“O aborto jamais pode ser considerado um direito da mulher ou do homem, sobre a vida do nascituro”, afirmam os bispos.

cnbb aborto

Na tarde desta terça-feira, a presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) emitiu Nota Oficial “Pela vida, contra o aborto”. Os bispos reafirmam posição firme e clara da Igreja “em defesa da integralidade, inviolabilidade e dignidade da vida humana, desde a sua concepção até a morte natural” e, desse modo lembra condenam “todas e quaisquer iniciativas que pretendam legalizar o aborto no Brasil”.

“O direito à vida permanece, na sua totalidade, para o idoso fragilizado, para o doente em fase terminal, para a pessoa com deficiência, para a criança que acaba de nascer e também para aquela que ainda não nasceu”, sublinham os bispos.

Os bispos ainda lembram que “o respeito à vida e à dignidade das mulheres deve ser promovido, para superar a violência e a discriminação por elas sofridas. A Igreja quer acolher com misericórdia e prestar assistência pastoral às mulheres que sofreram a triste experiência do aborto”.  E afirmam: “A sociedade é devedora da mulher, particularmente quando ela exerce a maternidade”.

Atitudes antidemocráticas

Na Nota, os bispos afirmam: “Neste tempo de grave crise política e econômica, a CNBB tem se empenhado na defesa dos mais vulneráveis da sociedade, particularmente dos empobrecidos. A vida do nascituro está entre as mais indefesas e necessitadas de proteção. Com o mesmo ímpeto e compromisso ético-cristão, repudiamos atitudes antidemocráticas que, atropelando o Congresso Nacional, exigem do Supremo Tribunal Federal-STF uma função que não lhe cabe, que é legislar”.

A CNBB pede: “O Projeto de Lei 478/2007 – “Estatuto do Nascituro”, em tramitação no Congresso Nacional, que garante o direito à vida desde a concepção, deve ser urgentemente apreciado, aprovado e aplicado”. E conclama: as “comunidades a unirem-se em oração e a se mobilizarem, promovendo atividades pelo respeito da dignidade integral da vida humana”.

Leia a Nota:

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL

Presidência

NOTA DA CNBB PELA VIDA, CONTRA O ABORTO

“Não matarás, mediante o aborto, o fruto do seu seio”

(Didaquê, século I)

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, através da sua Presidência, reitera sua posição em defesa da integralidade, inviolabilidade e dignidade da vida humana, desde a sua concepção até a morte natural . Condena, assim, todas e quaisquer iniciativas que pretendam legalizar o aborto no Brasil.

O direito à vida é incondicional. Deve ser respeitado e defendido, em qualquer etapa ou condição em que se encontre a pessoa humana. O direito à vida permanece, na sua totalidade, para o idoso fragilizado, para o doente em fase terminal, para a pessoa com deficiência, para a criança que acaba de nascer e também para aquela que ainda não nasceu. Na realidade, desde quando o óvulo é fecundado, encontra-se inaugurada uma nova vida, que não é nem a do pai, nem a da mãe, mas a de um novo ser humano. Contém em si a singularidade e o dinamismo da pessoa humana: um ser que recebe a tarefa de vir-a-ser. Ele não viria jamais a tornar-se humano, se não o fosse desde início. Esta verdade é de caráter antropológico, ético e científico. Não se restringe à argumentação de cunho teológico ou religioso.

A defesa incondicional da vida, fundamentada na razão e na natureza da pessoa humana, encontra o seu sentido mais profundo e a sua comprovação à luz da fé. A tradição judaico-cristã defende incondicionalmente a vida humana. A sapiência  e o arcabouço moral  do Povo Eleito, com relação à vida, encontram sua plenitude em Jesus Cristo . As primeiras comunidades cristãs e a Tradição da Igreja consolidaram esses valores . O Concílio Vaticano II assim sintetiza a postura cristã, transmitida pela Igreja, ao longo dos séculos, e proclamada ao nosso tempo: “A vida deve ser defendida com extremos cuidados, desde a concepção: o aborto e o infanticídio são crimes abomináveis” .

O respeito à vida e à dignidade das mulheres deve ser promovido, para superar a violência e a discriminação por elas sofridas. A Igreja quer acolher com misericórdia e prestar assistência pastoral às mulheres que sofreram a triste experiência do aborto. O aborto jamais pode ser considerado um direito da mulher ou do homem, sobre a vida do nascituro. A ninguém pode ser dado o direito de eliminar outra pessoa. A sociedade é devedora da mulher, particularmente quando ela exerce a maternidade. O Papa Francisco afirma que “as mães são o antídoto mais forte para a propagação do individualismo egoísta. ‘Indivíduo’ quer dizer ‘que não se pode dividir’. As mães, em vez disso, se ‘dividem’ a partir de quando hospedam um filho para dá-lo ao mundo e fazê-lo crescer” .

Neste tempo de grave crise política e econômica, a CNBB tem se empenhado na defesa dos mais vulneráveis da sociedade, particularmente dos empobrecidos. A vida do nascituro está entre as mais indefesas e necessitadas de proteção. Com o mesmo ímpeto e compromisso ético-cristão, repudiamos atitudes antidemocráticas que, atropelando o Congresso Nacional, exigem do Supremo Tribunal Federal-STF uma função que não lhe cabe, que é legislar.

O direito à vida é o mais fundamental dos direitos e, por isso, mais do que qualquer outro, deve ser protegido. Ele é um direito intrínseco à condição humana e não uma concessão do Estado. Os Poderes da República têm obrigação de garanti-lo e defendê-lo. O Projeto de Lei 478/2007 – “Estatuto do Nascituro”, em tramitação no Congresso Nacional, que garante o direito à vida desde a concepção, deve ser urgentemente apreciado, aprovado e aplicado.

Não compete a nenhuma autoridade pública reconhecer seletivamente o direito à vida, assegurando-o a alguns e negando-o a outros. Essa discriminação é iníqua e excludente; “causa horror só o pensar que haja crianças que não poderão jamais ver a luz, vítimas do aborto” . São imorais leis que imponham aos profissionais da saúde a obrigação de agir contra a sua consciência, cooperando, direta ou indiretamente, na prática do aborto.

