resta apenas uma vida infecunda e estéril, como se se vivesse num deserto desolador. Chegou de novo, para a Igreja, o tempo de assumir o anúncio jubiloso do perdão. É o tempo de regresso ao essencial, para cuidar das fraquezas e dificuldades dos nossos irmãos. O perdão é uma força que ressuscita para nova vida e infunde a coragem para olhar o futuro com esperança.

11. Não podemos esquecer o grande ensinamento que ofereceu São João Paulo II com a sua segunda encíclica, a Dives in misericordia, que então surgiu inesperada suscitando a surpresa de muitos pelo tema que era abordado. Desejo recordar especialmente dois trechos. No primeiro deles, o Santo Papa assinalava o esquecimento em que caíra o tema da misericórdia na cultura dos nossos dias: « A mentalidade contemporânea, talvez mais que a do homem do passado, parece opor-se ao Deus de misericórdia e, além disso, tende a separar da vida e a tirar do coração humano a própria ideia da misericórdia. A palavra e o conceito de misericórdia parecem causar mal-estar ao homem, o qual, graças ao enorme desenvolvimento da ciência e da técnica nunca antes verificado na história, se tornou senhor da terra, a subjugou e a dominou (cf. Gn 1, 28). Um tal domínio sobre a terra, entendido por vezes unilateral e superficialmente, parece não deixar espaço para a misericórdia. (…) Por esse motivo, na hodierna situação da Igreja e do mundo, muitos homens e muitos ambientes guiados por um vivo sentido de fé, voltam-se quase espontaneamente, por assim dizer, para a misericórdia de Deus ».[9]

Além disso, São João Paulo II motivava assim a urgência de anunciar e testemunhar a misericórdia no mundo contemporâneo: « Ela é ditada pelo amor para com o homem, para com tudo o que é humano e que, segundo a intuição de grande parte dos contemporâneos, está ameaçado por um perigo imenso. O próprio mistério de Cristo (…) obriga-me igualmente a proclamar a misericórdia como amor misericordioso de Deus, revelada também no mistério de Cristo. Ele me impele ainda a apelar para esta misericórdia e a implorá-la nesta fase difícil e crítica da história da Igreja e do mundo ».[10] Tal ensinamento é hoje mais actual do que nunca e merece ser retomado neste Ano Santo. Acolhamos novamente as suas palavras: « A Igreja vive uma vida autêntica quando professa e proclama a misericórdia, o mais admirável atributo do Criador e do Redentor, e quando aproxima os homens das fontes da misericórdia do Salvador, das quais ela é depositária e dispensadora ».[11]

12. A Igreja tem a missão de anunciar a misericórdia de Deus, coração pulsante do Evangelho, que por meio dela deve chegar ao coração e à mente de cada pessoa. A Esposa de Cristo assume o comportamento do Filho de Deus, que vai ao encontro de todos sem excluir ninguém. No nosso tempo, em que a Igreja está comprometida na nova evangelização, o tema da misericórdia exige ser reproposto com novo entusiasmo e uma acção pastoral renovada. É determinante para a Igreja e para a credibilidade do seu anúncio que viva e testemunhe, ela mesma, a misericórdia. A sua linguagem e os seus gestos, para penetrarem no coração das pessoas e desafiá-las a encontrar novamente a estrada para regressar ao Pai, devem irradiar misericórdia.

A primeira verdade da Igreja é o amor de Cristo. E, deste amor que vai até ao perdão e ao dom de si mesmo, a Igreja faz-se serva e mediadora junto dos homens. Por isso, onde a Igreja estiver presente, aí deve ser evidente a misericórdia do Pai. Nas nossas paróquias, nas comunidades, nas associações e nos movimentos – em suma, onde houver cristãos –, qualquer pessoa deve poder encontrar um oásis de misericórdia.

13. Queremos viver este Ano Jubilar à luz desta palavra do Senhor: Misericordiosos como o Pai. O evangelista refere o ensinamento de Jesus, que diz: « Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso » (Lc 6, 36). É um programa de vida tão empenhativo como rico de alegria e paz. O imperativo de Jesus é dirigido a quantos ouvem a sua voz (cf. Lc 6, 27). Portanto, para ser capazes de misericórdia, devemos primeiro pôr-nos à escuta da Palavra de Deus. Isso significa recuperar o valor do silêncio, para meditar a Palavra que nos é dirigida. Deste modo, é possível contemplar a misericórdia de Deus e assumi-la como próprio estilo de vida.

14. A peregrinação é um sinal peculiar no Ano Santo, enquanto ícone do caminho que cada pessoa realiza na sua existência. A vida é uma peregrinação e o ser humano é viator, um peregrino que percorre uma estrada até à meta anelada. Também para chegar à Porta Santa, tanto em Roma como em cada um dos outros lugares, cada pessoa deverá fazer, segundo as próprias forças, uma peregrinação. Esta será sinal de que a própria misericórdia é uma meta a alcançar que exige empenho e sacrifício. Por isso, a peregrinação há-de servir de estímulo à conversão: ao atravessar a Porta Santa, deixar-nos-emos abraçar pela misericórdia de Deus e comprometer-nos-emos a ser misericordiosos com os outros como o Pai o é connosco.

O Senhor Jesus indica as etapas da peregrinação através das quais é possível atingir esta meta: « Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados. Dai e ser-vos-á dado: uma boa medida, cheia, recalcada, transbordante será lançada no vosso regaço. A medida que usardes com os outros será usada convosco » (Lc 6, 37-38). Ele começa por dizer para não julgar nem condenar. Se uma pessoa não quer incorrer no juízo de Deus, não pode tornar-se juiz do seu irmão. É que os homens, no seu juízo, limitam-se a ler a superfície, enquanto o Pai vê o íntimo. Que grande mal fazem as palavras, quando são movidas por sentimentos de ciúme e inveja! Falar mal do irmão, na sua ausência, equivale a deixá-lo mal visto, a comprometer a sua reputação e deixá-lo à mercê das murmurações. Não julgar nem condenar significa, positivamente, saber individuar o que há de bom em cada pessoa e não permitir que venha a sofrer pelo nosso juízo parcial e a nossa pretensão de saber tudo. Mas isto ainda não é suficiente para se exprimir a misericórdia. Jesus pede também para perdoar e dar. Ser instrumentos do perdão, porque primeiro o obtivemos nós de Deus. Ser generosos para com todos, sabendo que também Deus derrama a sua benevolência sobre nós com grande magnanimidade.

Misericordiosos como o Pai é, pois, o « lema » do Ano Santo. Na misericórdia, temos a prova de como Deus ama. Ele dá tudo de Si mesmo, para sempre, gratuitamente e sem pedir nada em troca. Vem em nosso auxílio, quando O invocamos. É significativo que a oração diária da Igreja comece com estas palavras: « Deus, vinde em nosso auxílio! Senhor, socorrei-nos e salvai-nos » (Sal 70/69, 2). O auxílio que invocamos é já o primeiro passo da misericórdia de Deus para connosco. Ele vem para nos salvar da condição de fraqueza em que vivemos. E a ajuda d’Ele consiste em fazer-nos sentir a sua presença e proximidade. Dia após dia, tocados pela sua compaixão, podemos também nós tornar-nos compassivos para com todos.

