O último desejo de um homem sem-teto, antes de morrer, era ver seu cão mais uma vez.

Yurtie, uma cadela, que morava com Cedar Rapids McClain Kevin de 57 anos, em seu carro.

Infelizmente, Kevin ficou doente com câncer de pulmão.

Funcionários do hospital dizem que o encontro foi muito comovente. Kevin morreu logo após o encontro com o seu amigo.


A IMPORTÂNCIA DE CHEGAR A TEMPO

Tenho visto entre os meus alunos vários casos de adolescentes que começam a entortar apesar da sua boa cabeça e do seu bom ambiente familiar. Descrevo e resumo uma má evolução típica:

Problemas de relacionamento com colegas de classe, ou a má influência de alguns, produzem num rapaz ou numa moça de treze anos a perda de concentração no estudo e baixo rendimento. Esse fracasso os distancia dos seus pais. A frustração cresce e se tenta paliá-la com a bebida, com brincar com as drogas e com relações sexuais ocasionais com colegas de perfil parecido.

À idade de vinte anos, a vida desses jovens pode ser já um completo caos, e acodem ao psiquiatra com um quadro mais ou menos agudo de alcoolismo, de dependência de drogas e de depressão. Nesse momento a solução talvez já seja difícil, mas quando tinham treze anos teria sido fácil.

A pergunta que se impõe é: O que poderíamos ter feito naquela altura para não ter de chegar agora a tais extremos? Poderíamos ter chegado a tempo?

Poderíamos ser tachados de alarmistas, se não fosse o fato de as estatísticas da Organização Mundial da Saúde afirmarem que o suicídio é a primeira causa de morte entre os jovens de 18 a 24 anos. Infelizmente, diversos estudos em países ocidentais atestam que uma em cada cinco crianças apresenta problemas psicológicos sérios, e que um em cada seis jovens de 20 anos apresenta sintomas de embriaguez crônica.

Só na França, fogem de casa por ano mais de cem mil adolescentes. Esses e outros dados igualmente dramáticos, longe de serem inevitáveis, são a demonstração de que a família e a escola chegam tarde demais, quando muitas vidas podem já estar arruinadas, ou à beira disso.

Diversas instituições estatais tentam sanear e diminuir essas situações com campanhas preventivas de informação. Mas a experiência mostra que a informação sozinha, mesmo sendo positiva, é muito insuficiente. Entre outras coisas porque a origem do problema não está na droga, no álcool, no sexo irresponsável ou no fracasso escolar, mas nas crises afetivas que tantos jovens atravessam, e que os leva a buscar o falso refúgio dessas condutas. Por isso, a verdadeira eficácia estaria na prevenção, e prevenir significa eliminar a raiz. Uma raiz complexa, onde se entrelaçam fatores tais como a herança genética, a família, o centro educativo e o ambiente social. Se houver uma solução para essa complexidade, terá de ser uma solução educativa, pelo lado do desenvolvimento afetivo.

Platão disse que toda educação poderia ser resumida em ensinar ao jovem quais prazeres deve aceitar e quais rejeitar, e em que medida. Adaslair Macintyre traduz assim o conselho platônico: Uma boa educação é, entre outras coisas, aprender a desfrutar fazendo o bem, e a sentir desgosto fazendo o mal.

FALTA DE AUTORIDADE E SÍNDROME LÚDICA

Já dissemos que a boa vida está necessariamente condicionada pela educação recebida. As mais recentes análises e reportagens sobre o mundo escolar espanhol detectam dois pontos por onde a nossa educação está fazendo água: a falta de autoridade e a síndrome lúdica. Trata-se de dois pontos fracos que impedem ou comprometem seriamente uma educação de qualidade. Em minha exposição, seguirei de perto o magnífico ensaio Os limites da educação, publicado por Mercedes Ruiz Paz em 1999.

Dizer que toda educação requer autoridade é quase um simplismo. Refiro-me a uma autoridade que não é o autoritarismo da violência física ou da humilhação, mas o prestígio capaz de garantir uma ordem básica. Uma ordem que requer uma informação moral precisa sobre o que está bem e o que está mal, para que a norma de conduta não seja a ausência de qualquer norma: o vale-tudo.

No mencionado ensaio, a autora explica que a autoridade supõe transmitir a obrigatoriedade de certas pautas e valores fundamentais, de certos critérios que ajudarão a construir personalidades equilibradas, capazes de agir com liberdade responsável. Coisa que no fundo não é tão difícil.

Todos entendemos que a autoridade deve ser primeiramente exercida e aprendida na família. E também sabemos que isso nem sempre acontece. Assim como existe um pensamento débil, existe um modelo de paternidade débil, que é mais capaz de vender os filhos ao diabo do que arriscar-se a ser tachado demagogicamente de tirano ou repressor.

Mas educar também é reprimir o que haja de indesejável numa conduta. Nestes últimos anos, muitos pais e professores se evadem dessa responsabilidade tratando seus filhos e alunos de igual para igual, como se fossem colegas ou amigos da escola, sem compreenderem que a educação não é nem deve ser uma relação entre iguais. Com os filhos, por exemplo, não se discute se é ou não necessário dar-lhes assistência médica: os pais são responsáveis de lhes dar essa assistência sem discussão.

É um erro atribuir à autoridade a possível infelicidade de um filho ou aluno. O que na verdade ocorre é o contrário. Uma correta autoridade faz a criança e o jovem sentirem-se queridos e seguros, pois notam que são importantes para alguém.

Mafalda – a célebre personagem das histórias em quadrinhos de Quino – sente a autoridade dos seus pais em questões tão cotidianas como a obrigação de tomar sopa, que ela detesta. Um dia, estando sozinha no seu quarto, fala: Mamãe?. E esta lhe diz: Que foi?. A menina responde: Nada. Só estava querendo confirmar que existe pelo menos uma boa palavra que ainda está em vigor.

Os especialistas em Psicologia infantil costumam explicar que os pais decepcionam a criança se a deixam fazer tudo o que quer, entre outras cosas porque essa sua equivocada tolerância irá transformar a criança num pequeno tirano antipático. Contudo, existem adultos que parecem obstinados em proporcionar às crianças e aos jovens uma felicidade absoluta e constante; e sobre esse erro se monta um outro ainda mais crasso: o de uma permissividade e impunidade quase completas. Qualquer preço lhes parece pequeno contanto que possam desfrutar da harmonia na família ou na escola. Mas uma harmonia conseguida à custa de todo tipo de concessões está montada sobre um barril de pólvora, pois a criança e o adolescente são por natureza insaciáveis.

Até aqui, o enfoque errado a respeito da autoridade. Outro enfoque errado típico da educação atual é a chamada síndrome lúdica. Como exemplo poderia ser citado o daquela escola pública que começava a exposição do seu projeto educativo para o ano 1995-96 com estas palavras: Nosso principal objetivo é que os nossos meninos e meninas sejam felizes.. Além de ser uma enorme ingenuidade, uma declaração de intenções como essa nem sequer é discutível, pois a atividade principal de um centro escolar não é nem deve ser a lúdica, e menos ainda quando observamos que o nível acadêmico de muitos colégios está ao rés do chão, enquanto vão sendo transformados em ludotecas ou ateliês de artesanato.

Se há alguns anos os inspetores ou diretores da escola podiam questionar o professor cujos alunos aos seis anos ainda não sabiam ler, hoje suspeitam do professor cujos alunos já sabem ler com essa idade. (O que será que ele andou fazendo? Pobrezinhos, como foram forçados!)

A síndrome lúdica, paralela ao desprestígio do esforço pessoal, tem raízes profundas na nossa sociedade. Se os políticos costumam ver nas pessoas eleitores, a economia capitalista as reduz à condição de compradores, e concentra a sua publicidade em conseguir que os seus clientes gastem o máximo para poderem levar uma vida cômoda e prazerosa. Isso costuma produzir uma sociedade integrada por tipos humanos adolescentes, compulsivos, pouco dados à reflexão e alérgicos a qualquer tipo de responsabilidade.

Essa situação, aplicada ao nosso país, fez com que Umbral dissesse que as pessoas não são nem de esquerda nem de direita, mas de shopping center. Se isso é assim, além dos lucros astronômicos dos shopping centers, no terreno educacional – diz Mercedes Ruiz – nos deparamos com adultos que são adolescentes educando outros adolescentes, todos mais ou menos dominados por uma síndrome lúdica que impede o amadurecimento dos alunos.