É um grave equívoco pretender resolver problemas, como o das precárias condições sanitárias, através da descriminalização do aborto. Urge combater as causas do aborto, através da implementação e do aprimoramento de políticas públicas que atendam eficazmente as mulheres, nos campos da saúde, segurança, educação sexual, entre outros, especialmente nas localidades mais pobres do Brasil. Espera-se do Estado maior investimento e atuação eficaz no cuidado das gestantes e das crianças. É preciso assegurar às mulheres pobres o direito de ter seus filhos. Ao invés de aborto seguro, o Sistema Público de Saúde deve garantir o direito ao parto seguro e à saúde das mães e de seus filhos.

Conclamamos nossas comunidades a unirem-se em oração e a se mobilizarem, promovendo atividades pelo respeito da dignidade integral da vida humana.

Neste Ano Mariano Nacional, confiamos a Maria, Mãe de Jesus, o povo brasileiro, pedindo as bênçãos de Deus para as nossas famílias, especialmente para as mães e os nascituros.

Brasília-DF, 11 de abril de 2017.

Cardeal Sergio da Rocha

 Arcebispo de Brasília

Presidente da CNBB

             Dom Murilo S. R. Krieger, SCJ

 Arcebispo de São Salvador

Vice-Presidente da CNBB

Dom Leonardo U. Steiner, OFM

Bispo Auxiliar de Brasília

Secretário-Geral da CNBB

Fonte: http://www.movida.org.br/

Quando ter filhos? Quantos filhos ter? Como fazer para manter o controle sobre isso sem agir de forma imoral ou fragilizar a relação conjugal? É o exercício da paternidade responsável que nos ajuda nessa vivência.

Existem parâmetros que nos auxiliam a nortear a decisão sobre quando ter filhos e o casal tem absoluta autonomia para decidir sobre essa questão, desde que guarde a justa medida da generosidade.

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A encíclica humanae vitae nos ajuda a entender esses aspectos:
Em relação às condições físicas, econômicas, psicológicas e sociais, a paternidade responsável exerce-se tanto com a deliberação ponderada e generosa de fazer crescer uma família numerosa, como com a decisão, tomada por motivos graves e com respeito pela lei moral, de evitar temporariamente, ou mesmo por tempo indeterminado, um novo nascimento.” Humanae Vitae, n.10

“Meus bíceps agradecem quando o composto químico funciona, para matar o feto antes de retirá-lo”, disse a médica em um vídeo flagrante, explicando que o desmembramento de um bebê “exige força”.

Um novo vídeo flagrante, divulgado pelo Centro de Progresso Médico, mostra a diretora médica de uma clínica da ‘Planned Parenthood’ (rede abortista dos EUA) descrevendo graficamente como coletar as partes do corpo de um bebê durante um aborto tardio.

A Dra. DeShawn Taylor confirmou que faz abortos eletivos em fetos saudáveis de até 24 semanas. Ela disse ao investigador disfarçado que quando o bebê é retirado, ela tem que se preocupar sobre como sua equipe e outras pessoas se sentem diante de um aborto tardio, porque muitas vezes o corpo da criança já está em boa parte formado.

Taylor explicou que, no Arizona, se um feto sai da barriga da mãe com qualquer sinal de vida, ele deve ser transportado para um hospital. No entanto, quando questionada pelo investigador se há um procedimento padrão para verificar a existências de sinais vitais no bebê, o Dr. Taylor responde: “Bem, a coisa é, quero dizer, a chave é, você precisa prestar atenção em quem está na sala”.

Uma substância química chamada digoxina é frequentemente usada em abortos, para garantir que o bebê morra ainda dentro da barriga da mãe. No entanto, quando partes do corpo fetal são coletadas para venda – crime cujo funcionários da ‘Planned Parenthood’ já foram flagrados praticando – o produto químico não pode ser usado, pois danifica os membros do feto. Taylor observou que prefere usar a digoxina porque não requer tanta força muscular.

“Meus bíceps agradecem quando o composto químico funciona, para matar o feto antes de retirá-lo. Eu me lembro de quando eu era uma funcionária da ‘Planned Parenthood’ e estava em treinamento. Eu pensava: ‘Nossa! Eu tenho que frequentar a academia e fazer musculação para terminar isso”, disse Taylor ao investigador que usava uma câmera escondida.

A compra ilegal de tecido fetal humano (partes de corpos de bebês abortados) é considerada um crime federal nos EUA, punível com até 10 anos de prisão ou multa de até US$500.000.

O líder do projeto pró-vida ‘Centro de Progresso Médico’, David Daleiden, disse que esta filmagem recente mostra faz parte de uma investigação sobre médicos da ‘Planned Parenthood’, dispostos a vender partes dos corpos de bebês abortados para centros de pesquisas (para cosméticos e outras finalidades) e lucrarem com isso. Para ganhar mais dinheiro, os profissionais das clínicas se propõem a usar ferramentas especiais para deixar os membros dos bebês intactos.

“As autoridades do país devem parar de forçar os contribuintes a subsidiarem a indústria criminosa do aborto que é a ‘Planned Parenthood’, e o Departamento de Justiça deve abrir imediatamente uma investigação completa e processar esta rede abortista até o máximo da lei”, disse Daleiden.

O senador James Lankford, de Oklahoma, falou sobre os vídeos sobre a ‘Planned Parenthood’ nas mídias sociais.

“A ciência mostrou que as crianças de 20 semanas de idade já podem sentir dor, mas essas mesmas crianças são submetidas a abortos horríveis, sendo esmagadas e desmembradas. Alguns bebês, embora milagrosamente, sobrevivam a um aborto, em vez de receberem cuidados de salvamento, são abandonados em morrem em uma nas clínicas. É hora de aprovar a Lei de Proteção da Criança Não-Nascida e a Lei de Proteção aos Sobreviventes de Aborto Nascidos Vivos. Não podemos ser uma nação que faz isso com nossos filhos”, declarou.

Clique no vídeo abaixo para conferir o flagrante (em inglês):

FONTE: guiame.com.br

É indiscutível que a maior vocação de um casal é ter filhos e educá-los! Os filhos são o maior dom na vida de um casal. Eles nos alegram, dão novo sentido a nossa vida, mudam nossas perspectivas, nos fazem mergulhar num profundo auto-conhecimento e elevam enormemente nossa capacidade de amar e sermos amados!

