Geração mimimi, ou geração “Metholate que não arde”. O fenômeno parece evidente: os millennials não parecem preparados para a vida, pois vivem em bolhas protegidos de tudo, até de ofensas e “microagressões”, em “locais seguros” inclusive nas universidades.

Crianças “brincam” em locais cada vez mais controlados, sem “riscos”, e com os pais no comando. Policiais são chamados para prender crianças que cortam galhos de árvore, rolam na grama ou tentam vender suco na esquina, sem licença estatal. A paranoia salta aos olhos: perigo, perigo por toda parte! É preciso fechar os pimpolhos numa redoma.

Os efeitos dessa postura super protetora podem ser observados facilmente. Os jovens de hoje estão hipersensíveis, despreparados para o mundo real, confundindo seus desejos com direitos inalienáveis. Eles estão mimados, em suma.

Jonathan Haidt, autor do excelente The Righteous Mind, que resenhei aqui, escreveu um importante ensaio sobre a “geração frágil” com Lenore Skenazy, para a reason.com. Os autores procuram mostrar como o excesso de zelo com a segurança dos filhos acabou tendo um efeito bumerangue, e hoje eles se encontram mais fragilizados e incapazes de vencer as batalhas da vida. Eles escrevem:

Tivemos as melhores intenções, é claro. Mas os esforços para proteger nossos filhos podem ter ricocheteado. Quando criamos crianças que não estão acostumadas a enfrentar qualquer coisa por conta própria, incluindo riscos, falhas e sentimentos feridos, nossa sociedade e até nossa economia estão ameaçadas. No entanto, as práticas e leis modernas de criação de filhos parecem quase todas concebidas para cultivar essa falta de preparação. Há o medo de que tudo o que as crianças vejam, façam, comam, ouçam e lambam possa machucá-las. E há uma crença mais nova que tem se espalhado através da educação superior de que palavras e ideias podem traumatizar.

O que pode ter levado a isso? Os autores apresentam algumas possibilidades:

A partir da década de 1980, a infância americana mudou. Por uma variedade de razões – incluindo mudanças nas normas parentais, novas expectativas acadêmicas, aumento da regulamentação, avanços tecnológicos e, especialmente, um maior medo do sequestro (as crianças desaparecidas em desenhos fizeram sentir como se esse crime extremamente raro fosse desenfreado) – os filhos em grande parte perderam a experiência de ter grandes intervalos de tempo sem supervisão para jogar, explorar e resolver conflitos por conta própria. Isso os deixou mais frágeis, mais facilmente ofendidos e mais dependentes de outros. Eles foram ensinados a buscar figuras de autoridade para resolver seus problemas e protegê-los de desconforto, uma condição que os sociólogos chamam de “dependência moral”.

E como essa situação pode prejudicar os próprios jovens?

Isso representa uma ameaça para o tipo de abertura e flexibilidade que os jovens precisam para prosperar na faculdade e além. Se eles chegam na escola ou começam carreiras desacostumados a frustração e mal-entendidos, podemos esperar que eles sejam hipersensíveis. E se eles não desenvolvem os recursos para trabalhar através de obstáculos, os montinhos parecem ser montanhas.

Esta ampliação do perigo e da dor é prevalente no campus hoje. Já não importa o que uma pessoa pretendia dizer, ou como um ouvinte razoável interpretaria uma declaração – o que importa é se alguém se sente ofendido por isso. Em caso afirmativo, o falante cometeu uma “microagressão”, e a reação puramente subjetiva da parte ofendida é uma base suficiente para enviar um email ao reitor ou abrir uma queixa à “equipe de resposta de viés” da universidade. O efeito líquido é que tanto professores como estudantes hoje relatam que estão caminhando em cascas de ovos. Isso interfere no processo de indagação gratuita e debate aberto – os ingredientes ativos em uma educação universitária.

A nova geração tem valorizado cada vez menos a Primeira Emenda, que garante a liberdade de expressão, e cada vez mais a “polícia do pensamento”, que controla o que cada um pensa e diz para não “ofender” ninguém (a menos, claro, que seja um homem branco heterossexual cristão ou judeu). Os autores resumem o ponto:

Pais e professores estão falando sobre a crescente fragilidade que eles vêem. É difícil evitar a conclusão de que a superproteção das crianças e a hipersensibilidade dos estudantes universitários podem ser dois lados da mesma moeda. Ao tentar tanto proteger nossos filhos, estamos fazendo com que eles fiquem muito seguros para ter sucesso.

Crianças aprendem fazendo, acima de tudo. Como diz o velho ditado, “prepare seu filho para o caminho, não o caminho para seu filho”. Os pais de hoje têm ignorado essa importante lição. Os autores depositam suas esperanças nas brincadeiras, mais soltas e livres. É como os demais mamíferos aprendem coisas importantes para eles. Eles dizem:

No jogo livre, idealmente com crianças de idades misturadas, as crianças decidem o que fazer e como fazê-lo. Isso é trabalho em equipe, literalmente. As crianças pequenas querem desesperadamente ser como as crianças maiores […]. Esta é a base da maturidade.

Um conhecido brincou outro dia: “No meu tempo, perdia aquele que chorasse primeiro diante das provocações; hoje ganha o que chora primeiro!” Ninguém precisa negar os perigos do bullying sistemático e agressivo para reconhecer que a paranoia com qualquer bullying foi longe demais, impedindo os garotos e garotas de criar cascas mais grossas e resistentes para a vida lá fora. Eles concluem:

Ao tentar manter as crianças a salvo de todos os riscos, obstáculos, sentimentos doloridos e medos, nossa cultura tirou as oportunidades que eles precisam para se tornarem adultos bem-sucedidos. Ao tratá-los como uma frágeis – emocional, social e fisicamente, a sociedade realmente os faz assim.

É hora de “tocar a real” para a garotada, permitir que vivam um pouco mais a vida, de forma mais solta e, sim “arriscada”, pois a alternativa é, além de sufocante, mais perigosa ainda, e vai acabar matando a coisa que mais importa: a liberdade.

