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Projeções de Fé

Como eu era antes de você

ComoEuEraAntesdeVoceSinopse: Rico e bem sucedido, Will (Sam Claflin) leva uma vida repleta de conquistas, viagens e esportes radicais até ser atingido por uma moto, ao atravessar a rua em um dia chuvoso. O acidente o torna tetraplégico, obrigando-o a permanecer em uma cadeira de rodas. A situação o torna depressivo e extremamente cínico, para a preocupação de seus pais (Janet McTeer e Charles Dance). É neste contexto que Louisa Clark (Emilia Clarke) é contratada para cuidar de Will. De origem modesta, com dificuldades financeiras e sem grandes aspirações na vida, ela faz o possível para melhorar o estado de espírito de Will e, aos poucos, acaba se envolvendo com ele.

ATENÇÃO! CONTÉM SPOILERS

Eu não conheço você, mas posso afirmar que você enfrenta problemas. Muitos ou poucos. Grandes ou pequenos. Mas problemas. Todos precisamos lutar para superar adversidades em nossas vidas. Faz parte sofrer, afinal, não existe Ressurreição sem Cruz, e não existe Cruz que não leve à Ressurreição. Pois bem, mas se você ainda não assistiu ao filme e quer “manter a surpresa” do final, melhor parar de ler. Não é questão de spoiler, pois não queremos aqui analisá-lo de forma superficial a ponto de não poder contar o seu desfecho.

O longa trata abertamente da eutanásia, também chamado de suicídio assistido. E o que queremos pôr em cheque aqui é: o que leva uma pessoa a escolher a morte? A entender que nada mais vale a pena? Will tinha tudo que um jovem do mundo gostaria de ter: dinheiro, mulheres, viagens, aventuras etc, até que de repente tudo mudou. Por ele ser tão feliz com a vida que tinha, nunca aceitou sua nova condição de tetraplégico e o fato de não mais poder fazer o que lhe trazia alegria. Will nunca assumiu sua nova condição nem seus novos problemas (pois mesmo antes do acidente ele os deveria ter). O pensamento de Will reflete justamente o que prega a sociedade atual: uma vida em que o prazer e o bem estar do indivíduo estão acima de qualquer coisa. Ninguém merece viver uma vida sofrida e qualquer solução é válida para eliminar a dor. Será?

Você pode pensar que o filme tem justamente a intenção de mostrar a eutanásia de forma negativa, uma vez que todos discordam a opção do personagem e fazem de tudo para ele mudar de ideia, mas a diretora do longa, Thea Sharrock, afirmou em entrevista que o tema é polêmico, mas muito corajoso. “É uma história fictícia sobre o quão importante é o direito de escolha. A mensagem do filme é viver com ousadia e superar limites.” Ou seja, a cineasta deixa claro que o objetivo não é a luta pela vida, e sim dizer ao mundo que é possível uma pessoa decidir pela morte depois que já ‘viveu o que tinha pra viver’. É como se ela dissesse que é preciso viver intensamente o hoje e se amanhã você não encontrar mais um sentido nisso, pode simplesmente recorrer à eutanásia.

Como cristãos, cremos que Jesus Cristo veio para nos dar a vida em abundância (Jo 10, 10) e Ele próprio mostrou que as aflições eram em vista de algo maior. Na Encíclica “Evangelium Vitae” (Evangelho da Vida) o Papa João Paulo II ensina que a eutanásia “é um ato gravemente imoral, porque comporta a recusa do amor por si mesmo e a renúncia aos deveres de justiça e caridade para com o próximo, com as várias comunidades de que se faz parte, e com a sociedade no seu conjunto”. O quão egoísta pode ser a decisão de encerrar sua vida sem levar em conta o sofrimento que estará causando aos seus entes queridos. É ignorar o que ainda pode ser vivido e principalmente desprezar o amor e a compaixão das pessoas que nos amam. E no filme é triste ver o quanto Louisa tenta fazer Will mudar de ideia para, ao final, perceber que não há esperança, que o amor não foi o suficiente.

Francesco Clark, autor de Walking Papers, livro que conta sua vida depois de um acidente que o deixou tetraplégico, teve sua obra citada no filme e confessou que ficou com raiva “por ter sido involuntariamente associado a um enredo que sugere que a única opção para vítimas de traumatismos e lesões é a morte”. E ainda completou: “Nunca perguntaram se meu livro poderia ser incluído, muito menos avisaram que seria citado. Compreendo que o filme é baseado em um trabalho ficcional, mas o meu livro – e a minha vida – não são. Trabalhei duro para mostrar às pessoas que ser tetraplégico não é o fim da vida. É apenas o começo”, afirmou ele.