Mas filhos são dons que recebemos por meio de um ato próprio que nos foi dado por Deus para gerá-los. Não somos seus donos, mas somos responsáveis por sua chegada e esse discernimento passa pelo que chamamos de PATERNIDADE RESPONSÁVEL.

Quando ter filhos? Quantos filhos ter? Como fazer para manter o controle sobre isso sem agir de forma imoral? É o exercício da paternidade responsável que nos ajuda nessa vivência.

A encíclica Humanae Vitae diz o seguinte em seu parágrafo 10:
“Em relação às tendências do instinto e das paixões, a paternidade responsável significa o necessário domínio que a razão e a vontade devem exercer sobre elas.”

Como lidar com as paixões? Como colocar ordem em nossos instintos para que não nos tornemos escravos deles? É preciso ser LIVRE!

Como viver a liberdade diante de nossas paixões e sermos donos de nós mesmos?

Assista e entenda!

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Por Renato Varges

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Quando ter filhos? Quantos filhos ter? Como fazer para manter o controle sobre isso sem agir de forma imoral? É o exercício da paternidade responsável que nos ajuda nessa vivência.

A encíclica Humanae Vitae diz o seguinte em seu parágrafo 10:

Em relação com os processos biológicos, paternidade responsável significa conhecimento e respeito pelas suas funções: a inteligência descobre, no poder de dar a vida, leis biológicas que fazem parte da pessoa humana.” (HV,10)

Como colocar isso em prática? Que leis biológicas são essas e para que servem? Como usar bem a minha inteligência para viver a paternidade responsável?

Assista a mais um vídeo de nossa série sobre a Paternidade Responsável:


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Quantos filhos devemos ter? Quando ter? Se a decisão é espaçar um pouco os nascimentos, como fazer para viver a necessária e sadia vida sexual de forma lícita e moral, mas evitando a chegada de novos herdeiros?
Quando o assunto é filhos, entra em cena o que chamamos de PATERNIDADE RESPONSÁVEL. É por meio dela que o casal determina os meios e as ações que lançarão mão para decidir a respeito dos filhos, evitando a contracepção e as armadilhas da mentalidade contraceptiva.

 

 

Neste vídeo daremos início a uma sequência onde falaremos sobre a paternidade responsável e tudo aquilo que a envolve para que seja vivida corretamente pelo casal.

A encíclica Humanae Vitae começa sua explicação sobre a Paternidade responsável da seguinte maneira:

Sendo assim, o amor conjugal requer nos esposos uma consciência da sua missão de “paternidade responsável”, sobre a qual hoje tanto se insiste, e justificadamente, e que deve também ela ser compreendida com exatidão. De fato, ela deve ser considerada sob diversos aspectos legítimos e ligados entre si.Humanae Vitae, n.10

Por Renato Varges

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Quando nos casamos, sem dúvida queremos ser felizes e o matrimônio é, por excelência, um caminho de comprovada felicidade e realização para quem é chamado a vivê-lo. Fazer quem nós amamos feliz é um projeto de vida nobre e excelente.

Quando homem e mulher prometem mutuamente uma aliança de amor por toda vida, este compromisso é sacramentado diante de Deus e dos homens e os dois tornam-se UMA SÓ CARNE!

 

Mas, quando é que se consuma o SER UMA SÓ CARNE do casal? No ato conjugal! Ali os esposos se unem, afirmam, renovam, fortalecem e edificam o amor prometido no altar. No entanto, o amor de um casal, na sua expressão mais bela e elevada, realizada por meio do ato conjugal, não está apontado apenas um ou para outro, mas para os frutos desse amor e dessa união. O SER UMA SÓ CARNE DE UM CASAL se concretiza e se expressa na geração e educação dos filhos. Eles são o maior dom na vida de um casal.

A encíclica Humanae Vitae diz no parágrafo 9:
“O matrimônio e o amor conjugal estão por si mesmos ordenados para a procriação e educação dos filhos. Sem dúvida, os filhos são o dom mais excelente do matrimônio e contribuem grandemente para o bem dos pais”.

Neste vídeo explico por que os filhos são este dom tão maravilhoso e excelente. Falo também do sentido que os filhos dão ao matrimônio, à vida conjugal e motivo aos casais que não tenham medo de se abrir aos filhos, pois foi pra isso que se uniram em santo matrimônio!

 

Por Renato Varges
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esquerda

Outro dia desses bombou no Twitter a hashtag #PrecisamosFalarSobreAborto. A temática do aborto deixou de ser periférica ou juízo de valor em meio a propostas mais concretas, por seu apelo popular quase nulo, para estar sob os principais holofotes dos debates políticos. A esquerda empurrou a agenda progressista do aborto para o proscênio, dando a impressão hoje de que não há tema político mais urgente na boca do povo do que a legalização do aborto.

O maior filósofo político de todos os tempos, Eric Voegelin, recomendava o exercício da Anamnese, o “esquecimento” das nossas próprias convicções e idéias estabelecidas, para conseguirmos enxergar a realidade de maneira mais pura, buscando a origem de nossos pensamentos – aquilo que Thomas Sowell demonstra bem sobre idéias de direita e de esquerda em Conflito de Visões. Parece que o caso com o aborto nunca foi feito no Brasil.

Proletários vendem a prole

A esquerda surge da idéia de que a Revolução Industrial permitiu um avanço em relação à aristocracia feudal, mas gerou uma nova classe social: os proletários, pessoas que só tinham a prole para “vender” como força de trabalho, na miséria associada à Revolução Industrial.

O mundo anterior à industrialização, contudo, era um mundo em que tais crianças nasciam e morriam às pencas no ambiente agrário e de “harmonia com a natureza” sem penicilina e tantas invenções da Revolução Industrial, sem as quais uma simples infecção ou virose geraria uma morte lenta e dolorosa.

A mortalidade infantil pré-Revolução Industrial em algumas regiões européias ultrapassava os 80%. Aquelas crianças que vemos em filmes que formam nosso imaginário (e, por conseguinte, nossos sentimentos) sobre o “horror” da Revolução Industrial eram, na verdade, sobreviventes. A industrialização e suas benesses permitia que a tradicional extensa prole campesina sobrevivesse, o que nunca foi esperado pelas camadas desassistidas da população.

