Com a proliferação da pornografia na internet, as crianças estão sendo expostas a imagens chocantes em uma idade cada vez menor.No curto prazo, as consequências podem ser desastrosas: depressão, desvios ou comportamento de risco.

Também existem efeitos de longo alcance de longo alcance: dificuldades em construir um relacionamento amoroso, ter uma imagem degradante das mulheres, dependência sexual etc.

Conversamos com Sabine Duflo, psicóloga clínica francesa e terapeuta familiar, sobre os efeitos da pornografia na juventude de hoje e sobre como podemos evitar os efeitos devastadores da exposição à pornografia em uma idade muito jovem.

Aleteia: Por que a batalha contra a pornografia que Emmanuel Macron* ( Presidente da França)  anunciou tornou-se uma prioridade para o governo francês?

Sabine Duflo: A pornografia de hoje está muito longe daquela da geração de nossos avós. Não é mais uma questão de erotismo. Agora cria a imagem de uma sexualidade completamente desumanizada e automatizada, sem nenhum sentimento. Transmite uma imagem degradante das mulheres. É uma sexualidade violenta, em que as mulheres estão em posição de submissão, alienação e totalmente subservientes aos desejos do homem.

Hoje, as crianças não são protegidas quando navegam na internet sozinhas. Elas podem se deparar com imagens violentas e pornográficas a qualquer momento. Esse volume de conteúdos de práticas sexuais é algo sem precedente em nossas sociedades. Aquilo que sempre permaneceu oculto está permanentemente à mostra, à vista de todos. Essa intimidade exposta é traumatizante para crianças, pois as fazem sentir-se chocadas, excitadas e culpadas, tudo ao mesmo tempo.

Quais as consequências que imagens pornográficas podem ter em um adolescente?

S.D .: Para as meninas, assim como para os meninos, as imagens pornográficas separam a sexualidade dos sentimentos de amor, enquanto a sexualidade deve ser a culminação de um relacionamento amoroso. Entre os meninos, a pornografia dá a mensagem de que a sexualidade é algo mecânico, sem sentimento, e está ligada à obrigação de realizar. Isso às vezes cria um uso viciante de pornografia na web e as dificuldades quando um adolescente se apaixona: desejo, excitação sexual e sentimentos não estão mais adequadamente conectados para ele.

Entre as meninas, isso pode criar sentimentos de depressão ou ansiedade, e até mesmo pensamentos suicidas, porque sua posição foi completamente depreciada e porque descobrir sexualidade através de filmes pornográficos é sinônimo de desencantamento total. Assim, podemos ver uma desconexão entre sentimentos amorosos e práticas sexuais. Nos banheiros de escolas de ensino médio, a prática de adolescentes realizando atos sexuais por um preço está se tornando cada vez mais prevalente.

A pornografia não vem sem consequências para as crianças e os futuros adultos que elas se tornarão. Isso ocorre porque um adulto tem que construir um relacionamento amoroso com outra pessoa, e não será capaz de conseguir isso se assimilar uma representação da sexualidade como um ato de violência e alienação.

Como podemos proteger nossos filhos?

S.D .: Se eles já viram imagens pornográficas, é muito raro que eles mencionem isso aos pais porque têm vergonha e se sentem culpados por encontrar essas imagens. A melhor coisa a fazer é falar com eles antes, avisá-los e orientá-los a se retirar da presença de conteúdos assim. No entanto, isso pode ser difícil, por vezes, porque eles são muito jovens.

Você deve ter algumas palavras simples prontas: “Se um dia você se deparar com imagens chocantes – e elas podem aparecer em qualquer lugar na internet – você não é responsável por isso. É uma grande indústria que mira os adolescentes para tentar ganhar dinheiro. Fale comigo, saia imediatamente da tela e não olhe para essas imagens, pois elas dificultarão futuros relacionamentos. Um dia você será crescido e se apaixonará; é uma bela experiência, e se você observar essas imagens, não poderá ter a mesma experiência.”

Outros podem dizer que você está sendo moralista.

A pornografia não é uma questão de moral, é uma questão de humanidade, de sociedade. Meu trabalho é ajudar as crianças a se tornarem adultos felizes que se realizam em seus relacionamentos com os outros. No entanto, imagens violentas e pornográficas atacam esse trabalho, pois fazem com que as crianças acreditem que a sexualidade é sinônimo de violência e desrespeito ao outro, quando deveria ser o contrário.

Aleteia

Homens e mulheres são diferentes, e não se trata apenas de órgãos genitais distintos, timbre de voz ou quantidade de pelo no corpo. Pesquisas recentes na área de neurociências deixam claro que a estrutura do cérebro, o modo como os neurônios fazem conexões e a quantidade de hormônios que agem no órgão afetam os comportamentos e preferências de homens e mulheres de modo muito distinto. Confira algumas diferenças já constatadas pelos neurocientistas:

1- Especialização cerebral

Ainda que o cérebro humano, em geral, possa realizar muitas tarefas, assim como concentrar-se mais em determinadas tarefas do que em outras, é certo que o aparato mental do homem está mais orientado à especialização. Isso quer dizer que no cérebro masculino, determinadas partes dos hemisférios cerebrais tendem a ser mais ativas do que outras, focando mais em tarefas específicas. No caso das mulheres, há uma utilização mais integral de ambos os hemisférios num número maior de atividades, o que caracteriza uma capacidade multitarefa superior.

2- Segmentação da informação

No cérebro masculino, a informação se separa em grupos segmentados que não estão necessariamente relacionados (como emoções e estratégias ou vida pessoal e profissional). No feminino, as informações se entrelaçam como um sistema único. Por isso, as mulheres são mais “holísticas” e, pelo menos mentalmente, não separam tanto os assuntos de ambientes distintos de convivência, como trabalho, faculdade e família.

3- Uso dos sentidos

Homem e mulher também percebem o mundo de modo diferente por meio dos sentidos. Nos homens, a visão tem um papel predominante, é o meio pelo qual a maior parte das informações chega ao sistema nervoso. Nas mulheres, os sentidos funcionam de modo mais equilibrado. Olfato, audição e tato são tão importantes para a compreensão do mundo quanto a visão. Também nesse caso, o cérebro masculino parece privilegiar a especificidade, enquanto o da mulher, o conjunto.

