sinodo_relatorioNesta quinta-feira (08/10), os trabalhos sinodais serão marcados ainda pelas sessões dos Círculos Menores, seja na parte da manhã, seja na parte da tarde. Ao final do dia, cada Círculo Menor deverá apresentar propostas ao texto do Instrumento de trabalho.

Sobre o conteúdo do que está sendo discutido, eis o que o disse o Arcebispo de São Paulo, Card. Odilo Pedro Scherer:

“O clima está muito bom. Os círculos menores reúnem os participantes por afinidade de línguas. Portanto, as pessoas se encontram muito mais à vontade para falar na sua própria língua e também para poder intervir quantas vezes quiserem sobre as questão que estão sendo postas. O trabalho é levado avante com bastante método. Estamos trabalhando sobre a primeira parte do Instrumento Laboris e esta primeira parte contempla as problemáticas da famílias. No método seria o “ver” (do método ver, julgar e agir, ndr). Portanto, os desafios da famílias para a evangelização.”

Situações que complicam a vida da família

“O que se destaca e vai se destacando são esses desafios sobre os quais se falou no passado. Portanto, nesta primeira parte continua sendo colocado o foco nas várias questões que, de alguma forma, complicam a vida da família, que deterioram a sua vida. O Sínodo tenta olhar a realidade da família no seu amplo espectro. Por exemplo, no nosso grupo se falava das questões várias que podem onerar as famílias e que devem ser encaradas com espírito novo.

Por exemplo, o desafio da velhice, do fim da vida, o desafio da viuvez ou do abandono das pessoas que são deixadas sozinhas por um casamento rompido, ou pela prole que não cuida. Ou, quando não tem prole, pessoas que chegam na idade avançada e estão sozinhas. Mas também o desafio das situações onde tem drogados, por exemplo, ou uma pessoa com deficiência, onde tem por exemplo situações de homossexualismo, como os pais cuidam e tratam disso, como a família encara isso. Tem as situações que podem criar tensões, como o casamento mistos e inter-religiosos, quando começa a ter tensão e briga, de um que puxa para uma religião e outro que puxa para outra. E como é que fica, no caso, a educação dos filhos no meio dessa briga que, às vezes, se estabelece entre os casais por uma questão religiosa. Então de fato existe um raio, um espectro muito amplo de situações desafiadores da família que devem ser encaradas de forma humana, cristã e a partir daquilo que constitui o núcleo básico da família, que é o amor, a ternura e o afeto.”

Propostas

O Card. Odilo Scherer explicou que nesta quinta-feira continuam os Círculos Menores:

“No final do dia, cada Círculo Menor deve ter uma série de propostas, emendas ao texto do Instrumento de trabalho. E essas emendas elaboradas, votadas nos círculos menores, vão ser apresentadas no grande plenário através da Comissão que está encarregada de elaborar o texto.”

Rádio Vaticano

OSSROM54727_ArticoloFoi publicado  dia 23 de junho, o Instrumentum Laboris para o Sínodo dos Bispos sobre a Família de outubro próximo. O documento de trabalho reporta à Relatio Synodi – texto conclusivo do Sínodo Extraordinário do passado ano de 2014 – e integra os contributos provenientes das respostas ao questionário que foi proposto às dioceses.

O documento está dividido em três partes: a escuta dos desafios sobre a família, o discernimento da vocação familiar e a missão da família hoje.

Desde logo, são colocadas em destaque as ‘contradições culturais’ que dizem que ‘a identidade pessoal e a intimidade afetiva devem afirmar-se numa dimensão radicalmente desvinculada da diversidade entre homem e mulher’. A remoção da diferença sexual é o problema e não a solução – pode-se ler no texto.

A família é o pilar da sociedade – diz o documento – que coloca em evidência o facto da necessidade da existência de políticas adequadas que apoiem os núcleos familiares. Ao mesmo tempo, o ‘instrumentum’ ressalta a importância da família como espaço de inclusão, nomeadamente, de categorias frágeis da população como os idosos, os viúvos e os deficientes. Também é desejada no documento uma pastoral específica para as famílias migrantes.

No Instrumentum Laboris é reafirmado o matrimónio como um sacramento indissolúvel, não deixando de recordar o acompanhamento que a Igreja deve fazer das situações de sofrimento através de uma atitude de misericórdia. Não são esquecidas também as situações de nulidade matrimonial.

Entretanto, o documento de trabalho deste Sínodo, apresenta uma atenção especial para os divorciados recasados, sendo desejada uma reflexão dobre a oportunidade de fazer cair “as formas de exclusão atualmente praticadas no campo litúrgico-pastoral, educativo e caritativo”, porque estes fiéis “não estão fora da Igreja”. Os caminhos de integração pastoral deverão, contudo, ser precedidos de um “oportuno discernimento” e realizados segundo uma lei de “gradualidade” que “respeite a maturação das consciências”.

No caso particular, da comunhão eucarística para os divorciados recasados, o documento apresenta o “comum acordo” que existe sobre a hipótese de um “caminho penitencial” sob a autoridade de um bispo.

Em relação às uniões homossexuais o documento reafirma a posição contrária da Igreja, sendo, no entanto, apresentada a ideia de que cada pessoa, independentemente, da sua tendência sexual, deve ser respeitada na sua dignidade e acolhida com sensibilidade e delicadeza.

Nesta síntese, uma última e fundamental referência: os filhos. O Instrumentum convida a ser valorizada a importância da adoção afirmando que “a educação de um filho deve basear-se na diferença sexual, assim como a procriação”, pois esta tem o seu fundamento “no amor conjugal entre um homem e uma mulher”.

O documento de trabalho agora apresentado conclui com uma chamada de atenção para o Jubileu da Misericórdia que terá início no próximo dia 8 de dezembro, à luz do qual se coloca este Sínodo.

A Assembleia sinodal será de 4 a 25 de outubro sobre o tema “A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo”. (RS)

Eis, a seguir, alguns os pontos. 

Eucaristia

“A atenção e o acompanhamento em relação aos divorciados recasados civilmente devem se orientar rumo a uma integração cada vez maior deles na vida da comunidade cristã.”

Sobre o controverso tema da readmissão à comunhão, surgiu “um acordo comum sobre a hipótese de um itinerário de reconciliação ou via penitencial”. Essa formulação, no entanto, prevê duas hipóteses, subordinadas e contrapostas, que devem ser avaliadas e votadas no Sínodo.

A primeira é que o caminho penitencial, ao lado da “conscientização do fracasso e das feridas por ele produzidas” e, portanto, ao lado do “arrependimento”, seja acompanhado pela “verificação da eventual nulidade do matrimônio”.

Se essas condições não existem, o caminho penitencial deveria simplesmente levar “ao empenho à comunhão espiritual e à decisão de viver (o seu segundo matrimônio) em continência”.

A segunda hipótese, mais realista, diz respeito à possibilidade de que o caminho penitencial “sob a responsabilidade do bispo diocesano” leve ao acesso aos sacramentos. Concretamente, a hipótese é de “uma acolhida não generalizada à mesa eucarística, em algumas situações particulares e com condições bem precisas, sobretudo quando se trata de casos irreversíveis e ligados a obrigações morais em relação aos filhos que viriam a passar por sofrimentos injustos”.

O documento preparatório do Sínodo admite que “a questão ainda deve ser aprofundada”. Mas os divorciados não devem ser excluídos da possibilidade de serem padrinhos, testemunhas de bodas, leitores nas liturgias e catequistas.

Respeito aos homossexuais

“Cada pessoa, independentemente da própria tendência sexual, deve ser respeitada na sua dignidade e acolhida com sensibilidade e delicadeza, seja na Igreja, seja na sociedade. Seria desejável que os projetos pastorais diocesanos reservassem uma atenção específica ao acompanhamento das famílias em que vivem pessoas com tendência homossexual.”

Bodas não equiparáveis

“Não poucas são as contradições culturais que afetam a família”, incluindo a teoria de gênero e os casamentos gays. O texto incorpora aquilo que foi aprovado por maioria simples (e, portanto, formalmente não aprovado) na última assembleia, sobre o tema das famílias que têm pessoas homossexuais no seu interior.

“A esse respeito – afirma-se –, interrogamo-nos sobre qual atenção pastoral é oportuna diante dessa situação, referindo-se ao que a Igreja ensina: ‘Não existe fundamento algum para assimilar ou estabelecer analogias, nem mesmo remotas, entre as uniões homossexuais e o desígnio de Deus sobre o matrimônio e a família’. No entanto, os homens e as mulheres com tendências homossexuais devem ser acolhidos com respeito e delicadeza”, evitando “qualquer marca de discriminação injusta”.

Casamentos mistos

“Os matrimônios mistos e os matrimônios com disparidade de culto apresentam aspectos de criticidade múltiplos e de não fácil solução, não tanto em nível normativo, mas em nível pastoral: a problemática da educação religiosa dos filhos; a participação na vida litúrgica do cônjuge”.

Do questionário que serviu para redigir o documento, surge uma proposta concreta: “Elaborar um código de boa conduta, de modo que nenhum cônjuge seja obstáculo ao caminho de fé do outro”.

Nulidades gratuitas

“Destaca-se um amplo consenso sobre a oportunidade de tornar mais acessíveis e ágeis, possivelmente gratuitos, os procedimentos para o reconhecimento dos casos de nulidade matrimonial.”

Casais de fato

“A Igreja deve ser capaz de acompanhar aqueles que vivem o casamento civil ou a coabitação, até a plenitude da união sacramental. A escolha do casamento civil ou da coabitação muitas vezes não é motivada por preconceitos ou resistências contra a união sacramental, mas por situações culturais ou contingentes. Essa vontade, que se traduz em um vínculo duradouro, confiável e aberto à vida, pode ser considerado uma condição para se inserir um caminho de crescimento aberto à possibilidade do matrimônio sacramental: um bem possível que deve ser anunciado como dom que enriquece e fortifica a vida conjugal e familiar.”