Rodrigo Constantino

Se você é um homem com grandes responsabilidades no trabalho e na vida familiar, provavelmente não tem muito tempo de sobra para ler. Deve ter muito pouco tempo para perder com conversas “motivacionais” que lhe digam por que deveria ser um bom pai, ou com longas e sentimentais histórias que criticam o óbvio. É por isso que, ao escrever este livro, quis que ele fosse direto e eminentemente prático. Está baseado na experiência de outros homens como pais, e apresenta vislumbres reais de vida em família, além de ideias sugestivas que você poderá colocar imediatamente em prática.

Meu objetivo é ambicioso: ajudá-lo a tornar-se um grande pai, um grande marido e um grande homem.

Há muita coisa em jogo aqui. O sucesso de seus filhos mais tarde na vida dependerá enormemente de quão bem você fizer o seu trabalho de pai. Mas, em primeiro lugar, você, como outros homens hoje em dia, precisa de uma descrição do trabalho. Como parece ter dito certa vez o grande Yogi Berra (1): “Se você não sabe para onde está indo, vai parar em outro lugar”.

Como veremos, a principal tarefa de um homem em sua família é protegê-la. Um homem protege sua esposa e filhos de tudo o que ameace a sua felicidade e bem-estar, tanto no presente como no futuro. Se fracassa nessa grande responsabilidade, sua família sofrerá as consequências.

Se você conseguir aprender com este livro, e depois transformar o que aprendeu em uma ação vigorosa, viverá, se Deus quiser, para ver grandes conquistas de sua vida como pai:

– Sua masculinidade forjará em seus filhos um caráter que durará por toda a vida;
– Seus filhos serão viris e suas filhas serão femininas;
– Seu critério moral será a bússola da consciência de seus filhos;
– Sua vida no trabalho e em casa unir-se-ão para formar um conjunto integrado e coerente;
– Sua família se tornará uma divertida aventura;
– Sua mulher e seus filhos o estimarão como um grande homem;
– Seus filhos crescerão para se tornarem homens e mulheres competentes e responsáveis, que o amarão e o estimarão por toda a vida.

Este elevado ideal, de viver como um grande pai, é alcançável, pode ser feito. Sei disso porque o testemunhei nas vidas de muitos pais. Tudo o que há nestas páginas – a estratégia e as táticas da liderança paterna – deriva do que aprendi em meus anos de experiência profissional com muitos homens comuns e conscienciosos como você. Quero ensinar-lhe o que aprendi deles. Quero passar para você sua experiência coletiva, a sabedoria da paternidade.
Deixe-me voltar um pouco e explicar isso, e como acabei escrevendo este livro. (2)

Durante vinte e um anos, trabalhei para ajudar a instalar duas escolas independentes de ensino secundário (3) para meninos, uma em Washington, D.C., e outra em Chicago – a The Heights School e a Northridge Preparatory School, respectivamente. Fui diretor de Northridge por quase doze anos. Tenho a alegria e o orgulho de dizer que ambas as escolas tiveram um enorme sucesso sob todos os aspectos.

Naquele período, procurei conhecer intimamente centenas de famílias. Estudei suas vidas familiares e observei as crianças crescerem e amadurecerem, frequentemente com sucesso, embora às vezes não. Ao longo de muitos anos, conversei com centenas de pais e mães, visitei suas casas, fiz perguntas e aprendi muito.

Fiz isso por duas razões.

Primeiro, acredito que uma escola deve servir à família inteira, tanto aos pais quanto aos filhos, e assim deveria encarar os pais, e não as crianças, como os principais beneficiários de seus serviços. Afinal, os pais são os principais educadores das crianças, e os jovens sobem ou descem na vida principalmente por causa da forma como foram criados em casa. A escola deve apoiar os pais, e não substituí-los, nessa missão tremendamente importante.
Segundo, queria aprender de que forma os pais têm sucesso ou fracasso na missão de educar os seus filhos.

Deixe-me ser claro aqui. Quando digo “sucesso ou fracasso”, não me refiro aos métodos de disciplina que os pais utilizam, nem a como mantêm as crianças sob controle, nem a como lidam com os problemas da vida em família. Essas são conquistas de curto prazo, mas compõem apenas uma parte do quadro.

Os pais só obtêm um sucesso real no longo prazo. Os pais são bem-sucedidos com seus filhos quando estes crescem e tornam-se homens e mulheres competentes, responsáveis, ponderados e generosos, comprometidos a viver de acordo com os princípios da integridade – adultos que honram a seus pais por toda a vida através de sua conduta, consciência e caráter. Educar as crianças para que se tornem adultos como esses é o verdadeiro objetivo da paternidade.

Vi muitos pais que conseguiram fazê-lo, enquanto outros fracassaram. Alguns viram seus filhos amadurecerem e tornarem-se homens e mulheres excelentes. Outros, especialmente quando seus filhos atravessavam a adolescência e a juventude, depararam com a frustração, o arrependimento, e até mesmo a tragédia. Seus filhos sofreram com a falta de confiança e autocontrole, uso de drogas, imaturidade prolongada, comportamentos irresponsáveis e autodestrutivos, falta de objetivos na vida e problemas com a carreira, com o casamento ou com a lei.

Através de minhas incontáveis conversas com pais e mães, procurei explicar as diferenças que haviam entre eles. Busquei padrões de vida familiar entre aqueles pais que haviam triunfado com seus filhos. O que tinham em comum aqueles homens e mulheres bem-sucedidos? O que haviam conseguido fazer certo? E o mais importante: o que outros pais poderiam aprender de sua experiência?