15. Neste Ano Santo, poderemos fazer a experiência de abrir o coração àqueles que vivem nas mais variadas periferias existenciais, que muitas vezes o mundo contemporâneo cria de forma dramática. Quantas situações de precariedade e sofrimento presentes no mundo actual! Quantas feridas gravadas na carne de muitos que já não têm voz, porque o seu grito foi esmorecendo e se apagou por causa da indiferença dos povos ricos. Neste Jubileu, a Igreja sentir-se-á chamada ainda mais a cuidar destas feridas, aliviá-las com o óleo da consolação, enfaixá-las com a misericórdia e tratá-las com a solidariedade e a atenção devidas. Não nos deixemos cair na indiferença que humilha, na habituação que anestesia o espírito e impede de descobrir a novidade, no cinismo que destrói. Abramos os nossos olhos para ver as misérias do mundo, as feridas de tantos irmãos e irmãs privados da própria dignidade e sintamo-nos desafiados a escutar o seu grito de ajuda. As nossas mãos apertem as suas mãos e estreitemo-los a nós para que sintam o calor da nossa presença, da amizade e da fraternidade. Que o seu grito se torne o nosso e, juntos, possamos romper a barreira de indiferença que frequentemente reina soberana para esconder a hipocrisia e o egoísmo.

Não podemos escapar às palavras do Senhor, com base nas quais seremos julgados: se demos de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede; se acolhemos o estrangeiro e vestimos quem está nu; se reservamos tempo para visitar quem está doente e preso (cf. Mt 25, 31-45). De igual modo ser-nos-á perguntado se ajudamos a tirar da dúvida, que faz cair no medo e muitas vezes é fonte de solidão; se fomos capazes de vencer a ignorância em que vivem milhões de pessoas, sobretudo as crianças desprovidas da ajuda necessária para se resgatarem da pobreza; se nos detivemos junto de quem está sozinho e aflito; se perdoamos a quem nos ofende e rejeitamos todas as formas de ressentimento e ódio que levam à violência; se tivemos paciência, a exemplo de Deus que é tão paciente connosco; enfim se, na oração, confiamos ao Senhor os nossos irmãos e irmãs. Em cada um destes « mais pequeninos », está presente o próprio Cristo. A sua carne torna-se de novo visível como corpo martirizado, chagado, flagelado, desnutrido, em fuga … a fim de ser reconhecido, tocado e assistido cuidadosamente por nós. Não esqueçamos as palavras de São João da Cruz: « Ao entardecer desta vida, examinar-nos-ão no amor ».[12]

16. No Evangelho de Lucas, encontramos outro aspecto importante para viver, com fé, o Jubileu. Conta o evangelista que Jesus voltou a Nazaré e ao sábado, como era seu costume, entrou na sinagoga. Chamaram-No para ler a Escritura e comentá-la. A passagem era aquela do profeta Isaías onde está escrito: « O espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu: enviou-me para levar a boa-nova aos que sofrem, para curar os desesperados, para anunciar a libertação aos exilados e a liberdade aos prisioneiros; para proclamar um ano de misericórdia do Senhor » (61,1-2). « Um ano de misericórdia »: isto é o que o Senhor anuncia e que nós desejamos viver. Este Ano Santo traz consigo a riqueza da missão de Jesus que ressoa nas palavras do Profeta: levar uma palavra e um gesto de consolação aos pobres, anunciar a libertação a quantos são prisioneiros das novas escravidões da sociedade contemporânea, devolver a vista a quem já não consegue ver porque vive curvado sobre si mesmo, e restituir dignidade àqueles que dela se viram privados. A pregação de Jesus torna-se novamente visível nas respostas de fé que o testemunho dos cristãos é chamado a dar. Acompanhem-nos as palavras do Apóstolo: « Quem pratica a misericórdia, faça-o com alegria » (Rm 12, 8).

17. A Quaresma deste Ano Jubilar seja vivida mais intensamente como tempo forte para celebrar e experimentar a misericórdia de Deus. Quantas páginas da Sagrada Escritura se podem meditar, nas semanas da Quaresma, para redescobrir o rosto misericordioso do Pai! Com as palavras do profeta Miqueias, podemos também nós repetir: Vós, Senhor, sois um Deus que tira a iniquidade e perdoa o pecado, que não Se obstina na ira mas Se compraz em usar de misericórdia. Vós, Senhor, voltareis para nós e tereis compaixão do vosso povo. Apagareis as nossas iniquidades e lançareis ao fundo do mar todos os nossos pecados (cf. 7, 18-19).

As páginas do profeta Isaías poderão ser meditadas, de forma mais concreta, neste tempo de oração, jejum e caridade. « O jejum que me agrada é este: libertar os que foram presos injustamente, livrá-los do jugo que levam às costas, pôr em liberdade os oprimidos, quebrar toda a espécie de opressão, repartir o teu pão com os esfomeados, dar abrigo aos infelizes sem casa, atender e vestir os nus e não desprezar o teu irmão. Então, a tua luz surgirá como a aurora, e as tuas feridas não tardarão a cicatrizar-se. A tua justiça irá à tua frente, e a glória do Senhor atrás de ti. Então invocarás o Senhor e Ele te atenderá, pedirás auxílio e te dirá: “Aqui estou!” Se retirares da tua vida toda a opressão, o gesto ameaçador e o falar ofensivo, se repartires o teu pão com o faminto e matares a fome ao pobre, a tua luz brilhará na escuridão, e as tuas trevas tornar-se-ão como o meio-dia. O Senhor te guiará constantemente, saciará a tua alma no árido deserto, dará vigor aos teus ossos. Serás como um jardim bem regado, como uma fonte de águas inesgotáveis » (58, 6-11).

A iniciativa « 24 horas para o Senhor », que será celebrada na sexta-feira e no sábado anteriores ao IV Domingo da Quaresma, deve ser incrementada nas dioceses. Há muitas pessoas – e, em grande número, jovens – que estão a aproximar-se do sacramento da Reconciliação e que frequentemente, nesta experiência, reencontram o caminho para voltar ao Senhor, viver um momento de intensa oração e redescobrir o sentido da sua vida. Com convicção, ponhamos novamente no centro o sacramento da Reconciliação, porque permite tocar sensivelmente a grandeza da misericórdia. Será, para cada penitente, fonte de verdadeira paz interior.

Não me cansarei jamais de insistir com os confessores para que sejam um verdadeiro sinal da misericórdia do Pai. Ser confessor não se improvisa. Tornamo-nos tal quando começamos, nós mesmos, por nos fazer penitentes em busca do perdão. Nunca esqueçamos que ser confessor significa participar da mesma missão de Jesus e ser sinal concreto da continuidade de um amor divino que perdoa e salva. Cada um de nós recebeu o dom do Espírito Santo para o perdão dos pecados; disto somos responsáveis. Nenhum de nós é senhor do sacramento, mas apenas servo fiel do perdão de Deus. Cada confessor deverá acolher os fiéis como o pai na parábola do filho pródigo: um pai que corre ao encontro do filho, apesar de lhe ter dissipado os bens. Os confessores são chamados a estreitar a si aquele filho arrependido que volta a casa e a exprimir a alegria por o ter reencontrado. Não nos cansemos de ir também ao encontro do outro filho, que ficou fora incapaz de se alegrar, para lhe explicar que o seu juízo severo é injusto e sem sentido diante da misericórdia do Pai que não tem limites. Não hão-de fazer perguntas impertinentes, mas como o pai da parábola interromperão o discurso preparado pelo filho pródigo, porque saberão individuar, no coração de cada penitente, a invocação de ajuda e o pedido de perdão. Em suma, os confessores são chamados a ser sempre e por todo o lado, em cada situação e apesar de tudo, o sinal do primado da misericórdia.

