É inegável que as ciências médicas e biológicas prestam um grande serviço à humanidade e precisam ser apoiadas em seu desenvolvimento. Mas o progresso científico jamais pode ser um fim em si mesmo. É preciso lembrar que o fim último da ciência é o homem, cada homem e o homem inteiro.

 

 

A vida humana deve ser respeitada desde sua concepção até seu fim natural. Para que o progresso científico não seja uma ameaça à vida humana, mas sempre um meio de servi-la, os princípios morais não foram suficientes nas diversas culturas e sociedades diante dos conflitos médicos e nos diversos campos da ciência. Para isso, surgiu a Bioética, uma área de conhecimento que visa amparar e proteger a vida humana frente ao necessário progresso científico, médico, biológico ou biomédico que vemos nos tempos atuais.

O progresso técnico deve ser controlado e acompanhar a consciência da humanidade sobre os efeitos que eles podem ter no mundo e na sociedade para que as novas descobertas e suas aplicações não fiquem sujeitas a todo tipo de interesse.

Portanto, diante de conflitos éticos que colocam em risco a vida humana, a bioética serve como um luzeiro que ilumina a consciência dos diversos profissionais para que nunca se esqueçam quem está a serviço de quem, ou seja, não é a vida humana que está a serviço da ciência, mas a ciência que está a serviço da vida.

 

Por Renato Varges

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O bispo auxiliar da diocese siro-malabar de Palai (Índia), Dom Jacob Muricken, foi submetido a uma operação para doar um de seus rins a um jovem hindu, no dia 1º de junho de 2016.

“Nossa Igreja e o Papa Francisco acreditam e apoiam verdadeiramente atos de doação de órgãos”, explicou Dom Muricken ao canal de televisão índio NDTV. “Acredito que esta deve ser uma forte mensagem para as pessoas ao meu redor, a fim de que se abram à doação de órgãos”, disse.

Sooraj, de 30 anos, recebeu a doação do rim do bispo indiano. O jovem perdeu o pai há quatro anos, devido à mordida de uma serpente, e seu irmão mais novo morreu de um ataque cardíaco.

Quando foi diagnosticado com o sério problema em seus rins, há quase um ano e meio, Sooraj era o único que sustentava economicamente sua mãe e sua esposa.

O Pe. Davis Chiramel, fundador da Federação do Rim na Índia, que coordenou a doação, assinalou que esta “é a primeira vez que um bispo doa seu rim a um homem hindu”.

Em declarações ao jornal ‘The New Indian Express’, o sacerdote destacou que este gesto acontece “no Ano da Misericórdia, seguindo o apelo do Papa Francisco de amar-nos uns aos outros sem a barreira da casta ou do credo”.

“O bispo também pediu a bênção do Papa por seu gesto”, indicou.

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Sooraj assinalou que começou a fazer o tratamento para sua doença “somente quando a situação piorou, aproximadamente há um ano e meio”.

“Agora, fiquei sabendo que um bispo me doará o seu rim. Para mim, não é nada menos que a intervenção de Deus”, disse o jovem a NDTV, antes da cirurgia.

Fonte: ACIdigital

O Papa quis fazer esta visita surpresa dentro do Ano da Misericórdia – confira o vídeo

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No dia 13 de maio, o Papa Francisco fez uma visita surpresa a um centro para pessoas com deficiência mental nos arredores de Roma, revelou a página oficial do Jubileu da Misericórdia.

A iniciativa vai ao encontro do que o próprio Francisco tinha prometido, antes do início do Ano Santo extraordinário (dezembro 2015-novembro 2016), quando manifestou a intenção de cumprir um “gesto” simbólico durante cada mês do jubileu.

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O Pontífice argentino deslocou-se tarde da sexta-feira à comunidade ‘Il Chicco’ (O grão), associação que pertence ao projeto ‘A Arca’, fundado por Jean Vanier, com presença em mais de 30 países, incluindo Portugal, com o movimento ‘Fé e Luz’.

Francisco encontrou-se com 18 pessoas com “grave deficiência mental”, segundo a Santa Sé, em “mais um sinal contra a cultura do descarte”.

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“Não se pode privar ninguém do amor, da alegria e da dignidade só porque têm uma deficiência mental. Ninguém tem o direito de discriminar por causa de preconceitos que marginalizam”, refere a nota oficial.

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Francisco sentou-se para lanchar com os voluntários e as pessoas com deficiência que vivem na estrutura sediada em Ciampino, onde ouviu as “palavras simples” de vários deles, segundo a página oficial do Jubileu da Misericórdia.

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“Pôde ainda visitar as pessoas com deficiências mais graves, com gestos de profundo afeto e ternura”, informa a Santa Sé.

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Francisco passou ainda por uma oficina de artesanato e concluiu a visita de cerca de hora e meia com um momento de oração.

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O Papa deixou um donativo em dinheiro para comunidade ‘Il Chicco’, oferecendo ainda doces e frutas.

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Esta foi a quinta visita de Francisco no ano santo da misericórdia, depois de ter passado por um centro para idosos e doentes em estado vegetativo; uma comunidade de toxicodependentes; um centro de acolhimento para refugiados; e a vista à ilha grega de Lesbos.

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No fim do mês de abril, uma van levou dez deputados evangélicos do Partido Social Cristão (PSC) ao Palácio do Jaburu, a residência oficial do então vice-presidente, onde os parlamentares fizeram uma oração por Michel Temer. “A oração foi feita para ele, para que Deus lhe dê forças para conduzir o futuro do nosso país”, afirmou o líder do PSC na Câmara dos Deputados, André Moura.

Segundo Moura, Temer disse na ocasião que reza todas as noites. Mas qual é a relação do novo presidente interino do Brasil com a religião e com delicadas questões morais?

Temer, 75 anos, é filho de libaneses que cultivavam a tradição católica maronita. O vilarejo em que seus pais nasceram, Btaaboura, conta hoje com duzentos habitantes e é predominantemente ortodoxo. Em visita ao local em 2011, o recém-empossado vice-presidente fez uma doação de 20 mil dólares para a construção da Igreja de Santo Elias, segundo o site da própria igreja. De confissão ortodoxa, o templo ainda não foi finalizado.