Ao longo dos anos, prestei cada vez mais atenção ao poderoso papel do pai nas vidas dos filhos – e esta é a razão deste livro. Repetidamente, em uma família depois da outra, testemunhei como os pais têm uma influência crucial no êxito que seus filhos teriam na vida. O sucesso ou o fracasso de um homem como protetor e líder dirige o curso da vida de seus filhos para o bem ou para o mal. Nossa epidemia nacional de “pais ausentes” não é simplesmente um problema de mães solteiras que devem enfrentar a vida sem um marido. É também o caso de lares intactos com pai e mãe, nos quais, porém, o pai está moralmente ausente da vida de seus filhos.

Muitos homens, embora fisicamente presentes na família, simplesmente deixam de exercer sua função de pai. Na verdade, parece que nem sequer sabem em que consiste essa função. E de forma lamentável, e mesmo trágica, sua persistente negligência prejudica tanto seu casamento como a formação dos filhos.
Deixe-me contar um exemplo de fracasso, tirado de minha experiência profissional.

Certa manhã, recebi um telefonema de uma preocupada mãe de um menino de doze anos. Seu filho estava tendo terríveis problemas em outra escola. Desejava transferi-lo para a nossa, pois estava preocupada com sua depressão, cada vez pior, e sua falta de confiança em si mesmo e sua baixa motivação. Os problemas emocionais do garoto estavam prejudicando seu desempenho acadêmico. Ela pediu para marcar um horário para vir, junto com seu marido, visitar-nos e discutir a situação e para que seu filho pudesse fazer uma avaliação e uma entrevista.

Embora os requisitos para a entrada em Northridge fossem bastante competitivos e nossa escola tivesse uma política de recusar alunos com problemas motivacionais, senti pena daquela mãe, e por isso concordei em encontrar-me com ela e seu marido. Pensei que ao menos poderia dar-lhe algum conselho e encaminhá-la a profissionais que pudessem ajudar o menino.

Porém, não pudemos encontrar-nos logo. Infelizmente, seu marido estava fora da cidade. Ao longo das duas semanas seguintes, ela e eu marcamos e depois tivemos de desmarcar três horários porque toda vez uma coisa ou outra surgia na ocupada agenda de seu marido. Comecei a suspeitar que os problemas daquele garoto iam além de notas baixas. Tantas vezes antes, vira aquela mesma situação. Que pai – perguntava-me –, colocado diante de um filho com um problema sério, seria incapaz de conseguir arranjar um par de horas para tomar as rédeas de uma situação que estava saindo do controle? Quais seriam as atitudes e prioridades daquele homem?

A mãe e eu finalmente desistimos de tentar encontrar-nos na presença do pai, e assim combinamos que o garoto viria primeiro para uma entrevista. Meu encontro com Mike confirmou minhas impressões.

Mike entrou na minha sala parecendo nervoso e assustado. Seus olhos mal se encontraram com os meus; voavam pela sala como se estivessem desesperados para escapar. Ofereci-lhe um aperto de mão inicial; sua mão estava mole e suada. Enquanto conversávamos, ele olhava para fora da minha janela. Nossa conversa foi basicamente unilateral, e arrastou-se mais ou menos assim:

– O que seu pai faz, Mike? – perguntei-lhe.
Mike murmurou:
– Ele é engenheiro.
– Onde ele trabalha? – ele me disse o nome da empresa.
– Que tipo de engenheiro ele é? Mecânico, elétrico, civil?
Ele murmurou:
– Não sei.
– Onde ele estudou, e quando se formou? – ele me disse o nome da universidade. Não sabia o ano de formatura.
– Onde ele conheceu a sua mãe? Na faculdade?
– Acho que sim, mas não tenho certeza.
– Quanto tempo eles namoraram antes de casar?
– Não sei.
– Quando seu pai tinha a sua idade, de que hobbies e esportes ele gostava?
Ele encolheu os ombros:
– Não tenho certeza.
– Ele gosta do trabalho?
– Acho que sim. Ele não fala muito sobre isso.
– O que vocês dois fazem juntos?
Ele pensou um pouco:
– Às vezes jogamos bola ou videogame. Normalmente, ele está cansado demais e só assiste TV ou lê.
– Ele confere a sua lição de casa?
Mike fez outra pausa:
– Não muito… Às vezes ele fica bravo comigo.
Nova estratégia:
– Quando tinha a sua idade, como ele ia na escola?
– Não sei.

E a coisa continuou assim: “Não sei…; Não tenho certeza…”. À medida que Mike relaxava um pouco e abria-se mais comigo, revelava um fato evidente. Ele não sabia quase nada sobre a vida passada e presente de seu pai, nada sobre as suas ideias e seus interesses. Sabia sobre seu pai poucas coisas que o fizessem respeitá-lo. Temê-lo, talvez, mas não respeitá-lo. Era também muito claro que isso o incomodava profundamente. Na idade em que os garotos começam a buscar uma figura masculina que seja um modelo para suas vidas, aquele garoto olhava para seu pai e via… o quê? Um enigma, um mistério, quase um estranho… um pai virtual.

Gostaria de dizer que esta história teve um final feliz. Para falar a verdade, não sei o que aconteceu – isto é, o que aconteceu com Mike. Encaminhei sua mãe para auxílio profissional, pois naquelas circunstâncias era tudo o que podia fazer. Como você pode imaginar, nunca cheguei a encontrar-me com o pai. Era ocupado demais.

O destino de Mike provavelmente foi semelhante ao de tantos outros meninos de famílias com pais virtuais. Incapaz de obter a aprovação de seu pai, era provável que ele a procurasse entre seus pares, e assim se tornasse vítima da cultura do sexo, drogas e rock’n roll. Sem a liderança confiante e o encorajamento de seu pai, não teria confiança em si mesmo e tentaria escapar de seus medos através dos prazeres de drogas e do álcool, como comumente acontece. Dominado por temores abstratos, seguiria depois o caminho de seu pai como alcoólatra ou simplesmente vagaria sem rumo através de uma inútil sucessão de empregos. Sem a lembrança de conselhos ou de sabedoria paterna para guiá-lo, passaria anos procurando orientação de substitutos paternos: médicos, especialistas em saúde mental, clérigos e conselheiros matrimoniais. Seu casamento, se houvesse, seria construído sobre a areia, e sua esposa e filhos (se os tivesse) sofreriam.