4- Tamanho do cérebro

O cérebro masculino é um pouco maior do que o feminino, o que não significa que homens tendem a ser mais inteligentes. A maioria dos cientistas acredita que a diferença de tamanho tem relação com o maior volume muscular dos homens.

5- Hormônios no corpo

O corpo masculino tem 20 vezes mais testosterona do que o das mulheres e, naturalmente, toda essa quantidade age no cérebro. Isso explica por que o sistema nervoso dos homens tende a impulsionar atitudes mais agressivas do que o das mulheres. Por causa do nível de testosterona, o desejo sexual dos homens é focado no prazer físico, enquanto nas mulheres, o afeto e o vínculo emocional podem chegar a ser até mais motivadores no sexo.

6- Habilidades cognitivas

Nos homens, o hemisfério cerebral esquerdo é dominante. No caso das mulheres, a atividade cerebral é mais balanceada entre os hemisférios. Isso ajuda a explicar a predileção de muitos homens por atividades que envolvam cálculos e coisas, como física, engenharias e tecnologia, enquanto o cérebro feminino desenvolve-se de modo a gerar predileção por áreas que trabalhem com pessoas e linguagens (educação e enfermagem, por exemplo). Essas são atividades que exigem o trabalho conjunto e simultâneo de várias regiões do cérebro.

Referências

Interessou-se pelo assunto? Esses são alguns dos estudos consultados para a produção lista:

Sex differences in the structural connectome of the human brainRegini Verma, neurocientista, University of Pennsylvania, EUA.

Cerebro de Mujer y cerebro de varón, Natalia Lopez Moratalla, doutora em Ciências, Universidad de La Sabana, Espanha.

Why sex matters for neuroscience, Larry Cahill, doutor em Neurobiologia, University of California, EUA.

Fonte AQUI

Pais, prestem atenção: vocês podem ser mais úteis na sala de parto do que imaginam. Essa é a conclusão de um estudo divulgado que descobriu que quando o homem segura a mão da sua mulher que está com dor, o coração e as taxas respiratórias entram em sincronia e a dor diminui.

“Quanto mais empático o parceiro, mais forte é o efeito analgésico, conforme a sincronização entre os dois quando estão tocando”, disse o principal autor do estudo, Dr. Pavel Goldstein, pesquisador de pós-doutorado em dor no Laboratório de Neurociência Cognitiva e Afetiva na CU Boulder.

O estudo envolveu 22 casais e foi publicado na revista Scientific Reports. É o mais recente de um crescente corpo de pesquisas sobre “sincronização interpessoal”, o fenômeno no qual os indivíduos começam a espelhar fisiologicamente as pessoas com quem estão.

Os cientistas há muito sabem que as pessoas inconscientemente sincronizam seus passos com a pessoa com quem estão caminhando ou ajustam sua postura para espelhar a de um amigo durante a conversa.

Estudos recentes também mostram que quando as pessoas assistem a um filme emocional ou cantam juntas, seus batimentos cardíacos e ritmos respiratórios se sincronizam.

Quando líderes e seguidores têm um bom relacionamento, suas ondas cerebrais entram em um padrão similar. E quando casais românticos estão simplesmente na presença um do outro, seus padrões cardiorrespiratórios e de ondas cerebrais se sincronizam, mostrou a pesquisa.

O novo estudo, co-escrito com a professora da Universidade de Haifa, Simone Shamay-Tsoory, e com o professor assistente Irit Weissman-Fogel, é o primeiro a explorar a sincronização interpessoal no contexto da dor e do toque. Os autores esperam poder contribuir com alternativas para o alívio da dor em pacientes hospitalizados, sem a necessidade do uso de opioides.

Goldstein surgiu com a ideia depois de testemunhar o nascimento da sua filha, agora com 4 anos. “Minha esposa estava com dor e tudo que eu conseguia pensar era: ‘O que posso fazer para ajudá-la?’ Peguei a mão dela e pareceu ajudar”, lembra ele. “Eu quis testar isso no laboratório: pode-se realmente diminuir a dor com o toque e, em caso afirmativo, como?”.

Goldstein recrutou 22 casais heterossexuais que vivem juntos há um bom tempo, com idades entre 23 e 32 anos, e os fez passar por uma série de testes com o objetivo de imitar o cenário da sala de parto.

Aos homens foi atribuído o papel de observador; mulheres o alvo da dor. Quando os instrumentos mediam suas taxas de coração e respiração, eles se sentavam juntos, sem se tocar; sentados juntos de mãos dadas; ou sentou-se em quartos separados. Então eles repetiram os três cenários enquanto a mulher era submetida a uma leve dor de calor no antebraço por 2 minutos.

Como em estudos anteriores, o estudo mostrou casais fisiologicamente sincronizados em algum grau apenas sentados juntos. Mas quando ela foi submetida a dor e ele não podia tocá-la, essa sincronização foi cortada. Quando ele foi autorizado a segurar a mão dela, suas taxas caíram em sincronia novamente e sua dor diminuiu.

“Parece que a dor interrompe totalmente essa sincronização interpessoal entre casais”, disse Goldstein. “Mas o contato traz de volta.”

A pesquisa anterior de Goldstein descobriu que quanto mais empatia o homem mostrava pela mulher (medida em outros testes), mais a dor diminuía durante o toque. Quanto mais fisiologicamente sincronizados eles eram, menos dor ela sentia.

Ainda não está claro se a diminuição da dor é o que causa o aumento da sincronicidade ou vice-versa. “Pode ser que o toque seja uma ferramenta para comunicar empatia, resultando em um efeito analgésico”, disse Goldstein.

Mais pesquisas são necessárias para descobrir como o toque de um parceiro ameniza a dor. Goldstein suspeita que a sincronização interpessoal pode desempenhar um papel, possivelmente por afetar uma área do cérebro chamada córtex cingulado anterior, que está associada à percepção da dor, empatia e função cardíaca e respiratória.

O estudo não explorou se o mesmo efeito ocorreria com casais do mesmo sexo, ou o que acontece quando o homem é sujeito à dor. Goldstein mediu a atividade das ondas cerebrais e planeja apresentar esses resultados em um estudo futuro. Ele espera que a pesquisa ajude a dar credibilidade científica à noção de que o toque pode aliviar a dor.