Os responsáveis por essa ludopatia são os pais, na medida em que explicam o colégio para os seus filhos mais jovens como sendo um lugar para brincar com os amigos e divertir-se. Corrigir essa forma errada de ver as coisas pode custar ao professor não digamos sangue, mas sim suor e lágrimas, e no pior dos casos pode ser que ele não o consiga. O garoto deve saber que vai para a escola para aprender, que só se aprende com esforço, que esse esforço vale a pena e é gratificante, e que não deve confundir o âmbito familiar com o escolar.

O colégio não é uma extensão do lar, e por isso o aluno não pode se levantar, conversar ou mascar chiclete quando lhe dê vontade. Atualmente, se o aluno não chegasse à escola com critérios e referências tão equivocados, o professor não teria que perder tanto tempo para colocá-lo naquela situação de civilidade e sossego mínimos a partir da qual o ensino começa a ser possível.

A crise de autoridade e a confusão entre aprendizado e brincadeira são aliadas perfeitos para que na classe se gere um clima de indisciplina que não beneficia ninguém e prejudica todos. Qualquer professor admite que hoje vinte alunos por classe são mais difíceis do que quarenta há dez anos. E esse mesmo professor não se sente respaldado pelos pais dos seus alunos: sabe que com freqüência não é apresentado aos olhos das crianças e dos jovens como uma pessoa que merece respeito, deferência e atenção.

Agora o problema é que uns garotos que ainda estão por civilizar, que ainda não têm suficientes conhecimentos, que mal se desenvolveram emocionalmente, e que estão forçosamente carentes de critérios, têm como única informação recebida a de poderem criticar e denunciar tudo o que contrarie o seu parecer.

Essa situação também tem a sua explicação nos tempos que correm. O mundo mudou muito e rápido. Modos tradicionais de ver a vida e de vivê-la talvez não tenham perdido a validade como os iogurtes, mas perderam a sua vigência. Daí se costuma chegar à falsa conclusão de que tudo é relativo, e então deixa de ter sentido aconselhar os filhos e alunos sobre condutas e valores. Desse modo muitos pais ficam bloqueados e não exercem ações positivamente educativas.

Por outro lado, a sensação de que seus pais se enganaram a seu respeito recorda-lhes que eles também podem se equivocar com seus próprios filhos, e essa possibilidade faz com que encarem a educação pelo lado negativo – o que é que não querem para os seus filhos -, deixando assim de elaborar um modelo de referência positivo para ser transmitido com o próprio exemplo. Enquanto isso, os filhos flutuam na indiferença e se movem entre o desconcerto e a desorientação.

ENFOQUES CORRETOS

Dissemos que não é possível a boa vida sem uma boa educação. Mas quem estabelece as linhas mestras da educação? Quem define quais são as coordenadas de uma educação de qualidade? Só há uma resposta: a família e as instituições educativas, respeitando sempre a própria tradição cultural. A família em primeiro lugar, porque os filhos são filhos de seus pais e não do colégio nem do Ministério da Educação.

Embora nem sempre concordem de fato, os pais, os colégios e o Ministério da Educação deveriam concordar em escolher, entre os diferentes modelos educativos, aqueles que sejam os melhores. Ao longo de 25 séculos de Civilização Ocidental, apareceram modelos educativos que ganham por esmagadora diferença dos outros, e configuram essencialmente a nossa cultura. Modelos integrados por certos traços fundamentais que passarei a comentar.

Trata-se de traços ou qualidades que derivam diretamente da condição humana: vestem-na com um traje sob medida e permitem o seu pleno desenvolvimento. Desde Aristóteles define-se o homem como sendo animal racional e animal social. Pois bem: a melhor educação da razão consiste em capacitá-la para descobrir o bem e pô-lo em prática. A inteligência que descobre o bem se chama consciência moral (primeiro traço) e a passagem da teoria à prática do bem realiza-se por meio da prudência (segundo traço).

Como a realização do bem costuma ser árdua, o terceiro dos traços educativos fundamentais é a fortaleza, esforço por conquistar e defender aquilo que vale a pena. Além disso, a animalidade que faz parte da nossa constituição fornece à conduta humana um recurso fundamental: o prazer. A educação do prazer – a sua administração racional – constitui o quarto traço indispensável a toda boa educação: chama-se autocontrole, domínio de si, temperança.

Um quinto traço é a justiça, que prescreve o respeito aos direitos dos outros e torna possível a própria existência da Sociedade. A justiça se concretiza nas leis: nas regras do jogo que nos permitem sair da selva e viver nos domínios da dignidade. Educar os jovens no sentido da justiça e no controle do prazer não é algo que tenha mais ou menos importância: Aristóteles afirma que tem uma importância absoluta.

A consciência moral, a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança são qualidades descobertas pelos gregos. Estão esboçadas em Homero e as encontramos em Sócrates, em Platão e em Aristóteles de forma explícita. Basta citar o mito platônico do carro alado ou a Ética a Nicômaco. Essas cinco qualidades são herdadas pelos romanos e pela Europa cristã. Além disso o cristianismo acrescenta outras três qualidades ou virtudes que se referem diretamente às relações do homem com Deus: me refiro à Fé, à Esperança e à Caridade.

Dizia Pascal – filósofo e matemático – que a última fase da razão é notar que existem muitas coisas que a ultrapassam, e que precisamente por isso é muito razoável crer. Nesse mesmo sentido afirma Josef Pieper, um dos melhores filósofos alemães do século XX, que poderia muito bem ocorrer que a raiz de todas as coisas e o significado último da existência só possam ser contemplados e pensados por aqueles que crêem. A Esperança em Deus é a qualidade necessária para o equilíbrio psicológico do único animal que sabe que vai morrer. E a Caridade é a forma de amar mais adequada à dignidade humana: com palavras de Borges, é ver os outros como o próprio Deus os vê.

Fonte: Arvo.net

Tradução: Quadrante

Madre Mariana Morazzani Arráiz, EP

No principio Deus criou o homem, e o entregou ao seu próprio juízo” (Eclo 15,14). A liberdade é um dom conferido por Deus exclusivamente aos seres racionais – anjos e homens.

A liberdade da pessoa, de fato, tem o seu fundamento na sua dignidade transcendente: uma dignidade que lhe foi doada por Deus, seu Criador, e que a orienta para o mesmo Deus. O homem, porque criado à imagem de Deus (cf. Gen. 1,27), é inseparável da liberdade, daquela liberdade que nenhuma força ou constrangimento exterior jamais poderá tirar-lhe e que constitui seu direito fundamental, quer como indivíduo, quer como membro da sociedade. O homem é livre porque possui a faculdade de se determinar em função da verdade e do bem. O homem é livre porque possui a faculdade de escolher « movido e determinado por uma convicção pessoal interior, e não simplesmente por efeito de impulsos instintivos cegos ou por mera coacção externa » (Const. past. Gaudium et Spes, n. 17). Ser livre é poder e querer escolher, é viver segundo a própria consciência”1.

2. É ainda a faculdade de escolher os meios dentro da ordem (facultas electiva mediorum servato ordine finis)3.A liberdade é, portanto, um atributo da vontade humana, em virtude dela, pode-se executar uma coisa ou não, ou ainda pode-se escolher entre duas coisas opostas (libertas arbitrii, liberdade de escolher ou potestas ad opposita ou poder dos contrários)

Assim, sendo a vontade uma faculdade que deve querer o que o entendimento lhe propõe como reto e conforme à ordem do ser, a liberdade não só não desaparece por seguir os ditames da razão, senão que encontra nesta a sua perfeição4.

O conhecimento intelectual precede à vontade e ilumina o caminho, à maneira de uma tocha nas mãos de um viajante ou um farol a guiar a rota de um navio.

Entretanto, ela não pode estar sujeita às paixões. Quanto mais seja a vontade independente do impulso das paixões, mais livre ela será. Quanto maiores sejam as influências alheias a ela, tanto maior desgaste sofrerá a liberdade. A dignidade do homem exige que ele proceda segundo sua livre e consciente escolha, isto é, movido e induzido pessoalmente por dentro e não levado por cegos impulsos interiores ou por mera coação externa(D 4317) .

Se as paixões humanas, desregradas por influência exterior, como, por exemplo, o consumo de drogas, a sujeição a práticas de hipnotismo, o emprego de narco-análises, etc., chegassem a obnubilar o entendimento ou a anular a vontade, esta deixaria de ser livre.