Separações

É preciso “prestar atenção”, diz o documento, “aos diferentes aspectos que determinaram a ruptura da relação matrimonial. Muitas vozes evidenciam que o drama da separação, muitas vezes, chega ao fim de longos períodos de conflitualidade que, no caso em que há filhos, produziram ainda mais sofrimento. Segue-se a isso mais uma prova da solidão em que se encontra o cônjuge que foi abandonado ou que teve a força de interromper uma convivência caracterizada por graves maus-tratos”.

Cuidado pelas famílias feridas

“Cuidar das famílias feridas – separados, divorciados, recasados – e fazê-los experimentar a infinita misericórdia de Deus é considerado por todos como um princípio fundamental.”

15372165220_28c70436cc_b Com a autorização do Papa Francisco, foi publicada na noite de sábado a Relatio Synodi, o relatório conclusivo do Sínodo. O documento foi aprovado na Sala Sinodal após a votação, um por um dos 62 parágrafos. Três pontos em particular – a comunhão para os divorciados recasados e a homossexualidade – não atingiram a maioria dos 2/3. Foi desejo do Papa. O Papa disse: ‘Quero que seja publicada esta Relatio, e por questões de transparência e clareza, que se diga quantos foram os votos favoráveis ou não favoráveis, número por número, de forma que não existam confusões ou equívocos sobre isto”. Assim Padre Lombardi ilustrou aos jornalistas reunidos na Sala de Imprensa da Santa Sé a decisão do Santo Padre em publicar a Relatio Synodi, acompanhada pela tabela das votações. O documento retoma, em substância, a estrutura e os conteúdos principais do ‘Relatório após a discussão’, apresentado em 13 de outubro na Sala do Sínodo pelo Relator Geral da Sessão, Cardeal Peter Ërdo. Ela recolhe também muitas das 470 emendas apresentadas pelos Padres Sinodais, reunidos nos Círculos menores: “Em particular, vocês observarão a ampliação das primeiras duas partes, o que foi pedido por muitos relatórios dos Círculos menores, para dar maior equilíbrio ao conjunto, não falar prevalentemente ou somente dos desafios ou das dificuldades, mas também falar mais do aspecto positivo sobre a família. Portanto, é um texto mais amplo e que pretende ser mais equilibrado e desenvolvido”. Os parágrafos que não atingiram a maioria dos dois terços são os número 52, 53 e 55, relativos às diversas posições sobre a Comunhão para divorciados recasados, sobre a proposta da comunhão espiritual – sobre a qual deverão ser feitos ulteriores aprofundamentos – e sobre as uniões homossexuais, que são rejeitadas, não obstante se diga que os homens e mulheres com tais tendências devem ser acolhidos com “respeito e delicadeza”. Todavia – explica Padre Lombardi – o esforço da Relatio Synodi é o de ser inclusivo e portanto se pode falar de um consenso também sobre estes números: “Temos em cada um destes números uma dimensão do consenso, evidentemente, uma dimensão que pode ser muito ampla ou uma dimensão que pode ser mais limitada, mas isto significa que existe um assunto que deve ainda ser amadurecido ou aprofundado porque, evidentemente, o consenso da Assembleia não era suficientemente maduro para a formulação com que foi apresentado”. Em relação ao Relatório precedente, a Relatio Synodi não faz mais referência à lei da gradualidade, não fala de crianças que vivem com casais do mesmo sexo e reitera com mais força que as uniões homossexuais não são equiparáveis ao matrimônio entre homem e mulher, sublinhando que não são aceitáveis pressões sobre os bispos relativo a este ponto. Ulteriores temas serão acrescentados em relação ao documento precedente. Por exemplo, o desejo de que os processos de nulidade matrimonial sejam gratuitos, a atenção para as adoções, o alarme para a pornografia, pelo uso distorcido da web e para as mulheres e crianças vítimas de abuso sexual. Por fim é agradecido às tantas famílias fieis a Cristo pelo testemunho. Assim conclui-se o Sínodo Extraordinário sobre a família se conclui, mas o caminho sinodal prossegue para a Assembléia Ordinária de outubro de 2015, dedicada à Família e para a qual a Relatio Synodi atual servirá como documento preparatório. (JE)

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 Os Padres Sinodais aprovaram, no decorrer da 14ª Congregação Geral na manhã deste sábado, a mensagem final da III Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos sobre o tema “Os desafios pastorais sobre a família no contexto da evangelização”.

O documento conclusivo do Sínodo – Relatio Synodi- será divulgado posteriormente enquanto o documento final será provavelmente publicado na forma de uma Exortação Apostólica pós-sinodal do Papa Francisco, em 2015, após o Sínodo Ordinário.

Abaixo, a íntegra da mensagem:

Nós, Padres Sinodais reunidos em Roma junto ao Santo Padre na Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos, nos dirigimos a todas as famílias dos diversos continentes e, em particular, àquelas que seguem Cristo Caminho, Verdade e Vida. Manifestamos a nossa admiração e gratidão pelo testemunho cotidiano que vocês oferecem a nós e ao mundo com a sua fidelidade, fé, esperança e amor.

Também nós, pastores da Igreja, nascemos e crescemos em uma família com as mais diversas histórias e acontecimentos. Como sacerdotes e bispos, encontramos e vivemos ao lado de famílias que nos narraram em palavras e nos mostraram em atos uma longa série de esplendores mas também de cansaços.

A própria preparação desta assembleia sinodal, a partir das respostas ao questionário enviado às Igrejas do mundo inteiro, nos permitiu escutar a voz de tantas experiências familiares. O nosso diálogo nos dias do Sínodo nos enriqueceu reciprocamente, ajudando-nos a olhar toda a realidade viva e complexa em que as famílias vivem. A vocês, apresentamos as palavras de Cristo: “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele e ele comigo” (Ap 3,20). Como costumava fazer durante os seus percursos ao longo das estradas da Terra Santa, entrando nas casas dos povoados, Jesus continua a passar também hoje pelos caminhos das nossas cidades. Nas vossas casas se experimentam luzes e sombras, desafios exaltantes mas, às vezes, também provações dramáticas. A escuridão se faz ainda mais densa até se tornar trevas, quando se insinuam no coração da família o mal e o pecado.

Existe, antes de tudo, os grandes desafios da fidelidade no amor conjugal, do enfraquecimento da fé e dos valores, do individualismo, do empobrecimento das relações, do stress, de um alvoroço que ignora a reflexão, que também marcam a vida familiar. Se assiste, assim, a não poucas crises matrimoniais enfrentadas, frequentemente, em modo apressado e sem a coragem da paciência, da verificação, do perdão recíproco, da reconciliação e também do sacrifício. Os fracassos dão, assim, origem a novas relações, novos casais, novas uniões e novos matrimônios, criando situações familiares complexas e problemáticas para a escolha cristã.

Entre estes desafios queremos evocar também o cansaço da própria existência. Pensemos ao sofrimento que pode aparecer em um filho portador de deficiência, em uma doença grave, na degeneração neurológica da velhice, na morte de uma pessoa querida. É admirável a fidelidade generosa de muitas famílias que vivem estas provações com coragem, fé e amor, considerando-as não como alguma coisa que é arrancada ou infligida, mas como alguma coisa que é doada a eles e que eles doam, vendo Cristo sofredor naquelas carnes doentes.

Pensemos às dificuldades econômicas causadas por sistemas perversos, pelo “fetichismo do dinheiro e na ditadura de uma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano” (Evangelii Gaudium 55), que humilha a dignidade das pessoas. Pensemos ao pai ou à mãe desempregados, impotentes diante das necessidades também primárias de suas famílias, e aos jovens que se encontram diante de dias vazios e sem expectativas, e que podem tornar-se presa dos desvios na droga e na criminalidade.

Pensemos também na multidão das famílias pobres, àquelas que se agarram em um barco para atingir uma meta de sobrevivência, às famílias refugiadas que sem esperança migram nos desertos, àquelas perseguidas simplesmente pela sua fé e pelos seus valores espirituais e humanos, àquelas atingidas pela brutalidade das guerras e das opressões.

Pensemos também às mulheres que sofrem violência e são submetidas à exploração, ao tráfico de pessoas, às crianças e jovens vítimas de abusos até mesmo por parte daqueles que deveriam protegê-las e fazê-las crescer na confiança e aos membros de tantas famílias humilhadas e em dificuldade. “A cultura do bem-estar anestesia-nos e (…) todas estas vidas ceifadas por falta de possibilidades nos parecem um mero espetáculo que não nos incomoda de forma alguma” (Evangelii Gaudium, 54). Fazemos apelo aos governos e às organizações internacionais para promoverem os direitos da família para o bem comum.

Cristo quis que a sua Igreja fosse uma casa com a porta sempre aberta na acolhida, sem excluir ninguém. Somos, por isso, agradecidos aos pastores, fiéis e comunidades prontos a acompanhar e a assumir as dilacerações interiores e sociais dos casais e das famílias.

Existe, contudo, também a luz que de noite resplandece atrás das janelas nas casas das cidades, nas modestas residências de periferia ou nos povoados e até mesmos nas cabanas: ela brilha e aquece os corpos e almas. Esta luz, na vida nupcial dos cônjuges, se acende com o encontro: é um dom, uma graça que se expressa – como diz o Livro do Gênesis (2,18) – quando os dois vultos estão um diante o outro, em uma “ajuda correspondente”, isto é, igual e recíproca. O amor do homem e da mulher nos ensina que cada um dos dois tem necessidade do outro para ser si mesmo, mesmo permanecendo diferente ao outro na sua identidade, que se abre e se revela no dom mútuo. É isto que manifesta em modo sugestivo a mulher do Cântico dos Cânticos: “O meu amado é para mim e eu sou sua…eu sou do meu amado e meu amado é meu”, (Cnt 2,16; 6,3).