Fonte

Por Vitor Pereira

Celibato, continência e castidade… Três conceitos que facilmente são baralhados na linguagem quotidiana, tomados muitas vezes como sinônimos, mas que são, efetivamente, diferentes. Sua compreensão adequada é imprescindível para o direito canônico, pois, para cada uma destas figuras, existem consequências e efeitos jurídico-canônicos diversos, seja em relação à vida matrimonial, religiosa ou clerical. É impossível compreender retamente, por exemplo, a questão da possibilidade de homens casados se tornarem presbíteros (padres), ou mesmo o tema da validade do matrimônio não consumado, se a diferença entre estes conceitos não for estabelecida.

Para fazer esta distinção, valemo-nos, com adaptações, da excelente explicação que o canonista estadunidense Edward Peters dá sobre o tema, a qual tem o mérito de ser concisa e clara (o original em inglês pode ser consultado aqui).

Celibato é um estado de vida decorrente de uma escolha deliberada de não se casar. Não se configura pelo simples fato de estar solteiro por circunstâncias quaisquer não livremente escolhidas. É, na verdade, o estado de vida de um solteiro qualificado pela decisão livre de não se casar. Um jovem que deseja encontrar uma namorada para casar-se, enquanto não a encontra, ou, encontrando-a, enquanto ainda a namora, não é propriamente um celibatário, pois não escolheu deliberadamente o estado de vida de não casar-se, tanto é que busca encontrar alguém para sua esposa. A pessoa que, querendo casar-se, não encontra alguém que queira casar-se com ela, não é propriamente celibatária, pois tal decisão não é deliberada livremente, mas uma imposição das circunstâncias da vida.

Quando não há uma escolha deliberada por não se casar, é preferível dizer que a pessoa está ou é solteira, mas não que é celibatária. Solteiras são, por exemplo, as crianças (que poderão ou não desejar casar-se quando adultas), as pessoas que esperam casar-se ou se preparam para o casamento, a pessoa que ficou viúva após a morte do cônjuge e que aceitaria casar-se novamente.

A decisão pelo celibato (portanto, escolha livre e deliberada por este estado de vida) não necessita sempre ser por motivos nobres ou altruístas. Celibatário é tanto o sacerdote e o religioso que optam por este estilo de vida de modo a melhor se consagrar ao serviço de Deus e da Igreja como a pessoa que não deseja casar-se para não ter responsabilidades com outras pessoas ou para que não seja importunado em seu estilo de vida, bem como as pessoas viúvas que preferem fechar-se a um novo casamento após a morte do cônjuge ou aqueles que não se casam para se dedicar aos cuidados de parentes idosos ou enfermos. O essencial para configuração do celibato é a escolha deliberada por um estilo de vida que exclui o casamento por parte de uma pessoa que, se quisesse, poderia livremente optar pelo casamento (seja lá qual for a finalidade que se almeja com esta exclusão matrimonial).

Continência, por sua vez, é a escolha deliberada por não praticar atos sexuais. A moral cristã exige a continência de todos aqueles que não se encontram casados, pois somente dentro do casamento é moralmente legítimo a prática de atos sexuais. Celibatária ou solteira, toda e qualquer pessoa que não seja casada, seja por opção ou não, é chamada à continência sexual, seja o rapaz que está namorando, a moça solteira, o padre, a freira, o monge, os viúvos etc. Historicamente, a Igreja Latina (a Igreja Católica do Ocidente, que segue o rito romano) também exigia do clero casado tal continência, apesar de serem casados, mas esta peculiar situação será tratada em outro post.

Para distinguir bem o celibato da continência, podemos formular um exemplo: um padre celibatário opta por não se casar e o próprio direito canônico o impede de contrair matrimônio sem a devida dispensa a partir de sua ordenação diaconal. Embora seja celibatário, pode acontecer de este padre nem sempre ser continente, pois pode vir, ocasionalmente, a praticar atos sexuais fora de um matrimônio (hipótese em que, obviamente, peca). Mas veja-se que o pecado não está propriamente na violação do celibato, mas sim da continência – o fato de ele praticar ato sexual com determinada pessoa não quer dizer necessariamente que ele deseje casar-se com ela ou abandonar o estado de vida celibatário. Significa apenas que o clérigo em questão foi incontinente, ou seja, não seguiu a continência sexual que a moral cristã exige de toda e qualquer pessoa não casada (seja clérigo celibatário, religioso ou leigo). A obrigação de manter-se continente, abstendo-se de atos sexuais, abarca a todos os cristão não casados, não somente a clérigos celibatários e religiosos.

Quanto aos casados, podem, por razões várias (razões espirituais, planejamento familiar natural, necessidade de viagem por período longo etc.), abster-se durante certos períodos da prática sexual, por livre decisão do casal. 

Por fim, a castidade é uma virtude por meio da qual a pessoa faz uso de sua faculdade sexual de modo adequado a seu estado de vida. Um cristão não casado (solteiro ou celibatário, não importa) será casto ao exercer a continência, isto é, ao não praticar atos sexuais precisamente por não ser casado, pois o seu estado de vida (não casado) assim o exige. Já a castidade entre casados não pode ser confundida com abstinência sexual. Os casados são castos tanto mantendo a prática sexual retamente ordenada entre si, como optando por abstinências periódicas ou por continência por prazo indeterminado (desde que de comum acordo). São formas distintas de se viver a castidade entre casados, mas jamais se pode dizer que a prática sexual retamente ordenada entre casados seja pecaminosa ou contrária à castidade. Pelo contrário, os casados, quando mantêm relações sexuais normais entre si, são tão castos quanto ao se absterem de sexo, pois a prática sexual é uma das formas adequadas de uso da faculdade ou potência sexual dentro do casamento.

Edward Peters finda sua explicação com uma lapidar conclusão: a Igreja ensina que todos são chamados a observar a castidade própria de seu estado de vida; a continência é exigida de todos os não casados (solteiros ou celibatários); e algumas pessoas solteiras, por motivos louváveis, optarão por não se casar e seguir o estado de vida celibatário, sendo que, em regra, na Igreja Latina (Ocidental), a opção pelo celibato é uma condição para ingresso na vida religiosa ou sacerdotal.

