Homem segundo o coração de Deus

O que São José nos ensina sobre sermos “Homens segundo o coração de Deus”

Em tempos de promoção encarniçada do empoderamento feminino, da fluidez dos gêneros e da sexualidade e da emancipação pessoal frente às regras “autoritárias” das famílias de matiz conservador (aquelas em que, por incrível que pareça, os pais ainda exigem obediência e castigam quando necessário), é quase escandaloso escrever qualquer coisa sobre um dos homens (sim, um homem e, horror dos horrores, um pai de família e casto!) mais amados do catolicismo (sim, a religião “opressora”): São José, patrono da Igreja Universal e pai adotivo de Jesus.

É escandaloso, mas é também extremamente desafiador, porque o exemplo de São José ajuda a iluminar as incongruências gritantes da contemporaneidade – a ausência de valores que promovam a família, especialmente a heteronormativa (segundo o discurso da ideologia de gênero); o vazio deixado pela falta de sólidos exemplos de masculinidade e paternidade sadias; a defesa de princípios pela insistência e pela gritaria, e não pelo bom-senso – e serve como parâmetro para nós, católicos, nos posicionarmos com firmeza frente a estas questões. O exemplo discreto de José e a sua importância como modelo de santidade e de vinculação a Deus não são, pela força do hábito e da devoção já assimilados na nossa vida cristã, muitas vezes devidamente reverenciados em justa medida. Voltar o olhar para o chefe da Sagrada Família é, hoje, não apenas enriquecedor para a nossa espiritualidade, mas igualmente necessário para a defesa da nossa fé e de nossos princípios morais fundamentais.

O Evangelho de São Mateus nos apresenta São José como sendo o “esposo” de Maria, o “justo”, o qual, sabendo da gravidez de sua prometida e “não querendo denunciá-la publicamente” (já que o filho biologicamente não era seu), resolve “repudiá-la em segredo” (1, 19). Alertado em sonho pelo Anjo do Senhor – “José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois o que nela foi concebido vem do Espírito Santo” (1, 20) –, José “fez como o anjo do Senhor lhe havia mandado e recebeu em sua casa sua esposa” (1, 24). Sobre o qualificativo “justo”, é importante mencionar o que nos diz o Papa Emérito Bento XVI no livro “A Infância de Jesus” (tomando por base a exegese do Salmo 1): “Justo (…) é um homem que vive em intenso contato com a Palavra de Deus (…). A lei [do Senhor] se converte espontaneamente para ele em ‘evangelho’, boa nova, porque a interpreta com atitude de abertura pessoal e cheia de amor a Deus, e assim aprende a compreendê-la e a vivê-la desde dentro”.

São José está disponível para acolher a vontade de Deus em sua vida e a cumpri-la integralmente na sua vida. É justo exatamente porque vive orientado para o alto, porque busca a santidade na obediência e na docilidade à palavra do Pai. Ainda sobre São José (especificamente sobre o fato de o anjo somente lhe aparecer em sonhos), nos fala ainda o Pontífice Emérito: “Isso nos mostra uma vez mais um traço essencial da figura de São José: sua finura para perceber o divino e sua capacidade de discernimento. Somente a uma pessoa intimamente atenta ao divino, dotada de uma peculiar sensibilidade por Deus e seus caminhos, pode-lhe chegar a mensagem de Deus desta maneira”. É homem sensível, pois, às manifestações de Deus, através de uma vida de intimidade com Ele, de pertença a Ele, de vida e de contemplação.

A Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, em 19 de junho de 2013, acrescentou a menção ao nome de São José nas Orações Eucarísticas II, III e IV do Missal Romano, através de um documento em que se lê: “S. José de Nazaré, colocado à frente da Família do Senhor, contribuiu generosamente na missão recebida na graça e, aderindo plenamente ao início dos mistérios da salvação humana, tornou-se modelo exemplar de generosa humildade, que os cristãos têm em grande estima, testemunhando aquela virtude comum, humana e simples, sempre necessária para que os homens sejam bons e fiéis seguidores de Cristo”.

Aqui se revela de maneira inequívoca a missão de todo homem cristão: aderir plenamente aos planos de Deus para sua vida, assumindo a especificidade de sua vocação varonil com integridade e disponibilidade. A fidelidade a Cristo se revela na assunção, por parte de cada homem, da sua missão especial em cada estado de vida (celibato, matrimônio, sacerdócio) com obediência e generosidade à vontade de Deus. A virtude masculina é revelada na dignidade especial de cada varão no cumprimento fiel e solícito de sua vocação particular, a exemplo do agir de José.

A respeito da vocação específica da paternidade, o Papa Francisco é certeiro: “A primeira necessidade é precisamente esta: que o pai esteja presente na família. Que esteja junto da sua mulher, para partilhar tudo, alegrias e dores, trabalhos e esperanças. E que esteja junto dos seus filhos no seu crescimento: quando jogam e quando se empenham, quando estão sem preocupações e quando estão angustiados, quando se exprimem e quando estão taciturnos, quando ousam e quando têm medo, quando fazem um passo errado e quando reencontram o caminho. Pai presente sempre.” (Catequese da Audiência Geral, 04 de fevereiro de 2015).