Para que este encontro seja autêntico, o itinerário inicia com o noivado, tempo de espera e de preparação. Realiza-se em plenitude no Sacramento onde Deus coloca o seu selo, a sua presença e a sua graça. Este caminho conhece também a sexualidade, a ternura, e a beleza, que perduram também além do vigor e do frescor juvenil. O amor tende pela sua natureza ser para sempre, até dar a vida pela pessoa que se ama (cf. João 15,13). Nesta luz, o amor conjugal único e indissolúvel persiste, apesar das tantas dificuldades do limite humano; é um dos milagres mais belos, embora seja também o mais comum.

Este amor se difunde por meio da fecundidade e do ‘gerativismo’, que não é somente procriação, mas também dom da vida divina no Batismo, educação e catequese dos filhos. É também capacidade de oferecer vida, afeto, valores, uma experiência possível também a quem não pode gerar. As famílias que vivem esta aventura luminosa tornam-se um testemunho para todos, em particular para os jovens.

Durante este caminho, que às vezes é um percurso instável, com cansaços e caídas, se tem sempre a presença e o acompanhamento de Deus. A família de Deus experimenta isto no afeto e no diálogo entre marido e mulher, entre pais e filhos, entre irmãos e irmãs. Depois vive isto ao escutar juntos a Palavra de Deus e na oração comum, um pequeno oásis do espírito a ser criado em qualquer momento a cada dia. Existem, portanto, o empenho cotidiano na educação à fé e à vida boa e bonita do Evangelho, à santidade. Esta tarefa é, frequentemente, partilhada e exercida com grande afeto e dedicação também pelos avôs e avós. Assim, a família se apresenta como autêntica Igreja doméstica, que se alarga à família das famílias que é a comunidade eclesial. Os cônjuges cristãos são, após, chamados a tornarem-se mestres na fé e no amor também para os jovens casais.

O vértice que reúne e sintetiza todos os elos da comunhão com Deus e com o próximo é a Eucaristia dominical quando, com toda a Igreja, a família se senta à mesa com o Senhor. Ele se doa a todos nós, peregrinos na história em direção à meta do encontro último quando “Cristo será tudo em todos” (Col 3,11). Por isto, na primeira etapa do nosso caminho sinodal, refletimos sobre o acompanhamento pastoral e sobre o acesso aos sacramentos pelos divorciados recasados.

Nós, Padres Sinodais, vos pedimos para caminhar conosco em direção ao próximo Sínodo. Em vocês se confirma a presença da família de Jesus, Maria e José na sua modesta casa. Também nós, unindo-nos à Família de Nazaré, elevamos ao Pai de todos a nossa invocação pelas famílias da terra:

Senhor, doa a todas as famílias a presença de esposos fortes e sábios,
que sejam vertente de uma família livre e unida.
Senhor, doa aos pais a possibilidade de ter uma casa onde viver em paz com a família.
Senhor, doa aos filhos a possibilidade de serem signo de confiança e aos jovens a coragem do compromisso estável e fiel.
Senhor, doa a todos a possibilidade de ganhar o pão com as suas próprias mãos, de provar a serenidade do espírito e de manter viva a chama da fé mesmo na escuridão.
Senhor, doa a todos a possibilidade de ver florescer uma Igreja sempre mais fiel e credível, uma cidade justa e humana, um mundo que ame a verdade, a justiça e a misericórdia.

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A versão original do documento, chamado Relatio post discepationem (Relação depois do debate) estava escrita em italiano, idioma que o Papa Francisco escolheu como oficial para o Sínodo. Nos sínodos anteriores o idioma oficial tinha sido o latim, estimado por sua precisão e por sua falta de ambiguidade.   

O ponto que gerou a controvérsia está no parágrafo 50 que aparece logo depois de valorizar os dons e os talentos que os homossexuais podem dar à comunidade cristã. Em italiano aparece a seguinte pergunta: “le nostre comunità sono in grado di esserlo accettando e valutando il loro orientamento sessuale, senza compromettere la dottrina cattolica su famiglia e matrimonio?

Na tradução ao inglês proporcionada pelo Vaticano, lê-se o seguinte: “Are our communities capable of providing that, accepting and valuing their sexual orientation, without compromising Catholic doctrine on the family and matrimony?” (Nossas comunidades estão em grau de sê-lo (acolhedoras), aceitando e valorizando a sua orientação sexual, sem comprometer a doutrina católica sobre a família e o matrimônio?”)

A palavra chave no italiano é “valutando” que foi traduzida ao inglês como valuing” (valorizando). Esta palavra deveria ter sido traduzida como “avaliando” ou “considerando” ou “sobrepesando”, como sim estava em espanhol.

Com a tradução que se fez ao inglês, em contraste, sugere-se uma valorização da orientação sexual, o que gerou uma confusão entre aqueles que são fiéis aos ensinamentos da Igreja.

Embora tivesse a indicação de que a tradução não era oficial, foi a tradução que a Sala de Imprensa da Santa Sé difundiu para ajudar os jornalistas que não conhecem bem o italiano.

O documento foi divulgado inicialmente em italiano, pouco antes da leitura feita pelo Cardeal Peter Erdo, Relator Geral do Sínodo, diante da assembleia. Depois de cerca de meia hora, o texto estava disponível em espanhol, francês, inglês e alemão, e foi enviado através de um boletim da Sala de Imprensa da Santa Sé.

Esta diferença de tempo sugere que a tradução se fez nas instâncias finais.

Segundo uma Fonte do Vaticano, o Cardeal Erdo deveria entregar o documento à Secretaria Geral do Sínodo no sábado, e este foi polido até o último momento e devolvido ao Cardeal já tarde no domingo.

Que o texto não é plenamente do Cardeal Erdo poderia dever-se ao feito de que “o texto da discussão posterior à relação é muito mais curto que o da pré-discussão”, como disse o Arcebispo de Glasgow, Dom Philip Tartaglia, ao Grupo ACI em 15 de outubro.

A passagem sobre o atendimento pastoral aos homossexuais foi criticada logo no debate que seguiu a leitura da Relatio na segunda-feira.

O documento gerou em algumas pessoas a impressão de que a Igreja tinha mudado a sua perspectiva em relação à homossexualidade.

O Cardeal Gerhard Mueller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, ressaltou em 13 de outubro que “o atendimento pastoral dos homossexuais foi sempre parte do ensinamento da Igreja e a Igreja nunca tirou os homossexuais dos seus programas pastorais”.

Um importante documento deste dicastério de 1986 sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais, com a assinatura do então Cardeal Ratzinger e aprovado por São João Paulo II, assinala que “é de se deplorar firmemente que as pessoas homossexuais tenham sido e sejam ainda hoje objeto de expressões malévolas e de ações violentas. Semelhantes comportamentos merecem a condenação dos pastores da Igreja, onde quer que aconteçam”.

O texto indica também que “um programa pastoral autêntico ajudará as pessoas homossexuais em todos os níveis da sua vida espiritual, mediante os sacramentos e, particularmente, a frequente e sincera confissão sacramental, como também através da oração, do testemunho, do aconselhamento e da atenção individual. Desta forma, a comunidade cristã na sua totalidade pode chegar a reconhecer sua vocação de assistir estes seus irmãos e irmãs, evitando-lhes tanto a desilusão como o isolamento”.

“Desta abordagem diversificada podem advir muitas vantagens, entre as quais não menos importante é a constatação de que uma pessoa homossexual, como, de resto, qualquer ser humano, tem uma profunda exigência de ser ajudada contemporaneamente em vários níveis”.

O documento afirma também que “a pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus, não pode definir-se cabalmente por uma simples e redutiva referência à sua orientação sexual. Toda e qualquer pessoa que vive sobre a face da terra conhece problemas e dificuldades pessoais, mas possui também oportunidades de crescimento, recursos, talentos e dons próprios”.

“A Igreja oferece ao atendimento da pessoa humana aquele contexto de que hoje se sente a exigência extrema, e o faz exatamente quando se recusa a considerar a pessoa meramente como um ‘heterossexual’ ou um ‘homossexual’, sublinhando que todos têm uma mesma identidade fundamental: ser criatura e, pela graça, filho de Deus, herdeiro da vida eterna”, adiciona.
 

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Após uma série de notícias difundidas ontem sobre uma suposta mudança doutrinal da Igreja a respeito dos casais homossexuais, o site oficial de notícias da Santa Sé, News.va, assinalou nesta terça-feira que as discussões que têm lugar no Sínodo da Familia não são “doutrina nem normas definitivas”, e sim propostas para um documento de trabalho que será enviado às dioceses para preparar o Sínodo de 2015.

“Em resposta às reacções e discussões que se seguiram à publicação da Relatio post disceptationem, e ao facto de que, muitas vezes, lhe tem sido atribuído um valor que não corresponde à sua natureza, a Secretaria Geral do Sínodo reitera que este texto é um documento de trabalho, que resume as intervenções e o debate da primeira semana e, agora, é proposto à discussão dos membros do Sínodo reunidos nos Círculos menores, como previsto pelo Regulamento do mesmo Sínodo”, esclareceu o News.va.

“Acima de tudo, é importante recordar uma vez mais que o que se fala no Sínodo não é nem doutrina nem normas definitivas: não haverá ‘resultados’ do Sínodo, pois o Sínodo só está preparando um documento de trabalho que será discutido em todas as dioceses do mundo para preparar o sínodo de outubro de 2015”.

“Será este segundo Sínodo o qual apresentará uma série de recomendações ao Papa e ele aprovará o que considere melhor para o povo de Deus. Mas no momento, não há nada definitivo em nenhum sentido, por isso as notícias que atribuem tal ou qual decisão ao Papa ou ao Sínodo não são certas”, assinalou também o portal em sua edição em espanhol.

