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Às vezes parece que você está à deriva num imenso mar. Acima há apenas céu e ao redor também, não há nada para se segurar, nenhum barco à vista para te resgatar. Se sente ridiculamente só, como se ninguém estivesse te procurando e querendo saber como você está, se precisa de ajuda. Então pensa que é melhor afundar, que se mergulhar cada vez mais fundo toda a dor e agonia vão acabar, que não terá mais nenhum sentimento, pensamento e lembrança te atormentando. Que a água vai lavar o que há por dentro e que as sujeiras poderão se esvair, então finalmente sentirá paz.

Mas o que você pode não saber é que afundar não é o fim. Que a vida não acaba quando ela é interrompida aqui na Terra, que há um além que espera todo mundo, ele pode ser melhor do que tudo ou pior do que todo pesadelo. E o melhor caminho é aquele que te leva para junto do seu Criador, Daquele que te formou antes mesmo de você saber o que era a existência, que te conhece por inteiro e do avesso. Ele te desenhou, moldo, construiu. Ele ama seus olhos, seu cabelo e até o dedinho do seu pé. Ele quer te encontrar no seu verdadeiro lar e te fazer entender o que não pode saber aqui. Ele quer te dar a paz que durará por toda a eternidade e te fazer o sentir o amor que vem do próprio Amor.

Porém, a dor se tornou uma nuvem espessa diante dos seus sonhos, e por causa dela não consegue ver nada além dos problemas que te encurralam, das pessoas que te machucaram, das decepções que vem sofrendo e das feridas que parece que nunca irão se curar. Mas Deus quer que você confie Nele mesmo sem ver o que será de você no futuro, por isso o primeiro porquê que Ele te dá é para confiar Nele mesmo quando tudo dizer que não tem mais jeito, que a vida não faz mais sentido e que por isso você deve dar um fim a ela. Deus quer que você volte a acreditar que dias melhores virão mesmo que tenha sofrido anos de tempestades e furacões. Ele quer que você segure em sua mão e que não solte mesmo que a correnteza piore e que queria afundar.

O segundo porquê é que Deus cura o passado. Não importa o que você fez ou o que te fizeram, se a dor é constante, se as memórias te acompanham desde a hora que acorda até o momento que vai repousar, se isso te assombra ao ponto de você não conseguir fazer determinadas coisas e ir a alguns lugares, e impede até mesmo de você se relacionar com as pessoas, mas Deus quer que você saiba que Ele cura as lembranças, Ele apaga o que te faz chorar, mas não da forma que você esqueça completamente, porém do jeito que você irá lembrar e não sentirá um fio de dor sequer. Eu sei disso, pois já passei por esse tratamento e ele acontece quando você chora, grita e pede socorro, aos poucos algo vai mudando dentro de você e vai passando.

Mas para esse passado ser mesmo curado você precisa dar um passo de fé e ele se chama perdão, o terceiro porquê. Você precisará reconhecer que o outro errou e que ele é tão humano como você, assim ele erra, peca e machuca, mas que ele assim como você pode fazer isso querendo ou não, e que merecendo ou não ele precisa dessa libertação, pois a mágoa é uma âncora no problema que já passou faz tempo. Corte o que prende e não afunde com essa âncora, mas a deixe ficar lá no fundo sozinha. E seu coração precisa de paz, de leveza e de limpeza. E se você sente que decepcionou a si, se perdoe também, pois você não pode viver carregando culpa por aí, mas tem que se dar a chance de recomeçar e quem sabe errar de novo porque isso é ser humano.

E você aprenderá com tudo isso e nesse ensinamento está o quarto porquê de Deus. Porque nada que Ele permite na sua vida é por acaso. Podem ser coisas que você escolheu e acabou ocasionado muita dor, ou foram as escolhas de outras pessoas que de alguma forma te afetaram, mas se Deus permitiu não é porque Ele quer te ver sofrer, pois Ele não tem prazer no sofrimento que você passou, mas é que num mundo mal como esse coisas ruins acontecem o tempo todo por causa do pecado que existe. Porém, você terá amadurecimento, mais conhecimento, experiência e força. Não será a mesma pessoa de antes, não terá o mesmo pensamento, mas se você escolher o melhor caminho te levará para o lugar que você não iria senão tivesse passado por tudo isso.

Por isso existe o quinto porquê: Deus faz uma flor brotar da sua dor. Essa flor pode ser música, poesia, dança, pintura, frase, palestra, mão estendida para ajudar e levar ao menos favorecido o que lhe falta. Essa dor irá se tornar amor por algo que só você saberá fazer. Deus te dará um dom que será o seu proposito aqui na Terra, talvez você nem tenha visto antes, mas depois da dor perceberá que esse talento existe e que te completa, que te faz querer viver, sonhar, conquistar. Porque Deus botará em seu coração vontades que te farão querer continuar e não desistir, pois Ele quer te ver criando, já que você é a imagem e semelhança do Criador. E suas obras tocarão corações que sofreram como você e levarão a eles a cura que você recebeu antes.

Mas se você não sabe por onde começar, onde poderá aprender e saber o que fazer, como conseguirá saber o que Deus quer para sua vida tem dois porquês. O sexto diz respeito a leitura da Bíblia Sagrada. Deus a inspirou para você ter um manual que te ajudasse a viver, que te dar orientações e conselhos. Se aprofunde nessas palavras. Não apenas leia, mas medite, reflita e pense em tudo que ela diz, peça que o Espirito Santo esteja ao seu lado te fazendo entende-la e que Deus te dê sabedoria para compreender. Já o sétimo porquê é a oração. Deus quer ouvir a sua voz, quer saber o que você sente e o que pensa, onde dói e o que causou. Ele já sabe de tudo, mas Ele ama te ouvir e sabe que ao falar você sentirá um alivio instantâneo como se uma tonelada tivesse saído dos seus ombros. Ele não te julgará, pode falar tudo e ter a certeza de que Ele te responderá.

Nisso o oitavo porquê te diz que ao seu lado estará o Consolador, que enxugará suas lágrimas e sentirá o mesmo pesar que te rodeia, que Ele te entenderá e levará seus lamentos ao Trono do Todo Poderoso. Jesus o enviou depois de subir aos céus e voltar ao Pai, após sua estadia aqui na Terra onde morreu por nossos pecados. E esse Consolador é o Espirito Santo e da Verdade, que te fará entender muita coisa, abrirá seus olhos e falará na sua mente coisas que você nunca soube antes, mas que agora fará todo sentido e te acalmará. Ouça a voz Dele, não tape os ouvidos, não deixe a dor gritar, sua raiva e decepção falarem mais alto. Mas dê ouvidos ao Consolador, Ele tem mais razão que as emoções conturbadas que te enchem.

E o nono porquê é sobre a nova vida que você terá. Tenha fé de que nada será assim eternamente. Não importa o que esteja havendo neste exato momento. Não sei o que te aconteceu, mas Deus conhece sua história e Ele diz que ela não deve acabar assim. Que se você aguentar mais um pouco verá as nuvens escuras sendo sopradas para longe. Mas o décimo porquê diz que nem tudo você entenderá aqui, que tem perguntas que te atormentam que não terão respostas na sua vida terrena, porque você não suportaria ouvir, não conseguiria absorver tudo que precisa saber para assim entender. Porém que no céu, se você aguentar e não desistir, Deus te fará entender que toda dor é por enquanto e os motivos que as causaram, e porque Ele as permitiu.

O décimo primeiro porquê é que no tempo certo Ele enviará pessoas para cuidarem e amarem você, pois a solidão não é para a vida inteira, não ficará assim sem ninguém ao seu lado, terá sim alguém que te ame, valorize e respeite, que construirá uma família e que suportarão tudo juntos porque haverá amor. E que esse amor expulsará todo o medo de sofrer de novo e ser feito em pedaços, que você sentirá segurança e confiança novamente. Agora no porquê de número doze Deus quer que você saiba que Ele te amará mais que qualquer um poderia amar, que não importa o tempo, situação, erros e feitos, Ele te ama e quer que você se sinta amado por Ele. Que Ele te cuida como a menina de seus olhos mesmo que você não veja o seu agir.

Por isso o porquê treze diz respeito a esse amor e o que ele foi capaz de fazer. Deus enviou Jesus e esse é sem dúvida o maior e mais importante motivo para te fazer jogar essas lâminas fora, junto com a corda, os remédios, as armas e todo o resto de coisas que podem te machucar e te fazer afundar. Deus enviou Jesus para morrer em seu lugar. No lugar da culpa, da dor, do trauma, do desespero, da solidão, da humilhação. Jesus morreu no lugar da vergonha, da raiva, do ódio, da vingança. Jesus morreu para você não se matar. Jesus sangrou para você não se cortar. Jesus provou aquele líquido numa esponja para você não tomar esses remédios. Jesus foi pregado numa cruz para você não rodear seu pescoço com uma corda. Ele já morreu e Ele já ressuscitou para te dizer que tem jeito sim, que sua dor pode acabar, que Ele vivo pode te curar, te fazer um novo ser humano.

Por que não aceita os motivos que Deus te dá? Esses porquês podem preencher algumas lacunas. Mas se quiser saber mais, é só experimentar esse amor e dar mais uma chance à vida incrível que você poderá ter ao lado Dele. Então, quer tentar de novo? Ele te espera e ficará profundamente triste se você escolher uma eternidade onde Ele não estará.