Desde a visita de Temer, a rua principal do vilarejo se chama “Rua Michel Temer, Vice-Presidente do Brasil”. Uma estátua do seu pai também foi inaugurada na ocasião. Em 2014, a revista Executive, publicada na capital, Beirute, chamou o vice-presidente de “o libanês mais poderoso do mundo”. A reportagem diz que, naquela visita em 2011, o então presidente do Líbano, Michel Sleiman, brincou com Temer, se referindo à grande população de descendentes de libaneses no Brasil: “Você é mais presidente do Líbano do que eu, porque lá você tem oito milhões de libaneses, enquanto nós temos cinco milhões!”.

“Religioso, mas não praticante”

Em diversas ocasiões, Temer afirmou ter uma forte formação católica, mas é visível que o seu discurso muda de ênfase dependendo do interlocutor. Em uma entrevista à Folha Evangélica, quando era candidato à vice-presidência, fez questão de mostrar que boa parte da sua equipe era composta por evangélicos de diversas denominações. “Os valores cristãos constituem a pauta da minha conduta”, disse.

“A Lúcia Godói – chefe do gabinete –, muitas e muitas vezes, organiza orações no meu gabinete para me dar conforto. E este conforto se realiza na minha alma, no meu desempenho profissional e político”, contou o então presidente da Câmara dos Deputados.

Já em entrevista à revista Rolling Stone, em 2009, Temer confessou: “Sou tradicionalmente religioso, mas não praticante”.

Em outra ocasião, diante do papa Francisco, ao qual dirigiu um discurso na despedida de sua visita ao Brasil, em 2013, não poupou referências de cunho religioso. Disse que Francisco, “um verdadeiro evangelizador”, “voltou a despertar a fé em todos os brasileiros”. Falando da origem da palavra “religião”, o peemedebista lançou mão até do famigerado latim, que se tornaria piada depois de ser usado na abertura de sua carta à presidente Dilma Rousseff, no final do ano passado.

Temperança

Mas há um elemento da fé católica que realmente parece ter influenciado a sua conduta. Segundo uma reportagem do jornal Zero Hora, Temer viu, quando criança, a palavra “temperança” em um vitral de uma igreja em Tietê, no interior de São Paulo, onde nasceu. Pesquisou o significado no dicionário e descobriu tratar-se da qualidade ou virtude de quem modera apetites e paixões. Desde então, Temer teria adotado a temperança como filosofia de vida. Pelo menos é o que testemunham muitos dos que conhecem a vida privada do novo presidente do Brasil.

Para esses, Temer seria um homem que mais ouve do que fala, reservado, discreto, disciplinado e muito polido. Segundo o Zero Hora, ouvi-lo falar um palavrão significa que Temer está realmente muito irritado. Ainda assim, ao palavrão se segue um pedido de desculpas.

O próprio discurso de Temer ao papa Francisco pareceu refletir os seus ideais: o novo presidente elogiou o pontífice pelo “seu exemplo de moderação, temperança, equilíbrio, tolerância”.

Aborto e união civil homossexual

Virtude ou diplomacia, de fato Temer parece se esforçar o tempo todo para não desagradar ninguém. Isso se reflete na sua posição diante de temas como o aborto ou a união civil entre pessoas do mesmo sexo.

Já em 1997, quando tramitava na Câmara dos Deputados um projeto de reconhecimento da união civil homossexual, o então presidente da Câmara disse: “Esse projeto da união civil é extremamente polêmico, mas interessa a grande parte da sociedade. Darei curso imediato a ele. Estamos diante de uma nova realidade social. A função do legislador é focalizar a realidade social e legislar sobre ela. Não tenho objeção ao projeto. Pessoalmente acho que ele não está disciplinando relações sentimentais entre as pessoas, mas uma situação civil”.

Ele reafirmou a posição em 2010, em um debate entre candidatos à vice-presidência: “Trata-se de uma relação de natureza civil. Então, diante da nova realidade social do mundo, precisamos ter uma legislação que faça o reconhecimento dessa relação civil”. Temer apontou ainda que falar de “casamento” entre pessoas do mesmo sexo é uma “terminologia equivocada”. “Se as pessoas vão casar, se vão fazer solenidade, não importa”, disse ele, que se casou em 2003 com Marcela Tedeschi Araújo, depois de quatro meses de namoro. Marcela, 43 anos mais nova que Temer, tinha 20 anos na época. A cerimônia, somente civil, foi reservada, com a presença de apenas vinte convidados.

Nas mesmas eleições, Temer defendeu Dilma na controvérsia sobre o aborto que veio à tona durante a campanha. “Dilma já declarou que é contra o aborto”, afirmou o então candidato. Ele também se disse contrário ao aborto, mas defendeu a laicidade do Estado, considerando “grave” e “inadequada” a intromissão de uma questão, segundo ele, “de fé”. Além disso, declarou não se opor à realização de um plebiscito sobre a legalização do aborto.

Na ocasião, Temer disse ainda que não é contrário à realização de pesquisas com células-tronco embrionárias.

Maçom?

A imagem do novo presidente também está muito vinculada ao rótulo de maçom. Numa reportagem da Folha de S. Paulo, publicada em 2013, Marcos José da Silva, grão-mestre geral do Grande Oriente do Brasil – a principal organização da maçonaria do país – listou alguns dos maçons famosos da história do Brasil e terminou dizendo: “Não falemos em Michel Temer, senão o vice-presidente pode ficar até aborrecido com relação a isso”.

Já Antonio Carlos Mendes, maçom oficial de gabinete do Grande Oriente paulista, afirmou: “Faz tempo que ele não aparece por aqui, acho que está inativo”. A reportagem diz que Temer “não costuma ser citado com muito entusiasmo” no meio maçom, embora seja considerado o membro mais ilustre do país atualmente.

O peemedebista nunca negou pertencer à sociedade, mas também nunca confirmou publicamente. O mistério a respeito desse possível vínculo talvez seja o principal responsável pelo boato de que Temer teria relações com o satanismo. Entre cristãos críticos à maçonaria, contudo, é bastante disseminada a ideia de que a maçonaria tem relação com o satanismo, o que seria suficiente para motivar os políticos a manterem discrição sobre a proximidade com a sociedade.