Dizia Santo Agostinho que “nunca é lícito matar o outro: ainda que ele o quisesse, mesmo se ele o pedisse, porque, suspenso entre a vida e a morte, suplica ser ajudado a libertar a alma que luta contra os laços do corpo e deseja desprender-se; nem é lícito sequer quando o doente já não estivesse em condições de sobreviver”. O que Hollywood faz é maquiar este hediondo crime contra a dignidade humana ao levar o espectador a pensar “mas ele realmente sofria, era melhor que morresse logo mesmo” ou “quem sou eu para julgar a sua escolha diante da dor?”. Isso é muito perigoso, quantas pessoas sem sentido de vida poderão sair de uma sessão de cinema dispostas a morrer também? E a sociedade vai achar normal, que está tudo bem desde que seja escolha dela. Mas é como diz a música de Ana Gabriela, “é melhor ser livre para aprender a sofrer do que viver como escravo do próprio querer”. Ora, a nossa vida não é nossa, não devemos viver para nós e sim para o outro, para Deus que está no outro. E existem coisas que não nos cabe decidir.

Há ainda muitas questões que poderiam ser trazidas à tona em relação à eutanásia, mas vamos voltar ao filme. A produção é excelente, tem bons nomes no elenco, fotografia e locações de tirar o fôlego e uma história que tinha tudo para ter um final feliz, se não fosse interrompida precocemente pelo egoísmo de uma das partes. Que “Como eu era antes de você” nos faça repensar em como escolhemos viver e não sobreviver. Diferentemente de Will, escolhamos amar e deixar sermos amados, porque o amor não só vale a pena, vale a vida, a nossa vida!

PESSIMO

Ficha técnica:

Gênero: Drama.
Direção: Thea Sharrock.
Roteiro: Jojo Moyes.
Elenco: Ben Lloyd-Hughes, Brendan Coyle, Charles Dance, Emilia Clarke, Janet McTeer, Jenna Coleman, Matthew Lewis, Sam Claflin, Stephen Peacocke, Vanessa Kirby
Produção: Alison Owen.
Trilha Sonora: Craig Armstrong.
Duração: 110 min.
Ano: 2016.
País: Estados Unidos.
Estreia: 16/06/2016 (Brasil).
Distribuidora: Warner Bros.
Estúdio: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) / New Line Cinema.
Classificação: 12 anos.

Trailer

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Comentários

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  1. Exatamente. Concordo em tudo que colocaram aqui.
    Li o livro em 3 dias. Achei lindo e é lindo, menos o final. Não concordo com o fim do livro/filme. Não concordo com a eutanásia e nem com o pensamento do personagem de que não valia a pena viver, nem mesmo pelo amor de Clark. Odiei isso. Com toda a luta que ela e a família dele tiveram pra tentar mudar a ideia dele, mesmo com os depoimentos de outros tetraplégicos que viviam bem suas vidas, ele preferiu a morte. E engraçado, que (SPOILER) se ele tivesse mudado de idéia, iria conhecer sua filha e talvez isso daria mais vontade ainda de viver, por ela, ajudando ela em seus problemas.
    É somente minha opinião. Eu, que sou convicta em minha fé, nos preceitos da minha igreja, Católica, não mudo minha forma de pensar por causa desse final (horrível), ou assistindo o filme. Mas reconheço que há muitas pessoas, que se deixam levar pelas influencias do mundo, pelo ‘normal’ do mundo de hoje e que poderiam sim se influenciar pelo pensamento da eutanásia, pela cultura de morte.
    Meu parecer (ontem, hoje e sempre): livro lindo, menos o final.

    1. Tamires, acredito que você não conhece o site, pois se conhece e tivesse lido textos anteriores, veria que não dizemos que “apenas filmes de santos prestam”. Recomendo buscar na classificações de “Esse é excelente” e “Esse é bom” para ver quais filmes que entendemos ser altamente recomendados.

      1. Conheço perfeitamemte o site, vcs querem sempre dizer o que assistir, o que ouvir. Estas são apenas as suas impressões. Aliás, conheço muito bem a comunidade como um todo.

  2. Não da pra dizer o que deve e o que não deve ser assistido. Penso que até para termos uma opnião formada, devemos sim assistir para falarmos com conhecimento de causa.. um exemplo é: amei o filme, porem não aprovo a eutanasia e ache sim o cara egoista mesmo.. porem gente so lembrando que a historia se trata dela… e ele foi só um detalhe.. infelizmente a gente tem pessoas assim que vive o mundo a tal modo que acredita que somente com a morte podera resolver suas dores… e eu só consegui chegar a essa linha, uma vez que assisti…

    1. Marisleide, a proposta do site é apresentar os riscos e valores de cada filme de acordo com a doutrina católica. Como qualquer site que faz críticas de cinema, indicamos se o filme é bom ou não (dentro da nossa proposta), mas não há dúvida que cabe a cada um decidir se deve assistir ou não. Acreditamos que é possível se aprender com a experiência dos outros também.

  3. Parabéns à crítica perfeita ao filme. Assisti e é exatamente o que penso também. É muito bom ter um blog de crítica cristã aos filmes. Parabéns pelo excelente trabalho! Deus abençoe.

  4. Um dos meus primeiros trabalhos na faculdade foi sobre morte, escolhi falar de eutanásia e usei o filme “Menina de ouro” como exemplo, na época usei a frase “enquanto há vida, há esperança”, foi um sucesso e eu de fato pensava assim. Três anos depois perdi minha melhor amiga por uma doença ingrata conhecida como “distrofia muscular crônica” e passei a discordar de Santo Agostinho. Ninguém pode sentir a dor e o sofrimento de ninguém, manter alguém assim é tortura, é maldade, é simplesmente religião.