A situação particular de Mike era incomum? Infelizmente, não. Essa distância entre pais e filhos – pela qual as crianças mal conhecem seus pais e assim não chegam a respeitá-los – é muito comum em nossa sociedade.

Em muitas famílias americanas, a distância entre pais e filhos é maquiada por idas a jogos no estádio e outras atividades de amigão. Aos olhos de muitas crianças, seu pai aparece como uma espécie de simpático irmão mais velho ou uma segunda mãe em meio período. Isto não é suficiente. Fazer esportes ou brincar com os seus filhos não é o mesmo que orientar-lhes como pai. Em grande parte de nossa sociedade, há algo que não está acontecendo entre pais e filhos – e isso está prejudicando nossas crianças.

* * *

A história de Mike é a de um fracasso paterno. Sua experiência com seu pai virtual chamou a minha atenção porque contrastava de forma muito intensa com os sucessos que testemunhei entre tantos pais de alunos da minha escola.

Através de uma espécie de seleção natural, Northridge atraía uma grande quantidade de pais com a “cabeça no lugar”. Eu via que aqueles pais e mães estavam fazendo um bom trabalho, com frequência um excelente trabalho, em criar seus filhos.

Pais e visitantes cumprimentavam-nos pela alegria confiante e bons modos de nossos alunos, por sua capacidade de produzir trabalhos de alta qualidade, por seu crescente sentido de profissionalismo, por sua integridade pessoal. Com relação a problemas com drogas, não tínhamos nenhum – nenhum mesmo, zero. Sem dúvida, nossos alunos tinham seus momentos de desequilíbrio e altos e baixos hormonais, como a maioria dos adolescentes normais. Mas nossos alunos eram, na maioria, ótimos adolescentes que rapidamente se tornaram excelentes jovens. No fim, entravam em boas carreiras e casavam-se bem. Nós, professores e pais, tínhamos orgulho deles, e ainda temos.

Procurei descobrir como seus pais conseguiram que fossem assim. Francamente, muitas vezes fiquei chocado por quão diferentes eram seus temperamentos e formas de educar as crianças. Tive o cuidado de tomar notas em diversos papéis avulsos e arquivei-os até ter várias pastas de folhas velhas. Gradualmente, alguns padrões – algumas abordagens comuns na educação dos filhos – começaram a tomar forma, e transmiti essas lições a outros pais através de conselhos e encorajamento.

Com certeza, um elemento comum foi o seguinte: os melhores dentre esses jovens bem educados respeitavam os seus pais e aprendiam deles. Em casa, os dois cônjuges, pai e mãe, estavam fazendo um ótimo trabalho, mas o papel do pai parecia ser central. Ele estava fazendo algo de bom na vida familiar, algo importante que estava lhe conquistando o respeito dos filhos, e determinei-me a descobrir o que era.

Comecei conversando com os filhos adolescentes desses homens. Pedi-lhes que relatassem algum incidente que indicasse ou ilustrasse por que respeitavam os seus pais. Algum tempo depois, pedi o mesmo aos pais mais eficazes que conhecia – que me contassem algo da memória de seus próprios pais. Eis algumas das coisas que me disseram: (4)

“Quando éramos crianças, sabíamos que papai era forte. Sempre que nós todos havíamos tentado sem sucesso abrir a tampa de um pote de vidro, levávamo-lo para papai. Era o único que conseguia abri-la – todas as vezes!”

“Quando eu tinha três ou quatro anos de idade, estava caminhando em um parque com meu pai. Fiquei um pouco para trás e parei para olhar alguma coisa no chão. De repente, um enorme cão setter irlandês correu na minha direção e pulou sobre mim, derrubando-me no chão. O cão ficou em cima de mim, arfando e farejando o meu rosto. É claro que ele estava apenas brincando, mas eu não sabia disso. Estava completamente aterrorizado, gritando de medo, pois pensava que o cachorro ia me comer. Meu pai voltou correndo, espantou o cachorro e ergueu-me em seus braços. Ele me segurou com força, enxugou minhas lágrimas com seu lenço, e sorriu enquanto me dizia que estava tudo bem. Agarrei-me com força ao seu pescoço, e senti que estava seguro com ele”.

“Depois que chegamos a uma certa idade, nosso pai parou de fazer as coisas por nós. Ele nos mostrava como fazê-las e então dizia para as fazermos por conta própria. Ele sempre dizia que nós devíamos aprender a resolver os nossos próprios problemas”.

“Papai era bravo e às vezes perdia a paciência conosco. Mas sempre vinha desculpar-se depois. Às vezes, ele era duro conosco, mas sempre era justo”.

“Nossa família tinha que viver com o fato de que papai era muito ocupado no trabalho. Às vezes tinha que ficar trabalhando até tarde aos sábados. Mas todos nós sabíamos de alguma forma que ele sempre estava disponível. Se qualquer um de nós realmente precisasse dele, sabíamos que deixaria o que fosse que estivesse fazendo e viria”.

“Papai e mamãe sempre se apoiaram. Sempre. Quando pedíamos permissão a mamãe para passar a noite na casa de alguém, ela dizia para esperarmos até que conversasse com papai. E se pedíssemos a ele, dizia a mesma coisa, para esperarmos e deixá-lo conversar com mamãe primeiro. Tomavam as decisões juntos.

“Papai sempre dizia que mamãe era a pessoa mais importante da sua vida – e que o mais importante para ele é que nós a tratássemos bem, senão… E sabíamos que ele estava falando sério”.

“Em uma noite de verão quando tinha treze anos, meu amigo e eu, apenas de brincadeira, tiramos as válvulas de ar de todos os pneus dos carros estacionados em um auditório da Associação dos Veteranos de Guerra da cidade, e voltamos de bicicleta para minha casa. Papai ouviu-nos rindo do que tínhamos feito e ficou furioso. Ele nos levou de volta e fez-nos recolocar todas as válvulas, e depois levou-nos para dentro do prédio para pedirmos desculpas aos donos dos carros. Quase morri de vergonha, mas realmente aprendi a lição”.