Fonte original: http://www.semprefamilia.com.br/o-que-michel-temer-pensa-sobre-religiao-aborto-e-casamento-gay/

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Cidade do Vaticano, 08 abr 2016 – A exortação apostólica do Papa Francisco com as conclusões das últimas assembleias do Sínodo dos Bispos, divulgada hoje, alerta para as consequências da eutanásia e do aborto na vida familiar.

“A eutanásia e o suicídio assistido são graves ameaças para as famílias, em todo o mundo. A sua prática é legal em muitos Estados. A Igreja, ao mesmo tempo que se opõe firmemente a tais práticas, sente o dever de ajudar as famílias que cuidam dos seus membros idosos e doentes”, refere o documento intitulado ‘Amoris laetitia’ (A Alegria do Amor).

Em relação ao aborto, Francisco observa que “é tão grande o valor duma vida humana e inalienável o direito à vida do bebé inocente” que de “modo nenhum” se pode afirmar como um direito sobre o próprio corpo “a possibilidade de tomar decisões sobre esta vida”.

“O que nos faz grandes é o amor que compreende, cuida, integra, está atento aos fracos”, defende.

A exortação pós-sinodal recorda que os participantes nas duas últimas assembleias sinodais dedicaram especial atenção “às famílias das pessoas com deficiência, já que tal deficiência, ao irromper na vida, gera um desafio profundo e inesperado e transtorna os equilíbrios, os desejos, as expectativas”.

“Merecem grande admiração as famílias que aceitam, com amor, a prova difícil dum filho deficiente. Dão à Igreja e à sociedade um valioso testemunho de fidelidade ao dom da vida”, sublinha o Papa.

Francisco convida à descoberta de “novos gestos e linguagens” para o acolhimento e cuidado do “mistério da fragilidade”.

“A família que aceita, com os olhos da fé, a presença de pessoas com deficiência poderá reconhecer e garantir a qualidade e o valor de cada vida, com as suas necessidades, os seus direitos e as suas oportunidades”, realça.

Segundo o Papa, a atenção prestada tanto aos migrantes como às pessoas com deficiência é um “sinal do Espírito”.

“Ambas as situações são paradigmáticas: põem especialmente em questão o modo como se vive, hoje, a lógica do acolhimento misericordioso e da integração das pessoas frágeis”, explica.

As preocupações do pontífice argentino estendem-se depois às dificuldades vividas pelas “mães solteiras, as crianças sem pais, as mulheres abandonadas”, os jovens que “lutam contra uma dependência”, as pessoas solteiras, separadas ou viúvas que “sofrem a solidão”, bem como “os idosos e os doentes que não recebem o apoio dos seus filhos”.

A ‘Amoris laetitia’ elogia também a “escolha da adoção” como “caminho para realizar a maternidade e a paternidade de uma forma muito generosa”.

“Desejo encorajar aqueles que não podem ter filhos a alargar e abrir o seu amor conjugal para receber quem está privado de um ambiente familiar adequado”, escreve Francisco.

Os temas da família estiveram no centro de duas assembleias do Sínodo dos Bispos, em outubro de 2014 e 2015, por decisão do Papa Francisco, antecedidas por inquéritos enviados às dioceses católicas de todo o mundo.

Leia aqui o documento completo

aborto consciencia

 

 

Quem afirma que o aborto é apenas um assunto de consciência, habitualmente é favorável à sua legalização. Até pode aceitar serenamente que o aborto seja algo a evitar, mas pensa que nem sempre será obrigatório posicionar-se contra esse ato. Haverá exceções que caberá à mulher grávida, e só a ela, identificar.

Essas mulheres que, em determinadas situações, decidem abortar – dizem – fazem-no “em consciência”. Não o fazem de ânimo leve, mas ponderam todos os factores e julgam que o mais correto, ou o menos mau, é realizar o aborto. A sua consciência aprovaria essa atitude. Ninguém mais tem nada a dizer sobre a sua bondade ou maldade. O Estado, ou quem quer que seja, não deve ter o direito de intromissão na consciência da mulher, contrariando uma íntima decisão Não seria, pois, legítima uma intervenção pública proibitiva.

Que objeções se podem levantar a este modo de focar o problema?

Posso concordar em que, como qualquer problema de índole moral, o aborto é, à partida, uma questão de consciência. Também o são o cumprimento das leis de circulação rodoviária, a tributação fiscal, a pirataria de software, a violência doméstica, o suicídio, a adição a drogas, etc. A prova disso, é que nestas, como em muitas outras questões, a par de medidas de coação, expõem-se motivos e fazem-se campanhas para que as pessoas adiram livremente ao que se estima correto e vantajoso para os cidadãos e a sociedade.

Assim sendo, parece legítimo sugerir duas perguntas:

1) que critérios se devem seguir para enquadrar um ato, que tem um claro significado ético, dentro dos que não devem ser tutelados ou julgados por “terceiros” (chamemos-lhes “atos de mera consciência” ou de “moral privada”)?

2) No caso dos critérios de enquadramento serem difusos ou pouco claros, quem decide sobre esse eventual enquadramento de um ato na moral privada (ou na moral pública)?

Certamente, os atos que tenham particular relevo social, que envolvam direitos de terceiros ou transtornem a vida social devem ser regulados socialmente. Isto é, a Sociedade (o Estado) deve intervir para evitar abusos sobre pessoas em peculiar situação de vulnerabilidade, que são os mais necessitados da tutela jurídica. Assim, o Estado deve atuar nos casos de grave violência doméstica, ou de excessos de velocidade nas estradas, em caso de incitações ao racismo e à xenofobia ou em despedimentos sem justa causa. Quando o Estado intervém não significa que o infractor não invoque a sua consciência, por exemplo, para assegurar que, no seu caso e de acordo com ela, circular a 180 km/h não constituía perigo nem para o próprio nem para outros. E até é provável que a coima (ou multa, no Brasil) não mude a consciência do condutor temerário. Continuará a pensar que foi injustamente punido. Deveria o Estado retroceder na coima em nome do juízo de consciência do infractor? Ou deverá até retirar a lei, confiando no prudente juízo de cada automobilista? E, no caso de optar pela supressão da lei, quando houvesse um acidente por excesso de velocidade, com a morte de inocentes, a quem se exigiria a reparação do dano causado: ao automobilista falecido? Ao fabricante de carros? Ao construtor da estrada? A ninguém, em memória da consciência do infractor?