18. Na Quaresma deste Ano Santo, é minha intenção enviar os Missionários da Misericórdia. Serão um sinal da solicitude materna da Igreja pelo povo de Deus, para que entre em profundidade na riqueza deste mistério tão fundamental para a fé. Serão sacerdotes a quem darei autoridade de perdoar mesmo os pecados reservados à Sé Apostólica, para que se torne evidente a amplitude do seu mandato. Serão sobretudo sinal vivo de como o Pai acolhe a todos aqueles que andam à procura do seu perdão. Serão missionários da misericórdia, porque se farão, junto de todos, artífices dum encontro cheio de humanidade, fonte de libertação, rico de responsabilidade para superar os obstáculos e retomar a vida nova do Baptismo. Na sua missão, deixar-se-ão guiar pelas palavras do Apóstolo: « Deus encerrou a todos na desobediência, para com todos usar de misericórdia » (Rm 11, 32). Na verdade todos, sem excluir ninguém, estão chamados a acolher o apelo à misericórdia. Os missionários vivam esta chamada, sabendo que podem fixar o olhar em Jesus, « Sumo Sacerdote misericordioso e fiel » (Hb 2, 17).

Peço aos irmãos bispos que convidem e acolham estes Missionários, para que sejam, antes de tudo, pregadores convincentes da misericórdia. Organizem-se, nas dioceses, « missões populares », de modo que estes Missionários sejam anunciadores da alegria do perdão. Seja-lhes pedido que celebrem o sacramento da Reconciliação para o povo, para que o tempo de graça, concedido neste Ano Jubilar, permita a tantos filhos afastados encontrar de novo o caminho para a casa paterna. Os pastores, especialmente durante o tempo forte da Quaresma, sejam solícitos em convidar os fiéis a aproximar-se « do trono da graça, a fim de alcançar misericórdia e encontrar graça » (Hb 4, 16).

19. Que a palavra do perdão possa chegar a todos e a chamada para experimentar a misericórdia não deixe ninguém indiferente. O meu convite à conversão dirige-se, com insistência ainda maior, àquelas pessoas que estão longe da graça de Deus pela sua conduta de vida. Penso de modo particular nos homens e mulheres que pertencem a um grupo criminoso, seja ele qual for. Para vosso bem, peço-vos que mudeis de vida. Peço-vo-lo em nome do Filho de Deus que, embora combatendo o pecado, nunca rejeitou qualquer pecador. Não caiais na terrível cilada de pensar que a vida depende do dinheiro e que, à vista dele, tudo o mais se torna desprovido de valor e dignidade. Não passa de uma ilusão. Não levamos o dinheiro connosco para o além. O dinheiro não nos dá a verdadeira felicidade. A violência usada para acumular dinheiro que transuda sangue não nos torna poderosos nem imortais. Para todos, mais cedo ou mais tarde, vem o juízo de Deus, do qual ninguém pode escapar.

O mesmo convite chegue também às pessoas fautoras ou cúmplices de corrupção. Esta praga putrefacta da sociedade é um pecado grave que brada aos céus, porque mina as próprias bases da vida pessoal e social. A corrupção impede de olhar para o futuro com esperança, porque, com a sua prepotência e avidez, destrói os projectos dos fracos e esmaga os mais pobres. É um mal que se esconde nos gestos diários para se estender depois aos escândalos públicos. A corrupção é uma contumácia no pecado, que pretende substituir Deus com a ilusão do dinheiro como forma de poder. É uma obra das trevas, alimentada pela suspeita e a intriga. Corruptio optimi pessima: dizia, com razão, São Gregório Magno, querendo indicar que ninguém pode sentir-se imune desta tentação. Para a erradicar da vida pessoal e social são necessárias prudência, vigilância, lealdade, transparência, juntamente com a coragem da denúncia. Se não se combate abertamente, mais cedo ou mais tarde torna-nos cúmplices e destrói-nos a vida.

Este é o momento favorável para mudar de vida! Este é o tempo de se deixar tocar o coração. Diante do mal cometido, mesmo crimes graves, é o momento de ouvir o pranto das pessoas inocentes espoliadas dos bens, da dignidade, dos afectos, da própria vida. Permanecer no caminho do mal é fonte apenas de ilusão e tristeza. A verdadeira vida é outra coisa. Deus não se cansa de estender a mão. Está sempre disposto a ouvir, e eu também estou, tal como os meus irmãos bispos e sacerdotes. Basta acolher o convite à conversão e submeter-se à justiça, enquanto a Igreja oferece a misericórdia.

20. Neste contexto, não será inútil recordar a relação entre justiça e misericórdia. Não são dois aspectos em contraste entre si, mas duas dimensões duma única realidade que se desenvolve gradualmente até atingir o seu clímax na plenitude do amor. A justiça é um conceito fundamental para a sociedade civil, normalmente quando se faz referimento a uma ordem jurídica através da qual se aplica a lei. Por justiça entende-se também que a cada um deve ser dado o que lhe é devido. Na Bíblia, alude-se muitas vezes à justiça divina, e a Deus como juiz. Habitualmente é entendida como a observância integral da Lei e o comportamento de todo o bom judeu conforme aos mandamentos dados por Deus. Esta visão, porém, levou não poucas vezes a cair no legalismo, mistificando o sentido original e obscurecendo o valor profundo que a justiça possui. Para superar a perspectiva legalista, seria preciso lembrar que, na Sagrada Escritura, a justiça é concebida essencialmente como um abandonar-se confiante à vontade de Deus.

Por sua vez, Jesus fala mais vezes da importância da fé que da observância da lei. É neste sentido que devemos compreender as suas palavras, quando, encontrando-Se à mesa com Mateus e outros publicanos e pecadores, disse aos fariseus que O acusavam por isso mesmo: « Ide aprender o que significa: Prefiro a misericórdia ao sacrifício. Porque Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores » (Mt 9, 13). Diante da visão duma justiça como mera observância da lei, que julga dividindo as pessoas em justos e pecadores, Jesus procura mostrar o grande dom da misericórdia que busca os pecadores para lhes oferecer o perdão e a salvação. Compreende-se que Jesus, por causa desta sua visão tão libertadora e fonte de renovação, tenha sido rejeitado pelos fariseus e os doutores da lei. Estes, para ser fiéis à lei, limitavam-se a colocar pesos sobre os ombros das pessoas, anulando porém a misericórdia do Pai. O apelo à observância da lei não pode obstaculizar a atenção às necessidades que afectam a dignidade das pessoas.

A propósito, é muito significativo o apelo que Jesus faz ao texto do profeta Oseias: « Eu quero a misericórdia e não os sacrifícios » (6, 6). Jesus afirma que, a partir de agora, a regra de vida dos seus discípulos deverá ser aquela que prevê o primado da misericórdia, como Ele mesmo dá testemunho partilhando a refeição com os pecadores. A misericórdia revela-se, mais uma vez, como dimensão fundamental da missão de Jesus. É um verdadeiro desafio posto aos seus interlocutores, que se contentavam com o respeito formal da lei. Jesus, pelo contrário, vai além da lei, a sua partilha da mesa com aqueles que a lei considerava pecadores permite compreender até onde chega a sua misericórdia.

Também o apóstolo Paulo fez um percurso semelhante. Antes de encontrar Cristo no caminho de Damasco, a sua vida era dedicada a servir de maneira irrepreensível a justiça da lei (cf. Fl 3, 6). A conversão a Cristo levou-o a inverter a sua visão, a ponto de afirmar na Carta aos Gálatas: « Também nós acreditámos em Cristo Jesus, para sermos justificados pela fé em Cristo e não pelas obras da lei » (2, 16). A sua compreensão da justiça muda radicalmente: Paulo agora põe no primeiro lugar a fé, e já não a lei. Não é a observância da lei que salva, mas a fé em Jesus Cristo, que, pela sua morte e ressurreição, traz a salvação com a misericórdia que justifica. A justiça de Deus torna-se agora a libertação para quantos estão oprimidos pela escravidão do pecado e todas as suas consequências. A justiça de Deus é o seu perdão (cf. Sl 51/50, 11-16).