(Por Tatielle Katluryn, via Ela já foi verão)

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Toda pessoa viva já pensou na morte. Pensar na morte faz parte da vida. O que diferencia alguém vivo de alguém morto é que o vivo ainda não morreu. Vida e morte são coisas claramente separadas, apenas nas palavras. Viver é morrer um pouco a cada dia. Morrer é parar de morrer.

Uma vez, uma aluna minha, do curso de psicologia, disse que o “problema da vida” é que a gente já nasce morrendo. Assim, pensar na morte, faz parte da nossa constituição psíquica. É normal, não tem nada de errado com quem pensa na morte.

Porém, a gente não pensa na morte de modo uniforme, ao longo de toda a vida. Se tem um tempo onde é mais comum pensar na morte, esse tempo, certamente, é a adolescência.

Isso porque, na primeira infância, a gente vive como se fosse objeto do outro. “Sou da mamãe”, “sou do papai”, “sou da dinda”, dizem os bordados nos macacões e babadores que os bebês usam. Quer dizer, somos do outro.

É no fim da infância e no começo da adolescência que vamos tomando posse do nosso corpo. É só aí que vamos entendendo, (inconscientemente, porque geralmente não percebemos que pensamos nisso) que nós pertencemos a nós mesmos.

Se por um lado isso pode ser libertador, pois “se sou de mim mesmo, posso fazer o que eu quiser da minha vida” – por outro lado, isso pode ser vivido como pura angústia: “não sou de ninguém, então, não há ninguém por mim”.

O encontro com essa descoberta em torno da liberdade/solidão, próprio da adolescência, pode levar vários jovens a imaginarem como seria a sua morte, como seria a reação das pessoas diante da morte dele. E pode levar os jovens ao desejo de morte – não como quem quer morrer, mas como quem quer levar o outro a sentir sua falta.

No texto “Luto e melancolia” Freud diz que ninguém tem energia suficiente para tirar a própria vida, a não ser que entenda que, tirando a própria vida, está matando alguém em si. Nesse sentido, fica fácil entender como algumas pessoas podem tentar ou até mesmo conseguir tirar a própria vida. Nada parece mais eficaz para fazer falta no outro do que a eternização de uma falta.

Assim, é comum na adolescência, certa melancolia. Os sentidos que os pais deram aos seus filhos para a vida, até então, demonstram falir.

Até que os adolescentes encontrem seus próprios motivos para viver, por meio dos amigos, das causas e dos amores, um luto pode advir. É preciso que o adolescente possa expressar sua tristeza, porque vai descobrindo que seu modo de ver a vida, não é exatamente o mesmo que o dos pais.

É por aí que ideias suicidas podem aparecer, e é bem aí que o jogo a baleia azul pode “cair como uma luva”. Um desastre.

Se o adolescente consegue elaborar sua tristeza dizendo do que o incomoda, isso é uma coisa – e tem solução. Mas se ele não pode elaborar isso, se ele não encontra palavras para falar dessa tristeza, e então, se depara com o jogo da “baleia azul”, então temos um problema de solução mais difícil, bem mais difícil.

Um adolescente que levava a ferro e fogo as palavras dos pais, diante da falência das palavras deles, pode encontrar no jogo da “baleia azul”, algo que substitua o que os pais disseram. É aí que mora o perigo.

Por isso, pais, é de extrema importância que a gente fale com nossos filhos adolescentes. Não sobre o jogo da baleia azul, ou sobre o GTA (que é aquele video-game super agressivo que deixa muita gente de cabelo em pé) ou sobre o 13 reasons why, mas sobre as coisas da vida. Sobre a vida do vizinho, sobre a matéria do jornal, sobre o filme que passou na tevê, sobre propagandas, trivialidades, sobre qualquer coisa.

O desejo de morrer, ou as fantasias sobre a morte, que esses jovens nos trazem, não devem nos assustar e assim nos levar a apressadamente a calá-los – mas deve nos convocar a escutá-los, deve nos levar ao convite para falarem mais disso.

A palavra é o único modo de elaborarmos. Com aquilo que vira palavra podemos fazer algo. Mas aquilo que não vira palavra, nos faz refém dos acontecimentos.

(Texto escrito a partir de uma breve conversa com Lucas Sesarino, que tem 14 anos e 8 meses, é super sábio e deu seu aval no texto antes que eu o postasse).

Ana Suy, psicanalista

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Hannah e a mãe no seriado: omissão familiar é um dos temas abordados. Foto: Netflix/Divulgaçã0

Lançada no fim de março, a série 13 reasons why, da Netflix, conquistou popularidade rapidamente e ensejou uma infinidade de análises e comentários sobre o principal (e delicado) conteúdo abordado na trama: o suicídio de uma adolescente. A produção da cantora Selena Gomez inspirada homônimo no livro de Jay Asher – expandido e transposto para as telas pelas mãos do premiado dramaturgo Brian Yorkey – narra as razões pelas quais uma colegial diz ter sido levada a tirar a própria vida. Gravadas em fitas cassetes e enviadas postumamente, as mensagens responsabilizam os colegas de convívio pelo desfecho trágico.

Leia também: Criador de 13 Reasons Why explica polêmica cena do suicídio de Hannah Baker

O tom de culpabilização coletiva e a abordagem crua – com direito a cenas explícitas de estupro e do próprio ato do suicídio – despertaram reflexão sobre a forma de tocar no assunto em uma produção audiovisual. Enquanto houve quem ressaltasse a tentativa benéfica de promover uma conscientização sobre a influência de bullying, assédio, machismo, violência e omissão na decisão de se matar, surgiram ponderações em torno do impacto nocivo provocado pelo tratamento dispensado ao tema central pelo seriado.

As críticas negativas veem na “glamourização” do suicídio e na utilização do autoextermínio como instrumento de vingança fatores de propensão ao chamado efeito Werther – termo científico pelo qual a publicidade de um caso notável serve de estímulo a novas ocorrências. Pessoas fragilizadas psicologicamente seriam mais inclinadas a vivenciar de forma negativa a forma como o suicídio é representado em 13 reasons why.

Psiquiatra, professor-doutor do Departamento de Psicologia Médica e psiquiatra da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Luís Fernando Tófoli elaborou 13 parágrafos para alertar sobre a série. O texto elenca fatores de risco, condena a abordagem do programa sob a luz da academia e faz advertência a pessoas em situação de vulnerabilidade.

Veja a lista elaborada pelo professor:

13 Parágrafos de Alerta sobre 13 reasons why para pais, educadores e profissionais de saúde
Luís Fernando Tófoli

1. A alardeada série da Netflix, “13 Reasons Why”, baseada em um livro homônimo de Jay Asher (publicado no Brasil como “Os 13 Porquês”), aborda uma série de questões sérias: bullying no ensino médio, machismo, LGBTfobia, abuso sexual e, de uma forma geral, a difícil missão de adolescer. A série, porém, é focada em uma questão central, pivô de toda a história: o suicídio de uma jovem de 17 anos, Hanna Baker, que faz 13 gravações em fitas cassetes, apontando o dedo as pessoas que a desapontaram em seu calvário na High School de uma pequena cidade americana.

2. Eu me vi na obrigação de assistir a todo o seriado para poder trazer algumas informações para pais e profissionais de saúde e educação. Não vou me estender na qualidade artística, até porque não é minha função aqui, eu penso. No entanto, afianço que apesar da tensão que prende a assistência até a resolução do mistério, os episódios são longos e cansativos demais. A sensação final é de ser chantageado a aguentar a narrativa arrastada só para poder saber por qual razão o protagonista e bom-moço Clay Jensen foi incluído nas fitas de Hannah.

3- A razão principal pela qual eu escrevo estes parágrafos é para focar na questão crucial de uma peça de ficção construída sobre um suicídio adolescente. O suicídio está entre as principais causas de morte na adolescência, competindo com acidentes causados por veículos e, no caso de países como o Brasil, violência armada. Como um agente de formação no campo da Psiquiatria e da Saúde Mental, me vejo na obrigação de fazer alguns comentários – e, porque não, alguns alertas – sobre esta série.

4. Há sinais preocupantes de que as taxas de suicídios de jovens estão crescendo no mundo e no Brasil. O país, aliás, está na contramão das estatísticas no mundo: também os índices gerais estão subindo – e já o estavam antes da crise econômica – ao invés de cair. Há várias hipóteses sobre o que pode estar levando isso a acontecer, mas acho que o mais importante é frisar que nunca tivemos uma campanha nacional responsável de prevenção do suicídio – apesar do reconhecidamente importante papel do voluntariado do CVV-Centro de Valorização da Vida – e de haver documentação sobre formas de se fazer essa política pública de maneira eficiente.

5. Meu ponto principal neste texto não é estragar a série ou dar spoiller, e sim de que pais, educadores e adolescentes estejam cientes de que o programa tem o potencial de causar danos a pessoas que estão emocionalmente fragilizadas e que poderão, sim, ser influenciadas negativamente. Não é absurdo inclusive considerar que, para algumas pessoas, a série possa induzir ao suicídio. Portanto, pessoas em situações de risco deveriam ser desencorajadas a assistir a série. Não estou sozinho nisso, já há pelo menos um crítico no Brasil, o Pablo Villaça, que explicitamente está recomendando que não se assista ao seriado (https://goo.gl/Z2Op17).