Num mundo esvaziado de figuras paternas, o exemplo de José é imprescindível, pois nos mostra a necessidade da presença do pai no cotidiano da família, no atendimento eficaz as suas necessidades urgentes e no acolhimento e na educação dos filhos. O feminismo, cuja retórica distorce o papel do homem na sociedade e especialmente no ambiente familiar, exige o protagonismo das mulheres em prejuízo das figuras masculinas, enfraquecendo-as e minimizando a sua influência e a sua importância. Numa sociedade sem pais ou com pais vacilantes e impotentes, a formação dos indivíduos é seriamente prejudicada, quando não anulada. Não há referenciais varonis em que possam se espelhar os homens em processo de amadurecimento e essa carência incide diretamente na formação da sua afetividade e sexualidade. Por esta razão, aparecem e ganham força as ideologias que relativizam o gênero, os papeis sexuais e a importância da família na sociedade, enfraquecendo a identidade dos indivíduos e as suas relações interpessoais.

Na encíclica Redemptoris Custos, o Papa João Paulo II nos ensinava: “São José foi chamado por Deus para servir diretamente a Pessoa e a missão de Jesus, mediante o exercício da sua paternidade: desse modo, precisamente, ele ‘coopera no grande mistério da Redenção, quando chega a plenitude dos tempos’ [S. João Crisóstomo, In Matth. Hom., V, 3: PG 57, 57-58], e é verdadeiramente ‘ministro da salvação’. A sua paternidade expressou-se concretamente ‘em ter feito da sua vida um serviço, um sacrifício, ao mistério da Encarnação e à missão redentora com o mesmo inseparavelmente ligada; em ter usado da autoridade legal, que lhe competia em relação à Sagrada Família, para lhe fazer o dom total de si mesmo, da sua vida e do seu trabalho; e em ter convertido a sua vocação humana para o amor familiar na sobre-humana oblação de si, do seu coração e de todas as capacidades, no amor que empregou ao serviço do Messias germinado na sua casa’ [Paulo VI, Alocução (19 de março de 1966): Insegnamenti, IV (1966), p. 110.]” (n. 8). A paternidade, conforme o exemplo de São José, é serviço ofertado generosamente a Deus como exercício pleno da vocação pessoal do homem como pai de família; é entrega de si para o bem do outro, para a construção da família e para a renovação da sociedade; é vocação dada por Deus como regalo especial para cada homem (também para sacerdotes e celibatários, em sentido espiritual), chamado a vivê-la como dom gratuito e como caminho de santificação.

Na mesma encíclica, o santo pontífice polonês acentuava uma característica muito especial de São José: o silêncio. Diz-nos São João Paulo II: “Também quanto ao trabalho de carpinteiro na casa de Nazaré se estende o mesmo clima de silêncio, que acompanha tudo aquilo que se refere à figura de José. Trata-se, contudo, de um silêncio que desvenda de maneira especial o perfil interior desta figura. Os Evangelhos falam exclusivamente daquilo que José ‘fez’; no entanto, permitem-nos auscultar nas suas ‘ações’, envolvidas pelo silêncio, um clima de profunda contemplação. José estava cotidianamente em contato com o mistério ‘escondido desde todos os séculos’, que ‘estabeleceu a sua morada’ sob o teto da sua casa.” (n. 25). No acolhimento de Maria em sua casa, como sua esposa, e no exercício da paternidade de Jesus, percebe-se na discrição de José um perfil eminentemente interiorizado, voltado para si, como sinal de uma profunda vida interior. O silêncio de José permite identificá-lo como homem de ação e de atitudes simples, de profunda humildade, cujo ser estava ordenado apenas para cumprir a vontade de Deus, com quem mantinha uma reservada e profunda relação filial. José era homem de escuta, não de discursos vazios; era homem de ações efetivas, não apenas de intenções.

São José, por seu exemplo de santidade varonil, convida-nos a ser verdadeiros discípulos de Cristo, com simplicidade e disponibilidade. A sua paternidade espiritual é caminho seguro que nos leva ao Pai celeste, como nos ensina Santa Teresa de Jesus em seu Livro da Vida“Assim, tomei por advogado e senhor o glorioso São José, encomendando-me muito a ele. Vi com clareza que esse pai e senhor meu me salvou, fazendo mais do que eu podia pedir, tanto dessa necessidade como de outras maiores, referentes à honra e à perda da alma. Não me lembro até hoje de ter-lhe suplicado algo que ele não tenha feito. Espantam-me muito os muitos favores que Deus me concedeu através desse bem-aventurado Santo, e os perigos, tanto do corpo como da alma, de que me livrou. Se a outros santos o Senhor parece ter concedido a graça de socorrer numa dada necessidade, a esse Santo glorioso, a minha experiência mostra que Deus permite socorrer em todas, querendo dar a entender, que São José, por ter-Lhe sido submisso na terra, na qualidade de pai adotivo, tem no céu todos os seus pedidos atendidos”. Cada um de nós, especialmente os homens, somos chamados a aprender dele o caminho do serviço desinteressado a Deus, atentos a Sua Palavra e dóceis as suas disposições, e a vida contemplativa, alicerçada no silêncio, no qual o próprio Cristo modela em nós a Sua imagem e semelhança.

Autor: Breno Alves


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