21. A misericórdia não é contrária à justiça, mas exprime o comportamento de Deus para com o pecador, oferecendo-lhe uma nova possibilidade de se arrepender, converter e acreditar. A experiência do profeta Oseias ajuda-nos, mostrando-nos a superação da justiça na linha da misericórdia. A época em que viveu este profeta conta-se entre as mais dramáticas da história do povo judeu. O Reino está próximo da destruição; o povo não permaneceu fiel à aliança, afastou-se de Deus e perdeu a fé dos pais. Segundo uma lógica humana, é justo que Deus pense em rejeitar o povo infiel: não observou o pacto estipulado e, consequentemente, merece a devida pena, ou seja, o exílio. Assim o atestam as palavras do profeta: « Não voltará para o Egipto, mas a Assíria será o seu rei, porque recusaram converter-se » (Os 11, 5). E todavia, depois desta reacção que faz apelo à justiça, o profeta muda radicalmente a sua linguagem e revela o verdadeiro rosto de Deus: « O meu coração dá voltas dentro de mim, comovem-se as minhas entranhas. Não desafogarei o furor da minha cólera, não voltarei a destruir Efraim; porque sou Deus e não um homem, sou o Santo no meio de ti e não me deixo levar pela ira » (11, 8-9). Santo Agostinho, de certo modo comentando as palavras do profeta, diz: « É mais fácil que Deus contenha a ira do que a misericórdia ».[13] É mesmo assim! A ira de Deus dura um instante, ao passo que a sua misericórdia é eterna.

Se Deus Se detivesse na justiça, deixaria de ser Deus; seria como todos os homens que clamam pelo respeito da lei. A justiça por si só não é suficiente, e a experiência mostra que, limitando-se a apelar para ela, corre-se o risco de a destruir. Por isso Deus, com a misericórdia e o perdão, passa além da justiça. Isto não significa desvalorizar a justiça ou torná-la supérflua. Antes pelo contrário! Quem erra, deve descontar a pena; só que isto não é o fim, mas o início da conversão, porque se experimenta a ternura do perdão. Deus não rejeita a justiça. Ele engloba-a e supera-a num evento superior onde se experimenta o amor, que está na base duma verdadeira justiça. Devemos prestar muita atenção àquilo que escreve Paulo, para não cair no mesmo erro que o apóstolo censurava nos judeus seus contemporâneos: « Por não terem reconhecido a justiça que vem de Deus e terem procurado estabelecer a sua própria justiça, não se submeteram à justiça de Deus. É que o fim da Lei é Cristo, para que, deste modo, a justiça seja concedida a todo o que tem fé » (Rm 10, 3-4). Esta justiça de Deus é a misericórdia concedida a todos como graça, em virtude da morte e ressurreição de Jesus Cristo. Portanto a Cruz de Cristo é o juízo de Deus sobre todos nós e sobre o mundo, porque nos oferece a certeza do amor e da vida nova.

22. O Jubileu inclui também o referimento à indulgência. Esta, no Ano Santo da Misericórdia, adquire uma relevância particular. O perdão de Deus para os nossos pecados não conhece limites. Na morte e ressurreição de Jesus Cristo, Deus torna evidente este seu amor que chega ao ponto de destruir o pecado dos homens. É possível deixar-se reconciliar com Deus através do mistério pascal e da mediação da Igreja. Por isso, Deus está sempre disponível para o perdão, não Se cansando de o oferecer de maneira sempre nova e inesperada. No entanto todos nós fazemos experiência do pecado. Sabemos que somos chamados à perfeição (cf. Mt 5, 48), mas sentimos fortemente o peso do pecado. Ao mesmo tempo que notamos o poder da graça que nos transforma, experimentamos também a força do pecado que nos condiciona. Apesar do perdão, carregamos na nossa vida as contradições que são consequência dos nossos pecados. No sacramento da Reconciliação, Deus perdoa os pecados, que são verdadeiramente apagados; mas o cunho negativo que os pecados deixaram nos nossos comportamentos e pensamentos permanece. A misericórdia de Deus, porém, é mais forte também do que isso. Ela torna-se indulgência do Pai que, através da Esposa de Cristo, alcança o pecador perdoado e liberta-o de qualquer resíduo das consequências do pecado, habilitando-o a agir com caridade, a crescer no amor em vez de recair no pecado.

A Igreja vive a comunhão dos Santos. Na Eucaristia, esta comunhão, que é dom de Deus, realiza-se como união espiritual que nos une, a nós crentes, com os Santos e Beatos cujo número é incalculável (Ap 7, 4). A sua santidade vem em ajuda da nossa fragilidade, e assim a Mãe-Igreja, com a sua oração e a sua vida, é capaz de acudir à fraqueza de uns com a santidade de outros. Portanto viver a indulgência no Ano Santo significa aproximar-se da misericórdia do Pai, com a certeza de que o seu perdão cobre toda a vida do crente. A indulgência é experimentar a santidade da Igreja que participa em todos os benefícios da redenção de Cristo, para que o perdão se estenda até às últimas consequências aonde chega o amor de Deus. Vivamos intensamente o Jubileu, pedindo ao Pai o perdão dos pecados e a indulgência misericordiosa em toda a sua extensão.

23. A misericórdia possui uma valência que ultrapassa as fronteiras da Igreja. Ela relaciona-nos com o judaísmo e o islamismo, que a consideram um dos atributos mais marcantes de Deus. Israel foi o primeiro que recebeu esta revelação, permanecendo esta na história como o início duma riqueza incomensurável para oferecer à humanidade inteira. Como vimos, as páginas do Antigo Testamento estão permeadas de misericórdia, porque narram as obras que o Senhor realizou em favor do seu povo, nos momentos mais difíceis da sua história. O islamismo, por sua vez, coloca entre os nomes dados ao Criador o de Misericordioso e Clemente. Esta invocação aparece com frequência nos lábios dos fiéis muçulmanos, que se sentem acompanhados e sustentados pela misericórdia na sua fraqueza diária. Também eles acreditam que ninguém pode pôr limites à misericórdia divina, porque as suas portas estão sempre abertas.

Possa este Ano Jubilar, vivido na misericórdia, favorecer o encontro com estas religiões e com as outras nobres tradições religiosas; que ele nos torne mais abertos ao diálogo, para melhor nos conhecermos e compreendermos; elimine todas as formas de fechamento e desprezo e expulse todas as formas de violência e discriminação.

24. O pensamento volta-se agora para a Mãe da Misericórdia. A doçura do seu olhar nos acompanhe neste Ano Santo, para podermos todos nós redescobrir a alegria da ternura de Deus. Ninguém, como Maria, conheceu a profundidade do mistério de Deus feito homem. Na sua vida, tudo foi plasmado pela presença da misericórdia feita carne. A Mãe do Crucificado Ressuscitado entrou no santuário da misericórdia divina, porque participou intimamente no mistério do seu amor.

Escolhida para ser a Mãe do Filho de Deus, Maria foi preparada desde sempre, pelo amor do Pai, para ser Arca da Aliança entre Deus e os homens. Guardou, no seu coração, a misericórdia divina em perfeita sintonia com o seu Filho Jesus. O seu cântico de louvor, no limiar da casa de Isabel, foi dedicado à misericórdia que se estende « de geração em geração » (Lc 1, 50). Também nós estávamos presentes naquelas palavras proféticas da Virgem Maria. Isto servir-nos-á de conforto e apoio no momento de atravessarmos a Porta Santa para experimentar os frutos da misericórdia divina.