Fonte: http://dircanonico.blogspot.com.br/2015/03/celibato-continencia-e-castidade.html?m=1

Em tempos de promoção encarniçada do empoderamento feminino, da fluidez dos gêneros e da sexualidade e da emancipação pessoal frente às regras “autoritárias” das famílias de matiz conservador (aquelas em que, por incrível que pareça, os pais ainda exigem obediência e castigam quando necessário), é quase escandaloso escrever qualquer coisa sobre um dos homens (sim, um homem e, horror dos horrores, um pai de família e casto!) mais amados do catolicismo (sim, a religião “opressora”): São José, patrono da Igreja Universal e pai adotivo de Jesus.

É escandaloso, mas é também extremamente desafiador, porque o exemplo de São José ajuda a iluminar as incongruências gritantes da contemporaneidade – a ausência de valores que promovam a família, especialmente a heteronormativa (segundo o discurso da ideologia de gênero); o vazio deixado pela falta de sólidos exemplos de masculinidade e paternidade sadias; a defesa de princípios pela insistência e pela gritaria, e não pelo bom-senso – e serve como parâmetro para nós, católicos, nos posicionarmos com firmeza frente a estas questões. O exemplo discreto de José e a sua importância como modelo de santidade e de vinculação a Deus não são, pela força do hábito e da devoção já assimilados na nossa vida cristã, muitas vezes devidamente reverenciados em justa medida. Voltar o olhar para o chefe da Sagrada Família é, hoje, não apenas enriquecedor para a nossa espiritualidade, mas igualmente necessário para a defesa da nossa fé e de nossos princípios morais fundamentais.

O Evangelho de São Mateus nos apresenta São José como sendo o “esposo” de Maria, o “justo”, o qual, sabendo da gravidez de sua prometida e “não querendo denunciá-la publicamente” (já que o filho biologicamente não era seu), resolve “repudiá-la em segredo” (1, 19). Alertado em sonho pelo Anjo do Senhor – “José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois o que nela foi concebido vem do Espírito Santo” (1, 20) –, José “fez como o anjo do Senhor lhe havia mandado e recebeu em sua casa sua esposa” (1, 24). Sobre o qualificativo “justo”, é importante mencionar o que nos diz o Papa Emérito Bento XVI no livro “A Infância de Jesus” (tomando por base a exegese do Salmo 1): “Justo (…) é um homem que vive em intenso contato com a Palavra de Deus (…). A lei [do Senhor] se converte espontaneamente para ele em ‘evangelho’, boa nova, porque a interpreta com atitude de abertura pessoal e cheia de amor a Deus, e assim aprende a compreendê-la e a vivê-la desde dentro”.

São José está disponível para acolher a vontade de Deus em sua vida e a cumpri-la integralmente na sua vida. É justo exatamente porque vive orientado para o alto, porque busca a santidade na obediência e na docilidade à palavra do Pai. Ainda sobre São José (especificamente sobre o fato de o anjo somente lhe aparecer em sonhos), nos fala ainda o Pontífice Emérito: “Isso nos mostra uma vez mais um traço essencial da figura de São José: sua finura para perceber o divino e sua capacidade de discernimento. Somente a uma pessoa intimamente atenta ao divino, dotada de uma peculiar sensibilidade por Deus e seus caminhos, pode-lhe chegar a mensagem de Deus desta maneira”. É homem sensível, pois, às manifestações de Deus, através de uma vida de intimidade com Ele, de pertença a Ele, de vida e de contemplação.

A Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, em 19 de junho de 2013, acrescentou a menção ao nome de São José nas Orações Eucarísticas II, III e IV do Missal Romano, através de um documento em que se lê: “S. José de Nazaré, colocado à frente da Família do Senhor, contribuiu generosamente na missão recebida na graça e, aderindo plenamente ao início dos mistérios da salvação humana, tornou-se modelo exemplar de generosa humildade, que os cristãos têm em grande estima, testemunhando aquela virtude comum, humana e simples, sempre necessária para que os homens sejam bons e fiéis seguidores de Cristo”.

Aqui se revela de maneira inequívoca a missão de todo homem cristão: aderir plenamente aos planos de Deus para sua vida, assumindo a especificidade de sua vocação varonil com integridade e disponibilidade. A fidelidade a Cristo se revela na assunção, por parte de cada homem, da sua missão especial em cada estado de vida (celibato, matrimônio, sacerdócio) com obediência e generosidade à vontade de Deus. A virtude masculina é revelada na dignidade especial de cada varão no cumprimento fiel e solícito de sua vocação particular, a exemplo do agir de José.

A respeito da vocação específica da paternidade, o Papa Francisco é certeiro: “A primeira necessidade é precisamente esta: que o pai esteja presente na família. Que esteja junto da sua mulher, para partilhar tudo, alegrias e dores, trabalhos e esperanças. E que esteja junto dos seus filhos no seu crescimento: quando jogam e quando se empenham, quando estão sem preocupações e quando estão angustiados, quando se exprimem e quando estão taciturnos, quando ousam e quando têm medo, quando fazem um passo errado e quando reencontram o caminho. Pai presente sempre.” (Catequese da Audiência Geral, 04 de fevereiro de 2015).

Num mundo esvaziado de figuras paternas, o exemplo de José é imprescindível, pois nos mostra a necessidade da presença do pai no cotidiano da família, no atendimento eficaz as suas necessidades urgentes e no acolhimento e na educação dos filhos. O feminismo, cuja retórica distorce o papel do homem na sociedade e especialmente no ambiente familiar, exige o protagonismo das mulheres em prejuízo das figuras masculinas, enfraquecendo-as e minimizando a sua influência e a sua importância. Numa sociedade sem pais ou com pais vacilantes e impotentes, a formação dos indivíduos é seriamente prejudicada, quando não anulada. Não há referenciais varonis em que possam se espelhar os homens em processo de amadurecimento e essa carência incide diretamente na formação da sua afetividade e sexualidade. Por esta razão, aparecem e ganham força as ideologias que relativizam o gênero, os papeis sexuais e a importância da família na sociedade, enfraquecendo a identidade dos indivíduos e as suas relações interpessoais.