Nesse sentido, diante a confusão gerada nos fiéis, News.va convidou a procurar “informação de primeira mão sobre o sínodo” nos meios da Santa Sé.

Por sua parte, a Secretaria Geral do Sínodo –através do Pe. Federico Lombardi-, também advertiu que a “Relatio post disceptationem” recebeu da parte dos meios um valor que “não corresponde a sua natureza”. “Este texto –recordou-, é um documento de trabalho, que resume as intervenções e o debate da primeira semana e que agora será colocado em discussão por parte dos membros do Sínodo reunidos nos Círculos menores, segundo o previsto pelo próprio regulamento do Sínodo”.

O porta-voz vaticano indicou que o trabalho dos Círculos menores será apresentado à Assembleia na Congregação geral matutina da próxima quinta-feira, 16 de outubro.

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Porta-voz do Vaticano explica que o relatório é um documento de trabalho; conclusões só virão na Assembleia de 2014

Em comunicado emitido nesta terça-feira, 14, em nome da Secretaria Geral do Sínodo, o diretor da Sala de Imprensa da santa Sé, padre Federico Lombardi, esclareceu o significado do relatório do Sínodo apresentado nesta segunda-feira.

Ele observou que, em muitos casos, foi atribuído ao relatório um valor que não corresponde à sua natureza. Padre Lombardi esclarece na nota à imprensa que se trata de um documento de trabalho.

“A Secretaria Geral do Sínodo reitera que tal texto é um documento de trabalho, que resume as intervenções e o debate da primeira semana e agora é proposto à discussão dos membros do Sínodo reunidos nos Círculos Menores, segundo quanto prevê o Regulamento do próprio Sínodo. O trabalho dos Círculos menores será apresentado à Assembleia na Congregação geral da manhã da próxima quinta-feira, 16″, informou o sacerdote.

“As reflexões propostas são fruto do diálogo sinodal, realizado em grande liberdade e num estilo de recíproca escuta, mas o objetivo é levantar questões e indicar perspectivas, que serão amadurecidas com a reflexão das Igrejas locais no ano que nos separa da Assembleia geral ordinária do Sínodo, marcada para outubro de 2015”, esta foi a explicação conclusiva do relator-geral do Sínodo, Cardeal Peter Erdo, arcebispo de Budapeste.

Balanço

Com a apresentação do relatório geral, o Sínodo dos Bispos sobre família entrou em uma nova etapa: a dos Círculos Menores, que são discussões mais aprofundadas sobre os temas discutidos.

Dois cardeais brasileiros que participam da assembleia sinodal, Cardeal Odilo Scherer e Cardeal João Braz de Aviz, comentaram o documento apresentado ontem, destacando suas contribuições para as discussões que estão por vir.

Dom Odilo explicou que esse relatório é uma tentativa de sintetizar tudo o que já foi discutido até agora pelos padres sinodais. “Estamos em um caminho sinodal, como o Papa mesmo disse, portanto as coisas não nascem perfeitas e é um esforço conjunto justamente de elaboração de um texto que depois será o texto desta Assembleia Extraordinária do Sínodo. A síntese é boa, sem dúvida manifesta o ‘sentir’ da Assembleia até agora, embora, é claro, possa ter ainda uma série de observações”.

Para o Cardeal Braz de Aviz, um aspecto fundamental nas intervenções foi que o Papa deixou os presentes muito à vontade; ele pediu clareza, sinceridade e respeito para com a palavra do outro e isso ajudou muito. Com relação ao relatório, Dom Aviz destacou o fato de apresentar um olhar muito próximo da família e da pessoa humana.

“A Igreja tem muita clareza da sua doutrina e sobre essa doutrina, que é a de Jesus, a Igreja não vai voltar atrás a respeito disso, mas precisa olhar todos os problemas concretos e precisa procurar uma luz junto e isso é a mudança que está havendo”.

O cardeal disse ter esperança no documento, pois identifica uma presença muito forte de uma atitude misericordiosa, do diálogo, de ir ao encontro, como o Papa tem insistido. Dom Aviz reforçou que a cultura atual não pode ser a do individualismo e do fechamento, mas a da aproximação.

“O diferente não é contrário à gente, o diferente é alguém que caminha com a gente, de outro modo, mas caminha com a gente. Eu acho que essa postura nova é que vai contar demais e ajudará também a entrar nas causas profundas dos problemas sem fechamento, sem medo, sem já, de antemão, você começar a fazer as suas divisões e as suas classificações. Isto é o que está dando a todos nós uma esperança muito grande”.

Sobre a fase que começa agora, a dos círculos menores, Dom Aviz explicou que é um momento de retomar o relatório geral e tudo aquilo que foi falado para que se possa aprofundar as discussões. Trata-se de uma fase em que se pode falar com mais liberdade. “Estamos em uma fase importante porque é de aprofundamento”, concluiu o cardeal, lembrando que as discussões finais serão só no ano que vem, com o Sínodo Ordinário.

A 3ª Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos começou no dia 5 de outubro e termina neste domingo, 19. O tema em pauta é “Os desafios pastorais da família no contexto da evangelização”.

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Veja a alguns dos principais pontos do relatório. A Santa Sé publicou uma tradução não oficial em inglês, aqui

Indissolubilidade do casamento 
14 – O próprio Jesus, referindo-se ao plano primordial para o casal humano, reafirma a união indissolúvel entre um homem e uma mulher, compreendendo todavia que “Moisés permitiu que se divorciassem das vossas mulheres por causa da dureza do vosso coração. Mas no princípio não era assim”. Desta forma, Ele mostra como a condescendência divina acompanha sempre o caminho da humanidade, apontando-a em direção a um novo começo, não sem ter de passar pela cruz. 

Apoio às pessoas cujos casamentos falharam 
17 – Considerando o princípio do gradualismo no plano salvífico divino para a família, questionamo-nos sobre que possibilidades são dadas aos casados que experimentam o falhanço do seu casamento, ou melhor, como é possível oferecer-lhes o auxílio de Cristo através do ministério da Igreja. 

Coabitação e casamento civil 
22 – Uma nova dimensão da pastoral familiar de hoje consiste na aceitação da realidade do casamento civil e da coabitação, tendo em conta as devidas diferenças. De facto, quando uma união alcança um nível de estabilidade notável através de um compromisso público e é caracterizada por afectos profundos, responsabilidade na criação de filhos e capacidade para ultrapassar provas, pode ser vista como uma semente a ser acompanhada e desenvolvida rumo ao sacramento do casamento. Muitas vezes, porém, a coabitação é estabelecida não com vista a um possível futuro casamento, mas antes sem qualquer intenção de estabelecer uma relação institucionalmente reconhecida. 

27 – À luz da parábola do semeador, a nossa tarefa é colaborar no lançamento da semente: o resto é obra de Deus. Não nos devemos esquecer que a Igreja que prega sobre a família é um sinal de contradição. 

28 – Por esta razão, o que se pede é uma conversão missionária: é necessário não nos ficarmos por um anúncio que é meramente teórico e nada tem a ver com os verdadeiros problemas das pessoas. Não nos devemos esquecer que a crise de fé conduziu a uma crise de família e, em resultado disso, a transmissão da fé dos pais para os filhos foi, muitas vezes, interrompida. 

38 – No Ocidente (…) a simples coabitação é frequentemente uma escolha inspirada por uma atitude generalizada, que se opõe às instituições e compromissos definitivos, mas também enquanto se espera por uma situação segura (trabalho fixo e rendimento). Noutros países os casamentos civis são muito numerosos não por causa de uma rejeição dos valores cristãos sobre a família e o matrimónio, mas, acima de tudo, porque casar é visto como um luxo, pelo que a pobreza material encoraja as pessoas a viver em casamentos civis. Mais, em tais uniões é possível alcançar valores familiares autênticos, ou pelo menos desejá-los. O acompanhamento pastoral devia partir sempre destes aspectos positivos. 

42 – Este discernimento é indispensável para os separados e divorciados. O que deve ser respeitado, acima de tudo, é o sofrimento dos que suportaram uma separação ou um divórcio injustos. O perdão pelas injustiças sofridas não é fácil, mas é um caminho que é tornado possível pela graça. 

Preparação para o casamento 
31 – O casamento cristão não pode ser visto como uma tradição cultural ou uma obrigação social, mas deve ser uma decisão vocacional, tomada com a devida preparação, num itinerário de fé, com discernimento maturo. Não se trata de criar dificuldades e complicar os ciclos de formação, mas de ir ao fundo da questão e não nos contentarmos com reuniões teóricas e orientações gerais. 

Pastoral familiar e acompanhamento de casais 

32 – Insistiu-se repetidamente na necessidade de renovar a formação dos presbíteros e outros agentes pastorais, através de um maior envolvimento das próprias famílias. 

35 – Os primeiros anos de casamento são um período delicado e vital em que os casais crescem no sentido dos desafios e significado do matrimónio. Daí a necessidade de um acompanhamento pastoral que vá para além da celebração do sacramento. É da maior importância a presença de casais experientes nesta pastoral. A paróquia é considerada o local ideal para os casais especializados se colocarem ao dispor dos mais jovens. Os casais devem ser encorajados a um acolhimento fundamental do grande dom que são as crianças. 

40 – Reconfirmando veementemente a fidelidade ao Evangelho da família, os padres sinodais sentiram a necessidade urgente de traçar novos caminhos pastorais, que comecem com a realidade das fragilidades familiares, reconhecendo que estas, na maior parte dos casos, não são escolhidas mas sim “suportadas”. Estas situações são diversas por causa de factores pessoais mas também socioeconómicos. É insensato pensar em soluções únicas ou inspiradas numa lógica de “tudo ou nada”. O diálogo e os encontros que tiveram lugar no sínodo terão de ter seguimento nas igrejas locais. 