Ao pé da cruz, Maria, juntamente com João, o discípulo do amor, é testemunha das palavras de perdão que saem dos lábios de Jesus. O perdão supremo oferecido a quem O crucificou, mostra-nos até onde pode chegar a misericórdia de Deus. Maria atesta que a misericórdia do Filho de Deus não conhece limites e alcança a todos, sem excluir ninguém. Dirijamos-Lhe a oração, antiga e sempre nova, da Salve Rainha, pedindo-Lhe que nunca se canse de volver para nós os seus olhos misericordiosos e nos faça dignos de contemplar o rosto da misericórdia, seu Filho Jesus.

E a nossa oração estenda-se também a tantos Santos e Beatos que fizeram da misericórdia a sua missão vital. Em particular, o pensamento volta-se para a grande apóstola da Misericórdia, Santa Faustina Kowalska. Ela, que foi chamada a entrar nas profundezas da misericórdia divina, interceda por nós e nos obtenha a graça de viver e caminhar sempre no perdão de Deus e na confiança inabalável do seu amor.

25. Será, portanto, um Ano Santo extraordinário para viver, na existência de cada dia, a misericórdia que o Pai, desde sempre, estende sobre nós. Neste Jubileu, deixemo-nos surpreender por Deus. Ele nunca Se cansa de escancarar a porta do seu coração, para repetir que nos ama e deseja partilhar connosco a sua vida. A Igreja sente, fortemente, a urgência de anunciar a misericórdia de Deus. A sua vida é autêntica e credível, quando faz da misericórdia seu convicto anúncio. Sabe que a sua missão primeira, sobretudo numa época como a nossa cheia de grandes esperanças e fortes contradições, é a de introduzir a todos no grande mistério da misericórdia de Deus, contemplando o rosto de Cristo. A Igreja é chamada, em primeiro lugar, a ser verdadeira testemunha da misericórdia, professando-a e vivendo-a como o centro da Revelação de Jesus Cristo. Do coração da Trindade, do íntimo mais profundo do mistério de Deus, brota e flui incessantemente a grande torrente da misericórdia. Esta fonte nunca poderá esgotar-se, por maior que seja o número daqueles que dela se abeirem. Sempre que alguém tiver necessidade poderá aceder a ela, porque a misericórdia de Deus não tem fim. Quanto insondável é a profundidade do mistério que encerra, tanto é inesgotável a riqueza que dela provém.

Neste Ano Jubilar, que a Igreja se faça eco da Palavra de Deus que ressoa, forte e convincente, como uma palavra e um gesto de perdão, apoio, ajuda, amor. Que ela nunca se canse de oferecer misericórdia e seja sempre paciente a confortar e perdoar. Que a Igreja se faça voz de cada homem e mulher e repita com confiança e sem cessar: « Lembra-te, Senhor, da tua misericórdia e do teu amor, pois eles existem desde sempre » (Sl 25/24, 6).

Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 11 de Abril – véspera do II Domingo de Páscoa ou da Divina Misericórdia – do Ano do Senhor de 2015, o terceiro de pontificado

 

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A Santa Sé revelou hoje que mais de 5,9 milhões de pessoas estiveram com o Papa no Vaticano, em diversas celebrações e encontros, ao longo de 2014.

Os dados foram divulgados pela Prefeitura da Casa Pontifícia, organismo da Santa Sé, e referem-se a 43 audiências semanais de quarta-feira (1,19 milhões de participantes) e audiências especiais (567 mil pessoas), celebrações litúrgicas na Basílica e na Praça de São Pedro (1,1 milhões), oração do ângelus e ‘regina coeli’ (3,04 milhões).

Estes são números aproximados e deixam de foram os dados relativos às cinco viagens internacionais (Terra Santa, Coreia do Sul, Albânia, Estrasburgo e Turquia) e às quatro viagens na Itália, incluindo uma visita ao cemitério militar de Redipuglia para evocar o centenário do início da I Guerra Mundial, para além de outras visitas a paróquias na Diocese de Roma.

Em 2013, mais de 6,5 milhões de pessoas estiveram com o Papa no Vaticano, em diversas celebrações e encontros, desde a sua eleição, em março.

A Prefeitura da Casa Pontifícia estima que no pontificado de Bento XVI (abril de 2005-fevereiro de 2013) mais de 21 milhões de pessoas tenham participado em encontros com o agora Papa emérito no Vaticano e na residência de verão de Castel Gandolfo.

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Os milhões de turistas que anualmente demandam a Cidade Eterna, Roma, entre os inúmeros pontos de interesse da Urbe, elegem a Basílica de S. Pedro e a mole de edificações em seu torno como um dos pontos altos da viagem. Todavia, poucos se lembram, ou até saberão, que ao adentrarem o espaço dentro do abraço da Colunata de Bernini, a Praça de S. Pedro, estão a entrar noutro Estado, soberano, independente: o Estado da Cidade do Vaticano.

Com 0,44 km2, este enclave dentro da cidade de Roma, logo da Itália, não possui fronteiras marítimas nem cursos de água, sendo o menor país do mundo. O espaço aéreo e o subsolo, por exemplo, estão interditos ao Estado italiano. Conta com cerca de mil habitantes, entre os quais o Sumo Pontífice, ou Papa, o Chefe do Estado que se distingue da Santa Sé, a diocese de Roma que dirige toda a Igreja Católica Apostólica Romana do mundo, com mais de um bilhião e 300 milhões de fiéis. São entidades distintas, com passaportes diferentes, com o Vaticano a usar o Italiano (e o Latim) como língua oficial, enquanto a Santa Sé usa o essencialmente Latim. O Estado da Cidade do Vaticano é o Estado, assim, que acolhe a Cadeira de Pedro, a “sede” da Igreja Católica. A Santa Sé, na pessoa do Papa, tem soberania no Estado da Cidade do Vaticano. Do ponto de vista diplomático, do direito internacional, o sujeito é a Santa Sé, o Governo central do território ou Estado que é o Vaticano. Este é governado pela Comissão Pontifícia para o Estado da Cidade do Vaticano, o Governo executivo do Estado. A Cúria Romana é por seu lado o órgão administrativo da Santa Sé.

O Estado da Cidade do Vaticano nasceu a 11 de Fevereiro de 1929 (ratificação a 7 de Junho desse ano), na sequência dos Acordos (Tratado de) Latrão, assinados entre a Santa Sé e o Reino de Itália, no caso entre o Papa Pio XI e Benito Mussolini, chefe do Governo fascista italiano.

Para muitos herdeiro dos antigos Estados Pontifícios (ou Papais), que existiram entre 751 e 1870, o Vaticano, nos acordos lateranenses, surgia como criação ex novo, pelo menos em teoria. Na prática, era a redução instituída do que foram em tempos os Estados Pontifícios, que ocuparam toda a região central da península de Itália até 1861, quando a monarquia italiana iniciou a sua integração na nação em reunificação, confinando-os à Cidade de Roma, fortemente defendida por tropas francesas, que se retirariam em 1870, por ordem de Napoleão III, para acudir às Guerras Franco-Prussianas, desprotegendo assim a Urbe. Em 1870, os Estados Pontifícios resumiam-se já, consequentemente, apenas ao interior da muralha do Vaticano, como consequência da entrada triunfal em Roma das tropas italianas (“Bersaglieri”), comandadas pelo rei Vitor Emanuel II. De facto, Pio IX, Papa, poder-se-ia dizer, deitara-se a 19 de Setembro em território pontifício, no Palácio de Latrão (onde residiam os Papas desde 1378, fim do Cisma do Ocidente, ou de Avinhão), acordando a 20 já em Itália, sendo obrigado a sair do que antes eram o que restava dos Estados Papais, Roma, para a nova realidade que eram os seus “domínios”, dentro da muralha vaticana. Mas nada ficara resolvido, nascia antes uma questão a dirimir com o novo reino de Itália, reunificado: a “Questão Romana”. Os ventos não corriam de feição para o Papa, pois a anexação de Roma e da região do Lácio pelos italianos fora mesmo sancionada de forma inequívoca pela população no célebre plebiscito de 2 de Outubro de 1870: em 135 mil 188 votantes, votaram favoravelmente 133 mil 681, registando-se apenas mil 507 contrários. O Senado aprovaria depois os resultados em 27 de Janeiro de 1871, confirmando a transferência da capital de Florença para Roma. Os domínios temporais da Igreja definhavam, senão mesmo, desapareciam.