Por que razão há leis frequentemente violadas que não são suprimidas? O Estado tem-se mostrado até cada vez mais interventivo em matérias como a fuga ao fisco ou os excessos na condução. Por que razão, em matérias, como o aborto ou o consumo de drogas, se pretende seguir o processo inverso? Quem decide que uns atos não devem ter fiscalização social e outros sim? Com que fundamento toma essa decisão?

No caso do aborto, ao admitir a consciência como único juiz do ato, poder-se-iam adivinhar um rol de consequências de transcendência social:

1) morre um inocente, que não é quem emite o juízo de consciência;

2) atua sob cobertura legal alguém que mata inocentes;

3) no caso de se querer opor ao aborto, a mulher fica sem proteção legal que contrabalance as pressões familiares e sociais;

4) a mulher que venha a sofrer o trauma pós-aborto encontrar-se-á numa situação em que alguém a terá de tratar: a equipa que procedeu ao aborto, ocupar-se-á da situação?;

5) em caso de legalização, o Estado recrutará pessoas (pagando os contribuintes) para realizar o aborto a pedido;

6) corre-se o risco de haver profissionais da saúde e estudantes de medicina impelidos a cooperar, mais ou menos “diplomaticamente”, com atos que violam as suas consciências;

7) mais difícil de demonstrar em poucas linhas, é a diminuição da sensibilidade perante a vida humana. Refiramos apenas um exemplo. Em Portugal, está legalizado o aborto eugenésico em determinadas condições. Quando o Estado permite matar embriões pelo facto de terem uma deficiência, como olhará a sociedade para as pessoas com algum “handicap”? Em rigor, uma sociedade humanista desdobrar-se-ia em medidas que visassem proteger aqueles que são portadores de alguma dificuldade adicional. Quando se permite a sua morte intra-útero o Estado dá um sinal de que esses cidadãos interessam menos do que os outros. Não é, pois, estranho que várias associações que protegem as pessoas com deficiências protestem pela crescente falta de sensibilidade para com eles. Perante estas e outras questões, por que razão há-de ser o aborto uma questão de “mera consciência” da mulher?

Uma questão adicional. A sociedade tem vindo a aumentar a sensibilidade para intervenções legais que, noutros tempos, eram consideradas alheias ao seu âmbito de atuação. Por exemplo, a nível social, é cada vez mais unânime que a ingerência humanitária nalguns Estados é legítima e até moralmente obrigatória sob determinadas condições. A soberania de um Estado – a sua consciência colectiva – não é necessariamente um valor intocável.

Também a nível familiar também é cada vez mais perceptível que há casos de violência doméstica, que ocorrem entre quatro paredes, onde a lei deve intervir. O âmbito familiar não é absolutamente inviolável.

A sociedade tem, pois, tomado consciência de que, perante determinados males, é preciso intervir legalmente para salvaguardar direitos humanos elementares. Se este caminho da justiça é considerado um avanço na vida dos povos, pois visa proteger seres indefesos, por que razão no caso do aborto se pretende que a lei abandone um âmbito onde o desfecho termina com a morte de um inocente e uma menor sensibilidade perante o carácter único da vida humana? Não seria o momento de pensar seriamente no estatuto jurídico do embrião?

Apenas um fator de “curiosidade”: na Encíclica sobre o Evangelho da vida, João Paulo II chamava a atenção para o facto de que, com este argumento, se pretende uma autonomia total da consciência para abortar, ao mesmo tempo que se exige aos legisladores e políticos a abdicação da sua consciência que deve submeter-se sem reservas ao que a maioria aprove. Contradições à volta da consciência…

Em resumo, pretender que o aborto deva ficar reduzido a uma questão de moral privada não corresponde ao modo como se lida com assuntos até de menor alcance social. A expressão soa bem aos ouvidos, porque sem dúvida apela à responsabilidade, mas é incompleta: o aborto é uma questão de consciência pessoal, mas tem uma gigantesca dimensão social. Há muita gente que, sensatamente, prefere viver numa sociedade em que se protegem os mais fracos.

 

Fonte: aleteia.com

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Antes da aprovação do aborto nos EUA, a maioria dos primeiros “ativistas pró-vida” do país eram médicos e enfermeiros. Eles eram predominantemente católicos, mas a religião não tinha muito a ver com isso. A oposição deles ao aborto legalizado era simplesmente uma extensão lógica da sua vocação a salvar vidas.

É que o Juramento de Hipócrates era o alicerce ético da profissão médica. Popularmente resumido como “em primeiro lugar, não faça o mal”, o juramento destrinchava diversos detalhes desta obrigação. Os futuros guardiões da saúde das pessoas prometiam não dar nenhum remédio mortal a ninguém, mesmo que solicitados a dá-lo, nem sugerir tal conselho de forma alguma a quem quer que fosse. Igualmente, prometiam não colaborar com atos que provocassem o aborto.

Progressistas e feministas quiseram cortar esta parte do juramento. Eles argumentaram que, assim como a profissão médicatinha deixado de lado a exigência de jurar por Apolo, Asclépio, Hígia, Panaceia e todos os outros deuses e deusas gregos, também deveria se livrar dessa preocupação antiquada com a vida fetal.

Foram propostas muitas teorias sobre o porquê de os profissionaiscatólicos da saúde terem sido os que mais remavam contra essa nova maré ideológica. Para mim, o argumento mais convincente tem a ver com a formação deles, mas não exatamente com os aspectos ligados à teologia católica. O motivo mais relevante era de tipo filosófico.

Os médicos católicos aprenderam com o grande cientista e filósofo grego Aristóteles e com o filósofo e Doutor da Igreja Tomás de Aquino que a vida humana, incluindo o embrião, tem um “telos”, uma finalidade, um objetivo, um plano, um desígnio, uma lógica interna. Ou, como os cientistas o chamariam mais tarde, um DNA.