“Nunca me esquecerei de quando papai me levava a seu escritório quando eu era pequeno. Todos me tratavam muito bem, e eu via-o escrevendo e trabalhando com as pessoas o dia todo. Sentia uma espécie de orgulho dele”.

“Quando planejávamos férias, papai e mamãe costumavam pedir-nos sugestões. Deixavam-nos dar nossa opinião: o que gostaríamos de fazer, aonde gostaríamos de ir. E faziam o mesmo com outras coisas, também – ouviam a nossa opinião. Mas depois eram eles que tomavam a decisão final”.

“Quando minha irmã estava no colégio, estava de saída para um baile vestida com uma saia nova que acabara de comprar. Era uma saia curta – bem curta –, uma minissaia. Papai viu-a e deu um pulo. Ficou muito bravo. Disse que nenhuma filha dele sairia de casa vestida daquele jeito. Apesar de suas súplicas e choro, ele a obrigou a subir para o quarto e trocar de roupa. Na semana seguinte, obrigou-a a devolver a saia e pegar o dinheiro de volta”.

“Nosso pai era muito aberto. Respeitava nossa liberdade de opinião e deixava que discordássemos dele na maioria das coisas. Mas em alguns assuntos – como ficar fora até tarde, ou a forma como nos vestíamos –, fazia finca-pé. Sabíamos que, quando ele tomava uma posição firme assim, é porque considerava o assunto realmente importante para nós, para o nosso bem, como ele dizia – e assim o assunto estava encerrado, e ponto”.

Assim, quais eram as palavras e termos que repetidamente apareciam na descrição daqueles pais eficazes? Você pode vê-los aqui: forte, assertivo, justo, disponível, carinhosamente unido à sua esposa, competente, protetor, respeitador da liberdade dos filhos, bom ouvinte, um líder que ensina a distinguir o certo do errado. Não é um mau esboço do que é a paternidade; é um bom começo.

Ao longo dos anos, continuei a questionar os pais em particular, esquadrinhando suas histórias, juntando ideias e arrumando-as em padrões. Com frequência, passei adiante o que havia aprendido, através de palestras públicas que dei inicialmente aos pais de nossa escola, depois a outros grupos no Meio-Oeste, e finalmente por todo o país. Escrevi alguns livretos que foram publicados de forma privada e que, para minha grande surpresa, foram amplamente lidos e apreciados. Em algumas ocasiões, fui entrevistado pelo rádio e pela televisão.

Comecei a suspeitar que estava fazendo algo importante quando ocorreram alguns incidentes: eventos que finalmente levaram-me a deixar minha escola e dedicar-me integralmente a ensinar e encorajar jovens pais.

As pessoas começaram a ligar de todas as partes do país pedindo-me que fosse falar em seus grupos de pais. Depois, comecei a receber convites da Inglaterra, Filipinas, Irlanda, Singapura e Austrália.

Os folhetos das minhas palestras eram impressos em uma gráfica, e quando fui até lá para pegá-los, a proprietária pediu-me se poderia ficar com algumas cópias para dar a seus irmãos e amigos casados.

Algumas vezes, homens mais velhos, já avôs, participavam de minhas palestras. Vários deles vinham falar comigo depois e diziam: “Gostaria de ter ouvido essas coisas vinte e cinco anos atrás! Teriam me poupado muitos problemas”.

Algumas das minhas palestras foram filmadas para serem depois exibidas na televisão. Em três ocasiões diferentes – em Milwaukee, Washington e Sidney, os operadores de câmera vieram depois apertar a minha mão e agradecer-me. Um técnico disse-me: “Aprendi muito aqui, e estou muito feliz por alguém falar essas coisas!”.

Um homem aproximou-se de mim durante um intervalo e disse que me ouvira falar três anos antes. Agradeceu-me calorosamente e disse: “Em minha vida, há definitivamente um antes e um depois. Seus conselhos foram o ponto de mudança. Você me mostrou o que eu precisava fazer como pai, e deu-me o empurrão de que eu precisava”.

Durante todos os meus anos como diretor e depois como palestrante, deparei com um problema. Muitos homens perguntavam-me: “Você pode me recomendar alguns livros que eu pudesse ler sobre a paternidade?”. E isso deixava-me sem resposta.

Por muitos anos, procurei intensamente livros para recomendar, livros escritos especificamente para homens e a partir de um ponto de vista masculino. Fiquei decepcionado e frustrado. Embora não faltassem os assim chamados “livros para pais” no mercado, descobri que quase todos eram escritos para mulheres. A maioria concentrava-se no papel crucialmente importante das mães e esposas, mas ignorava ou minimizava o papel especial do pai em casa: uma dimensão da vida familiar que minha experiência demonstrava ser extremamente importante.

A partir de meados da década de 1980, minhas esperanças reacenderam-se quando novos livros sobre a paternidade dos homens apareceram nas livrarias. Mas estes, também, foram na maioria uma decepção. Alguns tinham uma abordagem sociológica e abstrata: longas discussões lamentando o “pai ausente”, mas poucas soluções práticas. A maioria condenava os inimigos das famílias disfuncionais, mas tinha pouco a dizer sobre os problemas comuns das famílias normais. Afinal, famílias normais têm problemas também.

Outros livros ofereciam remédios rápidos e frases feitas inúteis (“Brinque mais com seus filhos”) ou descreviam o comportamento paterno nos mínimos detalhes, mas sem uma visão filosófica mais ampla: não apenas o que um pai faz, mas o que um pai é.

Esses livros tinham todos o mesmo defeito: não davam praticamente nenhuma atenção à masculinidade de um pai, a suas forças inerentemente masculinas, e como essas forças dirigem o crescimento das crianças em capacidade de julgamento, competência e caráter. Muitos daqueles livros pareciam ver o pai ideal como pouco mais do que um amigo ou companheiro de jogos dos filhos em escala adulta, ou como uma espécie de segunda mãe. Nenhum desses pontos de vista coincidia com a minha experiência.