Esta questão, todavia, ganhou maiores foros de polémica quando o rei de Itália, Vitor Emanuel II, a 13 de Março de 1871, propôs compensar Pio IX através de uma indemnização, a par da garantia de manter o Papa como Chefe de Estado do Vaticano, onde se resumia o seu poder efectivo então. O Papa Pio IX declarou não aceitar a perda do Património de S. Pedro, como se designavam também os Estados Pontifícios e todos os seus direitos históricos e territoriais. Numa tomada de posição célebre, sem precedentes, o Papa declarou-se então “prisioneiro” do Governo laico do novo reino de Itália. Foi ainda mais longe quando proibiu, em 1874, os católicos de Itália de votar em eleições num Estado laico como o jovem reino. Irredutível, o Papa da “Infalibilidade”, do Concílio Vaticano I (1870), recusou-se então a aparecer em público em Roma, no que foi imitado por vários sucessores. Leão XIII manteve a linha do antecessor, embora de forma menos radical, mas defendeu também que se os católicos participassem na vida política italiana, estariam a legitimar as mesmas instituições que retiravam poder político ao Papa e que extinguiram os Estados Pontifícios, o que subordinava o papado ao poder laico e secular do reino de Itália. Pio X procurou efectivar melhores relações com o Estado italiano, como o seu sucessor Bento XV, que estimulou a vida política activa dos católicos italianos, por exemplo. Mas a tensão da Questão Romana prevalecia. Pio XI, eleito Papa 52 anos depois da anexação de Roma, aproximou-se do Governo de Itália, para negociar o fim da Questão Romana, encetando também esforços diplomáticos internacionais.

Depois de avanços e recuos, a Igreja aceita as condições que antes Vitor Emanuel II oferecera ao Papa Pio IX. Assim, em Latrão, assinam-se acordos com a Itália, então governada por Mussolini, fascista. Cria-se o Estado do Vaticano, soberano, neutro e inviolável, sob a autoridade do Papa, assegurando-se os privilégios de extraterritorialidade do palácio de Castelgandolfo e das três basílicas de São João de Latrão, Santa Maria Maior e São Paulo Extramuros, além do palácio da Propaganda Fide, da Chancelaria e de outros edifícios em Roma. Por outro lado, a Santa Sé renunciou aos territórios que havia possuído desde a Idade Média e reconheceu Roma como capital da Itália. A indemnização financeira pelas perdas territoriais foi formalizada, bem como o quadro das relações entre a Santa Sé e a Itália, reconhecendo-se a religião católica como oficial. Foram ulteriormente efectuadas revisões pontuais destes Acordos de Latrão, que criaram o Estado da Cidade do Vaticano e apaziguaram relações tensas entre a Igreja e o mundo laico, em particular o novo Estado de Itália.

 Vítor Teixeira 

Universidade de São José

Palestinian President Abbas, Pope Francis and Israeli President Peres arrive in the Vatican Gardens to pray together at the Vatican

Foi no passado domingo, no final da oração do Angelus, que o Papa Francisco se desviou do texto escrito e fez um apelo emocionado pelo fim do conflito em Gaza. “Por favor, parem! Peço-vos com todo o meu coração, é tempo de parar. Parem, por favor!”, exortou.

O interesse com que o Papa segue a situação na Terra Santa tornou-se muito evidente quando tomou a iniciativa, inédita, de convidar os líderes da Autoridade Palestiniana e de Israel para participar numa jornada de oração pela Paz, no Vaticano, depois da sua visita à Jordânia, Israel e Palestina, em Maio. Durante a visita, os dois momentos em que visitou o “muro da separação” na fronteira de Israel e o monumento que comemora as vítimas do terrorismo em Israel foram também muito significativas. 

Contudo, para além desse apelo no passado domingo, o Papa tem guardado silêncio sobre a mais recente ofensiva israelita. Nem a sua conta do Twitter, habitualmente utilizada para divulgar curtas mensagens em favor da paz ou a pedir orações pelas zonas em conflito, tem servido para esse propósito. 

Todavia, o silêncio não revela desinteresse. Muito pelo contrário. É sabido que o Papa tem falado pessoalmente com o Presidente de Israel e da Autoridade Palestiniana para pedir maiores esforços no sentido de uma solução pacífica para Gaza e esta quarta-feira todos os embaixadores acreditados junto da Santa Sé receberam uma nota oficial, assinada pelo secretário de Estado, o Cardeal Pietro Parolin, que pede aos governos um maior compromisso com a resolução dos conflitos no mundo, sobretudo no Médio Oriente. 

Em declarações à Rádio Vaticano, o responsável pelas relações com os Estados falou da importância desta nota, dizendo que o que se passa em Gaza é uma violação dos direitos humanos.

A Igreja Católica está muito comprometida com a causa da paz na Terra Santa e atua no terreno, tanto em Gaza como na Cisjordânia e Israel, em auxílio das populações mais necessitadas. 

A situação é muito complexa e por isso todas as declarações e atos públicos têm de ser medidos com atenção, para não afetar o equilíbrio diplomático que é necessário nestas situações. 

Solução de dois Estados

Oficialmente, o Vaticano sempre defendeu uma solução com dois Estados independentes, Israel e a Palestina, mas com um estatuto especial para Jerusalém, que seria a capital partilhada de ambos os países, de uma forma que preserve também o acesso de todos os fiéis aos lugares santos. Israel não aceita esta possibilidade, reivindicando o controle total e absoluto sobre Jerusalém. 

A verdade é que o Vaticano não tem interesse em ser associado à posição pró-israelita ou pró-palestiniana. No terreno, a grande maioria dos católicos na região são árabes palestinianos. Estes, incluindo os que vivem em Israel, tendem a ser solidários com a causa palestiniana em geral, embora exista um desencantamento crescente com o facto de essa causa se confundir cada vez mais com o islamismo, como se vê no caso do Hamas. 

No resto do mundo árabe esse apoio é provavelmente mais cerrado. De uma forma geral os cristãos em países como o Egito, o Líbano, Síria e Iraque são anti-israelitas e mesmo alguns dos seus bispos são publicamente muito críticos de Israel, que vêem como responsável pelo conflito e por grande parte da instabilidade do Médio Oriente. 

Este sentimento não é partilhado, pelo menos com a mesma veemência, pelas conferências episcopais de muitos países ocidentais, que vêem Israel como um país que garante a liberdade de expressão, a democracia e a liberdade religiosa. 

Os israelitas, aliás, fazem questão de sublinhar que Israel é o único país em que a população cristã tem aumentado de forma estável e vive em paz e segurança. 

A custódia dos lugares santos

A isto acresce a importância da custódia dos lugares santos para os cristãos em Jerusalém, partilhada pelas várias confissões cristãs presentes no terreno, sob supervisão de Israel. 