O resultado do processo da procriação humana era uma pessoa, única, dotada de dignidade e de direitos. Era um ser humano. Era um ser humano que ainda não tinha se desenvolvido tanto quanto o resto de nós, adultos; mas era, ainda assim, um ser humano. Esta era uma verdade que os profissionais médicos respeitavam pela própria natureza do seu trabalho.

Havia a este propósito argumentos que iam desde a especulação antiga sobre a alma humana até a ideia atual de “pessoalidade”. Nada alterava a perspectiva ética básica dos profissionais da saúde: seu trabalho era ajudar os outros seres humanos, não matá-los. A biologia básica e a abundante experiência informavam aos médicos que a vida fetal era vida humana.

Por isso, médicos e enfermeiros que enxergavam o próprio trabalho conscientemente viam com clareza o que a disseminação da tecnologia de ultrassom acabaria mostrando também para o resto de nós. A “coisa” que reside no ventre materno não é um amontoado aleatório de células; é um de nós. Desde um estágio extremamente precoce do seu desenvolvimento, o feto é, reconhecivelmente, um ser humano, que vai passando pelas mesmas fases pelas quais todos nós passamos.

Foi preciso trilhar uma longa estrada para levar as pessoas a ignorar esta verdade inegável sobre a nossa biologia e sobre a nossa humanidade compartilhada. Mas ela continua sendo verdade.

Não é preciso acreditar em Deus nem concordar com artigos particulares de fé para enxergar que o aborto é o extermínio de uma vida humana única, uma vida a ser dotada, com toda a justiça e desde o instante da sua concepção, de direitos contra essa mesma violência.

Muita gente de fé enxerga esta verdade com clareza. É hora de o resto do mundo admiti-la também.

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A defesa humanista da vida, sólida e convincente, pode ser a melhor maneira de tocar alguns segmentos da sociedade.

“Podem mesmo existir ateus pró-vida?”, perguntou Marco Rosaire Rossi na edição de setembro-outubro da revista The Humanist. “E qual é o próximo passo? Agnósticos que defendem o desígnio inteligente do universo? Ou que tal laicos a favor da sharia?”.

Os ateus podem não ter um papa, mas, aos olhos de muitos deles, existe uma espécie de “dogma” a que todos os “bons ateus” devem aderir: ser ateu é ser a favor do aborto. Se você não cumpre esse dogma, será denunciado como “um religioso disfarçado”.

Quando eu participei de uma rodada de debates da Convenção Ateia Norte-Americana de 2012, junto com um agnóstico e um ateu da Secular Pro-Life, um popular blogueiro ateu nos acusou abertamente de “ter mentido que éramos ateus”.

Há uma óbvia relutância em aceitar que existem pessoas pró-vida que não são religiosas. Mas nós existimos. Discordamos um pouco em nossas abordagens e filosofias, mas os nossos números incluem pensadores ateus como Robert Price, autor do livro “The Case Against the Case for Christ”, o escritor libertário civil Nat Hentoff, filósofos como Arif Ahmed e Don Marquis e ativistas liberais antibelicistas, como Mary Meehan, para citar alguns.

O escritor ateu Christopher Hitchens, quando perguntado em um debate de janeiro de 2008 com Jay Wesley Richards se era contrário ao aborto e membro do movimento pró-vida, respondeu:

“Eu já tive muitas discussões com alguns dos meus colegas materialistas e secularistas sobre este ponto, mas acho que, se o conceito de ‘criança’ significa alguma coisa, o conceito de ‘criança ainda não nascida’ também pode significar algo. Todas as descobertas da embriologia, que têm sido muito consideráveis na última geração, parecem confirmar aquela opinião, que eu acho que deve ser inata em todos nós. É inato no juramento de Hipócrates. É o instinto de qualquer um que já viu um ultrassom. Portanto, a minha resposta é ‘sim’”.

O grupo dos laicos pró-vida inclui ateus e agnósticos, ex-cristãos, conservadores, liberais, veganos, gays, lésbicas e também os pró-vida de fé, que entendem a força dos argumentos laicos junto ao público laico.

A seguinte argumentação laica contra o aborto é uma perspectiva e não representa nenhuma organização específica.

1. Aborto, uma questão complexa: mas complexa em que sentido?

O aborto é uma questão emocionalmente complexa, envolta em situações de sofrimento que provocam a nossa simpatia e compaixão, mas não é uma questão moralmente complexa: afinal, se o não-nascido não é um ser humano igualmente digno da nossa compaixão e apoio, então não é necessária nenhuma justificativa para o aborto: as mulheres podem manter total autonomia sobre os seus corpos e tomar as suas próprias decisões quanto à gravidez. Porém, se o ainda não-nascido já é um ser humano, então nenhuma defesa do aborto é moralmente válida caso não sirva para justificar igualmente, em circunstâncias semelhantes, o extermínio da vida de qualquer outra criança ou de qualquer outro ser humano já nascido.

Será que mataríamos uma criança de dois anos de idade porque o pai a abandonou de repente nos braços da mãe desempregada e porque é preciso aliviar o orçamento da mãe e impedir a criança de crescer na pobreza? Será que exterminaríamos uma criança em idade pré-escolar por causa de indícios de que ela sofreria abusos dentro do próprio lar? Se o ainda não-nascido é realmente um ser humano, temos um dever social de encontrar formas de compaixão que ajudem as mulheres sem que essa ajuda implique a morte de um para resolver os problemas da outra.

2. Ciência x pseudociência

Embora alguns defensores do aborto tenham acusado as pessoas pró-vida de se apoiarem numa espécie de pseudociência, o fato é que as evidências científicas apoiam fortemente a argumentação pró-vida de que o embrião e o feto humanos são membros biológicos da espécie humana.