Processos de nulidade 
43 – Entre as propostas feitas estão o abandono da necessidade de uma dupla sentença conforme; a possibilidade de estabelecer meios administrativos sob a responsabilidade do bispo diocesano; um processo sumário a ser usado em casos de nulidade clara. De acordo com algumas propostas, devia-se considerar a possibilidade de considerar a validade do sacramento do casamento pela perspectiva da fé de quem o contrai. Deve ser sublinhado que em todos estres casos trata-se de discernir a verdade (…). 

Divorciados e recasados 
45 – Os divorciados que não voltaram a casar devem ser convidados a encontrar na Eucaristia o alimento necessário para se manterem no seu estado. A comunidade local e os pastores devem acompanhar estas pessoas com solicitude, particularmente quando há crianças envolvidas ou quando se encontram num estado grave de pobreza. 

46 – Da mesma forma a situação dos divorciados que recasaram exige um discernimento e um acompanhamento cheios de respeito, evitando qualquer linguagem ou comportamento que os possam fazer sentir-se discriminados. Para a comunidade cristã, o cuidado destas pessoas não representa um enfraquecimento da fé e do seu testemunho da indissolubilidade do casamento, pelo contrário expressa a caridade da sua atenção. 

47 – No que diz respeito à possibilidade de poder participar nos sacramentos da Penitência e da Eucaristia, alguns argumentaram a favor das regras actuais, por causa dos seus fundamentos teológicos, outros defenderam uma maior abertura sob condições muito precisas, quando se estiver a lidar com situações que não podem ser resolvidas sem criar novas injustiças e sofrimento. Para alguns, o acesso aos sacramentos poderia ocorrer no caso de ser precedido por uma caminhada penitencial – sob a responsabilidade do bispo diocesano –, e dando particular atenção ao bem-estar das crianças. Isto não seria uma abertura geral, mas um discernimento caso-a-caso, de acordo com a lei do gradualismo, que toma em consideração a distinção entre o estado de pecado, estado de graça e circunstâncias atenuantes. 

48 – A sugestão de se limitarem apenas à “comunhão espiritual” foi questionada por mais do que um padre sinodal: se a comunhão espiritual é possível, por que não permitir o acesso ao sacramento? 

Acolhimento de homossexuais 
50 – Os homossexuais têm dons e qualidades a oferecer à comunidade cristã: somos capazes de acolher estas pessoas, garantindo-lhes um espaço fraternal nas nossas comunidades? Frequentemente elas desejam encontrar uma Igreja que lhes ofereça um lar acolhedor. As nossas comunidades são capazes de o providenciar, aceitando e valorizando a sua orientação sexual, sem comprometer a doutrina católica sobre a família e o matrimónio? 

OBS: item 50, no que diz respeito à frase final: “As nossas comunidades são capazes de o providenciar, aceitando e valorizando a sua orientação sexual, sem comprometer a doutrina católica sobre a família e o matrimônio?”, especificamente a palavra “valorizando”. “* A tradução correta deste termo tem sido discutida.

A versão inglesa, que serviu de base para a tradução destes excertos, diz “valuing” o que se traduz por “valorizando”, que foi o termo usado inicialmente. Mas a versão italiana original, divulgada mais tarde, diz valutando, que se aproxima mais de avaliar, pelo que a tradução nesta página foi alterada.” 

52 – Sem negar os problemas morais relacionados com as uniões homossexuais, deve ser apontado que existem casos em que o apoio mútuo, ao ponto de sacrifício, constitui um apoio precioso na vida dos parceiros. Mais, a Igreja dá especial atenção às crianças que vivem com casais do mesmo sexo, enfatizando que os direitos e necessidades dos mais pequenos devem ter sempre prioridade. 

Abertura à vida e planeamento familiar 
53 – Facilmente notamos que se está a espalhar uma mentalidade que reduz a geração da vida a uma variável nos planos de um indivíduo ou um casal. Os factores económicos por vezes têm peso suficiente para contribuir para uma forte queda nas taxas de natalidade, que enfraquecem o tecido social, comprometendo as relações entre as gerações e tornando incerta a visão do futuro. A abertura à vida é um requisito intrínseco do amor matrimonial. 

54 – Provavelmente aqui também o que se pede é uma linguagem realística que possa começar por ouvir as pessoas e reconhecer a beleza da verdade de uma abertura incondicional à vida como aquilo que a vida humana precisa para ser vivida ao máximo. É com base nisto que podemos assentar uma formação apropriada sobre os métodos naturais, que permitem viver de forma harmoniosa e atenta a comunicação entre os esposos, em toda as suas dimensões, juntamente com a responsabilidade generativa. À luz disto, devemos voltar à mensagem da encíclica “Humanae Vitae”, de Paulo VI, que sublinha a necessidade de respeitar a dignidade da pessoa na avaliação moral dos métodos de regulação de nascimentos. 

Fonte: Renascença

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Os bispos que participam no sínodo da família, em Roma, estão preocupados com o impacto mediático que teve a divulgação do relatório intercalar, na segunda-feira. 

Na conferência de imprensa diária, na sala de imprensa da Santa Sé, o cardeal sul-africano Wilfred Napier foi muito crítico do relatório, dizendo que os bispos nem sabiam que ele ia ser publicado. Napier teme que a sua divulgação tenha causado danos “irremediáveis”, embora o padre Federico Lombardi, presidente da sala de imprensa da Santa Sé, diga que a publicação do documento corresponde à prática normal dos sínodos.

“Uma das coisas que incomodou muito os padres sinodais é que, agora, estamos a trabalhar a partir de uma posição virtualmente irremediável, porque a mensagem já saiu: ‘Isto é o que o Sínodo está a dizer, isto é o que a Igreja católica está a dizer…’ e não é nada disso que estamos a dizer!” E agora, por muito que tentemos corrigir – e essa, infelizmente, é também a minha experiência com os mídia – uma vez publicado e em destaque, já não há maneira de o recuperar. Essa é a minha preocupação: a mensagem que já saiu não é a verdadeira mensagem! E o que viermos a dizer depois, será sempre visto como se houvesse uma censura, que efectivamente não existe”

relatório intercalar faz um resumo dos principais pontos discutidos durante a primeira semana do sínodo e serve de base para as discussões que começaram esta semana, com os bispos divididos em grupos, por língua materna. 

O documento foi recebido com muita surpresa. Mais do que uma revolução doutrinal, representa uma mudança de tom em relação a aspectos fracturantes, como a coabitação, as uniões irregulares e as relações homossexuais. 

Mas o cardeal africano considera que é “questionável” se a divulgação do documento foi “oportuna”, uma vez que o seu conteúdo não reflete nem posições definidas, nem necessariamente a opinião de todos os padres conciliares. “Talvez alguma linguagem usada no relatório tenha levado as pessoas a acreditarem que este documento é o reflexo dos pontos de vista do sínodo como um todo. Só que vocês [jornalistas] receberam o documento antes de nós, por isso, nunca poderíamos tê-lo subscrito.] 

A polêmica gerada pela divulgação do relatório levou mesmo a secretaria-geral do sínodo a publicar um comunicado em que se lê: “A secretaria-geral do sínodo, no seguimento das reações e discussão que se seguiu à publicação do relatório intercalar, e tendo em conta que lhe foi atribuída uma importância que não corresponde à sua natureza, reitera que se trata de um documento de trabalho”. O comunicado foi recebido com alguma revolta pelos jornalistas presentes, que recordaram que foi a própria Santa Sé, na conferência de imprensa de segunda-feira, que atribuiu importância ao relatório pela forma como o divulgou e comentou.

“Irremediável”?

Considerando que há coisas no documento que “não ajudam” ao debate das questões da família, o bispo diz que o texto dá ainda a entender que há acordo sobre vários aspectos, quando a realidade não é essa. 

A divulgação do documento pode mesmo ter condicionado os trabalhos do sínodo, lamenta. “Agora estamos a trabalhar de uma posição virtualmente irremediável”, diz Napier, concluindo que qualquer decisão que não reflita o documento possa ser visto como um retrocesso por parte dos bispos, quando a realidade é que nunca houve acordo. 

Questionado sobre se se estava a distanciar totalmente do documento, contudo, o cardeal respondeu que não, mas que era um documento sobre o qual se está ainda a trabalhar e referiu mesmo que, enquanto não houver uma versão final, votada pelos bispos, o relatório não pode ser visto como sendo do sínodo mas sim do cardeal Erdö, que o redigiu.

“Surpresa” e “perplexidade”

O cardeal Filoni, que também esteve na conferência de imprensa desta tarde, disse mesmo que a publicação e o conteúdo do relatório intercalar foram recebidos no seu grupo com “surpresa” e a reação midiática com “perplexidade”. 

A conferência de imprensa tinha começado com o cardeal Baldisseri, que é secretário do sínodo, a dizer que o documento não tinha sido bem compreendido pelo público em geral, uma vez que se trata apenas de um instrumento de trabalho. 

Os trabalhos no sínodo continuam a decorrer até ao fim desta semana. Na quinta-feira devem ser divulgados resumos dos trabalhos dos grupos. Este sínodo terminará no dia 19 de Outubro e dele deve resultar um relatório que também não será final, mas que servirá de base para o sínodo de 2015, também sobre a família. 

Família
 “O ato sexual é legítimo, querido e abençoado por Deus e o prazer derivado dele contribui para a alegria de viver e para a estrutura da personalidade sadia”, afirmaram os cônjuges brasileiros Hermelinda e Arturo Zamperlini, complementando que “esta expressão do amor, que no princípio pode ser paixão, deve ser cada vez mais humanizada”.