Há uma disputa de longa data entre Roma e Israel sobre o pagamento de impostos pelas igrejas, que está ainda por resolver, mas sobretudo existe a noção de uma grande interdependência. 

A Igreja Católica sabe que a estabilidade de Israel é essencial para preservar o acesso e o bem-estar dos locais de culto e das populações cristãs na Terra Santa, e Israel sabe que só tem a perder se essa estabilidade for afetada, levando a uma interrupção das peregrinações e visitas guiadas.

A situação é ainda mais complexa com as igrejas ortodoxas. A Igreja russa e a Igreja grega, por exemplo, são as maiores detentoras de terreno em Jerusalém, incluindo o espaço onde foi construído o Knesset, o parlamento israelita, que está arrendado ao Governo. 

Por todas estas razões, a diplomacia do Vaticano na Terra Santa é feita de forma discreta, mas sempre no sentido de uma solução que garanta a paz entre judeus, muçulmanos e cristãos no local que é considerado santo para as três religiões abrâamicas.

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Depois de ter aberto o Castel Gandolfo aos visitantes, Francisco escancara as portas dos Jardins Vaticanos para os pobres. A iniciativa, relatada pelo L’Osservatore Romano, foi organizada pelo círculo de São Pedro como “sinal concreto da caridade do papa”.

O encontro noturno ocorreu nos últimos dias em um clima de “serena familiaridade”, relata o jornal do outro lado doTibre. Um clima enfatizado pelo cardeal Giuseppe Bertello, governador da Cidade do Vaticano, que levou a saudação pessoal do pontífice aos comensais.

“É a segunda vez que a associação organiza esse momento particular de convivialidade para os pobres, no rastro daquela assistência aos necessitados levada adiante há 145 anos como sinal concreto da caridade do papa”, destaca o jornal da Santa Sé.

Nos jardins vaticanos, tinham sido preparadas dezenas de mesas que receberam “homens, mulheres e crianças que vivem de uma forma mais digna graças às atividades das cozinhas econômicas, do asilo noturno e do centro multiuso gerido pelos sócios do círculo”.

Há quatro meses, o Vaticano abriu ao público os jardins de Castel Gandolfo: peregrinos e turistas podem visitar a área. Conduzidos em uma visita guiada disponível em vários idiomas, os visitantes têm um acesso privilegiado às maravilhas botânicas e arquitetônicas da residência.

A duração da visita é de 1h30min. Assim, eles podem admirar as Vilas Pontifícias de Castel Gandolfo e o Jardim Barberini com o Jardim da Magnólia, o Viale delle Rose, o Viale delle Erbe Aromatiche ao Vialle dei Ninfei, aoPiazzale dei Leci e ao Jardim do Belvedere.

O ato da reserva coloca à disposição do grupo um guia autorizado pelo Vaticano. O ponto de encontro é em Castel Gandolfo, na frente da entrada principal da Villa Barberini.

Belezas naturais, mas também achados arqueológicos em uma área de 55 hectares, situada nos Castelos Romanos e incluída entre as zonas extraterritoriais da Santa Sé na Itália. Foram concedidas à Santa Sé com os Pactos Lateranenses de 1929: residência suburbana desde o século XVII, da época de Urbano VIII. Aqui surgia, com vista para o Lago de Albano, a Vila do Imperador Domiciano. O Palácio Apostólico, portanto, não é mais de uso exclusivo do pontífice, mas tem também uma utilização turística.

Por outro lado, no verão passado, Francisco esteve lá pouco ou nada. 

E na Quaresma passada, para os exercícios espirituais com os prelados da Cúria, Francisco sempre se dirigiu para a região dos Castelos Romanos, mas em Ariccia, em uma casa dos paulinos: exatamente na margem oposta do lago. Sobriedade e simplicidade de estilo.

Autor: Giacomo Galeazzi, publicada no jornal La Stampa.

Pope Francis

“Especulações completamente sem fundamento”: assim o Diretor da Rádio Vaticano e da Sala de Imprensa da Santa Sé, Pe. Federico Lombardi, responde às notícias publicadas recentemente pela imprensa de que o Papa Francisco estaria doente depois de cancelar ou reduzir alguns compromissos de sua agenda.

Leia a seguir a entrevista exclusiva que o Pe. Lombardi concedeu ao Programa Brasileiro.

Pe. Lombardi, partimos de um fato destes dias: parte da imprensa brasileira tem especulado sobre a saúde do Papa, com ilações de que Francisco não estaria muito bem. O que o senhor pode nos dizer a esse respeito:

Pe. Lombardi:- São especulações completamente sem fundamento. Em parte, essas especulações se devem ao fato que publicamos qual é a atividade do Papa durante o período de verão (europeu), portanto, a redução de seus compromissos habituais neste período. Isso significa que não haverá as audiências gerais do mês de julho e as missas na Casa Santa Marta nos meses de julho e agosto. Isso foi interpretado por alguns como redução dos compromissos por motivo de saúde. Isso é absolutamente desprovido de razão, porque é exatamente a mesma coisa que se fez no ano passado, em que não houve as missas da manhã durante todo o mês de julho e de agosto e não houve as audiências gerais durante todo o mês de julho e, inclusive, foram depois suspensas também durante o mês de agosto porque havia poucas inscrições. Então isso é normal, não há nenhum motivo particular de saúde do Papa.

Aproveito para recordar que também seus predecessores faziam o mesmo tipo de redução dos compromissos durante o período do verão. João Paulo ia para lugares de montanha durante o mês de julho e não fazia nenhuma audiência geral. Também Bento XVI ia para Castel Gandolfo, e as audiências gerais eram suspensas durante o mês de julho. Portanto, se trata de algo absolutamente normal feito pelos predecessores.

Uma redução dos compromissos do Papa é também uma redução do trabalho de seus colaboradores. O Papa não está sozinho no Vaticano ou na Igreja: toda iniciativa do Papa envolve muitas pessoas que trabalham em função dos compromissos do Santo Padre, que devem desempenhar vários serviços relacionados à atividade do Papa. Devem receber os pedidos de participação nas audiências, distribuir os bilhetes, dispor as cadeiras, colocar as coisas em ordem, limpar, em suma, fazer tantas coisas. Inclusive para as missas que celebra na Casa Santa Marta várias pessoas trabalham quer para a preparação, quer para a realização e o acolhimento dos grupos todas as manhãs. O Papa sabe que também essas pessoas precisam repousar de vez em quando. O Papa e seus colaboradores devem ter um ritmo humano de trabalho. É justo que, durante o período de verão, haja uma redução dos compromissos.

É algo absolutamente normal e não há nenhum motivo de saúde. Noto que o Papa Francisco decidiu, como no ano passado, permanecer na Santa Marta durante o verão. Não ir para fora de Roma, mas ter um período com menos compromissos públicos que lhe permite fazer outro tipo de trabalho, de reflexão, de oração, com um ritmo mais calmo, mas também que lhe permite pensar, escrever.

Nos meses de verão do ano passado, o Papa escreveu a Evangelii Gaudium, que é um grande documento, muito importante para toda a Igreja. Certamente, houve a oportunidade para que pudesse pensá-lo e escrevê-lo. Se todos os dias ele tiver audiências, colóquios e outras coisas, nunca terá tempo para pensar em algum documento ou em alguma reflexão mais aprofundada.