É a primeira lição que Ludwig von Mises, o maior economista do mundo, ensina em suas palestras para não economistas, compiladas no opúsculo As Seis Lições. Com a definição correta dos termos, a mágica do sentimentalismo da visão até hoje ainda derivada do marxismo se obnubila. Ao contrário do apocalipse profetizado por Marx, ao invés de os ricos ficarem mais ricos e os pobres mais pobres com o capitalismo, a renda média do trabalhador inglês foi multiplicada por 40 em um século de Revolução Industrial.

Contudo, o apelo psicológico em falar de “proletários”, mesmo quando eles rapidamente deixaram de existir (não sendo sinônimo de “pobres”), permanece. Até Ernesto Laclau, marxista argentino envolvido nos modelos de agitação política como junho de 2013, hoje preconiza que é o discurso que cria a classe, já que elas não existem na vida real. Assim, qualquer rico pode se considerar “proletário” para manter a propaganda.

Mas como uma ideologia que nasceu com o apelo ao sofrimento da prole pode, no golpe seguinte, defender o aborto como uma causa progressista?

O Estado se torna maior do que a família

Mesmo naquilo que foi chamado de Absolutismo pelos historiadores, o núcleo da sociedade permaneceu sendo a família. Já no Manifesto Comunista, Karl Marx e Friedrich Engels diagnosticam que a nova sociedade progressista precisa retirar o poder da família, com todos os seus valores tradicionais, para transferir toda a organização social para o Estado. Os filhos não seriam mais criados por pai e mãe, amando avós e parentes, mas sim em barracões, coletivamente, como “companheiros”.

O “modelo de gestão” tentou ser aplicado já no início da Revolução Russa: Orlando Figes, talvez o maior estudioso contemporâneo do período soviético, conta em Sussurros: A vida privada na Rússia de Stalin, que a tentativa de aplicar o socialismo na Rússia agrária sempre esbarrava na família, famélica, mas rigorosamente contrária ao totalitarismo socialista:

Como viam os bolcheviques, as famílias eram o maior obstáculo à socialização das crianças. “Por amor a criança, a família a torna um ser egotista, encorajando-a a ver-se como o centro do universo”, escreveu a pensadora educacional soviética Zlata Lilina. Teóricos bolcheviques concordavam com a necessidade de substituir esse “amor egotista” pelo “amor racional” de uma “família social” mais ampla. O ABC do comunismo (1919) vislumbrava uma sociedade futura na qual os pais deixariam de utilizar a palavra “eu” em referência a um filho, pois se importariam com todas as crianças na comunidade. (…)

A noção pedagógica de hoje, como o debate público brasileiro escancarou, voltou ao modelo soviético que nem mesmo a União Soviética conseguiu consubstanciar. Pedagogos do porte de Marilena Chaui repetem o que apenas a China maoísta e a Coréia Norte dos Kim conseguiu consubstanciar.

Em uma sociedade em que o Estado, e não o núcleo familiar, é controlador e diretor, a empatia pelos entes e pelos infantes e mais fracos, o “amor egotista”, é substituída pelo pragmatismo do planejamento central, o “amor racional”. Nesta sociedade, o valor do indivíduo não é mais sentimental, como na aristocracia ou no romantismo: o indivíduo é visto como peça de uma engrenagem, pela sua utilidade para o sistema.

Se um indivíduo não poderia ser produtivo – por exemplo, nascesse com deficiências de mobilidade – seu destino era ser abortado da sociedade. Ao invés da empatia, do pathos – a paixão cristã, o “Vinde a mim, todos cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei” (Mt 11:28) –, tratava-se antes de auferir o indivíduo pelo seu valor para o Estado, como ser produtor e trabalhador para a sociedade comum.

O racionalismo da Revolução Francesa até a Revolução Russa esquece-se que racionalmente, há argumentos para mandar deficientes físicos, filhos indesejados, idosos e doentes para a vala comum. O que os mantém vivos nas sociedades judaico-cristãs não são argumentos: é a empatia.

Da mesma forma que a escravidão permitia condições sub-humanas para os escravos negando sua vida, o Estado diretor pode negar o valor de “vida” a qualquer “amontoado de células” que julgar conveniente, escorraçando a família a uma cria do capitalismo – para Marx, a família só existe para proteger a propriedade; a Escola de Frankfurt que nota o erro e inverte a noção marxista de infra-estrutura e superestrutura, passando a atacar a família, e não a propriedade, ao perceber corretamente que esta que só existe para proteger aquela.

Rapidamente, com a noção de sagrado e profano imiscui-se em uma só, a vida se torna matéria-prima (“força de trabalho”), gerenciada em planilhas e os Estados totalitários e seu controle social absoluto legalizam o aborto com rapidez espantosa. Esta é uma das críticas de Nassim Nicholas Taleb em Antifrágil: coisas que ganham com o caos: sistemas baseados em alma, e não apenas em pele, acabam possuindo uma moralidade e um arranjo social incrivelmente superior.

Nossa pedagogia, que de Zlata Lilina a Marilena Chaui (ambas ainda em nível pré-Escola de Frankfurt) se foca tão fortemente na destruição da família para o controle estatal absoluto, acha estranho a noção de que o nazismo, mesmo sendo abreviação de nacional-socialismo, seja uma espécie de socialismo (foi apelidado a posteriori de “extrema-direita” justamente por socialistas como E. P. Thompson, um dos que notou ser impossível distinguir na realidade proletários de burgueses).

O nazismo, “gêmeo heterozigoto” do socialismo, segundo feliz expressão do historiador Pierre Chaunu, praticou exatamente o mesmo que o socialismo com sua sociedade dirigida, apenas seguindo o “princípio do nacionalismo”, como explica o fascista convertido do socialismo Robert Michels.

Para os nazistas, os “elementos estrangeiros”, como judeus e ciganos, seriam uma não-vida, algo inútil e improdutivo (ciganos) ou êmulo do sistema (judeus e seu capitalismo mercantil burguês). Como mesmo “arianos” com deficiências físicas, no sistema de guerra, eram vistos como pouco menos do que cartas a serem descartadas, a “solução final” para judeus e ciganos não poderia ser muito diferente de um aborto coletivo, uma eutanásia en masse.

Socialistas e nacional-socialistas, voltando à adoração aos rituais de sacrifício de Moloch, passam à admiração exabundante do corpo. Uma das primeiras medidas de ambos é a legalização do sacrifício de “fetos”, considerados “não pessoas” para o sistema. O aborto, ao contrário do que a propaganda de esquerda tenta fazer crer, nasce como uma proposta racista.