Os bispos reunidos no sínodo sobre a família escutaram com atenção, hoje, esse casal unido em matrimônio há 41 anos, pais de três filhos e pertencentes ao movimento das Equipes de Nossa Senhora. Atualmente, eles são responsáveis no Brasil pelo movimento que também está presente em outras 70 nações, com 137.200 membros.

“Os casais que fazem amor expressam com o corpo o que existe nos seus corações. Para se chegar à harmonia, é necessário saber cultivar o desejo e até mesmo um erotismo sadio”, declararam.

“A maneira de lidar com a vida sexual é muito importante para humanizar as pessoas. A sexualidade é um fator da santificação, mas tem que ser salva do erotismo doentio que reduz o ser humano a uma só dimensão”.

“O casal não é frutífero só porque gera os filhos, mas porque se ama e, amando, se abre à vida”, disseram os cônjuges, reconhecendo também que “razões justificadas podem levar os esposos a espaçar o nascimento dos filhos, procurando uma maternidade e paternidade responsável”. Por isso, “a continência periódica e a regulação da natalidade baseada na auto-observação se ajustam aos critérios objetivos da moralidade”.

“Dada a gravidade do ambiente em que nos encontramos, temos que admitir sem medo que muitos casais católicos, mesmo os que procuram seriamente viver seu matrimônio, não se sentem obrigados a usar apenas os métodos naturais”. E acrescentaram: “No geral, isso não é questionado pelos confessores”.

O casal brasileiro assegurou, baseado na experiência, que os métodos naturais são bons, “mas, na cultura atual, parecem carentes de sentido prático. Os casais, especialmente os jovens, vivem um ritmo de vida que não lhes permite praticar esses métodos, já que eles exigem tempo para a formação e o tempo é um bem escasso no mundo em que vivemos”. O método natural, além disso, é explicado superficialmente e “mal utilizado, ganhando a reputação injusta de ser inseguro e ineficiente”. O método natural “não é seguido pela maioria dos casais católicos”, que, em geral, aceitam o uso de outros anticonceptivos e não veem nisso nenhum problema moral.

“As relações sexuais são orientadas à transmissão da vida, mas também ao serviço do amor conjugal”. Eles citaram, a este respeito, os estudos sobre “A evangelização da sexualidade”, que indicam a disparidade entre a doutrina moral e a prática do casal.

Hermelinda e Arturo concluíram pedindo que os bispos facilitem aos fiéis as grandes diretrizes da pedagogia pastoral para ajudá-los a observar os princípios indicados pela Humanae Vitae, através de um guia seguro e simples que responda às exigências do mundo de hoje.

***

Duas correntes debatem a questão da comunhão para os divorciados recasados
O sínodo sobre a família, convocado pelo papa Francisco, apresenta duas linhas de pensamento, explicou nesta quinta-feira o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, pe. Federico Lombardi: “Uma fala com muita decisão do evangelho do matrimônio e defende que não é possível a aceitação da comunhão para os divorciados que voltaram a se casar, por coerência com a doutrina da Igreja”.

A outra linha, “sem negar a indissolubilidade, quer considerar as diversas situações a partir da perspectiva da misericórdia, fazendo um discernimento sobre o modo de enfrentar as situações específicas”, disse Lombardi, observando que “este é o esquema fundamental no sínodo e isto não é uma novidade”.

“São duas correntes”, considerou o porta-voz vaticano para o idioma espanhol, pe. Manuel Dorantes. “Por um lado, a Igreja tem que ser fiel às palavras de Jesus sobre a indissolubilidade do matrimônio, com uma linguagem que possa ser entendida hoje. Ao mesmo tempo, existe a preocupação de não abandonar ninguém”.

O porta-voz Lombardi complementa que foi discutida ainda “a verificação e simplificação do processo que estuda a nulidade matrimonial”, com propostas bastante completas por parte de ofícios diocesanos, “sempre escutando as exigências da verdade e da justiça, pois não se deseja uma espécie de ‘divórcio católico’”.

Dorantes declarou que os padres sinodais pediram que os processos sejam mais baratos e, se possível, gratuitos. Eles observaram que muitos casais separados recorrem apenas ao divórcio civil por não conhecerem a possibilidade de se estudar a sentença de nulidade matrimonial.

Um bispo advertiu sobre os “casamentos turísticos”, realizados como “apenas mais um momento do tour”, sem qualquer acompanhamento pastoral. Ele pediu que a preocupação não fique só nos documentos necessários para a celebração do matrimônio.

O diretor da Sala de Imprensa vaticana destacou que o foco do sínodo é uma “pastoral da escuta”, que procura formas de se manifestar a bênção do Senhor inclusive quando não há comunhão sacramental: “O não acesso à comunhão não significa uma condenação de alguém”, mas um fato objetivo decorrente do significado do sacramento.

O sínodo abordou também o perigo de confusão nos países ortodoxos, já que os ritos orientais permitem casar-se novamente. Destacou-se em diversas ocasiões que, mesmo nesses ritos, só o primeiro casamento é válido: os outros casamentos não são o sacramento do matrimônio, mas uniões acolhidas, acompanhadas e abençoadas em nome da paz das pessoas.

“Sobre a homossexualidade não se falou muito. O que se disse foi na linha da pastoral da escuta, do acolhimento, respeitando-se o fato de que o matrimônio é entre um homem e uma mulher”, disse Lombardi.

Ainda neste dia, o casal brasileiro Arturo e Hermelinda Zamperlini apresentou o tema do planejamento familiar natural.

Lombardi recordou que nas assembleias e no debate não são feitas votações nem pesquisas de opinião, motivo pelo qual não se informam “dados superficiais” como “quantos falaram disso e quantos falaram daquilo”. Por isso, ele ressalta que “não me parece que se possa dizer que haja uma orientação prevalente”.

Finalmente, o porta-voz destacou que, graças ao clima de grande sinceridade proposto pelo papa, estão surgindo testemunhos acalorados, embora sem antagonismo e marcados por uma postura de “escuta humilde e sincera”.

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Valérie Duval Poujol, teóloga batista e presidente da Comissão Ecumênica da Federação Protestante Francesa, participa dele como delegada fraterna e representa a Aliança Mundial Batista. Esta entrevista foi realizada antes da sua partida. 
Poujol leciona ciências bíblicas no Instituto Católico de Paris. Com o marido, Samuel Duval, participou da criação de uma comunidade da Federação Batista em Salinelles. Presidente da Comissão Ecumênica da Federação Protestante Francesa, é membro do Comitê Misto Católico-Batista da França e do Comitê Misto Internacional Metodista-Batista. 
A senhora está se preparando para uma viagem a Roma e passará 15 dias no Vaticano no Sínodo Extraordinário sobre a família. Pode nos dizer como é que uma protestante batista vai se encontrar justamente lá?
 
A Igreja Católica apreciava a presença de delegados fraternos para este Sínodo e enviou um convite para a Aliança Mundial Batista, que depois me solicitou. É verdade que na França as Igrejas Batistas são relativamente pouco conhecidas, uma denominação minoritária dentro da pequena minoria protestante francesa. Mas, em nível mundial, ela representa uma família extensa, em pleno crescimento, com mais de 42 milhões de fiéis. Como batistas, nós somos, ao mesmo tempo, uma Igreja histórica nascida da Reforma e uma Igreja evangélica e confessante. Eu serei um dos oito delegados fraternos de outras Igrejas, e é uma grande honra para mim estar presente no Sínodo em nome daqueles cristãos batistas que testemunham Jesus Cristo em mais de 21 países em todo o mundo. A aceitação do convite dirigido à Aliança Mundial Batista também é fruto do diálogo teológico entre as nossas duas Igrejas. No seu tempo, por ocasião do Concílio Vaticano II, a Aliança Mundial Batista tinha rejeitado o convite para participar dele. Hoje, graças ao diálogo, as nossas relações são marcadas por muito mais confiança.
 
Qual é o papel dos delegados fraternos? Vocês tem o direito de intervir?
 
Acho muito bonito o termo “delegado fraterno”, é uma mudança em relação ao período do Vaticano II, quando os convidados de outras Igrejas eram “observadores”, e a mudança assume uma dimensão ainda maior no quadro de um Sínodo sobre a família: não nos esqueçamos dos laços de fraternidade espiritual que nos unem entre cristãos… Os delegados fraternos são bem mais do que observadores. Somos encorajados a participar em tudo: nos discursos, nas discussões e na elaboração nos grupos de trabalho. Também nos é concedido o espaço para uma breve intervenção, o mesmo tempo dos presidentes das Conferências Episcopais nacionais. Acho isso verdadeiramente notável.
 
Na sua opinião, o que está em jogo nesse Sínodo para a Igreja Católica?
 
É verdade que, na França e também em outros países ocidentais, a mídia coloca no primeiro lugar as discussões e as decisões relativas ao acesso à Eucaristia das pessoas católicas divorciadas e novamente casadas. Quando recebi e li o documento preparatório para o Sínodo, o Instrumentum laboris, me dei conta de que os temas abordados são muito mais amplos do que apenas esse problema: a contracepção, a poligamia, o abuso de menores, o machismo, a homossexualidade… Isso mostra a novidade do método de trabalho deste Sínodo, parece-me. Partiu-se dos testemunhos da base, para depois refletir juntos sobre o evangelho da família no contexto da evangelização. É importante enfatizar que é a perspectiva da evangelização que serve de prisma para os trabalhos.
 
