Rapadura Espiritual

Francisco e João Batista: um e outro anunciadores de Cristo

Oi Filoteu!

Já faz tempo que não escrevo, mas vamos lá! Recomeçar é preciso como também é bom tentar e é preciso insistir. Não desanimar é fundamental.

Neste advento, uma figura pobre, simples e apagada, aliás, duas, emergem cheias de Deus. E, por isso mesmo, tão irresistíveis e tão cheias de unção, autoridade e luz. Nada nelas tem de atraente nas aparências, mas Deus está nelas, com elas e por elas manifesta seu poder, revela sua palavra e faz acontecer a sua revelação carregada de salvação.

São João Batista IIIApareceu João, o Batista, pregando no deserto da Judeia e dizendo: “Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus” (Mt 3, 1-2). O deserto é lugar privilegiado para o encontro com Deus. De fato, diz o profeta Isaías: “Preparai no deserto o caminho do Senhor, aplainai na solidão a estrada de nosso Deus” (Is 40, 3). Solidão e deserto nos falam de silêncio e vazio. No silêncio a alma escuta e no vazio acolhe a Presença. Esvaziar-se e calar-se são segredos poderosos e infelizmente a agitação barulhenta do cotidiano estão a esvaziar e deixar cair no esquecimento estas ferramentas. Parece impossível parar, parece um desperdício não produzir e mostrar resultados. Até mesmo no tempo livre, as ocupações mergulham as pessoas no fechar-se em si ou buscar os outros com finalidades bastante precisas de utilidade e gratificação. Falta a gratuidade! Não há tempo pois o aqui, o agora de alguma forma fazem emergir a urgência de ser feliz no que passa, no barulho, na agitação, nas aparências, no espetáculo, na aquisição, no uso e abuso de bens, pessoas, talentos e oportunidades. Passou-se a não se conhecer, nem entrar na profundidade das coisas. A superficialidade parece imperar e o relativismo impôs sua ditadura! E assim, de vazio em vazio o niilismo com seus tentáculos arrasadores e de alto poder corrosivo faz a vida tornar-se uma grande náusea (como dizia Sartre) ou um absurdo. O nada! Que pobreza, ou melhor, que miséria é esta? Nada? A falta de sentido assinala o óbito sinistro de tantas pessoas que se perderam ou se afundam nesta tétrica desconstrução-destruição fatal!

quaresma VI
Em resposta a tão dramático estado, a palavra do profeta ecoa como uma tábua de salvação, um sinal de esperança: “Consolai o meu povo, consolai-o! – diz o vosso Deus. Falai ao coração de Jerusalém e dizei em alta voz que sua servidão acabou” (Is 40, 1-2). E o grande consolo que acompanha a libertação com certeza é o arrependimento e o acolhimento do Reino de Deus. Arrepender-se não para afundar em complexos de culpa ou de inferioridade (a triste síndrome de sentir “o micróbio do cocô do cavalo do bandido”). Arrepender-se para entender que é preciso retomar a rota do caminho certo, do caminho da vida e da salvação. Não é caminho de facilidades e realizações gratificantes. Trata-se de um itinerário exigente, rigoroso, que não permite meias medidas nem que se compactue com a mediocridade. Entretanto é, sem dúvida caminho de libertação e de felicidade genuína.

Jesus crucificado e São FranciscoPois bem, filoteu, eu te digo com o profeta, “a glória do Senhor se manifestará, e todos os homens verão juntamente o que a boca do Senhor falou” (Is 40, 5). Essa promessa se cumpre tal e qual na gruta de Belém. Os pastores não foram ouvir a Palavra, mas ver a Palavra, pois “a Palavra se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14). Em Cristo a glória de Deus se manifesta, na pobreza da gruta, na simplicidade e pequenez da criança. Os gigantismos humanos caem por terra e a lembrança que a criatura humana é feno (cf. Is 40, 7) nos faz lembrar este estado de precariedade e nossa condição de peregrinos. Aqui me volto para estes dois personagens que iluminam e direcionam esta reflexão. João Batista e Francisco de Assis. Tudo a ver! Olhar para João Batista, queimado do sol do deserto, com aquela roupa áspera e pobre de pele de camelo, com aquela alimentação frugal de mel de campo e gafanhotos, olhar para Francisco com seu humilde burel, isso nos remete a pessoas que, na contramão da sociedade do espetáculo: o que é bom aparece e se aparece é porque é bom. Ora, os dois não queriam aparecer, mas se portavam como portadores de uma mensagem, eram anunciadores de uma Pessoa-Palavra: Cristo Jesus. E isso era tão evidente que se punham os dois naquela postura de quem não quer outra coisa senão que resplandeça a salvação presente e atuante na Pessoa do Verbo de Deus encarnado.

Neste sentido, entenderam a lógica da pequenez. João se afirmou como a voz.

Porque este é o anunciado pelo profeta Isaías, que disse:Voz do que clama no deserto:Preparai o caminho do Senhor,Endireitai as suas veredas (Mt 3,3 // Is 40,3). 

Jesus abençoando HoffmanSó Cristo é a Palavra, mas João é a voz. Francisco também se portou como a voz e deixou Cristo resplandecer de modo que até mesmo nas marcas das chagas do Senhor em seu corpo estigmatizado vê-se que não era mais o pobre frade, mas o Salvador quem vivia nele: “Já não sou eu que vivo, mas Cristo vive em mim” (Gl 2, 20); “Para mim viver é Cristo” (Flp 1, 21). Tanto um quanto o outro tinha forte esse senso da própria pobreza, do nada total existencial e essencial: tudo foi dado, tudo éra graça, tudo é gratuito. João não é digno de carregar as sandálias do Senhor (cf. Mt 3, 11) e Francisco era apenas o irmão menor. Ele não se sentia dono de nada, de ninguém: apenas um pobre frade amado por Deus e desejoso de viver a verdade profunda feita pergunta: “Quem és tu Senhor e quem sou eu?”

Fica a dica….

Abraço para ti Filoteu!


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