Aborto e racismo

Se o Estado deve gerir a sociedade, e não mais o “amor egotista” da família e seus valores ultrapassados geridos pelo “capital” e pelo “ópio do povo”, a pragmática de uma “vida profissional” se sobrepõe à sacralidade de uma vida. Além dos argumentos hedonistas, que determinam a tônica do debate político contemporâneo, o argumento é defendido pela ótica de que uma mulher não é obrigada a dar continuidade a uma gravidez indesejada.

É a linguagem totalitária, como estudada por Viktor Klemper sobre a Linguagem do Terceiro Reich, com um eufemismo forçoso para “matar uma criança no útero”, transmutada para um agradável e singelo “interromper uma gravidez”, como se interrompe uma música desagradável no rádio.

O paradigma para o aborto no Ocidente, contudo, não poderia se espelhar no totalitarismo socialista ou nacional-socialista. Prefere-se então olhar para o mundo livre, usando-se sempre como exemplo da “normalidade” do aborto a sua prática no coração do capitalismo: a América.

O aborto nos Estados Unidos é permitido até qualquer momento até o nascimento. Estima-se que mais de 1 milhão de abortos são realizados anualmente. Como lembra a página Escolástica da Depressão,

O aborto foi extensamente legalizado depois da farsa Doe x Bolton e Roe x Wade, onde Mary Doe, que era de origem humilde e sem instrução, foi pressionada pela advogada e por sua mãe a abortar seu quarto filho. Já Jane Roe mentiu ter sido violentada e foi militante abortista por anos, hoje trabalha para esclarecer as mulheres sobre as conseqüências de se fazer um aborto.

Roe x Wade é um caso estudado no mundo inteiro não pelo seu conteúdo, mas pela forma: foi o maior caso de ativismo judicial da História, quando juízes inventam leis de estro próprio, que não foram debatidas, eleitas e decididas pela população.

O que pouco se comenta é que a farsa, nunca “desfeita” mesmo depois de o público descobrir a tramóia que permitiu a jurisprudência para o aborto ser legalizado, tinha como objetivo o aborto de negros, para que se diminuísse seu percentual na população. Continua a página:

A Planned Parenthood é a maior clinica de aborto do mundo e foi acusada recentemente de vender as partes do corpo de bebês abortados, inclusive preferiam abortos cujo crânio do feto fosse preservado, pois o valor era mais alto.

A Planned Parenthood foi criada pela feminista Margareth Sanger. Sanger era membro da Klu Klux Klan, declaradamente racista, tinha como objetivo em fundar a clinica de abortos para reduzir a população negra americana. Hoje a maioria das clinicas da PP se encontra nas periferias onde predomina negros.

A esquerda americana, com o mesmo vezo pelo controle da sociedade que os soviéticos ou os nazistas e suas ganas pelo aborto, também queria controlar a população.

Sem os floreios “multiculturalistas” que a propaganda revolucionária ganha no exótico Terceiro Mundo, a esquerda americana, que já foi contra o fim da escravidão (o Partido Republicano foi criado para abolir a escravidão, o que conseguiu com Abraham Lincoln), os indivíduos “improdutivos” da sociedade dirigida, do “amor racional” e da “causa social” eram reconhecidos como a população negra, sempre se focando na alta criminalidade encontrada em bairros negros.

Para a massa falante brasileira, acostumada a associar “racismo” imediatamente à direita conservadora (sem perceber que Lincoln aboliu a escravidão na América e o maior conservador brasileiro, Joaquim Nabuco, foi o líder abolicionista no Brasil), ainda acreditando que o nazismo é uma “extrema-direita” (como se eles próprios assim se enxergassem e se definissem), é chocante perceber que a Ku Klux Klan era e é, na verdade, um braço paramilitar do Partido Democrata, que enxerga nos negros “parasitas” de um sistema social, algo como “não merecedores do Bolsa Família” que querem para si. Tal como os nazistas, são chamados de “extremistas de direita”, sem terem qualquer conexão com a direita, os conservadores ou o Partido Republicano.

O historiador George C. Rable define que a KKK só foi “descartada” pelo Partido Democrata quando falhou como braço armado para derrotar os sulistas Republicanos, e sua apreciação por God, Family, Country.

O historiador Eric Foner declara sem meias palavras que a Ku Klux Klan é “uma força militar servindo aos interesses do Partido Democrata”. O líder da KKK Nathan Bedford Forrest declarou ainda no século XIX que os principais inimigos da Ku Klux Klan eram as Union Leagues do Partido Republicano na Guerra Civil ou o governador republicano William Gannaway Brownlow. Desconhecendo completamente a verdadeira história, a esquerda brasileira, que tanto grita “vá estudar História”, acredita que basta associar “racismo” à direita e crer que a KKK é um grupo de extrema-direita, a um só tempo em que defende o aborto, a tônica da própria KKK.

Para a moralidade esquerdista, dessacralizada e racionalista (ao contrário do que seus críticos usualmente afirmam, a esquerda é mais “intelectual” do que a direita, mas tenta intelectualizar e “problematizar” até o valor indiscutível da vida), tudo se resume a uma injustiça de poderosos privilegiados contra oprimidos explorados. Daí surge a grita por feminismo, ou contra preconceitos, cada vez menos delimitados.

É normal hoje ver o movimento negro, anti-racista, gritar que o aborto deve ser legalizado pois muitas mulheres negras morrem fazendo abortos clandestinos. Sem notar que ignoraram a vida de seus filhos, acabam comprando uma propaganda que veio diretamente da Ku Klux Klan para fazer o controle populacional da população negra, aquela que seria “mais criminosa” por ter mais filhos.

Entre o feminismo e o racismo, quando colocados na realidade lado a lado, como fica o discurso progressista para defender o aborto?

Aborto e o globalismo de George Soros

A idéia da sociedade dirigida e controlada pelo Leviatã moderno em escala global não é estudada no Brasil. Trata-se do globalismo, que já apresentemos no 10.º episódio de nosso podcast: Não é você que pensa o que pensa – George Soros pensa por você.