A falsa liberdade, ostentada por aqueles que se julgam livres, quando se negam a obedecer a lei de Deus, torna-os semelhantes aos seres brutos (animais) que obedecem somente aos próprios instintos e sob o impulso exclusivo da natureza procuram o que lhes convém e fogem daquilo que lhes é prejudicial. Eles não possuem leis que reprimam seus apetites, pois são inaptos para conhecê-las. Por isso, são incapazes de praticar a verdadeira liberdade 5.

Tertuliano comenta com toda propriedade a esse respeito: “Deus deu a lei ao homem não para privá-lo de sua liberdade, mas pelo contrário, para manifestar-lhe o seu apreço”6. Portanto, a razão pede a lei. Precisamente por ser livre, o homem deve estar submetido à lei.

Convém ressaltar que, em relação a Deus, a liberdade pede o reconhecimento voluntário da dependência devida ao Criador. Assim no-lo explica a Carta Encíclica Libertas Praestantissimum, de Leão XIII: A natureza da liberdade humana, […] inclui a necessidade de obedecer a uma razão suprema e eterna, que não é outra do que a autoridade de Deus impondo seus mandamentos e preceitos. E este justíssimo domínio de Deus sobre os homens está longe de suprimir ou sequer enfraquecer a liberdade humana, mas faz precisamente todo o contrário: a defende e a aperfeiçoa; porque a perfeição verdadeira de todo ser criado consiste em tender a seu próprio fim e alcançá-lo. Ora, o fim supremo ao qual deve aspirar a liberdade humana não é outro que o próprio Deus. 7


O contrário não é liberdade, mas libertinagem. Segundo um pensamento de Santo Agostinho, o primeiro libertino da história da humanidade foi o próprio Adão que se perdeu ao confundir liberdade com independência de Deus8. É cabível, então ponderar, ter sido Lúcifer o máximo libertino dos seres espirituais, quando ao proferir o brado de non serviam, “Escalarei os céus e erigirei meu trono acima das estrelas. Assentar-me-ei no monte da assembleia, no extremo norte. Subirei sobre as nuvens mais altas e me tornarei igual ao Altíssimo” (Is 14, 13-14), julgou estar reafirmando sua liberdade, mas, no entanto, permanece eternamente como o maior escravo e derrotado da história.

O Cardeal Joseph Ratzinger, atual Papa Bento XVI, assim se referiu ao problema da liberdade: “[…] A ideia de que ao rejeitar o que é mau fica tolhida minha liberdade, constitui uma perversão da liberdade. Em efeito, a liberdade só encontra seu espaço criativo no âmbito do bem”9

Deus criou o homem perfeitamente livre, e o pecado não é senão um defeito da verdadeira liberdade. O ponto vulnerável da natureza humana é esta liberdade imperfeita e caprichosa, e enquanto o homem permanece neste mundo tem o triste privilégio de poder desviar-se rumo ao pecado. Segundo Tanquerey: “A criatura […] pode, efetivamente, desviar os olhos do bem verdadeiro para os voltar para o bem aparente, apegar-se a este último e preferi-lo ao primeiro; e é precisamente esta preferência que constitui o pecado”10

Em consequência, pode-se afirmar que o verdadeiro uso da liberdade não inclui a faculdade de pecar. “A escolha da desobediência e do mal é um abuso da liberdade e conduz à «escravidão do pecado» (Rm 6,17)” (CIC 1733) . Assim, a possibilidade de se afastar do bem não participa da essência da liberdade. Se tal fosse, teríamos que cair na aberração de afirmar que Deus, Jesus Cristo, os anjos, os santos do céu, que carecem dessa possibilidade, não são livres ou pelo menos o são menos perfeitamente do que o homem em estado de prova.

Deus é libérrimo, entretanto impecável porque não pode operar nada contrário a sua própria natureza. Afirma Royo Marin: É um grande erro, com efeito, acreditar que a faculdade ou poder de pecar pertença à essência da liberdade. Pelo contrario, essa defectibilidade da liberdade humana que lhe põe nas mãos o triste privilégio de poder pecar, é um grande defeito e imperfeição da mesma liberdade, que unicamente afeta às criaturas defectíveis (que podem falhar), não a Deus nem a Jesus Cristo homem que são intrínsecamente impecáveis por sua própria natureza divina 11.

A esse respeito são luminosos os ensinamentos de São Tomás, em seus comentários ao Evangelho de São João, contidos na Carta Encíclica Libertas Praestantissimum: Todo ser é o que lhe compete ser por sua própria natureza. Em consequência, quando é estimulado por um agente exterior, não opera por sua própria natureza, mas por um impulso alheio, o qual é próprio de um escravo. Ora, o homem, por sua própria natureza, é um ser racional. Portanto, quando opera segundo a razão, age em virtude de um impulso próprio e de acordo com a sua natureza: nisso consiste precisamente a liberdade. Mas quando peca, age à margem da razão, atua como se fosse impelido por um outro e estivesse submetido ao domínio de outrem; por isto, quem comete o pecado, é servo do pecado 12.

E completa Santo Agostinho: É esta a nossa liberdade: submetermo-nos a essa Verdade; [tal liberdade] é o nosso mesmo Deus, que nos livra da morte, ou seja da condenação do pecado. Com efeito, essa mesma Verdade, [que é] também um homem a falar com os homens, diz aos que acreditam: se permanecerdes na minha palavra sereis verdadeiramente meus discípulos, e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará (Jo 8,31). Efetivamente, de nada a alma disfrui com liberdade, a não ser o que disfrui com segurança.13

À luz desses princípios fica evidente que deixar-se levar pelas paixões não significa exercer a própria liberdade, senão operar com uma liberdade defectiva e até mesmo inclusive cair na escravidão.

Conclui-se que, se a liberdade é a faculdade de eleger, quanto mais numerosos sejam os obstáculos vencidos por ela, mais fica demonstrada a sua força. Deixar-se arrastar pela correnteza é fácil e, pelo contrário, a liberdade, operando segundo a razão contra as inclinações viciosas, manifesta toda sua plenitude e vigor.


Em sentido oposto, as paixões desregradas obnubilam o entendimento e debilitam a vontade. Quem terá suficiente má fé para afirmar que nisto consiste a liberdade?

Finalmente, aquele que se deixa levar pelas más paixões passa facilmente do ato ao costume, e portanto ao vício; do vício à abulia (inércia da vontade); da abulia ao envilecimento. Ora, isto não é escravidão?

***

1Beato João Paulo II, Mensagem para o XIV Dia Mundial da Paz , 1/1/1981 {HYPERLINK “http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html”}

2JOLIVET, Régis. Traité de Philosophie II. 5. ed. Paris: Emmanuel Vitte, 1955. p.606.

3 HERRERA ORIA, Angel . La palavra de Cristo. 1953, VIII, p.760.

4Ibid.p.607

5 Cf. LEÃO XIII. Libertas praestantissimum, 1888, nº3. http://www.vatican.va/holy_father/leo_xiii/encyclicals/documents/hf_l- xiii_enc_20061888_libertas_sp.html . Acessado em 22, Novembro, 2007.

6Apud: HERRERA ORIA. vol III, p. 680. – Dios dió la ley al hombre no para privarle de su libertad, sino para manifestarle su aprecio.

7La naturaleza de la libertad humana, (…) incluye la necesidad de obedecer a una razón suprema y eterna, que no es otra que la autoridad de Dios imponiendo sus mandamientos y prohibiciones. Y este justísimo dominio de Dios sobre los hombres está tan lejos de suprimir o debilitar siquiera la libertad humana, que lo que hace es precisamente todo lo contrario: defenderla y perfeccionarla; porque la perfección verdadera de todo ser creado consiste en tender a su propio fin y alcanzarlo. Ahora bien: el fin supremo al que debe aspirar la libertad humana no es otro que el mismo Dios.(LEÃO XIII. Libertas praestantissimum, 1888, Op. cit. nº 4. Tradução do autor)

8Apud HERRERA ORIA, vol III, p. 680.

9BENTO XVI.HYPERLINK “http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html” (2005, p. 89).

10TANQUEREY, Adolphe. Compêndio de Teologia Ascética e Mística. Lisboa: Editorial Áster, 1961. p.35.