    ‪#‎minhaopinião‬

    1. Flávia, a compaixão nos faz muitas vezes ver o sofrimento do outro e ao mesmo tempo sofrer com ele, e muitas vezes queremos ajudar a acabar com este sofrimento o mais rápido possível. No entanto, como muito bem nos lembra os últimos Papas, a eutanásia (ou até o suicídio assistido) é uma falsa solução para o sofrimento, uma solução indigna para o homem.

      O sentido e valor da vida deve ser defendido sempre, e aí vem o maior desafio, que é aceitar a dor e o sofrimento como um plano maior de Deus. Nosso dever é auxiliar a quem sofre a ver este sentido e passar por este período com o amor que se faz necessário.

      Vale conhecer a posição da Igreja neste documento – http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19800505_euthanasia_po.html

  5. Estava bem interessada em assistir, filmes românticos são meus preferidos, mas como procurei saber mais sobre o livro e sobre a decisão da eutanásia pelo personagem principal, decidi que não assistiria. Não é esse amor que Jesus prega!!! Muito boa a análise shalom!!! Paz e bem pra vcs shalom!!!!

  6. Assisti o filme com minha filha de 17 anos e ficamos com muita raiva do final do filme por todos os motivos que já foram colocados aqui. Até 99% do filme eu já estava pensando em assisti lo muitas vezes seria meu filme preferido de agora em diante. Mas no 1% final do filme fiquei com muita raiva e nunca mais quero assisti lo. A autora perdeu a oportunidade de ter feito o melhor filme dos últimos tempos. Mas errou feio!

  7. Muito bom a crítica do filme, bem como de todos os que são feitos! Agradeço ao blog por nos ajudar e nos orientar acerca da escolha do filme. Assisti ao Filme citado, e concordo plenamente com a crítica.

  8. Faço enfermagem, e até então era contra a eutanásia, mas quando estudei a fundo a questão ética por trás do assunto percebi que a pessoa só recorre a esse método (ou a família, no caso dos pacientes em coma) quando realmente estão prontos para partir, afinal ele não vivia mas sobrevivia para agradar aos pais… certo que ao pensar desse modo se torna egoísta mas sabemos que devemos prezar pela qualidade de vida do paciente até o seu último suspiro bem como respeitar as vontades tanto dele quanto da família, creio que isso não é um mal a ele, mas sim uma forma de descanso pois ele sofreu muito fisicamente, mentalmente, psicologicamente e socialmente… Cada um com sua opinião, e mesmo que eu pensasse o contrário, profissionalmente eu devo agir com ética e com empatia… talvez isso seja um paradigma, um tabu a ser rompido, talvez não…

  9. Esse filme abre um leque muito interessante para discussões…Especialmente para nossa cultura que traz de forma tão gritante essa coisa da força, de não mostrar a fragilidade, de querer carregar a tudo e a todos nos ombros, de não aceitar ajuda…
    Quantos hoje sofrem por causa do orgulho, pq acham que suas dores são um fardo para os outros e que são obrigados a carregar o sofrimento sozinhos…As vezes a gente coloca como prioridade amar ao outro (o que não é errado) mas esquecemos de aceitar o amor do outro também, sem culpa, sem constrangimento..
    Muito boa a análise…Depois que se assiste o filme, fica aquela sensação de querer viver intensamente, mas por outro lado, lendo a resenha, pude refletir melhor..pois não adianta viver intensamente, mas inconsequentemente, ou sem colocar um sentido na vida…ou sem ter tido uma experiencia com Jesus Cristo que rege todas as coisas..
    Parabéns pelo blog!
    Deus abençoe

    1. Fabiana, também tive a mesma sensação quando assisti ao filme. A “glaumorização” da morte me impediu de ver as verdadeiras intenções que a escolha de Will significa. Depois percebi que essa personagem mostra bem o perfil do homem contemporâneo: vaidoso, orgulho e hedonista. Essa história de dizer que a escolha é somente nossa e de mais ninguém só expõe o egoísmo que impera na sociedade. Em nenhum momento, Will pensou na dor que causaria aos pais e ao amor verdadeiro que ele encontrou. Tem um momento do filme, e também do livro, que ele admite que poderia ter um boa vida com Lou, mas que não seria a vida que ele tinha antes, pois amava sua antiga vida. Ou seja, mesmo sabendo que poderia ser feliz, caso decidisse abandonar o suicídio assistido, a vaidade de Will só consegue enxergar na sua nova realidade, uma vida com “v” minúsculo. Muito triste. Um filme que tinha tudo para ser maravilhoso. E eu gostei muito dele, até que no último minuto do segundo tempo veio a decepção. Confesso que fiquei boquiaberta, pois não tinha lido o livro e não esperava por aquele desfecho horrível.

  10. Filme ótimo..questão de escolhas de cada um .a vida é de cada um, em particular, como vivo , como deixo de viver, ou até se tenho escolhas de como morrer. Opinião do outro é do outro e só…a caminhada terrena é somente sua e de mais ninguém…