Uma hashtag como #PrecisamosFalarSobreAborto não dispara para o primeiro lugar dos Trending Topics do dia para a noite sem planejamento, pela “horizontalidade” das redes. Basta ver quem teve um planejamento estratégico para usá-la e repeti-la, para o público em geral crer que ele próprio é que pensou na questão e foi protagonista de seu destino e dono de suas próprias idéias. Mais uma vez, a página Escolástica da Depressão:

George Soros, um metacapitalista americano, financiador a PP, da candidata à presidenda dos EUA Hillary Clinton, financia também grupos militantes pela legalização do aborto, como “Católicas” pelo direito de decidir, Mídia “Independente” Ninja e Quebrando o Tabu. Qual o interesse dele na legalização do aborto no Brasil?

Sob argumentos “científicos” como “se não há sistema nervoso desenvolvido, pode abortar”, pesquisas financiadas por fundações globalistas, como a Open Society, sempre chancelam a prática do aborto como normal, natural e mesmo saudável. Seu linguajar é sempre eufemístico, ultrapassando as raias do ridículo, como falar em “controle geracional” para não usar a temível palavra aborto. Suas “conclusões” científicas são aquelas que aparecem coincidentemente em sites e blogs progressistas antes de qualquer publicação científica onde possa haver debate.

Por fim, mais um parágrafo da Escolástica da Depressão:

Dr. Bernard Nathason, conhecido o Rei do Aborto, responsável por mais de 50.000 abortos nos EUA, ele afirmou que eles mentiam dados, inflavam o número de aborto para afirmar que era caso de saúde pública.

A sociedade de controle total pode não ter mais a forma soviética: planificação total da economia (George Soros não é senão um hiperinvestidor), Gulags e o totalitarismo aberto. Mas basta analisar a linguagem moderna, “livre”, que sabe o quão ridículo é se definir como “comunista”, mas defende ainda o mesmo que os pedagogos soviéticos cada vez mais desabridamente na sociedade para pregar rigorosamente o mesmo.

É uma nova forma de 1984, de George Orwell. O ministério da Verdade de 2016 é feito pela própria Rede Globo, para que a esquerda grite no segundo seguinte que “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”, que divulga o mesmo globalismo de George Soros.

Enquanto a esquerda usa pais de família pobres como propaganda, prega entre os seus a destruição da família para seu objetivo de controle social total.

Enquanto a esquerda grita contra o racismo, prega um modelo de controle populacional para diminuir o percentual de negros, até apoiando-se no argumento racista da criminalidade futura.

Enquanto a esquerda fala em “feminismo”, ignora a feminilidade mais suprema: a maternidade e a empatia por um filho.

Enquanto a esquerda prega a defesa do oprimido sem privilégio, prega a matança da minoria mais desprotegida que existe: uma criança na barriga da mãe, enxergada apenas como um “amontoado de células”, como os nazistas enxergam os judeus.

 

Flavio Morgenstern

sensoincomum.org

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Admirável Mundo Novo, escrito por Aldous Huxley e publicado em 1932, narra a história de uma sociedade futurista, em que seus habitantes passam por um pré-condicionamento biológico e psicológico para que vivam em harmonia com as leis sociais e com um sistema de castas. O objetivo maior é manter a ordem, mesmo que para isso todos passem por uma grande lavagem cerebral, eliminando qualquer senso de individualidade ou de consciência crítica sobre a realidade. Apesar de ter sido escrito há mais de 80 anos, Admirável Mundo Novo se mostra, em muitos momentos, extremamente atual, levantando questionamentos sobre a vida contemporânea e sobre os desafios para o futuro da humanidade. Com personagens complexos, a narrativa envolve o leitor em um universo hipotético, mas passível de diversas comparações com todas as mudanças pelas quais o mundo tem passado ao longo das últimas décadas.
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Enredo

Todos os núcleos da história mostram a grande oposição entre o primitivo e o moderno. Com o grande avanço tecnocientífico, os personagens nascem em um ambiente controlado e preparado desde a sua gestação, que ocorre no “Centro de Incubação e Condicionamento de Londres Central”. Na trama, toda a população é gerada a partir de reprodução artificial e manipulada geneticamente para atender às especificidades necessárias para cada grupo de pertencimento pré-determinado (Alfa+, Alfa, Beta+, Beta, Gama, Delta ou Épsilon). Dentre todos os personagens, o livro destaca a história de Bernard Marx, que apesar de pertencer à elite genética, por um defeito durante a sua gestação acabou saindo diferente dos demais. Diante disso, o homem acaba por se sentir excluído, rebelando-se contra o sistema pelo qual se sente injustiçado. Em uma viagem a uma reserva primitiva, Bernard se depara com Linda, uma mulher que havia nascido na civilização, mas que fora banida para essa espécie de “tribo indígena” por estar grávida (fato jamais aceito ou pensado pela sociedade de Admirável Mundo Novo). Além de Linda, Bernard conhece seu filho, John, chamado de “Selvagem”, com quem se afeiçoou. Porém, não foi a empatia o que despertou o interesse de Bernard, já que levar o “Selvagem” para a civilização lhe renderia prestígio diante da sociedade científica. A chegada de Linda e John nas terras da modernidade causam horror e fascínio nos habitantes do “mundo novo”. Os dois eram vistos como verdadeiras aberrações, e John, com sua capacidade crítica, acaba por ameaçar a ordem e a estabilidade do ambiente ao qual não pertencia.

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Reprodução Humana  Fertilização in vitro

Em Admirável Mundo Novo, todos os bebês são gerados artificialmente, já que o sexo, na sociedade da história, serve unicamente para o prazer de seus habitantes. Dentro do “Centro de Incubação e Condicionamento”, há um laboratório especial de fecundação, onde os óvulos e os espermatozoides recebem uma série de cuidados, simulando um ambiente com condições ideais para que a fecundação ocorra. Essa previsão de Aldous Huxley é realmente impressionante. Para se ter dimensão da história da fertilização in vitro, o primeiro bebê de proveta nasceu em 1978, mais de 40 anos depois que o autor escreveu o seu livro de ficção científica. É evidente que há uma série de discrepâncias entre a história contada por Huxley e a realidade, já que, no livro, os embriões se desenvolviam no próprio laboratório, enquanto que, na realidade, os pré-embriões são transferidos para o útero da mãe para que possam se desenvolver. Porém, nos últimos anos, cientistas têm criado verdadeiros úteros artificiais, onde tem sido possível acompanhar o crescimento embrional fora do corpo da mãe. No Japão, por exemplo, uma equipe tem criado incubadoras com líquido amniótico artificial, onde fetos de cabras têm se desenvolvido por aproximadamente três semanas. Apesar das pesquisas na área ainda estarem em seus estágios iniciais, nada impede sua evolução para que a realidade seja semelhante à de Aldous Huxley.