Na encíclica Redemptoris Custos, o Papa João Paulo II nos ensinava: “São José foi chamado por Deus para servir diretamente a Pessoa e a missão de Jesus, mediante o exercício da sua paternidade: desse modo, precisamente, ele ‘coopera no grande mistério da Redenção, quando chega a plenitude dos tempos’ [S. João Crisóstomo, In Matth. Hom., V, 3: PG 57, 57-58], e é verdadeiramente ‘ministro da salvação’. A sua paternidade expressou-se concretamente ‘em ter feito da sua vida um serviço, um sacrifício, ao mistério da Encarnação e à missão redentora com o mesmo inseparavelmente ligada; em ter usado da autoridade legal, que lhe competia em relação à Sagrada Família, para lhe fazer o dom total de si mesmo, da sua vida e do seu trabalho; e em ter convertido a sua vocação humana para o amor familiar na sobre-humana oblação de si, do seu coração e de todas as capacidades, no amor que empregou ao serviço do Messias germinado na sua casa’ [Paulo VI, Alocução (19 de março de 1966): Insegnamenti, IV (1966), p. 110.]” (n. 8). A paternidade, conforme o exemplo de São José, é serviço ofertado generosamente a Deus como exercício pleno da vocação pessoal do homem como pai de família; é entrega de si para o bem do outro, para a construção da família e para a renovação da sociedade; é vocação dada por Deus como regalo especial para cada homem (também para sacerdotes e celibatários, em sentido espiritual), chamado a vivê-la como dom gratuito e como caminho de santificação.

Na mesma encíclica, o santo pontífice polonês acentuava uma característica muito especial de São José: o silêncio. Diz-nos São João Paulo II: “Também quanto ao trabalho de carpinteiro na casa de Nazaré se estende o mesmo clima de silêncio, que acompanha tudo aquilo que se refere à figura de José. Trata-se, contudo, de um silêncio que desvenda de maneira especial o perfil interior desta figura. Os Evangelhos falam exclusivamente daquilo que José ‘fez’; no entanto, permitem-nos auscultar nas suas ‘ações’, envolvidas pelo silêncio, um clima de profunda contemplação. José estava cotidianamente em contato com o mistério ‘escondido desde todos os séculos’, que ‘estabeleceu a sua morada’ sob o teto da sua casa.” (n. 25). No acolhimento de Maria em sua casa, como sua esposa, e no exercício da paternidade de Jesus, percebe-se na discrição de José um perfil eminentemente interiorizado, voltado para si, como sinal de uma profunda vida interior. O silêncio de José permite identificá-lo como homem de ação e de atitudes simples, de profunda humildade, cujo ser estava ordenado apenas para cumprir a vontade de Deus, com quem mantinha uma reservada e profunda relação filial. José era homem de escuta, não de discursos vazios; era homem de ações efetivas, não apenas de intenções.

São José, por seu exemplo de santidade varonil, convida-nos a ser verdadeiros discípulos de Cristo, com simplicidade e disponibilidade. A sua paternidade espiritual é caminho seguro que nos leva ao Pai celeste, como nos ensina Santa Teresa de Jesus em seu Livro da Vida“Assim, tomei por advogado e senhor o glorioso São José, encomendando-me muito a ele. Vi com clareza que esse pai e senhor meu me salvou, fazendo mais do que eu podia pedir, tanto dessa necessidade como de outras maiores, referentes à honra e à perda da alma. Não me lembro até hoje de ter-lhe suplicado algo que ele não tenha feito. Espantam-me muito os muitos favores que Deus me concedeu através desse bem-aventurado Santo, e os perigos, tanto do corpo como da alma, de que me livrou. Se a outros santos o Senhor parece ter concedido a graça de socorrer numa dada necessidade, a esse Santo glorioso, a minha experiência mostra que Deus permite socorrer em todas, querendo dar a entender, que São José, por ter-Lhe sido submisso na terra, na qualidade de pai adotivo, tem no céu todos os seus pedidos atendidos”. Cada um de nós, especialmente os homens, somos chamados a aprender dele o caminho do serviço desinteressado a Deus, atentos a Sua Palavra e dóceis as suas disposições, e a vida contemplativa, alicerçada no silêncio, no qual o próprio Cristo modela em nós a Sua imagem e semelhança.

Autor: Breno Alves

O corpo não é apenas biológico, mas também teológico, nos ensina São João Paulo II. O corpo conta uma história divina. Deus inscreveu em nossos corpos a vocação de amar como Ele ama. Criou-nos homem e mulher e chamou-nos a tornarmo-nos “uma só carne.”

O corpo é bom

Deus modelou o homem com as próprias mãos (…) e imprimiu na carne modelada sua própria forma, de modo que até o que fosse visível tivesse a forma divina”

CIC § 704

Muitas pessoas estão acostumadas a rejeitar o corpo como se ele fosse mau. Contudo, viver uma vida espiritual nunca significou separar-se do mundo físico.

Muitos sentem-se até desconfortáveis diante do relevo que às vezes se dá ao corpo. O espírito, claro, tem primazia sobre a matéria. No entanto, o Catecismo da Igreja Católica ensina que “sendo o homem um ser ao mesmo tempo corporal e espiritual, exprime e percebe as realidades espirituais através de sinais e de símbolos materiais” (n. 1146).

Deus não nos fez só espírito, mas deu-nos um corpo. E, não só deu-nos um como também Ele próprio assumiu um corpo quando encarnou-Se.

Existe uma heresia chamada maniqueísmo que condena o corpo e todas as coisas sexuais porque acredita que o mundo material é mau.

A Escritura é muito clara ao dizer que tudo o que Deus criou “é bom” (cf Gn 1,32). Tão bom que São João Paulo II fala do corpo como um sacramento. Isso quer dizer que este corpo é um sinal que torna visível o mistério invisível de Deus.

“O corpo, de fato, e só ele é capaz de tornar visível o que é invisível: o espiritual e o divino. Foi criado para transferir para a realidade visível do mundo o mistério oculto desde a eternidade em Deus e assim d’Ele ser sinal.”

São João Paulo II. Teologia do Corpo.

Este corpo não é divino, é claro. Mas ele é o sinal mais potente do mistério divino em toda a criação. Um sinal é algo que nos aponta para uma realidade que está além de si mesmo. Infelizmente, Por causa do pecado o “corpo perde o caráter de sinal”

São João Paulo II. Teologia do Corpo. 40, 4.

A união de Adão e de Eva no Paraíso, antes de o projeto de Deus ser distorcido pela desobediência, logo no início da Bíblia, reflete um outro enlace narrado no último Livro, as núpcias do Cordeiro, o casamento entre Deus e o homem. É interessante notar o desejo de Deus em unir-se à humanidade.