11Es un gran error, en efecto, creer que la facultad o poder de pecar pertenezca a la esencia de la libertad. Al contrario, esa defectibilidad de la libertad humana que le pone en las manos el triste privilegio de poder pecar, es un gran defecto e imperfección de la misma libertad, que únicamente afecta a las criaturas defectibles (que pueden fallar), no a Dios ni a Jesucristo hombre que son intrínsecamente impecables por su misma naturaleza divina.( ROYO MARIN, Antonio. Jesucristo y la vida cristiana. Madrid: B.A.C 1961, p.167, tradução do autor)

12Todo ser es lo que le conviene ser por su propia naturaleza. Por consiguiente, cuando es movido por un agente exterior, no obra por su propia naturaleza, sino por un impulso ajeno, lo cual es propio de un esclavo. Ahora bien: el hombre, por su propia naturaleza, es un ser racional. Por tanto, cuando obra según la razón, actúa en virtud de un impulso propio y de acuerdo con su naturaleza, en lo cual consiste precisamente la libertad; pero cuando peca, obra al margen de la razón, y actúa entonces lo mismo que si fuese movido por otro y estuviese sometido al dominio ajeno; y por esto, el que comete el pecado es siervo del pecado.(LEÃO XIII. Libertas praestantissimum, 1888, Op. cit. Tradução do autor)

13 AGOSTINHO. Trad. Antônio Soares Pinheiro. O livre arbítrio. 3. ed. Braga: Publicações da Faculdade de Filosofia da UCP, 1988. p. 134.

Reis Simão Tavares

Uma desconhecida vítima das enchentes de Minas Gerais deu um exemplo de honestidade.

O morador do Distrito de Itamuri, no município de Muriaé, recebeu uma calça doada por um patense com quase R$4.500,00 no bolso e devolveu o dinheiro.

O vendedor de roupas patense, Reis Simão Tavares, foi quem fez doação.

A surpreendente história começou com um ato de solidariedade do patense.

Reis Simão separou duas embalagens de roupas e levou até a Praça do Fórum, onde os policiais estavam recebendo os donativos.

O engano só foi percebido seis dias depois, quando as doações já tinham partido para atender as vítimas das enchentes.

Ele chegou a ir até o 15 º BPM, mas não havia mais nada que podia ser feito.

Ele, então, registrou uma ocorrência para tentar sustar os cheques e teve muito trabalho.

Reis informou que os cheques eram de clientes que chegaram a desconfiar da história.

“Passei muito trabalho” contou.

E mesmo assim não conseguiu sustar alguns cheques e já tinha se conformado com a perda do dinheiro.

Mas, a bela atitude foi agradecida também com uma bela ação.

De acordo com o Ten. Vilela, após passar pela triagem da Defesa Civil em Muriaé, a calça foi levada para o Distrito de Itamuri sem ninguém perceber o que havia no bolso.

Só a pessoa que recebeu a calça que percebeu que o dinheiro estava lá.

Depois de ver o engano, mesmo passando por dificuldades, a pessoa foi até a Defesa Civil e entregou o dinheiro.

Então, a Secretaria de Defesa Social de Muriaé entrou em contato com o Ten. Vilela que entregou os cheques para o verdadeiro proprietário.

Com muita satisfação, Reis recebeu os seis cheques que somam R$4.483,00 e agradeceu.

Ele contou que vai continuar ajudando as pessoas que necessitam e incentivou a população a ser solidária.

O Ten. Vilela, um dos coordenadores da campanha em prol das vítimas das enchentes, elogiou as duas atitudes.

“Mesmo em um momento de dificuldade a pessoa que podia ter descontado os cheques devolveu. Foi uma ação humanitária que não tem preço”, elogiou.

Fonte: Patos Hoje

A maior ameaça para a Igreja norte americana vem do secularismo radical. Afirmou o Santo Padre  durante a visita ad limina apostolorum dos Bispos Americanos, recebidos na Sala do Consistório.

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Depois de receber vários Bispos individualmente, o Santo Padre se dirigiu a eles hoje coletivamente, recordando sua visita pastoral nos Estados Unidos como “oportunidade para refletir sobre a experiência histórica da liberdade religiosa na America e, especificamente, a relação entre religião e cultura”.

No coração de cada cultura existe um consenso de fundo sobre “a natureza da realidade e do bem moral, ou seja, sobre as condições para a prosperidade humana”. Nos Estados Unidos este consenso se fundamenta “não apenas através da fé, mas representa um compromisso em relação a alguns princípios derivados da natureza e da natureza de Deus”.

Hoje em dia, este consenso é seriamente ameaçado pelas “novas correntes culturais que não apenas se opõe diretamente aos ensinamentos basilares da tradição judaica-cristã, mas de fato, são sempre mais hostis a Cristandade”.

Bento XVI explicou que muitas tendências culturais atuais “contém elementos que poderiam reduzir a proclamação desta verdade, coagindo para limites de uma racionalidade puramente científica ou suprimindo em nome do poder político ou de um princípio da maioria”.

Isso representa uma ameaça não apenas para a fé cristã, mas também para a “verdade profunda do nosso ser e da nossa vocação última, a nossa relação com Deus”.

“Quando uma cultura tenta suprimir a dimensão do mistério último – prosseguiu o Santo Padre – fechando a porta para a verdade transcendente, se torna inevitavelmente empobrecida e vítima, como intuiu João Paulo II, a uma leitura reducionista e totalitarista do ser humano e da natureza da sociedade”.

A tradição católica, contudo, não é movida pela “fé cega”, mas confia igualmente na razão; com “o compromisso de construir uma sociedade autenticamente justa, humana e próspera para nossa segurança definitiva”.

A defesa da Igreja – e da lei natural que essa promove – não representa, uma “constrição”, em relação a uma “libertação” é uma “base para construir um futuro seguro”, através “de uma linguagem que permite compreendermos a nós mesmos e, a verdade do nosso ser, formando assim um mundo mais justo e humano”.

A legitima separação entre Igreja e Estado “não deve fornecer um álibi para exigir da igreja “silêncio sobre algumas questões”, nem que o Estado possa renunciar ao compromisso “em relação  às vozes dos fiéis comprometidos na determinação de valores que formam o futuro da nação”.

A comunidade católica americana deve perceber “a grave ameaça” que chega do “secularismo radical”, em detrimento da “mais cara liberdade americana, a liberdade de religião”, prosseguiu Bento XVI.

Entre as maiores ameaças expostas pelos Bispos durante esta semana ao Santo Padre, aparecem as negociações do “direito a obediência da consciência” sobre o aborto e outros temas eticamente delicados, sem esquecer a “tentativa de “redução da liberdade religiosa à simples liberdade de culto, sem garantias de respeito a liberdade de consciência”.

O Pontífice expressou a necessidade de leigos católicos “comprometidos, articulados e bem formados”, em condições de manter um “forte senso critico no confronto da cultura dominante”, particularmente contra a idéia de um “laicismo redutivo”.

O agradecimento final do Papa aos bispos americanos foi pelo compromisso de “manter contato com os católicos comprometidos com a vida política e em ajudá-los a compreender a responsabilidade pessoal em oferecer um testemunho público de sua fé, sobretudo no que diz respeito às grandes questões morais do nosso tempo: o respeito pela vida doada por Deus, a tutela da dignidade humana e a promoção de direitos humanos autênticos”.

Fonte: blog Marxismo cultural.

Em mais um passo que demonstra de forma conclusiva os malefícios que descendem sobra uma sociedade que deixa de temer a Deus, políticos suíços tencionam legalizar o incesto. Eles consideram repelir as leis contra o incesto por as considerar “obsoletas”.

A câmara superior do parlamento suíço concluiu uma lei que visa descriminalizar o ato sexual consentido entre membros da mesma família. Essa lei vai agora ser avaliada pelo governo.

Só houve 3 casos de incesto no país desde 1984. Pelo menos casos reportados.

A Suíça, que recentemente teve um referendo que aprovou uma lei que pune os imigrantes com a extradição por prática de alguns crimes, insiste que as crianças dentro das famílias vão continuar a ser “protegidas pelas leis que governam os abusos e a pedofilia”. Não se sabe como é que os esquerdistas vão fazer isso, mas eles de certo que têm tudo controlado.

Daniel Vischer, um membro do Partido “Os Verdes”, afirmou que não vê nada de mal no ato sexual consentido entre adultos – mesmo que eles sejam da mesma família. Esta declaração não é surpresa uma vez que os esquerdistas apoiam qualquer medida que vise destruir a instituição da família.

O esquerdista afirma:

O incesto é uma questão moral delicada, mas não é uma que possa ser respondida pela lei Penal.

Barbara Schmid Federer do Partido do Povo Cristão da Suíça afirmou que a proposta da câmara superior é “totalmente repugnante“.

O Partido Protestante Popular está também em oposição a esta lei. Um dos porta-voz afirmou: O assassínio também é bastante raro na Suíça mas ninguém sugere que se removam as leis que o castiguem dos nossos estatutos.