6. O principal erro da série é, de longe, mostrar o suicídio de Hannah. A cena, que acontece no episódio final, é absolutamente desnecessária na narrativa e claramente contrária ao que apregoam os manuais que discutem prevenção de suicídio e mídia. Chega a ser absurdo que os autores da série ignorem completamente o que indicam explicitamente as recomendações da Sociedade Americana para Prevenção do Suicídio, que foram publicadas após a morte do ator Robin Williams (https://goo.gl/vAQkg6) e cheguem à cara de pau de tocar (não neste episódio) a música “Hey, Hey”, de Neil Young, que foi citada na carta suicida do músico Kurt Cobain (https://goo.gl/droI3I).

7. É verdade que as recomendações são em geral destinadas à imprensa, mas chega a ser absurdo que os realizadores de uma produção sobre o tema não tenham se informado sobre os impactos do que é conhecido como ‘efeito Werther’ – cujo nome vem de uma obra de arte e não de uma ação de imprensa. O efeito é baseado no suposto impacto de Os Sofrimentos do Jovem Werther, livro do século XVIII que alçou Goethe à fama (https://goo.gl/2h4N8U).

8. Embora o aumento de suicídios na Alemanha atribuídos ao livro jamais possa ser objetivamente medido, há já um consenso entre suicidologistas de que o fenômeno sofre contágio pela mídia e de que há maneiras pelas quais ele não deva ser retratado. Uma delas, e na qual a série fracassa desgraçadamente, é em não romantizar ou embelezar um suicídio. Evitar a divulgação de cartas suicidas é outro ponto – e é desnecessário dizer que a série toda é uma enorme carta suicida, que embora ficcional, é ouvida pela voz da protagonista, a narradora póstuma da história.

9. Outro problema sério da história, especialmente para os sobreviventes (esse é o termo utilizado para os parentes e entes queridos de quem se suicida), é a ideia da culpabilização do suicídio. Grande parte da tensão da série gira em torno de quem é a “culpa” pelo suicídio de Hannah: ela, seus amigos, a escola (que é processada pelos pais da menina), a sociedade. Os especialistas entendem que a busca por culpados é dolorosa e improdutiva. O suicídio é, na sua imensa maioria das vezes, um ato complexo, desesperado e ambíguo, e achar que ele possa ter responsabilidade atribuível é equivaler sua narrativa à de um crime. Embora isso seja compreensível em uma peça de ficção, isso é muito deletério na discussão do tema no mundo real, onde ele de fato os suicídios acontecem.

10. Dois fatos chamam a atenção ainda, como erros essenciais da produção. Um é não tocar a questão do adoecimento mental, uma vez que a maioria das pessoas que se suicidam apresentam transtornos mentais. O suicídio de Hannah é discutido – como sói frequentemente aos americanos, um povo obcecado pela pretensa liberdade de escolha – como uma “opção”, esquecendo que na grande maioria das vezes a pessoa está aprisionada por um cenário falseado de opções causado pelo seu estado mental. O outro fato é a impressão passada pela narrativa – em especial no último episódio – de que buscar por ajuda é inefetivo, quando isso pode ser a diferença, literalmente, entre a vida e a morte.

11. Ainda sobre pedir ajuda, a divulgação da série pretende vender a ideia de conscientização – contando, no Brasil, inclusive com o apoio do CVV. Durante todos os 13 episódios que assisti no Netflix, no entanto, não há qualquer sinal, indicação ou legenda que aponte a hotline do CVV no Brasil (141) ou o seu site (http://www.cvv.org.br) para pessoas que necessitem de apoio e estejam assistindo a história. Após o fim da trama há um extra, meio documentário, meio making of que fala sobre prevenção de suicídio, mas seria necessário, no mínimo, divulgar meios de socorro no início e no fim de cada episódio.

12. Nunca é demais lembrar que indagar uma pessoa sobre seu risco de suicídio não aumenta a chance dele acontecer e pode ser a atitude salvadora em diversos casos. Isso é particularmente importante para profissionais de saúde e de educação, que têm muito medo de fazer essa pergunta. Na maioria das vezes, para um potencial suicida, essa pode ser a oportunidade de compartilhar seu desespero e abrir a chance para uma ajuda efetiva.

13. Concluindo, a premissa de “13 Reasons Why” é excelente: discutir a crueldade cotidiana dos jovens (que me parece ser a mesma crueldade dos humanos, embora em uma fase particularmente frágil da vida) e como ela pode nos afetar de forma devastadora, em alguns casos. No entanto, infelizmente, por negligência ou por pura arrogância, a série acaba fazendo provavelmente um desserviço maior do que sua beneficência. A oportunidade perdida de se discutir suicídio de uma forma cuidadosa se perdeu em meio ao hype, infelizmente.

Parágrafo adicional motivado por alguns comentários (considerem como a 14ª gravação, rs): 14. Gostaria de frisar que não defendo de maneira alguma a censura ou a proibição da série, e muito menos que se evite o debate das questões seríssimas do bullying, da violência de gênero e do estupro. A questão é de, sem querer ofender quem amou a série, refletirmos juntos se alguns cuidados poderiam ser tomados para evitar o prejuízo a pessoas fragilizadas. Elas são a minoria da população, mas o impacto já foi medido e mais de um estudo sobre o efeito Werther. A pergunta aqui é: será que o meu entretenimento vale a vida de alguém? Será que ao recusar ao olhar os vacilos da produção da série eu não estarei contribuindo de alguma forma para o suicídio de alguma Hannah da vida real? Grato a todo mundo pelo interesse.

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Quando li o livro, pela primeira vez estava viajando. Tinha decidido passar um mês fora e li por pura diversão. Agora que tive a chance de assistir ao seriado, fiquei com medo de como as pessoas, especialmente as que estão fragilizadas, vão entendê-lo. A primeira ideia é super bem vinda: vamos falar sobre suicídio! Algo extremamente necessário atualmente. Mas, à medida que fui assistindo à série, minha preocupação foi aumentando.

Aí vem os Spoilers, muitos spoilers! Se você não assistiu, não leia o que escrevi.
Primeiro vem a questão das fitas.

Cada fita é um motivo pelo qual Hannah decidiu se matar e está relacionada a diferentes pessoas. Entendi que as fitas foram gravadas como uma forma de se vingar contra as pessoas que a tinham feito mal. A ideia é: vou me matar, mas vou levar todos comigo.Ai vem o questionamento: até onde somos responsáveis pelo suicídio de alguém? Essa questão de encontrar culpados me preocupa, até porque vejo essa questão quase todos os dias no consultório, especialmente por quem está passando por situação parecida. 

Não à toa que um dos personagens também tenta suicídio e outro tem um baú cheio de armas de grande porte e, logo depois, começa a ver fotos de alunos como se fossem possíveis alvos para uma chacina.

Não podemos negar que o seriado levanta questões importantes sobre bullying, assédio moral e sexual, machismo, relação da escola com os alunos e dos pais com os filhos. Mostra como estas relações estão cada vez mais distantes e como cada vez mais aumenta o desrespeito entre as pessoas. 

Também ouvi várias pessoas falando sobre o aumento de ligações para o CVV. Em primeiro lugar, é claro que as ligações aumentariam: este é o efeito esperado de uma campanha de divulgação. Em segundo lugar, as ligações comprovam também que “Os 13 Porquês” tem um imenso potencial para disparar gatilhos. Gatilhos esses perigosos e que podem levar ao suicídio.

Ao encenar com detalhes o suicídio de Hannah, a série vai de encontro as várias as recomendações feitas pela própria Organização Mundial da Saúde (OMS) quanto à forma com que o suicídio deve ser tratado pela mídia. Aliás, duvido que eles tenham lido algo sobre como a OMS recomenda tratar questões relacionadas ao suicídio.

Quem está em depressão grave, pode confirmar na série que a única saída é mesmo o suicídio. Hannah em nenhum momento procura ajuda de verdade. De certa forma ela quer que as pessoas cheguem até ela para salvá-la, o que na maioria das vezes é impossível, pois não sabemos o que se passa dentro da cabeça do outro. Ela tenta falar com colegas que não a aceitam ou que já fizeram mal a ela, como conselheiro da escola que não tem formação profissional e a conversa com seus pais é extremamente superficial. O final é extremamente simbólico quando ela fala: “Eu não me importo mais, e vocês não se importaram o suficiente”. Novamente, a questão da culpa.

Ficaria muito mais tranquila se o seriado mostrasse que há, sim, saídas ao invés do suicídio. Sim, há angústias, maldades, mas que podem ser superadas. Locais onde a personagem poderia procurar ajuda de psicólogos, psiquiatras, grupos de apoio, igreja, etc., ao invés de mostrar o suicídio de Hannah de forma bem gráfica. 

No final, para mim, a intenção do seriado não vingou. Em vez de dar esperança às pessoas que estão com a vida por um fio, ele mostra que o melhor a fazer é arrumar culpados e depois se matar. A ideação suicida já é, por si só nociva. Reforçá-las com narrativas irresponsáveis é algo não só desaconselhável, mas também perigoso.

Resumindo: se você está bem psicologicamente, assista a série. Mas se você está mal, com depressão grave e ideação suicida, não assista e procure ajuda profissional.

