CinderellaA nova versão de Cinderela, da Disney, é um belo exemplo de que o nosso mundo está mesmo é precisando de “bons clichês”. Sim, existem clichês bons, pois não raro por trás deles se escondem valores muitas vezes esquecidos pela sociedade. As pessoas de bem deveriam acostumar-se a epítetos negativos em relação aos próprios valores. Por isso, expressões como “tenha coragem e seja gentil” (have courage and be kind) serão consideradas para os superficiais como meros clichês propagados por uma história medieval e conservadora, mas para as mentes mais aguçadas, eles têm muito a ensinar.

Infelizmente, na medida em que vão sendo empregadas, algumas palavras vão perdendo sua força originária. Ser gentil hoje em dia é sinônimo de ser educado, polido. A versão live-action do conto de fadas vem dar uma aula para as crianças (e também para os adultos!) do que significa ser gentil de fato. Mais que isso, apresenta a gentileza como uma virtude encarnada na figura de uma serva sofredora.

Eis aí um gancho interessante: percebem um fundo cristão nesse papel? Num primeiro momento, poderíamos associar a figura de Ella a Jesus Cristo. Afinal, em sua vida terrena, deu diversos exemplos de verdadeira gentileza para com aqueles que mais necessitavam: a samaritana (com a qual era legalmente proibido falar), a pecadora arrependida, Lázaro e seus parentes, o filho do Centurião, os cegos e coxos que o buscavam, etc. Toda a vida de Jesus foi um retrato dessa virtude que vai além da polidez formal: é delicadeza que brota do amor ao ser humano. Os Padres da Igreja (Era Patrística), por outro lado, associam a figura do cordeiro levado ao matadouro (que não grita ao ser morto) a Jesus Cristo. É bem assim que “Cinderella” passa metade da conhecida história: suportando os desmandos da perversa família, sem reclamar de absolutamente nada.

Poderíamos arriscar, no entanto, diversas interpretações para a alegoria da Gata Borralheira. Outra que ainda salta aos olhos é a que associa a figura da Cinderela à da Igreja. Cinderela, como a Igreja, sofre sem reclamar, é indiferente aos poderes deste mundo, preocupa-se com o bem de todos e quando, por fim, encontra o verdadeiro amor de sua vida, já não há nada mais tão importante. O príncipe seria o próprio Jesus Cristo que desposa aquela a quem promete um esperado “felizes para sempre” depois de tanto sofrimento.

Muitos podem questionar a inserção de elementos místicos e esotéricos como a referência às fadas ou à magia. Porém, especialmente para quem busca uma religiosidade mais ortodoxa, é preciso levar em conta a linguagem metafórica dos grandes clássicos da cristandade. Nada mais inconsistente que pregar por meio do óbvio. É isso que fazem, para o bem ou para o mal, os maiores gênios da humanidade: suas obras tornaram-se meios para poderem dizer o que não poderiam ou não quiseram dizer explicitamente.

Por fim, voltando a tratar de clichês, devemos considerar que falar de Jesus é, na verdade, o grande “clichê” das religiões. Por ser um clichê, vamos nos negar a pregar o que chamamos de valor? Talvez esse seja o maior questionamento que Cinderela propõe para os dias de hoje. Ser contracorrente, defender valores que aparentemente ninguém mais defende, é apenas clichê ou é a sociedade que deveria pensar mais nas categorias que emprega às coisas?

Ficha Técnica:

Gênero: Aventura
Direção: Kenneth Branagh
Roteiro: Aline Brosh McKenna, Chris Weitz
Elenco: Alex Marek, Alexander Gillison, Andrew Fitch, Ann Hoang, Ant Henson, Arielle Campbell, Barrie Martin, Ben Chaplin, Bhanu Alley, Bronwyn Pearson, Cate Blanchett, Charlotte Worwood, Craig Mather, Derek Jacobi, Dolapo Umar, Drew Sheridan-Wheeler, Edward Lewis French, Elina Alminas, Elliott Wright, Eloise Webb, Finesse Fonseka, Francesca Bennett, Gareth Mason, Georgie-May Tearle, Gino Picciano, Hayley Atwell, Helena Bonham Carter, Henry McCook, Holliday Grainger, James Butcher, Janet Dawe, Jd Roth-round, João Costa Menezes, Joe Kennard, John W.G. Harley, Joshua McGuire, Julian Seager, Laurent Plancel, Laurie Calvert, Leila Wong, Lily James, Matthew Steer, Melissa Galloway, Michael Jenn, Monique Geraghty, Nonso Anozie, Peter Stacey, Phoenix James, Rachael Hyde, Rajesh Kalhan, Richard Madden, Riley Halden, Rob Brydon, Sayed Kassem, Scherrikar Bell, Sophie McShera, Stellan Skarsgard, Tom Swacha, Zizi Strallen
Produção: Allison Shearmur, David Barron, Simon Kinberg
Duração: 112 min.
Ano: 2015
País: Estados Unidos
Estreia: 26/03/2015 (Brasil)
Distribuidora: Walt Disney Pictures
Estúdio: Walt Disney Studios Motion Pictures USA
Classificação: Livre

Trailer: