Blog do Carmadélio

Testemunhas do massacre de cristãos no Paquistão

Dois sacerdotes dominicanos compartilham o drama da perseguição

Por Mercedes De La Torre

Representantes dos cristãos do Paquistão vieram a Roma para converter-se em porta-vozes dos seus sofrimentos e medos, provocados pelos últimos massacres. Os sacerdotes dominicanos Pascal Paulus e Iftikhar Moon, que trabalham na diocese de Faisalabad, foram testemunhas oculares da morte de 8 cristãos e do incêndio de 70 casas na cidade de Gojra no último dia 1º de agosto.

O medo na comunidade católica se tornou ainda mais intenso quando, no dia 28 de agosto, morreram a tiros no centro da cidade de Quetta (Beluquistão) outros cinco cristãos.

Os dois sacerdotes compartilharam seu testemunho  nesta quinta-feira, no Centro Rússia Ecumênica, próximo do Vaticano, onde apresentaram um apelo à opinião pública internacional. Ambos os religiosos trabalham na paróquia do Santo Rosário de Faisalabad, que foi queimada.

O Pe. Pascal Paulus explica que, apesar do medo e das ameaças, eles voltam agora ao Paquistão com entusiasmo, “porque estamos anunciando Cristo: nossa missão é dar a conhecer Cristo, o amor de Cristo, e promover o amor pelos nossos irmãos, os homens”.

O sacerdote explica assim o ambiente em que exerce seu ministério: “O Paquistão é uma república islâmica, onde tudo se faz com uma concepção muçulmana e as pessoas querem ter uma lei islâmica, a sharia, ainda que o governo esteja tentando levar a democracia”.

Neste ambiente, o sacerdote considera que o maior problema que os cristãos têm se deve às leis instituídas em 1991 contra a blasfêmia. Segundo tais leis, qualquer insulto ao Alcorão constitui uma ofensa que deve ser castigada com a prisão, enquanto está prevista a pena de morte para aqueles que insultam o profeta Maomé.

Segundo explica o sacerdote, alguns muçulmanos usam como desculpa supostos insultos ao profeta ou profanações ao Alcorão, baseando-se em seus próprios testemunhos, para apoderar-se das propriedades dos cristãos.

O Pe. Paulus reconhece que, nestas circunstâncias, são conscientes de que “poderíamos morrer com as pessoas”, como quase lhe aconteceu há algumas semanas.

“No dia 30 de julho, a violência começou com uma multidão de fanáticos muçulmanos furiosos e armados, que atacaram a colônia cristã de Koriaan, junto à pequena cidade de Gojra, e destruíram as casas, depois de saqueá-las.”

“Dois dias depois, em 1º de agosto, 8 cristãos foram queimados vivos. A multidão atacou um grupo de cristãos, no qual se encontravam 3 crianças, 3 mulheres e 2 homens. Saquearam e queimaram 70 casas cristãs, enquanto profanavam duas igrejas em Gojra.”

“A multidão furiosa saqueou as casas, destruiu Bíblias e outros livros sagrados, destruiu as cruzes, devastou e queimou tudo. Os cristãos cujas casas foram queimadas ficaram sem nada”, testemunha o presbítero.

“É preciso sublinhar que a polícia de Gojra e outras forças não agiram para prevenir estes fatos e não prestaram atenção ao anúncio contra os cristãos que foi pronunciado nas mesquitas – acrescenta. A polícia interveio quando já havia acabado tudo e era tarde demais.”

“É também muito triste que o governo tenha se ocupado de um evento tão grave somente 72 horas depois, quando os cristãos organizaram um protesto na via do trem.”

Mais tarde, explicam, tanto o presidente do Paquistão como o primeiro-ministro e as autoridades de Punjab condenaram os ataques. “O governo anunciou que se dará uma indenização para reconstruir as casas destes pobres cristãos.”

Quando se sentiam abandonados, explica o Pe. Iftikhar Moon a Zenit, a mensagem de proximidade enviada pelo Papa ao receber estas notícias os consolou profundamente.  “Esta mensagem nos deu alento e esperança – reconhece o Pe. Moon –, pois vimos que a cabeça da Igreja está conosco, está falando por nós.”

Os sacerdotes pedem a solidariedade dos cristãos no mundo, para que façam pressão contra as leis que discriminam as minorias, em particular a lei sobre a blasfêmia.

“Suplicamos às organizações mundiais dos direitos humanos que registrem os fatos e intervenham diante do nosso governo a favor da proteção dos cristãos e das demais minorias.”

E os dois dominicanos confessam: “Nós, os cristãos do Paquistão, não nos sentimos seguros em nosso país”.


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