Autora: Luiza Braga (CRP 11/04767)
Psicóloga. Possui especialização em Psicologia da Saúde pela PUC/SP e Mestrado em Psicologia Clínica pela PUC/SP. 

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Sintomática de uma era, vem causando espanto e muita preocupação uma onda de suicídios na Rússia, motivados por um jogo intitulado Blue Whale (Baleia Azul, alusão ao cetáceo que está em extinção). Os participantes seguem uma série de instruções que os deixam fragilizados e motivados a tirar a própria vida. O jogo é viral e está se espalhando pela internet, chegando aos poucos ao Brasil. A pessoa que comanda o jogo se chama “curador” e envia pequenos desafios aos jogadores todas as madrugadas, justamente quando os pais desavisados estão alheios às atividades virtuais dos filhos. Com duração de cinquenta dias, o jogo termina com o desafio final: o suicídio. As russas Yulia Konstantinova e Veronika Volkova estão entre as primeiras vítimas do jogo; jovens que, como muitos outros, precisavam apenas de um “empurrão” para levar a cabo a trágica decisão. Centenas de jovens já foram empurrados para a morte motivados pelo diabólico Baleia Azul.

Entre as “missões”, as mais fáceis consistem em acordar em horários específicos da noite, assistir a filmes de terror e ouvir sem parar músicas que deixam a pessoa triste. Isso predispõe o jogador para as próximas tarefas, criando nele um estado depressivo. Os passos seguintes incluem automutilação, arriscar-se em lugares altos e perigosos, etc. Autoridades russas creem que os curadores sejam pessoas mais velhas e persuasivas, pois convencem os jovens de que eles não podem sair do jogo. “Temos certeza de que são adultos aliciando crianças”, afirmou um representante do FSB Secret Service ao jornal Novaya Gazeta.

O jogo Baleia Azul realmente é sintomático de uma era em que a vida tem sido banalizada, as relações humanas reais têm dado lugar a relações impessoais e virtuais, os pais se distanciam dos filhos e o alvo de muita gente se constitui numa vida de conforto e estabilidade financeira. Na busca dessas coisas, muitas família acabam desenvolvendo relacionamentos disfuncionais e carências emocionais que alguns buscam satisfazer de forma errada – ou mesmo se livrar delas de um jeito ou de outro, sendo o “outro” o mais extremo: o suicídio.

No ano passado, realizei uma série de pregações e palestras em três cidades da Suíça: Genebra, Zurique e Neuchatel. Pense num país organizado, com ótimas escolas, povo educado, segurança e conforto… Esse é a Suíça. Até por isso fica difícil pregar o evangelho lá, porque a sensação de muitos suíços é de que eles de nada têm falta. Alguns, por fim, acabam percebendo que quem tem Deus tem tudo, mas que os que não tem Deus, ainda que tenham “tudo”, não têm nada. A constatação disso lá me veio por meio de uma realidade que eu desconhecia: os índices de suicídio na Suíça são alarmantes, embora pouco divulgados. Então, parece que conforto, prosperidade financeira, segurança e boa educação não são tudo na vida…

Mas taxas de suicídio altas não são “privilégio” dos suíços. No Japão, outro país bastante desenvolvido, ocorrem mais de trinta mil suicídios por ano – número cinco vezes maior que o de acidentes rodoviários. Mas é interessante notar que, depois do trágico terremoto e do tsunami que causaram muita destruição e ceifaram milhares de vidas na ilha, em 2011, o número de suicídios caiu significativamente, o que levou alguns analistas a associar essa diminuição ao aumento da solidariedade e da união no país. Houve também mais reflexão sobre o sentido da vida e até um afluxo maior de pessoas às igrejas, na época.

Pensando na tragédia chamada Baleia Azul e nos tristes índices de suicídios em países desenvolvidos, podemos listar algumas reflexões e advertências:

1. Pais devem ficar atentos e não permitir aos filhos liberdade irrestrita à internet. Psicólogos e estudiosos do comportamento aconselham os pais a não permitir que os filhos tenham aparelhos de TV nem computadores no quarto de dormir. E o uso de smartphones também deve ser regulado.

2. Privação de sono, filmes de terror e músicas que induzem a tristeza funcionam como fatores depressivos. Obviamente que nem todo mundo terá pensamentos suicidas ou chegará às vias de fato por manter práticas como essas, mas fica demonstrado que essas coisas alteram o estado de ânimo das pessoas. Então, para que assistir a esse tipo de filmes, ouvir esse tipo de música e dormir pouco? Cuidar da saúde física é igualmente cuidar da saúde mental.

3. É preciso ficar atento ao comportamento das pessoas, especialmente dos jovens. Se você perceber que algum amigo ou parente anda postando mensagens estranhas nas redes sociais, tipo pedidos de ajuda ou conteúdos relacionados com suicídio, fique atento.

4. Lembre-se de que depressão é uma doença e que as pessoas acometidas por esse problema precisam de ajuda e, se preciso, de atendimento profissional. Tudo o que elas menos precisam é de condenação ou de associações indevidas e injustas com sua situação espiritual, como se o depressivo estivesse com “falta de Deus na vida”.

5. A fé e a prática da religião podem ajudar e muito no equilíbrio emocional e na busca de sentido para a vida. Viktor Frankl é um dos estudiosos que pesquisou a importância da religião (ou espiritualidade) como fator integrativo da natureza humana e percebeu por meio de pesquisas in loco que a esperança e a dimensão espiritual fazem grande diferença na vida das pessoas.

Assim como a baleia azul está em extinção, também estão a real conexão com Deus (fé), os valores que deveriam nortear a vida, os bons e construtivos relacionamentos, e muito mais coisas boas. E é justamente por isso que, para muita gente, dar fim à existência é uma opção aparentemente melhor do que enfrentar a vida com seus desafios, suas lutas e incertezas. 

Michelson Borges

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Uma análise do período compreendido entre 1998 e 2010 apontou que mais de 30 mil pessoas se suicidaram no Japão em cada ano desse intervalo, taxa que, aproximadamente, continua se aplicando até o presente. Cerca de 20% dos suicídios se devem a motivos econômicos e 60% a motivos relacionados com a saúde física e a depressão, conforme recente pesquisa do governo.

O assunto é abordado pelo bispo japonês dom Isao Kikuchi em artigo divulgado pela agência Asia News. Ele observa que o drama se tornou mais visível a partir de 1998, “quando diversos bancos japoneses se declararam falidos, a economia do país entrou em recessão e o tradicional ‘sistema de emprego definitivo’ começou a colapsar”.

Durante os 12 anos seguintes, uma média superior a 30 mil pessoas por ano tirou a própria vida num país rico e avançado. O número, alarmante, é cinco vezes maior que o de mortes provocadas anualmente por acidentes nas rodovias.

Riqueza, tecnologia e… vazio na alma

Rodeados por riquezas materiais de todo tipo, os japoneses têm tido graves dificuldades em encontrar esperança no próprio futuro: perderam esperança para continuar vivendo, avalia o bispo.

Paradoxo: após histórica tragédia nacional, suicídios diminuíram

Um sinal de mudança, embora pequeno, foi registrado por ocasião do trágico terremoto seguido de tsunami que causou enorme destruição em áreas do Japão no mês de março de 2011: a partir daquele desastre, que despertou grande solidariedade e união no país, o número de suicídios, de modo aparentemente paradoxal, começou a diminuir. Em 2010 tinham sido 31.690. Em 2011, foram 30.651. Em 2012, 27.858. Em 2013, 27.283. A razão da diminuição não é clara, mas estima-se que uma das causas esteja ligada à reflexão sobre o sentido da vida que se percebeu entre os japoneses depois daquela colossal calamidade.

Motivos para o suicídio

Dom Isao recorda a recente pesquisa do governo que atrela 20% dos suicídios a motivos econômicos, enquanto atribui 60% a fatores de saúde física e depressão. Para o bispo, os estopins do suicídio são complexos demais para se apontar uma causa geral. No entanto, ele considera razoável e verificável afirmar que uma das razões do fenômeno é a falta de sentido espiritual na vida cotidiana dos japoneses.

O prelado observa que a abundância de riquezas materiais e o acesso aos frutos de um desenvolvimento tecnológico extraordinário são insuficientes para levar ao enriquecimento da alma. A sociedade japonesa focou no desenvolvimento material e relegou a espiritualidade e a religiosidade a um plano periférico da vida cotidiana, levando as pessoas a se isolarem e se sentirem vazias, sem significado existencial. E é sabido que o isolamento e o vazio de alma estão entre as principais causas do desespero que, no extremo, leva a dar fim à própria vida.

A ação da Igreja católica

A Igreja católica vem encarando esta questão há muito tempo no Japão.

Em 2001, o episcopado nacional dedicou uma campanha específica a esse tema, por meio da mensagem “Reverência pela vida”. Uma nova versão da mesma mensagem está sendo divulgada desde janeiro de 2017, com a abordagem direta do problema do suicídio e um apelo à população para prestar especial atenção ao isolamento das pessoas.

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Com informações da edição em espanhol da agência Gaudium Press

“Abrimos uma investigação por indução ao suicídio”, declarou  o chefe do Ministério Público do Norte de Nápoles, Francesco Greco, em referência à morte de T. C., uma napolitana de 31 anos. A mulher se suicidou na terça-feira da semana passada, após passar mais de um ano sendo alvo de insultos e ironias por causa de um vídeo sexual que seu ex-namorado compartilhou no Whatsapp e que foi posteriormente reproduzido em vários sites e redes sociais.