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Manipulação genética

A sociedade hipotética e científica de Huxley, além da reprodução in vitro, manipulava geneticamente os embriões para que os bebês nascessem com características pré-determinadas, de acordo com a sua casta. Dessa forma, toda a hereditariedade era cuidadosamente selecionada a partir do uso de gametas de homens e mulheres padronizados. Enquanto esse assunto não passava de especulações oriundas da mente do autor, hoje em dia a comunidade científica mundial tem passado por uma série de debates sobre a ética da manipulação genética: mais uma profecia de Admirável Mundo Novo. Nos últimos anos, a possibilidade de manipular geneticamente seres humanos se tornou realidade, e, apesar de todo o embate dos pesquisadores sobre o tema, no ano passado cientistas chineses criaram embriões humanos geneticamente modificados. A ideia da pesquisa é que genes defeituosos sejam consertados para que os embriões possam se desenvolver livres de doenças. Apesar dos benefícios que a tecnologia pode proporcionar, há também uma tendência de manipulação para que bebês nasçam com determinadas características físicas, e este é o assunto de maior polêmica entre os cientistas. A discussão é tão séria que até mesmo no Brasil há uma lei de biossegurança que proíbe “engenharia genética em célula germinal humana, zigoto humano e embrião humano”.

Programação Neurolinguística

Durante seu desenvolvimento, os habitantes de Admirável Mundo Novo passavam por treinamentos para condicionar seus pensamentos. De acordo com sua casta, diariamente os personagens recebiam informações para que desenvolvessem consciência sobre como deveriam ser e agir. Os pertencentes às castas superiores, por exemplo, passavam por treinamentos que visavam modelar as suas ações de forma que pudessem se comportar como membros de elite. É evidente que a comparação entre o método de condicionamento do universo de Huxley e o desenvolvimento da Programação Neurolinguística (ou PNL) se diferem em uma série de questões, mas é bastante interessante perceber que o autor foi capaz de prever métodos capazes de modificar comportamentos através de modelos mentais. Os estudos da PNL tiveram início dos anos 1970, momento em que foi percebido que existem “padrões externos, como comportamentos e linguagens específicas que [pessoas de sucesso] utilizavam, que as ajudavam a realizar suas atividades com excelência e influenciavam seus resultados. Eles também observaram que existiam padrões internos, como crenças e pressupostos, que eram poderosos recursos para o alcance do sucesso”, segundo a Sociedade Brasileira de Programação Neurolinguística. O pressuposto básico dos estudos na área é que, por trás dos comportamentos, há uma estrutura interna de pensamentos e emoções que impactam diretamente as ações das pessoas e, portanto, a partir das técnicas desenvolvidas pelos profissionais, é possível reprogramar a estrutura interna com foco em resultados. É claro que a ideia da programação de Huxley era a alienação e a sugestão de comportamentos, enquanto os neurolinguistas têm como objetivo proporcionar a reflexão crítica. Porém não é forçoso notar que, no livro, há claramente indícios de uma ciência que seria descoberta décadas depois e que trabalha exatamente com a influência dos padrões externos sobre os padrões internos.

Cinema 4DX

Ao longo da narrativa, nota-se a presença de uma tecnologia bastante recente. Uma das fontes de lazer dos personagens, no livro, era o que eles chamavam de “cinema sensível”. Enquanto assistiam aos filmes, os habitantes de Admirável Mundo Novo podiam experimentar as sensações reproduzidas na tela através de seus próprios sentidos, em uma experiência completamente interativa. Levando em conta que o cinema surgiu no final do século XIX, sendo, portanto, novidade ainda na época em que a obra foi escrita, Aldous Huxley previu uma tecnologia nova até mesmo para nós, mais de 80 anos antes. O cinema 4D faz exatamente o mesmo que o “cinema sensível”: proporciona experiências imersivas e interativas do público com o filme em ambientes de cinema equipados com tecnologias que visam alcançar todos os sentidos dos espectadores através da simulação do filme, que salta para a realidade.

 

Psicotrópicos

Um dos principais pontos da sociedade de Admirável Mundo Novo é o uso de um comprimido chamado Soma, que atua reduzindo a ansiedade, estresse e outros sentimentos negativos dos personagens, deixando-os em estado de relaxamento e alegria. O problema com isso é que o que se percebe, durante a narrativa, é uma completa falta de capacidade para lidar com sentimentos completamente naturais dos seres humanos, como a tristeza e a angústia. Tudo isso se assemelha bastante a um movimento originado no final dos anos 1980, com o lançamento do Prozac, que coincidentemente foi apelidado como “pílula da felicidade”. O Prozac, na realidade, é um antidepressivo que revolucionou o setor por não causar efeitos colaterais como os outros. Como o próprio nome diz, no entanto, o antidepressivo é utilizado em tratamentos, sendo indicado o seu uso apenas por médicos. Acontece que, nos últimos anos, houve um verdadeiro boom na psiquiatria, e diversos estudos da área têm apontado para o uso de psicotrópicos em pessoas completamente saudáveis. Os argumentos apontam para a sociedade atual enquanto incapaz de lidar com frustrações e com a infelicidade, e que, portanto, qualquer manifestação humana de sofrimento tem se tornado passível de medicação. Pensando a partir dessa perspectiva, a sociedade de Huxley, completamente dependente de Soma, não parece tão distante do movimento contemporâneo, onde as pílulas muitas vezes são vistas erroneamente como facilitadoras e propulsoras do bem-estar.

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Pastilhas de Estimulação Sexual, Anticoncepcionais e Rejuvenescimento
Foi só nos anos 1990 que o Viagra chegou ao mercado, revolucionando a vida sexual dos homens, e mais recentemente outros compostos vêm sendo testados nas mulheres. Mas no início da década de 30, os personagens criados por Aldous Huxley já experimentavam pastilhas que estimulavam a sexualidade. Além disso, durante a trama, percebe-se uma série de cuidados das personagens femininas em relação aos métodos contraceptivos prescritos pelo governo local, garantindo que elas não corressem o risco de se tornarem mães. Outro ponto interessante é a preocupação com a aparência dos personagens. A valorização da beleza, da juventude e o envelhecimento tardio se assemelham em muito com a cultura atual. Na trama, as pessoas idosas são esteticamente jovens, profissional e sexualmente ativas e desfrutam da vida como qualquer outro. Nas últimas décadas, a ciência tem investido na melhoria da qualidade de vida para os idosos, mas essa é uma preocupação recente, não dos anos 1930.