***
A ideologia cristã defende que quando se nega que Deus seja a Referência Moral Absoluta, o homem fica moralmente à mercê da arbitrariedade humana. A questão do incesto demonstrou-o de forma óbvia.

As seguintes citações foram feitas por pessoas que negam que o Deus da Bíblia seja a Ponto de Referência Absoluto para comportamentos morais. Segundo estes “iluminados”, cada sociedade deve decidir por si qual é o caminho moral que quer seguir.

Tendo isto como pano de fundo, vejamos o que eles respondem quando pressionados a declarar se um pai que tenha relações sexuais consentidas com as filhas adultas age bem ou mal. À medida que vão lendo as suas respostas, lembrem-se que estas são as mesmas pessoas que geralmente usam o que eles chamam de “argumento do mal” contra o Deus que eles pensam que não existe.

Qual é o argumento ateu contra o que os suíços querem fazer? Se a homossexualidade é permissível na base de que ninguém tem nada a ver com o que dois adultos fazem em privado e em consentimento, então quais os argumentos “laicos” contra um pai ter relações sexuais com a sua filha maior se ambos assim o quiserem?
………
PS: Antes que algum ateu tente desviar a conversa aludindo para eventos que ele não acredita terem acontecido:
1. Lot não teve a aprovação de Deus para o seu incesto. Reportar algo não significa aprovar algo.
2. Vêr este texto em resposta aos filhos de Adão e Eva.

Eis as respostas dos esquerdistas:

  • “O incesto – consensual entre adultos, repito – é uma questão muito complicada, mas de foro moral e não legal. E como todas as questões de foro moral, penso que cabe ao indivíduo decidi-la.” [Cristy]
  • “As pessoas não precisam de Deus para saber que o incesto é uma pratica a evitar. [jmoitacarrasco]
  • “O que me preocupa a mim o que decidem entre si dois adultos na plena posse das suas faculdades? Em que medida é mau para mim ou para a minha família, que tu gostas tanto de puxar à conversa?”[Cristy]
  • “Isto para te dizer que os casos diferem, não se pode avaliar todos pelo mesmo padrão. E, no fim, a decisão cabe ao indivíduo, porque este, repito, não é um assunto legal.” [Cristy]
  • “E o que eu acho é que o código penal não tem nada que ver com isso. Objetivamente, a única razão para evitar o incesto é o perigo de problemas genéticos.” (…) “Por isso também me parece difícil aceitar que a polícia se intrometa no incesto entre adultos.” [Ludwig]
  • “Para quem está sempre a condenar o intervencionismo de Estado como prática esquerdista e socialista, acho estranho que agora já julge que esse mesmo Estado tem o direito de se intrometer nas famílias” [Sérgio Sodré]
  • “Livremente sem coação entre adultos é entre eles, ou entre eles e Deus (para quem acredita no Deus Bíblico ou Alcorânico), e mais ninguém…”[Sérgio Sodré]
  • “O problema não é se o comportamento é moralmente correto, o problema é se outrem (coletivo ou individual) tem o direito de se intrometer no seio das famílias pela força.” [Sérgio Sodré]
  • “O Estado sem aspas que fique do lado de fora dos lares e das famílias se não houver crimes contra a liberdade individual de ninguém” [Sérgio Sodré]
  • “Não sei o que o Estado deve fazer apenas sei que não o quero a espionar a vida interna das famílias, nem acho que ele tenha esse direito”
  • [Sérgio Sodré]

Resumindo: segundo os “laicos”, o incesto é

1) “uma questão complicada”,

2) do “foro moral e não legal”,

3) moralmente qualificável apenas pelos “adultos” envolvidos (ninguém – nem o Estado – tem nada que se meter entre um homem e a sua filha adulta que decidam ter relações sexuais),

4) aceitável se não houver “problemas genéticos” mas ao mesmo tempo

5) “uma prática a evitar”.

Ficou mais uma vez patente o quão à deriva nós humanos ficamos quando removemos o Deus da Bíblia como a Autoridade Moral Suprema neste universo. As pessoas citadas em cima estão mais do que cientes de que há algo de fundamentalmente errado no incesto, mas sem Deus, elas não tem como classificar esse comportamento de moralmente errado (para além da sua subjectividade pessoal).

As palavras supra-citadas são um lembrete poderoso do quão baixo nós podemos cair quando nós humanos nos colocamos no lugar de autoridade moral vigente.

André Gonçalves Fernandes

De pouco serve a liberdade a um homem que careça de valores ou de ideais e, menos ainda, a quem tenha medo de comprometer-se.

Não há dúvida de que o homem moderno está inseguro de seus ideais e nada disposto a se comprometer, já que a alteridade tem um preço: o de vencer a si e ao egoísmo.A liberdade é um bem de nenhuma serventia para alguém que pense que a vida termina num caixão de carvalho francês e que o ato de escolha entre esta ou aquela opção, por si só, acarrete um sofrimento invencível. Camus sentenciou que só há uma verdade, uma verdade fácil de entender e difícil de aceitar: os homens morrem e não são felizes (in Calígula, Paris, sem data, p.41, tradução livre).

Se isso fosse verdadeiro, melhor abandonar nossa liberdade à própria sorte e seguir o conselho do mesmo autor existencialista – a vida, esta palhaçada sem sentido, torna estúpido tudo o que rodeia o homem (in Sartre, J.P., Prólogo “O Estrangeiro”, de Camus, A., Rio de Janeiro, 1959, p.32).

Sem dúvida, o problema das frustrações existenciais reside no fato de que a escolha se deu entre coisas sem valor. Mesmo com mais liberdade hoje, se o mundo abandonou seus marcos de valor, para que tanta liberdade, sobretudo sem o ideal de compromisso?

Quando, daqui a muitos anos, algum estudioso se debruçar na análise do comportamento existencial do homem atual, certamente concluirá, com tristeza, que, apesar de abertos todos os caminhos, de varridos todos os entulhos totalitários, dos mais variados matizes, que entulhavam essas vias, ao mesmo tempo, a convicção predominante era a de que tais caminhos que não levavam a parte alguma.

Eis o paradoxo: todas as sendas estão à disposição do homem e, no fundo, ele tem medo de escolher uma dentre elas ou sequer tentar fazê-lo. Quando muito, se ensaiam uns passos por determinado caminho e, logo, se está inclinado a retroceder por tédio ou por cansaço para, depois, experimentar outro caminho (outro trabalho, outro homem, outra mulher, outra vida) e outro depois de outro…

O homem contemporâneo contempla com tanto receio a possibilidade de se comprometer, que se corre o risco de paralisar, voluntariamente, seu poder de escolha e sua própria liberdade ao cabo. Escolher é comprometer-se. Toda a escolha é um compromisso. Em razão disso, aqueles que têm pavor de escolher ou se limitam a tentativas abandonadas rapidamente, contradizem e anulam a sua própria liberdade.

O homem moderno está na junção de várias veredas, mas, enquanto tiver medo de se comprometer, ficará estagnado na encruzilhada. Esta paralisia da liberdade, que torna o homem incapacitado de optar, de maneira segura e duradoura, por qualquer coisa que lhe imponha um certo sacrifício, já não é a simples dificuldade decorrente do poder de escolha, porém o estorvo que deriva do singelo fato de que a adoção de uma alternativa implica a exclusão de todas as demais.

Não significa que falte ao homem a liberdade: é uma consequência inevitável de nossa natureza finita, desde sempre, que não pode abarcar a tudo e a todos. Quando se resolve casar, escolhe-se uma mulher e, logo, excluem-se todas as outras. No tempo de meus pais, a maioria preferia enfrentar o dilema, logo ou depois, mesmo ciente de que o compromisso era duradouro. Era melhor lançar-se no risco a permanecer indeciso – e sozinho – diante do risco.

Hoje, as pessoas estão abertas ao matrimônio, mas condicionando-o a uma cláusula implícita que permita o divórcio. Prova de uma arraigada desconfiança e do temor de comprometer-se, o que significa, em última instância, medo do amor.

O excesso de publicidade reinante não ajuda o compromisso, pois tudo parece ter qualidades incríveis e acreditamos no valor real de muito pouco. Todavia, no caso da liberdade, o débito relativo a esta desconfiança não pode ser lançado na conta dos publicitários. Deve ser registrado na caderneta que cada um tem na mercearia da vida. Abusamos das coisas boas criadas, que chegamos ao ponto de desvirtuá-las e já não nos levam à felicidade. Se já não confiamos nelas, é porque, de tanto deturpá-las, convertemo-las em algo para o qual nunca foram feitas.

A liberdade sempre representou uma probabilidade de perigo para o ser humano, derivando daí seu atributo de princípio de indeterminação. Contudo, ao mesmo tempo, é uma dádiva, porque, graças a ela, o homem conhece o amor e o compromisso.

Llúcia Pou Sabaté

Frequentemente, ouvimos falar: “Perdoo, mas não esqueço”. Na verdade, quem diz isto não perdoa, porque guarda rancor. Por isso é dito que não se perdoa de verdade quando, no fundo, não se está disposto a esquecer.

Perdoar é esquecer? Ambos produzem o mesmo efeito? Trata-se de uma questão de grande importância, já que o perdão é essencial para uma vida feliz e equilibrada: “Aquele que é incapaz de perdoar é incapaz de amar” (Martin Luther King).

Parece-me que é preciso diferenciar “esquecer”, quando significa ressentimento, e esquecer como “desaparecer da memória”. Vou me referir ao primeiro sentido: é preciso esquecer, “não regateie o perdão: é impossível caminhar com tantas feridas abertas… perdoe todas as velhas feridas e as cicatrize com resinas de amor” (Zenaida Bacardí de Argamasilla). É não querer mal, não há outro caminho. “Perdão é uma palavra que não é nada, mas que carrega sementes de milagres” (Alejandro Casona), sementes semeadas em nossos corações pelo próprio Jesus, que se alimentam até mesmo das ofensas: cada ofensa recebida é uma oportunidade de melhorar nossa capacidade de perdoar, pois, em vez de causar ressentimentos, é estímulo para essa coisa divina chamada perdão.

O paraíso está do outro lado da porta, mas muitos perderam a chave que se chama misericórdia… Todos nós precisamos de amor, de atenção, assim como de poder dar nosso amor aos outros. Por isso, sempre se deve pedir perdão: pelas ocasiões perdidas, pela plenitude não vivida no convívio, pelas palavras não ditas.

Diz uma lenda árabe que dois amigos viajavam pelo deserto. Num determinado ponto da viagem discutiram e um deu uma bofetada no noutro. Este, profundamente ofendido, sem dizer nada, escreveu na areia: “Hoje o meu melhor amigo me deu uma bofetada no rosto”. Continuaram o trajeto e entreviram um oásis. Mortos de sede, ambos correram e o primeiro que chegou se atirou na água sem pensar e, em seguida, começou a se afogar. O outro amigo se atirou na água para salvá-lo. Assim que melhorou, pegou uma faca e escreveu em uma pedra: “Hoje o meu melhor amigo salvou a minha vida.” Intrigado, o amigo perguntou: “Por que, depois de eu ter te feito mal, escrevestes na areia e agora escreves em uma pedra?” Sorrindo, o outro respondeu a ele:

“Quando um grande amigo nos ofende, devemos escrever a ofensa na areia, porque o vento do esquecimento a leva; por outro lado, quando nos faz algo notável, devemos gravá-lo na pedra da memória do coração, onde nenhum vento do mundo poderá apagá-lo”.

O erro de muitos é pensar que o perdão deve surgir de seus corações, que é algo que devemos sentir, que deve, de certa forma, “nascer em nós”. Mas o perdão é uma decisão, não um sentimento, porque quando perdoamos não sentimos mais a ofensa, não sentimos mais o rancor.

“Perdoa, que perdoando terás a tua alma em paz e a terá quem te ofendeu” (Madre Teresa de Calcutá).

O perdão é o melhor, não apenas individualmente, mas também para cada sociedade e para o mundo em geral: “À espiral da violência somente arrefece o milagre do perdão” (João Paulo II). De certa forma, todos somos corresponsáveis pelas ações e omissões de cada um, e é a gotinha de cada dia que cria a revolução do amor: “O melhor que podes dar ao teu inimigo é o perdão; a um adversário, tolerância; a um filho, bom exemplo; ao teu pai, deferência; a tua mãe, uma conduta da qual ela sinta orgulho; a ti mesmo, respeito; a todos os homens, caridade” (John Balfour).

Quando alguém é perdoado transforma-se em uma pessoa diferente, ainda que demore a reagir: “Nada encoraja tanto o pecador como o perdão” (William Shakespeare). Isso ocorre porque se sente querido, e muito valorizado, porque as pessoas sempre estão acima dos seus erros (Jutta Burggraf). E, quando cresce a consciência do seu valor, comporta-se melhor. Por outro lado, cresce também quem perdoa, pois “nada nos assemelha tanto a Deus como estarmos sempre dispostos a perdoar” (São João Crisóstomo)”.

Sueli Caramello Uliano

Quando Amy Winehouse esteve no Brasil, em janeiro do ano passado, eu pouco a conhecia, embora conhecesse a voz e algumas belas interpretações. Por isso chamou-me a atenção que se falasse tanto na possibilidade de surpresas e que houvesse um certo policiamento por parte dos organizadores para prevenir abusos e garantir as apresentações.Havia certa expectativa quanto ao que poderia acontecer. E, talvez para a decepção de alguns, ela apenas esqueceu algum trecho de letra e, ao dar um rodopio, em Recife, caiu no palco e rapidamente levantou-se.

Em São Paulo, o show foi emocionante, marcado por uma certa timidez inicial, pela pirueta bem sucedida, e parecia ter marcado a sua volta aos palcos. Pensei: “Escândalos não criam celebridades… Antes disso, os escândalos são tanto mais escandalosos quanto é célebre quem os desencadeia. O que haveria de tão especial em Amy? Sem dúvida o seu talento musical que revolucionou o soul.”

E não pensei mais nisso, até que a sua morte atingiu-me como um soco no estômago. Overdose? Especulava-se. Não sei. Só sei que, se eu vivia como se Amy não existisse, agora não podia viver como se ela não tivesse morrido assim, solitária e prematuramente. Um sentimento de responsabilidade incomoda-me e me deprime. Ver a mãe, o pai e o irmão destruídos pela dor me comove e intriga. Havia, afinal, uma família amorosa.

Teria a separação dos pais, nos seus nove anos, influenciado a sua conduta depressiva, aquela carência que fez Amy, mais do que dependente química, dependente de Blake, seu controvertido namorado e ex-marido? A mãe, farmacêutica, declarou chorosa que temia que a morte da jovem fosse uma questão de tempo. Sabia bem o que é lidar com drogas.

Os críticos de música, logo após a sua morte, deixaram claro: era um gênio e a comparavam a Sarah Vaughn e falavam da inspiração em Ray Charles e de como ela havia recriado o jazz, o blue, estilo que a partir das composições de Amy nunca mais seriam os mesmos. Ora, foram apenas dois álbuns, sendo que o último, que a consagrou, é de 2006 e lhe garantiu não apenas cinco Grammys, em 2008, mas que continuasse com prestígio cinco anos depois. Na premiação, ali estava a mãe abraçada à filha que acabara de sair de uma clínica de reabilitação.

E muitos amigos diziam que ela era meiga e doce e gentil… E eu me perguntava: “Será que alguém se lembrou de dizer isso a ela enquanto estava viva?” Porque a fatalidade de sua morte precoce levou-me a procurar na Internet mais informações e o que vi deixou-me estarrecida. Aquela figurinha frágil, vitimada pelos tabloides e caçadores de vídeos, aparecia nos sites sensacionalistas, destruída pelas drogas, como um troféu. Quem conseguiria uma imagem mais depreciativa? Por outro lado, mesmo as páginas que se dedicam a combater o uso de drogas usaram-na como bandeira de seus ideais, sem a menor compaixão. Permitam-me glosar Santo Agostinho: “é preciso matar as drogas, mas amar o toxicômano (ou dependente, ou adicto – deem o nome que quiserem.)”. E é preciso amar essas famílias devastadas porque um de seus entes queridos segue nessa linha de destruição. Imaginei o que terão sofrido a mãe, o pai e o irmão de Amy com essa exploração. E a própria jovem, que, afinal, ninguém é de ferro! No vídeo do show em Belgrado, a que não tive coragem de assistir, vê-se – vi apenas a primeira imagem congelada – que ela sequer providenciou o seu cabelo retrô e seu rímel ousado. Foi vaiada, pois não teve condições de se apresentar e acabou a noite caída sobre um conteiner nos bastidores. Naquele momento, 34 dias antes de sua morte, era como se Amy já tivesse desistido de Amy. Impossível imaginar solidão maior.

E para completar, nos comentários às notícias, embora muitos se condoessem, outros a ridicularizavam ainda mais, culpando-a pela escolha que fizera, até culminar no site que abriu um concurso de apostas para premiar quem acertasse o dia de sua morte. Tudo muito cruel, não é mesmo?