Muitos desses insultos eram por causa de uma frase que ela dizia no vídeo: “Está gravando um vídeo? Bravo”. (Imagem abaixo) A frase inspirou memes, camisetas, grupos no Facebook e piadas no Twitter.

 

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Algumas televisões locais também ironizaram o caso, saindo à rua para perguntar pela moça e pela frase. O grupo musical supostamente cômico Tapandos lhe dedicou uma canção num vídeo divulgado em maio de 2015 que superou as 130.000 exibições só no YouTube. E não é a única paródia. Até jogadores de futebol como Paolo Cannavaro e Antonio Floro Flores fizeram brincadeiras à custa dela em outro vídeo (que já foi apagado), no qual a frase era repetida dentro de um supermercado. A zoeira continuou mesmo depois da morte, como no caso de um jovem de Salerno que precisou se desculpar por um comentário sobre o suicídio dela, depois da contundente resposta contrária e da denúncia de uma jornalista e blogueira.

T.C. era insultada tanto nas ruas quanto no seu mural do Facebook, segundo o Corriere della Sera. Uma amiga dela disse a esse jornal que a jovem estava “destroçada”

Por causa do assédio, a jovem tinha se mudado de Nápoles para a Toscana e iniciara trâmites para trocar de nome. Além disso, havia movido ações contra Google, YouTube, Yahoo e Facebook, exigindo o seu direito ao esquecimento. Já em 2015 conseguira que o vídeo não aparecesse mais nos buscadores, mas continuava aparecendo com outros títulos e menções. De fato, a busca por “Stai facendo il vídeo? Bravo” continua dando mais de 200.000 resultados no Google.

O julgamento terminou na semana passada, quando foi ordenada a retirada dos vídeos e dos comentários. Entretanto, como relata a agência Efe, a mesma sentença também considerou que a mulher consentiu com as gravações, e que por isso seria condenada a pagar 20.000 euros (75.000 reais) a cinco sites por custas processuais.

Segundo a imprensa italiana, os familiares consideram que a obrigação de pagar a esses sites que contribuíram para o assédio foi o estopim do suicídio, que ela já havia tentado anteriormente por causa desses fatos. “Minha sobrinha foi assassinada pela Internet e pela indiferença de muitos”, disse uma das tias do T. C. à Efe.

O caso de T. C. não é único: uma jovem norte-americana de 18 anos se suicidou em 2008 depois que seu namorado divulgou fotos que ela lhe enviara. Em 2009, o mesmo aconteceu com outra norte-americana de 13 anos. Uma canadense de 15 anos se matou em 2012 depois de gravar um vídeo no qual contava o assédio que sofrera devido a uma foto, e apesar de ter mudado várias vezes de colégio.

Fonte: El País, 15-09-2016.

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“Ainda há muito caminho a se fazer. Falta uma educação responsável à utilização das mídias sociais. Falta a capacidade de entender que uma vida pode ser destruída quando a própria reputação é atacada.”

A opinião é da filósofa italiana Michela Marzano, professora da Universidade de Paris V – René Descartes. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 14-09-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

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No fim, a vergonha e a dor levaram a melhor, e Tiziana se matou, enforcando-se com um lenço no porão da casa. Ela tinha apenas 31 anos de idade. E ainda tinha toda a vida pela frente.

Mas que vida?, ela deve ter pensado enquanto tentava desesperadamente sair de uma história feita de vídeos duros que nunca deveriam ter circulado on-line, de curiosidade mórbida e de insultos repetidos, de exposição em praça pública e de um direito ao esquecimento que tarda em se afirmar como tal.

Que vida?, ela deve ter pensado antes de cometer o irreparável, naquela nova casa onde ela se iludia de que poderia recomeçar tudo de novo.

Quando se faz de tudo para ser esquecido, mudando de cidade e iniciando as práticas para modificar nome e sobrenome, mas, depois, nada muda, porque os vídeos não são removidos, e a ferocidade da web não tem limites, é difícil para qualquer um acreditar ainda na vida e na possibilidade da redenção.

Acontece com todas as pessoas cometer erros, comportar-se de maneira superficial ou de não se dar conta das consequências que uma piada ou uma bravata podem ter. Acontece, pagamos a conta, às vezes também fazemos muito mal, mas, depois, levantamos e recomeçamos. Pelo menos, era assim que acontecia antes da internet. Antes, justamente.

Porque, desde que existe a internet, desde que as barreiras entre a vida privada e a vida pública entraram em colapso e desde que qualquer um se sente no direito de ofender e de insultar os outros com base em imagens, ruídos e vídeos que circulam on-line – como se os insultos e as ofensas não tivessem consequências importantes sobre a vida de uma pessoa – parece que não se pode fazer mais nada para voltar atrás, e as eventuais culpam traçam o caminho de uma vergonha sem fim, inevitável, perene.
 
É claro que, no caso de Tiziana, os juízes, no fim, reconheceram a existência de um direito ao esquecimento, contestando o fato de que esses vídeos não tinham sido removidos das mídias sociais. Mas a decisão, mais uma vez, chegou tarde demais. Exatamente tarde mais como o mundo dos adultos está se dando conta do sofrimento daqueles que, exposto em praça pública na internet, busca desesperadamente uma ajuda, gostaria de voltar atrás, gostaria de ser esquecido e recomeçar do zero.

Ainda há muito caminho a se fazer. Falta uma educação responsável à utilização das mídias sociais. Falta a capacidade de entender que uma vida pode ser destruída quando a própria reputação é atacada. Falta a consciência do fato de que certas imagens e certos vídeo que circulam on-line, independentemente da própria vontade, pode, destruir a própria identidade de uma pessoa, impedindo-a de mudar, de se transformar, de se redimir e de se tornar “outra”.

Mesmo que o valor da nossa vida seja infinitamente superior ao julgamento que uma pessoa pode fazer sobre nós, é difícil, senão até impossível, saber disso e ter consciência disso em um mundo que reduz tudo ao “diz-se que” e ao “vê-se que”.

AUSTIN, TX - JUNE 05: Michael Phelps prepares to swim the Men's 200 meter individual medley heat race during the Longhorn Aquatics Elite Invite on June 5, 2016 in Austin, Texas. Tom Pennington/Getty Images/AFP

O nadador “superstar” Michael Phelps, o atleta olímpico mais “medalhado” de todos os tempos, quase cometeu suicídio há dois anos.

Seu sucesso estrondoso lhe trouxe tanta atenção durante a última década que a mídia esportiva quase o adorava como a uma espécie de deus. Enquanto isso, o verdadeiro Phelps,o ser humano Phelps, travava em seu coração uma luta brutal e aterradora para encontrar a paz.

Ele se sentia vazio e tentava preencher a falta de sentido na vida com drogas e álcool – uma opção que o jogou numa espiral descendente rumo à destruição de si mesmo. Em 2009, foi suspenso da natação durante três meses por causa de uma fotografia que o mostrava fumando maconha. A suspensão não o impediu, porém, de continuar vivendo no limite: aliás, as coisas pioraram, culminando na sua segunda detenção por dirigir bêbado.

Phelps tinha chegado ao seu fundo do poço. Nos dias seguintes à sua prisão, ele se isolou – e continuou a beber. O astro admitiu depois, em entrevista à ESPN:

Eu não tinha autoestima. Não via meu valor próprio. Eu só pensava que o mundo ia ficar melhor sem mim. Achava isso a melhor coisa que eu podia fazer – acabar com a minha vida“.

Suas medalhas de ouro não o consolavam. Não havia mais propósito em continuar vivendo.

Providencialmente, sua família e amigos o convenceram a se internar e lidar com seus demônios. Ele relutou no começo; não foi fácil conseguir se abrir, mas, depois de algum tempo, aceitou sua situação e começou o caminho da recuperação.

Phelps tinha levado consigo o livro “The Purpose Driven Life” [“Uma Vida Com Propósito”], de Rick Warren, presenteado a ele por Ray Lewis, ex-atleta do Baltimore Ravens. Phelps não apenas o leu como o compartilhou com outros pacientes – ganhando o apelido, no centro de reabilitação, de “Preacher Mike“, algo como “Mike, o pregador”.

Michael Phelps agradeceu a Lewis pelo livro dizendo: “Cara, este livro é muito louco! A coisa que está acontecendo… ah, meu Deus… eu não tenho como agradecer o suficiente, cara. Você salvou a minha vida“. Phelps explicou, em uma entrevista, que o livrome fez acreditar que existe um poder maior que eu e que existe um propósito para mim neste planeta“.

Os atletas beijam suas medalhas, que validam o seu trabalho duro, mas que nunca correspondem ao beijo. Os elogios da mídia são uma brisa inconstante. Já o amor enraizado na fé ajuda a restaurar as perspectivas. Além de encontrar a fé durante a reabilitação, Phelps reconheceu que grande parte de sua falta de serenidade se devia à ausência do paina maior parte de sua vida. Os pais de Phelps tinham se divorciado quando ele tinha 9 anos. Foi para preencher esse vazio que o pequeno Michael recorreu às piscinas. Mas, depois que a água foi conquistada, a dor reprimida se manifestou com força.