O ser humano foi feito para este casamento último. É por isso que nenhum homem ou mulher encontrará em seu companheiro aqui na Terra o preenchimento do coração, porque somente em Deus será saciado o anseio do coração humano.

Com o pecado original começou a desordem do corpo. Segundo a fé, essa desordem que dolorosamente constatamos não vem da natureza do homem e da mulher, nem da natureza de suas relações, mas do pecado. Tendo sido uma ruptura com Deus, o primeiro pecado tem, como primeira consequência, a ruptura da comunhão original do homem e da mulher.

Suas relações começaram a ser deformadas por acusações recíprocas, sua atração mútua, dom do próprio Criador, transforma-se em relações de dominação e de cobiça; a bela vocação do homem e da mulher para ser fecundos, multiplicar-se e sujeitar a terra é onerada pelas dores de parto e pelo suor do ganha-pão. (1607)

O Cristianismo diviniza o corpo

Pelo contrário, o cristianismo não rejeita o corpo mas o diviniza como podemos ver através das ricas citações a seguir.

“A carne é o eixo da salvação. Cremos em Deus que é o Criador da carne; cremos no Verbo feito carne para redimir a carne; cremos na ressurreição da carne, consumação da criação e da redenção da carne”.

(CIC 1015)

“Pelo fato do Verbo de Deus se ter feito carne, o corpo entrou pela porta principal na teologia.”

São João Paulo II. Teologia do Corpo.

“No corpo de Jesus nós vemos nosso Deus feito visível e então somos tomados de amor pelo Deus que não podemos ver”.

(CIC)

“O traje revela a pessoa”, disse Hamlet. Acentua nossa dignidade de filhos de Deus.

Apesar de ser bom, o corpo não deve ser cultuado e colocado acima do espírito. E, sendo de tão alto valor, o corpo será na ressurreição, glorificado.

Autora: Rayhanne Simon

O corpo antes do pecado original

Usamos roupas. Isso é uma constatação. Mas, será que algo tão normal, ou nem tão normal assim já que atualmente a moda é despir-se, tem alguma finalidade?

Para entender porque nos vestimos é preciso voltar lá atrás, na história da Criação. É necessário entender como era o corpo segundo o plano original de Deus para então captar o que mudou e que forças entraram em cena depois do pecado original.

Compreendendo assim a raiz e a essência desse acontecimento fundamental, seremos capazes de entender a decadência moral em que vivemos e como podemos revertê-la!

No princípio, Deus criou o homem e a mulher. Em Gênesis 2,25 está escrito: Estavam ambos nus mas não sentiam vergonha.” O que significa o fato de não sentirem vergonha de estarem nus? Isto descreve o estado de consciência de ambos; e, mais ainda, a sua recíproca experiência do corpo.

É necessário salientar que se trata de uma verdadeira “não-presença” da vergonha, e não de uma carência (falta de vergonha) ou subdesenvolvimento dela (perspectiva infantil do corpo). As palavras de Gênesis servem para indicar a plenitude de consciência e de compreensão do fato de “estarem nus”.

Aqui estamos tratando da criação do corpo como Deus o pensou e antes do pecado original. Na criação, o corpo, através da própria visibilidade apresenta o homem e, manifestando-o, o faz de intermediário, isto é, faz com que o homem e a mulher, desde o princípio, “comuniquem-se” entre si segundo aquela comunhão pessoal querida pelo Criador.

Diante de toda a criação, Adão não reconheceu nada semelhante e ele. Mas, ao ver a mulher, ficou admirado e reconheceu nela sua semelhante. Ao concluir Sua obra, Deus decide dar ao homem um auxiliar que lhe correspondesse; por isso, conduz a Adão todas as feras selvagens e todas as aves do céu e fá-las desfilar ante seus olhos para ver como ele as chamaria (cf. Gn 2, 18-9). Este trecho da narrativa bíblica já delineia uma peculiaridade muito significativa do modo de ser do varão, a saber: ele se guia sobretudo pela visão. Tendo enfim contemplado toda a criação e dado nomes às feras selvagens, Adão não encontrou entre os animais nenhuma companheira que lhe estivesse à altura. O Senhor então fez cair sobre ele um torpor, tomou “uma de suas costelas e fez crescer carne em seu lugar. Depois da costela que tirara do homem, Deus modelou uma mulher e a trouxe ao homem” (Gn2, 20-1); vendo-a, Adão exclama, admirado: “Esta, sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne! Ela será chamada ‘mulher’ [‘îsha], porque foi tirada do homem [‘îsh]” (Gn 2, 23).

Simples e singela, a admiração de Adão ao ver Eva pela primeira nos dá a conhecer tanto o desejo de Deus para a relação entre eles quanto a dinâmica deste relacionamento antes da queda: há na mulher, como dissemos, uma beleza própria e fundamental que, traduzindo ao seu modo a própria beleza divina, encanta e eleva o homem.

Desta forma, o corpo nu não era um empecilho para a visão do homem ou da mulher, mas sim um meio, um intermédio que apontava, que encaminhava para Deus. Adão e Eva viam através de seus corpos o interior , a ”alma”, um do outro. A nudez original não era simplesmente do corpo, mas expressava também a plenitude interior da “imagem de Deus”.

Deus, segundo as palavras da Sagrada Escritura, penetra na criatura que diante dele está “nua”. Todas as coisas diante Dele estão descobertas. Segundo esta medida o homem está verdadeiramente nu, antes ainda de o reconhecer.

Esta nudez nos mostra que, antes do pecado, homem e mulher não olhavam-se como objetos de desejo, mas sim como sendo um dom de um para outro. Sabiam que, de certa forma, sempre estariam <sós> pois só Deus seria capaz de saciá-los. E, estando cheios de Deus, eram livres e capazes de serem dom de um para o outro.

Estavam nus pois sua visão não era turva. Os olhos contemplavam o mistério da criação. Estavam diante um do outro como estavam diante de Deus.

Dava-se à nudez o significado de bem original da visão divina. Significa toda a simplicidade e plenitude da visão através da qual se manifesta o valor “puro” do homem (criatura), como varão e mulher, o valor puro do corpo e do sexo.