Agora, sabemos que está sendo preparada uma nova Encíclica, da qual falou, sobre a proteção da criação, sobre a ecologia. Há inúmeros empenhos importantes do Papa para o próximo outono, há o Sínodo sobre a Família, outras viagens. Há pouco anunciou a viagem à Albânia. Depois há viagem à Ásia e assim por diante. Os compromissos são numerosos e também a preparação para esses empenhos requer concentração e tempo. O verão deste ano servirá para isso. Destaco ainda que, no ano passado, no mês de julho o Papa foi ao Rio para a Jornada Mundial da Juventude e, depois, fez um período mais longo de descanso dos compromissos públicos em agosto. Este ano será o inverso, porque em agosto o Papa irá à Coreia, uma longa viagem em outro continente. Portanto, os compromissos serão mais reduzidos em julho, de modo que tenha um tempo de interrupção.

Portanto, Pe. Lombardi, na verdade este período de verão em que não há compromissos públicos do Santo Padre, é um período ao invés em que o Papa trabalha muito, como o senhor reiterou. Há esses compromissos, há a Encíclica sobre a ecologia em preparação, certamente este período podemos prever também um tempo disponível para toda essa preparação, para a redação do documento….

Pe. Lombardi:- Não cabe a nós fazer a agenda do Papa e ditar quais trabalhos que ele tem que fazer. O Papa certamente é muito ativo, prepara documentos, faz reflexões. Mantém encontros. No ano passado, mesmo sem as audiência públicas, realizou durante o verão encontros e atividades que eram importantes para desenvolver suas reflexões. Portanto, não é certamente um tempo “vazio”, é um tempo “cheio”, mas de maneira diferente, sem os compromissos públicos que caracterizam a agenda normal: não há audiências a chefes de Estado ou a outras grandes personalidades. Não há as grandes audiências na Praça no mês de julho, porém o Papa igualmente trabalha, reza, estuda, escreve e encontra pessoas como faz habitualmente.

Gostaria de acrescentar outra pequena consideração: houve dias em que o Papa suspendeu algumas audiências previstas e as adiou para outro momento. Isso aconteceu porque havia naquele dia um motivo para descansar um pouco, devido a uma leve indisposição ou outra razão. Também isso deve ser considerado absolutamente normal para uma pessoa que tem um ritmo de atividade incrível, como o Papa tem, que trabalha de manhã, à tarde, quase sempre sem interrupção. Portanto, se ele tira um momento de repouso, naturalmente deverá mexer ou adiar alguns dos compromissos assumidos. Mas isso é absolutamente normal. Se ele tivesse uma atividade muito mais reduzida, isso não aconteceria. Mas ao invés (risos), como sabemos, tem uma atividade realmente muito intensa. Como vimos, sempre retomou a atividade em tempos brevíssimos (essas interrupções foram sempre muito breves), de parte do dia, e depois retomou o ritmo normal.

Quem o segue na sua atividade em Roma, ou acompanha com atenção o que ele faz, percebe que tem um ritmo de atividade enorme, intensíssimo, e isso certamente não quer dizer que está mal. Ou seja, não tem uma enfermidade; caso contrário, absolutamente não seria capaz de fazer tudo o que ele faz: a extensão das grandes audiências, as celebrações, as viagens que realizou em condições muitas vezes difíceis… E continua a assumir mais compromissos. Sei, por exemplo, se olharmos para o mês de setembro, praticamente em todos os domingos daquele mês já existem compromissos públicos que assumiu, como a viagem a Redipuglia (norte da Itália), uma viagem à Albânia. Em outubro, há também o Sínodo, com a celebração de inauguração, uma celebração para os novos santos canadenses, com a beatificação de Paulo VI, há ainda as canonizações que previu para o mês de novembro. Digamos, portanto, que se o Papa reduziu um pouco os empenhos de julho e de agosto, como sempre no passado, não podemos absolutamente dizer que tenha reduzido os compromissos dos meses sucessivos.

Além disso, Pe. Lombardi, poderíamos dizer que quem está ao lado do Papa Francisco sabe muito bem, como já foi reiterado mais vezes, que o Pontífice é um “turbilhão”, uma pessoa que não pára nunca, da qual o senhor é naturalmente testemunha….

Pe. Lombardi:- Certamente. Creio que realmente seja impressionante a intensidade da sua atividade e da criatividade. A contínua produção de novas ideias, a vivacidade com que vive a relação com as pessoas que encontra… Não existem absolutamente elementos que deem a ideia de uma pessoa cansada ou doente. Estamos diante de uma pessoa que nos impressiona continuamente pela intensidade de seus compromissos, da sua vida, da sua vivacidade espiritual.

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Os futuros santos João XXIII (1881-1963) e João Paulo II (1920-2005) vão tornar-se nos primeiros Papas da Igreja Católica a serem canonizados em 60 anos.

O último Papa a ser proclamado santo foi Pio X (1835-1914), canonizado em 1954, que se juntou a outros 77 bispos de Roma nessa condição.

São Pedro foi o primeiro Papa e os seus 34 sucessores, até Júlio I (pontífice entre 337-352), foram canonizados.

53 dos primeiros 64 Papas foram canonizados, um período que se concluiu com Gregório Magno, cujo pontificado decorreu entre 590 e 604.

Além de João XXIII e João Paulo II, que vão ser canonizados por Francisco no próximo domingo, outros nove Papas foram beatificados.

Nos primeiros séculos do cristianismo, o reconhecimento da santidade acontecia em âmbito local, a partir da fama popular do santo e com a aprovação dos bispos.

Ao longo do tempo e sobretudo no Ocidente, começou a ser solicitada a intervenção do Papa a fim de conferir um maior grau de autoridade às canonizações: a primeira intervenção papal deste tipo foi de João XV em 993, que declarou santo o bispo Udalrico de Augusta, que tinha morrido vinte anos antes.

As canonizações tornaram-se exclusividade papal por decisão de Gregório IX em 1234 e no decorrer do século XVI começou a distinguir-se entre “beatificação”, isto é, o reconhecimento da santidade de uma pessoa com culto em âmbito local, e “canonização”, o reconhecimento da santidade com a prática do culto universal, para toda a Igreja Católica.

Também a beatificação se tornou uma prerrogativa da Santa Sé e o primeiro ato deste tipo refere-se à beatificação de Francisco de Sales, pelo Papa Alexandre VII em 1662.

Hoje em dia todas estas normas encontram-se na constituição apostólica «Divinus perfectionis Magister» (25 de janeiro de 1983) de João Paulo II e nas normas traçadas pela Congregação para as Causas dos Santos.

Ecclesia

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Totalmente de branco, inclusive a boina que cobre seu cabelo. Assim aparece o papa Emérito Bento XVI em imagens que na quarta-feira mostrou com exclusividade o semanário Chi, o mesmo que publicou as primeiras fotografias do Papa emérito em sua residência de Castel Gandolfo.

Agora, as fotos foram tiradas no mosteiro Mater Ecclesiae, em que vive, e nos mostram um Ratzinger preparando-se para seu passeio diário, apoiado em um bastão e ajudado por Georg Gänswein, e depois descansando ao ar livre.

As imagens desataram o alarma em muitos fiéis italianos, a ponto de que a Santa Sé teve que se apressar para tranquilizar a opinião pública, indicando que o estado de saúde de Bento XVI não é ruim, embora tenha problemas com artrite nas pernas.

“Às vezes se sente cansado e encurta a caminhada”, contam que afirma Gänswein. O secretário do Papa emérito destaca como, apesar de tudo, sempre se ajoelha ao entrar na capela. “Nunca se dá por vencido nesta homenagem ao Santíssimo, sem se importar com o sofrimento que poderia lhe causar”.

Jesús Bastante e publicada no sítio espanhol Religión Digital

Duas vezes ao ano – antes das festas da Páscoa e Natal – uma equipe faz a limpeza do altar da Cátedra de São Pedro.