O livro que eu queria tinha que ter uma abordagem completamente diferente. Deveria resumir a sabedoria coletiva dos pais como os homens a aprendiam de seus próprios pais até, digamos, o fim da Segunda Guerra Mundial, quando as forças sociais e familiares começaram a erodir e até mesmo interromper esses ensinamentos masculinos entre gerações.

O livro que eu queria deveria explicar a importância da dedicação e previdência estratégica a longo prazo de um pai; deveria dizer como a visão forte e apaixonada de um pai pode servir como um ideal que capacite as vidas futuras de seus filhos como homens e mulheres; deveria descrever como a responsabilidade especial de um pai, a mais crítica, é ensinar e formar o caráter de seus filhos; deveria explicar os principais obstáculos que estorvam o papel de educador de um pai na sociedade de hoje, e dizer aos homens o que poderiam fazer para superá-los. Então, dentro dessa linha, o livro deveria oferecer conselhos práticos e experimentados sobre como pais bem-sucedidos lidam com os filhos nas áreas mais cruciais: regras de família, disciplina, escola, esportes, diversão, mídia e trabalho em equipe constante com a própria esposa.

Para dizê-lo de outra forma, o livro que estava procurando daria aquilo de que qualquer homem precisa para assumir uma grande responsabilidade, seja em casa ou no trabalho, isto é, uma clara descrição do trabalho, um objetivo de longo prazo realista, um aviso sobre os obstáculos em potencial e o know-how experiente de outros que já exerceram o cargo e triunfaram.

Como não consegui encontrar esse livro em lugar nenhum, eu mesmo o escrevi. É este que você tem em mãos agora.

Assim, vamos em frente, e façamos a descrição do que é o trabalho de um pai.


(1) Lawrence Peter “Yogi” Berra (1925-2015), jogador de baseball, famoso por suas declarações cheias de trocadilhos e paradoxos. (N. do T.)

(2) Esta obra acompanha meu outro livro, A Bússola: Um Manual de Liderança para Pais [Compass: A Handbook on Parental Leadership], e necessariamente possui com este alguns textos em comum. A Bússola explica como os dois cônjuges trabalham como uma equipe em uma liderança dupla e unificada. Este livro, por outro lado, explora como os pais realizam as suas contribuições poderosas e particularmente masculinas na vida familiar. Para obter material atualizado e mais completo sobre estes e outros livros, acesse a minha página: <www.parentleadership.com>.

(3) No Brasil, equivalente aos ensinos fundamental e médio. “Escolas independentes” nos EUA são equivalentes às nossas escolas particulares, isto é, financiadas exclusivamente com seus próprios meios, e não pelo governo nem por outras instituições. (N. do T.)

(4) Quase todas as citações deste livro são aproximações, pois foram reconstruídas de memória, com frequência de muitos anos atrás. As pontuações de citação ou diálogo aqui usadas são apenas um recurso literário. Além disso, em geral modifiquei os nomes e circunstâncias pessoais das pessoas citadas para preservar a sua privacidade

Autor Fr. Michael Rennier

Ontem à noite, depois do jantar, lutei com meus dois filhos por cerca de uma hora. Embora eu tenha dominado no início com o meu tamanho e força superiores, eles eventualmente me desgastaram e pularam em cima de mim em um ataque de uivos risonhos e bárbaros.

Às vezes, os dois são mais agressivos do que uma matilha de lobos e eu sempre os encontro acertando coisas aleatoriamente com outras coisas, subindo, socando e rolando na lama. Recentemente, nosso filho mais velho abraçou sua mãe enquanto falava com franqueza sobre o porquê nós beijamos os membros da família que amamos e como ele gosta disso.

Ambas as versões são o mesmo garoto. Ambas são expressões de sua masculinidade – o agir de maneira agressiva e a sensibilidade emocional. Os dois aspectos são saudáveis, ​​e eu encorajo. Um menino não deve ser forçado a escolher um lado ou outro, e nem deve ser visto como defeito em sua masculinidade.

Recentemente, Benjamin Sledge escreveu um artigo intitulado: “Today’s problem with masculinity isn’t what you think (O problema de hoje com a masculinidade não é o que você pensa)”. Depois de apontar como os meninos parecem ter muitos problemas para se transformarem em homens hoje em dia, ele escreve:

“Atualmente, há um ataque em duas frentes contra garotos jovens.

Nós vemos o agir de maneira agressiva, brincando com espadas de brinquedo, guerras e batalhas, como sinal de que nossos garotos se tornarão psicopatas por causa de eventos recentes. Homens, falsamente, acreditam que a sensibilidade ou as emoções são um sinal de fraqueza”.

A meu ver, o problema hoje é que atividades agressivas e tradicionalmente “masculinas”, como brincar de soldado e representar os heróis míticos, são desaprovadas como violentas demais. Por um lado, os garotos que se encontram explorando aquela área física, encharcada de testosterona de sua psique, são tachados de serem machos alfa em treinamento e são rapidamente podados.

Mas, por outro lado, os meninos que mostram sinais de emoção, aptidão artística, ternura ou outros chamados “traços femininos” têm sua masculinidade, e talvez até mesmo sua sexualidade, questionada. Então, o que deveria ser um homem? Quais opções são deixadas? Os meninos estão em uma situação sem vitória.

Eu tive minha própria masculinidade questionada mais de uma vez porque me visto bem. Fui ridicularizado por poder citar poemas de Gerard Manley Hopkins e tocar prelúdios de Chopin no piano. Eu já assisti a musicais e gostei deles.