O corpo não conhece ruptura interior nem contraposição entre o que é espiritual e o que é sensível. Ao verem-se, homem e mulher não se enxergam apenas com o próprio sentido da vista, mas vêem-se no sentido de que se conhecem interiormente, intimamente. Antes do pecado original, Adão e Eva gozavam de um dom chamado integridade. Por esse dom, os sentidos e os instintos estavam harmoniosamente submissos à razão. A visão do corpo do outro, mesmo de seus órgãos reprodutores, não era capaz de causar excitação, a menos que a vontade consentisse segundo a reta razão. Por isso, não havia necessidade de se cobrir o corpo.

Este olhar interior indica não somente a visão de um corpo, mas de um corpo que revela um mistério pessoal e espiritual.

O corpo após o pecado original

Alguns versículos depois está escrito: “Então, abriram-se os olhos aos dois e, reconhecendo que estavam nus, prenderam folhas de figueira umas às outras e colocaram-mas como se fossem cinturões.” (Gn 3, 7)

O aparecer da vergonha e, em particular, do pudor sexual está relacionado com a perda da plenitude original a respeito do corpo. Se a vergonha traz consigo uma específica limitação do ver através dos olhos do corpo, isso acontece sobretudo porque a intimidade pessoal é como que perturbada e ameaçada pela visão pós pecado original.

A partir dessas duas citações vemos que houve uma mudança radical no significado da nudez da mulher diante do homem e do homem diante da mulher. O texto segue com a pergunta de Deus: “Quem te deu a conhecer que estás nu? Comeste, porventura, algum dos frutos da árvore que te proibi comer?” (Gn 3,11).

A partir deste momento, começa a haver uma profunda distorção seja no modo como o homem vê o corpo feminino, seja na forma em que a mulher se apresenta aos olhos masculinos. Por isso, o Senhor tece-lhes túnicas de pele para se cobrirem.

Dessa forma, podemos ver que esta mudança de significado diz respeito não ao corpo, mas à consciência, como fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Uma mudança que se refere ao significado do próprio corpo diante do Criador e das criaturas.

O corpo humano, na criação, é, na ordem natural, fonte de fecundidade e de procriação, mas além disso, carrega desde “o princípio” o atributo “esponsal”, isto é, a capacidade de exprimir o amor e, mediante este dom, pratica o sentido do seu ser e existir.

“Nessa altura, aperceberam-se de que o Senhor Deus percorria o jardim pela suavidade do entardecer e o homem e a sua mulher logo se esconderam do Senhor Deus por entre o arvoredo do jardim.” (Gn 3,8)

A necessidade de se esconderem indica que, na experiência da vergonha, surgiu um sentimento de medo diante de Deus. Um medo que não existia antes.

“O Senhor Deus chamou o homem e disse-lhe: “Onde estás ?” Ele respondeu: “Ouvi o ruído dos Teus passos no jardim e, cheio de medo, porque estou nu, escondi-me.” (Gn 3,9-10)

Entra aqui uma tomada de consciência da própria nudez. O homem perde, de alguma maneira, a certeza original da “imagem de Deus” tal como expressa no seu corpo: perde também, em certo modo, o sentido do seu direito a participar da visão divina do mundo e da própria humanidade. Perde então o que lhe dava profunda paz e alegria em viver a verdade e o valor do próprio corpo.

Referências

  • Teologia do Corpo, São João Paulo II
  • Teologia do Corpo para principiantes, Cristopher West
  • Teologia do Corpo, curso do Padre Paulo Ricardo
  • O brilho da castidade, padre Lodi

Fonte : Lírio entre Espinhos

“Onde foram parar todos os homens de bem?”, pergunta a escritora A. J. Kiesling no título do seu livro publicado em 2008. Em contraste com as onipresentes discussões sobre “os privilégios masculinos”, especialmente nos círculos feministas, um olhar sóbrio e honesto para as evidências disponíveis hoje em dia nos sugere que a nossa cultura tem esmagado os homens (e os meninos) simplesmente porque eles são do sexo masculino. Provas convincentes desta afirmação podem ser encontradas tanto em fontes laicas quanto em fontes cristãs.

A  crítica social Karen Straughan deu uma chamativa palestra durante o encontro “A Voice for Men” [“Uma Voz para os Homens”], realizada em Detroit, nos Estados Unidos. Ela alertou sobre as mudanças na legislação e no mundo acadêmico que prejudicam os homens e, por conseguinte, também prejudicam as mulheres. Em seu blog “Girl Writes What”, ela fala sobre as mudanças culturais que levaram os homens, aparentemente, a se desinteressar do casamento. Ela vai mais longe e afirma que muitas formas de feminismo não desejam a igualdade, mas a destruição dos homens.

O popular filósofo Stefan Molyneux, na FreeDomainRadio, tem abordado questões semelhantes. Ele faz contundentes críticas à misandria comumente encontrada em várias formas de feminismo. Ele também apresenta análises e comentários bem fundamentados sobre as forças jurídicas, acadêmicas, econômicas e sociais que estão organizadas contra a dignidade e o desenvolvimento pleno dos homens. A lista dos seus vídeos pode ser encontrada aqui.

A escritora Christina Hoff Sommers, que se tornou conhecida em 1995 pelo seu livro “Who Stole Feminism? How Women Have Betrayed Women” [“Quem roubou o feminismo? Como as mulheres traíram as mulheres”], fez soar o alarme em nome dos homens em 2013 com seu novo livro “The War Against Boys: How Misguided Policies Are Harming Our Young Men” [“A guerra contra os meninos: como as políticas erradas estão causando danos aos nossos jovens homens”]. Em ambos os livros, ela documenta uma sério de exemplos para denunciar que os defensores mais agressivos da “igualdade de gênero” pouco fizeram de bom e muito de ruim, tanto contra os homens quanto contra as mulheres.

No âmbito cristão, Michael S. Rose mexeu com um ninho de vespas em 2002 ao publicar “Goodbye: Good Men” [“Adeus, Homens de Bem”]. O subtítulo do livro explica a tese do autor: “Como os seminários católicos afastaram do sacerdócio duas gerações de vocações”. Ele afirma que os homens fortes foram expulsos ou afastados dos seminários precisamente porque eram homens fortes.