Quando chegou a Semana da Família na clínica de reabilitação, Phelps retomou contato com o pai – e aquele foi um momento de cura para ambos. Eles se abraçaram pela primeira vez em vários anos e essa experiência ajudou Phelps a seguir em frente.

Poucos meses após a reabilitação, Phelps pediu Nicole Johnson, sua namorada de longa data, em casamento. A cerimônia está prevista para após o término dos Jogos Olímpicos do Rio. Pouco depois de planejarem se casar, os dois descobriram que Nicole estava grávida – e o nascimento recente do filho foi outro ponto de virada na vida de Phelps.

Ao pegar o bebê no colo, Phelps chorou:

Eu não achava que ia me emocionar tanto. ‘Este é o nosso filho’. E, de repente, você tem essa nova apreciação do que é realmente o amor“.

Com a nova responsabilidade de uma família, Phelps declarou ter planos de se aposentar depois da Olimpíada do Rio. Em uma entrevista recente, ele afirmou, em referência ao filho e a essa possibilidade: “Não me matem se eu voltar, mas eu só vou dizer que tê-lo aqui, assistindo às possíveis últimas provas da minha carreira, é algo que eu quero muito compartilhar com ele“.

Pela graça de Deus, Phelps pôde ser resgatado do fundo poço e trazido de volta à vida. Phelps pode não ser perfeito, mas a sua recém-descoberta fé cristã lhe deu um novo rumo. Seu sucesso ainda o mantém no alto do pedestal e a mídia continua a adorá-lo como a um deus, mas, agora, Phelps parece ter uma noção mais clara de quem ele é, dentro do grande panorama das coisas e daquilo que realmente importa.

Ele entende melhor, hoje, que as medalhas de ouro – não importa quantas possa acumular – não tiveram, não têm e não terão poder para salvá-lo.

Autor: Philip Kosloski

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É terça-feira. Laura, 16 anos, chegou da escola. Seus pais estão trabalhando. Pulou o almoço e se trancou no quarto. Na internet, ela questiona se vale a pena continuar vivendo, mas ninguém se importa. A cena se repete com frequência, até que ela desiste de viver.

Laura é uma personagem fictícia, mas cenas como as citadas acima estão presentes no cotidiano de milhares de pessoas que tiram a própria vida todos os anos. Segundo dados da Secretaria Estadual da Saúde do RS (SES), três pessoas cometem suicídio a cada 24 horas no Rio Grande do Sul. Mais de mil por ano. Entre adolescentes de 15 a 19 anos, a morte autoprovocada aumentou 30% nos últimos e já é a segunda principal causa de óbito. No entanto, 90% dos casos poderiam ser evitados, é o que alerta a coordenadora da Residência Médica do Hospital Psiquiátrico São Pedro(HPSP), Roberta Rossi Grudtener.

Roberta salienta que o suicídio não tem uma única causa, mas muitos fatores. Ela afirma que o aumento dos casos tem a ver com o mundo estar mais competitivo, com mudanças no estilo de vida, com o surgimento do cyberbullying – principalmente na adolescência -, mas também está relacionado à falta de prevenção, especialmente de transtornos psicológicos.

Um dos caminhos para a prevenção seria justamente parar de tratar o tema como tabu e buscar a desestigmatização de pessoas sob risco de cometer suicídio.

Sinais de alerta

Em estudo recente sobre casos de suicídio por intoxicação no Estado, percebeu-se que, num período de 10 anos, o pico de incidência de tentativas de suicídios por intoxicação por adolescentes ocorria nas terças-feiras, das 19h às 21h. Não houve nenhum caso registrado no Dia da Criança e o segundo dia com menos ocorrências foi o Natal. Já entre os adultos, a maioria dos casos ocorria no final de semana. Por quê? “A criança e o adolescente tendem a ficar mais sozinhos durante a semana. Familiares estão trabalhando. Ela vai para o colégio, depois fica a tarde inteira sozinha. A noite dá o pico de desespero”, diz Roberta. “Entre os adultos, o pico ocorre no final de semana, porque durante a semana ele está trabalhando, onde pelo menos tem contato com outras pessoas”.

A coordenadora do HPSP alerta que é totalmente possível prevenir que suicídios ocorram, começando pelo simples fato de prestar mais atenção em mudanças comportamentais. “O adolescente tinha uma rotina. Ele muda essa rotina. Por exemplo, fazia uma atividade que gostava, tinha amigos que gostava. Daqui a pouco o pai e a mãe percebem que ele deixou de fazer atividades que gostava, deixou de ver alguns programas de TV, passou a ficar mais isolado no quarto. O olhar dele é diferente. Passou a comentar menos. Pergunta alguma coisa e ele não quer responder. Tem alguma coisa de rebeldia que é normal, mas os pais sabem a diferença entre o adolescente que está rebelde e o adolescente que está indiferente. É uma mudança sutil de comportamento”, diz a médica, salientando também que é preciso ficar atento a mudanças de padrão de alimentação, como deixar de comer ou aumentar muito a quantidade de comida ingerida, e piora nas notas escolares.

Outro sinal importante a ficar atento são frases de alerta, tais como: “A vida não vale mais a pena”, “Por que eu estou vivo?”, “Não queria estar vivo”, “Eu quero morrer”. “Não é normal um adolescente querer morrer”, afirma Roberta. “Quando alguém diz ‘eu não quero mais viver’, ele não está falando de opções em que ele mesmo teria condições de decidir. Não, isso é um sintoma. Noventa por cento dos casos de suicídios são atrelados a transtornos mentais, doenças – especialmente transtornos de humor e depressão – e uso e abuso de substâncias”.

A literatura médica salienta que a grande maioria dos casos de suicídio são precedidos por estes sinais de alerta e também por tentativas. Estima-se que, para cada caso de suicídio infantil, ocorram 300 tentativas. “Geralmente, as pessoas, um mês antes de virem a cometer suicídio, verbalizam essas frases de alerta”, explica Roberta.

A médica diz que os especialistas consideram que nove entre dez casos de suicídio poderiam ser evitados e que isso começaria por uma mudança de cultura em que, por exemplo, as frases de alerta passassem a ser tratadas como sintomas. “Jamais diga ‘isso é bobagem’, porque uma pessoa que diz essas frases está apresentando um sintoma”, afirma.

Ela faz ainda uma comparação entre os sintomas de risco de suicídio com o de doenças cardíacas, por exemplo. “Quando a gente pensa em infarto de miocárdio, o que a gente pensa de sintomas? Dor no peito. Suicídio? ‘Eu quero morrer’, ‘A vida não vale mais a pena’, isso aí são sintomas graves. É um sintoma, não é bobagem. De alguma forma essa pessoa está dizendo: ‘Por favor, socorro. Eu estou em intenso sofrimento’”.

Ela salienta que estes casos devem, inclusive, ser tratados como urgência ou até emergência pelas unidades de saúde. Urgência seria ela estar falando sobre isso. Emergência seria: ‘Eu vou me matar’.” Essa pessoa não pode ficar mais nenhum minuto sozinha até ela ser avaliada por uma equipe de saúde, por um médico psiquiatra, até ser vista qual é a melhor coisa a ser feita”, diz a médica. “Se chegar um baleado no posto de saúde, o que acontece? Para tudo e vai se atender o baleado. É a mesma coisa se chegar alguém que foi levar o seu bebezinho para fazer vacina e disser na sala de espera: ‘Ah, a vida não vale mais a pena’”, complementa.

Como prevenir

A médica diz que é importante a procura por atendimento especializado de forma espontânea, mas também é necessário que pessoas próximas, sejam familiares, responsáveis ou amigos, encaminhem pessoas com transtornos mentais para um tratamento. Ela salienta que o governo está capacitando os profissionais da rede básica de saúde para também estarem preparados para acolher estas pessoas, começando por uma escuta preparada.

Além da busca de tratamento médico, Roberta salienta que a prevenção a casos de suicídio começa, muitas vezes, com uma boa conversa. “No momento que se observa no adolescente uma mudança de comportamento, a melhor coisa que o pai, a mãe ou os responsáveis podem fazer é sentar e conversar com esse adolescente. ‘Vamos conversar aqui um pouquinho, cara. Me diz como tu tá se sentindo?’ Se vier esses sinais de alerta, vamos buscar ajuda, então’”.

Mas ela acrescenta que a prevenção também passa por campanhas permanentes. Um exemplo é o Setembro Amarelo, campanha promovida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) desde 2006 e replicada no Estado.

No caso de crianças e adolescentes, ela salienta que as escolas tem papel fundamental através da realização de ações de defesa da vida. “Ações que vão promover a paz, promover o respeito das diferenças, promover o que cada criança tem de especial. Isso previne suicídios”, diz a médica.

“No momento que a gente previne bullying, que é um fator de risco, a gente está prevenindo, em última análise, a depressão, a busca por soluções mágicas, que é o uso de substâncias. Através de um ambiente mais saudável podemos promover a vida”.

Fonte: Sul21

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A proposta de que o suicídio assistido seja legal na Inglaterra e no País de Gales foi rejeitada por parlamentares britânicos, na primeira votação sobre o assunto em quase 20 anos.