Este Sínodo, que de algum modo prepara o “ordinário” do ano que vem, portanto, é inovador na metodologia, porque manifesta um maior desejo de colegialidade e de proximidade com a realidade. O documento de trabalho mostra, ao mesmo tempo, toda a riqueza e a ambiguidade de um evangelho da família que busca encontrar um caminho entre dogma e pastoral, entre o que a Igreja Católica diz e o que os pastores e os bispos encontram in loco. Estou impressionada com esse grande esforço de colegialidade entre os defensores de uma atualização (uma reforma) e os defensores do status quo para permanecer com o ensino tradicional. Acho que o desafio deste Sínodo será formular um evangelho da família, uma evangelização baseada na família, que possa mostrar que se leva em conta as sociedades que vivem mudanças muito profundas. Também será preciso encontrar um modo para superar a tensão entre aqueles que afirmam que se deve simplesmente explicar melhor a doutrina da Igreja e aqueles que desejam mudanças no conteúdo e na aplicação da doutrina.
 
Como se preparar para isso? Não vai ser muito fácil ser quase a única protestante nessa assembleia…
 
É incrível perceber que o meu papel é bastante singular. Há outros dois delegados fraternos protestantes, um pastor reformado da Nigéria e um pastor luterano da África do Sul, além de um delegado anglicano, dois delegados ortodoxos e dois delegados ortodoxos orientais. Mas, entre os oito convidados fraternos, sou a única mulher, a única leiga e a única mãe. Até agora, na minha preparação, perguntei aos meus amigos, à minha Igreja, para me apoiarem com a oração, para me ajudarem a me preparar espiritualmente. Para poder ser não espectadora, mas protagonista ativa nesse papel.
 
Também estudei a fundo o documento preparatório, encontrei os colegas católicos para ter todos os esclarecimentos necessários em relação à sua tradição e para verificar que compreendi bem os termos. Fiquei muito impressionada, por exemplo, com o fato de que a mariologia não parece ter um papel muito grande no documento de trabalho, ao contrário do que, como batista, eu poderia imaginar em um documento católico. Nesse papel, estou em uma situação de “tradução”, de busca de entender melhor a outra Igreja, mas estou, ao mesmo tempo, consciente da mensagem que se quer transmitir depois à própria Igreja. E a leitura do Instrumentum laboris também me interpela, eu tento interrogar também a minha tradição específica neste período de preparação.
 
Na sua comunidade e também por ocasião de um culto na televisão, a senhora rezou pelo Sínodo. Como isso foi acolhido na sua Igreja?
 
Quando eu fiz essa proposta, houve um certo “ranger de dentes”. Às vezes, é difícil para os evangélicos orarem diretamente pela Igreja Católica ou pelo papa. Mas, ao mesmo tempo, os evangélicos e os outros cristãos sentiram que, desde a sua eleição, o Papa Francisco pediu com muita humildade aos cristãos que rezem por ele. Então, propor que se ore pelo Sínodo durante um culto transmitido pela televisão era uma espécie de agressão. Mesmo que eu não seja católica, estou envolvida com o que acontece nas outras Igrejas, estou envolvida com o Sínodo. E essa oração também vem de uma convicção bíblica de que somos chamados a suportar os fardos uns dos outros, como diz a carta aos Gálatas (Gl 5).
 
Em nível nacional, a senhora faz parte do Comitê Misto Batista-Católico. Pode nos dizer algo sobre os trabalhos teológicos desse grupo?
 
Os Comitês Mistos são um lugar de trabalho entre teólogos das nossas diversas tradições. Em 2009, esse Comitê Católico-Batista, por exemplo, publicou um documento sobre o lugar de Maria na teologia e na espiritualidade cristã. As nossas relações na França podem servir de exemplo para as relações entre batistas e católicos em outros lugares. Está sendo feita uma tradução ao inglês do documento sobre Maria. Atualmente, juntos, estamos estudando os problemas da ética. Frequentemente, diz-se que católicos e evangélicos têm posições bastante próximas sobre determinados problemas, referentes a temas como o aborto ou o matrimônio, por exemplo. Mas, durante os nossos encontros, percebemos que ainda era preciso ir além das aparências e que, para compreender melhor as diferenças e as semelhanças entre as nossas duas tradições, era preciso explicitar o fato de que os nossos processos de discernimento, isto é, o modo pelo qual chegamos a tomar uma posição ética, são muito diferentes. Esse trabalho está em andamento. Em uma época em que os problemas éticos se tornam, muito rapidamente, elementos de divisão, estamos convencidos de que as nossas reflexões sobre esses processos de discernimento podem ser úteis muito além das nossas duas confissões na França.
 
Em nível internacional, a senhora é membro de outro comitê misto entre batistas e metodistas. Pode nos dizer algo a mais sobre essas relações e sobre os trabalhos?
 
É a primeira experiência nesse sentido. Nunca houve diálogo teológico em nível internacional entre metodistas e batistas, apesar das inúmeras colaborações em muitos países. Esse diálogo está previsto para cinco anos, com uma sessão anual: a primeira foi nos Estados Unidos, a próxima nos levará para a Singapura. Queremos ver os nossos pontos comuns e as nossas divergências – por exemplo, não temos a mesma teologia batismal nas nossas duas tradições. Mas o objetivo principal do nosso diálogo seria ver como podemos avançar mais juntos na missão. As nossas conversas têm como título “A fé em ação no amor”. Como preparação para o nosso próximo encontro em Singapura, estudamos como em certos países as nossas duas tradições participam juntas da Igreja unida. Nesses países, conseguem-se superar certas questões eclesiológicas e teológicas com a vontade de servir a missão do evangelho e testemunhar Jesus Cristo juntos. É apaixonante para mim descobrir contextos tão diferentes do nosso contexto francês, em que a maioria das Igrejas Metodistas se uniram à Igreja Reformada Francesa em 1938, e dar-me conta disso na minha Igreja.
 
A senhora é teóloga e apaixonada pela leitura e pelo ensino da Bíblia. O que a leitura e o ensino da Bíblia oferecem para as relações ecumênicas?
 
A Bíblia não é uma contribuição, mas o fundamento de toda a minha motivação para participar desse trabalho ecumênico. Ela me serve de bússola – para o meu caminho com Deus, mas também, como diz o Grupo de Dombes [grupo de diálogo ecumênico de teólogos católicos e protestantes francófonos], para a conversão das nossas Igrejas. A Palavra de Deus permite que nos confrontemos com o chamado exigente de Deus para a nossa vida e para a vida das nossas instituições. A Bíblia, ao mesmo tempo, é o meu copo de água, o meu constante retorno à fonte, nas relações com os outros cristãos da minha tradição e de outras tradições. A Bíblia não pertence apenas aos protestantes. Desde o Vaticano II, os católicos leem muito mais a Bíblia. Essa realidade faz desaparecer certos estereótipos. Em todo o caso, estou feliz com estes próximos 15 dias. Realmente espero que, com a minha presença no Sínodo, reforce-se de algum modo o ecumenismo, o nosso conhecimento recíproco e, em longo prazo, o nosso reconhecimento recíproco.
Jane Stranz, publicada no sítio Protestants.org

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Em coletiva nesta quarta-feira, 8, o Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, padre Federico Lombardi falou sobre os trabalhos do terceiro dia do Sínodo Extraordinário sobre a Família. Participaram também da coletiva o Reitor da Universidade Católica da Argentina, Dom Victor Fernandez, e o Bispo de Jos, Nigéria, Dom Ignatius Ayau Kaigama.

Padre Lombardi relatou que um dos temas tratados nesta manhã foi “a atitude a que somos chamados a assumir neste Sínodo ‘em caminho’”:

“Falou-se da luz que a Igreja leva ao mundo, a luz que é dada também à humanidade, em termos – para se ter uma imagem eficaz – não tanto de um farol fixo, que ilumina permanecendo sempre no mesmo lugar e de longe, mas de uma chama, de uma tocha, que acompanha o povo a caminho, passo por passo. Portanto, uma luz que está inserida no caminho do povo de Deus e da humanidade”.

Crise das famílias e crise de fé

Assim como na tarde de ontem, também hoje falou-se da aliança e da dimensão pessoal da fé que não deve ser esquecida, pois é essencial para que se possa resistir e enfrentar os problemas da nova situação:

“A crise das famílias na Igreja e também a crise das famílias cristãs na sociedade, está muito ligada à crise geral da fé neste tempo. Observou-se como se deve estar atento em recordar que a fé não é somente aderir a conteúdos, a ensinamentos, mas a fé é antes de tudo uma adesão pessoal a Cristo, uma escolha por Cristo, um encontro com Cristo, uma aliança com Ele”.

Oração em família

Muitos pronunciamentos encorajaram em se ter confiança na graça de Deus, que deve ser tomada como medida para o nosso agir e as nossas decisões:

“Neste sentido da confiança na graça, falou-se frequentemente da importância da oração e da espiritualidade na vida familiar e houve muitos pronunciamentos muito bonitos sobre o tema do perdão e da reconciliação na vida familiar; também as peregrinações aos santuários onde se reza a Maria, pois isto ajuda a encontrar a graça do perdão e da reconciliação, e um pronunciamento muito interessante, que salientou a importância da reconciliação na cultura tradicional africana; os vários modos em que a família é ajudada a favorecer a reconciliação e como isto deve ser integrado na nossa espiritualidade e na nossa visão cristã da família”.

O amor e a ternura de Jesus – presentes em vários pronunciamentos – ajudam a converter o coração e a encontrar a graças da harmonia e do perdão na família.

Verdade e misericórdia

Um tema muito recorrente – disse Lombardi – é a relação entre a verdade e a misericórdia, entre fidelidade à doutrina e ao Magistério tradicional da Igreja e a misericórdia; a atenção aos problemas concretos, ao sofrimento concreto de tantas pessoas. Este tema – como manter juntos estes dois pólos essenciais – tem estado presente em muitos pronunciamentos.

Um dos Bispos fez referência à necessidade de se repropor a doutrina hoje, mas num contexto de cultura de liberdade, o que recordou por analogia o Concilio Vaticano II, que tratou do tema da liberdade religiosa, conciliando o tema da fidelidade à verdade e do compromisso da Igreja com a verdade e com a liberdade religiosa, o mesmo esforço que o Sínodo deve fazer agora também para temas da Pastoral Familiar.