Em seu artigo, Sledge diz que outros homens têm a mesma experiência, e as críticas de ambos os lados “deixam muitos jovens crescendo confusos”. Ele prossegue dizendo: “Não nos envolvemos com os tipos de jogos saudáveis de que precisamos para nos unir, e não temos a conexão emocional que precisamos com pais ou outros homens. Isso deixa os homens apáticos e indiferentes quando sentem que podem ser nenhum dos dois e, assim, refugiamo-nos em nossos mundos digitais de letargia”.

No final, os meninos acabam se perdendo em sua jornada para a idade adulta, e muitos homens são adolescentes em corpos adultos porque tivemos nossa masculinidade tirada de nós. Tudo o que resta são videogames, pornografia e passar todas as noites assistindo a esportes na televisão. Em outras palavras, ficamos com vícios e relíquias não saudáveis da infância que deveríamos ter superado.

Então, como ajudar os meninos a se tornarem jovens saudáveis?

Primeiro, entenda que o agir de maneira agressiva e brincar de guerra são formas de os garotos explorarem seu ambiente. Os meninos, em particular, querem buscar aventuras e encontrar seu propósito na vida, engajando-se no heroísmo. Isso não significa que eles precisam encontrar uma mulher indefesa para resgatar a fim de se tornarem homens de verdade, mas devem ser encorajados – especialmente pelos pais – a enfrentar corajosamente o caos e enfrentar o desconhecido. Os meninos aprendem a se tornar homens ao confrontar o mal e vencer. Eu tento explicar isso para meus próprios garotos em alguns níveis diferentes. Eles podem desafiar seus corpos através do esporte, disciplinar sua vida interior cultivando a virtude e superando o vício, e descobrir sua responsabilidade de defender a verdade, os fracos e os vulneráveis ​​em todas as situações. Todas essas são maneiras de os garotos se tornarem heróis.

Em segundo lugar, uma vez que os meninos tenham liberdade para serem fortes, eles evitarão uma crise de identidade sobre serem sensíveis e artísticos. Um homem forte é um homem gentil, e um homem confiante é um homem emocionalmente sensível. Eu falo com meus meninos sobre minhas emoções e os ensino a amar coisas bonitas como cantar e tocar piano. Eu tento abraçá-los muito. Eu também quero que eles me vejam abraçando sua mãe e suas irmãs e o jeito que sou gentil com elas. Eu rezo com meus filhos e vou à missa com eles, porque a adoração é uma virtude masculina, tanto quanto feminina. Os homens vão à igreja com suas famílias.

A vida é um chamado para a aventura, e os meninos estão animados para partir em seu caminho heroico. Com mais incentivo, eles podem aprender a serem fortes e sensíveis, guerreiros, mas também a serem poetas, confiantes em sua auto-identidade e prontos para se estabelecer no grande desconhecido.

Autora: Cristiane Lasmar – Título Original; “ A Guerra cultural dos meninos”

As mensagens feministas dirigidas aos meninos devem ser entendidas como parte de um projeto político e ideológico mais amplo, esse programa de ataque à masculinidade está em curso em praticamente todos os países ocidentais. Vou me concentrar aqui no modo como esse programa é posto em prática na educação das crianças, começando por esclarecer quais são as disposições infantis que estou chamando de “masculinas” e que o projeto feminista tanto se esforça por neutralizar.

Disposições naturais nos meninos

Sabemos que, durante a vida intrauterina, o cérebro dos meninos é banhado por uma quantidade muito maior de testosterona do que o das meninas, e que isso determina, em ampla medida, a forma masculina de estar no mundo. Não é difícil perceber, por exemplo, que, em média, os meninos desenvolvem a coordenação ampla antes das meninas, ao passo que estas se antecipam no desenvolvimento da linguagem e da coordenação fina, E que, desde a mais tenra idade, a maioria dos meninos manifestam mais interesse imediato por objetos do que por pessoas, preferem brinquedos que possuem barulho e movimento, e mostram-se ávidos por brincadeiras que envolvam exploração, confronto corporal e dispêndio explosivo de energia.

A maior propensão dos meninos a recorrer à violência física para resolver conflitos também faz parte desse pacote. Quem os educa tem, portanto, diante de si, a importante tarefa de ajudá-los a mitigar e canalizar o seu potencial agressivo para formas de ação civilizadas e socialmente produtivas. Esse esforço de culturalização das disposições naturais masculinas é absolutamente necessário e jamais houve sociedade que deixasse de realizá-lo.

Mas o que vem acontecendo no Ocidente contemporâneo é algo sem precedentes. Temos reprimido, em nossos meninos, todo tipo de comportamento que manifeste vigor combativo e espírito abertamente competitivo, sufocando assim traços essenciais de sua masculinidade.Em suma, os meninos estão sendo impedidos de ser meninos plenamente. E, quando resistem, seu modo de ser é problematizado, estigmatizado. Em muitos casos, chega a ser tratado como algo patológico. É verdade que não se pode culpar a “ideologia de gênero” ou o feminismo por absolutamente tudo. Alguns fatores sociológicos também contribuem para esse cerco à masculinidade. Por exemplo:

A intensificação do padrão de vida urbano

A residência em apartamentos, a impossibilidade de brincar na rua ou em quintais, em contato íntimo com a natureza, assim como o fato das crianças precisarem estar sob a vigilância constante de um adulto, tudo isso restringe as suas possibilidades de experimentar situações não premeditadas de aventura, competição e confronto. A oportunidade de se movimentar amplamente ficou restrita à prática de esportes em clubes e academias, ou seja, a eventos de curta duração, atividades rotinizadas e supervisionadas diretamente por professores e instrutores, sem uma liberdade real. Em muitos casos, porém, nem isso é concedido aos meninos. Uma boa parte das crianças vive a triste realidade do sedentarismo absoluto. Durante o tempo em que não estão na escola, ficam paralisadas diante das telas dos aparelhos eletrônicos, assistindo por horas a fio às aventuras de personagens virtuais que lutam, correm e se arriscam. Tudo o que lhes resta é o exercício vicário da masculinidade.

A dinâmica da escola.