O projeto para permitir que adultos com doenças em estágio terminal pudessem dar fim a sua vida com supervisão médica recebeu 330 votos contra e apenas 118 a favor.

A votação foi acompanha por um debate acalorado, em que os defensores do chamado suicídio assistido argumentaram que a nova legislação permitiria uma “morte digna e pacífica”, enquanto opositores a consideraram “totalmente inaceitável”e que poderia dar margem para abusos.

A proposta determinava que pessoas com uma expectativa de vida de menos de seis meses poderiam pedir uma prescrição médica para uma dose letal de medicamentos, que seria administrada por elas mesmas.

Esta foi a primeira vez desde 1997 que os parlamentares votaram sobre o suicídio assistido, tema que vem dividindo a opinião pública no Reino Unido.

A rejeição do projeto significa que a lista de países onde o “direito de morrer” é garantido permanece ainda bastante restrita.

Apenas cinco em todo o mundo permitem o suicídio assistido, em que pacientes aplicam as drogas em si mesmos.

E, em um número menor (quatro), a eutanásia, quando o coquetel é aplicado no paciente por médicos, é descriminalizada em circunstâncias especiais.

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Holanda

Em abril de 2002, a Holanda tornou-se o primeiro país do mundo a legalizar a eutanásia e também descriminalizou o suicídio assistido.

O país impôs, no entanto, uma série de condições: é preciso que a doença diagnosticada seja incurável e que o paciente esteja sofrendo de uma dor “insuportável”, sem perspectiva de melhora.

O paciente ainda deve fazer o pedido de auxílio para morrer estando ainda “totalmente consciente” e manter este desejo ao longo do tempo.

A parte mais controversa da nova norma é provavelmente a previsão da idade para a prática, sendo permitida para pacientes a partir dos 12 anos, apesar de que aqueles com até 16 anos precisam ter a autorização dos seus responsáveis legais.

Membros da Associação Médica Cristã afirmam que a legislação saiu de controle desde então, com um aumento de 15% dos casos em 2014, para 5 mil suicídios assistidos.

Mas um estudo publicado no periódico científico The Lancet em 2012 contradiz esta crença, ao afirmar que o número de pessoas que morreram com eutanásia ou suicídio assistido não aumentou depois da lei.

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Suíça

É talvez o país mais conhecido por sua permissão legal ao direito à morte.

Isso se deve em parte à famosa clínica Dignitas, que oferece este tipo de serviço e tem sido muito procurada por pacientes terminais que viajam para a Suíça para dar fim a suas vidas.

A lei do país permite o suicídio assistido, desde que não seja por “motivos egoístas”, como para evitar pagar pelo apoio necessário ao paciente, por exemplo, ou antecipar o recebimento de uma herança.

Tal transgressão é prevista como crime pelo Código Penal suíço. Para evitar uma condenação, quem prestou o auxílio deve provar que o paciente sabia o que estava sendo feito e que tenha feito um pedido “sincero” para que fosse dado fim à vida ao longo de um período de tempo.

Por sua vez, a eutanásia é considerada um crime.

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Bélgica

A Bélgica descriminalizou a eutanásia em 2002. Foi o segundo país a fazer isso, depois da Holanda.

Médicos podem auxiliar pacientes em sua morte desde que haja um longo histórico entre as duas partes. Ambos devem ser belgas e residir permanentemente no país.

Os pacientes devem ter uma condição médica irreversível e estar passando por um “sofrimento mental ou físico constante que não pode ser aliviado”.

Eles só podem sofrer eutanásia se tiverem manifestado desejo para tal antes de ingressar em um estado vegetativo. E o médico deve estar presente no momento da morte.

Em fevereiro de 2010, o país tornou-se o primeiro a legalizar a eutanásia também para crianças.

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Estados Unidos

No país, a decisão sobre a legalidade do suicídio assistido cabe a cada Estado, sendo permitida em cinco deles (Washington, Oregon, Vermont, New Mexico e Montana) enquanto a eutanásia ainda é ilegal em todo os Estados Unidos.

Parlamentares da Califórnia aprovaram uma lei que pode incluir o Estado no grupo de permite que médicos ajudem pacientes terminais a acabar com suas vidas. Mas a legislação ainda precisa ser aprovada pelo governador.

No Oregon, o primeiro Estado a legalizar o suicídio assistido, é permitido desde 1997 que médicos prescrevam coquetéis de droga em doses letais para pacientes terminais.

Os pacientes devem ter mais de 18 anos, estarem conscientes do que estão fazendo e terem menos de seis meses de vida. Ainda é necessário fazer dois pedidos verbalmente e um por escrito, diante de uma testemunha.

Em 2014, os Estados de Washington, Vermont e Montana aprovaram legislações nos moldes do Oregon.

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Outros países

Luxemburgo têm leis para eutanásia e suicídio assistido desde 2009, similares às da Bélgica e baseadas no princípio de “liberdade de consciência” dos médicos.

Na Colômbia, o primeiro caso de suicídio assistido foi autorizado pelo ministério da Saúde em julho. Ovidio González, de 79 anos, sofria de câncer em estágio terminal.

Na Alemanha, é permitido que um médico prescreva um coquetel letal a pedido do paciente. O tema está sendo debatido no Legislativo, que pode estabelecer novas regras sobre o suicídio assistido até novembro.

O mesmo vem ocorrendo na Província de Quebec, no Canadá, onde já foi aprovada uma lei que prevê uma sedação paliativa e auxílio médico para morrer. A legislação entrará em vigor em dezembro.

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Brasil

As duas práticas são proibidas no Brasil. O Código Penal classifica o suicídio assistido como um crime contra a vida por meio de seu artigo 122, que veta o ato de “induzir ou instigar alguém a suicidar-se ou prestar auxílio para que o faça”.

O crime é passível de pena de dois a seis anos de prisão quando o suicídio é consumado, ou de um a três anos caso isso não ocorra, mas resulte em lesão corporal grave.

A pena pode ser duplicada caso o ato seja praticado por “motivo egoísta” ou se a vítima for menor de idade ou tiver sua “capacidade de resistir diminuída”.

A eutanásia é considerada um homicídio simples, por meio da combinação do artigo 121, que trata do ato de “matar alguém”, e do artigo 29, que estende a culpabilidade e as penas aplicadas a um crime a “quem, de qualquer modo, concorre” para ele.

Desde 2006, o Conselho Federal de Medicina (CFM) autoriza por meio de uma resolução que médicos interrompam o tratamento de um doente terminal, se este fosse o desejo do paciente, uma prática conhecida como ortotanásia.

A medida foi suspensa em 2007 por liminar da Justiça Federal emitida a pedido do Ministério Público Federal (MPF), para o qual tal prática só poderia ser autorizada por meio de lei.

No entanto, em 2010, a liminar foi anulada pela Justiça a pedido do próprio MPF após o órgão mudar de opinião quanto ao tema.

BBC Brasil

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Um policial foi o grande herói do dia na China ao se jogar embaixo de um homem que havia acabado de se jogar de um prédio em obras. Por conta da atitude, a vida do cidadão acabou sendo salva.

Tudo começou quando moradores alertaram policiais e bombeiros de que o homem estava na obra e ameaçando se matar. Enquanto se organizavam para tentar o resgate, o homem pulou e ficou preso em uma parte da obra, demorando mais para cair.

Único presente no local, o policial Liang Xiao não pensou duas vezes antes de se jogar no local onde o homem iria cair. Com a atitude heroica, amorteceu a queda e salvou a vida do cidadão.

Pouco depois, os dois foram levados a um hospital da região para que fossem examinados. Apesar de não morrer, o homem se machucou bastante, enquanto o policial sofreu ferimentos leves e ficou apenas meio atordoado com o impacto do choque.

Fonte: Yahoo Notícias

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No ano passado, no Japão, mais de 25 mil pessoas cometeram suicídio. Isso dá uma média de 70 por dia. A maioria delas, homens.

Estes números não representam a maior taxa de suicídio entre países desenvolvidos – o título ainda cabe à Coreia do Sul, com uma média anual de 28,9 suicídios por 100 mil habitantes. Mas estão muito acima de outras nações ricas.

O índice japonês de 18,5 suicídios para cada 100 mil habitantes é, por exemplo, três vezes o registrado no Reino Unido (6,2) e 50% acima da taxa dos Estados Unidos (12,1), da Áustria (11,5) e da França (12,3).

O assunto voltou a ter destaque com a auto-imolação de um homem de 71 anos em um trem bala na última terça-feira.

O que fez um pacato idoso a se matar desta forma em um vagão lotado?

Conforme ele derramava o líquido inflamável sobre si mesmo, teria se afastado de outros passageiros, segundo testemunhas, para não colocá-las em perigo. Algumas disseram que ele tinha lágrimas nos olhos ao fazer isso.

Agora, conforme seu passado começa a ser investigado pela mídia japonesa, surgem sinais de se tratar de um homem no limite. Ele vivia sozinho e não tinha emprego. Passava os dias coletando latas de alumínio para vendê-las para reciclagem.

Vizinhos disseram a repórteres que o ouviram quebrar uma janela ao se trancar do lado de fora de seu apartamento dilapidado.

Outros afirmaram raramente tê-lo visto fora de casa, mas ouviam com frequência a televisão ligada. Pobre, de idade avançada e sozinho. É um caso bastante familiar.