O livro “The Developing Human: Clinically Oriented Embryology” [“O Desenvolvimento Humano: Embriologia Clinicamente Orientada”], do Dr. Keith L. Moore, usado em escolas médicas do mundo todo, é apenas um dos recursos científicos que confirmam esta consideração. Ele afirma:”O desenvolvimento humano começa na fecundação, que é o processo durante o qual um gameta masculino ou espermatozoide se une a um gameta feminino ou ovócito (óvulo) para formar uma célula nova e única, chamada zigoto. Esta célula totipotente altamente especializada é o marco inicial da vida de cada um de nós como indivíduos únicos”.Diferentemente de outras células que contêm DNA humano, como as células de esperma, de óvulos e de pele, por exemplo, o embrião resultante da fecundação tem a completa e inerente capacidade de se impulsionar ao longo de todas as fases do desenvolvimento humano, desde que sejam mantidas a sua nutrição e a sua proteção adequada. Por outro lado, o esperma e o óvulo são partes diferenciadas de outros organismos humanos, cada um com a sua própria função específica. Após a fusão, ambos deixam de existir em seus estados atuais e o resultado é uma entidade nova e completa, com um comportamento único direcionado ao amadurecimento humano. Do mesmo modo, as células da pele contêm informação genética que pode ser inserida dentro de um óvulo enucleado e estimulada para criar um embrião, mas só o embrião possui a capacidade inerente e autodirigida ao desenvolvimento humano completo.

3. Definindo o que é ser pessoa

A questão da pessoalidade, ou seja, de se definir o que é uma pessoa, sai do reino da ciência e adentra no reino da filosofia e da ética moral. A ciência define o que é o ainda não-nascido, mas não pode definir as nossas obrigações para com ele. Afinal, o não-nascido é uma entidade humana muito diferente das entidades humanas que vemos ao nosso redor.

Será que um ser minúsculo, menos desenvolvido, com uma localização diferente e com um grau próprio de dependência tem algum direito à pessoalidade e à vida? Talvez a pergunta mais importante seja: essas diferenças são moralmente relevantes?

Se esse fator é irrelevante para a pessoalidade de outros seres humanos, também não deve ter influência sobre a pessoalidade do não-nascido. Afinal, as pessoas pequenas ou mais baixas são menos importantes que as pessoas maiores ou mais altas? Um adolescente que pode se reproduzir é mais digno de viver do que uma criança que ainda não sabe nem caminhar? Mais uma vez: se esses fatores não são relevantes para fazer com que uma pessoa seja “mais pessoa” do que a outra depois do nascimento, também não devem importar no caso dos seres humanos em fase de desenvolvimento anterior ao nascimento.

Pode-se argumentar, com razoabilidade, que nós ampliamos os direitos das pessoas com base na sua idade e no desenvolvimento das suas capacidades. Mesmo assim, o direito de viver e de não ser assassinado é diferente das permissões sociais que concedemos com base nas competências adquiridas e no grau de maturidade, como é o caso do direito de dirigir um carro ou de votar. O direito de dirigir nos é negado antes dos 18 anos; mas essa negação não nos assassina nem nos impede, por conseguinte, de algum dia adquirir o nível de maturidade necessário para que aquele direito nos seja concedido.

Da mesma forma, a consciência e a autoconsciência, muitas vezes propostas como critérios para que alguém seja definido como pessoa, apenas identificam fases do desenvolvimento humano. A consciência não existe no vácuo: ela só existe como parte do todo maior de um ente vivo. Falar de um ente humano que ainda não tem consciência é falar de um ente dentro do qual existe o potencial inerente de adquirir consciência e sem o qual a consciência nunca poderia surgir, justamente porque ela só pode existir como parte desse ente.

Nat Hentoff, que abraça o ateísmo, destaca:“Salta-se um ponto crucial quando se diz que o extermínio [de um ser] pode ocorrer porque o seu cérebro ainda não funcionou ou porque essa ‘coisa’ ainda não é uma ‘pessoa’. Se a vida é cortada na quarta semana ou na décima quarta, o fato é que a vítima é alguém da nossa espécie e o foi desde o seu início”.A capacidade intrínseca de exercer todas as funções humanas encontra-se dentro do embrião, porque ele é um ente humano inteiro. Assim como não se jogam fora as bananas verdes junto com as podres só porque nenhum dos dois conjuntos de bananas tem função atual como alimento, também não se pode descartar um feto que ainda “não tem função” do mesmo modo que se “descarta” uma pessoa que sofreu morte cerebral e que, portanto, perdeu permanentemente a possibilidade de “ter função”. Exterminar um feto porque ele ainda não atingiu um determinado nível de desenvolvimento é ignorar que um ser humano, nessa fase do desenvolvimento humano, está funcionando precisamente do jeito que um ser humano nessa idade e nesse estágio é biologicamente programado para funcionar.

4. Localização e dependência singular

Apelando para a Declaração Universal dos Direitos Humanos para dar suporte à sua opinião de que “os seres humanos, como pessoas, são os nascidos”, Rossi declara: “O fato é que o nascimento nos transforma. Ele simultaneamente nos torna indivíduos e membros de um grupo e, portanto, aplica a nós a proteção dos nossos direitos”.

Esta afirmação é grosseiramente falaciosa.

Em primeiro lugar, “aquilo que é” não representa necessariamente “aquilo que deve ser”. O fato de que as convenções sociais sobre o que é ser pessoa desconsiderem o não-nascido não é nenhuma surpresa (nem é a matéria em questão).

Em segundo lugar, o nascimento não possui esses poderes mágicos de transformação. Ao nascer, um ser humano em desenvolvimento muda de localização, começa a receber oxigênio e nutrientes de um modo novo e a interagir com um número maior de outros seres humanos. Mas uma simples passagem pelo canal vaginal não muda a natureza essencial do ente em questão.

O especialista em bioética Peter Singer concorda com os pró-vida neste ponto. Ele argumenta:

“Os grupos pró-vida estavam certos sobre uma coisa: a localização do bebê dentro ou fora do útero não faz muita diferença moral. Não podemos, de forma coerente, sustentar que não há problema algum em matar um feto uma semana antes do seu nascimento e, ao mesmo tempo, dizer que deve ser feito de tudo para manter o bebê vivo depois que ele nasceu”.

(Singer, porém, argumenta em seguida que, uma vez que não há diferença significativa entre um feto em final de gestação e um recém-nascido, o infanticídio seria justificado).

O nascimento é, sem dúvida, um momento importante em nossas vidas, mas não é o nosso primeiro momento.