Existe um grande preconceito social em relação aos dependentes químicos. Mencionei acima que a mãe de Amy temia que a morte da filha fosse uma questão de tempo. Segundo os jornais aqui no Brasil ela teria acrescentado que vira a filha no dia anterior ao da sua morte e que a jovem estava fora de si. Isso me chateou, pois considerei que Janis, a mãe, mesmo sendo portadora de esclerose múltipla, não poderia ter deixado a filha sozinha, ao menos naquele dia, fora de si, numa crise de abstinência.

Porém, lendo a entrevista no próprio The Sun, fiquei completamente confusa, pois, em seguida a essa declaração, a mãe acrescentava que ficara feliz em ter visto a filha naquele momento. Meu inglês é muito tosco, mas ofereço aqui o trecho completo: Heartbroken mum Janis said she feared it was “only a matter of time” when she visited Amy in Camden the day before she died. Janis said: “She seemed out of it. I’m glad I saw her when I did.” She added Amy’s last words to her were “I love you mum”. “They are the words I will always treasure and remember Amy by,” she added. O fato é que “she seemed out of it” pode significar que ela parecia estar fora das drogas, e não fora de si, e por isso a mãe ficou contente por vê-la naquele momento, já que temia que as drogas a matassem, mas a imprensa traduziu considerando o contexto da vida de Amy, não o contexto do comentário da mãe.

Agora encaixa com os comentários do pai, Mitch, que estava esperançoso porque há três semanas ela não bebia e há muito tempo não via a filha tão feliz. A dona de um pub em Camden tinha recebido ordens de Amy: “Não importa o que eu lhe diga, não me sirva nada alcoólico; eu não bebo mais.” Fazia-o pela família, pois dizia não poder mais vê-los tão arrasados. A família acreditou; a mídia não. Pouco importa o que a autópsia possa revelar, pois álcool e drogas, quando se impõem, inauguram um dilema: não se pode viver sem eles e não se aguenta viver com eles.

Preconceito e exclusão social acompanham os que em algum momento foram dependentes. Ninguém quer um filho ou filha namorando alguém que passou por isso, pois há sempre o temor de uma recaída. Tenho, infelizmente, um exemplo muito próximo, porque perdi meu pai para o álcool. (Quando estava alcoolizado, todos tinham medo dele; e quando estava sóbrio, todos tinham medo de que se embebedasse). E tenho o relato de uma amiga que perdeu um filho aos 32 anos. Depois de mais de dez anos lutando contra o crack, ele acabou executado com um tiro na nuca. Tratamentos? Inúmeros! Durante as tentativas de recuperação, quando a mãe o via correr para o banheiro, com diarréia, sabia que ia voltar para o crack. Não porque tivesse algum prazer nisso, mas porque perdera a liberdade para uma das mais dramáticas escravidões.

As estatísticas são duras: de dez que provam maconha, numa rodinha inocente, três nunca mais sairão do vício e tenderão a procurar drogas mais fortes, pois têm uma predisposição genética para isso. Querem a fonte dessa informação? A minha amiga, que frequentou todos os grupos de apoio que lhe apareceram à frente, inclusive na UNIFESP. Outra realidade que pouco se comenta e que ouvi do Dr. Ronaldo Laranjeira, na televisão: “Uma pessoa que conseguiu deixar o crack, se tomar um copo de cerveja, volta para o crack.”

Extremamente afetuosa, Amy foi arrastada pela paixão por um homem controvertido, que a apresentou – isso dito por ele mesmo – às drogas mais pesadas. A jovem, que conheceu a maconha aos 14 anos, havia de declarar em entrevista à Rolling Stone: “Se você tem tendência ao vício, passa de um veneno para o outro. Ele não fuma maconha, então passei a beber mais e fumar menos. Por causa disso, passei a gostar mais da coisa. Saía para tomar um drinque”. Foi uma paixão sem crítica e sem pudores, pois o álcool e as drogas forneceram o entorpecimento necessário para a sua natural timidez.

Nestes dias fiquei tentando preencher alguns vãos nas informações que obtive. Não é apenas a música de Amy que é duramente confessional, mas também as suas tatuagens e cicatrizes. Na mesma entrevista, ao ser inquirida sobre as marcas de auto-mutilação que trazia no braço, desvia os olhos e responde lacônica: “Isso é bem antigo. Bem antigo. Acho que de uma época ruim.” E depois, gaguejando, continua: “De uma época de-de-desesperadora”.

Traz também no braço a figura tatuada da avó, com o nome: Cynthia. Mas a querida avó, que cantava jazz e era a musa de Amy, faleceu de câncer nos pulmões em 2006. Teria aí perdido uma âncora? Talvez, pois 2007 e 2008 foram tempos de grande turbulência, desde o seu casamento impetuoso em Miami até a divulgação de um vídeo, às vésperas da premiação do Grammy 2008, que revela a sua dependência do crack. Ao lado de quem? De Blake, é claro.

Claro que as famílias, a esta altura, se perguntam o que fazer, como prevenir uma tragédia dessas. A revista SER FAMÍLIA, na edição passada, trouxe um artigo do Dr. Valdir Reginato que, com uma exposição realista das circunstâncias que envolvem o problema, responde a essa pergunta com duas palavras-chave: Família e Educação. Transcrevo aqui as palavras finais da análise do Dr. Reginato, embora recomende a leitura da íntegra da matéria: “É necessário investir nos valores que fortalecem os vínculos familiares, numa educação solidária, que desenvolva pessoas com espírito de cidadania, comprometidas com o amor ao próximo e o respeito à própria vida.”

Mas isso também não é fácil. Porque a vida tem inúmeras surpresas, nem sempre os jovens conseguem, num primeiro momento, administrar as suas frustrações e, o mais importante: o álcool, e até mesmo a maconha e o crack – admitamos – estão acessíveis em cada esquina. E quando as coisas dão errado, os pais logo se perguntam: onde foi que erramos?

Cada filho precisa de uma atenção diferente, e estão sempre expostos a inúmeras influências externas, que cada um processa de modo único. Essa mesma mídia que explorou os escândalos promovidos por Amy, e que, portanto, lucrou notícias em cima deles, não hesita em depreciar aqueles que agem no caminho oposto ao dela. Os pais eram contra o seu namoro com Blake, iniciado em 2005, mas os pais não mandam no coração dos filhos, já o sabemos. E as mudanças provocadas por esse relacionamento são por demais evidentes para não serem responsabilizadas pelo avassalador processo de auto-destruição física e moral que arrastou Amy a partir dos seus 21 anos. Back to Black compila os seus conflitos e a insegurança do relacionamento. Desse álbum é Rehab, em que ela diz, com uma ironia bem humorada, no, no, no a ir para uma clínica de reabilitação, incapaz de imaginar a luta que haveria de enfrentar nos anos seguintes e perder em 2011.

O Dr. Reginato também chama a atenção para a conduta tão em moda, abraçada até mesmo pelos pais de adolescentes, que recomenda experimentar tudo para depois escolher. Como se a liberdade dependesse de um conhecimento empírico do bem e do mal e das suas consequências para enfim decidir-se e, dado que nestes tempos tanto se valoriza o prazer como o maior bem, já se vê a que deturpações essa conduta pode levar. Imagino, inclusive, que o pai que decide fumar maconha com o filho para lhe possibilitar tal experiência talvez não tenha tido o mesmo empenho para fazê-lo provar jiló, quiabo, chicória e outros legumes ou verduras, tão ricos em fibras. Isso porque o comércio de legumes não tem a força da propaganda das drogas. E, para piorar, talvez o jovem cuspa longe o jiló, o que não acontecerá com a maconha, por óbvias razões. Convenhamos que a distinção entre o bem e o mal ficou bastante comprometida pela experiência, e a liberdade foi enganada direitinho.

Vivemos em uma sociedade coalhada de contradições. Enquanto se promovem leis para proibir propaganda de produtos infantis na televisão das 7 às 22 horas, permite-se que um grupo marche pelas ruas cantando cinicamente: “Eu sou maconheiro, com muito orgulho, com muito amor.” Orgulho de quê? Amor a quê? Depois disso, vão querer proibir propaganda de bolacha, brinquedo e iogurte? (Só vamos ter propagandas da Caixa Econômica, Banco do Brasil, Petrobrás etc. Isso não é preocupação com a família; é apenas controle da mídia através do faturamento financeiro. Se a emissora criticar o governo, perderá as propagandas institucionais).