Matéria completa:

http://canaltech.com.br/materia/geek/admiravel-mundo-novo-previsoes-para-um-mundo-contemporaneo-67205/

 

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Estima-se que 200 milhões de meninas foram mortas sob o fenômeno do feminicídio. Como a comunidade internacional pode permitir tal genocídio?

A ONU considera que se perderam cerca de 200 milhões de meninas, a maioria na Índia e na China. Que modelos culturais e histórias individuais há detrás dessa assustadora estatística? Evan Grae Davis, um norte-americano que tem grande experiência nesse assunto, produziu um documentário que responde a muitas perguntas. Ele concedeu entrevista a “MercatorNet”.

É um filme angustiante: Como chegou a fazê-lo?

Evan Grae Davis: Eu tinha dedicado as duas últimas décadas a viajar pelo mundo recolhendo histórias de miséria humana para ONGs e entidades sem fins lucrativos de ajuda humanitária e desenvolvimento. Durante esse tempo, fui testemunha de muita injustiça. Comecei a me perguntar: quais são as raízes culturais e as mentalidades que permitem estas violações dos direitos humanos em larga escala? Comecei por esta pergunta o documentário. Eu e minha equipe viajamos por nove países coletando histórias para o filme.

Na Índia, deparamos com um cultura profundamente estabelecida de preferência pelo filho homem. A descoberta da epidemia de meninas desaparecidas e da drástica desproporção entre os sexos nos fez mudar de planos. Depois de conhecer as estatísticas da ONU que falam de pelo menos 200 milhões de meninas desaparecidas no mundo atual como resultado do ‘feminicídio’, investigamos o tema também na China. Ficamos estarrecidos. Poucos se dão conta do que parece ser o maior problema de direitos humanos do nosso tempo, e sem dúvida a maior forma de violência contra as mulheres no mundo de hoje.

Que práticas contribuem para o feminicídio?

A mentalidade de preferência pelo filho homem. Em culturas como da Índia e da China, a preferência por varões está respaldada por tradições seculares que dizem que os meninos são mais valiosos que as meninas. Só os meninos mantêm o nome familiar e herdam bens, ou realizam os últimos ritos dos pais quando eles morrem. As filhas se unem à família do marido quando se casam, já não sendo consideras mais parte da família de origem.

Na Índia, a preferência por meninos está também influenciada pelo costume do dote, pela qual as famílias frequentemente devem pagar grandes somas de dinheiro, dar ouro, terra ou outros bens à família do marido, quando a filha se casa. O custo de assegurar maridos para as filhas faz com que as famílias evitem ter mais de uma filha.

Na China, a política do filho único contribuiu para a eliminação de milhões de meninas nas últimas décadas. São os filhos que cuidam dos pais em sua velhice, enquanto as filhas seguem para a família do marido, como na Índia. Por isso, se uma família pode ter um só filho, está decidida a identificar o sexo na gestação e eliminar sistematicamente os fetos femininos.

No sul da Índia, escutar uma mulher relatar como ela mesma tinha estrangulado oito de suas próprias filhas recém-nascidas em sua busca pelo filho homem, foi para mim a entrevista mais impactante e difícil. Ela falava de uma forma tão natural, às vezes sorrindo, enquanto explicava como não poderia arcar com a criação de meninas, e dizia coisas como: “as mulheres têm o poder de dar a vida e o poder de retirá-la”.

Ela nos contou que tinha sido entregue em um casamento arranjado quando era jovem. Tinha 15 anos quando isso aconteceu, era boa estudante e tinha grandes projetos para o futuro. Mas foi entregue como segunda esposa do marido da sua irmã, porque esta não podia ter filhos. Ela então teria de dar um filho varão para o esposo.

Foi aí que o feminicídio adquiriu um significado novo para mim, porque percebi que ela era simplesmente um produto da cultura em que vivia. Esta mulher estava programada desde o nascimento para aceitar certas visões tradicionais sobre seu valor e seu lugar como mulher.

E a política do filho único na China?

A impressão que eu recebi após falar com ativistas e outras pessoas que trabalham para acabar com o feminicídio na China é que a natureza opressora e coercitiva da política do filho único é tremendamente impopular entre as mulheres chinesas. No entanto, elas não têm opção, devem se calar perante essa intromissão do governo em suas vidas privadas e não podem fazer nada contra o poder dos funcionários do Planejamento Familiar sobre os seus direitos reprodutivos. Quem se atreve a protestar ou se recusa submeter a essa política sofre duros castigos, que se estendem para os membros da família.

A Índia e a China precisam de ações governamentais, mas em sentidos diferentes. A China deve acabar com o planejamento familiar obrigatório. O governo indiano deve ser pressionado para que reforce as leis já existentes contra o dote, a seleção do sexo e o infanticídio.

Quais os objetivos de um movimento mundial para acabar com o feminicídio?

O primeiro é aumentar o nível de consciência sobre o feminicídio no mundo (cf.www.itsagirlmovie.com). Nossa esperança é de que haja mais mobilização. Até o momento mobilizamos 500.000 pessoas. Imagine se houvesse 10 milhões pedindo aos governos da Índia e da China justiça e igualdade para com as mulheres.

Afirma-se que o Ocidente esteja implicado no feminicídio ao promover o controle da população na Índia e na China.

Sim, o desequilíbrio de gênero na Índia, na China e em outras nações foi impulsionado pela pressão dos governos ocidentais e das ONGs de controle populacional. Para saber mais sobre isso, há um livro excelente de Mara Hvistendahl, “Unnatural Selection: Choosing Boys Over Girls, and the Consequences of a World Full of Men”.

Ainda que os desequilíbrios nas proporções entre os sexos nos países do Ocidente não sejam tão extremos como na Índia e na China, o feminicídio acontece em todos os países, em graus diversos.

(Originalmente publicado em MercatorNet.