E quanto à dependência? Um feto é, certamente, muito mais dependente da mãe do que será em qualquer outro momento da vida. Mas será que os seres humanos dependentes não são seres plenamente humanos? A dependência de um gêmeo siamês do coração ou dos pulmões do irmão o desqualifica em termos de grau de pessoalidade? Podemos matar adultos severamente dependentes de outros humanos? Podemos matar crianças que não conseguem levantar a cabeça, que dirá alimentar-se, proteger-se ou sair andando por conta própria?

Se o problema é o que Rossi chama de “dependência absoluta das nossas mães”, mais uma pergunta deve ser feita: por que a dependência de uma única pessoa significaria que não se é valioso ou digno de vida e de proteção? Se uma criança rebelde se escondesse no iate de um estranho, tornando-se temporariamente dependente dos recursos desse marinheiro solitário, seria justificável que o marinheiro a jogasse ao mar em águas infestadas de tubarões e alegasse que, sendo dependente dele, essa criança não era um ser plenamente humano?

Além disso, será que é verdadeira característica de um povo civilizado a ideia de que quanto mais vulnerável e dependente é um ser humano, mais justificável é a sua morte? Será que essa ideia de que “poder gera direitos” é a melhor ideia que podemos ter, como pessoas modernas e sofisticadas, diante de um ser vulnerável e de uma mulher em crise?5. Estupro e autonomia corporalNada traz mais emotividade ao debate já emocional do aborto do que a questão do estupro. É essencial, porém, que não se confunda o repúdio ao estupro e o desejo de consolar a vítima com a questão fundamental de saber se a crueza da situação justifica um homicídio. Se o não-nascido é um ser humano, as circunstâncias da sua concepção não têm influência alguma sobre o seu direito de não ser exterminado.

A obra “Unplugging the Violinist” [“Desconectando o Violinista”], de Judith Jarvis Thompson, ilustra o dilema da autonomia corporal sugerindo razões para o aborto em casos de estupro. Trata-se da história fictícia de uma pessoa sequestrada por amigos de um violinista agonizante, necessitado de um rim, e forçada a permanecer ligada a ele durante nove meses para salvar a sua vida.

Thomson não consegue reconhecer, porém, que a relação entre um não-nascido e sua mãe é diferente da união artificial entre um estranho e outro. O feto não é um intruso. Ele está no lugar de direito de um ser humano nessa idade e nesse estágio de desenvolvimento. Ao contrário dos rins, que existem para o corpo da mulher, o útero existe e se prepara todo mês para receber o corpo de outra pessoa. A mulher tem direito sobre o seu corpo, mas o feto também tem direito ao útero que é seu lar biologicamente determinado.

Além disso, ao reconhecer as responsabilidades biológicas com que evoluímos como espécie, nós entendemos que, se, por um lado, nem sempre temos obrigações morais para com estranhos, por outro lado somos obrigados a prover o sustento básico e a proteção da nossa própria prole biológica.

Uma mãe que já está amamentando não pode alegar “autonomia corporal” e abandonar o bebê no porão enquanto sai para viajar; a mãe grávida tampouco pode abandonar a sua responsabilidade por uma criança humana dependente dela. A vítima de estupro não escolheu e foi injustamente colocada nesta posição, mas a sua obrigação fundamental para com a sua prole humana, dependente dela, não é menos real do que a obrigação do marinheiro que encontra um passageiro clandestino a bordo de seu iate.

O aborto não se limita a “desconectar um estranho agonizante”. O aborto extermina ativamente um ser humano saudável, que está em união naturalmente dependente com a sua mãe, de acordo com o que é próprio da sua idade e estágio de desenvolvimento. Rebecca Kiessling, que foi concebida num estupro, declara: “Eu posso não parecer a mesma pessoa de quando tinha quatro anos, ou de quando tinha quatro dias, ou de quando ainda era uma não-nascida no ventre da minha mãe, mas eu já era inegavelmente eu mesma e [em caso de aborto] teria sido assassinada [pelo crime do meu pai]”.

O aborto não desestupra uma mulher nem a ajuda a se recuperar dessa violência. Puna-se o estuprador, não o seu filho.

6. Pessoalmente pró-vida, mas não favorável a mudar a lei?

Por fim, alguns responderão ao ônus da ciência e da razão dizendo-se “pessoalmente a favor da vida”, mas favoráveis a manter o aborto legalizado para garantir que ele seja feito de modo seguro. Sem dedicarmos tempo a contrastar as estatísticas de abortos legais contra abortos ilegais, ou os números de abortos realizados ilegalmente em clínicas médicas, ou o papel dos antibióticos para tornar o aborto seguro, a questão é, necessariamente: seguro para quem?

Se alguém é “pessoalmente contra” porque acha que o aborto extermina vidas humanas, não faz sentido dizer que o extermínio da vida humana deve permanecer legal a fim de salvar vidas. Legais ou ilegais, todos os abortos matam. Às vezes, a mãe; mas sempre o filho.ConclusãoA escritora feminista Frederica Matthews-Green afirmou certa vez que “nenhuma mulher quer o aborto do mesmo jeito que ela quer uma casquinha de sorvete ou um Porsche. Ela quer o aborto do jeito que um animal preso numa armadilha quer amputar a própria perna”. O desafio para a nossa sociedade em constante evolução é este: vamos dar à mulher uma serra e ajudá-la a amputar a sua perna? Ou somos sábios e capazes o suficiente para encontrar formas criativas de retirar a armadilha sem destruir a perna durante o processo, especialmente quando essa “perna” é um ser humano?

A sociedade pode continuar a induzir as mulheres a irem contra a sua própria prole não-nascida. Ou pode começar a falar de escolhas reais, de soluções reais e de compaixão real, conforme sugerido por grupos como as Feministas pela Vida. A filosofia laica pró-vida implica incluir os membros menores e mais frágeis da nossa espécie em vez de excluir o dependente e o vulnerável dos direitos à pessoalidade e à vida. Nós evoluímos como espécie e nos tornamos uma comunidade complexa e interdependente, que está gradualmente se livrando de preconceitos como o racismo, o sexismo e as discriminações baseadas em habilidades.

Bem que podemos nos livrar também da discriminação letal baseada em idade e em estágio de desenvolvimento humano.