Copio as palavras de Amy que encerraram a sua entrevista à Rolling Stones, em 2007, quando acabara de casar-se com Blake Fielder no Civil: “Não quero parecer ingrata. Sei que sou talentosa, mas não vim para cá para cantar. Vim para ser uma esposa e mãe, e para cuidar da minha família. Amo o que faço, mas isso não é o começo nem o fim.” Sonhos de uma menina que tentou inúmeras vezes dizer no, no, no às drogas, mas não conseguiu. Na última tentativa, o corpinho frágil e debilitado acabou num saco vermelho a caminho do necrotério.

Pergunto: por que a humanidade se curva diante dessas forças de auto-destruição? Por que se pretende tirar de crianças e jovens a sua capacidade de agir livre e conscientemente? Para os viciados haverá perdão, já para os traficantes e para os governos omissos, que tal um júri internacional por crimes contra a humanidade?

* citações extraídas da matéria Amy Winehouse: a diva e seus demônios – Jenny Eliscu, para a Rolling Stone (2007)

Publicado na revista Ser Família, edição set/out/2011

Gaudium Press

Ao folhear alguns livros de história, desperta a atenção ver as diversas civilizações da antiguidade, retratando características de um mundo que não existe mais. Encanta sobretudo aquele cenário, um tanto misterioso e inusitado, formado por velhas construções de pedra, firmes e vigorosamente fincadas parecendo querer conquistar, daquele gasto solo, a perpetuidade que o tempo já lhes roubou. Sejam areópagos, templos, anfiteatros, elas aparentam estabilidade, resistência e segurança, pela robustez das colunas que lhe servem como sustentáculo.

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Em verdade, na ereção de qualquer grande obra, os arquitetos e engenheiros detêm-se em muitas preocupações: a divisão correta dos cômodos, o bom aproveitamento do espaço, a pintura a ser utilizada nas paredes, os adornos variados para seu embelezamento interno e externo, etc. Nada, entretanto, parece ser motivo de maior consideração e cautela quanto a edificação dos fundamentos. São eles de tal maneira responsáveis pelo equilíbrio, força e solidez de qualquer edifício, que o próprio Salvador compara o homem virtuoso com aquele que “edificando uma casa, cavou bem fundo e pôs os alicerces sobre a rocha. Vieram as águas, precipitaram-se as torrentes contra aquela casa e não a puderam abalar, porque ela estava bem construída.” (Lc 6, 48-49 ).

A família, fundamento da sociedade

Ora, o que se passa nas coisas materiais e visíveis tem, muitas vezes, uma íntima semelhança com as realidades sobrenaturais. A sociedade humana pode ser comparada a uma imensa cidade composta de edifícios, que tem como fundamento uma importantíssima instituição: a família. Ela é a matriz e o modelo por onde cada homem aprende a relacionar-se com os demais. “É a primeira escola das virtudes sociais de que as sociedades têm necessidade”[1]. Por esse motivo, sem ela tudo rui ou desmorona, porque carece do seu elemento essencial.

O que seriam das relações de amizade, de trabalho ou cooperativa, de parceria, de troca, compra ou venda, e de tantas outras, se o seio das famílias estivesse conspurcado pelo ateísmo ou irreligião? E como exigir de um homem honestidade, respeito às leis, caridade fraterna, a tão almejada solidariedade, se quando criança ele não pôde encontrar na conduta diária de seus pais estes indispensáveis valores?

Engana-se aquele que analisando superficialmente os problemas atuais resolve culpar somente este ou aquele sistema político adotado, ou a precariedade de recursos financeiros, a pouca escolaridade e formação cultural, a falta de alerta para as consequências de crimes hediondos ou para o destino lastimável dos dependentes químicos. Tudo isto, sem dúvida, tem peso e medida. Entretanto, o problema é mais profundo.

Na vida dos pais, a criança lê as regras de sua existência

Evidentemente, não se trata de negar a responsabilidade particular de cada indivíduo, uma vez que a lei moral foi impressa na consciência de todos (Jr 31,33-35); mas, isto sim, de reconhecer a relevância do exemplo dado pelos pais na formação do homem comum. “A família cristã, de fato, é a primeira comunidade chamada a anunciar o Evangelho à pessoa humana em crescimento e a levá-la, através de uma catequese e educação progressiva, à plenitude da maturidade humana e cristã.”[2] Uma boa formação será indício certo da perpetuidade da convivência social, ao passo que sua ausência será a causa, ou ao menos a prodigiosa cooperação, rumo aos  piores e insanáveis desvios.

Está também claro que o pai e a mãe não necessitam dar ao filho um elenco das leis e deveres de como se vive em sociedade. Uma orientação meramente acadêmica ilustra a inteligência, mas raramente move a vontade. Necessário é que eles sejam para o filho arquétipos das normas morais que ensinam. Este é o locus onde aprenderão as regras do bem julgar, do ser e do agir[3], pois “os filhos prestarão sempre muito mais atenção às ações dos pais do que às suas palavras; aquelas tem uma linguagem própria, mais eloquente do que a dos lábios.[4]

É no trato cheio de afeto e respeito do dia a dia que os filhos aprendem. É por exemplo, quando a mãe, cansada dos labores domésticos, vê-se obrigada a acordar de madrugada para ministrar algumas gotas de remédio, manifestando-se serena, disposta ao mais exaustivo sacrifício, desdobrando-se em carinho, que o filho aprende as regras da boa convivência, do bom trato e da compaixão aos necessitados. É ao notar o seu empenho passando a ferro uma muda de roupa, ou sua persistência ao querer retirar uma mancha na camisa, que o filho aprende a dedicação para o trabalho e a dignidade de uma vida limpa e pura. É no final da tarde, quando vê o pai sério e honrado chegar do trabalho, e sente em si o desejo de imitá-lo  no traçado do caminho honesto e veraz. É na repreensão que sofre, severa mas purgativa, feita com paciência e sem ânimo alterado, que ele aprende a odiar o mal e a apegar-se ao que é direito. É especialmente, quando os vê de rosário nas mãos, a suplicar as graças e os auxílios celestes, que compreende sua própria fragilidade e entende depender inteiramente de Deus.

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Por isso, não é sem profunda veracidade que São João Crisóstomo  afirmou: “As obras dos pais são os livros em que os filhos se instruem.”[5] Princípio de ouro para aqueles remotos tempos,  e princípio de ouro para o momento presente. Almejemos, princípio que brilhará, quiçá, nos tempos vindouros, quando surgirem homens sábios que entenderão[6] que nas frágeis páginas destes livros costuma estar contido um autêntico e vivo tratado de moral.

Fortes e delicados fundamentos

A família estruturada e em ordem é aquela que tem como fundamentos as virtudes da admiração, da ternura e do enlevo. Fundamentos estes ao mesmo tempo fortes e extremamente frágeis. Fortes pela graça, que os sustenta e dá coesão. Delicados, pois estas excelsas virtudes requintam-se a cada momento, à semelhança de uma fina taça de cristal que tanto é considerada mais nobre e valiosa quanto mais frágil e delicada se configura.

Ítalo Santana Nascimento

[1] Declaração sobre a Educação cristã Gravissimum Educationis, n. 3. Disponível em <>. Acesso em 24 de novembro de 2011.
[2] Cfr. João Paulo II. Homilia para a abertura do VI Sínodo dos Bispos (26 de Setembro de 1980), 2: AAS 72 (1980), 1008.
Disponível em <>. Acesso em 24 de novembro de 2011.
[3] Cf. João Paulo II. Familiares Consortio, n. 8. Disponível em <>. Acesso em 24 de novembro de 2011: “A educação da consciência moral, que faz o homem capaz de julgar e discernir os modos aptos para a sua realização segundo a verdade originária, torna-se assim uma exigência prioritária e irrenunciável.”
[4] São Cipriano apud SPIRAGO, Francisco. Catecismo Católico Popular. Versão feita sobre a tradução do Padre N. Delsor pelo Dr. Artur Bivar. 4. ed. Lisboa: União Gráfica, 1944. pag. 263.
[5] São João Chrisóstomo apud SPIRAGO, Francisco. Catecismo Católico Popular. Versão feita sobre a tradução do Padre N. Delsor pelo Dr. Artur Bivar. 4. ed. Lisboa: União Gráfica, 1944. pag. 263.
[6] Constituição pastoral Gaudium et Spes, n. 15. Disponível em <>. Acesso em 24 de novembro de 2011: “Está ameaçado, com efeito, o destino do mundo, se não surgirem homens cheios de sabedoria.”