Por seu caráter universalista e homogeneizante, a escola moderna não pode permitir a expressão plena das individualidades dos alunos, e precisa mantê-los quietos pelo maior período de tempo possível. Além disso, com o fenômeno da judicialização crescente das relações sociais, as escolas têm se tornado alvo potencial de processos por parte dos pais, o que leva os gestores a tentar reduzir o risco de acidentes a zero, aprofundando o controle sobre a corporalidade exuberante dos meninos. Eles não podem brincar de luta, envolver-se em competições espontâneas e, em muitos casos, não são nem mesmo autorizados a correr no recreio. Devem ficar sentados por horas a fio, mimetizando a duras penas o comportamento das meninas, que, embora mais conversadeiras, são, em geral, mais maduras e capazes de se manter quietas e concentradas quando necessário. Por serem mais empáticas, elas também têm mais facilidade para desenvolver relações de cumplicidade com os professores.

Além de não possuírem meios para dar expressão às suas necessidades de movimento, ação e competição, os meninos ainda recebem poucos estímulos imaginativos na escola.

Os professores são, em sua maioria, mulheres, e os currículos escolares têm se distanciado cada vez mais da sensibilidade masculina típica.

Pensemos, por exemplo, na nova onda de desenvolver nos alunos “competências sócio- emocionais”. Não é preciso ser PHD em desenvolvimento infantil para saber que esse tipo de conteúdo será, já de saída, muito mais atraente para as meninas, as quais têm mais facilidade e desenvoltura para falar de seus próprios sentimentos, e gostam de fazê-lo. Não obstante, a matéria é introduzida como se atendesse a uma necessidade geral e irrestrita, e sem nenhuma consideração relativa às diferenças entre os sexos. É claro que isso não ocorre por desconhecimento ou descaso. O objetivo é exatamente o de transformar a sensibilidade dos meninos, da mesma forma como acontece com a seleção da literatura a ser trabalhada em sala de aula. Onde estão as histórias de batalhas, aventuras e heroísmo que tanto encantam a imaginação masculina? Foram substituídas por narrativas politicamente corretas e eivadas de ideologia de gênero.

Em condições normais, esses dois fatores de cerco à masculinidade – a vida urbana e a dinâmica escolar – poderiam ser relativamente contornados pela adoção de estratégias de compensação e adaptação por parte da família e da própria escola. Porém, as chances de se encontrar caminhos alternativos que beneficiem os meninos têm sido limitadas pela interferência de um terceiro fator, que é dentre todos o mais perverso, justamente por impedir o ajuste dos outros dois. Refiro-me à influência nefasta do discurso feminista que apresenta o modo de ser masculino como potencialmente “tóxico”, como algo de que os homens precisam se livrar, para o bem das mulheres e para o seu próprio bem. Nesse ponto, já não estamos mais falando de um constrangimento à masculinidade criado por circunstâncias históricas e sociológicas, e sim de um juízo de valor ideológico e politicamente interessado.

O discurso da “masculinidade tóxica” já se embrenhou em todos os níveis da atividade educacional, impregnando a visão de mundo de boa parte das famílias e de quase todos os gestores e agentes escolares. Em seu nome, os meninos têm sido submetidos a um processo de desvirilização de amplas consequências individuais e sociais. Um exemplo é a redução significativa de suas chances de sucesso escolar. Ao exercer tamanha pressão sobre a masculinidade, a educação atual coloca os meninos em notória desvantagem acadêmica em relação às meninas. Eles são os campeões nos índices de suspensão, expulsão e reprovação. Entre a população menos favorecida economicamente, essa situação tem resultados cruéis. Diminui as chances de mobilidade social e, em casos de maior vulnerabilidade, pode levar à marginalização e à exclusão social.

Do ponto de vista individual, abafar a expressão da sensibilidade natural dos meninos e impedir que ela se desenvolva em formas socialmente legítimas e valorizadas, significa despersonalizá-los e restringir as suas perspectivas de vida.

Do ponto de vista coletivo, significa deixar de prepará-los para assumir as suas responsabilidades futuras como cidadãos e pais de família. Em muitas ocasiões cruciais, e para certas atividades específicas permanentes, uma comunidade precisa contar com a energia viril, do mesmo modo como uma família precisa contar com um homem que seja capaz de assumir riscos e obrigações pesadas para provê-la e protegê-la. É nas situações de calamidade, nos eventos de emergência, e no enfrentamento das ameaças externas, que nos damos conta do quanto a força física, a intrepidez e a objetividade masculinas são predicados imprescindíveis e admiráveis. Como escreveu C. Hoff Sommers, no livro: “A história nos ensina que a masculinidade sem moralidade pode ser letal. Mas quando a masculinidade é imbuída de moralidade, ela se torna poderosa e construtiva, e uma dádiva para as mulheres. ”

Mas os promotores da “ideologia de gênero” não estão preocupados com nada disso. O que nós percebemos como um problema sério, para eles é o corolário de um projeto que foi laboriosamente posto em prática ao longo de cinco décadas e cujos efeitos começam a se tornar mais visíveis agora. O cenário que temos hoje diante de nossos olhos – meninos pressionados em sua masculinidade, meninas confusas em relação à sua feminilidade – vem sendo idealizado, planejado e executado desde o início da segunda onda feminista nos anos 60, quando as universidades, as escolas e os meios de comunicação começaram a ser ocupados por agentes dedicados à pauta da desconstrução.

Em suma, o projeto de desvirilização dos meninos é a outra face do projeto de desfeminilização das meninas. As meninas são convencidas de que a sua feminilidade as transforma em vítimas dos homens. Ressentidas, elas se desfeminilizam para competir com eles. Os meninos são convencidos de que a sua masculinidade os torna algozes das mulheres. Culpados pela dor que alegadamente lhes causariam, eles se desvirilizam para tentar agradá-las. E, desse modo, chega-se mais perto da desestruturação da família heterossexual monogâmica, por meio do ataque a um de seus principais fundamentos, a complementariedade entre os sexos.