De acordo com a Aliança Pró-Vida de Gays e Lésbicas, “nenhum de nós é verdadeiramente livre até que todos nós sejamos livres, com todos os nossos direitos intactos e garantidos, inclusive o direito fundamental de viver sem ameaça nem assédio”.

Podemos fazer coisas melhores do que o aborto.

 

Fonte: aleteia.org

animais

É preciso evitar sofrimentos desnecessários, mas em algumas pesquisas os animais ainda são imprescindíveis.

O Parlamento Europeu aprovou recentemente um plano para incentivar os laboratórios a realizar suas pesquisas substituindo ratos e hamsters por réplicas robóticas e de microengenharia. Esta iniciativa faz parte de um programa denominado Horizon 2020, que prevê mais de 70 bilhões de financiamento para entidades públicas e privadas.

Será que o ser humano poderá realmente prescindir dos testes em animais, à luz das motivações científicas e éticas? A site Aleteia conversou sobre isso com Santiago Veja García, da Universidade CEU Cardenal Herrera, de Valência (Espanha).

Qual é a posição católica sobre os testes em animais?

Deus confiou os animais à administração do ser humano, criado por Ele à sua imagem. Portanto, é legítimo fazer uso dos animais para o alimento e a confecção de roupas. Eles podem ser domesticados, para ajudar o homem em seu trabalho e lazer.

Os testes médicos e científicos em animais são práticas moralmente aceitáveis, quando realizados dentro dos limites da razão e quando contribuem para cuidar de vidas humanas ou salvá-las.

Segundo o Catecismo da Igreja Católica, é contrário à dignidade humana fazer os animais sofrerem inutilmente ou sacrificá-los sem necessidade. Também é indigno investir neles o capital que deveria remediar a miséria das pessoas. Por outro lado, podemos amar os animais, mas não desviar a eles o afeto devido unicamente aos seres humanos.

Existe uma ética ecológica humana?

Na perspectiva cristã, a vida dos outros seres tem um grande valor, mas não se trata de um valor oposto ao da pessoa; pelo contrário, o valor da vida animal e vegetal adquire seu pleno sentido somente quando está em relação com a vida da pessoa humana.

O autêntico desenvolvimento humano, segundo a “Sollicitudo rei socialis”, se apoia em dois grandes princípios: a vocação transcendente do homem e sua integração na natureza.

Esta encíclica faz três considerações especiais: convêm levar em consideração a natureza de cada ser e sua mútua conexão em um sistema ordenado, que é o cosmos; a limitação dos recursos naturais, que não são renováveis ou são dificilmente renováveis; consequências de certo tipo de desenvolvimento na qualidade de vida das regiões industrializadas.

A “Centesimus Annus” dedica todo o capítulo IV à questão ecológica. A raiz da destruição ambiental é um erro antropológico. A encíclica não abandona a perspectiva da fé e, por conseguinte, vê a natureza como criação, e a criação como doação. O mundo ambiental é, com igual direito e dignidade, presente e tarefa, dádiva e responsabilidade.

A “Evangelium vitae” menciona três vezes o problema ambiental e o relaciona aos problemas da bioética.

Na mídia, vemos constantemente protestos de protetores de animais contra testes neles. Que resposta se dá a esta posição?

Os testes em animais, no âmbito da pesquisa científica, devem ser justificados e aprovados por um comitê ético. Se houver excessos pontuais ou se as normas não forem cumpridas, o problema já é legal e a solução exigirá melhorar as normas, e não suprimir a pesquisa.

As razões para cuidar bem dos animais não são apenas éticas, mas também científicas, para que os resultados sejam válidos, o que, por sua vez, acaba reduzindo o uso de animais.

Longe de pretender fazer uma apologia absolutista dos testes em animais, acho que a postura mais sensata está em um equilíbrio entre os extremos: condenar toda pesquisa ou enaltecê-la ingenuamente.

É preciso considerar o uso de animais nas pesquisas como necessário no estado atual da ciência, para ajustar-se ao imperativo moral de curar e prevenir doenças humanas, mas buscando formas de substituir e reduzir o número de animais e minimizar seu sofrimento.

Atualmente, é preciso reconhecer a impossibilidade de substituir os testes em animais em muitos casos, o que não anula a obrigação paralela de empregar os mínimos indispensáveis e reduzir seu sofrimento o máximo possível, tanto por razões humanitárias como pelo próprio interesse científico.

Com o tempo, conforme for aumentando o acerco de conhecimentos científicos, talvez seja possível acabar prescindindo dos modelos animais. Mas ainda há um longo caminho a ser percorrido.

Fonte: Aleteia

médico aborto

A Igreja Católica diz que a falta de tolerância pela objecção de consciência é um risco não só para os católicos como para todos.

Um médico polaco foi despedido do seu cargo à frente de uma maternidade por se ter recusado a fazer um aborto.

O caso remonta a Abril deste ano quando uma mulher grávida, cujo nascituro tinha sido diagnosticado com graves deficiências na cabeça e no cérebro, pediu para fazer um aborto.

Bogdan Chazan, o director da maternidade, recusou-se a fazê-lo e também não indicou à mulher grávida onde se deveria dirigir para poder abortar. O médico é acusado ainda de não ter aconselhado a sua paciente sobre os prazos legais para poder praticar o aborto.

A mulher, que acabou por dar à luz, queixou-se do médico, que invoca razões de consciência para não colaborar materialmente com qualquer forma de aborto.

A presidente da Câmara de Varsóvia, Hanna Gronkiewicz-Waltz, resolveu por isso despedir o médico.

Já antes, o caso chegou a ser comentado pelo primeiro-ministro, que disse que os médicos que tivessem problemas de consciência em seguir a lei deveriam abandonar a profissão.

Mas a Igreja Católica na Polónia já saiu em defesa de Bogdan Chazan, dizendo que o despedimento é um “precedente perigoso que fere os direitos não só dos católicos, mas de todas as pessoas”.

A Polónia permite abortos até às 24 semanas em caso de malformação. Não é claro porque é que o casal esperou tanto tempo até tomar a sua decisão, nem porque razão não procuraram outro profissional para fazer o aborto.

Fonte: http://www.portugalnews.pt/