“O isolamento é o fator número um que antecede a depressão e o suicídio”, diz o psicólogo Wataru Nishida, da Universidade Temple, em Tóquio.

“Hoje em dia, são cada vez mais comuns histórias de idosos que morrem sozinhos em seus apartamentos. Eles estão sendo negligenciados. Os filhos costumavam cuidar de seus pais no Japão, mas isso não ocorre mais.”

‘Suicídio em nome da honra’

Muitas pessoas costumam citar uma antiga tradição de “suicídio em nome da honra” para a alta taxa do país.

Elas citam, por exemplo, a prática samurai de cometer “seppuku” e dos jovens pilotos “kamikazes” de 1945 para explicar por que razões culturais tornam os japoneses mais propensos a tirar suas próprias vidas.

De certa forma, Nishida concorda com este ponto de vista: “O Japão não tem história de Cristianismo. Então, o suicídio não é um pecado. Na verdade, alguns encaram como uma forma de assumir responsabilidade por alguma coisa”.

Ken Joseph, que trabalha no serviço de ajuda a suicidas do país, concorda. Ele diz que sua experiência ao longo dos últimos 40 anos mostra que idosos que têm problemas financeiros podem ver o suicídio como uma saída para esta situação.

“Os seguros de vida no Japão são muito ambíguos quanto ao pagamento por suicídio. Então, quando uma pessoa se mata, o seguro costuma ser pago”, afirma Joseph.

“Os idosos vivem sob uma pressão intolerável e acreditam que o melhor que podem fazer é tirar suas vidas para sustentar sua família.”

Pressão financeira

Por causa disso, alguns especialistas acreditam que a taxa de suicídios no Japão é na verdade muito mais alta do que os registros mostram.

Muitos casos de idosos que morrem sozinhos nunca chegam a ser completamente investigados pela polícia. De acordo com Joseph, a prática quase universal no país de cremar os corpos também significa que qualquer evidência de um suicídio é rapidamente destruída.

Mas não são apenas os idosos homens com problemas financeiros que estão tirando suas vidas. O índice vem crescendo rapidamente entre homens jovens, fazendo com que o suicídio seja a principal causa de morte entre os homens japoneses com idades entre 20 e 40 anos.

E as evidências apontam que estes jovens estão se matando porque perderam completamente a esperança e são incapazes de pedir ajuda.

Os números começaram a crescer após a crise financeira asiática de 1998 e aumentaram novamente após a crise financeira mundial de 2008.

Especialistas acreditam que estes aumentos estão ligados a um crescimento das “condições precárias de emprego”, em que jovens são contratados por curtos períodos de tempo.

O Japão já foi a terra do emprego vitalício, mas, enquanto muitas das pessoas mais velhas ainda desfrutam de estabilidade e benefícios generosos, quase 40% dos jovens japoneses não conseguem encontrar empregos estáveis.

A ansiedade causada por problemas financeiros e a instabilidade no trabalho é reforçada pela cultura japonesa de não reclamar. “Não há muitas formas de expressar raiva ou frustração no Japão”, diz Nishida.

“Esta é uma sociedade muito orientada por regras. Jovens são moldados para se encaixar em nichos existentes. Não há como alguém expressar seus sentimentos vendadeiros. Se são pressionados por seu chefe ou se deprimem, alguns acham que a única saída é morrer.”

Isolamento tecnológico

A tecnologia pode estar piorando esta situação, ao aumentar o isolamento dos jovens. O Japão é famoso por uma condição conhecida como “hikkimori”, um tipo de isolamento social grave.

O jovem nesta situação pode se fechar completamente ao mundo, permanecendo em um quarto por meses ou mesmo anos. A maioria deles são homens.

Mas esta é apenas a forma mais extrema de uma atual perda generalizada de socialização cara a cara. Uma pesquisa recente sobre o comportamento dos jovens em relacionamentos e sexo trouxe resultados impressionantes.

Publicada em janeiro pela Associação de Planejamento Familiar do Japão, o estudo indicou que 20% dos homens com idades entre 25 e 29 anos tinham pouco ou nenhum interesse em relações sexuais. Nishida aponta para a internet e a influência da pornografia online sobre isso.

“Os jovens japoneses têm muito conhecimento, mas pouca experiência de vida. Não sabem como expressar suas emoções”, afirma Nishida.

“Eles esqueceram como é tocar uma pessoa. Quando pensam sobre sexo, podem ficar ansiosos e sem saber como lidar com isso.”

E, quando jovens se encontram isolados e deprimidos, eles têm poucos lugares aos quais recorrer. Doenças mentais são um tabu no país, e a depressão é geralmente pouco compreendida. Quem sofre deste problema, normalmente tem medo de falar sobre o assunto.

Sistema de saúde ruim
O sistema de saúde para doenças mentais também é ruim. Faltam psiquiatras, e não há qualquer tradição destes profissionais trabalharem junto com psicólogos.

Pessoas com problemas mentais podem receber prescrições de medicamentos psicotrópicos fortes, mas, com frequência, isso não vem acompanhado de um acompanhamento psicológico.

O próprio mercado de psicologia do Japão é uma bagunça. Ao contrário de outros países, não há um sistema de ensino estabelecido pelo governo nem para qualificação profissional de psicólogos clínicos.

Qualquer um pode ser apresentar como tal, e é muito difícil saber se quem presta este tipo de serviço sabe o que está fazendo.

Não é um bom cenário, ainda mais porque, apesar da taxa de suicídio ter começado a declinar nos últimos três anos, ela ainda é muito alta.

Nishida diz que o Japão agora começa a debater mais sobre doenças mentais e não tratar isso como algo assustador e estranho que afeta apenas a alguns poucos. Mas o especialista acredita que ainda há um longo caminho a ser percorrido.

“Quando há uma discussão na TV sobre problemas mentais no Japão, eles ainda falam como se depressão fosse sinônimo de suicídio. Isso precisa mudar.”

Fonte: BBC Brasil

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O caso de Brittany Maynard, que se suicidou no dia 1º de novembro porque tinha câncer terminal e cujo drama está sendo usado para promover a eutanásia, despertou a reflexão sobre o destino das pessoas que acabam com a própria vida.

O Catecismo da Igreja Católica assinala que o suicídio é um ato grave e no numeral 2283 indica claramente que “não se deve desesperar da salvação eterna das pessoas que se suicidaram. Deus pode, por caminhos que só Ele conhece, oferecer-lhes a ocasião de um arrependimento salutar. A Igreja ora pelas pessoas que atentaram contra a própria vida”.

O Pe. Guillermo Leguía, professor de teologia moral da Faculdade de Teologia Pontifícia e Civil de Lima (Peru) explica que não é correto dizer que a pessoa que se suicida vai para o inferno.

Em declarações ao Grupo ACI, o sacerdote peruano indica que “sim é correto dizer que o ato de suicidar-se é um ato que está mal, mas ninguém pode fazer um julgamento sobre os elementos que ocorrem no coração da pessoa que fazem com que esse ato que está mal seja plenamente imputável”.

“Ninguém pode conhecer ou saber se a pessoa que se suicida vai para o inferno. Além disso, a Igreja não ensina isso”, precisa.

Para Dom Fernando Chomali, Arcebispo de Concepção (Chile), perito em bioética e membro da Pontifícia Academia para a Vida, no caso de um suicida é necessário considerar os aspectos psicológicos e psiquiátricos, assim como o fato de que para todas as pessoas “a misericórdia de Deus é muito grande”.

“Penso que há pessoas que chegam a um alto nível de desespero pela doença; e pode ser que a eutanásia ou o homicídio terminem sendo uma ‘resposta’ à grande solidão que essa pessoa sente”, comenta ao Grupo ACI.

O Pe. Leguía disse também sobre este caso que “é importante distinguir entre o ato que a Igreja ensina que está errado (suicídio) e o pecador a quem a Igreja sempre ama com um coração infinito e com uma misericórdia infinita. E bom, saber que às vezes há um conjunto de atos que embora estejam mal não são plenamente imputáveis ao ator”.

O sacerdote disse também que Brittany Maynard esteve “condicionada e saturada pela experiência da dor, da angústia, que é uma tragédia. Esta mulher sucumbiu ante um mar de tribulações e de emoções mal dirigidas que indubitavelmente diminuem a responsabilidade e a liberdade”. Entretanto, acrescentou, “isso não significa que o ato não seja um ato livre, mas podem haver atenuantes para a sua plena atribuição e responsabilidade”.

De outro lado, Dom Fernando Chomali, que publicou no dia 5 de novembro uma carta pastoral sobre a eutanásia que em países como o Chile o governo pretende aprovar, disse que é importante pensar “seriamente o que pode significar uma sociedade onde cada um possa dispor de seu corpo como se fosse uma propriedade pessoal. A verdade é que o corpo não nos pertence já que tem, ademais, uma dimensão social e é obvio outra sagrada que é preciso considerar”.

Depois de afirmar que diante de casos como o de Brittany é importante o “apoio espiritual, humano e psicológico” para que as pessoas não se suicidem, o prelado afirmou que “a sociedade empreende um caminho perigoso ao ser permissiva com a eutanásia”.

“A Igreja Católica diz não à eutanásia e ao encarniçamento terapêutico, e diz sim aos cuidados paliativos; e, sobretudo, sim a muito amor e muito acompanhamento”, concluiu.