Outro crítico ferrenho do espírito antimasculino dentro da Igreja católica é Michael Voris, da ChurchMilitant.TV. É fato que muita gente não gosta do tom de Voris e da sua aparente “fúria quase constante”, mas ele está fazendo bem o seu dever de casa. O grupo que ele coordena é bastante cuidadoso nas suas pesquisas e no uso das fontes, como podemos ver nos DVDs e CDs disponíveis em seu site. Voris produziu uma série de vídeos que estão disponíveis no YouTube a respeito da crise da masculinidade dentro da Igreja. Alguns dos mais recentes podem ser vistos aqui aqui.

No livro “Why Men Hate Going to Church” [“Por que os homens odeiam ir à igreja”], lançado em 2011, o autor protestante David Murrow apresenta não apenas as suas críticas à atual prática protestante, mas também algumas tentativas de solução. Ele é o fundador da “Church for Men” [“Igreja para Homens”], que se propõe a missão de oferecer ministérios específicos para a natureza e as necessidades próprias dos homens. Há em seu site um questionário on-line (em inglês) sobre “Até que ponto a sua igreja é amigável com os homens?“. As perguntas bem valem uma olhada também dos católicos.

Todas estas fontes argumentam, de diversas maneiras, que os homens e as mulheres sofrem muito quando a cultura se posiciona contra o pleno desenvolvimento dos homens como homens. O carisma masculino envolve a capacidade de assumir riscos, a inovação, o sacrifício, a liderança, a luta e a coragem, e quando esse carisma é denegrido, todo o mundo sofre.

Os meninos se recusam ou são tornados quase incapazes de se transformar em homens, ou, com grande frequência, os homens ouvem dizer que a sua masculinidade não é bem-vinda (por exemplo, os homens ouvem dizer, cada vez mais frequentemente, que eles são, quase por definição, “defensores da cultura do estupro” ou que “todo homem é um estuprador em potencial”, embora não haja evidência alguma que corrobore a desonesta ideia de que todos ou quase todos os homens tenham a iminente e dramática tendência a maltratar, agredir ou violentar mulheres pelo simples fato de serem homens. Da mesma forma, por mais que todas as pessoas “sejam assassinas em potencial” pelo simples fato de terem mãos, é evidente que essa ideia genérica é bem diferente da afirmação desonesta e sem fundamento de que todas as pessoas estão sempre a um curto passo de assassinar de fato alguém).

Além disso, os homens adultos são desencorajados a se tornar maridos e pais (tanto biológicos quanto espirituais). As consequências sociais dessa “expulsão” da autêntica masculinidade são catastróficas tanto para a sociedade quanto para a Igreja.

Mas este problema não é novo! Os custos universais e insustentáveis de não se cultivar o homem de acordo com a sua natureza concebida por Deus já era assunto há mais de um século nas seguintes palavras que o cardeal Louis Pie pronunciou em sua homilia de Natal em 1871:

“A nossa não é, por acaso, uma época de vidas mal vividas e de homens diminuídos em sua masculinidade? E por quê? Porque Jesus Cristo desapareceu! Onde as pessoas são verdadeiramente cristãs, podem-se encontrar homens em grande número, mas, em todo lugar e época de cristianismo murcho, os homens também murcham. Olhem de perto: eles não são mais homens, e sim sombras de homens. O que vocês ouvem em todo lado hoje em dia? Que o mundo está definhando por falta de homens; que as nações perecem por escassez de homens, pela raridade dos homens. Eu acredito: não há homens onde não há caráter; não há caráter onde não há princípios, doutrinas, posições firmes; não há posições firmes, nem doutrinas, nem princípios onde não há fé religiosa e, consequentemente, nem religião na sociedade. Façam o que quiserem, mas só de Deus é que vêm os homens”.

O problema social e cultural da desmasculinização dos homens é, em última análise, um problema espiritual. As raízes do problema são diabólicas. Satanás odeia a Deus e a criação. Ele odeia o que Deus criou. Ele odeia a espécie humana criada à imagem e semelhança de Deus. Ele se enfurece contra a dignidade incomparável conferida à natureza humana pela encarnação de Cristo, uma dignidade que os pagãos não podiam imaginar e que os nossos contemporâneos não conseguem compreender. Odiar o que é autenticamente humano é odiar a Deus e o Seu Cristo. Não é de estranhar, portanto, que Satanás conspire contra os homens como homens e contra as mulheres como mulheres.

Precisamos de homens de verdade, de homens de Deus. O que vemos ao nosso redor é uma geração não de homens, mas de meros “meninos de barba”, de homens que não estão dispostos a assumir a cruz de ser homens de verdade, de ser homens que se sacrificam, de ser homens que assumem a liderança e que provêm os recursos àqueles a quem protegem.

Sofremos a falta de homens dispostos a assumir a responsabilidade pelos filhos que geram, pelas mulheres que os amam ou pelas liberdades civis de que eles mesmos gozam. Estamos rodeados de incontáveis “Peter Pan”, de meninos que se recusam a tornar-se homens. Não que o problema todo seja este, mas esses “Peter Pan” que vivem debaixo da comodidade do teto dos pais, queimando um dia depois do outro do mesmo jeito que queimam seus cigarros de maconha, consumindo torrentes de pornografia e exigindo caronas grátis na cidade e na vida, não estão prontos, evidentemente, para fazer parte da solução. E nós, como sociedade, temos visto lembretes frequentes de que esses superficiais e egoístas “Peter Pan” têm um lado muito obscuro, que, de uma hora para a outra, pode explodir em fúria egoísta e assassina.

O que fazer?

Em primeiro lugar, é preciso admitir que existe um problema. Satanás está travando uma guerra contra os homens como homens, e várias forças laicas, conscientemente ou não, estão ajudando nessa guerra contra os homens.

O segundo passo é admitir que os problemas espirituais exigem remédios espirituais, o que nos pede levar a sério as palavras do cardeal Pie: “Façam o que quiserem, mas só de Deus é que vêm os homens”. Em outras palavras: o arrependimento, a reparação, a intercessão e a obediência são necessárias, de nossa parte, para que a natureza dos homens fique mais claramente disponível para receber a graça de Deus.

Em terceiro lugar, temos de encontrar aliados e recursos nesta batalha pela alma e pela vocação masculina. Ninguém pode se dar ao luxo de ficar apenas olhando.

Pe. Robert McTeigue