Família e missionariedade

Outro pronunciamento ressaltou o serviço que a Santa Sé presta no âmbito das organizações internacionais – em apoiar a família e uma correta visão sobre a família, em contraste com as ideologias que tendem a enfraquecê-la – e a missionariedade que é encorajada por experiências positivas de anúncio da família por parte dos jovens e movimentos:

“Recordou-se do Papa Francisco no Rio de Janeiro, que convidava os jovens a serem missionários da coragem da estabilidade em contraste com uma cultura do provisório. E portanto o Sínodo foi também convidado a fazer sentir o seu apoio, para aqueles que se empenham por uma missão positiva da família hoje”.

Diálogo inter-religioso

O Diálogo inter-religioso e sobretudo as situações em que os cristão se encontram junto a pessoas de outras religiões foi outro tema importante tratado. Em particular, falou-se das diferentes realidades muçulmanas, islâmicas.

Neste sentido, o testemunho da manhã – dado por um casal, ela cristã e ele muçulmano, que vivem uma relação harmônica – contrastava com a maior parte das realidades dos casamentos mistos. Neste sentido “a situação da família, em um ambiente de maioria muçulmana, tem diversas variantes e apresenta problemas pastorais específicos”.

Por Canção Nova, com Rádio Vaticano

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A família não é um modelo antiquado e os católicos deveriam defendê-la não só das estruturas de pecado hostis a ela que colocam em dúvida a tradicional cultura familiar e muitas vezes a destrói, assinalou o Relator Geral do Sínodo dos Bispos, Cardeal Peter Erdo na sua “Relatio ante disceptationem”.

O Cardeal dividiu este documento que introduz os trabalhos do Sínodo em quatro partes: O Evangelho da Família no Contexto da Nova Evangelização, o Evangelho da família e a pastoral familiar, as situações pastorais difíceis, e a família e o Evangelho da vida.

Do mesmo modo, na conferência de imprensa de ontem, 6 de outubro, o Cardeal indicou que foram levadas em consideração as respostas dadas ao questionário preliminar que foi enviado às conferências episcopais, assim como as intervenções enviadas pelos padres sinodais.

O Arcebispo de Budapeste (Hungria) também compartilhou com os jornalistas que a renovação da metodologia do sínodo se expressa também no fato de que já está sendo elaborada “a relação posterior à discussão, sobre a base das intervenções escritas dos padres sinodais, embora ainda temos que considerar o que sai do debate”.

Por sua parte, o Secretário Geral do Sínodo, Dom Bruno Forte, explicou aos jornalistas que “houve uma maturação no caminho sinodal ao longo dos anos”. Acrescentou que “como os temas mais importantes do Concílio Vaticano II foram discutidos no meio das sessões, as não formais, espero que os resultados mais importantes do sínodo dos bispos cheguem das discussões livres, que o Papa Francisco quer que sejam francas”.

O texto, lido pelo Cardeal Erdo, ofereceu também alguns dos temas a serem tratados durante estas duas semanas:

Educação

O documento indica que “a família certamente hoje encontra muitas dificuldades; mas não é um modelo antiquado, pelo contrário, entre os jovens em geral se constata um novo desejo de família”.

De acordo com o Cardeal “entre os cristãos católicos a substância do ensinamento do Novo Testamento e do Catecismo da Igreja Católica sobre o matrimônio parece ser bastante conhecida. Entretanto, os aspectos específicos da doutrina e do Magistério da Igreja sobre o matrimônio e a família nem sempre são suficientemente conhecidos entre os fiéis”.

Nesse sentido, destacou muitas vezes a necessidade de uma educação mais integral no ensino católico, fazendo-se eco das observações do “Documento de trabalho do sínodo dos bispos”. “Resulta especialmente útil oferecer aos pastores das comunidades locais diretrizes claras para ajudar todos aqueles que vivem em situações difíceis”, adiciona o documento.

Do mesmo modo, alerta as comunidades locais para que evitem “as improvisações de uma ‘pastoral caseira’, que acaba fazendo mais difícil que se aceite do Evangelho da família”.

O documento também assinala que “é preciso acompanhar os noivos prometidos para que tenham uma clara consciência do que é o matrimônio no intuito do Criador, aliança que entre os batizados sempre tem a dignidade sacramental”.

A misericórdia não se anula com a verdade

Dado que “o tema da misericórdia está cada vez mais em primeiro plano como um ponto de vista importante no anúncio do Evangelho”, a relação destacou que a misericórdia “não elimina a verdade e não a relativiza, mas leva a interpretá-la corretamente no contexto da hierarquia das verdades”.

“A misericórdia, portanto, tampouco anula os compromissos que nascem das exigências do vínculo matrimonial. Estes continuam subsistindo inclusive quando o amor humano se debilitou ou cessou”, assinala o texto.

Divorciados em nova união, coabitação e matrimônios civis

Além disso, o documento aborda situações como a coabitação, os matrimônios civis, assim como os divorciados em nova união.

As duas primeiras, indicou, representam uma nova dimensão de cuidado pastoral e “a Igreja não pode não reconhecer inclusive em situações a primeira vista afastadas de critérios que respondam ao Evangelho, uma oportunidade para acompanhar as pessoas, para que cheguem a uma decisão consciente, verdadeira e justa a respeito de sua relação”.

No que diz respeito aos divorciados em nova união, o documento indica que a resposta a estas questões mostra que este tema tem diferentes matizes em diversas partes do mundo, mas que não põem em questionamento “a palavra de Cristo e a verdade da indissolubilidade do matrimônio, nem faz com que já não estejam em vigor”.

“Os divorciados recasados civilmente pertencem à Igreja” e têm direito a receber o cuidado de seus pastores, afirmou o Cardeal. “Por isso a necessidade de ter em cada Igreja particular pelo menos um sacerdote, devidamente preparado, que possa prévia e gratuitamente aconselhar as partes sobre a validez de seu matrimônio”, acrescentou.

“Com efeito, muitos esposos não são conscientes dos critérios de validez do matrimônio e menos ainda da possibilidade da invalidez. Depois do divórcio, é preciso realizar esta verificação, em um contexto de diálogo pastoral sobre as causas do fracasso do matrimônio anterior, averiguando as possíveis causas de nulidade. Ao mesmo tempo, evitando a aparência de um simples cumprimento burocrático ou de interesses econômicos. Se tudo isso for realizado com seriedade e buscando a verdade, a declaração de nulidade produzirá uma libertação das consciências das partes”, indicou.

As instâncias de uma “mentalidade do divórcio” na celebração do sacramento do matrimônio faz acreditar que muitos casamentos celebrados na Igreja poderiam ser inválidos.

“Para verificar a possível nulidade do vínculo de maneira eficaz e ágil”, indicou, muitos sentem que os procedimentos precisam ser revisados. Para isso, o Papa Francisco nomeou uma comissão especial que reforme o processo de nulidade de matrimônios.

Homossexualidade

O documento também aborda o tema da homossexualidade e assinala que há “um amplo consenso em relação ao fato que as pessoas de tendência homossexual não devem ser discriminadas”, mas ao mesmo tempo emerge “com igual clareza que de parte da maioria dos batizados —e da totalidade das Conferências episcopais— não se espera uma equiparação destas relações com o matrimônio entre homem e mulher”.

“As formas ideológicas das teorias de gênero tampouco geram um consenso entre a grande maioria dos católicos”, acrescenta.

“Muitos querem, em contrapartida, superar os tradicionais róis sociais, condicionados culturalmente, e a discriminação das mulheres, que continua presente, sem negar com isso a diferença natural e criatural entre os sexos e sua reciprocidade e complementariedade”.

O Evangelho da vida

Em conclusão, a relação assinala a importância do Evangelho da vida. Quer dizer a abertura à vida não alheia ao amor conjugal. “O amor esponsal, e mais em geral a relação, nunca deve construir-se como um círculo fechado”, além disso, “a acolhida da vida não se pode pensar como limitada unicamente à concepção e ao nascimento. Se completa na educação dos filhos, no sustento que se oferece ao seu crescimento”.

O documento também recorda que “a acolhida da vida, assumir as responsabilidades em ordem à geração da vida e ao cuidado que esta requer, só é possível se a família não for concebida como um fragmento isolado, mas se perceber inserida em uma trama de relações”.

Nesse sentido, a Igreja está chamada a proclamar e ser testemunha da dignidade suprema da pessoa humana, “por isso, é preciso cuidar de modo particular da educação da afetividade e da sexualidade”.

Para isso, a relação aponta à necessidade de propor novamente a mensagem de Paulo VI em sua encíclica Humanae Vitae sobre o controle da natalidade.

Conclusão

Finalmente, o texto conclui que o desafio do Sínodo é “propor de novo ao mundo de hoje, em certos aspectos tão parecido ao dos primeiros tempos da Igreja, o atrativo da mensagem cristã em relação ao matrimônio e à família, destacando a alegria que dá, mas ao mesmo tempo dar respostas reais e impregnadas de caridade aos numerosos problemas que especialmente hoje tocam a existência da família. Destacando que a autêntica liberdade moral não consiste em fazer o que se sente, não vive só de emoções, mas se realiza somente adquirindo o verdadeiro bem”.

“Em concreto nos pede acima de tudo nos colocar ao lado dos nossas irmãs e irmãos com o espírito do bom Samaritano: estar atentos a sua vida, em particular estar perto daqueles aos que a vida feriu’ e esperam uma palavra de esperança, que nós sabemos que só Cristo pode nos dar. O mundo necessita a Cristo. O mundo também nos necessita, porque pertencemos a Cristo”, concluiu.